“TIO PITA” DEU A ORDEM

Muito se tem escrito sobre os acontecimentos que culminaram com a chamada revolução de 1930. Não terei a veleidade de, neste pequeno espaço, analisar fatos ou emitir conceitos. Prefiro o registro dos acontecimentos, deixando aos leitores seu juízo de valor. Todos sabem que Getúlio Vargas manteve o presidente Washington Luiz, de quem foi ministro da Fazenda, por longo período, acreditando na sua fidelidade. O gaúcho, enquanto permitia seus seguidores tramarem, na surdina, sua candidatura presidencial, negociava créditos federais para obras prioritários no Rio Grande do Sul. Uma carta de sua lavra, jurando apoio ao Catete, foi amplamente divulgada. Posteriormente, outra missiva juntou-se à primeira no arquivo de Washinton Luiz, com pensamento totalmente oposto. Osvaldo Aranha ouviu o seu desabafo:” A última carta de Getulio foi para mim uma surpresa brutal”, como conta Lira Neto em um dos tres volumes sobre o caudilho dos pampas. À época, os fatos políticos eram gerados por cartas e telegramas. Getúlio terminou ganhando o apelido de “Getúlio Cartas”.

Decidida sua candidatura para enfrentar a chapa oficial, Getúlio precisava de um vice. Uma consulta feita por Washington Luiz sobre o apoio ao nome de Júlio Prestes, então presidente de São Paulo, para seu sucessor, recebera a aprovação da ampla maioria dos estados. Minas, de Antonio Carlos, a Paraíba de João Pessoa e o Rio Grande, juntos, adotaram o NEGO paraibano e passaram a compor a chamada Aliança Liberal que apresentaria a chapa Getúlio presidente, João Pessoa, vice. Antes de se chegar ao nome de João Pessoa, sondaram Paulo de Frontin, senador pelo Distrito Federal e grande prefeito do Rio. Alegando ser amigo do Presidente, aderiu a Júlio Prestes. Outro consultado foi o Simões Filho, líder da bancada baiana na Câmara e fundador do jornal A Tarde. Este recusou, veementemente, e foi acusado por João Neves da Fontoura, líder gaúcho, de estar negociando para a Bahia a mesma posição na chapa oficial em troca de favores inconfessáveis. Chegaram aos empurrões. O vice escolhido foi o presidente dos baianos, Vital Soares. Subindo o mapa do Brasil, os emissários de Getúlio ainda procuraram Estácio Coimbra, presidente de Pernambuco. A sua negativa levou ao nome de João Pessoa, destacado governante que ganhara o noticiário nacional com medidas austeras e práticas inovadoras, enfrentando a política dos coronéis. “Só uma vassourada em regra pode purificar a vida pública, rebaixada por figuras sem significação e aproveitadores gulosos”, dizia. Terminaram por varrê-lo.

O imposto que João Pessoa instituiu e que lhe valeu o epíteto de “João Porteira” visava fortalecer a economia interna e canalizar nossas exportações pelo porto de Cabedelo, o que desagradou, principalmente, à praça pernambucana, acostumada desde os tempos coloniais a explorar as riquezas da nossa “capitania”. A reação não intimidou João Pessoa que avisou pelo jornal A União: “Os descontentes que se mudem para o Ceará ou Pernambuco,vivam por lá, e não se lembrem de voltar, porque voltando, terão de pagar a incorporação, ( era o imposto novo) talvez acrescida”. Pois esse espírito bravio, austero e que dava demonstrações de uma coragem exemplar, politicamente, era dependente do tio Pita, ou seja, seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente do Brasil e naquele tempo, membro da Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda.

Veja o que nos narra Lira Neto: “Naquele fim de julho de 1929, dezenas de telegramas cruzaram o Atlântico pelo cabo submarino internacional que então servia às comunicações entre o Brasil e a Europa. Apesar do temperamento aguerrido e autoritário de João Pessoa, havia um ritual hierárquico a ser cumprido.Somente após o necessário consentimento de Epitácio- tio Pita, é que o sobrinho passou a ser abordado de modo direto pelos mensageiros de Getúlio....Na segunda feira, 29 de julho, Epitácio escreveu mensagem ao sobrinho para avisá-lo que autorizara o presidente mineiro Antonio Carlos a oficializar o convite (para vice de Getúlio). Isto significa que aceitarás”. Ordenou Epitácio Pessoa.

O professor Lira Neto vai mais longe na sua avaliação: “A despeito de representar um pequeno estado e de ter entrado na política paraibana pela janela das contingências oligárquicas,Pessoa vinha causando perplexidade nas lideranças estaduais mais conservadoras ao mandar cortar despesa supérfluas,demitir pessoal excedente, extinguir secretarias que funcionavam como meros cabides de emprego e impedir a reeleição indefinida dos intendentes municipais”.

De longe, porém, o tio Pita advertia: “Sei que as medidas que está tomando são todas de moralidade e justiça.Não estão acostumados a isto. A grita está sendo e há de ser enorme. Não se extirpam num instante hábitos enraizados desde muitos anos”.

A impaciência de João Pessoa levou-o ao trágico final. A mudança brusca que procurou imprimir aos costumes da terrinha, terminou por fulminá-lo. Seu cadáver seria o estopim que deflagraria o movimento de 1930. Mas essa é outra história.


