Uma explosão de cores tropicais

Clovis Junior
Visitar o ateliê de Clóvis Junior equivale a um mergulho na temática cultural nordestina. As suas pinturas revelam os traços culturais do Brasil mais profundo e diversificado, marcados pela fusão das culturas trazidas pelos colonizadores portugueses com a dos escravos africanos e da população indígena nativa. Uma síntese do imaginário popular. Os elementos fundamentais desta mixagem permanecem vivos no cotidiano da população brasileira, particularmente a nordestina.

A obra de Clóvis Junior sintetiza tudo isso. Os personagens míticos e folclóricos ganham vida em suas telas. A literatura de cordel é uma de suas fontes de inspiração. Através dela, santos, anjos, folguedos e tradições seculares projetam o mundo fabuloso do imaginário do Nordeste brasileiro. É uma obra povoada de imagens fincadas no inconsciente coletivo e de criaturas religiosas extraídas das lendas e histórias contadas ao longo das gerações.

O impacto visual que o ateliê de Clóvis provoca espanto em quem o visita, sejam brasileiros ou estrangeiros; tanto que no verão de 2010, dois professores de língua portuguesa do Valencia College foram ao seu ateliê e ficaram extasiados com a singularidade e a riqueza de sua obra, com o grau de simbolismo nela contido e pela síntese da cultura brasileira que a sua arte exprime. Foi o começo de um intercâmbio cultural que se prolonga até agora.

O colorido acentuado pela luz cortante dos trópicos nos conduz para um mundo que não conseguimos visualizar no cotidiano, mas que está presente na essência de cada um de nós. As cores são muito intensas e brilhantes. As espécies vegetais e animais – bichos da terra, do ar e do mar – e as figuras míticas preenchem as suas telas e nos transportam para um universo fantasioso.

Falando sobre a obra de Clóvis Junior, o ator e diretor de cinema Matheus Nachtergaele disse: “Quando eu entrei neste ateliê, fui transportado do mundo real para um mundo aonde conviviam de um jeito surpreendente, uma tradição pictórica do Brasil, que tem a ver com os mestres nordestinos da escultura, da gravura, do desenho e do cordel, com um colorido que eu nunca tinha visto num artista brasileiro. Tem uma coisa meio Disneylândia no trabalho do Clóvis. É como se fosse a cultura nordestina pintada com as cores do mundo da fantasia Disney.”

A obra de Clóvis Junior não está tão longe da Disneylândia. Todos os anos, ele é convidado pelo Valencia College (Florida) para realizar oficinas, palestras e exposições para os alunos da universidade. Na apresentação do álbum que acompanhou a recente exposição nos campi do Valencia College, os professores Richard Sansone e Steven Cunningham escreveram a quatro mãos: “…O mestre Clovis causa um êxtase barroco em sua arte, uma arte que brilha com pássaros, animais, peixes, frutas, árvores e anjos que coexistem naturalmente em uma harmonia de cores brilhantes, cores impressionantes, mas que nunca chocam ou perturbam. A pureza da inspiração do artista passa por olhos sem fundo, através de curvas intermináveis, cores sem limites, e pacifica o espaço ao seu redor. Na arte ingênua do Mestre Clovis Junior há uma explosão de cores e criaturas que compartilham um ecossistema alegre e equilibrado".

*Este artigo foi publicado na Florida Review

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Nando Cordel no Caminhos do Frio

Nando Cordel em Bananeiras
O cantor compositor Nando Cordel encerrou com chave-de-ouro a participação de Bananeiras no programa Caminhos do Frio – Rota Cultural 2014.

A população acompanhou com empolgação os sucessos executados pelo cantor, numa noite animada com a temperatura ambiente em torno dos 18º C, que se aquecia saboreando as boas cachaças produzidas na região.

O programa Caminhos do Frio é uma ação do Fórum do Turismo do Brejo Paraibano. Os municípios que fazem parte do fórum situam-se numa privilegiada região serrana do Estado da Paraíba, com altitudes variando entre 500 e 700 metros, cujas temperaturas oscilam entre 12 e 18º C, durante a noite.

