Treze já nos deixaram

O jornalista Adelson Barbosa vez por outra brinda seus leitores, entre os quais me incluo, com pesquisas de natureza história, notadamente na área da política e administração do nosso Estado, em período mais recente. No ultimo domingo repassou a legislação constitucional e derivada sobre o meio ambiente, e prestou uma homenagem aos constituintes estaduais de 1989, reproduzindo a galeria incorporada ao Memorial do Poder Legislativo onde todos os deputados que laboraram na nossa ultima Constituição estão fotografados.

Tive a curiosidade de conta-los: dos trinta e seis, treze deles não estão mais entre nós: Ademar Teotônio, Aércio Pereira, Waldir Bezerra, Antonio Ivo, Ernany Moura, Egídio Madruga, Fernando Milanez, Francisco Pereira, José Fernandes, Soares Madruga, Leonel Medeiros, Oildo Soares e Judivan Cabral. Tivesse a pesquisa ido mais longe, o diligente escriba descobriria que foi esse “orador que voz fala” o relator da parte da Carta que cuida da Ordem Econômica e da Ordem Social, nela incluída a proteção ao Meio Ambiente.

Um dos pontos mais discutidos, na Constituinte, por que mobilizou artistas, militantes políticos e empresários da construção civil, foi a fixação do gabarito para a construção dos chamados espigões na orla marítima. Na fase inicial de discussão destaco a ação do deputado José Luiz Maroja, autor na emenda que define os parâmetros a serem seguidos pelo Plano Diretor da Cidade, em relação ao assunto, até hoje respeitado, com apenas uma exceção para a área do Porto de Cabedelo, desde que a construção se destine a atividade industrial. Convém lembrar que os constituintes estaduais mantiveram mandamento inserido na Carta de 1967 (que era uma Emenda) pelo governador João Agripino.

Enquanto o deputado Pedro Adelson cuidou da Organização do Estado e dos Munícipios, igualmente relator, antes que Egídio Madruga desse o toque final à redação, aperfeiçoada na Comissão de Sistematização onde despontava o deputado Waldir Bezerra e outros de igual mérito.

O órgão de proteção ao meio ambiente, recomendado pela Lei Maior, só viria a ser implementado a partir de 1978 quando o então governador Dorgival Terceiro Neto deu forma à SUDEMA. Leis posteriores cercaram a proteção da nossa fauna e flora, acidentes geográficos, florestas e cursos de água. A proibição de instalação de usinas nucleares foi uma preocupação seguida também por Câmara de Vereadores, a exemplo da de Bananeiras, que proibiu em seu território o depósito de lixo atômico...

Os trinta e seis constituintes paraibanos viveram grandes dias e a Assembleia presidida por João Fernandes cumpriu o seu papel com eficiência, dentro dos prazos fixados. Esquecidos os exageros cometidos, menos por tentativa de inovar e mais para intimidar o governante da ocasião, a Constituição Paraibana é um documento que tem resistido às várias tentativas de modificar seu texto para servir a interesses inconfessáveis. Em termos de meio ambiente, repito o atual presidente da Casa de Epitácio, em depoimento colhido pelo jornalista citado: “A Constituição paraibana é bastante avançada no tocante ao meio ambiente, assim como todo o conjunto de leis sobre o tema, o que deixa a Paraiba à frente de muitos estados”

Pena que esses treze passageiros da nossa história constitucional não estejam a presenciar os efeitos do seu trabalho.

É a vida!.


Vamos voltar à Degola?

A Paraíba de Gama e Melo não se submeteu à vontade presidencial. O Presidente Campos Sales valeu-se da Comissão de Verificação de Poderes para anular as eleições federais ocorridas no Estado. O motivo? O nome por ele indicado para governar a Paraíba não foi aceito. A rebelião de Gama e Melo resultou na degola da bancada eleita, com a posse dos derrotados.

Era o ano de 1900.

O fato repetir-se-ía em 1930. João Pessoa elegeu o Senador e mais quatro deputados. A Junta Apuradora anulou os votos dos liberais e diplomou os perrepistas. O Senado e a Câmara completaram o trabalho sujo e fizeram a depuração dos eleitos reconhecendo a eleição dos derrotados. O detalhe: em 1900, a degola fora inspirada por Epitácio Pessoa, Ministro da Justiça de Campos Sales. Trinta anos depois, os epitacistas sob o comando do seu sobrinho, provaram do próprio veneno.