O JOSÉ AMÉRICO QUE EU LEMBRO

Foi a primeira vez que ouvi falar em José Américo de Almeida, ou Zé Américo, como preferia o povão. Tinha sete anos de idade quando ele aportou na minha vila em campanha para o governo do estado. Meu pai, Arlindo Rodrigues Ramalho, fora candidato a vereador na primeira eleição pós redemocratização do País e era o representante local da União Democrática Nacional. Reuniu muitos amigos, para, de longe, na calçada alta do Grupo Escolar, apreciar a visita do candidato à casa de José Amâncio Ramalho. Zé Américo fora colega do dono da casa, na turma de 1908 da Faculdade de Direito do Recife.Com ele estavam Rui Carneiro, candidato ao senado; Humberto Lucena, que pleiteava vaga na Assembléia Legislativa e Pedro Augusto de Almeida, eleito deputado na Constituinte de 1947 e candidato à reeleição.(Viria a falecer após ser diplomado para o exercício de novo mandato). Políticos dos municípios vizinhos também compunham a comitiva.

À época, José Américo renunciara à presidência da UDN e, como senador, disputava o cargo de governador da Paraíba. A Coligação Democrática Paraibana era resultado de um acordo entre Rui Carneiro, que representava o Partido Social Democrático-PSD, e José Américo. Muita gente da UDN preferiu acompanhar Zé Américo, a exemplo de Pedro de Almeida, Ivan Bichara e Nominando Diniz, para lembrar os mais conhecidos, todos dissidentes udenistas. Foi, portanto, com uma UDN dividida, que o então deputado Argemiro de Figueiredo enfrentou as urnas nas eleições de 1950. Para reforçar sua posição, contava o político campinense com o apoio ostensivo dos governos federal e estadual, este, chefiado por José Targino, em função da renuncia do governador Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo e aquele, tendo como homem forte, justamente o candidato ao senado, José Pereira Lira, falando em nome do presidente Eurico Gaspar Dutra.

Para José Américo, foi a “campanha mais violenta que eu ganhei”. E conta: “Fiz a campanha mais vivo e vigoroso do que nunca.Varava o sertão com o sol batendo na cara, comendo poeira, como nos dias combativos de 1930. Havia conflitos. Derramou-se sangue nas ruas.Jogaram lama na minha comitiva, antes que eu passasse, para saltar do carro e desafiar esses selvagens. Nomearam, demitiram. Fizeram tudo isso e perderam feio”.

Na Vila de Borborema ninguém jogou lama ou apupou a comitiva do candidato. Meu pai, presente com os seus, mantinha a ordem e controlava os mais exaltados. A briga dele era local, deixasse a comitiva ir embora que a UDN soltar-se-ia. E assim foi feito. Bastou o último visitante tomar seu veículo e a ala feminina irrompeu cantando o hino oficial do argemirismo, que ainda tenho na memória, uma paródia com a música Taí, do grande Joubert de Carvalho, gravada por Carmem Miranda.

Minhas tias Helena de Moura Leite e Ivanilda Pinto Ramalho, que haviam levado seus alunos da escola de adultos para a rua, puxaram a musica: “Taí, Argemiro tem que ser governador/com Renato seu maior batalhador/ Zé de Almeida, o seu bonde vai errado, sim senhor!/ Pereira Lira vai para o senado/ que é homem forte e muito estimado/ na vibração da grande vitória/ exalta a glória do seu passado/ Taí, Argemiro tem que ser governador. Não foi não, o bonde de Zé de Almeida não correu errado, mas célere em direção ao Palácio da Redenção. Perdeu Argemiro, seu vice Renato Ribeiro Coutinho e o “cachimbão” Pereira Lira, que chefiara a Casa Civil do governo Dutra e foi por este contemplado, com uma cadeira no Tribunal de Contas da União.

Essa campanha ao governo mexeu com os paraibanos e jamais seria esquecida, em virtude do comício da Praça da Bandeira, em Campina Grande, que terminou em tragédia com mortos e feridos. Os lenços brancos de Zé Américo e os amarelos de Argemiro ostentavam o pescoço dos seus correligionários. Até em Bananeiras essa rivalidade chegou dividindo famílias e separando irmãos. Exemplo disso foi contado por Maurílio Almeida: dona Donana, sua avó, portanto sogra de Pedro de Almeida, seu pai e candidato a deputado estadual, era irmã de Dona Dondon, avó de Clovis Bezerra, candidato dos amarelos. Certo dia, ao voltar da missa dominical, dona Donana avisou que não mais visitaria sua irmã Dondom, enquanto perdurasse a campanha política. E a razão foi explicada:

- Ela não está nem um pouco resfriada, mas usou um lenço amarelo para assoar o nariz, só para me afrontar...

Pedro Augusto de Almeida, não tivesse falecido em dezembro daquele ano de 1950, certamente, sob a liderança de Ivan Bichara, formaria na bancada americista e ingressaria como outros dissidentes da UDN, no nascente partido Partido Libertador. Sua morte fez ascender logo no primeiro dia de mandato, em 02 de fevereiro de 1951, o primeiro suplente Humberto Coutinho de Lucena que ali dava os primeiros passos para sua respeitável carreira política.

O governo de Zé Américo, na casa de um político udenista do interior, acumulou uma coleção de histórias de perseguições. Nunca ouvi boas referências. As minhas tias que puxaram o hino de Argemiro, por exemplo, foram exoneradas nos primeiros dias de governo. Hoje eu diria que se cumpriu exigências da política local, mas na minha alma de criança, ficou a marca de um governo que tirava o emprego de quem precisava.

