Meu único sócio

Quando a legislação eleitoral facultou espaço radiofônico a partidos e candidatos, para ser ouvido no brejo, tinha que me servir da Radio Constelação, iniciativa de Zenóbio Toscano, ainda no nascedouro. Não sendo pouco o deslocamento para Guarabira, se acresça ao sacrifício a ladeira mais íngreme da cidade onde eram localizados os estúdios e transmissores. O programa era enviado em fita cassete com a fala dos majoritários e dos candidatos às eleições proporcionais. Era o trabalho do partido. O meu era enxertar na fita do programa diário a minha mensagem, o que era repetido por Zenóbio e Maranhão, o nosso federal. As fitas se multiplicavam e chegavam às emissoras de Guarabira, à Radio Serrana, de Araruna e Integração, de Bananeiras. Esta ultima propriedade dos meus adversários e onde era proibida a minha entrada.


Diante desse cenário passei a lutar para adquirir a minha própria emissora de rádio. Acionei o Ministério das Comunicações e o prestígio de Humberto Lucena conseguindo que se abrisse o edital para uma emissora em Solânea. A nova rádio denominar-se-ía Correio de Moreno, em homenagem ao antigo Distrito.


Quando já estava encaminhando a formação social da empresa que concorreria à concessão, Humberto Lucena me participa que o deputado José Maranhão, que mais tarde Duda Mendonça transformaria em Zé, desejava participar da sociedade. Ponderei que ele já tinha uma emissora em Araruna, me contrapondo ao argumento de Humberto: “ele foi majoritário em Solânea e não deseja ficar fora do empreendimento”. Acatei meu novo sócio diante do argumento irrespondível de que ele tinha dinheiro e eu não dispunha dos recursos para o investimento.

Dividimos a empresa em quatro partes com quarenta por cento para cada um de nós e os vinte restantes divididos entre uma sobrinha de Maranhão e o então prefeito de Borborema, Amâncio Ramalho. Constituída a firma o projeto foi engavetado. A Radio Serrana perdeu sua concorrente e a Radio Integração a sua oponente.


A sobrinha de Maranhão passou em um concurso federal e me procurou para concordar com a sua retirada da empresa. Assinei os papeis necessários. Amâncio Ramalho faleceu deixando o problema para Formosina, sua viúva. Solânea continua sem a sua emissora de radio e eu, continuo sócio de Zé, ( Ah!. se fosse nos bois do Tocantins...) uma vez que até hoje a Radio Correio de Moreno não morreu perante a receita federal.


E enquanto permaneço sócio indesejado de uma rádio inexistente, fico impedido de tirar certidão negativa na Receita Federal. E assim termina a minha única experiência empresarial.(Republicado por conta da minha labirintite)Em tempo:Graças ao Sistema Correio da Paraíba, Solânea hoje possui a Radio Correio da Serra.


A QUESTÀO- O comerciante José Brasiliano da Costa estabelecido em Borborema, resolveu abrir uma janela para um terreno de propriedade do dr.José Amâncio Ramalho. Este entrou na Justiça e o juiz de Bananeiras, dr.Mario Moacyr Porto lhe deu ganho de causa, mandando fechar a janela. Brasiliano recorreu ao Tribunal de Justiça e ganhando o recurso, reabriu a janela. Zé Amâncio foi ao Supremo Tribunal e lá, teve reconhecido seu direito e a justiça mandou fechar a disputada janela. Brasiliano estava cumprindo a sentença e fechando a janela, quando chega o Zé Amâncio e o aborda:


- Eu não disse que você não tinha o direito de abrir essa janela?
- Pois é, eu perdi e estou cumprindo a decisão da Justiça, respondeu conformado o comerciante.
E quando pensava que Zé Amâncio fora debochar da sua derrota, ouviu dele, surpreso, sua própria sentença:
- Agora você pode abrir a janela. Eu só queria provar que você não tinha direito.


