O COLÉGIO DAS DOROTEIAS

Neste ano da graça de 2016 a Congregação das Doroteias está completando 150 anos de sua chegada ao Brasil. No mesmo ano de 1866 era aberta também a Casa de Portugal. Na nossa pátria mãe, as comemorações ocorreram entre março e abril do corrente. Não tomei conhecimento de qualquer evento alusivo à presença marcante dessas educadoras entre nós.De sua atividade em Bananeiras, a partir de 1917, restam o túmulo mandado construir pelas ex-alunas e o antigo prédio do colégio, que voltou ao patrimônio da Diocese e hoje é um colégio municipal, por obra e graça de uma ex-aluna, a prefeita Marta Ramalho. As Doroteias nasceram na Itália por iniciativa de Paula Franssineti. Moradora de uma vila de pescadores denominada Quinta Al Mare, fundou, com outras doze moças, uma comunidade religiosa com o nome de Filhas de Santa Fé, dedicada à evangelização da juventude. Nos idos de 1834 chega a Gênova o Conde de Passi, dedicado à Obra de Santa Doroteia, cujo objetivo era desenvolver o seu apostolado fora do ambiente das casas religiosas, com foco nos jovens e crianças pobres. Essa proposta foi acolhida pelas Filhas de Santa Fé que passaram, então, a se denominar Irmãs de Santa Doroteia. Doroteia, natural da Capadócia,na Turquia, escolheu viver na castidade perfeita e se entregou ao jejum e à oração. Sua humildade, prudência e doçura atraíram a atenção de seguidores. Por outro lado, a perseguição aos cristãos encetada sob o Império de Diocleciano, no Século III, levaram suas idéias a julgamento. Por manter suas convicções, foi decapitada. Paula Franssineti, a fundadora da Congregação também alcançaria a santidade. A Congregação das Irmãs Doroteias plantou escolas em várias partes do mundo, educando jovens e crianças.Sua primeira casa no Brasil instalou-se na Diocese de Olinda e Recife, por solicitação do então bispo dom Manoel do Rego Medeiros, conforme me informa a Wikipédia. Foi justamente a madre provincial de Olinda, irmã Julia Cassini, que recebeu a doação que lhe fez o arcebispo da Paraíba, dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, do patrimônio com casa e capela do Sagrado Coração de Jesus, existente na cidade de Bananeiras. Dom Adauto no seu arrazoado considerou o bem espiritual da Paróquia de N. S. do Livramento “e o extraordinário proveito que pode advir de um estabelecimento de ensino dirigido por uma Congregação Religiosa”, daí por que, transmitiu às religiosas da Congregação de Santa Doroteia, em Pernambuco, aquele acervo, sob algumas condições explícitas em documento. A primeira cláusula exigia das Irmãs a obrigação de “prover o pessoal apto e suficiente para a direção e conservação de um colégio destinado a educação de meninas”. Em segundo, o colégio manteria “uma aula de ensino elementar e trabalhos manuais gratuitamente para as crianças pobres” As religiosas estavam proibidas de transferir o colégio para outro prédio “mais vantajoso e mais apropriado ao fim ao qual era destinado, isto é, para a estruturação e conservação de um colégio para meninas”. Enfim, caso a Congregação resolvesse “retirar seu pessoal e deixar a direção do dito Colégio do Sagrado Coração de Jesus da cidade de Bananeiras não lhe será devida qualquer indenização”. As Doroteias se instalaram ainda em Cajazeiras e Alagoa Grande e mais recentemente, nesta Capital.Até o ano de 1962 eu ainda avistava as meninas internas no Colégio das Doroteias passeando, em fila dupla, pelas ruas da cidade, sob a vigilância de uma sisuda freira. Era um exercício esperado pela rapaziada. Abrir as portas do colégio para visitantes era mais difícil. O professor Vicente Nóbrega, que ensinava voleibol às meninas, entrava e sai quando queria. Eu, que paquerava uma aluna, ficava a vê-la passar, de longe, de passo firma, blusa branca e a saia plissada das normalistas. Esse colégio tem muita história, mas não serei eu que irei contá-las.Com a palavra uma pupila de Madre Rodrigues. (Fonte: Livro de Tombo da Paróquia de N.S.do Livramento)

QUEM FOI O BARÃO DE RAMALHO

Vim descobrir recentemente por que a família da minha esposa fazia restrições ao seu casamento comigo. Para casar, tive que roubar a moça. O coronel Camporra, irmão do Barão de Araruna era seu trisavô. Com essa ascendência nobre, como permitir a união com o filho de um plebeu, cujo mais ilustre membro familiar era tenente da Guarda Nacional? Mas a história abre caminhos e a genealogia nos leva a conhecer o passado. Em busca desses ancestrais encontrei Joaquim Inácio Ramalho, Barão de Ramalho, um ilustre homem do direito, contemplado com todas as honrarias do Segundo Império. Um dia ainda vou reivindicar esse titulo de nobreza. Só não sei perante qual juízo... Filho de um espanhol, o futuro barão nasceu a 6 de janeiro de 1809, em São Paulo.Os irmãos Antonio Nunes Ramalho (parente da Elba) e Anna Felisberta Ramalho foram seus pais de criação, recebendo deles o sobrenome Ramalho. Foi dos primeiros alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco onde se bacharelou em 1834 e foi doutor em 1835. No ano seguinte já era professor substituto da mesma escola onde se graduara. Dez anos depois foi eleito vereador e presidente da Câmara de São Paulo. Sua destacada atuação lhe valeu a nomeação, através de decreto imperial, para a presidência da Província de Goiás, até 1848 quando se elege deputado geral por Goiás. No retorno, foi deputado provincial paulista, por duas legislaturas. É ainda comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo. Conselheiro do Governo Imperial lidera um grupo de advogados para fundar o Instituto dos Advogados de São Paulo, ativo ainda hoje. Depois de aposentado como catedrático da Faculdade de Direito foi distinguido pelo Império com o baronato. Denominado Barão de Água Branca, em homenagem à cidade alagoana do mesmo nome, recusou o titulo. Somente aceitaria o titulo de Barão, caso houvesse referencia à família de sua esposa Paula da Costa Ramalho, filha de um dos Ramalho que o criara. Assim, em 28 de maio de 1887, torna-se o Barão de Ramalho.Nomeado diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ocupa esse cargo até sua morte em 15 de agosto de 1902, aos 93 anos. Em artigo sobre os Notáveis do Direito, Alessandro Hirata, livre docente da USP, considera o Barão de Ramalho “um exemplo de carreira dedicada à academia.Passou a maior parte de sua longa vida nos bancos da São Francisco. Sua atuação é modelo não apenas para a tradicional faculdade paulistana, mas para todo o mundo acadêmico jurídico”. Acabei de falar sobre o Barão de Ramalho brasileiro. Dona Maria II, de Portugal, contudo, destacou um político do Açores com o titulo de Barão do Ramalho.Chamava-se Antonio Tomé da Fonseca Carvão Paim Câmara, o 1º Barão. Seu neto, Antonio da Fonseca Carvão Paim da Câmara, foi o 2º. Barão e além de político e jornalista foi governador civil, por diversas vezes, do Distrito de Angra do Heroismo e de Ponta Delgada até 1878. Cavalheiro da Casa Real, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, eram alguns dos seus títulos. Era formado em Ciências Naturais pela Universidade de Bruxelas. Com essa ascendência nobre, tanto brasileira quando d’além mar, juntei a Casa dos Aragão com a Casa dos Ramalho e ainda hei de reivindicar o meu titulo de nobreza. O coronel Camporra que me aguarde!

