A PROPINA VEM DE LONGE

Quando votei o Estatuto dos Servidores Públicos (LC 39, de 12 de dezembro de 1985) questionei seu principal redator, o procurador João Bosco Pereira, em função do artigo 258 que prescrevia entre as proibições funcionais: “X-receber ilicitamente, propinas, comissões ou vantagem de qualquer espécie, em razão do cargo ou função”. A explicação que recebi reportava-se ao entendimento de que propina seria a gratificação extra, paga por serviço normal, como as gorjetas, ou as comissões legalmente deferidas a servidores públicos. A lei não pretendia legalizar a propina, como se entende hoje no universo brasileiro, ou seja - quantia que se oferece a alguém para induzi-lo a praticar atos ilícitos ou contrários ao seu dever.Em Portugal, de onde veio o costume e também todos os maus costumes que herdamos, propina é a taxa de frequência paga pelo estudante em uma escola de ensino superior, para contribuir com seus custos. Aos poucos, tanto lá como cá, o conceito foi sendo ampliado e, em livro publicado pelos idos de 1892, encontrei a seguinte referência à rainha- esposa de D.João V: “A Rainha, nossa senhora faz pouco ruído e não se fala nessa Princesa, nem eu sei que ela tenha vindo de Alemanha mais que pelas propinas que recebi do Conselho da Fazenda”. Eis uma primeira confissão, sem delação premiada. No Primeiro Reinado houve momentos em que o poder de Domitila de Castro, a primeira-amante de D. Pedro, suplantava a força do trono. Por ela passavam todos os assuntos que cheirassem a ouro. Como exemplo, Paulo Rezzutti conta que D.Pedro estava acamado em função de uma surra que tomara de um marido ciumento. Domitila, a Marquesa de Santos, virou regente informal. À época, para se instaurar um processo, fazia-se uma devassa, isto é, uma investigação. O devassado, para não atrapalhar as investigações, era exilado. Conta em suas memórias o conselheiro Vasconcelos Drumont, que Domitila recebeu dinheiro do grupo de um tal Francisco Inácio “ não só para conseguir que a devassa fosse cancelada, mas também para a nomeação de um parente dele para o cargo de intendente de policia”. Esse fato provocou o rompimento de José Bonifácio, o Patriarca da Independência, com D.Pedro. Dom Pedro enfrentou problemas com revoltas armadas, mas também na Assembléia surgiram várias escaramuças, entre as quais, a criação da primeira Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os ministros da monarquia nascente. Caso os ministros fossem considerados culpados, D.Pedro seria obrigado a demiti-los. O Imperador empenhou-se pessoalmente na defesa dos seus ministros e, ainda segundo Dumont, corroborado pelo bispo Romualdo, teria chegado a pagar pelo voto de alguns deputados, prática que se arrastaria até chegar ao nosso estimado presidencialismo. A proximidade entre d.Pedro II e o Barão de Mauá resultou em “intensa aplicação de dinheiro público nos empreendimentos de uma única empresa” como infere Marcos Costa. No inicio de 1850, Mauá era possuidor apenas de uma fábrica. Com o beneplácito do Imperador, em dois anos agregou aos seus negócios um banco (Banco do Brasil refundado), um ferrovia, uma empresa de navegação e ainda recebeu a concessão de vários serviços públicos. Sua fortuna era superior ao orçamento do Império. Nos dias de hoje, essa ação empreendedora que mudou a cara do Brasil seria objeto de uma investigação parlamentar, mesmo que terminasse em brioche, já que a pizza não era comum entre nós. Um pouco antes, com a chegada da Corte à Colônia, d.João VI deparou-se com o exercício da propina entre os agentes de sua alfândega. Além- mar, os embaixadores brasileiros em Londres também pegavam a sua na negociata dos empréstimos que o Brasil tomava, conforme registra em suas memórias, o embaixador Heitor Lira. No Brasil a propina sempre será tida como dinheiro obtido de forma ilícita, através do suborno, em atos de corrupção. Esteve presente na República Velha, quando foram registradas inúmeras obras suspeitas de sobre-preço. Entre nós, como lembrança dessa época, restam as estacas do Porto do Sanhauá, sonho da Parahyba que envergonhou Epitácio Pessoa. O moralismo, que chegou com os tenentes à Revolução de Trinta, conseguiu acabar com os “carcomidos”, os coronéis da política apontados como responsáveis pela corrupção. Derrubaram a velha corrupção e instalaram uma nova, como disse Motta Araújo. Chegou-se ao ponto de louvar “o rouba mas faz”. A palavra propina, vem do latim, propinare, “dar de beber”, como me ensinou no Liceu o professor Raul Córdula. A propina, segundo consta, teria sido popular entre os gregos. Era costume entre eles, ao levantar a taça em brinde, beber, apenas, uma parte do seu conteúdo. O restante do vinho que permanecia na taça com que se brindara à saúde de alguém, chamava-se propina. Tempos heróicos aqueles, quando propina era, apenas, uma sobra de vinho.