E continuaram bons amigos! ( Do livro EM PROSA E NO VERSO)


É hora de dar um basta

Houve uma euforia sem precedentes quando brasileiros de todas as idades ganharam as ruas com cartazes e deram seu recado. Em meio à multidão, havia até quem não soubesse por que estava ali, mas estava. As manifestações, sem dono e sem líderes, aproveitavam o momento em que as lentes do mundo estavam voltadas para a pátria de chuteiras. Era a Copa das Confederações. Pediam-se escolas, postos de saúde e serviços públicos nos mesmos padrões exigidos pela FIFA, que dita as normas no esporte bretão e os governos das sedes dos eventos mansamente obedecem. Pelo meio, um cartaz exigia a volta das tomadas de dois pinos... mas isso era a exceção.


Protegidos pelo pacifismo dos manifestantes, surgiram os primeiros gestos de violência. A polícia, temendo a criminalização da sua ação, correu, afastou-se, e os policiais que se arriscaram a usar balas de borracha ou gás de pimenta, terminaram por ser investigados e processados. De lá para cá, não pararam mais. No Rio e em São Paulo, outros motivos surgiram. O mais recente, envolve os professores cariocas insatisfeitos com o seu plano de cargos e salários. Pedem o governador fora do cargo, e que o prefeito os deixe em Paes, em infame trocadilho com o nome do soba guanabarino.


Não há quem me tire da cabeça que os manifestantes não se ofendem com a presença dos mascarados. Não participam dos atos de violência, mas se acomodam com o que assistem e, muitos deles, participam das hostilidades aos policiais. Na verdade, a polícia deveria estar na área, para proteger o evento e os que dela compartilham, para usar a linguagem do facebook, um dos veículos de convocação da massa, nos dias atuais. Quando são assediados pela imprensa, as lideranças improvisadas protestam contra os atos de violência e os repudiam. Os detidos são encaminhados à policia. Antes que cheguem à presença do delegado de plantão, se são oito os detidos, são dez os advogados para soltá-los.


Agora qualquer protesto vira baderna e a televisão se refere a protesto pacífico. Não concordo com a junção dessas duas palavras. Se é protesto, não pode ser pacífico. O protesto já indica uma reação de força, uma emissão do inconformismo retido e que se libera em atos e gestos enérgicos. Quem cobre o rosto para participar de uma passeata, não está bem intencionado. O anonimato infunde coragem ao agente lesionador do patrimônio publico ou privado. Os martelos, as marretas, os aríetes, não se encontram nas ruas. Quem chega à rua, mascarado, já chega com seus instrumentos badernistas, como diria Odorico Paraguassú,criação imortal de Dias Gomes.


As cenas que vislumbramos diariamente pela televisão, e ainda bem que estamos longe delas, incomodam o cidadão e perturbam a vida política e social do País. Até quando assistiremos de mãos atadas ao quebra-quebra das casas bancárias, dos caixas eletrônicos e das casas comerciais? A única diferença de quem destrói o caixa eletrônico perante a TV e aquele que bota dinamite nas caladas da noite, é que este leva o dinheiro espalhado com a explosão. Ambos são criminosos e existem leis para puni-los igualmente.


Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil da Copa e das Olimpíadas. Chegou a hora de reagir contra esse clima de violência que assola, principalmente, o sul maravilha. Separemos o joio do trigo. É hora de dar um basta!


Quem Paga a Lanterna?

A palavra da moda é mobilidade urbana. Antes se falava em fluxo de veículos, dificuldades de acesso, problemas de deslocamento. Tudo isso virou uma palavra chave:mobilidade. A construção de um sistema viário que evite a paralisação do trânsito com desperdício de tempo e combustível, além de não acabar com os nervos do motorista, se enfeixam no contexto de mobilidade. Esse é o grande desafio das cidades, em qualquer parte do mundo, talvez não em Cuba, ainda usando os poucos veículos produzidos na antiga Rússia, sem peças de reposição.Onde a industria automotiva ganhou corpo, as ruas incharam, com os veículos se arrastando.


A opção pelo automóvel, entre nós, começou na era JK. O automóvel fabricado no Brasil precisava de estradas de boa qualidade e elas foram surgindo. Enquanto as BRs surgiam, os ramais ferroviários eram apontados como deficitários, e em seguida, desativados. Essa conta fica para o Juarez Távora, antigo tenente de trinta e general do regime de 64. Segundo as estatísticas, só nos últimos dez anos, a frota de veículos no País cresceu mais de 400 por cento. E depois que desoneraram o automóvel da incidência do imposto (IPI), mantendo preços estáveis e tornando-o acessível a maior numero de brasileiros, ficou difícil dirigir. Nesta Cidade das Acácias, pior ainda.Um gerente de banco de origem sulista, me definiu essa dificuldade: “para onde eu vou, todo mundo vai... Tanto faz ir para a praia como para a zona sul”. E agora não tem hora melhor.Tá tudo dominado pelo excesso de veiculo e escassez de espaço.