UM DISCURSO DE SILVA MARIZ

A crise hídrica do nordeste tem os seus olhos voltados para a transposição de águas do Velho Chico destinadas aos estados que não possuem rios perenes. Entre nós, o volume de Boqueirão chegou ao seu nível histórico mais baixo. Há uma corrida em evidência para ver quem chega primeiro: o inverno ou as águas do São Francisco. E dá para Campina e seu entorno esperarem? Não sou técnico no assunto mas acompanho sua evolução. Causa admiração que esse problema secular não tenha ainda uma solução definitiva. Desde que o Brasil é Brasil, seca no nordeste virou tema cíclico de discursos inflamados e promessas n ão cumpridas. No Império ou na República, vários caminhos foram apontados para a convivência do nordestino com as secas. Persiste o problema. Que as águas do “rio da integração nacional” não sejam uma panacéia e, resolvam mesmo, nosso problema de abastecimento d’água.

Nos primórdios da República, a construção das estradas de ferro era apontada como medida eficiente de combate aos efeitos das secas. Assim pensava o deputado Silva Mariz, quando em discurso na Câmara Federal, em 02 de outubro de 1896, fez o seguinte pronunciamento falando sobre a Paraíba: “ A zona é estéril para a agricultura, mas é riquíssima para a creação pastoril.Apezar de não chover alli por muitos mezes, a creação produz muito bem, devido a especialidade do terreno que é coberto de muitos arbustos forrageiros, salientando-se a família dos cardos. De Batalhão (Taperoá) para o alto sertão teremos novas dificuldades a vencer na descida da Borborema, mas a florescentíssima Villa está ás portas da fertilíssima zona do alto sertão, onde, além da industria pastoril, se cultiva em grande escala o algodão, a canna de asssucar e todos os cereaes. Sei Sr. Presidente, que se procura eliminar a Central da Parahyba,(Linha férrea central) dando-se como ponto de parada Alagoa Grande. Mas o senhor ministro da Industria e Viação não pode se estribar na autorização que lhe deu o Congresso no §7º do art. 6º da lei nº 360 de 30 de dezembro do ano passado, porquanto essa mesma lei determinava o prolongamento de Mulungú a Campina Grande destinando verba de 400:000$ para a continuação da sua construção que já se achava feita até Alagoa Grande e que hoje j&a acute; se acha á mais de dous kilometros além daquelle ponto.E tanto é certo o que afirmo, é que o illustre ministro em suas tabellas pede verba para a continuação da construção além de Alagoa Grande”.

Aparteando, o deputado Lauro Muller lembra que o decreto do ministro marca Alagoa Grande como ponto de parada. “É exatamente o que estou combatendo” , frisou Silva Mariz. Não se dando por satisfeito, o paraibano verbera que o ministro não poderia determinar o final da linha férrea em Alagoa Grande, pois o Congresso determinara sua parada em Campina Grande, destinando recursos pára tal.

E conclui o deputado Silva Mariz:” Si o governo tivesse vistas largas, há muito teria estudado os meios prophyláticos de combater as calamidades provocadas pelas seccas periódicas que afligem os três infelizes estados do Norte- Ceará, Rio Grande do Norte e Parahyba e nunca se lembraria de fazer paradas, nem mesmo provisórias de suas linhas férreas”. Como se observa, naquele tempo se vinculava a construção de estradas de ferro às obras contra as secas, para gerar emprego, melhorar as comunicações e fomentar o desenvolvimento. A estrada Independência/Picuí, por exe mplo, que nunca foi concluída, pretendia ligar a área do brejo ao curimataú atingindo o semi-árido do vizinho Rio Grande do Norte.

Mas quem foi Silva Mariz, haverão de perguntar. Era médico nascido em Souza. Ingressou na política no período imperial, filiando-se ao Partido Liberal. Aderiu à República, elegeu-se deputado e participou da primeira constituinte estadual. Em 1894 foi ungido deputado federal, reeleito em 1987 e em 1900. Tomou assento na Câmara, no Rio de Janeiro, até 1902. Seu filho, José Marques da Silva Mariz, deputado estadual a partir de 1928, participou da revolução de trinta e foi interventor estadual. Voltou à Assembléia em 1951 e terminou seu mandato em 1953 quando veio a falecer. Silva Mar iz era avô do deputado federal, senador e governador da Paraíba, Antonio Marques da Silva Mariz e do conselheiro aposentado do TCE, José Marques da Silva Mariz.