Além das temperaturas agradáveis, as cidades serranas apresentam vestígios arquitetônicos do apogeu econômico que a região experimentou durante o ciclo da cana-de-açúcar e, particularmente no caso de Bananeiras, do cultivo de café, que foi uma das principais fontes de riqueza do município, tendo sido dizimada em 1923 pelo fungo Cerococus paraibanensis.

Foi a atividade cafeeira que motivou a Great Westner a construir uma linha férrea até Bananeiras para escoar a produção do café, a mais de 500 metros de altitude, uma ousada conquista da engenharia para aquela época. Bananeiras produzia um milhão de sacas de café por ano e oferecia um café de alta qualidade, que rivalizava com o de São Paulo.

A vocação econômica de Bananeiras agora é outra. A bola da vez é o turismo. Os equipamentos já instalados na cidade apontam para um turismo de elevada categoria. Começando pela implantação do Condomínio Águas da Serra contendo o único campo de golfe da Paraíba, com 656 lotes e 120 casas construídas. O condomínio tem sistema de distribuição de água potável próprio, captado nas nascentes dentro do empreendimento.

O grupo empresarial liderado por Alírio Trindade, além do Condomínio Águas da Serra, ainda realizou um empreendimento de sucesso, o Caminhos da Serra com 196 lotes vendidos. Está construindo um shopping com 125 lojas, outro condomínio vertical com 102 apartamentos e já opera o Serra Golf Hotel com 55 apartamentos.

Um dos principais legados dos tempos do café se destaca pela bela estação de trem, com arquitetura britânica, que hoje abriga o requintado e acolhedor restaurante Estação Bananeiras. O Estação alia as linhas da estação original a uma arquitetura clean, com instalações transparentes na cozinha e moderno fluxo de serviços.

 

 

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Os encantos de João Pessoa

Quem chega a João Pessoa logo se encanta. A partir da praia de Tambaú, vê-se uma faixa de terra encimada por uma franja de mata nativa que define o altiplano do Cabo Branco. É a Terra fecundando o oceano Atlântico. Um lugar mágico que inspira os poetas e artistas locais. Naquele vértice, no ponto mais oriental das Américas, os paraibanos se projetam em seus sonhos plenos de lembranças ancestrais e os leva para mares longínquos, embalados pelos mantras, que soam dos coqueirais e das ondas do mar.

4 As cores de uma pintura abstrata, produzida pela natureza em milhões de anos, que o vento e as marés vão modificando com o passar do tempo.
Quando nos aproximamos desse monumento natural vemos o Cabo Branco como a ponta de uma flecha que penetra o oceano, nos surpreendemos pelos matizes cromáticos que a terra oferece com a força e a variedade das cores de uma pintura abstrata, produzida pela natureza em milhões de anos, que o vento e as marés vão modificando com o passar do tempo. O Cabo Branco é arte desenhada pela natureza, um encanto para os olhos e para a alma.

Mais do que esse presente que a natureza depositou nas terras paraibanas, solo da nação potiguara, vamos encontrar a luz tropical sempre presente, intensa e sedutora a convidar para um mergulho em suas águas tépidas, que adquirem uma coloração verde, da mais pura esmeralda, que contrasta com a pele bronzeada das belas mulheres paraibanas.

A cidade foi fundada às margens do rio Sanhauá, num recanto onde o rio forma um desenho que tem a força de uma logomarca territorial da cidade.
A cidade foi fundada às margens do rio Sanhauá, num recanto onde o rio forma um desenho que tem a força de uma logomarca territorial da cidade. A escolha do local para a fundação da cidade parece que obedeceu a um planejamento equivalente ao de quem esconde um tesouro ou de uma ostra que, com aquele formato esquisito,
abriga um dos mais belos produtos da natureza: a pérola. O lugar, hoje denominado Varadouro, é o berço da província. O seu casario composto de uma arquitetura eclética e neoclássica, com as ladeiras que levam ao topo da colina, que acolheu a primeira expansão da cidade, encerra um passeio inesquecível, cheio romantismo e história.