UM BANQUETE NO PALÁCIO

UM BANQUETE NO PALÁCIO No passado, era normal e não merecia a mais leve censura, as comemorações oficiais realizadas pelo governo. Às vezes, após um lauto banquete, seguia-se um animado baile, onde o governo confraternizava-se com a alta sociedade. O povo? Ah! O povo. Este componente não era chamado nem para votar, quanto mais para comemorar a posse de um governante. O eleitor era escolhido entre a elite dominante. Essa elite participava do rega-bofe e o “populacho” se contentava em ficar na praça a ouvir tocar uma banda de musica escalda para a ocasião. A Gazeta do Commércio, órgão que circulou nos primeiros anos republicanos,narrou uma dessas festividades. A narrativa foi considerada especial, pelo governo, daí porque a mandou transcrever em A União de 28 de outubro de 1898. Eu considerei uma curiosidade exemplar e resolvi compartilhar um trecho com meus parcos leitores: “Como já havemos dito,o banquete offerecido ao exmo.sr.dr.Antonio Alfredo da Gama e Mello, por se ter empossado no alto cargo de Presidente d´este Estado, começou ás 6 e ½ horas da tarde do dia 22 do corrente, n´um dos vastos salões do Lyceu Parahybano. Ostentava-se, no centro do salão onde ia ter lugar o festim, uma extensa meza primorosamente preparada em forma de ferradura e, sobre a qual, destacavam-se, pelos jorros de luz despejados dos candelabros, crystaes, flores, as mais finas iguarias a par com os mais deliciosos licores. Das paredes pendiam brasões entrelaçados de bandeirolas de todas as nações amigas,vendo-se na parte de honra, o retrato do illustre parahybano que era o alvo das expansivas manifestações d´aquelle dia e exprimia o prenúncio da paz, da ordem e do progresso do seu Estado natalício. A hora aparazada para começo do festim,s.exc.sr.dr. Gama, acompanhado de grande numero de cavalheiros, representantes da fina flor parahybana,vindo de Palácio entrou no salão e tomou a presidência da meza, em volta da qual sentaram-se também cento e sessenta convivas. Os compartimentos immediatos estavam cheios de numeroso pessoal, que não tiveram lugar, aguardando-se uma segunda refeição, que foi servida depois da primeira. Reinou em tudo muita ordem e muita animação, sendo o primeiro brinde levantado pelo illustre desembargador José Peregrino de Araujo, ao eminente dr.Gama e Mello,que foi recebido com expansivas demonstrações de aplausos. Após seguiram-se outros, salientando-se os do exmo.e revmo.sr Padre Walfredo Leal, ex-Vice-presidente do Estado, ao mesmo sr.dr. Gama e do eloqüente e illustrado orador parahybano,dr Castro Pinto, saudando a imprensa na pessoa do Presidente do Estado, que, como sempre, eletrisou, com sua palavra fluente e enfeitada de verdadeiros arroubos oratórios,todos os circunstantes. Em agradecimento as justas felicitações que lhe eram enthusiasticamente dirigidas, levantou-se o exmo.sr.dr. Gama e Mello e n´um discurso em que primou pela linguagem florida e entremeada dos mais bellos conceitos, que só sabe uzal-os o talento e a ilustração,pediu o concurso de todos os parahybanos, para que o seu governo seja de prosperidade para o Estado e findou saudando o progresso da Parahyba”.( Mantive a grafia da época) Mais modernamente, com o surgimento do rádio entre nós, a Tabajara, emissora oficial, era sempre escalada para a cobertura dos eventos palacianos. Lembro que Geraldo Cavalcanti manteve o microfone oficial em suas mãos por vários governos. Certa ocasião, estando afônico, orientou um substituto para a tarefa e destacou que, na chegada do governador, não esquecesse de lembrar que ele estava acompanhado da primeira dama do estado.O locutor não se fez de rogado. O governador foi descendo do carro e enquanto puxava a esposa pela mão, ela sapecou: - Acaba de chegar, Sua Excia, o governador, acompanhado de sua primeira mulher... Não preciso dizer que o locutor perdeu o emprego! Lembro também Paschoal Carrilho, esse, mais debochado, vez por outra fazia das suas. Designado para cobrir a realização de um banquete no Palácio, oferecido a um general cinco estrelas, de má vontade, iniciou a transmissão: - Começou o banquete. Já estão comendo a mulher do governador e o bispo. Os demais aguardam na fila...


O MISTERIOSO SUMIÇO DO CABEDELO

O MISTERIOSO SUMIÇO DO CABEDELO Sabe-se que foram trinta e cinco os navios brasileiros atacados e desaparecidos nas águas do Atlântico, do Mediterrâneo e do Índico, desde a costa dos Estados Unidos ao extremo sul da África, durante os anos de 1941 a 1944. Esses incidentes causaram a morte de mais de mil pessoas e obrigaram a entrada do Brasil no conflito, rompendo relações com os países do Eixo a partir de janeiro de 1942. Se a ofensiva de submarinos alemães e italianos aos nossos vasos cargueiros, já ocorria antes de Getúlio Vargas declarar o Brasil em estado de guerra, a partir de então, os ataques passaram a ser constantes e persistentes. Antes, os alvos foram os mercantes que transitavam pelo Caribe ou pela costa leste dos EE.UU, depois, os encouraçados inimigos chegaram às nossas costas e, entre Recife e Salvador, acertaram, em dois dias, seis dos nossos barcos de carga, causando mais de seiscentas mortes. A maioria das embarcações pertencia ao Lloyd Brasileiro, mas outras pequenas companhias também sofreram perdas irreparáveis em vidas e danos materiais. Entre os navios afundados durante o segundo conflito mundial, o navio mercante Cabedelo, desapareceu sem deixar vestígios, nas águas do Atlântico, acredita-se, à leste das Pequenas Antilhas. Estava com 54 tripulantes a bordo, sob o comando do capitão Pedro Veloso da Silveira. Esse navio, por ironia, fora fabricado em estaleiro alemão e ganhara inicialmente o nome de Prússia. Movido a vapor e construído em aço, tinha cento e onze metros de comprimento e quinze e meio de largura, com um calado de quase sete metros. Podia alcançar uma velocidade de doze nós, o que daria cerca de vinte e dois quilômetros por hora. Alvo fácil, sem dúvida. Na Primeira Grande Guerra, estava a serviço da Marinha Alemã. Quando da entrada do Brasil na conflagração, em junho de 1917, foi confiscado pelo governo brasileiro e incorporado à nossa frota, com o nome de Cabedelo. Estava retido desde 1915 no Porto de Santos. O Cabedelo zarpou de Filadélfia, nos EE.UU, em 14 de fevereiro de 1942, em direção às Antilhas mas como destino final o Rio de Janeiro. Naquela ocasião, os navios que trafegavam pela chamada Zona de Segurança Pan-Americana - costa leste dos EE.UU, ainda não eram controlados nem acompanhados para efeito de proteção dos ataques inimigos. Tem-se como aquela, a data em que o Cabedelo desapareceu nos mares, sem deixar rastro. Para pesquisadores citados por Wikipédia, teria sido em 25 de fevereiro a data do ataque ao barco brasileiro, por obra e graça do submarino italiano Da Vinci. A afirmativa, porém, é controversa. Primeiro, diz-se que o afundamento do Cabedelo não foi encontrado nos registros italianos e, depois, pela data provável do ataque, já havendo navegado onze dias desde a partida, estaria fora na área de ação do Da Vinci. O afundamento do Cabedelo ainda foi atribuído a outro submarino italiano, o Torelli, que no mesmo período atacara dois outros mercantes à altura das Guianas. Nenhuma das hipóteses levantadas foi amparada em provas concretas. A ausência de sobreviventes, fato inusitado até então, entre nós, levou-se à tese de que os tripulantes teriam sido metralhados pelo inimigo quando já estariam a bordo de escaleres. Todavia, nenhum escaler, mesmo vazio, foi encontrado. E o mistério permanece até os dias atuais.