A mídia nos dá noticia de que estão em andamento projetos que pretendem modificar a face da cidade. Se promete a implantação de sistemas sobre trilhos (VLTs) ou ônibus de alta capacidade e velocidade (BRTs) além da integração desses braços de transportes, até com ciclovias.Tudo muito bonito e projetado.Na verdade se faz uma meia-sola no final da Epitácio Pessoa e se anuncia o mesmo no inicio da Beira-rio, duplicação no Altiplano do Cabo Branco e Cruz das Armas. Um realinhamento de tráfego nos Bancários e na Lagoa, e um Viaduto no Geisel e outro em Mangabeira. Há medidas projetadas para aliviar o tráfego, facilitando a condução de veículos de pequeno porte ou atraindo o usuário para o transporte coletivo. De concreto, até agora, só vejo a redução do canteiro central da Epitácio e inicio de obras em Cruz das Armas. Mas tenho esperança de ver muito mais do que as promessas de liberação de recursos do Ministério das Cidades.


Preso no trânsito há algumas horas, me deram noticia de um acidente mais na frente. Não há pessoas vitimadas, apenas danos materiais aos veículos. Pela lei, os avariados deveriam ser retirados do eixo da avenida e, lá fora, seria resolvido quem pagaria o prejuízo de quem. Com a faixa de rolamento reduzida à metade, diminui a capacidade de deslocamento. Imaginem o cenário que vemos várias vezes por dia.Descem os motoristas dos veículos sinistrados e passam a discutir seus direitos. Cada um com sua razão.Chegam os peritos e a discussão se renova na presença da autoridade,cada um querendo impor sua versão. Passadas algumas horas de sofrimento para todos que esperam o desfecho da querela, o fluxo se alivia.Quando passo pelos veículos engatados, identifico os danos e a alegria de quem recebeu o impacto por trás. O culpado resolveu pagar a lanterna quebrada...


Idoso de carteirinha

 Acabou-se o tempo em que o idoso era reconhecido e respeitado pelos cabelos brancos. Dirigindo um veículo, ao estacionar em um dos espaços reservados para uma pessoa idosa, você terá que exibir o seu “diploma de velho”. O órgão municipal de trânsito que loca as vagas, também se encarrega de emitir o seu certificado de velhice, inclusive, com prazo de validade de dois anos. A validade é uma prova de que o órgão de trânsito não confia na sua longevidade. Você terá que voltar no final do prazo para provar que continua vivo. Descobri tudo isso quando saí do veículo e procurei pagar a minha taxa de permanência. Minha identidade não valeu. Muito menos os cabelos bancos ou os gemidos que dei quando alonguei a coluna. Eu não requeri o meu diploma de velho. Ainda não sou um idoso de carteirinha.


Para entrar em espetáculos, eu já sabia que tinha direito a um abatimento. Na fila, ganhei prioridade no atendimento, junto com deficientes, gestantes, lactentes e mulheres acompanhadas de crianças. No transporte coletivo, a gratuidade me é conferida mediante a apresentação de qualquer documento que comprove a idade, assim determina a lei. Demandando na Justiça, meu processo passa na frente dos outros e até para receber precatórios, levarei vantagem. Para estacionar, porém, nas vagas especiais, preciso de um certificado que nasceu de uma resolução do CONTRAN,segundo está expresso no documento.


Mesmo portando o diploma de idoso, o idosorista, ou idoso motorista, somente fará jus ao beneficio se preencher as seguintes condições: colocar o “diploma” sobre o painel do veículo com a frente voltada para cima, e apresentá-lo às autoridades ou agentes que o solicitarem. Mas não se pense que ser velho e diplomado garante tranqüilidade. O “diploma” também sofre a ameaça de ser suspenso ou cassado, a qualquer momento, a critério do órgão de trânsito. Basta que o portador pratique as seguintes irregularidades: empreste seu diploma a terceiros; utilize cópia do documento, obtido por qualquer processo; apresente o certificado com rasura ou falsificado; e, use-o em desacordo com as disposições nele contidas ou com o prazo de validade vencido. Infringir quaisquer desses pecados relacionados no verso do edito, implica em medidas administrativas, penalidades e pontuação prevista em lei. Obedecendo ao que foi acima exposto, você pode se considerar um velhinho diplomado e entrar e sair a qualquer hora do estacionamento que lhe foi reservado. Caso seja um idoso rebelde, ainda com força para reagir à burocracia oficial, pode se considerar um velhote cassado.