O ministro Osvaldo Trigueiro, citado por Renato Cesar Carneiro, registra os abusos cometidos por políticos mineiros e gaúchos em matéria de reconhecimento de poderes. E conclui: “A opinião publica já não suportava a farsa do chamado terceiro escrutínio”. José Américo, que acompanhava esse procedimento em 1930, protestou: “não pude suportar a farsa... Seria adotado o critério dos diplomas, mas diplomados foram os derrotados, sacrificando-se enorme maioria. Vi João Pessoa pálido de cólera. Havia um brilho estranho nos seus olhos.”

Mas essa história vem do século passado e a história nunca se repete...Ou se repete? Nos dias de hoje, ao que parece, querem transformar a Justiça Eleitoral em uma ressuscitada Comissão de Verificação de Poderes. Ao invés da decisão política pura e simples dos donos do poder, os derrotados se utilizam de ações judiciais para tentar nos tribunais o que o povo nega nas urnas.

Surgem as Ações de Investigação Judicial Eleitoral e de Impugnação de Mandato Eletivo autorizadas por uma legislação severa e necessária, quase sempre produzida ao sabor das emoções e da pressão popular. O sucesso obtido por alguns nessas iniciativas, animam outros a trilhar o mesmo caminho.

Terminada a eleição, começa o terceiro escrutínio, que já em 1900 a “opinião pública não suportava mais”, agora chamado de terceiro turno. São milhares de ações engendradas após o pleito, na tentativa de desconstituir, depurar ou degolar os eleitos e premiar os derrotados.

Aqui mesmo na Paraíba, nas mesmas páginas dos jornais onde se anunciava a vitória do candidato a Governador Ricardo Coutinho, era noticiado o ingresso de ações impugnatórias à sua expressiva vantagem nas urnas. A inconformação dos abatidos pelo voto, volta a atuar nestas plagas. O vencido, apesar de reconhecer a sagração do adversário, autoriza a contestação do resultado. Vamos voltar à degola?

Até quando abusarão da nossa paciência? Respeitemos a soberania popular minha gente!

(Republicado por incorreção de certos personagens. Ao que parece, a história se repete)


Maranhão repete Argemiro

Argemiro de Figueiredo foi deputado estadual, federal e senador. Governou a Paraíba entre 1935 e 1940, atravessando, inclusive, o período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Em 1946 foi eleito deputado constituinte e integrou um grupo de parlamentares que se dedicaram mais de perto à elaboração do novo texto constitucional que vigorou até os juristas fardados nos doarem uma Emenda como Carta Maior da República.

Sua carreira registra alguns tropeços eleitorais, como por exemplo, a derrota que sofreu em 1951 na disputa pela prefeitura de Campina Grande, seu berço político, perdendo para Plinio Lemos. No pleito municipal, Argemiro obteve pouco mais de onze mil votos, insuficientes para suplantar os treze mil do seu opositor. Antes, Zé Américo o derrotara na batalha pelo governo da Paraíba.Tres anos depois, com votação consagradora, era eleito senador derrotando Assis Chateaubriand e o poderio econômico influenciado pelos Diários Associados, de sua propriedade.

Ao ser cassado pelo AI-5, José Maranhão era correligionário de Argemiro, ambos abrigados na sigla petebista fortalecida sob a liderança de Goulart, após a morte do patrono Getúlio Vargas. Deputado estadual com os direitos políticos suspensos por dez anos, ao retornar, voou mais alto e alcançou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Passou a vice-governador de Antonio Mariz. A morte de Mariz em pleno mandato mudou a sua história e a história da Paraíba. Reeleito governador, deixaria o cargo para uma disputa vitoriosa ao Senado, voltando depois ao cargo de governador por decisão judicial, pois perdera o pleito na contagem dos votos.

Em 2010 Maranhão tentou renovar seu mandato de Governador. Não logrou êxito. Ricardo Coutinho venceu. Zé já acumulara muitos mandatos e em 2012 procurou conquistar um que lhe faltava no curriculum, disputando a prefeitura da Capital. Conseguiu, apenas, 18,87% dos votos válidos. Amargou um insucesso que não lhe fazia falta. Sem mandato, quiseram lhe tirar o comando partidário. Reagiu com as forças que possuía e reafirmou sua liderança no comando da legenda que já fora de Rui Carneiro e de Humberto Lucena.