Nessa colina que foram edificadas as pérolas da arquitetura colonial. As quatro ordens religiosas deixaram um rico patrimônio arquitetônico na cidade. O esplendor dessa arquitetura alcança o apogeu no conjunto franciscano formado pela igreja de São Francisco e convento de Santo Antônio, um dos mais importantes monumentos da arquitetura barroca no Brasil. A construção do conjunto durou mais de cem anos e foi concluída 1788, mas valeu a pena.

Diante da igreja, o cruzeiro com catorze metros de altura, todo esculpido em pedra calcária, rodeado por pelicanos e águias bicéfalas, símbolo de casas monárquicas europeias, já alerta para a importância do monumento que nos espera. O adro em formato trapezoidal, todo pavimentado com grandes blocos de pedra calcária, tem 28 metros na entrada por 50 metros de comprimento, oferece uma visão em perspectiva da monumentalidade do edifício
.
Logo na entrada, nota-se a presença de esculturas de dois cães de Fó, uma das denominações chinesas de Buda, evidenciando a influência oriental na arquitetura barroca paraibana. O adro é protegido por dois paredões laterais, onde foram instalados nichos azulejados pintados com as imagens da via sacra. Esta é a cidade que lhe espera.

 

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A primeira lição

Após o breve início das chuvas brasilienses de outubro, a natureza se recupera da ausência do brilho colorido das flores de setembro. Não é uma simples recuperação. Nessa época, o ciclo natural apresenta outras manifestações que permitem a perfeita continuidade da estação anterior.

As flores viram frutos cujas sementes se multiplicam para ampliar a sobrevivência de cada espécie. As aves começam a alimentar os seus filhotes que procriam por todos os cantos da cidade. Olhar para Brasília, nesta época, é sentir-se dentro de uma diversidade natural tão rica como não se vê nas capitais nacionais em redor do mundo.

Brasília não tem apenas parques. Brasília é um parque. As aves ou árvores não foram reduzidas a ambientes restritos. Nas redondezas de cada apartamento ou casa do Plano Piloto se encontra rica variedade de fauna e flora. Além dos diversos tipos de sabiá, tem bem-te-vi, colibri, pássaro-preto, sanhaçu, rouxinol, quero-quero, tesourinha, asa branca, joão-de-barro, maritaca, coruja, gavião...

Eu vi uma cena inesquecível na SQS 205 envolvendo quatro criaturas: Um sabiá-barranco e seu filhote que ainda não voava; um filhote de pássaro-preto e um pequeno grilo verde.

Era como se o filhote de pássaro-preto estivesse em seu primeiro voo e tenha se perdido da família. Os pais de filhotes tão dependentes não se afastam deles. O seu voo era desequilibrado, eu percebi quando ele se atirou da direção do capô de um carro.

O visitante estava ali havia pouco tempo, mas ele já se mostrava muito faminto e, piando aflito, balançava as suas asas freneticamente para o adulto, como todos os filhotes de pássaros fazem para pedir comida. Para os filhotes de aves, o alimento tem que passar primeiro pelo sistema digestivo dos pais e só depois pode ser assimilado pelos organismos tão delicados.

O pequeno pássaro-preto ainda era dependente alimentar, mas apareceu com um grilo verde no bico para mostrar ao sabiá, mas ele tomou o inseto. Ele brigava pela posse do bicho. Era bico com bico. Em um momento, o filhote de pássaro-preto toma o grilo e fica sem saber o que fazer com aquilo, que ele já sabia que era comida, mas não podia comer. Ele acabou perdendo para o sabiá.

Em alguns momentos, ele parava e parecia não reconhecer o seu entorno; em outros, ele se deparava com o tamanho do filhote de sabiá e percebia que as asas dele não lhe permitiam voar. Ele não temia o olhar da câmara. Nesta época, Brasília torna-se um gigantesco berçário de aves.

