O QUE NÃO CONSTA DO LIVRO DE TOMBO DO PADRE ZÉ DINIZ

RAMALHO LEITE O QUE NÃO CONSTA DO LIVRO DE TOMBO DO PADRE ZÉ DINIZ Depois de revelar alguns registros do Livro de Tombo da paróquia de Bananeiras durante a gestão do monsenhor José Pereira Diniz, resolvi contar algumas histórias do folclore local, envolvendo a figura singular do vigário.Tido e havido como um homem de posses, senhor de engenho e de poucos amigos, fabricava rapadura e cachaça. O fisco estadual chegou a apreender um carregamento de álcool destinado à fabricação não muito pura, da chamada “cachaça milagrosa”. O batismo é da Revista O Cruzeiro, na sua famosa coluna “O impossível Acontece”, ao noticiar sobre a ação fiscal e a atividade extracurricular do vigário. O advogado Alfredo Pessoa de Lima em júri popular (eu estava presente na platéia), negou a autoria da notícia que lhe atribuíram. E justificou: “cachaceiro não é aquele que ingere em excesso a bebida, produto da cana-de-açúcar. Cachaceiro, pelo sufixo eiro, indica profissão. Cachaceiro, é, portanto, quem fabrica a cachaça”, ensinou, e concluiu: “Tivesse sido eu o autor da matéria, teria completado que em Bananeiras quase todo mundo é cachaceiro. É cachaceiro não somente o padre, (Zé Diniz, dirigia o Engenho de Nossa Senhora) mas o juiz, (Semeão Cananéa tinha um engenho em Remígio), o promotor (não sei onde era o engenho de Onaldo Montenegro) e o prefeito (José Rocha era dono do Engenho Jardim). A notícia publicada na principal revista do país, à época, teve ampla repercussão, e gerou contra o padre comentários desconfortáveis. O monsenhor era um homem rico e, Zé do Cinema, seu colaborador, afilhado e um dos seus poucos interlocutores, preocupado,contou-lhe o que se dizia na rua. O padrinho não tinha por que se explicar e, encerrou o assunto: - Zé, eu fiz voto de castidade! Quem fez voto de pobreza foi Frei Damião! O monsenhor era conhecido pela pouca convivência social. Dificilmente comparecia a qualquer evento que não dissesse respeito às suas atividades religiosas. Seu veículo, um jeep, cortava as estradas de barro e deixava os transeuntes na poeira. Contam que um frade, à época seu coadjuvante, voltava esbaforido e a pé, de Vila Maia, onde fora celebrar uma missa. A passagem da condução do padre Diniz só fez aumentar a poeira na túnica marrom do capuchinho, esperançoso por uma carona. Mesmo com essa fama de uso individual de sua viatura, Zé do Cinema insistia com o padrinho para que comprasse um jeep de quadro portas, os jipões que estavam na moda e, justificava: dr. Clovis e seu Mozart Bezerra já compraram; seu Zé Rocha recebeu o dele;major Jurandir também; só falta “meu padim” comprar o seu: -Pra que eu quero quadro portas Zé! Meu jeep tem duas portas e eu só uso uma... O meu amigo Vicente da Nóbrega, pai do jornalista Rubens Nóbrega e professor do Colégio Agrícola, morava na rua principal de Bananeiras, em casa alugada ao padre, também administrador dos bens da Sociedade São Vicente. Uma chuva forte revelou uma porção de goteiras. Aproveitando uma tarde de folga, o professor subiu ao telhado e tentava realizar o conserto. De repente, estaciona no meio da rua o padre Diniz e, de dentro do seu veículo, grita: - Você ai em cima, está destruindo minha casa? A resposta de Vicente veio desassombrada, como manda a tradição familiar: - Sua casa não! Essa casa é de Nossa Senhora. Só não sei se ela está recebendo o aluguel... Sobre a definição de cachaceiro, aludida acima, encontrei recente canção de um sertanejo chamado Eduardo Costa, que parece ter ouvido a lição do advogado Pessoa de Lima: “Dizem que sou cachaceiro/ cachaceiro eu não sou/ cachaceiro é quem fabrica a pinga/Eu sou só consumidor”.

O LIVRO DE TOMBO DO PADRE ZÉ DINIZ (2)