Na presidência do PMDB atravessou a crise de abstinência do poder a que não estavam acostumados seus correligionários, e após especulações de uma candidatura ensaiada para deputado, terminou ungido como candidato a senador. Foi eleito quase sem sair de casa. Sua obra falou por ele e resultou em vitória, apesar de ter enfrentado um jovem promissor na política da Paraíba e um político experimentado nas lides eleitorais.

A trajetória de Maranhão e Argemiro se assemelham. Ambos, após sofrerem uma derrota para governador e para prefeito, conseguiram conquistar um mandato senatorial de oito anos. Argemiro perdeu para governador em 1950, para prefeito em 1951, foi eleito senador em 1954; Maranhão perdeu para governador em 2010, para prefeito em 2012 e se elegeu senador em 2014. A história às vezes se repete.


UMA DOR SEM ADJETIVO

Alguém me mandou dizer pela net: quandoum pai morre, deixa órfãos. Quando falece um marido, nasceuma viúva. Quando morre um filho não há substantivo ou adjetivo que qualifique essa perda. Estou procurando palavras para descrever a dor que senti ao ver sepultar meu filho mais novo, vítima da violência das estradas. Para nascer, pulou apressado do ventre da mãe, só dando tempo ao médico colocar as luvas. Eu entrava ainda na sala de parto, por isso foi o único filho que não vi nascer. Se tinha pressa para viver, viveu feliz com a família que constituiu e amava acima de todas as coisas. Se entrou apressado no mundo, foi embora cedo demais, esse filho que eu amava tanto.


Filho de políticos, nunca utilizou as benesses que o poder poderia oferecer. Lutou para conquistar seu lugar ao sol. Trabalhouem empresa privada, submeteu-se a concursos públicos e colocou sua inteligência e capacidade a serviço da causa da justiça. Era um revoltado com as injustiças. Costumava me procurar para que eu ajudasse um conhecido em dificuldade. Não precisava ser amigo dele, bastava que tomasse ciência da sua história. E quantos desses seus interlocutores eu não atendi e resolvi problemas. Preocupava-se mais com o próximo do que consigo mesmo. Era religioso e tinha absoluta fé em Deus e nos seus desígnios.


Quando criança foi vítima de um medicamento aplicado em dose excessiva. Corri em busca de Fernando Cunha Lima, seu pediatra. O socorro lhe salvou a vida mas deixou sequelas visíveis em um tique nervoso que não o largou até a morte. Agora o poeta Fernando me manda um poema em homenagem ao seu pequeno cliente: Hoje essa dor maior a te afligir,/Bem maior do que uma punhalada,/E dor como paixão fica marcada,/Dentro do peito sem querer sair. E conclui: Apenas pede a Deus compreensão/pra suportar tamanha provação/De Pai pra Pai ao enterrar teu filho/. Agradecido ao poeta, chorei por ele não poder, pela segunda vez, salvar a vida do meu filho.


Flávio era a alegria em pessoa. Onde chegava dominava o ambiente com seu afeto contagiante. Por onde passou só fez amigos e todos eles choram a dor da sua partida. Companheiros que o conheceram nos colégiosPio XII e Pio X, na Faculdade de Direito da UFPB, da antiga TELPA ou no TRE estiveram a rememorar passagens, gestos e atitudes do seu comportamento exemplar como amigo solidário e afetuoso. Recebi milhares de mensagens e foi impossível responder a todas, uma a uma.


Perdi também o meu maior admirador. Tudo que eu fazia, escrevia ou publicava era motivo de seu orgulho. Muitas vezes, lhe entreguei a primeira leitura de meus trabalhos. Ele também fazia o mesmo, e só depois, mandava os seus escritos à publicação. Seus trabalhos técnicos revelavam um estudioso do direito eleitoral, preocupado em descobrir a verdade e ver realizada a justiça. Alguns sítios da internet a nível nacional, publicaram sua obra, esporádica mas na direção da melhor verdade.


Agora devo procurar o aconchego das minhas netas. A vida pública costuma nos afastar da família. Flavio chegou a proclamar essa sua mágoa em trabalho escolar. Lamentava não ter o pai por perto em todas as horas, para o cinema, para o futebol ou para buscá-lo na escola. Essa dívida eu procurei pagar me aproximando mais do homem que se tornou. Mas perdi grande parte da sua alegria infanto-juvenil. Que Deus me dê uma vida mais longa. Eu preciso pagar a minha netas o carinho que não dei ao pai delas.