A vida inteira, sempre olhei para o solitário de Tambaú com um pé atrás. Apesar dessa antipatia herdada do passado, lí quase tudo que publicou. E quanto aprendi com seus escritos! Sua vida é um exemplo que não poderia ser escondida das gerações que o sucederam. Por sua longevidade, seu modelo de homem público e escritor, também serviram aos seus contemporâneos. Era um vaidoso? Sim, mas tinha motivos para sê-lo.

Não tive o privilégio da sua convivência. Uma única vez fui à sua residência acompanhando o prefeito Dorgival Terceiro Neto. O município projetou uma avenida ao pé do morro do Cabo Branco, para possibilitar o tráfego de mão única na Beira Mar. Essa avenida de retorno teria que cortar um pedaço de todos os quintais das casas defronte à praia. Só tinha quintal de gente importante. O Prefeito resolveu visitar primeiro o maior de todos, e expôs ao Ministro a sua idéia e a importância da obra para a cidade. Não quero nada de graça, vou desapropriar, indenizar e pagar, explicou o edil. O ministro ouviu tudo calado, fez algumas perguntas e se satisfez com os detalhes que queria conhecer.

- Não quero pagamento. Pode lançar mão do pedaço de terreno necessário. Só quero que salve os meus pés de jabuticaba.

O prefeito lembrou de que a jabuticaba só produz depois de trinta anos.

- Sei disso, mas lhe garanto que vou colhê-las!

A aquiescência do Ministro desarmou o espírito dos demais moradores da orla.Todos concordaram com a nova avenida que terminou lhes beneficiando com uma entrada pelos fundos de suas casas,

Pelo homem que foi, nas posições que ocupou e honrou, Zé Américo levou o nome da Paraíba aos píncaros. Por isso, repito, tinha motivos para se orgulhar da sua história, daí porque, tornou célebre e até folclórica a sua extrema vaidade, mesmo tentando escondê-la permanentemente. Aqui e acolá, porém, deixava escorregar...

Quando fez as pazes com Getulio Vargas e deixou o governo da Paraíba para ser novamente ministro da Viação e Obras Publicas, ao chegar ao Rio de Janeiro, cercado por jornalistas, foi indagado:

- Por que veio?

- Por que me chamaram.Porque precisam de mim!

Ao assumir a cadeira da imortalidade, na Academia Brasileira de Letras, não se fez de rogado:

- Penetro nesta casa como quem acha o seu lugar.

(PUBLICADO NA REVISTA GENIUS)


DESARMONIA ENTRE PODERES

A nossa primeira constituição republicana, promulgada em 1891, somente com uma emenda de 1926 veio a proclamar a independência e harmonia entre os poderes, inclusive, a sua restauração, como motivo de intervenção federal nos estados membros. Todavia, a desarmonia prevaleceu mais tempo que a harmonia preconizada pela Lei Maior. As rusgas, as idiossincrasias entre titulares de cada um dos poderes ou entre seus colegiados e o Executivo, foram registradas ao longo da história republicana. Os motivos sempre foram de natureza política e/ou econômica. Brigam por seus partidos ou por fatias maiores do orçamento. O executivo arrecada e os demais ajudam a gastar. Comparo esse cenário a uma família que mantém conta conjunta. O pai/provedor credita, a mulher e os filhos debitam. A Paraíba não poderia ficar ausente desse panorama, tanto no passado, quanto no presente. Volvendo aos primórdios da República e início do Século XX, encontramos na presidência deste Estado o paraibano nascido nesta capital, Antonio Alfredo da Gama e Melo que antes, na qualidade de vice-presidente da Província, nomeado pela Carta Imperial de 1880, assumira por cinco vezes os seus destinos. Era acusado pela oposição de trabalhar em surdina pela restauração, isto é, a volta da Monarquia, à qual servira no passado. Em batalha permanente com a Assembléia, conta no Jornal do Comércio do Rio, um anônimo C.A., seu propósito de “vingança contra os republicanos”. O diário O Commercio, órgão dirigido por Arthur Aquilles, transcreve o artigo na página 2, da sua edição de 8 de maio de 1900: “O Poder Executivo da Parahyba não vive em harmonia com o poder legislativo. Não posso contar ao leitor as rusgas domesticas daquelle Estado. Contente-se com saber que o governador ou presidente não morre de amores pela Assembléia estadual e que os deputados lhe pagão na mesma moeda.Chegou a vez do presidente atrapalhar um pouco a vida dos seus adversários. S.Excia meditava uma dessas vinganças estrondosas que abaixão por toda a vida a crista do inimigo, e mostrão ao mundo, com uma evidencia assustadora que o poder é o poder.Longos dias, compridas noites, o governo levou a preparar a tremenda calamidade que de uma vez para sempre aniquillasse os contrários. Em fim, ou por ter maduramente pensado sobre o caso ou porque o terrível Deus das vindictas lhe inspirasse a idéia soberba- o Governo dilatou num sorriso de satisfação cruel a carranca das cogitações pavorosas. O Governo achara o meio decisivo de humilhar a opposição. Aproximava-se o dia da reunião da Assembléia. Chegara, pois, o momento do golpe terrível, que já, e com toda a força, cahio sobre os imprudentes.O Presidente venceu. Contou o telegrapfo que se realizou o plano de S. Ex. plano que nunca sahio da cabeça dos Cavours e dos Bismarcks. Este plano transformou completamente os negócios da Parahyba”... “O Governo, diz um telegrama de A Noticia, está mudando os moveis da Assembléia para o andar superior do Lyceo, afim de evitar o funcionamento dos deputados republicanos”... “Não há duvida é uma vingança de mestre.Quem olhar desattentamente para o facto, notará apenas uma simples mudança de mobília; achará pandego o afan com que a mão do poder, mudada em mão de carregador, vai apressadamente levando cadeiras e mesas.Mas essa mudança de trastes é também uma profunda mudança política.Perece a primeira vista infantil e despique”. E conclui: “Uma Assembléia sem trastes é uma Assembléia sem influencia. A Augusta sala das sessões reduzida a sala de republica de estudantes pobres, não impressionará a galeria”. Essa verdadeira picuinha, miúda e própria das províncias sem educação política, foi perpetrada por um filósofo e escritor que virou patrono de cadeira da Academia Paraibana de Letras. Ligado ao Marechal Floriano Peixoto que o conheceu como vizinho e com quem costumava jogar gamão nas calçadas da rua General Osório (Rua Nova), Gama e Melo teria recusado convite para ser ministro da Justiça, e se negou, igualmente, a participar da Junta Governativa que governaria a Paraíba na instalação da Republica entre nós.Indicou o nome de Eugenio Toscano de Brito. A oposição, como já disse, acusava Gama e Melo de tramar contra a República, defendendo a restauração da Monarquia. “Procurou fingir-se extremo republicano para tirar o máximo de proveito através do marechal Floriano Peixoto e do seu preposto Álvaro Machado para que pudesse, em surdina, ir minando o nosso regime republicano no intuito de oportunamente erguer sobre as ruínas deste, a Monarchia”. O jornal de Arthur Achilles era impiedoso com o governo de Gama e Melo. Lembra o periódico que a República cumpria sua primeira década de existência e “Durante este período da historia da Parahyba não se registra uma administração mais desastrada e criminosa que a do Sr. Dr. Antonio Alfredo da Gama e Melo”. Imaginem de eu fosse falar da desarmonia entre os poderes nos tempos atuais. Mas essa é outra historia. (OBS. Nas transcrições mantive a grafia da época. A citação “dos Cavours e dos Bismarcks” é referência a Camilo Bento Cavour (1810/1861), primeiro ministro da Itália e a Otto Von Bismarck, (1815/1898) estadista alemão).