O patrimônio de Nossa Senhora do Livramento era considerável. Até um engenho de cachaça e rapadura estava incluído entre os bens da Paróquia. Em alguns empreendimentos, a Sociedade São Vicente de Paulo era sua sócia preferida. Como no caso da instalação do Cine Excelsior, um investimento de quase cinqüenta mil cruzeiros, tendo a SSVP participado com a metade. Dos lucros, porém, trinta por cento ficariam de reserva para futuros melhoramentos. O prédio fora cedido, gratuitamente, pelo Município e, permaneceria em poder da Paróquia, enquanto ali funcionasse o Cinema do Padre, como se tornou conhecido. Lembro que, a certa altura de sua história, a tela já encardida da poeira levantada pelos bandos de índios a perseguir cowboys e marcada pelo chicote do Zorro, a prefeitura questionou os direitos do padre Zé Diniz e tentou lhe tomar o prédio. Meu pai, vereador representante do distrito de Borborema e, portanto, mais afastado das querelas da sede municipal, tomou a defesa do vigário e negociou um acordo. A paróquia faria uma ampla reforma nas dependências do cinema e a edilidade ampliaria o prazo do comodato. Felizes as partes, o vigário Zé Diniz, agradecido, e sabendo ser o vereador Arlindo Ramalho um apaixonado pela sétima arte, lhe prometeu gratuidade para ingresso no cinema até o final dos séculos. A promessa não se concretizou: meu pai nunca deixou de pagar pelo seu ingresso e os dos circunstantes que o cercavam no desejo de assistir à fita. O cinema fechou e o prédio voltou ao patrimônio municipal. O Livro do Tombo registra: “Foi inaugurado, nesta cidade de Bananeiras, na primeira semana de outubro de 1949, dia 8, o Cine Teatro Excelsior, pertencente ao patrimônio da Matriz de N. Senhora do Livramento e à Sociedade São Vicente de Paulo, da mesma Matriz de Bananeiras.Pelo que ficou estabelecido e aprovado em ata, pelos confrades vicentinos, a Sociedade entrou com uma parte das despesas, fazendo o mesmo, o Patrimônio da Matriz de Bananeiras, com a condição dos lucros serem divididos em partes iguais” . Segue-se o arrolamento dos bens depositados no aludido prédio. E termina a anotação: “ Para constar, eu que realizei esta idéia, para facilitar meios destinados a fins sociais e caritativos da Paróquia,subscrevo-me com o presidente em exercício da SSVP, em 1 de janeiro de 1950”. Manuseando o Livro de Tombo encontrei outro manuscrito bem interessante, datado de 6 de junho de 1938: “O dr. José Amancio Ramalho, empresário da Uzina Hidroelétrica de Borburema, mandou desligar a luz da Igreja Matriz desta cidade de Bananeiras em 2 de junho de 1938. O pretexto que apresentou foi que quando a luz da Igreja é ligada faz baixar a iluminação pública dando assim ensejo a que o prefeito multe a Empreza todas as vezes que deste modo sucede.O mais interessante é que há oito anos, desde 1930, que a iluminação da Matriz foi reformada e ligada à Uzina da Empreza sob a gerencia do Sr. Frederico Kramer, sem nunca ter sido alterada, com relação a distribuição e quantidade de luz consumida e somente, agora, em 1938 viria prejudicar os interesses da Empreza com relação ao fornecimento da luz publica”. ( Mantive nas transcrições a grafia da época) Destaco, aqui, a referência ao alemão Frederico Kramer que, desde o inicio dos anos 1920 instalou-se no brejo paraibano. Em 1922, por motivos de saúde, regressou à Alemanha e de lá trouxe seu irmão Haris Kramer, que casou com dona Alzira Lucena e deixou muitos descendentes entre nós. Ambos eram mecânicos dos melhores e, participaram da montagem da Usina Hidroelétrica de Borborema, a terceira da modalidade na América Latina. O Livro de Tombo também esclarece aos fies que, o mosaico existente à entrada da Igreja Matriz, com a data de 1 de 1 de 1861, refere-se ao início das obras de construção do templo,a partir do esforço do padre Ibiapina. No ano anterior, o governador Silva Nunes, em visita a Vila de Bananeiras, registrava suas desculpas por não ter recursos para contribuir com aquela obra e contentou-se em visitar a capela dedicada ao Sagrado Coração de Jesus.Há quem conte que os barões do café, além do contributo em dinheiro, carregaram pedras e tijolos para erguer a bela Matriz de Bananeiras que hoje conhecemos. Com isso, cada ilustre família ganhou uma tribuna, de onde assistiam ao culto religioso. Padre Zé Diniz não registrou no Livro de Tombo, mas se sabe, foi o autor da feliz idéia de derrubar as tribunas e colocar todos iguais perante Deus e os ritos católicos.