 


O Último Favor

 

O meu pai foi vereador por vários mandatos e prefeito duas vezes, além de forte cabo-eleitoral dos candidatos que apoiava. Sua votação era baseada na afinidade que criava com o eleitorado, tão reduzido que permitia sua visita, casa a casa, antes das eleições que sempre ganhou, em Borborema.Depois que ampliou sua área de atuação para Bananeiras, aposentou a seringa que adquirira logo depois que o comercio o deixara. A aplicação de injeção não teria muita utilidade em uma cidade com hospital e outros recursos para atender aos seus amigos e compadres. E estes eram muitos.Em uma Missão de Frei Damião, encheu a igreja, sozinho, com os afilhados a serem crismados.

O tipo de política que se fazia então, ainda hoje persiste em alguns grotões do interior. Herança do passado, essa política do favor que resulta no voto futuro, tem nome bonito: clientelismo. Para os cientistas políticos, a herança colonial seria o fator predominante da presença do clientelismo na democracia moderna. Nesse cenário, o eleitor aceita um beneficio imediato em troca do voto ao invés de optar por vantagens mais amplas, tidas como incertas. Essa descrença no exercício do mandato ou na retribuição da representação que delega, faz do portador do voto um “interesseiro imediatista”, como diria Odorico Paraguassú. Na sua sabedoria, meu pai não censurava esse comportamento. Para ele, a eleição era a safra do eleitor...

Não vou aqui desenvolver qualquer tese para mudar a relação entre o eleitor e o candidato. Não sou cientista político. Como um dos atores desse processo, aproveito o espaço para contar a minha experiência, submetido que fui a esse método desgastante por muitos anos. Claro que o volume de votos obtidos não se prende, exclusivamente, ao favor direto ou à troca de alguma vantagem. A ação do candidato, o discurso, as teses que defende, completam os votos necessários à sua eleição. Os “pirangueiros”, como o deputado Orlando Almeida os carimbou, são uma minoria identificada facilmente. Como político ouvi muitos pedidos.O mais estranho foi o de uma jovem mulher que desejava um emprego para poder justificar ao marido, as joias que recebia do amante. E me explicou isso com todas as letras, por telefone. O nariz de cera terminou se alongando. O que eu queria mesmo era mostrar que o ultimo favor é que ganha o voto.

Morei algum tempo ao lado da Federação dos Trabalhadores, na rua da Palmeira. A entidade mantém uma hospedaria para seus associados do interior, em tratamento médico na Capital.O deputado Edvaldo Motta hospedou alí uma família de Patos, com um deles doente. A mulher perguntou a ele como seriam as refeições e ele, brincalhão:

- Vocês vão comer aí na casa vizinha, do deputado Ramalho Leite.

Estava acompanhando Antonio Mariz em um comício na feira de Patos quando fui chamado por uma mulher. Desci do palanque para atendê-la e surpreso, ouvi a sua historia:

- O senhor vai ter dez votos aqui em Patos. É o que minha família tem para agradecer à sua mulher, que nos alimentou por quinze dias, lá na Federação.

Edvaldo cuidou do doente e Marta o alimentou.Ganhei os votos. Valeu a tese de que o último favor prevalece.(Do livro, A BOTIJA DE CAMUCÁ, no prelo)


J.A –JÁ

Aquela campanha de 1965 foi a última permitida pelo regime de 64 aos partidos nascidos na redemocratização do País e que tomaram assento na Constituinte de 1946. João Agripino estava lá para exercer o seu primeiro mandato de deputado federal, ao lado de Ernani Satyro,Argemiro de Figueiredo,Fernando Nóbrega, Janduí Carneiro,João Úrsulo Ribeiro,José Joffily, Osmar de Aquino,Plinio Lemos e Samuel Duarte que se somaram aos dois senadores naquele Congresso com 42 senadores e 286 deputados. Dezenove anos depois, João Agripino, sob o slogan J.A.-JÁ, desejava conquistar o Governo da Paraíba tendo como opositor outro grande paraibano, Rui Carneiro, acrescido de Argemiro de Figueiredo, como candidato a vice-governador. Era o embate dos chefes partidários:de um lado a UDN, de outro o PSD e o PTB coligados.