A transitória convivência com aquela situação permitiu ao filhote visitante aprender que precisa ter garra e lutar pelo que precisa para o seu sustento.

Filhote de pássaro-preto aprende a primeira lição

 

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Tambaba, um paraíso ameaçado

Em algumas ocasiões, o Brasil segue na contramão. A questão ambiental é uma delas. Os recursos naturais eólicos são insuperáveis, com mais de nove mil quilômetros de costa atlântica, com ventos constantes que são subutilizados. E grande parte do país, como na região Nordeste, o sol brilha mais de 10.000 horas/ano e não existe uma política de desenvolvimento de energia fotovoltaica. A matriz energética brasileira é baseada nos derivados fósseis e nas grandes usinas hidroelétricas.

Não existe uma política eficaz capaz de evitar os desmatamentos e perseguir de uma forma enérgica quem põe fogo nas florestas amazônica e atlântica, por causa dos objetivos comerciais de extração de madeira e abertura de pastos para a criação de gado.

Sim, há leis, mas a sua aplicação é muito complicada pela estupidez financeira e a corrupção. Quem perde é a natureza e as futuras gerações de brasileiros.

Tambaba está localizada no município do Conde, a 30 km de João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, é um lugar paradisíaco, onde fica a mais conhecida e bela praia de naturismo do Brasil, que compõe a Área de Preservação Ambiental de Tambaba. A APA de Tambaba, com 14 mil hectares, está integrada entre três municípios: Conde, Pitimbu e Alhandra.

Em Tambaba existe a mata secundária mais densa de toda a APA, com dezenas de espécies vegetais próprias da Mata Atlântica, bioma brasileiro que resta apenas 5% da floresta original. Na APA de Tambaba vivem diversos tipos de animais autóctones: serpentes, jacaré, iguana, jaguatirica, raposa, cotia, guaxinim, coati, papagaio curica, papa-mel, seriema, jacu, tamanduá-mirim e outros animais em vias de extinção.

Amanhecer em Tambaba
Tambaba está envolvida em um ambiente mágico. Desde antes do descobrimento se praticava o culto da Jurema. Essa bebida cerimonial xamânica que leva a pessoa a um estado de percepção sensorial superior, como a ayahuasca, na Amazônia, ou o peyote, no México.

Cozinha-se a raiz da planta denominada jurema (Mimosa hostilis) e, com essa bebida, se obtém o poderoso neurotransmissor dimetiltriptamina, DMT, que é uma sofisticada estrutura química similar à serotonina, que permitia aos indígenas realizar a integração do homem com os espíritos. Nas pedras de suas praias ainda se realizam cultos para as entidades espirituais da floresta, é uma tradição que se pratica desde muitos séculos.

O culto da Jurema foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba como patrimônio imaterial da cultura local. A origem desse culto é o território da APA de Tambaba.

Entre as dezenas de espécies botânicas existentes em Tambaba há uma muito especial, que é o barbatimão (Stryphnodendron barbatiman), que era conhecido pelos primitivos habitantes do Brasil por “ibá timó”, que significa em tupi-guarani “árvore que aperta”, pois era usado pelas mulheres indígenas para acochar o órgão genital feminino. Algumas mulheres continuam usando o barbatimão para potencializar o prazer da prática sexual.

{arquivo}Um lugar tão precioso e delicado como esse se encontra em risco de extinção e destruição. Um grupo de empresários locais planeja construir um complexo turístico com quatro resorts, com 1.892 apartamentos, um campo de golfe com 18 buracos, quatro condomínios com 959 lotes para construção de residências, três pousadas, com 288 unidades habitacionais, três clubes, um centro comercial e estacionamentos com 1.400 vagas.

O complexo turístico ocupará uma área de 1.867.900 m², que destruirá todo o bioma de Tambaba, com um incremento populacional estimado em 8.800 pessoas, que corresponde a 41% da população municipal atual.