O LIVRO DE TOMBO DO PADRE ZÉ DINIZ

O monsenhor José Pereira Diniz marcou época como vigário da Matriz de Nossa Senhora do Livramento, na antiga freguesia de Bananeiras. Seu apostolado foi tão demorado que fez nascer um rico folclore em torno do seu nome, que eu ainda hei de contar. Para conhecê-lo melhor, é preciso, porém, uma incursão pelo Livro de Tombo da Paróquia, desde que precavido contra ácaros e munido de uma lupa, para melhor decifrar os traços gráficos de sua escrivã, a professora Maria Emília Neves. Tudo está ali registrado, a exemplo da querela com o então prefeito Pedro de Almeida, cujas cartas que ilustraram suas divergências é um primor de respeito democrático, o que surpreende pela fama autoritária do pároco. O Livro de Tombo é uma herança portuguesa e nos reporta ao seu arquivo maior, a Torre do Tombo. O Livro de Tombo Paroquial vem dos primeiros bispados, da Bahia de 1707 e de São Paulo de 1746, quando foi determinado que cada paróquia teria o seu livro, onde seriam registrados os casamentos, nascimentos e óbitos; a posse dos clérigos e os acontecimentos de destaque que merecessem ser transmitidos às futuras gerações. Quando surgiram os cartórios, alguns atos da vida civil deixaram o registro da casa paroquial e engrossaram os livros dos notários. Mas a vida da igreja, no âmbito de cada freguesia, salvo por omissão, não deveriam ficar ausentes da narrativa histórica. O monsenhor José Diniz foi freqüentador assíduo do Livro de Tombo e eu, freqüentei pouco as suas páginas, mas o suficiente para assuntar muitas colunas e dividir com meus leitores raras preciosidades. Todos sabemos que o estado brasileiro é laico, isto é, respeita a liberdade de crença e de cultos, mas não professa qualquer religião. Mas nem sempre foi assim.Houve um tempo em que o Estado e Igreja eram um só corpo e um só espírito. Rui Barbosa foi quem primeiro trouxe uma luz sobre o assunto e por um decreto de 1890, já nos primeiros dias da República, declarou-se o Brasil um estado sem religião oficial. Antes, a carta imperial de 1824 foi outorgada em nome da Santíssima Trindade. As Cartas de 1891,1934,1937, tiraram a menção a Deus do seu preâmbulo, vindo a reaparecer por obra dos constituintes de 1946 e repetida pela mão dos militares em 1967/69 mas confirmando a manutenção da liberdade de cultos.A Constituição Cidadã de Ulisses Guimarães, invoca no seu preâmbulo a proteção de Deus. Apesar de todo esse histórico separando a Igreja do Estado, pelos idos de 1957, a Câmara de Bananeiras resolveu vincular aquele município à Igreja Católica,votando a seguinte Resolução: “ O presidente da Câmara Municipal de Bananeiras, faz saber que a Câmara Municipal de Bananeiras decreta e eu promulgo a seguinte Resolução: “Proclama a sua confiança em Deus e faz a consagração Pública e Perpétua do Município de Bananeiras à proteção dos SS. Coração de Jesus e Maria” Art. 1º- Para maior afirmação da sua confiança em Deus, faz a consagração pública e perpétua do Município Constitucional de Bananeiras à proteção especial dos Sacratíssimos Corações de Jesus e Maria Imaculada; Art.2º- O ato será solene e proclamado pelo prefeito Municipal e presidente da Câmara de Vereadores, na Igreja Matriz de Bananeiras, pelas 19 e meia horas, do dia 6 de janeiro de 1958, com a presença dos membros da sobredita Câmara de Vereadores, autoridades eclesiásticas e todas as classes sociais desta cidade; Art. 3º - A presente Resolução entrará em vigor na data da sua aprovação, revogadas as disposições em contrário. Sala das Sessões da Câmara Municipal de Bananeiras em 30 de dezembro de 1957,assinam Cláver Ferreira Grilo, Presidente, Arlindo Rodrigues Ramalho, 1º secretario e Antonio Vaz de Oliveira, 2º secretario. O primeiro secretário era o meu pai, depois, primeiro prefeito eleito de Borborema.O monsenhor José Diniz, por certo o inspirador do edito municipal, mandou registrar no Livro de Tombo: “Aos 6 de janeiro de 1958, pelas 19 e meia hora,na Igreja Matriz de N.Senhora do Livramento, em ato soleníssimo, presentes o sr. prefeito municipal, Homero Araujo, presidente da Câmara de Vereadores, Cláver Grilo e membros da referida Câmara, autoridade eclesiástica da Paróquia, monsenhor Jose Pereira Diniz, milhares de assistentes de todas as classes sociais de Bananeiras, teve lugar na Capela Mor do referido templo, o ato soleníssimo da Consagração do Município de Bananeiras ao sacratíssimos Coração de Jesus e Maria Imaculada”. O Brasil pode ser laico, mas a cidade de Bananeiras, desde então, é teocrática e, igual a Estado do Vaticano,deveria professar uma única religião: “revogadas as disposições em contrário”.

O POETA DAS POMBAS MOROU EM BANANEIRAS

O “ POETA DAS POMBAS” MOROU EM BANANEIRAS Ele não gostava desse tratamento: o “poeta das pombas”; todavia, foi assim que ficou conhecido o maranhense Raimundo Correia, batizado Raimundo da Mota de Azevedo Correia e nascido em um navio na baía de Mogúncia, litoral do estado do Maranhão, no dia 13 de maio de 1859. “As pombas”, um dos sonetos mais famosos e inserto no seu segundo livro, “Sinfonias” (1883), lhe valeu o epíteto de “poeta das pombas”: vai-se a primeira pomba despertada, vai-se outra mais... Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ao lado de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira compôs a tríade do parnasianismo brasileiro, escola literária que nasceu na França e chegou entre nós tendo Alberto de Oliveira como precursor. Esses poetas preferiam o soneto, fugiam das emoções encarando a realidade e, na estética de seus versos buscavam a beleza e a sonoridade perfeitas. Raimundo Correia, porém, iniciou-se no romantismo e foi um artista do verso. Para Manoel Bandeira, construiu “alguns dos versos mais misteriosamente belos da nossa língua”. Morreu no berço do parnasianismo, em 1911 e, somente em 1920, por iniciativa da ABL, seus restos mortais chegaram à Pátria. Como seu pai, o desembargador José da Mota de Azevedo Correia, foi um servidor da Justiça. Começou como promotor e foi juiz a vida inteira, passando por várias comarcas do Rio de Janeiro. Em Cabo Frio, onde seu genitor foi juiz por duas vezes, o poeta diz que terminou a sua infância e viveu a adolescência à beira mar, onde teria lido “Os Lusíadas”, de Luis Vaz de Camões. Nos primeiros cinco anos de idade, Raimundo Correia teria residido em Bananeiras, pois acompanhara o pai, nomeado para aquela comarca a partir de 1865. A descoberta é do historiador Humberto Nóbrega, revelada em seu discurso de posse no IHGPB. Ao detalhar a evolução histórica de Bananeiras, cidade de sua origem familiar, o saudoso Humberto Nóbrega afirma: “Dentre os servidores da Justiça, vale a pena, de relance, focalizar a passagem de José da Mota Azevedo Correia, posteriormente ministro do Conselho Supremo Militar, nomeado para Bananeiras a 11 de maio de 1865, pois é o progenitor do cintilante Raimundo Correia...assim, aos cinco anos de idade, veio com o pai morar em Bananeiras”.Humberto imagina que pode ter sido o cenário da Cupaóba, “onde o dia termina mais cedo pois o horizonte é limitado pelos recortes serranos”, a inspiração inicial do poeta do “Mal Secreto”. Nas pesquisas que realizei sobre a trajetória do portugues José da Mota Azevedo Correia verifiquei que houve um período da sua vida em que foi juiz itinerante desse Brasil do Segundo Império e, aportou em Bananeiras (PB), em Vila Nova (SE), São Miguel (SC) e Bananal (SP) antes de se tornar desembargador pelo Mato Grosso. Foi nomeado Ministro Adjunto do Superior Tribunal Militar onde entrou em 1890 e aposentou-se em 1891, vindo a falecer quatro anos depois, em 14 de janeiro de 1895. A primeira infância do poeta, seu filho, seria também marcada por essa peregrinação a vários estados brasileiros, até pousar na Corte e se matricular no Colégio Pedro II, antigo Colégio Nacional. Como acompanhou o pai na sua faina de distribuir justiça pelo Império afora, é certeza que o vate, que se dizia sem pátria porque nasceu no oceano, morou um período da sua vida na Vila de Bananeiras.