CELSO CIRNE, O VISIONÁRIO DE MORENO

Segundo Celso Mariz, o seu xará Celso Columbano da Costa Cirne teria sido o verdadeiro fundador da rivalidade que existiu entre Bananeiras e Solânea, notadamente, quando essa vila que se chamava Moreno, contava fábricas,tinha comércio crescente, expandia-se em uma planície com perspectiva de superar a sede municipal. Tornar-se-ia uma porta de saída para os sertões, com a certeza da chegada do trem. Para Celso Cirne, a ferrovia deveria aportar, diretamente, em Moreno, deixando Bananeiras à margem do progresso. Fez gestões nesse sentido e conseguiu que a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS) realizasse estudos “a fim de modificar o traçado da linha que, escalando a serra da Borborema, teria de penetrar no vale do rio Curimataú e na região das minas de Picuí”*. O trecho era uma continuação da Estrada de Ferro Conde D´eu, e partiria de Independência (Guarabira) até Picuí, onde o trem nunca chegou.

Celso Cirne fói eleito deputado estadual em 1912, juntamente com seu cunhado Sólon de Lucena. Celso juntava ao seu prestígio pessoal a força política do sogro, o comendador Felinto Rocha, que morreria em 1913, antes do término do único mandato do genro. Na vitória política de Epitácio Pessoa, em 1915, os dois políticos do brejo já estavam unidos. Com os votos de Celso e dos moradores da Vila Branca, Solon de Lucena tornou-se chefe político de Bananeiras, tomando o trono dos Rocha. Foi a parceria de Solon com seu parente Epitácio que conseguiu o prosseguimento da linha férrea até Bananeiras. Em um aditivo contratual de 1922 foi incorporada à Great Western o trecho entre Borborema e a Boca do Túnel, este em construção pelo IFOCS. Se contrapondo, pois, ao traçado idealizado por Celso Cirne, Solon proclamou: “o trem chegará a Bananeiras, nem que seja por debaixo da terra”.Terminado o túnel, o trem chegou em 1925.

Descrito por Celso Mariz como “vulto de esquisita singularidade, tão bom, vivaz e inteligente, quão desinteressado de si próprio,magnânimo,desorganizado e sonhador” Celso Cirne foi um propulsor do desenvolvimento do brejo. Fixado em Moreno, ali centrou suas atividades políticas, sociais e econômicas. Havia muita banana na região? - Vamos abrir uma fábrica de doces! Plantamos fumo? - Vamos fabricar charutos! Fundou colégios, e trouxe professores de fora para aprimorar o ensino. Um deles, Álvaro de Carvalho, fez amizade com Solon e com ele ingressando na atividade política chegou à presidência do Estado após a morte de João Pessoa. Nem sempre as iniciativas de Celso Cirne foram vitoriosas. Ele sonhava acima da realidade e muitas de suas ações redundaram em prejuízo financeiro, mesmo com apoio oficial.

Um decreto do presidente Epitácio, de dois de agosto de 1922, autorizou o Ministério da Agricultura a contratar com Celso Cirne a instalação de uma fábrica de farinha de mandioca no distrito de Moreno, com capacidade para a produção diária de duzentas sacas, e concedia um empréstimo de 75 contos de reis para o empreendimento. Outro edito presidencial, este do dia 30 do mesmo mês e ano, abriu um credito especial ao Ministério da Agricultura para pagar ao industrial morenense. Não se sabe se algum dia o governo colheu retorno desse empréstimo, mas é sabido que um pequeno fracasso não levava o nosso herói ao desânimo.

Os seus planos, às vezes mirabolantes, prendiam o ouvinte pela força dos argumentos, mesmos que revelassem uma distância entre o sonho e a realidade.Coriolano Medeiros, patrono da nossa Academia de Letras, foi seu hóspede por uma noite, quando se dirigia a Barra de Santa Rosa. Recebido afavelmente em uma mesa farta, mesmo cansado da longa caminhada em lombo de animais, achegou-se para uma conversa na sala. E se pôs a ouvir. Aquele homem era atualizado com as coisas do mundo e, os ouvidos de Coriolano, mesmo num corpo fatigado, ficaram impressionados com a palestra “afável e cerrada do hospedeiro”. Nessa noite, eu não diria que se discutiu, pois era Celso que discorria sozinho sobre o desenvolvimento da região, com a estrada de ferro em Moreno. Saindo da órbita local, “conversava sobre o futuro da alimentação concentrada e na viagem de horas ao Rio, quando a aviação pouco subira além da Torre Eiffel e o almoço de uma pílula ainda não pesava na maca do soldado alemão”, conforme a narrativa de Celso Mariz.