O projeto encontra-se em análise pelo órgão de regulamentação ambiental da Paraíba, Sudema (Superintendência de Administração do Meio Ambiente), com forte oposição de diversos organismos ambientais locais que não querem que uma invasão turística deste porte destrua um patrimônio natural com interfaces tão valiosas para a preservação ambiental, geográfica e cultural.

O complexo turístico apresenta uma arquitetura sem nenhum vínculo com a sustentabilidade ou o ecoturismo. Os empresários locais estão esperando uma decisão governamental favorável e divulgar os sócios europeus nesse empreendimento.

*Assine a Petição para proteger Tambaba.

**O jornalista Alberto Gayo, diretor-adjunto da revista Interviú, a mais importante da Espanha, publicou um artigo contundente sobre Tambaba, no qual ele evidencia o fracasso desses megaempreendimentos turísticos na Espanha.

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Olhos de Areia

O convite feito por Fernando Soares, para acompanhar um grupo de alunos de fotografia do professor Francisco de Assis Medeiros, em uma visita a Areia era irrecusável a quem tem o exercício fotográfico como extensão da alma. Eu sou assim.

Mesmo que a madrugada tenha sido de chuvas intensas, como é normal nesta estação, o dia amanheceu apenas nublado e partimos, em dois ônibus, para uma jornada promissora. Os ônibus subiam a serra lentamente serpenteando pela estrada estreita e perigosa, sem acostamento e tangenciando o perigo bem ali abaixo de nós.

O céu permaneceu encoberto durante o dia todo, mas em alguns momentos as nuvens mais baixas se dissipavam e dava para ver e registrar a beleza da paisagem na plenitude. A visão da Serra da Borborema é maravilhosa.

Serra da Borborema

A convivência com pessoas que compartilham o gosto pela fotografia é uma experiência muito agradável. As câmeras digitais facilitaram muito a vida dessas pessoas. Eu fiquei encantado ao ver jovens ou idosos descobrindo o mundo novo e extasiante da fixação das imagens, através da câmera. A fotografia congela o tempo, num processo mágico e revelador. Aquele ângulo selecionado e a determinação de disparar o botão é um momento decisivo. A imagem capturada nessas circunstâncias carrega o DNA de seu autor. É fabuloso.

É claro que eu já tinha visitado Areia algumas vezes, mas o excesso de fios e postes plantados diante do conjunto arquitetônico, que registram uma época de apogeu econômico vivido por aquela população, bloqueavam o meu interesse fotográfico. Entretanto, naquele passeio, a motivação viria das pessoas que estavam compartilhando essa experiência inusitada.

Percebi pela arquitetura e pela mobília das casas que o desenvolvimento econômico havia sido cristalizado no açúcar dos engenhos de fogo morto. Não resta nada daquela paisagem rural que os meus olhos conseguiram projetar no passado. As várzeas férteis do brejo não apresentam mais os sinais da pujança representados pelo Teatro Minerva - o primeiro da Paraíba-, construído com dinheiro das famílias mais ricas da cidade, pelo casarão do coronel José Rufino e outros ícones locais. Em outra oportunidade, eu percebi um desfile de pessoas ricas bengalas, como eu nunca havia visto antes. Todos muito elegantes.

Eu penso que Areia representa a cultura mais refinada que a Paraíba já teve e que sobrevive através de alguns gestos e no modo das pessoas mais tradicionais conversarem com visitantes.

*Publiquei um álbum no Facebook com as fotos desse passeio.

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Os segredos de Tambaba

Alvorada em Tambaba
São 32 km que separam João Pessoa de Tambaba, no município do Conde. Optamos pelo roteiro da Av. Cabo Branco. Do lado esquerdo a bela praia do Cabo Branco e do lado direito a falésia com a sua encosta coberta pela vegetação original. Essa franja que cobre o altiplano empresta ao bairro uma condição paisagística privilegiada, que por lei estadual proíbe que as construções verticalizadas interfiram na paisagem. A lei permite apenas construir prédios de quatro pisos na orla.

