REZAI POR FIRMINO, FIRMINO MORREU...

REZAI POR FIRMINO,FIRMINO MORREU... A Igreja de Nossa Senhora do Livramento só tinha uma torre, do lado direito.Para entronizar um relógio que pudesse ser visto por toda a cidade de Bananeiras, era necessário uma segunda, do lado esquerdo, por onde se derramava a urbe, descendo a ladeira,conforme registra o gaucho Luiz Antonio da Silva Nunes, em 1860, primeiro governador a visitar o nosso interior. Wilson Seixas destaca que a cidade crescia subindo uma ladeira. A torre foi construída e nela implantada um relógio cuja trilha musical acordava a cidade até bem pouco tempo, quando a era digital afogou a saudade e matou a homenagem a Firmino. Everaldo Lucena eternizou em livro a letra daquela musiquinha saída da verve popular: “Rezai por Firmino/ Firmino morreu/O relógio da torre/foi ele que deu”. Mas a minha curiosidade é descobrir quem foi esse Firmino, cantado em verso inesquecível, mas sem registro de patente, sobrenome ou origem. Há tempos que vasculho os escritos de vários historiadores, a começar por Maurílio Almeida passado por Humberto Nóbrega até Manoel Luiz da Silva e chegando a Tancredo de Carvalho. Nas “Memórias de um Brejeiro”, o primeiro prefeito de Solânea refere-se a uma pessoa muito querida na cidade, “João FIRMINO de Miranda Pontes, plantador de fumo, produto que vendia transformado em corda”. Era um homem rico, mas dificilmente seria esse o Firmino que procuro. Sendo do distrito de Moreno (Solânea), àquele tempo já com a rivalidade aguçada entre as duas comunidades, seria “excomungado”, caso doasse um relógio para a igreja da cidade sede, apesar da relação filial entre elas existente. Maurílio Almeida conta que certa feita, o comendador Felinto Rocha caminhava na Rua do Comercio, em Bananeiras, quando foi abordado pelo padre encarregado da construção da Igreja Matriz, em busca de donativos para a obra que se arrastava, pois o governo já confessara a falta de verba para essa edificação. O coronel assinou a lista e surpreendeu o padre: doara um conto de réis. Ao seu lado, seu primo FIRMINO Florentino seguiu os demais subscritores e passou duzentos mil réis ao cofre da Paróquia. Este sim, deve ser o FIRMINO que procuro, dizimista permanente da Freguesia, de família tradicional e responsabilidade social com o desenvolvimento municipal. Firmino Florentino da Rocha tinha posses, e seu nome aparece no inventário do irmão Joaquim Claudiano, o Quicó, a quem vendera uma propriedade em Santa Cruz, no Rio Grande do Norte. O Quicó viria a ser o pai de dona Dondon, avó de Clovis Bezerra, que faleceu depois de completar um centenário de nascimento. Firmino era filho de José Ferreira da Rocha, o coronel Camporra, casado com Ana Joaquim de Melo que também foram os pais de Ana Pautila da Rocha que veio a se casar com o primeiro estrangeiro a residir em Bananeiras, segundo Humberto Nóbrega, o português Tomas de Aquino Costa de Andrade. Desse casal, nasceria Maria Eugênia, que, casada com Francisco Bezerra Cavalcanti, teria uma única filha, Azeneth Bezerra de Aragão. Esta chegou aos 96 anos, é mãe de Marta, minha companheira há 54 anos. Comecei na torre da igreja e terminei chegando em casa. O Firmino que doou o relógio da Matriz é, sem duvida, tio-avô de Marta que, como prefeita da cidade mudou a sua história e o seu norte, seguindo a tradição familiar e se inscrevendo entre os benfeitores da “cidade mais charmosa da Paraíba”.