Claudio de Paiva Leite era um dos coordenadores da campanha de J.A. e me recrutou para acompanhar o candidato nas suas viagens ao interior. O pequeno avião fazia mal às minhas tripas, e bastava eu entrar no “bicho” para requisitar os pequenos saquinhos de bordo. O deputado Romeu Abrantes, de carona em um vôo saído de Souza, com ares de psicólogo, me curou com uma simples ordem:comigo você não vomita! Inacreditável, mas foi o suficiente.O sertão era novidade para mim, ainda estudante e começando a dedilhar matérias para os jornais. J.A acordava cedo, pedia um cafezinho e fumava o primeiro cigarro.


Na visita a Souza percorremos as estradas empoeiradas que levavam a Santa Cruz, São José da Lagoa Tapada e outras que cercavam a Cidade Sorriso, cujo prefeito, Antonio Mariz, dirigindo um fusca, acompanhava o veículo que ia mais adiante com o candidato a governador, conduzido por Augusto Abrantes, tio do nosso Johson Abrantes, renomado advogado e filho ilustre do Lastro. No fusca de Mariz, sua esposa Mabel e eu. A próxima parada foi em Santa Luzia, com passeata pelas ruas conduzidas pelo udenista Inácio Bento, a partir do “campo de aviação”, como se chamava antigamente.


Em Campina Grande éramos hóspedes do Juiz João Sérgio Maia, primo de J.A. e irmão do coronel José Sérgio, chefe político de Catolé do Rocha. Ou Catolé dos Maia? Logo pela manhã J.A recebe a visita do coronel Luiz de Barros, devidamente paramentado com seus galões da briosa. Passa a dar noticias, ao candidato, da situação política na região do curimataú, de onde estava chegando.


-Passei em Nova Palmeira, Nova Floresta, Picuí, Soledade; visitei as feiras; e a quem eu perguntava, a resposta era uma só: J.A! É todo mundo por uma boca só... narrava entusiasmado Luiz de Barros.


Agripino ouvia e machucava o caroço da face, com o olhar fixo no coronel. Terminada a exposição daquela pesquisa corpo a corpo, JÁ não resistiu em utilizar sua fina ironia e com aquele seu risinho característico, comentou:


- Luiz, você acha que com essa fama que você tem de “brabo”, fardado e acompanhado de um pelotão de soldados, alguém vai lhe dizer que vota contra mim? A risadagem foi geral.


Poderia contar muitos casos e passagens dessa memorável campanha em que eu votei pela primeira e pareceu-me, a última, para governador. Depois vieram as indicações diretas e as eleições indiretas. Na Assembleia, mesmo rebelado contra a indicação de Brasília e tendo formado no grupo que defendeu a candidatura de Antonio Mariz no Colégio Eleitoral, votei para governador, na qualidade de deputado-eleitor. Tinha duas razoes para não votar em Tarcisio Burity. Era do grupo de Mariz, e Burity tinha o meu adversário Clovis Bezerra como candidato a vice governador. Dorgival Terceiro Neto, a quem eu não podia faltar, me convenceu a votar. Foi meu segundo voto para governador, convalidando o processo exótico de escolha engendrado pelos militares.


Comecei com João Agripino e terminei mergulhando na paisagem política paraibana no pós 64.O que desejava mesmo era relembrar esse grande paraibano que, se vivo estivesse, teria completado neste primeiro dia de março, o seu centenário de nascimento. A Paraíba deve ainda, a João Agripino, pelo que ele representou, uma grande homenagem.


O Carnaval que não houve

Naquele ano bissexto de 1962 o carnaval decorria sem quaisquer incidentes. Tanto o Bananeiras Clube como o Grêmio Morenense realizavam os seus bailes tradicionais.O carnaval de rua, sem excessos, era dominado por blocos de crianças e adolescentes. Em Solânea, uma camioneta acompanhava um bloco infantil. Seus ocupantes se descuidaram e o veículo avançou sobre os pequenos foliões, matando três e ferindo dezenas. O carnaval foi encerrado antes do tempo nas duas cidades enlutadas por tão nefasto acontecimento.


Essa tragédia decidiu a minha vida. A quarta feira de cinzas foi antecipada e na terça-feira de um carnaval que não houve, aluguei um jeep e saí de Borborema onde meu pai era prefeito e fui roubar a namorada. Poucos dias depois estávamos casados, graças a uma licença especial concedida pelo Arcebispo Metropolitano, acionado pelo contra-parente, o então padre Manoel Batista de Medeiros, cunhado de Tia Tonha, irmã de minha avó Natália de Menezes Leite.