UM CONVITE DE CASAMENTO

RAMALHO LEITE UM CONVITE DE CASAMENTO Rebuscando os papeis que meu pai guardava em uma pasta, adicionada com peças que minha mãe achava que mereciam arquivo, encontrei um atencioso convite que fora enviado para o meu avô, tenente José Rodrigues da Costa Neto, senhor do engenho Poço Escuro, pelo coronel da Guarda Nacional e comendador da Ordem da Rosa, Felinto Florentino da Rocha. A missiva estava assim redigida:” Bananeiras, 20 de novembro de 1902: Illmo.Snr. Tendo de effetuar-se o casamento de minha filha Maria Engrácia da Rocha Ferreira com meo sobrinho José Antonio da Rocha Ferreira no dia 18 de dezembro p. vindouro, devendo ter lugar o acto religioso de 4 horas da tarde na matriz desta cidade e logo depois o acto civil em minha casa a rua do Livramento, tenho a honra de convidar V.S. e a Exma. família para assistirem a esses actos; e confiando que o convite será acceito, desde já antecipo os meus agradecimentos.Att°.Am° e Crº Obr° Felinto Florentino da Rocha.(grafia da época) O comendador Felinto Rocha foi por longo período chefe partidário e senhor do baraço e cutelo em toda a região do brejo. Nunca aceitou sair dos seus domínios para vôos mais altos. Mas se elegia quem ele botasse a mão. Fez dois genros deputados: Celso Cirne, em 1912 e José Antonio da Rocha, em 1934. Ao falecer deixou aos herdeiros cerca de noventa propriedades espalhadas pela Paraíba e Rio Grande do Norte. Foi ele que na feira de Moreno, proclamou: “aqui eu quero, posso e mando”. Era filho de Estevam José da Rocha, o Barão de Araruna e sobrinho de José Ferreira da Rocha, o Coronel Camporra. O noivo a que se refere o convite acima transcrito foi prefeito e deputado à Assembléia Constituinte paraibana em 1934. Eu o conheci e estive em sua casa à Duque de Caxias, na capital, acompanhando o deputado Clovis Bezerra, seu sucessor na cadeira. Era neto do coronel Camporra, filho de João Antonio Ferreira, portanto, sobrinho do seu sogro, comendador Felinto Rocha, que por sua vez era casado com uma irmã do noivo.Assim, o cel. Zé Antonio era cunhado, sobrinho e genro do cel.Felinto. No auge da febre cafeeira, quando a produção da rubiácea rivalizava com São Paulo e Minas, uma verdadeira civilização do café nasceria em Bananeiras.Em 1914 coronel Zé Antonio construiu sua residência em Bananeiras - aquele belíssimo sobrado que fica na curva de quem sobe para a Igreja. Outros cafeicultores fizeram o mesmo e hoje a cidade conserva essas relíquias da arquitetura do século passado.Para chegar até esse resultado, muitos anos foram vencidos desde que um sujeito chamado Tomé Barbosa plantou por aquelas bandas os primeiros pés de café.A mudas vieram de Mamanguape onde não se adaptaram aos tabuleiros costeiros. As terras férteis do brejo serviram de primeira para a cultura, e dotaram a Paraíba de uma “zona privilegiada, mais feliz que as outras pela existência de um produto mais rico do que os outros”, como disse Celso Mariz. O barões do café ajudaram a construir o exuberante tempo à Virgem do Livramento mas, sua contribuição era reconhecida pelo tratamento diferenciado que lhes era reservado nas solenidades religiosas. Os maiores contribuintes tinham direito a adorar a Virgem e gozar o espetáculo das solenidades do alto das tribunas. Passo a palavra a Celso Mariz, que pelos idos de 1944, em palestra no Bananeiras Clube descreveu o apogeu dos novos ricos.” Para elas (as tribunas) subiam nos dias de N. S. do Livramento os doutos dignatários da Corte Celeste, as famílias granfinas da época.A tribuna dos Rocha, a tribuna dos Neves, a tribuna dos Maia, a dos Bezerra,a dos Guedes Pereira, a dos Pinto... até quando o vigário Zé Diniz, desejando modernizar o tempo, tapou aquele genuflexório da elite.” É o mesmo Celso que descreve o nosso personagem de hoje. “O velho Targino é mesmo lembrado aqui como um exemplo de homem gozador, que esbanjava dinheiro de suas safras em viagens e hospedagens fidalgas, de mesa sempre variada e fina. Em suas porcelanas de monogramas de ouro serviram-se as comitivas de Álvaro Machado e do nosso primeiro bispo”. Tinha razão o comendador quando, no convite de casamento de sua filha, asseverava sua confiança de que “o meo convite será acceito”. O tenente José Rodrigues jamais perderia uma festa dessas.