Outro aspecto a analisar, aborda o mérito das reservas de estacionamento. Há uma distinção entre idosos e deficientes. Foi justamente no Estatuto do Idoso que o legislador estabeleceu uma paridade de tratamento, alterando lei anterior e definiu: “ as pessoas portadoras de deficiência,os idosos com idade igual ou superior a 60 anos, as gestantes, as lactentes e as pessoas acompanhadas de crianças de colo terão atendimento prioritário nos termos desta lei”( Lei 10.048/2000). Para o legislador, todos são iguais em suas desigualdades. Quem disse que falta deficiência ao idoso?


Meu espaço está acabando, por isso vou ilustrar com a definição de escachado jornalista que conta com muito humor: quando chegou a João Pessoa vindo do sertão, trazia quatro membros moles e um duro. Hoje, carrega quatro membros duros e um mole. A artrite reumatóide e outros males transformam o idoso em perfeito deficiente. E para isso não precisa que nenhum ente público expeça diploma. A mãe natureza se encarrega disso.


Antônio, só no papel

ANTONIO, SÓ NO PAPEL

Não sei por que botaram Antonio no seu nome.Se foi promessa ao Santo, cuja mãe era devota ou homenagem ao Tenente de Trinta, que o pai admirava. Conciliados, batizaram-no de Antonio Juarez Farias, na pia da Igreja de Cabaceiras. O Antonio só durou enquanto foi “Toinho”, operador da única máquina de escrever do Cartório local.Quando ascendeu a escrevente de cartório em Campina Grande, nasceu o Juarez que ganharia o mundo e se tornaria um exemplar servidor publico do Brasil e da Paraíba.


Semana passada, contrariando suas ordens, alguns amigos foram reunidos para um almoço de confraternização. Estava proibido discurso. A emoção está à flor da pele nesse paraibano de oitenta anos. Juarez Farias preside hoje o que denominei de Confraria dos Cabelos Brancos e que, vez por outra, em seus almoços da sexta-feira, aceita convidados mais jovens que se deliciam com a narrativa dos fatos vivenciados pelos comensais. Têm cadeira cativa nessa academia sem eleição e sem normas, o próprio Juarez, Luiz Nunes, Evaldo Gonçalves, Arnóbio Viana, Gleryston Lucena, Rafhael Carneiro Arnaud, Geraldo Almeida, Osvaldo Trigueiro do Vale e, este que vos fala.

Eventualmente, Aracilba Rocha, Fernando Catão e João Fernandes. A pauta é livre mas inclui a vedação expressa de comentários sobre os exames de saúde dos que estão ao redor da mesa. A saúde dos ausentes, pode ser...
Proibiram discurso de saudação aos oitenta anos de Juarez, mas não estou impedido de dizer neste espaço o orgulho que sinto em ser seu amigo. Saído de Cabaceiras, mesmo Campina sendo grande, foi pequena para os seus vôos. Esteve por lá até que apagaram a estrela nascente de Feliz Araujo. Depois, um concurso colocou-o no Banco do Nordeste e sua competência levou-o à SUDENE, à diretoria do BNDES, do BNB, do Banco Nacional de Habitaçao-BNH e ao Governo da Paraíba. João Agripino fez dele seu Secretário de Planejamento e a Assembléia Legislativa o elegeu Vice-governador. Esteve no exercício do cargo de Governador por várias vezes. Ronaldo Cunha Lima o trouxe de volta à Paraíba. Foi convocado para o Tribunal de Contas, onde se aposentou depois de presidi-lo.