O dia amanheceu ouvindo-se a voz de Celso Cirne. Coriolano, o hóspede, partiu sem conhecer a cama que lhe haviam preparado para o pernoite.(*Euclides Pinto,in História de Uma Estrada de Ferro no Nordeste)


REZAI POR FIRMINO, FIRMINO MORREU...

REZAI POR FIRMINO,FIRMINO MORREU... A Igreja de Nossa Senhora do Livramento só tinha uma torre, do lado direito.Para entronizar um relógio que pudesse ser visto por toda a cidade de Bananeiras, era necessário uma segunda, do lado esquerdo, por onde se derramava a urbe, descendo a ladeira,conforme registra o gaucho Luiz Antonio da Silva Nunes, em 1860, primeiro governador a visitar o nosso interior. Wilson Seixas destaca que a cidade crescia subindo uma ladeira. A torre foi construída e nela implantada um relógio cuja trilha musical acordava a cidade até bem pouco tempo, quando a era digital afogou a saudade e matou a homenagem a Firmino. Everaldo Lucena eternizou em livro a letra daquela musiquinha saída da verve popular: “Rezai por Firmino/ Firmino morreu/O relógio da torre/foi ele que deu”. Mas a minha curiosidade é descobrir quem foi esse Firmino, cantado em verso inesquecível, mas sem registro de patente, sobrenome ou origem. Há tempos que vasculho os escritos de vários historiadores, a começar por Maurílio Almeida passado por Humberto Nóbrega até Manoel Luiz da Silva e chegando a Tancredo de Carvalho. Nas “Memórias de um Brejeiro”, o primeiro prefeito de Solânea refere-se a uma pessoa muito querida na cidade, “João FIRMINO de Miranda Pontes, plantador de fumo, produto que vendia transformado em corda”. Era um homem rico, mas dificilmente seria esse o Firmino que procuro. Sendo do distrito de Moreno (Solânea), àquele tempo já com a rivalidade aguçada entre as duas comunidades, seria “excomungado”, caso doasse um relógio para a igreja da cidade sede, apesar da relação filial entre elas existente. Maurílio Almeida conta que certa feita, o comendador Felinto Rocha caminhava na Rua do Comercio, em Bananeiras, quando foi abordado pelo padre encarregado da construção da Igreja Matriz, em busca de donativos para a obra que se arrastava, pois o governo já confessara a falta de verba para essa edificação. O coronel assinou a lista e surpreendeu o padre: doara um conto de réis. Ao seu lado, seu primo FIRMINO Florentino seguiu os demais subscritores e passou duzentos mil réis ao cofre da Paróquia. Este sim, deve ser o FIRMINO que procuro, dizimista permanente da Freguesia, de família tradicional e responsabilidade social com o desenvolvimento municipal. Firmino Florentino da Rocha tinha posses, e seu nome aparece no inventário do irmão Joaquim Claudiano, o Quicó, a quem vendera uma propriedade em Santa Cruz, no Rio Grande do Norte. O Quicó viria a ser o pai de dona Dondon, avó de Clovis Bezerra, que faleceu depois de completar um centenário de nascimento. Firmino era filho de José Ferreira da Rocha, o coronel Camporra, casado com Ana Joaquim de Melo que também foram os pais de Ana Pautila da Rocha que veio a se casar com o primeiro estrangeiro a residir em Bananeiras, segundo Humberto Nóbrega, o português Tomas de Aquino Costa de Andrade. Desse casal, nasceria Maria Eugênia, que, casada com Francisco Bezerra Cavalcanti, teria uma única filha, Azeneth Bezerra de Aragão. Esta chegou aos 96 anos, é mãe de Marta, minha companheira há 54 anos. Comecei na torre da igreja e terminei chegando em casa. O Firmino que doou o relógio da Matriz é, sem duvida, tio-avô de Marta que, como prefeita da cidade mudou a sua história e o seu norte, seguindo a tradição familiar e se inscrevendo entre os benfeitores da “cidade mais charmosa da Paraíba”.