TIO PITA DEU A ORDEM

Ramalho Leite “TIO PITA” DEU A ORDEM Muito se tem escrito sobre os acontecimentos que culminaram com a chamada revolução de 1930. Não terei a veleidade de, neste pequeno espaço, analisar fatos ou emitir conceitos. Prefiro o registro dos acontecimentos, deixando aos leitores seu juízo de valor. Todos sabem que Getúlio Vargas manteve o presidente Washington Luiz, de quem foi ministro da Fazenda, por longo período, acreditando na sua fidelidade. O gaúcho, enquanto permitia seus seguidores tramarem, na surdina, sua candidatura presidencial, negociava créditos federais para obras prioritários no Rio Grande do Sul. Uma carta de sua lavra, jurando apoio ao Catete, foi amplamente divulgada. Posteriormente, outra missiva juntou-se à primeira no arquivo de Washinton Luiz, com pensamento totalmente oposto. Osvaldo Aranha ouviu o seu desabafo:” A última carta de Getulio foi para mim uma surpresa brutal”, como conta Lira Neto em um dos tres volumes sobre o caudilho dos pampas. À época, os fatos políticos eram gerados por cartas e telegramas. Getúlio terminou ganhando o apelido de “Getúlio Cartas”. Decidida sua candidatura para enfrentar a chapa oficial, Getúlio precisava de um vice. Uma consulta feita por Washington Luiz sobre o apoio ao nome de Júlio Prestes, então presidente de São Paulo, para seu sucessor, recebera a aprovação da ampla maioria dos estados. Minas, de Antonio Carlos, a Paraíba de João Pessoa e o Rio Grande, juntos, adotaram o NEGO paraibano e passaram a compor a chamada Aliança Liberal que apresentaria a chapa Getúlio presidente, João Pessoa, vice. Antes de se chegar ao nome de João Pessoa, sondaram Paulo de Frontin, senador pelo Distrito Federal e grande prefeito do Rio. Alegando ser amigo do Presidente, aderiu a Júlio Prestes. Outro consultado foi o Simões Filho, líder da bancada baiana na Câmara e fundador do jornal A Tarde. Este recusou, veementemente, e foi acusado por João Neves da Fontoura, líder gaúcho, de estar negociando para a Bahia a mesma posição na chapa oficial em troca de favores inconfessáveis. Chegaram aos empurrões. O vice escolhido foi o presidente dos baianos, Vital Soares. Subindo o mapa do Brasil, os emissários de Getúlio ainda procuraram Estácio Coimbra, presidente de Pernambuco. A sua negativa levou ao nome de João Pessoa, destacado governante que ganhara o noticiário nacional com medidas austeras e práticas inovadoras, enfrentando a política dos coronéis. “Só uma vassourada em regra pode purificar a vida pública, rebaixada por figuras sem significação e aproveitadores gulosos”, dizia. Terminaram por varrê-lo. O imposto que João Pessoa instituiu e que lhe valeu o epíteto de “João Porteira” visava fortalecer a economia interna e canalizar nossas exportações pelo porto de Cabedelo, o que desagradou, principalmente, à praça pernambucana, acostumada desde os tempos coloniais a explorar as riquezas da nossa “capitania”. A reação não intimidou João Pessoa que avisou pelo jornal A União: “Os descontentes que se mudem para o Ceará ou Pernambuco,vivam por lá, e não se lembrem de voltar, porque voltando, terão de pagar a incorporação, ( era o imposto novo) talvez acrescida”. Pois esse espírito bravio, austero e que dava demonstrações de uma coragem exemplar, politicamente, era dependente do tio Pita, ou seja, seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente do Brasil e naquele tempo, membro da Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda. Veja o que nos narra Lira Neto: “Naquele fim de julho de 1929, dezenas de telegramas cruzaram o Atlântico pelo cabo submarino internacional que então servia às comunicações entre o Brasil e a Europa. Apesar do temperamento aguerrido e autoritário de João Pessoa, havia um ritual hierárquico a ser cumprido.Somente após o necessário consentimento de Epitácio- tio Pita, é que o sobrinho passou a ser abordado de modo direto pelos mensageiros de Getúlio....Na segunda feira, 29 de julho, Epitácio escreveu mensagem ao sobrinho para avisá-lo que autorizara o presidente mineiro Antonio Carlos a oficializar o convite (para vice de Getúlio). Isto significa que aceitarás”. Ordenou Epitácio Pessoa. O professor Lira Neto vai mais longe na sua avaliação: “A despeito de representar um pequeno estado e de ter entrado na política paraibana pela janela das contingências oligárquicas,Pessoa vinha causando perplexidade nas lideranças estaduais mais conservadoras ao mandar cortar despesa supérfluas,demitir pessoal excedente, extinguir secretarias que funcionavam como meros cabides de emprego e impedir a reeleição indefinida dos intendentes municipais”. De longe, porém, o tio Pita advertia: “Sei que as medidas que está tomando são todas de moralidade e justiça.Não estão acostumados a isto. A grita está sendo e há de ser enorme. Não se extirpam num instante hábitos enraizados desde muitos anos”. A impaciência de João Pessoa levou-o ao trágico final. A mudança brusca que procurou imprimir aos costumes da terrinha, terminou por fulminá-lo. Seu cadáver seria o estopim que deflagraria o movimento de 1930. Mas essa é outra história.