O CRIME DO GUARDA 33

RAMALHO LEITE O CRIME DO GUARDA 33. No tempo em que a Paraíba só oferecia a seus filhos os estudos preparatórios, existiam dois estabelecimentos de ensino referenciados: o Lyceu Parahybano e a Escola Normal. Ambos se localizavam no antigo Pátio do Colégio, depois praça Comendador Felizardo e finalmente, praça João Pessoa. Era nesse largo, à época cercada por um gradil, que se concentrava a estudantada- belas normalistas e os futuros bacharéis, caso tivessem condições de chegar à vetusta faculdade de direito do Recife. Da convivência desses jovens, com suas vistas voltadas para o futuro, nasceram muitos casamentos. Famílias distanciadas umas das outras por divergências políticas ou en treveros pessoais, poderiam unir-se através dos seus rebentos e encontrar a paz. O contrário também acontecia, e de namoros proibidos, surgiam motivos para uma guerra de linhagem, afetando a vaidade genealógica de alguns. Nunca se esperou, porém, que o local fosse reservado a testemunhar um dos mais trágicos incidentes da história paraibana na década dos anos vinte. Era setembro de 1923. Dirigia a Escola Normal o monsenhor João Milanez, respeitável membro do clero e ilustre educador. Incomodado com a algazarra dos estudantes do Lyceu e sua proximidade com as preciosas alunas de sua escola, resolveu estabelecer uma linha divisória no logradouro. A partir daquela linha imaginária, nenhum aluno do Lyceu poderia ultrapassar para ir ao encontro das normalistas. A Guarda Civil estava encarregada de manter essa determinação. Um sábado à tarde, Sady Castor, aluno do Lyceu, pretendeu ir ao encontro da sua namorada, a futura professora Àgaba Gonçalves de Medeiros. Foi admoestado pelo Guarda 33, que fazia o papel de “guardião da honra das moças”, um pernambucano batizado Antonio Carlos de Menezes. O estudante resolveu desobedecer à autoridade e invadiu a área proibida. Surgiu uma discussão entre os dois, resultando na morte de Sady, atingido por um tiro certeiro do destemperado vigilante. O estudante Sady Castor foi socorrido pelos médicos Newton Lacerda e Ademar Londres, cujos esforços para lhe salvar a vida, foram em vão. Conduzido para a casa do seu parente, dr.Gouveia Nóbrega, o corpo do inditoso jovem recebeu “absolvição in limine do padre José Coutinho” conforme noticiou A União do dia seguinte. O Guarda 33 foi “preso em flagrante pelo Sr. Dr. Mariano Falcão, entregue ao Guarda 41...e recolhido à cadeia pública”.Sady tinha apenas 25 anos e era filho do major Emiliano Castor de Araújo, residente em Soledade. Os estudantes do Lyceu Parahybano transformaram sua escola, local do velório, em palco de protesto e revolta contra as autoridades estaduais apontadas como responsáveis pelo desfecho sangrento de uma norma infeliz. O presidente Solón de Lucena, visando acalmar os ânimos exa ltados, substituiu o diretor da Escola Normal pelo seu conterrâneo do Bananeiras, o cônego Pedro Anísio, e fez-se representar nos funerais pelo secretário geral Álvaro de Carvalho. Mas não terminaria aí essa tragédia que quase derruba o presidente do Estado. A jovem Ágaba, inconsolável com a perda do namorado, cometeria suicídio alguns dias depois. Em carta, pediu desculpas àquela que seria sua futura sogra e, revelou suas razões: “ Resta-nos confiar na justiça da terra? Não, confiarei na Divina, pois que aquela falha e esta jamais falhará”. E concluiu: “Peço-vos que abençoeis aquela que amanhã irá fazer companhia àquele que soube honrar e fazer-se honrar”. A inconformada normalista pertencia a família importante da nossa sociedade. A União e o Governo, acossados por uma opinião pública abalada com o infortúnio que vitimou dois jovens enamorados, não quis agravar os fatos e tratou de minimizá-los. Seu noticiário, na edição de 07.10.1923, assim registrou o passamento da infeliz jovem: “Hontem às 18 horas, mais ou menos, sentindo-se mal do estômago, a senhorita Àgaba diluiu num copo d´água uma droga qualquer, e julgando tra tar-se de bicarbonato de sódio, ingeriu a solução. Ocorre que a infeliz moça por um equivoco fatal, trocara os vidros do medicamentos, tomando arsênico em vez de bicarbonato”.Não me recordo se o jornalista Severino Ramos incluiu o crime do Guarda 33, no rol daqueles que abalaram a Paraíba. Se não o fez, deveria tê-lo feito!

Antigas páginas de Jornais

O saudoso escritor Wellington Aguiar contou quase toda a história da Paraíba, através das páginas dos jornais. Do Império, quando os periódicos começaram a transmitir as noticias da Corte, passando pela Abolição e chegando à República, tudo foi comentado a partir de uma notícia ricamente expressa em detalhes e adjetivos. Quando na direção de A União, passei a conviver com traças e ácaros mas, de luvas e máscara, arriscava-me a mergulhar naqueles preciosos arquivos em busca do passado, em fatos e curiosidades de épocas distintas. Que vício! Apaixonei-me por essas pesquisas e até no Arquivo Nacional encontrei páginas que me impressionam pelo inusitado de sua forma de redação. Era assim que se noticiava o nascimento de uma criança: “O ilustre Sr. Francisco Paulino de Figueiredo e sua Exmª. Senhora tiveram ante-hontem o seu lar domestico ale grado pelo chilrear innocente de mais juma creancinha que lhe veio aumentar a prole. Nossos parabens”.

Os atos oficiais, emanados do Palácio do Governo, eram igualmente publicados no jornal do Partido Republicano Federal do Estado da Parahyba. Para ocupar esse meu espaço semanal, busquei algumas portarias que referenciam figuras ilustres do passado, hoje, quase todos, nomes de ruas e praças. Na edição de 04 de novembro de 1898, encontramos o nosso futuro presidente Castro Pinto, no inicio da uma careira que chegou ao Senado da República: “Por acto de hontem do governo do Estado, foi nomeado o dr. Castro Pinto para a cadeira de sociologia e moral do Lyceu Paraibano.Similhante nomeação, tendo recahido sobre pessoa muito competente e de tão invejável talento como é o dr. Castro Pinto , é digno de todo applauso”.

Outra noticia, nos dá ciência de importante nomeação, essa de interesse do setor econômico. “Por telegramma que vai na secção competente, sabemos ter sido nomeado Gerente da Caixa Economica d´este Estado, o nosso distincto e particular amigo e colega de redacção, dr.Joao Leopoldo da Silva Loureiro.Nossas cordiais felicitações a este nosso amigo pela prova de confiança com que acaba de ser distinguido e ao governo pela feliz escolha”.

Não fugirá dos meus olhos qualquer referencia à minha região brejeira, principalmente Bananeiras, o segundo maior território ali sediado a partir de 1833, segundo Horácio de Almeida, que aponta Areia em terceiro lugar. Para a cidadela dos barões do café foi nomeado para o cargo de carcereiro, o cidadão Antonio Paulino dos Santos Filho, por indicação do “respectivo delegado de policia”. Em data próxima, para sub-prefeito, assumiria o cafeicultor Sigismundo Guedes Pereira Filho.O padre Walfredo Leal, que dirigia o Estado, em 1 de outubro de 1896 assinou portaria removendo de Bananeiras para Mamanguape o professor João Ignácio da Silva Queiroz, enquanto o titular da cadeira de ensino primário de Mamanguape, ocuparia seu lugar em Bananeiras. Ao que parece, o primeiro removido adoeceu com o impacto da transferência. O mesmo diário nos dá conta de que o mencionado professor foi afastado do cargo, “com ordenado, durante três meses para tratar sua saúde, onde lhe convier”.