O CRIME DO GUARDA 33

RAMALHO LEITE O CRIME DO GUARDA 33. No tempo em que a Paraíba só oferecia a seus filhos os estudos preparatórios, existiam dois estabelecimentos de ensino referenciados: o Lyceu Parahybano e a Escola Normal. Ambos se localizavam no antigo Pátio do Colégio, depois praça Comendador Felizardo e finalmente, praça João Pessoa. Era nesse largo, à época cercada por um gradil, que se concentrava a estudantada- belas normalistas e os futuros bacharéis, caso tivessem condições de chegar à vetusta faculdade de direito do Recife. Da convivência desses jovens, com suas vistas voltadas para o futuro, nasceram muitos casamentos. Famílias distanciadas umas das outras por divergências políticas ou en treveros pessoais, poderiam unir-se através dos seus rebentos e encontrar a paz. O contrário também acontecia, e de namoros proibidos, surgiam motivos para uma guerra de linhagem, afetando a vaidade genealógica de alguns. Nunca se esperou, porém, que o local fosse reservado a testemunhar um dos mais trágicos incidentes da história paraibana na década dos anos vinte. Era setembro de 1923. Dirigia a Escola Normal o monsenhor João Milanez, respeitável membro do clero e ilustre educador. Incomodado com a algazarra dos estudantes do Lyceu e sua proximidade com as preciosas alunas de sua escola, resolveu estabelecer uma linha divisória no logradouro. A partir daquela linha imaginária, nenhum aluno do Lyceu poderia ultrapassar para ir ao encontro das normalistas. A Guarda Civil estava encarregada de manter essa determinação. Um sábado à tarde, Sady Castor, aluno do Lyceu, pretendeu ir ao encontro da sua namorada, a futura professora Àgaba Gonçalves de Medeiros. Foi admoestado pelo Guarda 33, que fazia o papel de “guardião da honra das moças”, um pernambucano batizado Antonio Carlos de Menezes. O estudante resolveu desobedecer à autoridade e invadiu a área proibida. Surgiu uma discussão entre os dois, resultando na morte de Sady, atingido por um tiro certeiro do destemperado vigilante. O estudante Sady Castor foi socorrido pelos médicos Newton Lacerda e Ademar Londres, cujos esforços para lhe salvar a vida, foram em vão. Conduzido para a casa do seu parente, dr.Gouveia Nóbrega, o corpo do inditoso jovem recebeu “absolvição in limine do padre José Coutinho” conforme noticiou A União do dia seguinte. O Guarda 33 foi “preso em flagrante pelo Sr. Dr. Mariano Falcão, entregue ao Guarda 41...e recolhido à cadeia pública”.Sady tinha apenas 25 anos e era filho do major Emiliano Castor de Araújo, residente em Soledade. Os estudantes do Lyceu Parahybano transformaram sua escola, local do velório, em palco de protesto e revolta contra as autoridades estaduais apontadas como responsáveis pelo desfecho sangrento de uma norma infeliz. O presidente Solón de Lucena, visando acalmar os ânimos exa ltados, substituiu o diretor da Escola Normal pelo seu conterrâneo do Bananeiras, o cônego Pedro Anísio, e fez-se representar nos funerais pelo secretário geral Álvaro de Carvalho. Mas não terminaria aí essa tragédia que quase derruba o presidente do Estado. A jovem Ágaba, inconsolável com a perda do namorado, cometeria suicídio alguns dias depois. Em carta, pediu desculpas àquela que seria sua futura sogra e, revelou suas razões: “ Resta-nos confiar na justiça da terra? Não, confiarei na Divina, pois que aquela falha e esta jamais falhará”. E concluiu: “Peço-vos que abençoeis aquela que amanhã irá fazer companhia àquele que soube honrar e fazer-se honrar”. A inconformada normalista pertencia a família importante da nossa sociedade. A União e o Governo, acossados por uma opinião pública abalada com o infortúnio que vitimou dois jovens enamorados, não quis agravar os fatos e tratou de minimizá-los. Seu noticiário, na edição de 07.10.1923, assim registrou o passamento da infeliz jovem: “Hontem às 18 horas, mais ou menos, sentindo-se mal do estômago, a senhorita Àgaba diluiu num copo d´água uma droga qualquer, e julgando tra tar-se de bicarbonato de sódio, ingeriu a solução. Ocorre que a infeliz moça por um equivoco fatal, trocara os vidros do medicamentos, tomando arsênico em vez de bicarbonato”.Não me recordo se o jornalista Severino Ramos incluiu o crime do Guarda 33, no rol daqueles que abalaram a Paraíba. Se não o fez, deveria tê-lo feito!

Antigas páginas de Jornais

O saudoso escritor Wellington Aguiar contou quase toda a história da Paraíba, através das páginas dos jornais. Do Império, quando os periódicos começaram a transmitir as noticias da Corte, passando pela Abolição e chegando à República, tudo foi comentado a partir de uma notícia ricamente expressa em detalhes e adjetivos. Quando na direção de A União, passei a conviver com traças e ácaros mas, de luvas e máscara, arriscava-me a mergulhar naqueles preciosos arquivos em busca do passado, em fatos e curiosidades de épocas distintas. Que vício! Apaixonei-me por essas pesquisas e até no Arquivo Nacional encontrei páginas que me impressionam pelo inusitado de sua forma de redação. Era assim que se noticiava o nascimento de uma criança: “O ilustre Sr. Francisco Paulino de Figueiredo e sua Exmª. Senhora tiveram ante-hontem o seu lar domestico ale grado pelo chilrear innocente de mais juma creancinha que lhe veio aumentar a prole. Nossos parabens”.

Os atos oficiais, emanados do Palácio do Governo, eram igualmente publicados no jornal do Partido Republicano Federal do Estado da Parahyba. Para ocupar esse meu espaço semanal, busquei algumas portarias que referenciam figuras ilustres do passado, hoje, quase todos, nomes de ruas e praças. Na edição de 04 de novembro de 1898, encontramos o nosso futuro presidente Castro Pinto, no inicio da uma careira que chegou ao Senado da República: “Por acto de hontem do governo do Estado, foi nomeado o dr. Castro Pinto para a cadeira de sociologia e moral do Lyceu Paraibano.Similhante nomeação, tendo recahido sobre pessoa muito competente e de tão invejável talento como é o dr. Castro Pinto , é digno de todo applauso”.

Outra noticia, nos dá ciência de importante nomeação, essa de interesse do setor econômico. “Por telegramma que vai na secção competente, sabemos ter sido nomeado Gerente da Caixa Economica d´este Estado, o nosso distincto e particular amigo e colega de redacção, dr.Joao Leopoldo da Silva Loureiro.Nossas cordiais felicitações a este nosso amigo pela prova de confiança com que acaba de ser distinguido e ao governo pela feliz escolha”.