A PROPINA VEM DE LONGE

Quando votei o Estatuto dos Servidores Públicos (LC 39, de 12 de dezembro de 1985) questionei seu principal redator, o procurador João Bosco Pereira, em função do artigo 258 que prescrevia entre as proibições funcionais: “X-receber ilicitamente, propinas, comissões ou vantagem de qualquer espécie, em razão do cargo ou função”. A explicação que recebi reportava-se ao entendimento de que propina seria a gratificação extra, paga por serviço normal, como as gorjetas, ou as comissões legalmente deferidas a servidores públicos. A lei não pretendia legalizar a propina, como se entende hoje no universo brasileiro, ou seja - quantia que se oferece a alguém para induzi-lo a praticar atos ilícitos ou contrários ao seu dever.Em Portugal, de onde veio o costume e também todos os maus costumes que herdamos, propina é a taxa de frequência paga pelo estudante em uma escola de ensino superior, para contribuir com seus custos. Aos poucos, tanto lá como cá, o conceito foi sendo ampliado e, em livro publicado pelos idos de 1892, encontrei a seguinte referência à rainha- esposa de D.João V: “A Rainha, nossa senhora faz pouco ruído e não se fala nessa Princesa, nem eu sei que ela tenha vindo de Alemanha mais que pelas propinas que recebi do Conselho da Fazenda”. Eis uma primeira confissão, sem delação premiada. No Primeiro Reinado houve momentos em que o poder de Domitila de Castro, a primeira-amante de D. Pedro, suplantava a força do trono. Por ela passavam todos os assuntos que cheirassem a ouro. Como exemplo, Paulo Rezzutti conta que D.Pedro estava acamado em função de uma surra que tomara de um marido ciumento. Domitila, a Marquesa de Santos, virou regente informal. À época, para se instaurar um processo, fazia-se uma devassa, isto é, uma investigação. O devassado, para não atrapalhar as investigações, era exilado. Conta em suas memórias o conselheiro Vasconcelos Drumont, que Domitila recebeu dinheiro do grupo de um tal Francisco Inácio “ não só para conseguir que a devassa fosse cancelada, mas também para a nomeação de um parente dele para o cargo de intendente de policia”. Esse fato provocou o rompimento de José Bonifácio, o Patriarca da Independência, com D.Pedro. Dom Pedro enfrentou problemas com revoltas armadas, mas também na Assembléia surgiram várias escaramuças, entre as quais, a criação da primeira Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os ministros da monarquia nascente. Caso os ministros fossem considerados culpados, D.Pedro seria obrigado a demiti-los. O Imperador empenhou-se pessoalmente na defesa dos seus ministros e, ainda segundo Dumont, corroborado pelo bispo Romualdo, teria chegado a pagar pelo voto de alguns deputados, prática que se arrastaria até chegar ao nosso estimado presidencialismo. A proximidade entre d.Pedro II e o Barão de Mauá resultou em “intensa aplicação de dinheiro público nos empreendimentos de uma única empresa” como infere Marcos Costa. No inicio de 1850, Mauá era possuidor apenas de uma fábrica. Com o beneplácito do Imperador, em dois anos agregou aos seus negócios um banco (Banco do Brasil refundado), um ferrovia, uma empresa de navegação e ainda recebeu a concessão de vários serviços públicos. Sua fortuna era superior ao orçamento do Império. Nos dias de hoje, essa ação empreendedora que mudou a cara do Brasil seria objeto de uma investigação parlamentar, mesmo que terminasse em brioche, já que a pizza não era comum entre nós. Um pouco antes, com a chegada da Corte à Colônia, d.João VI deparou-se com o exercício da propina entre os agentes de sua alfândega. Além- mar, os embaixadores brasileiros em Londres também pegavam a sua na negociata dos empréstimos que o Brasil tomava, conforme registra em suas memórias, o embaixador Heitor Lira. No Brasil a propina sempre será tida como dinheiro obtido de forma ilícita, através do suborno, em atos de corrupção. Esteve presente na República Velha, quando foram registradas inúmeras obras suspeitas de sobre-preço. Entre nós, como lembrança dessa época, restam as estacas do Porto do Sanhauá, sonho da Parahyba que envergonhou Epitácio Pessoa. O moralismo, que chegou com os tenentes à Revolução de Trinta, conseguiu acabar com os “carcomidos”, os coronéis da política apontados como responsáveis pela corrupção. Derrubaram a velha corrupção e instalaram uma nova, como disse Motta Araújo. Chegou-se ao ponto de louvar “o rouba mas faz”. A palavra propina, vem do latim, propinare, “dar de beber”, como me ensinou no Liceu o professor Raul Córdula. A propina, segundo consta, teria sido popular entre os gregos. Era costume entre eles, ao levantar a taça em brinde, beber, apenas, uma parte do seu conteúdo. O restante do vinho que permanecia na taça com que se brindara à saúde de alguém, chamava-se propina. Tempos heróicos aqueles, quando propina era, apenas, uma sobra de vinho.