Pelas páginas de A União, temos noticia de que a Intendência Municipal de Bananeiras resolveu ceder à Diretoria Geral dos Correios e Telegraphos a casa da rua do Livramento daquela cidade, “com a mobília precisa para nela ser estabelecida a estação telegráphica”. A cessão era condicionada. Dentro de um ano, o Correio obrigava-se a construir sua sede própria. O acordo foi cumprido e a sede dos correios de Bananeiras é um centenário prédio bem conservado até hoje.A inauguração da linha telegráfica ligou a “florescente cidade ao mundo civilizado”, diz o jornal.

E para não dizer que não falei de flores, digo, das flores de café que mantiveram a riqueza do brejo por muitos anos, registro o seguinte anuncio: “Oliveiros Coriolano P. de Lucena, avisa aos senhores plantadores de café, que em sua propriedade Angicos, acha-se a venda pelo preço de vinte a trinta mil reis o milheiro, cem mil pés de café próprios para muda.Bananeiras 8 de abril de 1896”. Nessa propriedade o menino Iveraldo Lucena, futuro andarilho, corria c&eac ute;lere entre os pés de café. (Mantive nas transcrições a grafia da época)


O VORONOFF BRASILEIRO SURGIU EM BANANEIRAS

O epíteto de “Vornoff Brasileiro” foi dado ao major José Fábio da Costa Lira, farmacêutico em Bananeiras mas nascido em Umbuzeiro, onde foi prefeito municipal. O jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, em edição de 11 de agosto de 1936, na primeira página, revela a existência, “no interior da Parahyba, do autor de um processo a que se atribuem curas assombrosas”. Doentes com tuberculose, câncer, lepra e diabetes eram objeto de tentativas de curas pelo método que denominou “lymphotherapia” e que consistia na “transmutação do princípio vital que afflora de certas glândulas de creanças e menores, desde que estejam sãs, para pessoas doentes, isto é, para aquelas cuja energia orgânica esteja perturbada, diminuída ou esgotada”, explica José Fabio, para finalmente comparar: “se posso dizer, é a voronofftherapia simplificada”.

Ao usar o neologismo voronofftherapia, o criador da famosa “vacina de cuspe”, como ficou conhecida a injeção que aplicava nos enfermos, refere-se ao cirurgião russo radicado em Paris, Serge Voronoff (1866-1951) que foi pioneiro em método de transplante e prometia recuperar e garantir a vitalidade, a plena atividade física e mental... por meio do enxerto de glândulas sexuais de primatas não humanos, conforme explica Renata Moehlecke, da Fiocruz.A reportagem de “A Noite” sobre o “modesto farmacêutico do interior” também aludia à possibi lidade de seu sistema provocar o rejuvenescimento e garantir uma “velhice mais sadia e mais alegre”.

O jornal carioca mandou a Bananeiras um repórter ouvir o esculápio, para tentar explicar aos leitores a razão da sua fama que já alcançava a Paraíba e os vizinhos Rio Grande do Norte e Pernambuco. Tal qual uma romaria, doentes de toda parte vinham pedir arrego na Farmácia de Zé Fábio. Sua atividade, porém, foi considerada irregular pela Sociedade de Medicina da ParaÍba e ele mesmo reconhece – “sei que venho agindo fora da minha profissão, pois não sou m&eac ute;dico,mas comprehendo também que a sciencia não pode ser patrimônio de uma classe”... Revela que suas experiências não fazem “victimas” e, conformado, conclui: “já me compensam as emoções de ter com o meu méthodo aliviado algumas dores humanas”

Depois do pronunciamento negativo da entidade médica paraibana começaram as perseguições ao boticário. O vigário de Bananeiras, José Pereira Diniz, “na qualidade de guia dos destinos espirituaes da parochia” ao tomar conhecimento de que José Fábio havia dito que “ a lymphother apia provinha de uma missão divina recebida de um espírito superior que não era o Deus da religião de vocês”, resolveu interpelá-lo por carta, devidamente registrada no Livro de Tombo da Paróquia. A resposta às indagações do sacerdote foram respondidas uma a uma. “O meu methodo de cura lymphotherapia ou sialotherapia é resultado de estudos científicos publicados em dois livros e um memorial inédito lido perante o corpo médico do Hospital Pedro I, de Campina Grande” informa. E conclui o cientista autodidata: “Vossa Reverendissima sabe que tenho idéias espíritas, mas, que em tempo algum as empreguei para a cura do corpo e sim para as do meu espírito”.

Proibido de exercer suas experiências na Paraíba, o major José Fabio da Costa Lira (naquele tempo em Bananeiras todo ilustre era major) mudou-se para Serra Negra, no Rio Grande do Norte. Em pouco tempo, a categoria médica local agiu contra sua atividade. Deusdedith Leitão, conta em “Inventário do Tempo” que era um jovem viajante e, na sua faina comercial, encontrou José Fabio em plena atividade em Lavras de Mangabeira, no Ceará. E tomou a “vacin a de cuspe” por recomendação de sua mãe, crente dos resultados advindos da injeção “milagrosa”. “Era o que ele chamava de salioterapia que nada mais era de que a saliva transformada num liquido injetável que se indicava a qualquer tipo de doença”, explica Deusdedith.

O trabalho experimental de José Fabio da Costa Lira está detalhado no livro “Da Lymphotherapia ao Physio-Pschismo” publicado em 1924 sob o patrocínio do seu compadre Sólon de Lucena, então presidente do Estado. Ele narra os resultados satisfatórios de seu método de curar e revela, na reportagem de 1936, que conseguiu curar a tuberculose, “onde reste ainda uma parte do pulm ão e espero retrogradar a lepra ao estado de eczema, como já tenho feito da tuberculose uma bronquite commum.Conforme observações mais recentes, consegui reduzir o assuca, num diabético, a mais da metade, e levantar-lhe as forças, dissipar-lhe a catarata e abater a febre do enfermo”.