Como médico, Silva Mariz era um cientista. Clinicou muitos anos no sertão e, em Souza, mantinha uma farmácia onde manipulava medicamentos aproveitando plantas medicinais da flora regional. Seu neto Antonio Mariz, quando perdeu a eleição para governador ficou com tempo disponível , e passava as tardes na Biblioteca Nacional, no Rio. Tentou o verbete Mariz, tentando encontrar Celso ou mesmo suas publicações parlamentares. Encontrou a “These” que seu avô defendeu ao se formar em medicina. Sua dissertação versava sobre os efeitos terapêuticos de alguns espécimes florais.Sil va Mariz é nome de uma rua no bairro de Cruz das Armas.( Nas transcrições mantive a grafia da época.Jornal A União, nº 936, ano de 1896)
 


OS RECLAMES DO PLIN PLIN

Aquele famoso apresentador de nossa televisão faria melhor o programa sem a sua presença. O cara é chato e só é superado por outro exemplar que elege como heróis alguns casais de desocupados, confinados em uma casa para engorda e, outras “cositas” mais por baixo do edredom. Mas nós, mortais comuns, temos que conviver com a fama deles ou trocar de canal. O programa melhora nos intervalos quando são apresentados os “reclames do plin plin”. São as mensagens dos anunciantes que pagam toda a parafernália armada a cada domingo da graça global. Melhor faria o programa se desse mais espaço ao seu corpo de balé, uma seleção de pernas e bocas de fazer inveja a algumas atletas olímpicas de países que nunca ouvi falar. Os reclames de hoje são muitos divertidos e prendem o telespectador. Acostumado a voltar para a leitura, nos intervalos, muitas vezes me delicio apreciando a forma mágica que os marqueteiros encontraram para vender seus produtos. Mas nesse espaço, tenho preferido mostrar fatos do passado e, hoje, levo os meus poucos leitores ao inicio do século passado, a edição de 8 de março de 1900, do jornal O Commercio, editado pelo jornalista Arthur Achilles, nesta cidade de Nossa Senhora das Neves que acaba de aniversariar. Na sua página comercial, os reclames de remédios, como eram chamados, ganhavam destaque. Sob o titulo de “Remédios que Curam: Nevralgias, Rheumatismo agudo ou chronico, dor de dentes, SELLOS ante-rheumaticos do dr.Heinzelman”. Para a cura certa da “Dyspepsia, falta de appetite, náuseas, prisão de ventre e tonturas, recomendavam-se as Pílulas Ante-dyspépticas”do mesmo farmacêutico. Também estava no comércio um fármaco para combater as tosses, a rouquidão e o catarro - as Pílulas Expectorantes, que não serviam para eliminar as anemias, fraqueza ou inchação no rosto e nas pernas. Para esses males, a Pharmácia Londres tinha à venda as Pílulas Ferruginosas. Naquele tempo, a Homeopatia já ganhava espaço e, visando desclassificar os charlatães, anunciava-se a Homeophatia Verdadeira, cujo especialista chama-se Umbelino Álvares, sediado na Rua Larga do Rosário, 38, no Recife. Para evitar as falsificações, a marca era a foto do famoso homeopata estampada em tinta azul, com a recomendação: “Exija-se o seguinte retrato”. Mas para comprar com confiança, devia ser procurada a Pharmácia Londres, situada na rua Maciel Pinheiro, 76, na cidade da Parahyba. Não posso deixar de lembrar o Específico Áureo de Harvey, que prometia “cura infalível” para “Debilidade Nervosa, Espermatorreia, Perdas Seminaes noturnas ou diurnas, Inchação dos testículos, Prostração nervosa, Moléstias de rins e da bexiga, Emissões involuntárias e fraqueza dos órgãos genitaes”. Era uma oportunidade para se largar o chá de catuaba ou a gemada, já que o ovo de codorna foi indicado décadas depois pelo rei Luiz Gonzaga. Nas páginas dos jornais se vendia tudo: vinho de Málaga, para os convalescentes; Alcatrão Benzoico, para “bronchite ou laryngite” e também o Xarope de Cumarú. Phosphoros Cruzeiro, Salitre e Enxofre; Cimento e, um óleo denominado de Luz Brilhante, próprio para a iluminação aromática de lamparinas, sem produzir fumaça. Nessa época, é bom que se diga, a Drogaria Rabelo, fazia concorrência com a Pharmácia Londres. Os reclames chamavam a atenção do belo sexo, eternamente em busca de elegância e beleza, para os calçados oferecidos pela loja “A Botina Elegante, um grande empório de calçados”.E destacava o anuncio: “Esta casa, a primeira nesse gênero n’esta praça, recebe regularmente das principais fabricas estrangeiras e nacionais as mais altas e primorosas novidades em calçados em todos os feitios e tamanhos”. Respondia pela firma, J. Etelvino & Montenegro, a rua Maciel Pinheiro 50. E para encerrar, a Casa da Fortuna, de Marcionillo Bezerra anunciava os prêmios da Loteria Esperança, que chegava a doze contos de reis; a Grande Loteria Nacional, poderia fazer um milionário de duzentos contos, prometendo descontar dos premiados uma “diminuta percentagem”. Não vou perguntar, mas tenho certeza: vocês vão preferir os reclames do Faustão. Não por ele, mas pelas meninas do balé!

“TIO PITA” DEU A ORDEM

Muito se tem escrito sobre os acontecimentos que culminaram com a chamada revolução de 1930. Não terei a veleidade de, neste pequeno espaço, analisar fatos ou emitir conceitos. Prefiro o registro dos acontecimentos, deixando aos leitores seu juízo de valor. Todos sabem que Getúlio Vargas manteve o presidente Washington Luiz, de quem foi ministro da Fazenda, por longo período, acreditando na sua fidelidade. O gaúcho, enquanto permitia seus seguidores tramarem, na surdina, sua candidatura presidencial, negociava créditos federais para obras prioritários no Rio Grande do Sul. Uma carta de sua lavra, jurando apoio ao Catete, foi amplamente divulgada. Posteriormente, outra missiva juntou-se à primeira no arquivo de Washinton Luiz, com pensamento totalmente oposto. Osvaldo Aranha ouviu o seu desabafo:” A última carta de Getulio foi para mim uma surpresa brutal”, como conta Lira Neto em um dos tres volumes sobre o caudilho dos pampas. À época, os fatos políticos eram gerados por cartas e telegramas. Getúlio terminou ganhando o apelido de “Getúlio Cartas”.