UM BANQUETE NO PALÁCIO

UM BANQUETE NO PALÁCIO No passado, era normal e não merecia a mais leve censura, as comemorações oficiais realizadas pelo governo. Às vezes, após um lauto banquete, seguia-se um animado baile, onde o governo confraternizava-se com a alta sociedade. O povo? Ah! O povo. Este componente não era chamado nem para votar, quanto mais para comemorar a posse de um governante. O eleitor era escolhido entre a elite dominante. Essa elite participava do rega-bofe e o “populacho” se contentava em ficar na praça a ouvir tocar uma banda de musica escalda para a ocasião. A Gazeta do Commércio, órgão que circulou nos primeiros anos republicanos,narrou uma dessas festividades. A narrativa foi considerada especial, pelo governo, daí porque a mandou transcrever em A União de 28 de outubro de 1898. Eu considerei uma curiosidade exemplar e resolvi compartilhar um trecho com meus parcos leitores: “Como já havemos dito,o banquete offerecido ao exmo.sr.dr.Antonio Alfredo da Gama e Mello, por se ter empossado no alto cargo de Presidente d´este Estado, começou ás 6 e ½ horas da tarde do dia 22 do corrente, n´um dos vastos salões do Lyceu Parahybano. Ostentava-se, no centro do salão onde ia ter lugar o festim, uma extensa meza primorosamente preparada em forma de ferradura e, sobre a qual, destacavam-se, pelos jorros de luz despejados dos candelabros, crystaes, flores, as mais finas iguarias a par com os mais deliciosos licores. Das paredes pendiam brasões entrelaçados de bandeirolas de todas as nações amigas,vendo-se na parte de honra, o retrato do illustre parahybano que era o alvo das expansivas manifestações d´aquelle dia e exprimia o prenúncio da paz, da ordem e do progresso do seu Estado natalício. A hora aparazada para começo do festim,s.exc.sr.dr. Gama, acompanhado de grande numero de cavalheiros, representantes da fina flor parahybana,vindo de Palácio entrou no salão e tomou a presidência da meza, em volta da qual sentaram-se também cento e sessenta convivas. Os compartimentos immediatos estavam cheios de numeroso pessoal, que não tiveram lugar, aguardando-se uma segunda refeição, que foi servida depois da primeira. Reinou em tudo muita ordem e muita animação, sendo o primeiro brinde levantado pelo illustre desembargador José Peregrino de Araujo, ao eminente dr.Gama e Mello,que foi recebido com expansivas demonstrações de aplausos. Após seguiram-se outros, salientando-se os do exmo.e revmo.sr Padre Walfredo Leal, ex-Vice-presidente do Estado, ao mesmo sr.dr. Gama e do eloqüente e illustrado orador parahybano,dr Castro Pinto, saudando a imprensa na pessoa do Presidente do Estado, que, como sempre, eletrisou, com sua palavra fluente e enfeitada de verdadeiros arroubos oratórios,todos os circunstantes. Em agradecimento as justas felicitações que lhe eram enthusiasticamente dirigidas, levantou-se o exmo.sr.dr. Gama e Mello e n´um discurso em que primou pela linguagem florida e entremeada dos mais bellos conceitos, que só sabe uzal-os o talento e a ilustração,pediu o concurso de todos os parahybanos, para que o seu governo seja de prosperidade para o Estado e findou saudando o progresso da Parahyba”.( Mantive a grafia da época) Mais modernamente, com o surgimento do rádio entre nós, a Tabajara, emissora oficial, era sempre escalada para a cobertura dos eventos palacianos. Lembro que Geraldo Cavalcanti manteve o microfone oficial em suas mãos por vários governos. Certa ocasião, estando afônico, orientou um substituto para a tarefa e destacou que, na chegada do governador, não esquecesse de lembrar que ele estava acompanhado da primeira dama do estado.O locutor não se fez de rogado. O governador foi descendo do carro e enquanto puxava a esposa pela mão, ela sapecou: - Acaba de chegar, Sua Excia, o governador, acompanhado de sua primeira mulher... Não preciso dizer que o locutor perdeu o emprego! Lembro também Paschoal Carrilho, esse, mais debochado, vez por outra fazia das suas. Designado para cobrir a realização de um banquete no Palácio, oferecido a um general cinco estrelas, de má vontade, iniciou a transmissão: - Começou o banquete. Já estão comendo a mulher do governador e o bispo. Os demais aguardam na fila...