Correligionário dos Pessoa, compadre e amigo do coronel Antonio Pessoa a quem chamava de Toinho, foi por ele escolhido prefeito de Umbuzeiro. Desgostoso da política local, trazendo uma carta de apresentação de seu chefe político para Solon de Lucena, em Bananeiras instalou-se e se tornou, além de amigo-irmão de Sólon, seu colega como professor de francês no Instituto Bananeirense, por eles fundado ao lado de Dionísio Maia e outros.

Foram vãs as tentativas do avô de Waldir dos Santos Lima em legalizar o seu método cientifico de curar. José Fabio da Costa Lira teria que se conformar com o apoio moral que recebia dos que alcançavam a saúde plena. Não acumulou fortuna, mas lhe sobraram sofrimento e frustrações, fruto das perseguições sofridas ao longo da existência. Sua maior consternação, porém, foi não ter conseguido, com a lymphotherapia, prolongar a vida do seu compadre Solon de Lucena. O clima saudável do curimataú, da Fazenda Pedra D´Àgua, onde morreu o ex-presidente da Paraíba, foi insuficiente para a sua cura.


O PADRE QUE ACUSOU IBIAPINA

Transcorria uma madorra sessão da Assembléia Provincial de 1885, em que se discutia as parcas verbas do Erário e o seu destino. Havia uma proposta de que se retirasse parte do bolo destinado à Santa Casa da Misericórdia para as Casas de Caridades fundadas pelo padre Ibiapina- José Antônio Maria de Ibiapina, àquela altura, já falecido. De onde menos se esperava surgiu a reação: o deputado padre Joel Esdras Lins Fialho resolveu detonar a Casa de Caridade de Santa Fé e seus dirigentes, notadamente, dona Cândida, desprendida e rica dama que largou a família para se dedicar à missão iniciada pelo padre-mestre. A crítica foi ampliada para outras unidades, mas, aquela situada às portas de Arara, onde o deputado fora capelão, mereceu maior censura.

Para o padre Joel, as Casas de Recolhimento, como as preferia chamar o padre Euphosino Maria Ramalho, também deputado naquela legislatura, estavam sendo desvirtuadas de suas finalidades iniciais. Denunciou a existência de uma dependência que serviria de prisão para castigo das internas, muitas das quais, padeciam de males incuráveis, não merecendo a devida atenção da diretora. Seu discurso, interrompido por protestos de “não apoiado”, mereceu contestação do deputado José Campelo Galvão, além de sucessivos apartes do vigário de Bananeiras-padre Euphosino, e de Irineu Joffily, conforme nos conta o padre Ernando Teixeira de Carvalho, confrade do IHGP.

O deputado José Campello, nobre representante de Mamanguape, terminou por admitir que o acusador tivesse “sido acometido de uma alucinação de momento” e rechaçou o que considerou um “escárnio contra as casas de caridade da província fundadas por este grande homem - o padre Ibiapina, cuja memória é sagrada em nossos corações...um verdadeiro apóstolo da sociedade”. Ao que parece, as Casas de Caridade não conseguiram levar qualquer parcela das verbas destinadas à Santa Casa, daí por que o padre Euphosino resolveu recorrer ao Imperador Pedro II reivindicando uma pensão mensal para manter as internas de Santa Fé e de Cabaceiras (vide A União, de 16.01.16).

O autor de “Ibiapina e Santa Fé” não sabe a que atribuir os ataques do padre Joel à obra de Ibiapina, mesmo desculpando-se: “doe-me dentro da alma, sr.Presidente,ter necessidade de tratar aqui de uma questão tão ingrata e espinhosa”. Imaginei que essa posição adversa houvesse nascido em Areia, terra da origem do padre Joel e por onde havia passado Ibiapina como advogado. Mas por esse tempo Joel era criança. Não encontrei nenhum vestígio de qualquer animosidade porventura surgida no passado areiense de ambos. Talvez o padre houvesse puxado ao avô, capitão-mor Bartolomeu da Costa Pereira, dono do engenho Viração, “um temperamento estourado e de pouca vocação para a política”, segundo Horácio de Almeida. O capitão era presidente da Câmara Municipal de Areia em 1837 e abandonou o cargo “para não se envergonhar de continuar servindo a um governo indigno”. A força política dos Lins Fialho vem do velho Capitão, que elegeu deputado o filho Francisco Lins Fialho e depois seu irmão Joaquim Álvares, padre como o sobrinho Joel, filho de Francisco.

O presidente da Casa interferiu nos debates e tentou parar o denunciante com a expressão latina “parce sepultis” a que o padre Ernando traduziu ao pé da letra como “enterrado,perdoado”. Uma forma de dizer: “perdoa os mortos que não podem se defender”.

Padre Joel Esdras quando assumiu a cadeira de deputado respondia pela recém criada freguesia de Currais Novos-RN. Segundo Celso Mariz, chegou à Assembléia em virtude da anulação da eleição do bananeirense Ascendino Neves e mais dois falecimentos. Foi um dos três suplentes convocados. Os votos que adquirira vieram do distrito eleitoral que tinha sede em Areia e incluía Alagoa Nova, Bananeiras, Araruna, e Cuité, onde então era pároco. Seu único mandato o tornou famoso pelo discurso contra as Casas de Caridade. Criada a Arquidiocese da Paraíba, em 1895, o padre Joel Esdras foi designado vigário encomendado de Araruna, onde permaneceu até a morte.