Decidida sua candidatura para enfrentar a chapa oficial, Getúlio precisava de um vice. Uma consulta feita por Washington Luiz sobre o apoio ao nome de Júlio Prestes, então presidente de São Paulo, para seu sucessor, recebera a aprovação da ampla maioria dos estados. Minas, de Antonio Carlos, a Paraíba de João Pessoa e o Rio Grande, juntos, adotaram o NEGO paraibano e passaram a compor a chamada Aliança Liberal que apresentaria a chapa Getúlio presidente, João Pessoa, vice. Antes de se chegar ao nome de João Pessoa, sondaram Paulo de Frontin, senador pelo Distrito Federal e grande prefeito do Rio. Alegando ser amigo do Presidente, aderiu a Júlio Prestes. Outro consultado foi o Simões Filho, líder da bancada baiana na Câmara e fundador do jornal A Tarde. Este recusou, veementemente, e foi acusado por João Neves da Fontoura, líder gaúcho, de estar negociando para a Bahia a mesma posição na chapa oficial em troca de favores inconfessáveis. Chegaram aos empurrões. O vice escolhido foi o presidente dos baianos, Vital Soares. Subindo o mapa do Brasil, os emissários de Getúlio ainda procuraram Estácio Coimbra, presidente de Pernambuco. A sua negativa levou ao nome de João Pessoa, destacado governante que ganhara o noticiário nacional com medidas austeras e práticas inovadoras, enfrentando a política dos coronéis. “Só uma vassourada em regra pode purificar a vida pública, rebaixada por figuras sem significação e aproveitadores gulosos”, dizia. Terminaram por varrê-lo.

O imposto que João Pessoa instituiu e que lhe valeu o epíteto de “João Porteira” visava fortalecer a economia interna e canalizar nossas exportações pelo porto de Cabedelo, o que desagradou, principalmente, à praça pernambucana, acostumada desde os tempos coloniais a explorar as riquezas da nossa “capitania”. A reação não intimidou João Pessoa que avisou pelo jornal A União: “Os descontentes que se mudem para o Ceará ou Pernambuco,vivam por lá, e não se lembrem de voltar, porque voltando, terão de pagar a incorporação, ( era o imposto novo) talvez acrescida”. Pois esse espírito bravio, austero e que dava demonstrações de uma coragem exemplar, politicamente, era dependente do tio Pita, ou seja, seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente do Brasil e naquele tempo, membro da Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda.

Veja o que nos narra Lira Neto: “Naquele fim de julho de 1929, dezenas de telegramas cruzaram o Atlântico pelo cabo submarino internacional que então servia às comunicações entre o Brasil e a Europa. Apesar do temperamento aguerrido e autoritário de João Pessoa, havia um ritual hierárquico a ser cumprido.Somente após o necessário consentimento de Epitácio- tio Pita, é que o sobrinho passou a ser abordado de modo direto pelos mensageiros de Getúlio....Na segunda feira, 29 de julho, Epitácio escreveu mensagem ao sobrinho para avisá-lo que autorizara o presidente mineiro Antonio Carlos a oficializar o convite (para vice de Getúlio). Isto significa que aceitarás”. Ordenou Epitácio Pessoa.

O professor Lira Neto vai mais longe na sua avaliação: “A despeito de representar um pequeno estado e de ter entrado na política paraibana pela janela das contingências oligárquicas,Pessoa vinha causando perplexidade nas lideranças estaduais mais conservadoras ao mandar cortar despesa supérfluas,demitir pessoal excedente, extinguir secretarias que funcionavam como meros cabides de emprego e impedir a reeleição indefinida dos intendentes municipais”.

De longe, porém, o tio Pita advertia: “Sei que as medidas que está tomando são todas de moralidade e justiça.Não estão acostumados a isto. A grita está sendo e há de ser enorme. Não se extirpam num instante hábitos enraizados desde muitos anos”.

A impaciência de João Pessoa levou-o ao trágico final. A mudança brusca que procurou imprimir aos costumes da terrinha, terminou por fulminá-lo. Seu cadáver seria o estopim que deflagraria o movimento de 1930. Mas essa é outra história.


O JOSÉ AMÉRICO QUE EU LEMBRO

Foi a primeira vez que ouvi falar em José Américo de Almeida, ou Zé Américo, como preferia o povão. Tinha sete anos de idade quando ele aportou na minha vila em campanha para o governo do estado. Meu pai, Arlindo Rodrigues Ramalho, fora candidato a vereador na primeira eleição pós redemocratização do País e era o representante local da União Democrática Nacional. Reuniu muitos amigos, para, de longe, na calçada alta do Grupo Escolar, apreciar a visita do candidato à casa de José Amâncio Ramalho. Zé Américo fora colega do dono da casa, na turma de 1908 da Faculdade de Direito do Recife.Com ele estavam Rui Carneiro, candidato ao senado; Humberto Lucena, que pleiteava vaga na Assembléia Legislativa e Pedro Augusto de Almeida, eleito deputado na Constituinte de 1947 e candidato à reeleição.(Viria a falecer após ser diplomado para o exercício de novo mandato). Políticos dos municípios vizinhos também compunham a comitiva.

À época, José Américo renunciara à presidência da UDN e, como senador, disputava o cargo de governador da Paraíba. A Coligação Democrática Paraibana era resultado de um acordo entre Rui Carneiro, que representava o Partido Social Democrático-PSD, e José Américo. Muita gente da UDN preferiu acompanhar Zé Américo, a exemplo de Pedro de Almeida, Ivan Bichara e Nominando Diniz, para lembrar os mais conhecidos, todos dissidentes udenistas. Foi, portanto, com uma UDN dividida, que o então deputado Argemiro de Figueiredo enfrentou as urnas nas eleições de 1950. Para reforçar sua posição, contava o político campinense com o apoio ostensivo dos governos federal e estadual, este, chefiado por José Targino, em função da renuncia do governador Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo e aquele, tendo como homem forte, justamente o candidato ao senado, José Pereira Lira, falando em nome do presidente Eurico Gaspar Dutra.

Para José Américo, foi a “campanha mais violenta que eu ganhei”. E conta: “Fiz a campanha mais vivo e vigoroso do que nunca.Varava o sertão com o sol batendo na cara, comendo poeira, como nos dias combativos de 1930. Havia conflitos. Derramou-se sangue nas ruas.Jogaram lama na minha comitiva, antes que eu passasse, para saltar do carro e desafiar esses selvagens. Nomearam, demitiram. Fizeram tudo isso e perderam feio”.