Nenhum paraibano vivo, merece mais que Juarez Farias ser homenageado pelos serviços prestados ao seu Estado e ao seu País. Suas ações reclamariam mais espaço. Lembro algumas: para ir ao Banco Mundial e negociar com os gringos o dinheiro do Anel do Brejo, Agripino mandou Juarez. Para arrancar do regime militar a pavimentação da BR-230 até Cajazeiras, lá estava Juarez com as justificativas econômicas da obra. Hermano Almeida,prefeito de João Pessoa,obteve recursos para asfaltar o Bairro de Manaíra que Dorgival Terceiro Neto deixara no Retão.Quem estava no BNH e inventou o Projeto Cura? Preciso dizer que foi também pelas mãos desse imortal da nossa Academia de Letras que o Brasil se encheu de conjuntos residenciais a acolher milhares de sem-teto? Quando Celso Furtado aceitou a SUDENE tinha uma meta: mudar tudo no nordeste. E para isso, trouxe Juarez de volta à região. O novo nordeste pós SUDENE tem também a sua marca.


Aposentado, cercado dos amigos e da família que é seu orgulho, o Juarez oitentão lembra tanto o general homônimo descansando de grandes batalhas quanto o Santo de Lisboa, o maior intelectual da Igreja, no seu tempo. Se o Antonio de Juarez ficou apenas no registro,e ninguém assim o chama, o Santo não pareceu magoado. Demonstrou sentir orgulho do seu afilhado, não lhe negando proteção durante toda sua vida lutas e vitórias.

 


Dunga de volta

O gordinho de maior jogo de cintura que já conheci, está de volta. Para quem começa a vida como caminhoneiro, sentar na cadeira de governador do seu Estado, mesmo por poucas horas, enobrece o curriculum. Quem pensou que ele tinha virado peça da nossa história, pode tirar o cavalinho da chuva. Carlos Marques Dunga, ou simplesmente Dunga, prefeito, deputado estadual e federal, suplente de senador, está de volta à Assembléia e vai dar o que falar.

No penúltimo dia do seu governo e também da minha condição de Lider, Tarcisio Burity mandou me chamar e passou a missão:“Procure Dunga e diga que venha assumir o cargo de Governador. É ele que vai transmitir o Governo a Ronaldo”. E assim foi feito.

Eleito entre os nove deputados da bancada governista, a maior delas, do PRN de Burity, Dunga granjeou a simpatia dos seus companheiros e foi eleito Presidente. Nessa condição daria posse ao novo governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima. Em suma, de chegada, levou os votos do governador que saía e os votos do governador que entrava.

Atuando, principalmente, na área de influência do Município de Boqueirão, não se saiu muito bem nas ultimas eleições municipais. Julgo que sua posição na eleição de 2010 o tenha prejudicado. Votou em Ricardo, Cássio e Vital, além de Nilda Gondim para deputada federal. Essa mistura de nomes associada a uma sopa de letras de vários partidos, pode não ter sido bem entendida na eleição seguinte. Eu mesmo, que era candidato a suplente de Efraim Morais, quando instado a ajudá-lo na sua eleição de deputado, neguei-me a fazê-lo, justamente por que ele não estava votando em Efraim, e, em conseqüência, rejeitara meu nome, que compunha a chapa majoritária. Soube que ficou magoado... Mas já fui perdoado, pois ele não é de guardar ódio nem rancor.

Traído pelo tamanho da legenda, perdeu parte do mandato e já entra na Casa de Epitácio na sua segunda metade, depois de vencer uma batalha judicial que dependia da validade de votação alheia. Com a validação desses sufrágios, foi recomposta a totalização da sua coligação e alterado o quociente partidário. Ganhou o mandato e agora ninguém lhe segura. Sua região tem novamente representante à altura.

Devoto de Padre Cícero desde os tempos em que enchia um pau –de- arara de romeiros e os conduzia ao Juazeiro, Dunga costumava anualmente revisitar o “santo” cearense e agradecer as graças alcançadas. Por certo, voltará agora aos pés do seu “Padim” para contar o milagre de ressuscitar na política, e, na sua fé, haver superado os obstáculos que colocaram no seu caminho.

Um episódio dos idos de 1988 marcou a minha avaliação sobre seu companheirismo e solidariedade. Os servidores públicos em greve invadiram o Plenário da Assembléia e eu, como Líder do Governo, era o principal alvo da irritação dos barnabés. Infiltrado entre eles, uma turba dava sinais de aguerrida e violenta. Dunga me puxou pelo braço e indagou: “Estás armado?” Respondi que não andava armado... E ele apreensivo: Esse movimento é contra você também. Tome cuidado!