O historiador Humberto Fonseca nos revela que o padre, mesmo quando se tornou avulso e passou as obrigações sacerdotais da paróquia de Nossa Senhora da Conceição para outro clérigo, não se omitiu da política local. Foi conselheiro municipal, várias vezes, e presidente daquele Conselho. Uma das querelas em que se envolveu contou com a ingerência do presidente Castro Pinto que, a princípio, conciliador, terminou por enviar um contingente policial para acalmar os ânimos da disputa política envolvendo os candidatos a conselheiros, entre os quais se destacava o padre Targino Pereira da Costa, filho da terra e acostumado ao poder de mando de sua família, uma oligarquia que ainda hoje sobrevive na política de Araruna.

E por falar em família, o padre Joel Esdras resolveu constituir a sua, e renunciando ao voto de castidade botou no mundo enorme descendência que ocupa posição de prestígio por esse Brasil a fora, na cátedra, na magistratura, na medicina e em outros ramos de atividade, sempre orgulhosa desse tronco ancestral.
Mas foi com seu discurso na Assembléia Provincial da Parahyba do Norte, que o padre Joel conquistou seu lugar na história.

P.S. É a segunda vez que abordo esse assunto: o padre José Euphosino Maria Ramalho, nascido e batizado no Piancó com o nome de José Euphosino Pinto Ramalho, foi vigário colado de Bananeiras até 1903. Na legislatura de 1884-1885, como colega do padre Joel Esdras, Celso Mariz nos dá noticia da presença do deputado padre José Euphosino Maria de Carvalho. Só posso atribuir a um erro de grafia que vem sendo repetido, pois, inclusive, o nome Maria foi acrescentado em homenagem ao padre-mestre José Antonio Maria de Ibiapina, ao lado do qual, foi sepultado, a seu pedido. Que me tirem essa dúvida o padre Ernando e Humberto Fonseca, já que não posso invocar os saudosos Celso Mariz e Deusdedith Leitão, responsáveis pela Memória da Assembléia Legislativa da Paraíba.
 


ESSA QUESTÃO DE QUÓRUM...

A todo início de sessão legislativa os jornais publicam a ameaça de corte, nos subsídios dos parlamentares, dos dias correspondentes a suas faltas. Mudam os presidentes, mudam os perfis dos integrantes da Casa, seja ela municipal, estadual ou federal, e permanece o mesmo questionamento. O experiente Waldir dos Santos Lima, que há pouco nos deixou, costumava dizer em tom de ironia: democracia é um regime caro, só tem quem pode! Na verdade a sua reflexão nos leva a outra, mais ampla e discutível nesses dias turbulentos de desprestígio dos políticos: fechem as casas legislativas, lacrem as tribunas e saberemos a falta que fazem. Mesmo com seus defeitos, estruturais ou de representatividade, qualquer parlamento aberto é melhor que uma ditadura que fecha, prende e arrebenta.

Os repórteres credenciados nas casas legislativas reclamam a ausência dos seus integrantes às sessões, mais pelo não cumprimento de suas pautas que pelo prejuízo causado ao Erário.Uma sessão declaratória não produz os fatos que os jornais e emissoras mandam buscar nos plenários.Os espaços destinados ao noticiário político precisam ser preenchidos. A ausência dos deputados aos debates aumenta o trabalho da reportagem. Restam as entrevistas de “corredores” e as noticias especulativas para satisfazer o chefe da redação. À imprensa não interessa a justificativa de que o mandato se prolonga nas bases eleitorais.As poltronas devem permanecer ocupadas em todos os recintos e em todas as sessões.

No passado, o mandato era remunerado por sessões.No Império se pagava quadro mil reis diários a um deputado provincial. O complemento era calculado por léguas entre o distrito de origem e a sede da província. Quem faltasse, não recebia. Celso Mariz destaca que as léguas eram contadas uma única vez. Isto é, não se pagava pelo retorno às bases. Talvez uma forma de obrigar a permanência do deputado na Capital até o final da sessão legislativa. Mas o Imperador, já nos estertores da Monarquia, mandou alterar o cálculo e deu a todos o direito de ir e vir, remuneradamente. Na República, começaram pagando dez mil réis diários e trezentos réis fixos. Nas proximidades dos anos 1930, a representação já era um conto de réis e o comparecimento às sessões rendia quarenta mil réis diários, “o que dava para o trem e o queijo do chefe do partido”, sugere Mariz.

Desde quando desapareceu o jeton - retribuição pelo comparecimento às sessões - aumentou a incidência de ausências remuneradas. Mas não se pense que esse costume é recente. No tempo que deputado usava fraque e amarrava seu cavalo em uma estribaria próxima, veja o que publicou o jornal A União:
“Assembléia Legislativa do Estado da Parahyba: Sessão Preparatória de 15 de janeiro de 1895. Presidencia do Sr.Vigário Walfredo. Ao meio dia os Exms. srs. Walfredo, Santa Cruz,Botelho,Apollonio,Valdivino,Trindade,José Fernandes,Bento Vianna,João Tavares,João Lourenço,Dinoá, Mindello e Pinagé, o Sr.Presidente declara que não havendo numero legal,deixa de comunicar ao Exm.Presidente do Estado para vir assistir a instalação da assembléia e levanta a sessão”.
A Assembléia deixou de se instalar por falta de número regimental? Nunca tinha ouvido falar. Pois já melhorou muito.

 

 

 


 


UMA “VELHA SENHORA” JOVIAL

Era uma quinta feira, 2 de fevereiro do ano de 1893, quando o Partido Republicano do Estado da Parahyba fez circular a primeira edição de A União. Na capa, os editores pediam aos seus leitores, “o obsequio de devolvel-o á respectiva typographia” no prazo de três dias. Não explicaram o motivo para essa restituição, mas o Walter Galvão, hoje diretor desta folha, acredita que se tratava de uma pesquisa para avaliar o alcance do periódico.