Na Vila de Borborema ninguém jogou lama ou apupou a comitiva do candidato. Meu pai, presente com os seus, mantinha a ordem e controlava os mais exaltados. A briga dele era local, deixasse a comitiva ir embora que a UDN soltar-se-ia. E assim foi feito. Bastou o último visitante tomar seu veículo e a ala feminina irrompeu cantando o hino oficial do argemirismo, que ainda tenho na memória, uma paródia com a música Taí, do grande Joubert de Carvalho, gravada por Carmem Miranda.

Minhas tias Helena de Moura Leite e Ivanilda Pinto Ramalho, que haviam levado seus alunos da escola de adultos para a rua, puxaram a musica: “Taí, Argemiro tem que ser governador/com Renato seu maior batalhador/ Zé de Almeida, o seu bonde vai errado, sim senhor!/ Pereira Lira vai para o senado/ que é homem forte e muito estimado/ na vibração da grande vitória/ exalta a glória do seu passado/ Taí, Argemiro tem que ser governador. Não foi não, o bonde de Zé de Almeida não correu errado, mas célere em direção ao Palácio da Redenção. Perdeu Argemiro, seu vice Renato Ribeiro Coutinho e o “cachimbão” Pereira Lira, que chefiara a Casa Civil do governo Dutra e foi por este contemplado, com uma cadeira no Tribunal de Contas da União.

Essa campanha ao governo mexeu com os paraibanos e jamais seria esquecida, em virtude do comício da Praça da Bandeira, em Campina Grande, que terminou em tragédia com mortos e feridos. Os lenços brancos de Zé Américo e os amarelos de Argemiro ostentavam o pescoço dos seus correligionários. Até em Bananeiras essa rivalidade chegou dividindo famílias e separando irmãos. Exemplo disso foi contado por Maurílio Almeida: dona Donana, sua avó, portanto sogra de Pedro de Almeida, seu pai e candidato a deputado estadual, era irmã de Dona Dondon, avó de Clovis Bezerra, candidato dos amarelos. Certo dia, ao voltar da missa dominical, dona Donana avisou que não mais visitaria sua irmã Dondom, enquanto perdurasse a campanha política. E a razão foi explicada:

- Ela não está nem um pouco resfriada, mas usou um lenço amarelo para assoar o nariz, só para me afrontar...

Pedro Augusto de Almeida, não tivesse falecido em dezembro daquele ano de 1950, certamente, sob a liderança de Ivan Bichara, formaria na bancada americista e ingressaria como outros dissidentes da UDN, no nascente partido Partido Libertador. Sua morte fez ascender logo no primeiro dia de mandato, em 02 de fevereiro de 1951, o primeiro suplente Humberto Coutinho de Lucena que ali dava os primeiros passos para sua respeitável carreira política.

O governo de Zé Américo, na casa de um político udenista do interior, acumulou uma coleção de histórias de perseguições. Nunca ouvi boas referências. As minhas tias que puxaram o hino de Argemiro, por exemplo, foram exoneradas nos primeiros dias de governo. Hoje eu diria que se cumpriu exigências da política local, mas na minha alma de criança, ficou a marca de um governo que tirava o emprego de quem precisava.

A vida inteira, sempre olhei para o solitário de Tambaú com um pé atrás. Apesar dessa antipatia herdada do passado, lí quase tudo que publicou. E quanto aprendi com seus escritos! Sua vida é um exemplo que não poderia ser escondida das gerações que o sucederam. Por sua longevidade, seu modelo de homem público e escritor, também serviram aos seus contemporâneos. Era um vaidoso? Sim, mas tinha motivos para sê-lo.

Não tive o privilégio da sua convivência. Uma única vez fui à sua residência acompanhando o prefeito Dorgival Terceiro Neto. O município projetou uma avenida ao pé do morro do Cabo Branco, para possibilitar o tráfego de mão única na Beira Mar. Essa avenida de retorno teria que cortar um pedaço de todos os quintais das casas defronte à praia. Só tinha quintal de gente importante. O Prefeito resolveu visitar primeiro o maior de todos, e expôs ao Ministro a sua idéia e a importância da obra para a cidade. Não quero nada de graça, vou desapropriar, indenizar e pagar, explicou o edil. O ministro ouviu tudo calado, fez algumas perguntas e se satisfez com os detalhes que queria conhecer.

- Não quero pagamento. Pode lançar mão do pedaço de terreno necessário. Só quero que salve os meus pés de jabuticaba.

O prefeito lembrou de que a jabuticaba só produz depois de trinta anos.

- Sei disso, mas lhe garanto que vou colhê-las!

A aquiescência do Ministro desarmou o espírito dos demais moradores da orla.Todos concordaram com a nova avenida que terminou lhes beneficiando com uma entrada pelos fundos de suas casas,

Pelo homem que foi, nas posições que ocupou e honrou, Zé Américo levou o nome da Paraíba aos píncaros. Por isso, repito, tinha motivos para se orgulhar da sua história, daí porque, tornou célebre e até folclórica a sua extrema vaidade, mesmo tentando escondê-la permanentemente. Aqui e acolá, porém, deixava escorregar...

Quando fez as pazes com Getulio Vargas e deixou o governo da Paraíba para ser novamente ministro da Viação e Obras Publicas, ao chegar ao Rio de Janeiro, cercado por jornalistas, foi indagado:

- Por que veio?

- Por que me chamaram.Porque precisam de mim!

Ao assumir a cadeira da imortalidade, na Academia Brasileira de Letras, não se fez de rogado:

- Penetro nesta casa como quem acha o seu lugar.