O Cabo Branco com as suas argilas multicoloridas absorve os primeiros reflexos do sol e nos devolve com todo o brilho e esplendor. Subimos a ladeira montada no cangote do cabo e logo se avista a Estação Ciência, Cultura e Artes, obra que se notabilizou pela autoria do arquiteto Oscar Niemeyer, à direita a Estação das Artes adaptação arquitetônica para abrigar as exposições que o projeto original não comportava e logo à frente a construção do Centro de Convenções da Paraíba.

Arca de Bilu
O percurso continua pela rodovia PB 08, batizada por Ministro Abelardo Jurema. Ao chegar a Jacumã, a paisagem luminosa da manhã fica totalmente azul. Aqui, a linha do horizonte divide o azul do céu do azul do mar. Fomos direto para Tambaba e recebidos por Bilu, fundador e proprietário da Arca de Bilu. Restaurante e Pousada. Bilu foi naturalmente assumindo a condição de orientador para compreender aquele universo encantado que nos envolvia com uma refinada energia. A Arca de Bilu é o portal de Tambaba.

Mulher naturista em Tambaba
Tambaba ficou famosa pela prática do nudismo autorizado por lei municipal. A praia está inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA) de Tambaba, com 11.320 hectares, criada pelo governo estadual para assegurar a preservação dos ecossistemas terrestres e aquáticos, que mantém estoques expressivos de indivíduos botânicos e animais da Mata Atlântica. A APA abrange as praias de Tambaba, Coqueirinho, Tabatinga e Praia Bela e as suas magníficas falésias.

Praia da Marcela
Nesse cenário ancestral que envolve Tambaba, um fator determinante para gerar o ambiente mágico, que assume os nossos corpos e mentes integrados com a natureza plena, vem do Ritual da Jurema. Um ritual sagrado que era cultivado pelos índios tabajara, que habitaram a região onde está a APA de Tambaba, eles eram imigrantes da foz do Rio São Francisco.

A maceração e o cozimento das raízes da jurema produz uma bebida alucinógena que eleva, segundo os seus usuários, a mente humana para contatos com as divindades da mata. Esse ritual ocorre apenas em datas especiais. Daí nasce o respeito e a convivência pacífica e harmoniosa entre todos os seres vivos, animais e vegetais.

As pedras de Tambaba representam os orixás e, no centro delas fica a pedra encantada, que é usada para a apresentação das oferendas aos caboclos da mata.

A preservação ambiental assegurada em lei nos impacta com paisagens espetaculares. Fizemos um percurso de 6.400 metros de caiaque pelo rio Graú. A beleza do percurso é impressionante. São mais de seis quilômetros de mangue totalmente preservado, as árvores com as suas raízes aéreas completam o ambiente de encantamento que Tambaba oferece.

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A marca da sustentabilidade

Lagoa do Parque Solon de Lucena
Ao anunciar a assinatura do convênio a ser estabelecido entre o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Caixa Econômica Federal e a Prefeitura Municipal de João Pessoa para implementar o programa ‘Cidades Emergentes e Sustentáveis’, o prefeito Luciano Cartaxo enfatizou que a marca da cidade, em seu governo, será a da sustentabilidade com a preservação da qualidade de vida.

Serão cem milhões de dólares a serem aplicados em setores previstos no programa que atendem às seguintes áreas: ambiental e mudanças climáticas; desenvolvimento urbano integral, incluindo as relações econômicas, sociais, mobilidade, transporte e segurança e, finalmente, o setor fiscal e governabilidade.

Esse programa se encaixa perfeitamente nas demandas de João Pessoa. A nossa cidade conserva um valioso patrimônio ambiental que não vem sendo tratado com a devida atenção ao longo dos anos e precisa estancar imediatamente a degradação, que vem sendo aplicada a essa riqueza natural da cidade.