Não fugirá dos meus olhos qualquer referencia à minha região brejeira, principalmente Bananeiras, o segundo maior território ali sediado a partir de 1833, segundo Horácio de Almeida, que aponta Areia em terceiro lugar. Para a cidadela dos barões do café foi nomeado para o cargo de carcereiro, o cidadão Antonio Paulino dos Santos Filho, por indicação do “respectivo delegado de policia”. Em data próxima, para sub-prefeito, assumiria o cafeicultor Sigismundo Guedes Pereira Filho.O padre Walfredo Leal, que dirigia o Estado, em 1 de outubro de 1896 assinou portaria removendo de Bananeiras para Mamanguape o professor João Ignácio da Silva Queiroz, enquanto o titular da cadeira de ensino primário de Mamanguape, ocuparia seu lugar em Bananeiras. Ao que parece, o primeiro removido adoeceu com o impacto da transferência. O mesmo diário nos dá conta de que o mencionado professor foi afastado do cargo, “com ordenado, durante três meses para tratar sua saúde, onde lhe convier”.

Pelas páginas de A União, temos noticia de que a Intendência Municipal de Bananeiras resolveu ceder à Diretoria Geral dos Correios e Telegraphos a casa da rua do Livramento daquela cidade, “com a mobília precisa para nela ser estabelecida a estação telegráphica”. A cessão era condicionada. Dentro de um ano, o Correio obrigava-se a construir sua sede própria. O acordo foi cumprido e a sede dos correios de Bananeiras é um centenário prédio bem conservado até hoje.A inauguração da linha telegráfica ligou a “florescente cidade ao mundo civilizado”, diz o jornal.

E para não dizer que não falei de flores, digo, das flores de café que mantiveram a riqueza do brejo por muitos anos, registro o seguinte anuncio: “Oliveiros Coriolano P. de Lucena, avisa aos senhores plantadores de café, que em sua propriedade Angicos, acha-se a venda pelo preço de vinte a trinta mil reis o milheiro, cem mil pés de café próprios para muda.Bananeiras 8 de abril de 1896”. Nessa propriedade o menino Iveraldo Lucena, futuro andarilho, corria c&eac ute;lere entre os pés de café. (Mantive nas transcrições a grafia da época)


O VORONOFF BRASILEIRO SURGIU EM BANANEIRAS

O epíteto de “Vornoff Brasileiro” foi dado ao major José Fábio da Costa Lira, farmacêutico em Bananeiras mas nascido em Umbuzeiro, onde foi prefeito municipal. O jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, em edição de 11 de agosto de 1936, na primeira página, revela a existência, “no interior da Parahyba, do autor de um processo a que se atribuem curas assombrosas”. Doentes com tuberculose, câncer, lepra e diabetes eram objeto de tentativas de curas pelo método que denominou “lymphotherapia” e que consistia na “transmutação do princípio vital que afflora de certas glândulas de creanças e menores, desde que estejam sãs, para pessoas doentes, isto é, para aquelas cuja energia orgânica esteja perturbada, diminuída ou esgotada”, explica José Fabio, para finalmente comparar: “se posso dizer, é a voronofftherapia simplificada”.

Ao usar o neologismo voronofftherapia, o criador da famosa “vacina de cuspe”, como ficou conhecida a injeção que aplicava nos enfermos, refere-se ao cirurgião russo radicado em Paris, Serge Voronoff (1866-1951) que foi pioneiro em método de transplante e prometia recuperar e garantir a vitalidade, a plena atividade física e mental... por meio do enxerto de glândulas sexuais de primatas não humanos, conforme explica Renata Moehlecke, da Fiocruz.A reportagem de “A Noite” sobre o “modesto farmacêutico do interior” também aludia à possibi lidade de seu sistema provocar o rejuvenescimento e garantir uma “velhice mais sadia e mais alegre”.

O jornal carioca mandou a Bananeiras um repórter ouvir o esculápio, para tentar explicar aos leitores a razão da sua fama que já alcançava a Paraíba e os vizinhos Rio Grande do Norte e Pernambuco. Tal qual uma romaria, doentes de toda parte vinham pedir arrego na Farmácia de Zé Fábio. Sua atividade, porém, foi considerada irregular pela Sociedade de Medicina da ParaÍba e ele mesmo reconhece – “sei que venho agindo fora da minha profissão, pois não sou m&eac ute;dico,mas comprehendo também que a sciencia não pode ser patrimônio de uma classe”... Revela que suas experiências não fazem “victimas” e, conformado, conclui: “já me compensam as emoções de ter com o meu méthodo aliviado algumas dores humanas”

Depois do pronunciamento negativo da entidade médica paraibana começaram as perseguições ao boticário. O vigário de Bananeiras, José Pereira Diniz, “na qualidade de guia dos destinos espirituaes da parochia” ao tomar conhecimento de que José Fábio havia dito que “ a lymphother apia provinha de uma missão divina recebida de um espírito superior que não era o Deus da religião de vocês”, resolveu interpelá-lo por carta, devidamente registrada no Livro de Tombo da Paróquia. A resposta às indagações do sacerdote foram respondidas uma a uma. “O meu methodo de cura lymphotherapia ou sialotherapia é resultado de estudos científicos publicados em dois livros e um memorial inédito lido perante o corpo médico do Hospital Pedro I, de Campina Grande” informa. E conclui o cientista autodidata: “Vossa Reverendissima sabe que tenho idéias espíritas, mas, que em tempo algum as empreguei para a cura do corpo e sim para as do meu espírito”.

Proibido de exercer suas experiências na Paraíba, o major José Fabio da Costa Lira (naquele tempo em Bananeiras todo ilustre era major) mudou-se para Serra Negra, no Rio Grande do Norte. Em pouco tempo, a categoria médica local agiu contra sua atividade. Deusdedith Leitão, conta em “Inventário do Tempo” que era um jovem viajante e, na sua faina comercial, encontrou José Fabio em plena atividade em Lavras de Mangabeira, no Ceará. E tomou a “vacin a de cuspe” por recomendação de sua mãe, crente dos resultados advindos da injeção “milagrosa”. “Era o que ele chamava de salioterapia que nada mais era de que a saliva transformada num liquido injetável que se indicava a qualquer tipo de doença”, explica Deusdedith.