(PUBLICADO NA REVISTA GENIUS)


DESARMONIA ENTRE PODERES

A nossa primeira constituição republicana, promulgada em 1891, somente com uma emenda de 1926 veio a proclamar a independência e harmonia entre os poderes, inclusive, a sua restauração, como motivo de intervenção federal nos estados membros. Todavia, a desarmonia prevaleceu mais tempo que a harmonia preconizada pela Lei Maior. As rusgas, as idiossincrasias entre titulares de cada um dos poderes ou entre seus colegiados e o Executivo, foram registradas ao longo da história republicana. Os motivos sempre foram de natureza política e/ou econômica. Brigam por seus partidos ou por fatias maiores do orçamento. O executivo arrecada e os demais ajudam a gastar. Comparo esse cenário a uma família que mantém conta conjunta. O pai/provedor credita, a mulher e os filhos debitam. A Paraíba não poderia ficar ausente desse panorama, tanto no passado, quanto no presente. Volvendo aos primórdios da República e início do Século XX, encontramos na presidência deste Estado o paraibano nascido nesta capital, Antonio Alfredo da Gama e Melo que antes, na qualidade de vice-presidente da Província, nomeado pela Carta Imperial de 1880, assumira por cinco vezes os seus destinos. Era acusado pela oposição de trabalhar em surdina pela restauração, isto é, a volta da Monarquia, à qual servira no passado. Em batalha permanente com a Assembléia, conta no Jornal do Comércio do Rio, um anônimo C.A., seu propósito de “vingança contra os republicanos”. O diário O Commercio, órgão dirigido por Arthur Aquilles, transcreve o artigo na página 2, da sua edição de 8 de maio de 1900: “O Poder Executivo da Parahyba não vive em harmonia com o poder legislativo. Não posso contar ao leitor as rusgas domesticas daquelle Estado. Contente-se com saber que o governador ou presidente não morre de amores pela Assembléia estadual e que os deputados lhe pagão na mesma moeda.Chegou a vez do presidente atrapalhar um pouco a vida dos seus adversários. S.Excia meditava uma dessas vinganças estrondosas que abaixão por toda a vida a crista do inimigo, e mostrão ao mundo, com uma evidencia assustadora que o poder é o poder.Longos dias, compridas noites, o governo levou a preparar a tremenda calamidade que de uma vez para sempre aniquillasse os contrários. Em fim, ou por ter maduramente pensado sobre o caso ou porque o terrível Deus das vindictas lhe inspirasse a idéia soberba- o Governo dilatou num sorriso de satisfação cruel a carranca das cogitações pavorosas. O Governo achara o meio decisivo de humilhar a opposição. Aproximava-se o dia da reunião da Assembléia. Chegara, pois, o momento do golpe terrível, que já, e com toda a força, cahio sobre os imprudentes.O Presidente venceu. Contou o telegrapfo que se realizou o plano de S. Ex. plano que nunca sahio da cabeça dos Cavours e dos Bismarcks. Este plano transformou completamente os negócios da Parahyba”... “O Governo, diz um telegrama de A Noticia, está mudando os moveis da Assembléia para o andar superior do Lyceo, afim de evitar o funcionamento dos deputados republicanos”... “Não há duvida é uma vingança de mestre.Quem olhar desattentamente para o facto, notará apenas uma simples mudança de mobília; achará pandego o afan com que a mão do poder, mudada em mão de carregador, vai apressadamente levando cadeiras e mesas.Mas essa mudança de trastes é também uma profunda mudança política.Perece a primeira vista infantil e despique”. E conclui: “Uma Assembléia sem trastes é uma Assembléia sem influencia. A Augusta sala das sessões reduzida a sala de republica de estudantes pobres, não impressionará a galeria”. Essa verdadeira picuinha, miúda e própria das províncias sem educação política, foi perpetrada por um filósofo e escritor que virou patrono de cadeira da Academia Paraibana de Letras. Ligado ao Marechal Floriano Peixoto que o conheceu como vizinho e com quem costumava jogar gamão nas calçadas da rua General Osório (Rua Nova), Gama e Melo teria recusado convite para ser ministro da Justiça, e se negou, igualmente, a participar da Junta Governativa que governaria a Paraíba na instalação da Republica entre nós.Indicou o nome de Eugenio Toscano de Brito. A oposição, como já disse, acusava Gama e Melo de tramar contra a República, defendendo a restauração da Monarquia. “Procurou fingir-se extremo republicano para tirar o máximo de proveito através do marechal Floriano Peixoto e do seu preposto Álvaro Machado para que pudesse, em surdina, ir minando o nosso regime republicano no intuito de oportunamente erguer sobre as ruínas deste, a Monarchia”. O jornal de Arthur Achilles era impiedoso com o governo de Gama e Melo. Lembra o periódico que a República cumpria sua primeira década de existência e “Durante este período da historia da Parahyba não se registra uma administração mais desastrada e criminosa que a do Sr. Dr. Antonio Alfredo da Gama e Melo”. Imaginem de eu fosse falar da desarmonia entre os poderes nos tempos atuais. Mas essa é outra historia. (OBS. Nas transcrições mantive a grafia da época. A citação “dos Cavours e dos Bismarcks” é referência a Camilo Bento Cavour (1810/1861), primeiro ministro da Itália e a Otto Von Bismarck, (1815/1898) estadista alemão).