Encontrei com Marta na rua. O silêncio engolia a noite de Bananeiras. Ela pegou em casa um casaco para se proteger do frio e, até hoje, estamos juntos. Completamos no ultimo dia 09 cinquenta anos dessa aventura juvenil que tinha tudo para não dar certo, e felizmente, foi premiada com uma prole que está bem criada e já dos deu dez netos.


Digo que tinha tudo para não dar certo por que esqueci de contar que era um estudante desempregado e nem o dinheiro para pagar o veículo alugado eu tinha. Confiava no meu pai, a quem enderecei uma carta contando minha decisão e tranquilizando-o de que não largaria os estudos. Levei a companheira de aventura para o Engenho da Pasta,em Pilões, onde sabia que meu tio Zé Noirton estava hospedado. No transporte que me levou, ele voltou, conduzindo a carta que enviei a seu Arlindo Ramalho e o um recado do Senhor do Engenho para os pais da noiva:
- Daqui ela só sai casada!


Sob a severa desconfiança de Tio Né da Pasta, fui encarcerado em um corredor da Casa Grande do engenho. Para o interior da casa onde Marta estava, foi vedado o meu acesso. Qualquer necessidade noturna, só me restava a bagaceira do engenho.


Casamos na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Livramento sob as bênçãos do Padre Manoel Lima e a presença de inúmeros curiosos, pois, convidados mesmo, só as testemunhas e Tio Né que fez questão de levar o produto do furto até o altar. Cinquenta anos depois, pude ver a alegria na face de Marta, cercada de filhos e netos, cortando, com atraso, o bolo a que não teve direito na cerimônia de casamento.


A MOCINHA


O governador Ernani Satyro viajava de avião para Brasília na companhia do seu Secretário de Comunicação, Otinaldo Lourenço. Ao ouvir o tilintar de garrafas e copos se aproximar de sua poltrona, o Governador que adorava uma dose de whysk e uma só para ele era considerada pouco, indagou do secretário:


- Dr. Otinaldo o senhor gosta de beber uma dosezizinha quando viaja?


Otinaldo, ou porque não gostasse mesmo ou por timidez diante do Chefe, respondeu:


- Não, Governador, eu não gosto de beber durante o vôo!


- Pois quando a mocinha (aeromoça) lhe perguntar se quer uma dose, aceite viu?


(DO LIVRO EM PROSA E NO VERSO)

 

 


Meu único sócio

Quando a legislação eleitoral facultou espaço radiofônico a partidos e candidatos, para ser ouvido no brejo, tinha que me servir da Radio Constelação, iniciativa de Zenóbio Toscano, ainda no nascedouro. Não sendo pouco o deslocamento para Guarabira, se acresça ao sacrifício a ladeira mais íngreme da cidade onde eram localizados os estúdios e transmissores. O programa era enviado em fita cassete com a fala dos majoritários e dos candidatos às eleições proporcionais. Era o trabalho do partido. O meu era enxertar na fita do programa diário a minha mensagem, o que era repetido por Zenóbio e Maranhão, o nosso federal. As fitas se multiplicavam e chegavam às emissoras de Guarabira, à Radio Serrana, de Araruna e Integração, de Bananeiras. Esta ultima propriedade dos meus adversários e onde era proibida a minha entrada.


Diante desse cenário passei a lutar para adquirir a minha própria emissora de rádio. Acionei o Ministério das Comunicações e o prestígio de Humberto Lucena conseguindo que se abrisse o edital para uma emissora em Solânea. A nova rádio denominar-se-ía Correio de Moreno, em homenagem ao antigo Distrito.


Quando já estava encaminhando a formação social da empresa que concorreria à concessão, Humberto Lucena me participa que o deputado José Maranhão, que mais tarde Duda Mendonça transformaria em Zé, desejava participar da sociedade. Ponderei que ele já tinha uma emissora em Araruna, me contrapondo ao argumento de Humberto: “ele foi majoritário em Solânea e não deseja ficar fora do empreendimento”. Acatei meu novo sócio diante do argumento irrespondível de que ele tinha dinheiro e eu não dispunha dos recursos para o investimento.

Dividimos a empresa em quatro partes com quarenta por cento para cada um de nós e os vinte restantes divididos entre uma sobrinha de Maranhão e o então prefeito de Borborema, Amâncio Ramalho. Constituída a firma o projeto foi engavetado. A Radio Serrana perdeu sua concorrente e a Radio Integração a sua oponente.