Na edição inaugural, o novo órgão de imprensa traçava o seu perfil, e se identificava como veículo político-partidário, disposto a defender a agremiação e seus integrantes. O jornal e o partido eram um só corpo e um só espírito. Por isso, se dirigiu ao publico leitor “não para anunciar qualquer nova transformação mas para configurar os motivos de sua origem, as formulas que condensaram os seus primeiros pensamentos,suas aspirações, no começo vagas,depois francamente definidas e encorpadas aos caracteres que dirigiam o movimento.A única modificação que lhe anunciamos, é a creação d´esta folha, poderoso meio externo da cohesão e disciplina partidária.Iremos á luz da imprensa, visitar os arrayaes de nossos amigos, e crear-lhes um centro de intelligencia, e de conselho. Iremos a mesma luz prestar nossa decidida cooperação ao illustre administrador do estado, o exm.sr.dr. Alvaro Lopes Machado. O nosso apoio igualmente ilimitado, e sem nenhuma reserva extenderemos ao benemérito governo da União, e ao glorioso chefe da Republica, Sr. marechal Floriano Peixoto”.

Da pia batismal aos dias de hoje, a linha editorial deste jornal permanece a mesma. Mudam os governos, mas sua fidelidade, jamais. A única mudança foi a oficialização dessa lealdade. Em determinado momento, o jornal do Partido tornou-se o jornal do Governo. A União publicaria além do noticiário palaciano, os atos emanados da administração pública. O Diário Oficial, em separado, é obra mais recente. O modelo serviu até para enriquecer nosso folclore político. Zé Américo, no Piancó, definiu o político Antonio Montenegro: “é mais fiel ao Governo que o chumbo do diário oficial”. Na minha irreverência já conhecida, prefiro dizer que A União “é o órgão mais independente que conheço: é do governo e não nega”.

No primeiro número do periódico, temos conhecimento de que, naquele ano de 1893 era Chefe de Polícia da Paraíba o dr. Antonio Ferreira Baltar; seu irmão, de nome Abílio Ferreira Baltar, nomeado Fiscal, realiza a primeira extração da Loteria, à época, uma concessão particular entregue a um felizardo chamado Bernardino Lopes Alheiros. O primeiro delegado da Capital era Francisco Chateaubriand Bandeira de Mello. O Assis, do mesmo sobrenome e criador dos Diários Associados, tinha, então, um ano de idade. Naqueles dias, por emissão de notas falsas, foram presos dois diretores de bancos nacionais; “as notas falsas do Banco Emissor de Pernambuco se distinguem pela imperfeição do mau papel”; o ministro da Fazenda manda que se recebam as notas do Banco Emissor, tidas como verdadeiras, até que sejam substituídas pelo Banco da República; é nomeado um novo diretor para o Banco da República, o Sr. Tomaz Coelho; o governador do Rio de Janeiro sanciona lei que transfere a sua Capital para a cidade de Theresópolis; morre a esposa do ministro da Guerra.

A denominação do jornal deve-se à união dos próceres dos velhos partidos, ao novo Partido Republicano comandado por Álvaro Machado. “No intuito de justificar o nome desta folha” foi relatada com detalhes a reunião de criação do novo partido realizada no Palácio do Governo, quando “duas ordens de cadeiras foram insuficientes para acomodar os convidados”. Foi designada uma comissão provisória para comandá-lo, eleita, democraticamente, entre os presentes ao evento.

O governador Álvaro Machado asseverou “que não tinha vindo a Paraíba se não para reconstruir o que fora demolido e por em ordem o que fora desorganizado”. No campo partidário desejava juntar os bons elementos de outros partidos e “fundi-los em um só, compacto e disciplinado”. A votação, apurada entre outros por Artur Aquiles e Tomaz Mindelo, proclamou como escolhidos para a primeira diretoria do Partido Republicano os srs Diogo Sobrinho,Eugenio Toscano,Gama e Melo,Moreira Lima e José Evaristo, os mais votados.Os srs Targino Neves e Cunha Lima, de Bananeiras e Areia, respectivamente, ficaram na suplência juntamente com outros nomes de rua menos votados.

E encerra sua narrativa o jornal A União: “Servido em seguida um agradável copo de cerveja, retiraram-se os convidados plenamente satisfeitos, não só quanto ao cavalheirismo de trato do honrado governador, como em relação à phase de verdadeira actividade política, iniciada por tão solene reunião”. Estava fundado o Partido Republicano do Estado da Parahyba e o seu porta-voz, A União.

Esta semana A União entrou na era de informática, inaugurou sítio e um sistema on-line de envio de matéria para a publicação no Diário Oficial. A Velha Senhora de 123 anos está cada dia mais jovem e dinâmica, sob o comando de uma equipe que se desdobra para oferecer seus melhores serviços à Parahyba do Norte. Parabéns !( Nas transcrições mantive a grafia da época)


A ÚLTIMA SOBRINHA DO BARÃO

Azeneth Bezerra Aragão
Nascida em fevereiro, trazia consigo a alegria do carnaval que, às vezes,coincidia com a data do seu nascimento.No último Natal, esteve na platéia do Auto do Menino Deus encenado pelas crianças da Escola de Artes do Município de Bananeiras, em frente à Matriz do Livramento.O clima não lhe fez bem e em pouco mais de uma semana, uma enfermidade repentina lhe tirou a vida. Azeneth Bezerra Aragão cumpriu sua missão na terra quando completaria noventa e seis anos de idade.

Irrequieta e decidida, na fase em que deveria ensinar resolveu aprender, e se tornou uma boa pintora, graças às Organizações das Voluntárias. Seus quadros embelezam as salas de filhos e netos. Já havia contratado a festa do seu próximo aniversário. No hospital chamou o médico e lhe entregou um convite. Foi seu ultimo momento antes de se despedir com destino a uma UTI. Manteve a alegria até o fim.