UM CONVITE DE CASAMENTO

RAMALHO LEITE UM CONVITE DE CASAMENTO Rebuscando os papeis que meu pai guardava em uma pasta, adicionada com peças que minha mãe achava que mereciam arquivo, encontrei um atencioso convite que fora enviado para o meu avô, tenente José Rodrigues da Costa Neto, senhor do engenho Poço Escuro, pelo coronel da Guarda Nacional e comendador da Ordem da Rosa, Felinto Florentino da Rocha. A missiva estava assim redigida:” Bananeiras, 20 de novembro de 1902: Illmo.Snr. Tendo de effetuar-se o casamento de minha filha Maria Engrácia da Rocha Ferreira com meo sobrinho José Antonio da Rocha Ferreira no dia 18 de dezembro p. vindouro, devendo ter lugar o acto religioso de 4 horas da tarde na matriz desta cidade e logo depois o acto civil em minha casa a rua do Livramento, tenho a honra de convidar V.S. e a Exma. família para assistirem a esses actos; e confiando que o convite será acceito, desde já antecipo os meus agradecimentos.Att°.Am° e Crº Obr° Felinto Florentino da Rocha.(grafia da época) O comendador Felinto Rocha foi por longo período chefe partidário e senhor do baraço e cutelo em toda a região do brejo. Nunca aceitou sair dos seus domínios para vôos mais altos. Mas se elegia quem ele botasse a mão. Fez dois genros deputados: Celso Cirne, em 1912 e José Antonio da Rocha, em 1934. Ao falecer deixou aos herdeiros cerca de noventa propriedades espalhadas pela Paraíba e Rio Grande do Norte. Foi ele que na feira de Moreno, proclamou: “aqui eu quero, posso e mando”. Era filho de Estevam José da Rocha, o Barão de Araruna e sobrinho de José Ferreira da Rocha, o Coronel Camporra. O noivo a que se refere o convite acima transcrito foi prefeito e deputado à Assembléia Constituinte paraibana em 1934. Eu o conheci e estive em sua casa à Duque de Caxias, na capital, acompanhando o deputado Clovis Bezerra, seu sucessor na cadeira. Era neto do coronel Camporra, filho de João Antonio Ferreira, portanto, sobrinho do seu sogro, comendador Felinto Rocha, que por sua vez era casado com uma irmã do noivo.Assim, o cel. Zé Antonio era cunhado, sobrinho e genro do cel.Felinto. No auge da febre cafeeira, quando a produção da rubiácea rivalizava com São Paulo e Minas, uma verdadeira civilização do café nasceria em Bananeiras.Em 1914 coronel Zé Antonio construiu sua residência em Bananeiras - aquele belíssimo sobrado que fica na curva de quem sobe para a Igreja. Outros cafeicultores fizeram o mesmo e hoje a cidade conserva essas relíquias da arquitetura do século passado.Para chegar até esse resultado, muitos anos foram vencidos desde que um sujeito chamado Tomé Barbosa plantou por aquelas bandas os primeiros pés de café.A mudas vieram de Mamanguape onde não se adaptaram aos tabuleiros costeiros. As terras férteis do brejo serviram de primeira para a cultura, e dotaram a Paraíba de uma “zona privilegiada, mais feliz que as outras pela existência de um produto mais rico do que os outros”, como disse Celso Mariz. O barões do café ajudaram a construir o exuberante tempo à Virgem do Livramento mas, sua contribuição era reconhecida pelo tratamento diferenciado que lhes era reservado nas solenidades religiosas. Os maiores contribuintes tinham direito a adorar a Virgem e gozar o espetáculo das solenidades do alto das tribunas. Passo a palavra a Celso Mariz, que pelos idos de 1944, em palestra no Bananeiras Clube descreveu o apogeu dos novos ricos.” Para elas (as tribunas) subiam nos dias de N. S. do Livramento os doutos dignatários da Corte Celeste, as famílias granfinas da época.A tribuna dos Rocha, a tribuna dos Neves, a tribuna dos Maia, a dos Bezerra,a dos Guedes Pereira, a dos Pinto... até quando o vigário Zé Diniz, desejando modernizar o tempo, tapou aquele genuflexório da elite.” É o mesmo Celso que descreve o nosso personagem de hoje. “O velho Targino é mesmo lembrado aqui como um exemplo de homem gozador, que esbanjava dinheiro de suas safras em viagens e hospedagens fidalgas, de mesa sempre variada e fina. Em suas porcelanas de monogramas de ouro serviram-se as comitivas de Álvaro Machado e do nosso primeiro bispo”. Tinha razão o comendador quando, no convite de casamento de sua filha, asseverava sua confiança de que “o meo convite será acceito”. O tenente José Rodrigues jamais perderia uma festa dessas.

TIO PITA DEU A ORDEM

Ramalho Leite “TIO PITA” DEU A ORDEM Muito se tem escrito sobre os acontecimentos que culminaram com a chamada revolução de 1930. Não terei a veleidade de, neste pequeno espaço, analisar fatos ou emitir conceitos. Prefiro o registro dos acontecimentos, deixando aos leitores seu juízo de valor. Todos sabem que Getúlio Vargas manteve o presidente Washington Luiz, de quem foi ministro da Fazenda, por longo período, acreditando na sua fidelidade. O gaúcho, enquanto permitia seus seguidores tramarem, na surdina, sua candidatura presidencial, negociava créditos federais para obras prioritários no Rio Grande do Sul. Uma carta de sua lavra, jurando apoio ao Catete, foi amplamente divulgada. Posteriormente, outra missiva juntou-se à primeira no arquivo de Washinton Luiz, com pensamento totalmente oposto. Osvaldo Aranha ouviu o seu desabafo:” A última carta de Getulio foi para mim uma surpresa brutal”, como conta Lira Neto em um dos tres volumes sobre o caudilho dos pampas. À época, os fatos políticos eram gerados por cartas e telegramas. Getúlio terminou ganhando o apelido de “Getúlio Cartas”. Decidida sua candidatura para enfrentar a chapa oficial, Getúlio precisava de um vice. Uma consulta feita por Washington Luiz sobre o apoio ao nome de Júlio Prestes, então presidente de São Paulo, para seu sucessor, recebera a aprovação da ampla maioria dos estados. Minas, de Antonio Carlos, a Paraíba de João Pessoa e o Rio Grande, juntos, adotaram o NEGO paraibano e passaram a compor a chamada Aliança Liberal que apresentaria a chapa Getúlio presidente, João Pessoa, vice. Antes de se chegar ao nome de João Pessoa, sondaram Paulo de Frontin, senador pelo Distrito Federal e grande prefeito do Rio. Alegando ser amigo do Presidente, aderiu a Júlio Prestes. Outro consultado foi o Simões Filho, líder da bancada baiana na Câmara e fundador do jornal A Tarde. Este recusou, veementemente, e foi acusado por João Neves da Fontoura, líder gaúcho, de estar negociando para a Bahia a mesma posição na chapa oficial em troca de favores inconfessáveis. Chegaram aos empurrões. O vice escolhido foi o presidente dos baianos, Vital Soares. Subindo o mapa do Brasil, os emissários de Getúlio ainda procuraram Estácio Coimbra, presidente de Pernambuco. A sua negativa levou ao nome de João Pessoa, destacado governante que ganhara o noticiário nacional com medidas austeras e práticas inovadoras, enfrentando a política dos coronéis. “Só uma vassourada em regra pode purificar a vida pública, rebaixada por figuras sem significação e aproveitadores gulosos”, dizia. Terminaram por varrê-lo. O imposto que João Pessoa instituiu e que lhe valeu o epíteto de “João Porteira” visava fortalecer a economia interna e canalizar nossas exportações pelo porto de Cabedelo, o que desagradou, principalmente, à praça pernambucana, acostumada desde os tempos coloniais a explorar as riquezas da nossa “capitania”. A reação não intimidou João Pessoa que avisou pelo jornal A União: “Os descontentes que se mudem para o Ceará ou Pernambuco,vivam por lá, e não se lembrem de voltar, porque voltando, terão de pagar a incorporação, ( era o imposto novo) talvez acrescida”. Pois esse espírito bravio, austero e que dava demonstrações de uma coragem exemplar, politicamente, era dependente do tio Pita, ou seja, seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente do Brasil e naquele tempo, membro da Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda. Veja o que nos narra Lira Neto: “Naquele fim de julho de 1929, dezenas de telegramas cruzaram o Atlântico pelo cabo submarino internacional que então servia às comunicações entre o Brasil e a Europa. Apesar do temperamento aguerrido e autoritário de João Pessoa, havia um ritual hierárquico a ser cumprido.Somente após o necessário consentimento de Epitácio- tio Pita, é que o sobrinho passou a ser abordado de modo direto pelos mensageiros de Getúlio....Na segunda feira, 29 de julho, Epitácio escreveu mensagem ao sobrinho para avisá-lo que autorizara o presidente mineiro Antonio Carlos a oficializar o convite (para vice de Getúlio). Isto significa que aceitarás”. Ordenou Epitácio Pessoa. O professor Lira Neto vai mais longe na sua avaliação: “A despeito de representar um pequeno estado e de ter entrado na política paraibana pela janela das contingências oligárquicas,Pessoa vinha causando perplexidade nas lideranças estaduais mais conservadoras ao mandar cortar despesa supérfluas,demitir pessoal excedente, extinguir secretarias que funcionavam como meros cabides de emprego e impedir a reeleição indefinida dos intendentes municipais”. De longe, porém, o tio Pita advertia: “Sei que as medidas que está tomando são todas de moralidade e justiça.Não estão acostumados a isto. A grita está sendo e há de ser enorme. Não se extirpam num instante hábitos enraizados desde muitos anos”. A impaciência de João Pessoa levou-o ao trágico final. A mudança brusca que procurou imprimir aos costumes da terrinha, terminou por fulminá-lo. Seu cadáver seria o estopim que deflagraria o movimento de 1930. Mas essa é outra história.