A sobrinha de Maranhão passou em um concurso federal e me procurou para concordar com a sua retirada da empresa. Assinei os papeis necessários. Amâncio Ramalho faleceu deixando o problema para Formosina, sua viúva. Solânea continua sem a sua emissora de radio e eu, continuo sócio de Zé, ( Ah!. se fosse nos bois do Tocantins...) uma vez que até hoje a Radio Correio de Moreno não morreu perante a receita federal.


E enquanto permaneço sócio indesejado de uma rádio inexistente, fico impedido de tirar certidão negativa na Receita Federal. E assim termina a minha única experiência empresarial.(Republicado por conta da minha labirintite)Em tempo:Graças ao Sistema Correio da Paraíba, Solânea hoje possui a Radio Correio da Serra.


A QUESTÀO- O comerciante José Brasiliano da Costa estabelecido em Borborema, resolveu abrir uma janela para um terreno de propriedade do dr.José Amâncio Ramalho. Este entrou na Justiça e o juiz de Bananeiras, dr.Mario Moacyr Porto lhe deu ganho de causa, mandando fechar a janela. Brasiliano recorreu ao Tribunal de Justiça e ganhando o recurso, reabriu a janela. Zé Amâncio foi ao Supremo Tribunal e lá, teve reconhecido seu direito e a justiça mandou fechar a disputada janela. Brasiliano estava cumprindo a sentença e fechando a janela, quando chega o Zé Amâncio e o aborda:


- Eu não disse que você não tinha o direito de abrir essa janela?
- Pois é, eu perdi e estou cumprindo a decisão da Justiça, respondeu conformado o comerciante.
E quando pensava que Zé Amâncio fora debochar da sua derrota, ouviu dele, surpreso, sua própria sentença:
- Agora você pode abrir a janela. Eu só queria provar que você não tinha direito.


E continuaram bons amigos! ( Do livro EM PROSA E NO VERSO)


É hora de dar um basta

Houve uma euforia sem precedentes quando brasileiros de todas as idades ganharam as ruas com cartazes e deram seu recado. Em meio à multidão, havia até quem não soubesse por que estava ali, mas estava. As manifestações, sem dono e sem líderes, aproveitavam o momento em que as lentes do mundo estavam voltadas para a pátria de chuteiras. Era a Copa das Confederações. Pediam-se escolas, postos de saúde e serviços públicos nos mesmos padrões exigidos pela FIFA, que dita as normas no esporte bretão e os governos das sedes dos eventos mansamente obedecem. Pelo meio, um cartaz exigia a volta das tomadas de dois pinos... mas isso era a exceção.


Protegidos pelo pacifismo dos manifestantes, surgiram os primeiros gestos de violência. A polícia, temendo a criminalização da sua ação, correu, afastou-se, e os policiais que se arriscaram a usar balas de borracha ou gás de pimenta, terminaram por ser investigados e processados. De lá para cá, não pararam mais. No Rio e em São Paulo, outros motivos surgiram. O mais recente, envolve os professores cariocas insatisfeitos com o seu plano de cargos e salários. Pedem o governador fora do cargo, e que o prefeito os deixe em Paes, em infame trocadilho com o nome do soba guanabarino.


Não há quem me tire da cabeça que os manifestantes não se ofendem com a presença dos mascarados. Não participam dos atos de violência, mas se acomodam com o que assistem e, muitos deles, participam das hostilidades aos policiais. Na verdade, a polícia deveria estar na área, para proteger o evento e os que dela compartilham, para usar a linguagem do facebook, um dos veículos de convocação da massa, nos dias atuais. Quando são assediados pela imprensa, as lideranças improvisadas protestam contra os atos de violência e os repudiam. Os detidos são encaminhados à policia. Antes que cheguem à presença do delegado de plantão, se são oito os detidos, são dez os advogados para soltá-los.


Agora qualquer protesto vira baderna e a televisão se refere a protesto pacífico. Não concordo com a junção dessas duas palavras. Se é protesto, não pode ser pacífico. O protesto já indica uma reação de força, uma emissão do inconformismo retido e que se libera em atos e gestos enérgicos. Quem cobre o rosto para participar de uma passeata, não está bem intencionado. O anonimato infunde coragem ao agente lesionador do patrimônio publico ou privado. Os martelos, as marretas, os aríetes, não se encontram nas ruas. Quem chega à rua, mascarado, já chega com seus instrumentos badernistas, como diria Odorico Paraguassú,criação imortal de Dias Gomes.