O trabalho experimental de José Fabio da Costa Lira está detalhado no livro “Da Lymphotherapia ao Physio-Pschismo” publicado em 1924 sob o patrocínio do seu compadre Sólon de Lucena, então presidente do Estado. Ele narra os resultados satisfatórios de seu método de curar e revela, na reportagem de 1936, que conseguiu curar a tuberculose, “onde reste ainda uma parte do pulm ão e espero retrogradar a lepra ao estado de eczema, como já tenho feito da tuberculose uma bronquite commum.Conforme observações mais recentes, consegui reduzir o assuca, num diabético, a mais da metade, e levantar-lhe as forças, dissipar-lhe a catarata e abater a febre do enfermo”.

Correligionário dos Pessoa, compadre e amigo do coronel Antonio Pessoa a quem chamava de Toinho, foi por ele escolhido prefeito de Umbuzeiro. Desgostoso da política local, trazendo uma carta de apresentação de seu chefe político para Solon de Lucena, em Bananeiras instalou-se e se tornou, além de amigo-irmão de Sólon, seu colega como professor de francês no Instituto Bananeirense, por eles fundado ao lado de Dionísio Maia e outros.

Foram vãs as tentativas do avô de Waldir dos Santos Lima em legalizar o seu método cientifico de curar. José Fabio da Costa Lira teria que se conformar com o apoio moral que recebia dos que alcançavam a saúde plena. Não acumulou fortuna, mas lhe sobraram sofrimento e frustrações, fruto das perseguições sofridas ao longo da existência. Sua maior consternação, porém, foi não ter conseguido, com a lymphotherapia, prolongar a vida do seu compadre Solon de Lucena. O clima saudável do curimataú, da Fazenda Pedra D´Àgua, onde morreu o ex-presidente da Paraíba, foi insuficiente para a sua cura.


O PADRE QUE ACUSOU IBIAPINA

Transcorria uma madorra sessão da Assembléia Provincial de 1885, em que se discutia as parcas verbas do Erário e o seu destino. Havia uma proposta de que se retirasse parte do bolo destinado à Santa Casa da Misericórdia para as Casas de Caridades fundadas pelo padre Ibiapina- José Antônio Maria de Ibiapina, àquela altura, já falecido. De onde menos se esperava surgiu a reação: o deputado padre Joel Esdras Lins Fialho resolveu detonar a Casa de Caridade de Santa Fé e seus dirigentes, notadamente, dona Cândida, desprendida e rica dama que largou a família para se dedicar à missão iniciada pelo padre-mestre. A crítica foi ampliada para outras unidades, mas, aquela situada às portas de Arara, onde o deputado fora capelão, mereceu maior censura.

Para o padre Joel, as Casas de Recolhimento, como as preferia chamar o padre Euphosino Maria Ramalho, também deputado naquela legislatura, estavam sendo desvirtuadas de suas finalidades iniciais. Denunciou a existência de uma dependência que serviria de prisão para castigo das internas, muitas das quais, padeciam de males incuráveis, não merecendo a devida atenção da diretora. Seu discurso, interrompido por protestos de “não apoiado”, mereceu contestação do deputado José Campelo Galvão, além de sucessivos apartes do vigário de Bananeiras-padre Euphosino, e de Irineu Joffily, conforme nos conta o padre Ernando Teixeira de Carvalho, confrade do IHGP.

O deputado José Campello, nobre representante de Mamanguape, terminou por admitir que o acusador tivesse “sido acometido de uma alucinação de momento” e rechaçou o que considerou um “escárnio contra as casas de caridade da província fundadas por este grande homem - o padre Ibiapina, cuja memória é sagrada em nossos corações...um verdadeiro apóstolo da sociedade”. Ao que parece, as Casas de Caridade não conseguiram levar qualquer parcela das verbas destinadas à Santa Casa, daí por que o padre Euphosino resolveu recorrer ao Imperador Pedro II reivindicando uma pensão mensal para manter as internas de Santa Fé e de Cabaceiras (vide A União, de 16.01.16).

O autor de “Ibiapina e Santa Fé” não sabe a que atribuir os ataques do padre Joel à obra de Ibiapina, mesmo desculpando-se: “doe-me dentro da alma, sr.Presidente,ter necessidade de tratar aqui de uma questão tão ingrata e espinhosa”. Imaginei que essa posição adversa houvesse nascido em Areia, terra da origem do padre Joel e por onde havia passado Ibiapina como advogado. Mas por esse tempo Joel era criança. Não encontrei nenhum vestígio de qualquer animosidade porventura surgida no passado areiense de ambos. Talvez o padre houvesse puxado ao avô, capitão-mor Bartolomeu da Costa Pereira, dono do engenho Viração, “um temperamento estourado e de pouca vocação para a política”, segundo Horácio de Almeida. O capitão era presidente da Câmara Municipal de Areia em 1837 e abandonou o cargo “para não se envergonhar de continuar servindo a um governo indigno”. A força política dos Lins Fialho vem do velho Capitão, que elegeu deputado o filho Francisco Lins Fialho e depois seu irmão Joaquim Álvares, padre como o sobrinho Joel, filho de Francisco.

O presidente da Casa interferiu nos debates e tentou parar o denunciante com a expressão latina “parce sepultis” a que o padre Ernando traduziu ao pé da letra como “enterrado,perdoado”. Uma forma de dizer: “perdoa os mortos que não podem se defender”.