Na juventude, Azeneth era festejada por todos e, sua alegria contagiante tornou-a madrinha do Bananeiras Clube, que a elegeu Rainha do Milho no longínquo ano de 1942 do século passado.O jornal A União registrou a notícia e adiantou que a homenageada, em retribuição à coroação, ofereceu, em sua residência, um almoço à diretoria do sodalício.Foi professora diplomada na escola das Dorotéias.

Esse último exemplar dos primeiros Bezerra Cavalcanti tinha sangue de português misturado à linhagem das origens bananeirenses. O primeiro estrangeiro a residir em Bananeiras, citado por Humberto Nóbrega, chamava-se Tomás de Aquino Freire de Andrade. Maurílio Almeida revela também a presença, nas fileiras da Guarda Nacional local, do capitão José Freire de Andrade e do tenente João de Aquino Freire de Andrade, por certo, parentes próximos do portuga. Este procurou uma nativa para casar e constituir família, encontrando em Anna, filha do coronel José Ferreira da Rocha, o corone l Camporra, a sua preferida.

O coronel Camporra já cedera sua filha Úrsula Emília para esposa do sobrinho, comendador Felinto Rocha, filho do Barão de Araruna.“Era homem extremamente gordo e de estatura baixa. Possuía um temperamento impulsivo e violento.Morava no Engenho Farias, de sua propriedade, perto do Engenho Jardim, onde residia seu irmão o Barão de Araruna”, descreve Maurílio. Uma filha de Camporra, de nome Cordolina, quis casar com alguém que amava mas encontrou a objeção severa do pai. Em uma madrugada, fugiu com o noivo e seus amigos. Ao descobrir a ausência da filha, o coronel tocou o búzio, reuniu a tropa e foi resgatá-la, pura e virgem, da casa de um amigo de sua confiança. Cordolina “ganharia” depois um marid o escolhido pelo pai.

Melhor sorte teve o português Tomas de Aquino. Antes de instituir família, deve ter recebido o beneplácito do coronel. Casou com sua filha Anna e desse matrimonio nasceu Maria Eugenia, que viria a se casar com Francisco Bezerra Cavalcanti, conhecido como Yoiô Déco, pais da minha sogra Azeneth Bezerra Aragão - bisneta do coronel Camporra e sobrinha neta do Barão de Araruna.

Ela pretendia chegar aos cem anos e me disse isso ao completar os oitenta. Exclamei: “o diabo é quem duvida!” Com muitos risos ela contava essa história da minha verve irreverente, e acrescentava: vou provar a ele que eu chego lá! Quase chega! Mas ela também fazia das suas, e costumava dizer: “quando me levarem, podem olhar pra minha mão que estarei dando um adeusinho”...


Ricardo, Coelho Lisboa e Abelardo

RICARDO,COELHO LISBOA E ABELARDO

 

Testemunhei recentemente o drama enfrentado pelos paraibanos com o desabastecimento de combustíveis e a tentativa de normatizar o suprimento do nosso Estado através do porto de Suape. Lembro que essa supremacia de Pernambuco sobre a Paraíba vem do Brasil Colônia. Mesmo existindo duas Cartas Régias que mandavam a Capitania da Paraíba comercializar diretamente com a Coroa portuguesa, o nosso açúcar partia do Recife com destino à Corte. A Paraíba era explorada duplamente: pelos portugueses e pelos comerciantes pernambucanos. Agora haveria uma inversão de percurso. O combustível deixaria de ser entregue em Cabedelo e sairia de Suape em caminhões tanques que invadiriam as estradas para nos atender. Se ontem os donatários não reclamaram, hoje, ouviu-se o grito altaneiro do nosso Capitão Mor. A reação do governador Ricardo Coutinho encontrou eco no Planalto e a Paraíba voltou a ter navios no seu porto.

Do Império à República sempre os estados maiores tentaram usurpar os direitos do seu vizinho de menor porte. Foi preciso afiar sempre as garras para evitar ser engolido. Outro exemplo: no passado, as estradas de ferro eram o marco do progresso. Um decreto fixava na Paraíba a chefia dos serviços ferroviários em execução neste território. Revogou-se o decreto e Pernambuco passou a centralizar a autoridade ferroviária.Houve protesto. No Congresso Nacional o deputado Coelho Lisboa foi à luta. Da tribuna, firmou posição:

“Sr Presidente, em vista das declarações cathegóricas que acaba de fazer um dos illustres membros da comissão de orçamento com relação às emendas apresentadas devo sentir-me desanimado”.

O pernambucano Artur Rios se disse condescendente. Veio a réplica de Coelho Lisboa:

“- V.Excia foi condescendente, é verdade, concordando com uma terça parte das minhas emendas,mas não foi condescendente com a Parahyba quando como principal golpe contra ella desfechado propôs a revogação do decreto 1705, de 30 de abril de 1894” (Que retirava a chefia dos trabalhos da estrada de ferro, da Paraíba para Pernambuco).

E continuou o deputado areiense:

“Sr.Presidente, os pequenos estados luctam desde a colônia. E não sei até quando continuarão a luctar, contra a prepotência dos grandes estados visinhos. V.Excia. como representante do poderoso estado de Pernambuco, V Excia mesmo reconhecerá e no mesmo momento em que me dá a palavra deve guardar consigo a convicção de que o humilde batalhador da Parahyba não vem mais do que levantar um protesto, um protesto talvez inútil contra o predomínio de que teem sido victimas e por muitos anos hão de ser ainda todos os pequenos estados que tenham ao seu lado estados com força e representação sufficientes para suffocar todas as aspirações de independência e autonomia que aspiram”.