DELATORES

RAMALHO LEITE DELATORES Para o mundo cristão, o maior de todos os delatores foi Judas Iscariotes. Há muitas hipóteses que tentam explicar por que Judas traiu a Cristo. “ E quando estavam reclinados à mesa e comiam, disse Jesus: Em verdade vos digo que um de vós, que comigo come, há de trair-me”. Judas era um dos doze e o encarregado da coleta de dinheiro para o grupo. Tinha interesse em tirar proveito disso ao tempo em que esperava que o Messias tomasse o poder de Roma. Desenganado dessa perspectiva, resolveu entregar Jesus. Segundo consta, os sacerdotes lhe pagaram trinta dinheiros. Foi a primeira delação premiada de que se tem noticia. A punição de Judas, porém, foi das mais severas. Assumiu a responsabilidade de sua escolha e terminou na ponta de uma corda. Quando os holandeses invadiram Pernambuco, aí pelos idos de 1630, encontraram na colaboração de um nativo, o guia ideal para a conquistas de outros territórios do nordeste, ampliando seus domínios até a nossa Paraíba. Domingos Fernandes Calabar era um mameluco, isto é, filho de branco com índia e, abandonou suas terras para lutar ao lado dos portugueses e ajudar a expulsar os holandeses. Esteve ao lado de Matias de Albuquerque e participou das lutas de guerrilhas que dificultaram a penetração do invasor. De repente, Calabar muda de lado e, passa a apoiar os holandeses. Justificou que o fazia para evitar que a nova terra fosse escravizada por portugueses e espanhóis. Usou, como Judas, seu livre arbítrio. Preso em Porto Calvo foi enforcado e esquartejado. Sua delação levaria séculos para ser recompensada. Nos dias de hoje, a história tem relevado a posição assumida por Calabar. Não sendo brasileiro na expressão da palavra, gentílico que surgiria próximo à Independência, Calabar teria o direito de optar entre os diversos invasores da Capitania. O mesmo não se pode dizer de Joaquim Silvérios dos Reis. Apesar de português de nascimento, o coronel de Cavalaria, contratador de estradas, isto é, empreiteiro, e proprietário de minas estava falido em função dos altos impostos cobrados pela Coroa. Por essa razão, foi convidado e se juntou aos inconfidentes, reunidos e revoltados pelo mesmo motivo. A princípio participou do movimento que visava um Brasil independente e republicano. A chamada Inconfidência Mineira seria derrotada pela delação de Silvérios dos Reis, hoje considerado o patrono dos delatores. Foi ele que entregou ao Visconde de Barbacena os nomes dos revoltosos, chefiados por um seu xará, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O preço da sua delação seria pago por D.João VI, regente de Portugal, em virtude do impedimento de d.Maria, a Louca. Como pagamento por sua colaboração receberia titulo de fidalgo, um pouco de ouro, perdão das suas dívidas, moradia elegante, uma pensão vitalícia e um cargo de tesoureiro. Naquele tempo não se prendia tesoureiro... Não se comprovou o pagamento da sua traição. Consta que permaneceu preso na Ilha das Cobras por um bom tempo até obter uma pensão de duzentos mil reis. Sua fama de traidor o perseguiu a vida inteira, causando-lhe severos aborrecimentos e até atentados à sua vida, enquanto residiu no Brasil. Voltou à Portugal e veio definitivamente para a Colônia com a Família Real, em 1808. Migrou para o Maranhão onde faleceu em 1819 e foi enterrado com pompas na Igreja São João Batista. Quantos séculos viveu a nossa civilização, para registrar na sua história nova safra de delatores... Em troca de uma sentença branda, a denunciação afaga o delator e condena severamente a vitima da delação. Não interessa se o delator fazia parte da quadrilha e cometeu os mesmos crimes. Basta devolver parte do que levou para casa e, cumprirá sua sentença, na mansão que o dinheiro podre comprou. No Brasil de hoje, o crime pode até não compensar, mas a delação purifica o criminoso.