O município de João Pessoa abriga mais de 1000 hectares de Mata Atlântica distribuídos entre a mata do Buraquinho, do Amém, da Fazenda Cuiá, da Fazenda das Graças e do Parque Arruda Câmara. O Rio Jaguaribe se insere nesse patrimônio ambiental com a força emblemática. É o rio que ganha visibilidade urbana a partir da mata do Buraquinho e da bela paisagem que margeia a BR 230, desde o campus da UFPB.

As pesquisas que irão orientar as diretrizes para todas as intervenções do Programa Cidades Emergentes e Sustentáveis poderiam incluir o Rio Jaguaribe como prioridade. O rio e as suas margens, com a população literalmente marginalizada, atende perfeitamente às definições programáticas no âmbito da sustentabilidade, da inclusão social e da segurança.

A expedição que realizamos recentemente a partir da nascente do Rio Jaguaribe só foi possível graças à escolta da Polícia Ambiental que nos cedeu dois policiais fortemente armados de modernas metralhadoras e poderosas pistolas automáticas. O Rio Jaguaribe precisa de uma intervenção radical e urgente. A quantidade de esgoto que se joga nele, desde a nascente, é inacreditável e aquela população parece que vive num mundo à parte.

O prefeito Luciano Cartaxo, além de nomear uma equipe que sabe dialogar e está cheia de vontade, já inicia o seu governo com a assinatura de dois importantes convênios. O Programa das Cidades Emergentes e Sustentáveis e o do Ministério das Cidades para o Parque Solon de Lucena, que será transformado definitivamente em parque. Os dois convênios juntos somam mais de R$ 250 milhões.

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Freio de arrumação

Palavras do papa Bento XIV sugerem que a igreja está envolvida em hipocrisia. "Penso em particular nos atentados contra a unidade da igreja e nas divisões no corpo eclesiástico", afirmou o papa, que acrescentou que é preciso viver a quaresma de uma maneira intensa, superando "individualismos e rivalidades".

Bento 16 também disse que Jesus denunciou a "hipocrisia religiosa, o comportamento de que buscam o aplauso e a aprovação do público".

"O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou ao público, mas ao Senhor, de maneira singela, simples e generosa", ressaltou o papa, que acrescentou que o testemunho do cristão será mais incisivo quanto menos busque a glória.

A renúncia dele ocorre em um momento muito especial. Na transição para a quaresma, quando a igreja inicia o rito que tem o apogeu na páscoa. Acontece que a páscoa é uma celebração religiosa que não segue o calendário gregoriano. Ela é comemorada no primeiro domingo após a primeira lua cheia, depois do equinócio de primavera, do hemisfério Norte. A Lua e o Sol estão presentes na celebração da páscoa. No contraste entre a luz e a sombra.

Nesse caso, o significado é para a presença da luz -da lua cheia-, mesmo quando há sombra. É o recomeço de tudo, o reinício da temporada da semeadura. A páscoa sintetiza essa perspectiva de renovação: a sombra que encontra a luz.

Outras comemorações da igreja estão atreladas ao movimento da Terra em torno do Sol. O nascimento de Jesus remete ao solstício de inverno. A data foi escolhida pela igreja para coincidir o nascimento de Jesus com o auge da escuridão, com o inverno que inicia em 21 de dezembro.

Outra data importante é a comemoração de São João, em oposição ao nascimento de Jesus. João foi o apóstolo que disse que ele diminuía, enquanto Jesus crescia. Esse simbolismo é fundamental e atribuiu-se o nascimento de João oposto ao de Jesus, no solstício de verão. A igreja foi esperta esse tempo todo, mas a renúncia Bento XIV surge como um freio de arrumação nessa viagem maluca de dominação secular. Chegou a hora da igreja purgar os seus próprios pecados.

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Cenas medievais

Foi uma viagem através do tempo. A linha que divide esses tempos é um muro entre a Rua Bartira, no Rangel e as terras do 15º Batalhão de Infantaria Motorizado, mais conhecido pelo nome antigo: 15RI. Ao pular aquela fronteira, de volta à civilização, depois de nos perder pela mata que ainda resta em volta do rio Jaguaribe, senti que estive em algum ambiente medieval. 