Disse tudo, e disse muito bem! Esse Coelho Lisboa foi também Senador no inicio do século passado. Muito prestigiado, sua chegada à Paraíba era festejada, até porque, vinha de quatro em quatro anos.

A partida, de volta às suas atividades no Congresso Nacional, era destaque na primeira pagina do Órgam do Partido Republicano do Estado da Paraiba – A União: “S.Exc. dr. Coelho Lisboa tomou ante-hontem, o trem do Pilar, de onde seguirá para a cidade do Recife com destino á Capital Federal.Á estação acompanharam-n´o diversos amigos, entre os quaes s.exc. o dr.Gama e Mello, presidente do Estado,dr.José Pereira Maia,chefe de policia,major Bento Paes, comandante do batalhão de segurança,chefes e empregados de repartições estaduaes e federaes, representantes de todas as classes sociaes e amigos pessoaes do simpáthico e illustre deputado que na Parahyba é uma das individualidades mais bemquistas e prestigiadas”.

A propósito, ontem, a Academia Paraibana de Letras preencheu a cadeira 12, que tem Coelho Lisboa como patrono. Jornalista e advogado como seu patrono, Abelardo Jurema Filho passou a ocupar a cadeira que pertenceu ao imortal Wellington Aguiar, de saudosa memória. Abelardo, do lado paterno, é neto de Geminiano Jurema Filho, nome in pectoris do deputado José Pereira para ocupar a vaga de João Pessoa, em caso de um hipotética intervenção na Paraíba por conta da “guerra de Princesa”. Do lado materno, Abelardo é neto de Osvaldo Pessoa e, assim, se diz um conciliador, por correr nas suas veias sangue perrepista e liberal a um só tempo.

O patrono da cadeira 12 era aguerrido e veemente nos debates, mas também um espírito apaziguador. Conta A União que, no parlamento, tentou evitar um desforço pessoal com um certo deputado Seabra. “O Dr Seabra recusou a luva atirada pelo seu collega Dr. Coelho Lisboa, dizendo, entretanto, estar prompto para brigar em plena rua.” (Textos do noticiário de A União, novembro de 1894. Mantive a grafia da época)

 


Waldir, o Rebelde

Nascido no dia de São Sebastião, eu costumava brincar com ele: se fosse filho dos moradores do Engenho Avenca, seu nome seria Bastião. Mas WaldIr Lira dos Santos Lima nasceu na Casa Grande e seu destino seriam as alturas. Sua vida pública começou nos anos 1960 com Pedro Gondim lhe abrindo as portas do Palácio e o introduzindo na política. Daí para frente, ele passou a abrir as portas do poder para os outros e conseguiu manter-se por muitos anos na cúpula governamental. Aclamado com respeito, de Pedro Gondim a Ronaldo Cunha Lima, sua presença foi constante e indispensável nos pleitos eleitorais travados na Paraíba, fossem eles diretos ou indiretos.

Página inesquecível da história da Paraíba teve em WaldIr um dos principais protagonistas. Foi o apoio de Waldir como Presidente da ARENA que viabilizou a disputa de Antonio Mariz à convenção daquele partido, contra Tarcisio Burity, enfrentando a ira dos quartéis e o poderio econômico do Grupo da Várzea, que defendiam o regime de exceção mascarado por uma Constituição fardada. WaldIr, além ficar ao lado de Mariz, pôs também sua cabeça a prêmio aceitando disputar a vaga de vice-governador. Sua fama de conspirador vinha, porém, de longe, desde os tempos em que um nascente Partido Democrata Crist&a tilde;o, invenção gondinista, servia para acirrar os ânimos dos udeno-agripinistas.

Nascido em Serraria, só teve direito de disputar os votos de sua terra quando o filho de Antonio Carvalho, amigo de Pedro Gondim, despediu-se das várias tentativas de se eleger deputado estadual. Naquele tempo, as amizades eram respeitadas. Um WaldIr correto e disciplinado foi completar sua votação na região de Umbuzeiro onde mantinha laços familiares. Presidente da Assembleia Legislativa em duas oportunidades realizou o primeiro concurso publico para preenchimento de cargos, naquela casa que dirigiu com raro brilho e acatamento geral.

Rebelde contra as injustiças, bravo no combate aos desatinos dos áulicos do poder, era severo na crítica e contundente nos protestos. No governo de Ernani Satyro sua oposição quase isolada compôs com Edvaldo Motta e Eilzo Matos um trio apelidado pela imprensa de Tupamaros, numa alusão aos rebeldes Uruguaios. Esse grupo, para tirar o sono do governador, chegou a mirar no que ele possuía de mais sagrado: sua produção literária.O grupo anunciou que iria queimar em praça publica, o livro “O Quadro Negro” de autoria do imortal da APL que ocupava o Palácio. Egídio Madruga que presidia a Assembléia, assistiu certa feita WaldIr rasgar o Regimento Interno em sinal de protesto: “já que Vossa Excelência não o cumpre”!

Na eleição de 1978 fomos delegados da Paraíba ao Colégio Eleitoral que elegeu o general João Figueiredo, presidente da República. WaldIr, derrotado na convenção da Arena para vice-governador, candidatou-se a deputado federal. Fizemos uma dobradinha em todo o brejo: ele federal e eu estadual. Àquela altura, era tempo de Burity, e a razão nos aconselhava: cada um cuide de si... Os reflexos da nossa rebeldia assustaram os eleitores da Arena. Os eleitores do Presidente deram dois bons suplentes. Ficamos sem mandato.

Quando WaldIr pensava em comemorar seus 81 anos, no próximo dia 20, eis que a vida se retira e deixa apenas a saudade e a história de um político digno, competente e probo. A pequenina Paraíba ficou menor com a sua ausência.