DELATORES

RAMALHO LEITE DELATORES Para o mundo cristão, o maior de todos os delatores foi Judas Iscariotes. Há muitas hipóteses que tentam explicar por que Judas traiu a Cristo. “ E quando estavam reclinados à mesa e comiam, disse Jesus: Em verdade vos digo que um de vós, que comigo come, há de trair-me”. Judas era um dos doze e o encarregado da coleta de dinheiro para o grupo. Tinha interesse em tirar proveito disso ao tempo em que esperava que o Messias tomasse o poder de Roma. Desenganado dessa perspectiva, resolveu entregar Jesus. Segundo consta, os sacerdotes lhe pagaram trinta dinheiros. Foi a primeira delação premiada de que se tem noticia. A punição de Judas, porém, foi das mais severas. Assumiu a responsabilidade de sua escolha e terminou na ponta de uma corda. Quando os holandeses invadiram Pernambuco, aí pelos idos de 1630, encontraram na colaboração de um nativo, o guia ideal para a conquistas de outros territórios do nordeste, ampliando seus domínios até a nossa Paraíba. Domingos Fernandes Calabar era um mameluco, isto é, filho de branco com índia e, abandonou suas terras para lutar ao lado dos portugueses e ajudar a expulsar os holandeses. Esteve ao lado de Matias de Albuquerque e participou das lutas de guerrilhas que dificultaram a penetração do invasor. De repente, Calabar muda de lado e, passa a apoiar os holandeses. Justificou que o fazia para evitar que a nova terra fosse escravizada por portugueses e espanhóis. Usou, como Judas, seu livre arbítrio. Preso em Porto Calvo foi enforcado e esquartejado. Sua delação levaria séculos para ser recompensada. Nos dias de hoje, a história tem relevado a posição assumida por Calabar. Não sendo brasileiro na expressão da palavra, gentílico que surgiria próximo à Independência, Calabar teria o direito de optar entre os diversos invasores da Capitania. O mesmo não se pode dizer de Joaquim Silvérios dos Reis. Apesar de português de nascimento, o coronel de Cavalaria, contratador de estradas, isto é, empreiteiro, e proprietário de minas estava falido em função dos altos impostos cobrados pela Coroa. Por essa razão, foi convidado e se juntou aos inconfidentes, reunidos e revoltados pelo mesmo motivo. A princípio participou do movimento que visava um Brasil independente e republicano. A chamada Inconfidência Mineira seria derrotada pela delação de Silvérios dos Reis, hoje considerado o patrono dos delatores. Foi ele que entregou ao Visconde de Barbacena os nomes dos revoltosos, chefiados por um seu xará, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O preço da sua delação seria pago por D.João VI, regente de Portugal, em virtude do impedimento de d.Maria, a Louca. Como pagamento por sua colaboração receberia titulo de fidalgo, um pouco de ouro, perdão das suas dívidas, moradia elegante, uma pensão vitalícia e um cargo de tesoureiro. Naquele tempo não se prendia tesoureiro... Não se comprovou o pagamento da sua traição. Consta que permaneceu preso na Ilha das Cobras por um bom tempo até obter uma pensão de duzentos mil reis. Sua fama de traidor o perseguiu a vida inteira, causando-lhe severos aborrecimentos e até atentados à sua vida, enquanto residiu no Brasil. Voltou à Portugal e veio definitivamente para a Colônia com a Família Real, em 1808. Migrou para o Maranhão onde faleceu em 1819 e foi enterrado com pompas na Igreja São João Batista. Quantos séculos viveu a nossa civilização, para registrar na sua história nova safra de delatores... Em troca de uma sentença branda, a denunciação afaga o delator e condena severamente a vitima da delação. Não interessa se o delator fazia parte da quadrilha e cometeu os mesmos crimes. Basta devolver parte do que levou para casa e, cumprirá sua sentença, na mansão que o dinheiro podre comprou. No Brasil de hoje, o crime pode até não compensar, mas a delação purifica o criminoso.