E a partir de então, passou a proteger o meu magríssimo esqueleto com o seu corpão de muitas arrobas. É esse o Dunga que o Parlamento tem de volta.


A seca e a falta de leite

A seca e a falta de leite 2
Nascido e criado no brejo, tinha noticia da seca no sertão, quando grupos de homens, mulheres e crianças, maltrapilhas e famintas, chegavam dia de feira em busca de alimento, tangidos pela inclemência da estiagem. Esse cenário remoto pode ser revisitado hoje, apenas nas paginas de A Bagaceira, com as tintas da tragédia pintada por Jose Américo de Almeida. As invasões às cidades e os saques às feiras livres e ao comercio foram contidas pela politica social do Governo Federal, que, se não resolve o problema da subsistência humana, pelo menos ameniza a fome e acalma a quem tem sede. Nessa hora de aflição, bendita Bolsa Familia...


Dizem os especialistas que acompanham a reincidência do fenômeno climático que este ano estamos assistindo a maior seca de todos os tempos. Na boca de quem sofre, o panorama mais grave é sempre aquele que se está vivendo. Todos sabem que o fenômeno se repete ciclicamente, e mesmo assim, avisados previamente, a cada crise, o homem do campo se depara com os mesmos problemas e reclama as mesmas soluções, sejam transitórias ou definitivas. Quase sempre, surgem as paliativas...


{arquivo}Por conta da seca surgiu o IFOCS, depois o DNOCS, a SUDENE e o BNB e mais recentemente um Instituto do Semiárido que se instalou em Campina depois de muita disputa regional, mas que ainda não se sabe a que veio. Desde Pedro II, que prometeu vender as joias da Coroa, passando por Médici e chegando a Lula e Dilma, mudaram as pessoas mas o sofrimento continua o mesmo. As frentes de emergência foram transformadas em Bolsa Estiagem mas as obras estruturantes que permitiriam ao nordestino sobreviver à seca, continuam em berço esplendido, a exemplo da transposição de aguas do São Francisco para estas bandas.


Essas constatações abalaram minha tentativa de convencer produtores de leite da agricultura familiar a refazer sua parceria com o Governo Estadual visando restabelecer a entrega de 120 mil litros de leite diários a famílias em risco de segurança alimentar. Ouvi relatos constrangedores e criticas contundentes. Infelizmente só ouvi verdades e tenho certeza que muitos não revelaram todo seu padecimento. Julguei que desviavam o produto dos seus rebanhos para outros compradores e descobri que muitos, nem rebanho têm mais. A estiagem transformou em deserto chiqueiros e currais.


O governo lançou programa de distribuição gratuita e venda subsidiada de ração animal. Bem alimentado, o que sobrou do rebanho pode produzir mais leite e abastecer o programa Leite da Paraiba. Mas também foi dito que muitos produtores não puderam atender à nossa convocação por absoluta falta de meios para o seu deslocamento. Alegam que, descapitalizados, não podem nem mesmo arcar com a metade do pagamento da ração. E fulminaram: nós confiamos no governo e entregamos nosso leite para receber não se sabe quando... O governo não confia em nós, temos que pagar adiantado para alimentar nossas cabras...


Essa queixa nos levará à procura de uma solução que garanta a quem tem contrato de fornecimento de leite ao programa, a certeza de que seu rebanho não morrerá de inanição. A confiança terá reciprocidade.


Ronaldo e o sacerdócio

 Ouvi no programa eleitoral de um candidato a prefeito que ele ” fazia da política um sacerdócio, não um balcão de negócio”. A frase foi citada sem atribuir a autoria ao poeta Ronaldo Cunha Lima, que nos deixou recentemente. O plágio e a falta de ética me incomodaram. O fato me fez lembrar que devia aos poucos leitores meu depoimento sobre a convivência com o poeta. Havia sem duvida uma afinidade entre nós, explicitada certa feita pelo filho Cássio: o seu estilo se aproxima mais de Ronaldo que de mim..