O MISTERIOSO SUMIÇO DO CABEDELO

O MISTERIOSO SUMIÇO DO CABEDELO Sabe-se que foram trinta e cinco os navios brasileiros atacados e desaparecidos nas águas do Atlântico, do Mediterrâneo e do Índico, desde a costa dos Estados Unidos ao extremo sul da África, durante os anos de 1941 a 1944. Esses incidentes causaram a morte de mais de mil pessoas e obrigaram a entrada do Brasil no conflito, rompendo relações com os países do Eixo a partir de janeiro de 1942. Se a ofensiva de submarinos alemães e italianos aos nossos vasos cargueiros, já ocorria antes de Getúlio Vargas declarar o Brasil em estado de guerra, a partir de então, os ataques passaram a ser constantes e persistentes. Antes, os alvos foram os mercantes que transitavam pelo Caribe ou pela costa leste dos EE.UU, depois, os encouraçados inimigos chegaram às nossas costas e, entre Recife e Salvador, acertaram, em dois dias, seis dos nossos barcos de carga, causando mais de seiscentas mortes. A maioria das embarcações pertencia ao Lloyd Brasileiro, mas outras pequenas companhias também sofreram perdas irreparáveis em vidas e danos materiais. Entre os navios afundados durante o segundo conflito mundial, o navio mercante Cabedelo, desapareceu sem deixar vestígios, nas águas do Atlântico, acredita-se, à leste das Pequenas Antilhas. Estava com 54 tripulantes a bordo, sob o comando do capitão Pedro Veloso da Silveira. Esse navio, por ironia, fora fabricado em estaleiro alemão e ganhara inicialmente o nome de Prússia. Movido a vapor e construído em aço, tinha cento e onze metros de comprimento e quinze e meio de largura, com um calado de quase sete metros. Podia alcançar uma velocidade de doze nós, o que daria cerca de vinte e dois quilômetros por hora. Alvo fácil, sem dúvida. Na Primeira Grande Guerra, estava a serviço da Marinha Alemã. Quando da entrada do Brasil na conflagração, em junho de 1917, foi confiscado pelo governo brasileiro e incorporado à nossa frota, com o nome de Cabedelo. Estava retido desde 1915 no Porto de Santos. O Cabedelo zarpou de Filadélfia, nos EE.UU, em 14 de fevereiro de 1942, em direção às Antilhas mas como destino final o Rio de Janeiro. Naquela ocasião, os navios que trafegavam pela chamada Zona de Segurança Pan-Americana - costa leste dos EE.UU, ainda não eram controlados nem acompanhados para efeito de proteção dos ataques inimigos. Tem-se como aquela, a data em que o Cabedelo desapareceu nos mares, sem deixar rastro. Para pesquisadores citados por Wikipédia, teria sido em 25 de fevereiro a data do ataque ao barco brasileiro, por obra e graça do submarino italiano Da Vinci. A afirmativa, porém, é controversa. Primeiro, diz-se que o afundamento do Cabedelo não foi encontrado nos registros italianos e, depois, pela data provável do ataque, já havendo navegado onze dias desde a partida, estaria fora na área de ação do Da Vinci. O afundamento do Cabedelo ainda foi atribuído a outro submarino italiano, o Torelli, que no mesmo período atacara dois outros mercantes à altura das Guianas. Nenhuma das hipóteses levantadas foi amparada em provas concretas. A ausência de sobreviventes, fato inusitado até então, entre nós, levou-se à tese de que os tripulantes teriam sido metralhados pelo inimigo quando já estariam a bordo de escaleres. Todavia, nenhum escaler, mesmo vazio, foi encontrado. E o mistério permanece até os dias atuais.

CELSO CIRNE, O VISIONÁRIO DE MORENO

Segundo Celso Mariz, o seu xará Celso Columbano da Costa Cirne teria sido o verdadeiro fundador da rivalidade que existiu entre Bananeiras e Solânea, notadamente, quando essa vila que se chamava Moreno, contava fábricas,tinha comércio crescente, expandia-se em uma planície com perspectiva de superar a sede municipal. Tornar-se-ia uma porta de saída para os sertões, com a certeza da chegada do trem. Para Celso Cirne, a ferrovia deveria aportar, diretamente, em Moreno, deixando Bananeiras à margem do progresso. Fez gestões nesse sentido e conseguiu que a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS) realizasse estudos “a fim de modificar o traçado da linha que, escalando a serra da Borborema, teria de penetrar no vale do rio Curimataú e na região das minas de Picuí”*. O trecho era uma continuação da Estrada de Ferro Conde D´eu, e partiria de Independência (Guarabira) até Picuí, onde o trem nunca chegou.

Celso Cirne fói eleito deputado estadual em 1912, juntamente com seu cunhado Sólon de Lucena. Celso juntava ao seu prestígio pessoal a força política do sogro, o comendador Felinto Rocha, que morreria em 1913, antes do término do único mandato do genro. Na vitória política de Epitácio Pessoa, em 1915, os dois políticos do brejo já estavam unidos. Com os votos de Celso e dos moradores da Vila Branca, Solon de Lucena tornou-se chefe político de Bananeiras, tomando o trono dos Rocha. Foi a parceria de Solon com seu parente Epitácio que conseguiu o prosseguimento da linha férrea até Bananeiras. Em um aditivo contratual de 1922 foi incorporada à Great Western o trecho entre Borborema e a Boca do Túnel, este em construção pelo IFOCS. Se contrapondo, pois, ao traçado idealizado por Celso Cirne, Solon proclamou: “o trem chegará a Bananeiras, nem que seja por debaixo da terra”.Terminado o túnel, o trem chegou em 1925.