Padre Joel Esdras quando assumiu a cadeira de deputado respondia pela recém criada freguesia de Currais Novos-RN. Segundo Celso Mariz, chegou à Assembléia em virtude da anulação da eleição do bananeirense Ascendino Neves e mais dois falecimentos. Foi um dos três suplentes convocados. Os votos que adquirira vieram do distrito eleitoral que tinha sede em Areia e incluía Alagoa Nova, Bananeiras, Araruna, e Cuité, onde então era pároco. Seu único mandato o tornou famoso pelo discurso contra as Casas de Caridade. Criada a Arquidiocese da Paraíba, em 1895, o padre Joel Esdras foi designado vigário encomendado de Araruna, onde permaneceu até a morte.

O historiador Humberto Fonseca nos revela que o padre, mesmo quando se tornou avulso e passou as obrigações sacerdotais da paróquia de Nossa Senhora da Conceição para outro clérigo, não se omitiu da política local. Foi conselheiro municipal, várias vezes, e presidente daquele Conselho. Uma das querelas em que se envolveu contou com a ingerência do presidente Castro Pinto que, a princípio, conciliador, terminou por enviar um contingente policial para acalmar os ânimos da disputa política envolvendo os candidatos a conselheiros, entre os quais se destacava o padre Targino Pereira da Costa, filho da terra e acostumado ao poder de mando de sua família, uma oligarquia que ainda hoje sobrevive na política de Araruna.

E por falar em família, o padre Joel Esdras resolveu constituir a sua, e renunciando ao voto de castidade botou no mundo enorme descendência que ocupa posição de prestígio por esse Brasil a fora, na cátedra, na magistratura, na medicina e em outros ramos de atividade, sempre orgulhosa desse tronco ancestral.
Mas foi com seu discurso na Assembléia Provincial da Parahyba do Norte, que o padre Joel conquistou seu lugar na história.

P.S. É a segunda vez que abordo esse assunto: o padre José Euphosino Maria Ramalho, nascido e batizado no Piancó com o nome de José Euphosino Pinto Ramalho, foi vigário colado de Bananeiras até 1903. Na legislatura de 1884-1885, como colega do padre Joel Esdras, Celso Mariz nos dá noticia da presença do deputado padre José Euphosino Maria de Carvalho. Só posso atribuir a um erro de grafia que vem sendo repetido, pois, inclusive, o nome Maria foi acrescentado em homenagem ao padre-mestre José Antonio Maria de Ibiapina, ao lado do qual, foi sepultado, a seu pedido. Que me tirem essa dúvida o padre Ernando e Humberto Fonseca, já que não posso invocar os saudosos Celso Mariz e Deusdedith Leitão, responsáveis pela Memória da Assembléia Legislativa da Paraíba.
 


ESSA QUESTÃO DE QUÓRUM...

A todo início de sessão legislativa os jornais publicam a ameaça de corte, nos subsídios dos parlamentares, dos dias correspondentes a suas faltas. Mudam os presidentes, mudam os perfis dos integrantes da Casa, seja ela municipal, estadual ou federal, e permanece o mesmo questionamento. O experiente Waldir dos Santos Lima, que há pouco nos deixou, costumava dizer em tom de ironia: democracia é um regime caro, só tem quem pode! Na verdade a sua reflexão nos leva a outra, mais ampla e discutível nesses dias turbulentos de desprestígio dos políticos: fechem as casas legislativas, lacrem as tribunas e saberemos a falta que fazem. Mesmo com seus defeitos, estruturais ou de representatividade, qualquer parlamento aberto é melhor que uma ditadura que fecha, prende e arrebenta.

Os repórteres credenciados nas casas legislativas reclamam a ausência dos seus integrantes às sessões, mais pelo não cumprimento de suas pautas que pelo prejuízo causado ao Erário.Uma sessão declaratória não produz os fatos que os jornais e emissoras mandam buscar nos plenários.Os espaços destinados ao noticiário político precisam ser preenchidos. A ausência dos deputados aos debates aumenta o trabalho da reportagem. Restam as entrevistas de “corredores” e as noticias especulativas para satisfazer o chefe da redação. À imprensa não interessa a justificativa de que o mandato se prolonga nas bases eleitorais.As poltronas devem permanecer ocupadas em todos os recintos e em todas as sessões.

No passado, o mandato era remunerado por sessões.No Império se pagava quadro mil reis diários a um deputado provincial. O complemento era calculado por léguas entre o distrito de origem e a sede da província. Quem faltasse, não recebia. Celso Mariz destaca que as léguas eram contadas uma única vez. Isto é, não se pagava pelo retorno às bases. Talvez uma forma de obrigar a permanência do deputado na Capital até o final da sessão legislativa. Mas o Imperador, já nos estertores da Monarquia, mandou alterar o cálculo e deu a todos o direito de ir e vir, remuneradamente. Na República, começaram pagando dez mil réis diários e trezentos réis fixos. Nas proximidades dos anos 1930, a representação já era um conto de réis e o comparecimento às sessões rendia quarenta mil réis diários, “o que dava para o trem e o queijo do chefe do partido”, sugere Mariz.

Desde quando desapareceu o jeton - retribuição pelo comparecimento às sessões - aumentou a incidência de ausências remuneradas. Mas não se pense que esse costume é recente. No tempo que deputado usava fraque e amarrava seu cavalo em uma estribaria próxima, veja o que publicou o jornal A União:
“Assembléia Legislativa do Estado da Parahyba: Sessão Preparatória de 15 de janeiro de 1895. Presidencia do Sr.Vigário Walfredo. Ao meio dia os Exms. srs. Walfredo, Santa Cruz,Botelho,Apollonio,Valdivino,Trindade,José Fernandes,Bento Vianna,João Tavares,João Lourenço,Dinoá, Mindello e Pinagé, o Sr.Presidente declara que não havendo numero legal,deixa de comunicar ao Exm.Presidente do Estado para vir assistir a instalação da assembléia e levanta a sessão”.
A Assembléia deixou de se instalar por falta de número regimental? Nunca tinha ouvido falar. Pois já melhorou muito.