Charco
Eu nem imaginava que isso pudesse ocorrer. Simplesmente eu atendi a um convite, no Facebook, para fazer uma trilha a partir da nascente do rio Jaguaribe. Não importa de quem teria partido esse convite, ele era irrecusável. O percurso começou no posto de gasolina situado em frente ao Makro, na BR 230. Éramos mais de vinte pessoas indignadas com o trato ao rio Jaguaribe, que já havíamos observado. Exceto Marcus Vilar, Escurinho, Paulo Vinicius Caetano, Edilson Parra, acompanhado da esposa e eu; os outros eram todos jovens.

Íamos entrar em uma área de alto risco, passando pelo meio de favelas que registram elevado nível de violência e estávamos escoltados por quatro policiais da Polícia Florestal, armados com modernas metralhadoras e poderosas pistolas. Tive a sensação de que ia entrar em um território alheio, em um país estrangeiro, mas descobri durante o trajeto que estávamos mergulhando em outro tempo. Era como se estivéssemos caído em algum lugar da Idade Média, pelo baixo nível de salubridade que o rio apresenta.

Participantes da caminhada
O rio Jaguaribe nasce muito frágil, ali mesmo ao lado da estrada, pouca água, apenas um charco que vai conduzindo a água na direção Norte. Nos primeiros 500 metros não há nenhuma intervenção de destaque. A creche Alaíde Alves de Araújo Faustino marca a primeira agressão física ao rio. A construção invade o seu leito. A partir daí, os esgotos começam a ser jogados diretamente no rio. Logo, a contribuição de esgotos supera a quantidade de água que vem dos olhos d’água, que alimentam esse precioso patrimônio ambiental da Cidade de João Pessoa. A catinga que domina o ambiente torna-se insuportável a cada passo que damos, particularmente, quando passamos próximo às carcaças de animais que são abatidos ou atirados ao rio.
Carcaça de animal

Lixo e esgoto
O leito do rio transforma-se em depósito de lixo.  Joga-se no rio tudo que é descartado. A paisagem muda drasticamente, o rio vai sendo sufocado por lixo e esgotos. É horrível.

Água cinzenta
Eu já vi água que apresenta colorações variadas nos mares e em rios de outros países por onde andei. Incolor, violeta, azul, verdes em tons diversos, dependendo da concentração de material orgânico que a água contém. Eu nunca tinha visto água cinzenta, mesmo no rio Tietê, que é um dos símbolos brasileiros de agressão ambiental. O rio Jaguaribe supera o Tietê, o que é uma vergonha para a nossa cidade. Os moradores das casas por onde passa o rio pertencem a um mundo distante do nosso, resultado de políticas separatistas que impedem o acesso de uma parte significativa da população à riqueza gerada por todos, inclusive por aqueles que vivem ali, mas não recebem a parte que lhe cabe desse bolo econômico.

Os soldados comentavam sobre o risco que eles e nós corríamos ao atravessar aquelas comunidades. Um deles disse que os coletes de proteção são de efeito psicológico, pois eles atiram na cabeça. Não houve incidentes, exceto uma abordagem a dois rapazes que passaram de moto e um deles, segundo o policial que tomou a decisão, apresentava um volume suspeito sob a camisa. Nada foi confirmado, era apenas uma justificável medida preventiva.

Colorido das flores
Aos poucos a gente vai percebendo que a vida aquática desaparece. Não se vê mais os pequenos peixes que apareciam nas proximidades da nascente. Em contraste com aquela violência, uma agressão sem precedentes, a natureza persiste em mostrar o poder da beleza no ambiente vegetal e esbanja cores em forma de flores em suas margens. A paisagem florida atenua a brutalidade que se vê no tratamento ao rio. É a natureza que insiste em ser bela. 

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