Descrito por Celso Mariz como “vulto de esquisita singularidade, tão bom, vivaz e inteligente, quão desinteressado de si próprio,magnânimo,desorganizado e sonhador” Celso Cirne foi um propulsor do desenvolvimento do brejo. Fixado em Moreno, ali centrou suas atividades políticas, sociais e econômicas. Havia muita banana na região? - Vamos abrir uma fábrica de doces! Plantamos fumo? - Vamos fabricar charutos! Fundou colégios, e trouxe professores de fora para aprimorar o ensino. Um deles, Álvaro de Carvalho, fez amizade com Solon e com ele ingressando na atividade política chegou à presidência do Estado após a morte de João Pessoa. Nem sempre as iniciativas de Celso Cirne foram vitoriosas. Ele sonhava acima da realidade e muitas de suas ações redundaram em prejuízo financeiro, mesmo com apoio oficial.

Um decreto do presidente Epitácio, de dois de agosto de 1922, autorizou o Ministério da Agricultura a contratar com Celso Cirne a instalação de uma fábrica de farinha de mandioca no distrito de Moreno, com capacidade para a produção diária de duzentas sacas, e concedia um empréstimo de 75 contos de reis para o empreendimento. Outro edito presidencial, este do dia 30 do mesmo mês e ano, abriu um credito especial ao Ministério da Agricultura para pagar ao industrial morenense. Não se sabe se algum dia o governo colheu retorno desse empréstimo, mas é sabido que um pequeno fracasso não levava o nosso herói ao desânimo.

Os seus planos, às vezes mirabolantes, prendiam o ouvinte pela força dos argumentos, mesmos que revelassem uma distância entre o sonho e a realidade.Coriolano Medeiros, patrono da nossa Academia de Letras, foi seu hóspede por uma noite, quando se dirigia a Barra de Santa Rosa. Recebido afavelmente em uma mesa farta, mesmo cansado da longa caminhada em lombo de animais, achegou-se para uma conversa na sala. E se pôs a ouvir. Aquele homem era atualizado com as coisas do mundo e, os ouvidos de Coriolano, mesmo num corpo fatigado, ficaram impressionados com a palestra “afável e cerrada do hospedeiro”. Nessa noite, eu não diria que se discutiu, pois era Celso que discorria sozinho sobre o desenvolvimento da região, com a estrada de ferro em Moreno. Saindo da órbita local, “conversava sobre o futuro da alimentação concentrada e na viagem de horas ao Rio, quando a aviação pouco subira além da Torre Eiffel e o almoço de uma pílula ainda não pesava na maca do soldado alemão”, conforme a narrativa de Celso Mariz.

O dia amanheceu ouvindo-se a voz de Celso Cirne. Coriolano, o hóspede, partiu sem conhecer a cama que lhe haviam preparado para o pernoite.(*Euclides Pinto,in História de Uma Estrada de Ferro no Nordeste)


REZAI POR FIRMINO, FIRMINO MORREU...

REZAI POR FIRMINO,FIRMINO MORREU... A Igreja de Nossa Senhora do Livramento só tinha uma torre, do lado direito.Para entronizar um relógio que pudesse ser visto por toda a cidade de Bananeiras, era necessário uma segunda, do lado esquerdo, por onde se derramava a urbe, descendo a ladeira,conforme registra o gaucho Luiz Antonio da Silva Nunes, em 1860, primeiro governador a visitar o nosso interior. Wilson Seixas destaca que a cidade crescia subindo uma ladeira. A torre foi construída e nela implantada um relógio cuja trilha musical acordava a cidade até bem pouco tempo, quando a era digital afogou a saudade e matou a homenagem a Firmino. Everaldo Lucena eternizou em livro a letra daquela musiquinha saída da verve popular: “Rezai por Firmino/ Firmino morreu/O relógio da torre/foi ele que deu”. Mas a minha curiosidade é descobrir quem foi esse Firmino, cantado em verso inesquecível, mas sem registro de patente, sobrenome ou origem. Há tempos que vasculho os escritos de vários historiadores, a começar por Maurílio Almeida passado por Humberto Nóbrega até Manoel Luiz da Silva e chegando a Tancredo de Carvalho. Nas “Memórias de um Brejeiro”, o primeiro prefeito de Solânea refere-se a uma pessoa muito querida na cidade, “João FIRMINO de Miranda Pontes, plantador de fumo, produto que vendia transformado em corda”. Era um homem rico, mas dificilmente seria esse o Firmino que procuro. Sendo do distrito de Moreno (Solânea), àquele tempo já com a rivalidade aguçada entre as duas comunidades, seria “excomungado”, caso doasse um relógio para a igreja da cidade sede, apesar da relação filial entre elas existente. Maurílio Almeida conta que certa feita, o comendador Felinto Rocha caminhava na Rua do Comercio, em Bananeiras, quando foi abordado pelo padre encarregado da construção da Igreja Matriz, em busca de donativos para a obra que se arrastava, pois o governo já confessara a falta de verba para essa edificação. O coronel assinou a lista e surpreendeu o padre: doara um conto de réis. Ao seu lado, seu primo FIRMINO Florentino seguiu os demais subscritores e passou duzentos mil réis ao cofre da Paróquia. Este sim, deve ser o FIRMINO que procuro, dizimista permanente da Freguesia, de família tradicional e responsabilidade social com o desenvolvimento municipal. Firmino Florentino da Rocha tinha posses, e seu nome aparece no inventário do irmão Joaquim Claudiano, o Quicó, a quem vendera uma propriedade em Santa Cruz, no Rio Grande do Norte. O Quicó viria a ser o pai de dona Dondon, avó de Clovis Bezerra, que faleceu depois de completar um centenário de nascimento. Firmino era filho de José Ferreira da Rocha, o coronel Camporra, casado com Ana Joaquim de Melo que também foram os pais de Ana Pautila da Rocha que veio a se casar com o primeiro estrangeiro a residir em Bananeiras, segundo Humberto Nóbrega, o português Tomas de Aquino Costa de Andrade. Desse casal, nasceria Maria Eugênia, que, casada com Francisco Bezerra Cavalcanti, teria uma única filha, Azeneth Bezerra de Aragão. Esta chegou aos 96 anos, é mãe de Marta, minha companheira há 54 anos. Comecei na torre da igreja e terminei chegando em casa. O Firmino que doou o relógio da Matriz é, sem duvida, tio-avô de Marta que, como prefeita da cidade mudou a sua história e o seu norte, seguindo a tradição familiar e se inscrevendo entre os benfeitores da “cidade mais charmosa da Paraíba”.