Quando prefeito de Campina e nas suas vindas à Capital, era eu um dos seus companheiros de tertúlias poéticas e noitadas intermináveis no Elite Bar. Seu cunhado Ernani Moura era meu vizinho e de repente, entravam os dois pelo meu terraço:


- Ramalhinho, vamos cumprir nossas obrigações alcoólicas...Era o poeta me apressando, pois, na praia, já nos aguardavam Jório Machado, Edvaldo Motta e Orlando Almeida.


Como sempre, o papo era mil vezes superior às doses ingeridas. O encontro valia pela conversa, a revisão política dos fatos e os projetos futuros que todos nós haveríamos de nos engajar. Fui com Humberto Lucena e estive presente à famosa reunião no quarto de Raymundo Asfóra, quando o jovem Cássio transmitiu a decisão de Ronaldo de permanecer até o final do seu mandato, prefeito de Campina. Foi o Dia do Fico de Ronaldo e do nascimento de Raymundo Lira, que tomaria seu lugar na chapa de Senador.


No segundo turno da sua eleição para Governador, comemorava o meu aniversário quando entra Ronaldo e sua alegria, Ernany à tira colo. Já foi recebido com as suas musicas de campanha Ajudei-o na vitória em todos os municípios onde tinha influencia. O destino nos afastou por um tempo.Nos reencontramos e reatamos a velha e adormecida afeição. Tive o prazer de contribuir para a sua eleição de deputado federal, a ultima que disputaria, para completar todos os diplomas que a justiça eleitoral pode conceder ao cidadão,no seu Estado.


Sem dúvida que a política para Ronaldo era um sacerdócio. Para ele, valia muito mais as amizades do que os votos. Milhares não votavam nele, mas lhe devotavam sentimento de admiração e apreço. Esse sacerdócio, exercício de poucos políticos neste País patrimonialista, deve ter tornado Ronaldo um homem rico de afeto, porém, sem bens a transmitir. Está entre os poucos políticos que não têm inventário a fazer. Quando muito, seus bens merecem um arrolamento.


Para Ronaldo Cunha Lima, o “faço política como sacerdócio e não como balcão de negócio”, não era apenas uma rima, mas um mandamento da vida pública.


ESPINHA DE BACALHAU

 Segundo a imprensa especializada, pois de musica entendo muito pouco, foi sob esse titulo que o maestro Severino Araujo de Oliveira compôs o seu chorinho mais famoso, ai pelos anos de 1937 quando era primeiro clarinetista da Banda de Musica da Policia Militar da Paraíba. Egresso do vizinho estado do sul, onde nascera, na cidade de Limoeiro, aprendeu com o pai os primeiros passos da musica e ainda criança se fez instrutor dos alunos do maestro Cazuzinha. Severino Araujo, como ficou conhecido nacionalmente, foi um dos pioneiros na introdução de elementos do jazz e do chorinho na música brasileira, criando arranjos para a Big Band em todos os ritmos disponíveis.

“Espinha de Bacalhau” tornou-se um dos chorinhos mais executados no Brasil e no exterior e foi composto antes que assumisse a regência da Orquestra Tabajara, fato ocorrido em 1938.Em plena segunda guerra mundial, foi arrastado para o Rio de Janeiro por Assis Chateaubrian (sempre ele) e, depois, levou a sua orquestra para a Radio Tupi, do conglomerado Associados, onde ficou por dez anos. Severino Araujo fez Bodas de Ouro na regência da Orquestra Tabajara que realizou cerca de quatorze mil apresentações sob sua batuta, até 2006, quando passou-a para o irmão, Jayme Araujo.

Foi um declaração do referido Jayme que me motivou a dar esse depoimento a respeito do maestro recentemente falecido.Em entrevista publicada na imprensa local, o maestro-sucessor revelou que o irmão partira deste mundo com mágoa da Paraiba, estado que lhe deu berço e o alicerce da fama. Até onde sei, o maestro Severino Araujo sempre foi objeto do carinho e admiração dos paraibanos, levando daqui o nome Tabajara- dos nativos e da emissora mãe de sua orquestra.

Em arrimo do que afirmo, lembro que foi da autoria do então deputado Evaldo Gonçalves, a concessão do titulo de Cidadão Paraibano ao maestro Severino Araujo. Era o ano do Sesquicentenário do Poder Legislativo,(1983?) estando Evaldo na presidência do Poder e eu, além de primeiro secretário da Mesa, tomaria posse como Presidente da União Parlamentar Inter-estadual-UPI/Nordeste, eleito que fora em foro baiano com o respaldo dos votos dos colegas deputados estaduais Luis Eduardo Magalhães (BA) e Garibalde Alves(RN), dos que me lembro agora.