As cenas que vislumbramos diariamente pela televisão, e ainda bem que estamos longe delas, incomodam o cidadão e perturbam a vida política e social do País. Até quando assistiremos de mãos atadas ao quebra-quebra das casas bancárias, dos caixas eletrônicos e das casas comerciais? A única diferença de quem destrói o caixa eletrônico perante a TV e aquele que bota dinamite nas caladas da noite, é que este leva o dinheiro espalhado com a explosão. Ambos são criminosos e existem leis para puni-los igualmente.


Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil da Copa e das Olimpíadas. Chegou a hora de reagir contra esse clima de violência que assola, principalmente, o sul maravilha. Separemos o joio do trigo. É hora de dar um basta!


Quem Paga a Lanterna?

A palavra da moda é mobilidade urbana. Antes se falava em fluxo de veículos, dificuldades de acesso, problemas de deslocamento. Tudo isso virou uma palavra chave:mobilidade. A construção de um sistema viário que evite a paralisação do trânsito com desperdício de tempo e combustível, além de não acabar com os nervos do motorista, se enfeixam no contexto de mobilidade. Esse é o grande desafio das cidades, em qualquer parte do mundo, talvez não em Cuba, ainda usando os poucos veículos produzidos na antiga Rússia, sem peças de reposição.Onde a industria automotiva ganhou corpo, as ruas incharam, com os veículos se arrastando.


A opção pelo automóvel, entre nós, começou na era JK. O automóvel fabricado no Brasil precisava de estradas de boa qualidade e elas foram surgindo. Enquanto as BRs surgiam, os ramais ferroviários eram apontados como deficitários, e em seguida, desativados. Essa conta fica para o Juarez Távora, antigo tenente de trinta e general do regime de 64. Segundo as estatísticas, só nos últimos dez anos, a frota de veículos no País cresceu mais de 400 por cento. E depois que desoneraram o automóvel da incidência do imposto (IPI), mantendo preços estáveis e tornando-o acessível a maior numero de brasileiros, ficou difícil dirigir. Nesta Cidade das Acácias, pior ainda.Um gerente de banco de origem sulista, me definiu essa dificuldade: “para onde eu vou, todo mundo vai... Tanto faz ir para a praia como para a zona sul”. E agora não tem hora melhor.Tá tudo dominado pelo excesso de veiculo e escassez de espaço.


A mídia nos dá noticia de que estão em andamento projetos que pretendem modificar a face da cidade. Se promete a implantação de sistemas sobre trilhos (VLTs) ou ônibus de alta capacidade e velocidade (BRTs) além da integração desses braços de transportes, até com ciclovias.Tudo muito bonito e projetado.Na verdade se faz uma meia-sola no final da Epitácio Pessoa e se anuncia o mesmo no inicio da Beira-rio, duplicação no Altiplano do Cabo Branco e Cruz das Armas. Um realinhamento de tráfego nos Bancários e na Lagoa, e um Viaduto no Geisel e outro em Mangabeira. Há medidas projetadas para aliviar o tráfego, facilitando a condução de veículos de pequeno porte ou atraindo o usuário para o transporte coletivo. De concreto, até agora, só vejo a redução do canteiro central da Epitácio e inicio de obras em Cruz das Armas. Mas tenho esperança de ver muito mais do que as promessas de liberação de recursos do Ministério das Cidades.


Preso no trânsito há algumas horas, me deram noticia de um acidente mais na frente. Não há pessoas vitimadas, apenas danos materiais aos veículos. Pela lei, os avariados deveriam ser retirados do eixo da avenida e, lá fora, seria resolvido quem pagaria o prejuízo de quem. Com a faixa de rolamento reduzida à metade, diminui a capacidade de deslocamento. Imaginem o cenário que vemos várias vezes por dia.Descem os motoristas dos veículos sinistrados e passam a discutir seus direitos. Cada um com sua razão.Chegam os peritos e a discussão se renova na presença da autoridade,cada um querendo impor sua versão. Passadas algumas horas de sofrimento para todos que esperam o desfecho da querela, o fluxo se alivia.Quando passo pelos veículos engatados, identifico os danos e a alegria de quem recebeu o impacto por trás. O culpado resolveu pagar a lanterna quebrada...