O CRIME DO GUARDA 33

RAMALHO LEITE O CRIME DO GUARDA 33. No tempo em que a Paraíba só oferecia a seus filhos os estudos preparatórios, existiam dois estabelecimentos de ensino referenciados: o Lyceu Parahybano e a Escola Normal. Ambos se localizavam no antigo Pátio do Colégio, depois praça Comendador Felizardo e finalmente, praça João Pessoa. Era nesse largo, à época cercada por um gradil, que se concentrava a estudantada- belas normalistas e os futuros bacharéis, caso tivessem condições de chegar à vetusta faculdade de direito do Recife. Da convivência desses jovens, com suas vistas voltadas para o futuro, nasceram muitos casamentos. Famílias distanciadas umas das outras por divergências políticas ou en treveros pessoais, poderiam unir-se através dos seus rebentos e encontrar a paz. O contrário também acontecia, e de namoros proibidos, surgiam motivos para uma guerra de linhagem, afetando a vaidade genealógica de alguns. Nunca se esperou, porém, que o local fosse reservado a testemunhar um dos mais trágicos incidentes da história paraibana na década dos anos vinte. Era setembro de 1923. Dirigia a Escola Normal o monsenhor João Milanez, respeitável membro do clero e ilustre educador. Incomodado com a algazarra dos estudantes do Lyceu e sua proximidade com as preciosas alunas de sua escola, resolveu estabelecer uma linha divisória no logradouro. A partir daquela linha imaginária, nenhum aluno do Lyceu poderia ultrapassar para ir ao encontro das normalistas. A Guarda Civil estava encarregada de manter essa determinação. Um sábado à tarde, Sady Castor, aluno do Lyceu, pretendeu ir ao encontro da sua namorada, a futura professora Àgaba Gonçalves de Medeiros. Foi admoestado pelo Guarda 33, que fazia o papel de “guardião da honra das moças”, um pernambucano batizado Antonio Carlos de Menezes. O estudante resolveu desobedecer à autoridade e invadiu a área proibida. Surgiu uma discussão entre os dois, resultando na morte de Sady, atingido por um tiro certeiro do destemperado vigilante. O estudante Sady Castor foi socorrido pelos médicos Newton Lacerda e Ademar Londres, cujos esforços para lhe salvar a vida, foram em vão. Conduzido para a casa do seu parente, dr.Gouveia Nóbrega, o corpo do inditoso jovem recebeu “absolvição in limine do padre José Coutinho” conforme noticiou A União do dia seguinte. O Guarda 33 foi “preso em flagrante pelo Sr. Dr. Mariano Falcão, entregue ao Guarda 41...e recolhido à cadeia pública”.Sady tinha apenas 25 anos e era filho do major Emiliano Castor de Araújo, residente em Soledade. Os estudantes do Lyceu Parahybano transformaram sua escola, local do velório, em palco de protesto e revolta contra as autoridades estaduais apontadas como responsáveis pelo desfecho sangrento de uma norma infeliz. O presidente Solón de Lucena, visando acalmar os ânimos exa ltados, substituiu o diretor da Escola Normal pelo seu conterrâneo do Bananeiras, o cônego Pedro Anísio, e fez-se representar nos funerais pelo secretário geral Álvaro de Carvalho. Mas não terminaria aí essa tragédia que quase derruba o presidente do Estado. A jovem Ágaba, inconsolável com a perda do namorado, cometeria suicídio alguns dias depois. Em carta, pediu desculpas àquela que seria sua futura sogra e, revelou suas razões: “ Resta-nos confiar na justiça da terra? Não, confiarei na Divina, pois que aquela falha e esta jamais falhará”. E concluiu: “Peço-vos que abençoeis aquela que amanhã irá fazer companhia àquele que soube honrar e fazer-se honrar”. A inconformada normalista pertencia a família importante da nossa sociedade. A União e o Governo, acossados por uma opinião pública abalada com o infortúnio que vitimou dois jovens enamorados, não quis agravar os fatos e tratou de minimizá-los. Seu noticiário, na edição de 07.10.1923, assim registrou o passamento da infeliz jovem: “Hontem às 18 horas, mais ou menos, sentindo-se mal do estômago, a senhorita Àgaba diluiu num copo d´água uma droga qualquer, e julgando tra tar-se de bicarbonato de sódio, ingeriu a solução. Ocorre que a infeliz moça por um equivoco fatal, trocara os vidros do medicamentos, tomando arsênico em vez de bicarbonato”.Não me recordo se o jornalista Severino Ramos incluiu o crime do Guarda 33, no rol daqueles que abalaram a Paraíba. Se não o fez, deveria tê-lo feito!