DE VOLTA AO LIVRO DE TOMBO

O monsenhor José Pereira Diniz era uma figura polêmica, como já fiz ver em textos anteriores.Mas era um apaixonado pelo que fazia. Também tomava partido pelas boas causas e cuidava de proclamar sua satisfação. O médico Clovis Bezerra que começou sua faina em Bananeiras, pelos idos de 1936, recebeu desde sempre o apoio do vigário. Até quando precisou pedir votos, teve a ajuda discreta do padre. Em carta que registrou no Livro de Tombo, em 28 de dezembro de 1936, dirigida ao Chefe do Posto de Higiene, padre Zé Diniz escreve: “Já houve quem afirmasse que a função do médico é um sacerdócio do corpo, correlato ao sacerdócio da alma, que é mister especial do padre.Enquanto, o ministro da Religião pensa as feridas morais profundas que corroem o espírito e matam as reservas vivas do coração; o médico, integrado no seu papel, dedica-se ao trabalho caridoso de curar as chagas, os males do organismo humano,contribuindo, dest’arte, para estabelecer a felicidade temporal na sociedade, despertando, pela saúde, no arrimo desfalecido dos que sofrem, a alegria irreprimível de viver.Se existe o sentimento de gratidão, este deve ser tributado áqueles que nos fazem o bem.E se apostolos do bem são os peregrinos do evangelho, que se imolam na asa da abnegação, para alcandorar as almas ás alturas sobrenaturaes da sua finalidade suprema. Egualmente, deve-se predicar dos que se dedicam ao serviço da humanidade e sacrificam-se pelo bem estar físico do seu semelhante.” Todo esse nariz de cera na abertura da carta, tinha o propósito de reverenciar o trabalho do médico, não de todos, mas especificamente do futuro prefeito, deputado e governador da Paraiba, Clovis Bezerra. Por isso, acrescenta o pároco: “ Todos nós, em Bananeiras, exceção feita aos eternos descontentes, descobrimos na vossa operosidade funcional, sempre em prova, um verdadeiro sacerdócio no cumprimento fiel dos seus deveres....E o que V.S. tem realizado no Posto de Higiene de Bananeiras, não se argumenta, se vê.Depreende-se daí, o motivo desta simpatia com que os vossos beneficiados ao lado dos vossos verdadeiros amigos cercam a pessoa bondosa de V.S. em toda a extensão territorial de Bananeiras....queira pois, o distinto amigo,aceitar de minha parte, um abraço de parabéns e o meu voto sincero de louvor pelo grande bem que está realizando como chefe do posto de higiene da nossa Bananeiras”. Nomeado prefeito de Bananeiras pelo interventor federal, desembargador Severino Montenegro, dr. Clovis permaneceu pouco mais de dois meses administrando a cidade.Foi exonerado pelo seu primo Odon Bezerra Cavalcanti, ao assumir, interinamente, a Chefia do Executivo paraibano. Na reconstitucionalização do País, eleição de 1947, ambos foram eleitos deputados constituintes. De Bananeiras, três representantes, se contarmos com o areiense que se fez político longe de casa, Pedro Augusto de Almeida. Este, responsável por famosa polêmica com o padre Zé Diniz. Chegou a representar contra o padre na Diocese mas este conseguiu provar que eram infundadas todas as acusações contra sua pessoa. Tudo está registrado: acusação e defesa. Prefeito e vigário brigavam por tudo. Frei Damião de Bozzano passou algumas semanas em Bananeiras realizando suas Santas Missões. Terminada sua tarefa, voltaria ao Convento dos Capuchinhos, no Recife. O padre mandou comprar a passagem de trem para o frade. Pedro de Almeida foi ao Moreno e alugou, com a ajuda da população católica, um veiculo, para deixar o missionário no Recife, acusando o padre de não ter piedade do capuchinho, já àquele tempo com a coluna vergada. Com Clovis Bezerra, porém, o padre nunca brigou. Não se cansava de proclamar sua idoneidade moral e cívica, a exemplo da carta acima transcrita. Vejam o que encontrei entre meus papeis: uma nota de empenho da Secretaria de Finanças do Estado da Paraíba. O governador era justamente Covis Bezerra. O primeiro empenho no valor de 240 mil cruzeiros, “referente a devolução voluntária da diferença de gratificação de representação, referente aos meses de janeiro a agosto de 1980, creditado na conta 01.232.706.8 no Banco do Estado da Paraíba”. Quer dizer, ele devolveu parte da sua representação de governador correspondente aos vencimentos de medico. Achava que não poderia acumular e, simplesmente, devolveu 30 mil cruzeiros por mês. O segundo empenho e seu recibo correspondente merece divulgação para exemplo das futuras gerações. O governador viajou ao sul do país para tratar de assuntos relativos à administração estadual. Recebeu 100 mil cruzeiros de ajuda de custo, em 10 de setembro de 1982 e assinou o recibo. Neste mesmo documento da Tesouraria do Gabinete Civil do Governador, foi acrescida a seguinte nota: “Obs. O valor real deste recibo é de Cr$50.000,00 (cinqüenta mil cruzeiros) em virtude da devolução feita pelo Exo.Sr.Governador, da importância de Cr$ 50.000,00 (cinqüenta mil cruzeiros). Visto: João Pereira Gomes, subsecretario Chefe do Gabinete Civil.”. Deixo os comentários por conta do leitor mas acrescento: o padre Zé Diniz estava coberto de razão. (NAS TRANSCRIÇÕES ADOTEI A GRAFIA DA ÉPOCA)