Pois bem, para essa festa que marcaria os 150 anos do Legislativo, no Esporte Clube Cabo Branco, trouxemos à Paraiba o maestro Severino Araujo para que recebesse a maior honraria concedida pela nossa Assembleia, o titulo de Cidadão Paraibano. Ele e a Orquestra Tabajara, uma tarefa hercúlea, num tempo em que a Assembleia não tinha seu duodécimo e dependia da boa vontade do governador para qualquer despesa extraordinária. Evaldo conseguiu que o governador Wilson Braga, que só gosta de forró, custeasse pelo erário as despesas da Big Band. E a Tabajara , depois de muitos anos, voltou a ser ouvida no solo paraibano.

Seria impossível traduzir o sentimento de gratidão e a emoção do maestro Severino Araujo ao exibir o diploma de cidadão e receber a comenda, júbilo que revelou - guardaria para sempre, pois, mesmo se considerando um paraibano, faltava ser reconhecido. Não foi com qualquer mágoa,mas com a alegria de ser um descendente dos Tabajaras que morreu Severino Araujo.


Ganhos e Perdas

Comecei o ano recebendo a missão de dirigir este periódico. Inscrever meu nome entre tantos ilustres paraibanos que por aqui passaram ao longo dos seus 118 anos de existência, me envaideceu. Em 02 de fevereiro, o jornal voltou ao formato stand, encerrando sua vegetativa vida de tablóide. Duas semanas depois, minha mãe, que há algum tempo vivia sob cuidados médicos, nos deixou. Começou aí a minha velhice. Perdi a única pessoa que me chamava de menino.

A vida, sem dúvida, é feita de ganhos e perdas. Quando pensava em encerrar o ano sem outras dores a acrescentar, me despeço do único irmão. Dizem que os pais quando batizam filhos com nomes de santos, a estes oferecem suas vidas. Meu nome nasceu de uma promessa a São Severino do Ramo. Meu irmão foi dedicado a Santo Antonio. Antonio Carlos era o seu nome, talvez uma conciliação entre a escolha do pai e a preferência da mãe.

Era uma pessoa alegre. Nunca cogitou fazer o mal a alguém. Inexplicavelmente, foi escolhido para passar por acidentes de percurso que não merecia. Aos dezoito anos, submeteu-se a uma cirurgia complicada que lhe tomou parte do intestino. Nem fumava e nem bebia mas ganhou três úlceras inesperadas à entrada do duodeno. Poucos meses depois, volta à sala de cirurgia para extirpar o apêndice que infeccionara. Foi atropelado quando passava entre dois veículos estacionados... Se não bastasse, um noivado de dez anos transformado em casamento se encerra no nascimento do primeiro filho. Perde a esposa em uma época em que não se morria mais de parto.

Estava com a vida re-organizada.Novamente casado, mais dois filhos, Promotor de Justiça na Comarca de Souza, professor na sua nascente Faculdade de Direito, tirou alguns dias de licença para tratamento de saúde. No quintal de casa, subiu em uma escada para acessar a um pé de côco. A escada desmanchou-se e ele fraturou a coluna. Permaneceu com um colete ortopédico por algum tempo. Ao retirar o colete, a vértebra trincada se desloca e secciona a medula. Paraplégico desde então.

Mesmo em cadeira de rodas cumpria sua rotina na Vara de Mangabeira. Tive a satisfação de ouvir depoimentos elogiosos de juízes e advogados sobre sua atividade ministerial. Muitos dos seus colegas promotores compareceram para lhe prestar a ultima homenagem. Aposentado, restauram-lhe alguns anos para acompanhar a vida dos filhos. Sob os cuidados de uma Unidade de Terapia Intensiva, ainda ouviu da filha Fernanda relato sobre sua monografia final do curso de direito.Com dificuldade, recomendou que estudasse para o exame da Ordem.

Na véspera do Natal recebeu a mulher e os filhos na UTI. No dia do nascimento do menino Jesus, sua alma foi levada a Deus como um presente de Natal.