CRIME EM ALAGOA NOVA

RAMALHO LEITE C RIME EM ALAGOA NOVA “Em dias da semana passada cometteo-se bárbaro crime em Alagoa Nova. Bento de Moura, proprietário da fazenda S.José, a uma légua distante da villa, em legitima defesa, matou Valdevino de Tal que o provocara em sua própria residência, e preparava-se para entregar-se ás justiças locáes, quando, dous dias após o facto, foi a sua casa cercada por um bando de scelerados que o assassinaram barbaramente, acutilando e ferindo a dous dos seus filhos de nomes José e Francisco de Moura que se acham em estado desesperador. Os assassinos foram a casa da victima, a pretexto de diligencia policial determinada pelo Delegado do Termo e levaram, informão-nos, um mandado summario, assinado pelo respectivo Delegado Municipal, recomendando a prisão do referido Bento Moura vivo ou morto. Esse mandado não chegou a ser intimado por quanto logo á chegada na residência do assassinado da força legal composta, de inimigos figadáes, esta consumou o atentado, o que deixa ver que o intuito da diligencia não era a prisão e sim a eliminação do infeliz homem. José e Francisco foram victimas de sua dedicação, do seo amor filial, que os levou á defesa heroica do seo pai, sendo esfaqueados deshumanamente.A residência do inditoso Bento, transformou-se em local sinistro, onde, poucas horas depois do luctuoso crime, os cachorros alimentava-se com o sangue coagulado das victimas!Referimos o facto ao publico como nos foi comunicado por pessoa fidedigna e não acrescentamos o menor commentário ao modo terrível por que, no interior do estado a lei vae sendo desagravada”. A notícia acima foi publicada na primeira página do Jornal O Commercio, de 10 de maio de 1900. O diário era um Órgão das Classes Conservadoras do Estado da Parahyba, propriedade de uma Sociedade Anônima, como consta abaixo do titulo. Seu diretor e responsável chama-se Arthur Achilles e marcou época com seu jornalismo independente e corajoso. No governo do desembargador José Peregrino de Araújo as oficinas de “O Commercio” foram depredadas. Achilles valeu-se de tipografia no Recife e continuou a publicar sua folha. Enfrentou cara a cara o então Chefe de Polícia, Simeão Leal, a quem responsabilizou pelos prejuízos materiais e pelo crime à liberdade de imprensa. À época, seu jornal encetava campanha contra uma emenda constitucional que pretendia diminuir a idade exigida para se exercer o cargo de governador, justamente para beneficiar Simeão Leal, o preferido do Chefe do Executivo. Uma ação policial disfarçada como a narrada acima, só mesmo um jornal de oposição teria coragem de noticiar. Estranha que, sendo um órgão das classes conservadoras, ousasse criticar o governo. Quem paga imposto não costuma se afastar do poder, tão pouco, enfrentá-lo. Talvez por isso, mais adiante, desaparece a referência à propriedade de uma sociedade anônima. No alto da primeira página aparece, apenas: “Editor responsável Arthur Achilles”.Sem proximidade com o governo, em todos os tempos, o principal mantenedor dos jornais em circulação, “a cotovia madrugadora dos interessas da Paraíba” como foi chamado por Castro Pinto, procurou sua sustentação financeira na iniciativa privada. Os fármacos eram os principais responsáveis pelo caixa do jornal. E como eram interessantes os reclames de então: “REGULADOR DA MADRE BEIRÃO- O Regulador da Madre Beirão é de efeitos certos e seguros no tratamento das doenças das senhoras. É “poderoso” tonico “antepasmódico” e sedativo, para vigorar os “órgãos gestativos” da mulher.O Regulador da Madre Beirão previne e cura os incommodos de dores que aparecem quando o fluxo menstrual é escasso ou excessivo e regulariza os períodos menstruais. Não falha, é eficaz. À venda nas principais pharmacias e drograrias de todos os Estados.Depositário na Parahyba do Norte, J.Rabelo”. MAGNÉSIA FLUIDA PERINI – Especifico de absoluta pureza contra as febres epidemicas, moléstias do fígado, intestinos e estomago.Fabrica, rua da Misericordia 82, Rio de Janeiro” CAFÉ BEIRÃO – Celebre remédio contra sezões e todas as classes de febres.PÍLULAS ANTE DYSPEPTICAS DO Dr,. Heinzelman.PILULAS FERRUGINOSAS e PILULAS EXPECTORANTES do dr. Heinzelman, encontram-se estes afamosos medicamentos na Pharmacia Londres. Interessante notar que já no inicio do século passado, havia preocupação com os problemas de disfunção erétil. Um remédio era recomendado para minorar esse padecimento que atinge a muitos dos meus leitores e já preocupava os de Arthur Achilles. O viagra da época chamava-se EPECIFICO ÁUREO DE HARVEY, e dizia sua propaganda em O Commercio: Serve para debilidade nervosa, espermatorréa, prostração nervosa, moléstias dos rins, emissões involuntárias e fraqueza dos órgãos genitais. Cura infalível. O custo desses reclames daria para se manter, com suor e lágrimas, a compra da tinta e do papel indispensável à publicação da folha. O jornalista morreu pobre e, seu único bem durável, um relógio de algibeira em ouro, foi levado por um visitante noturno. Os tempos eram outros! (NAS TRANSCRIÇÕES MANTIVE A GRAFIA DA ÉPOCA)

O CRIME DE CARLOTA NAS MEMÓRIAS DE ZÉ LINS

O CRIME DE CARLOTA NAS MEMÓRIAS DE ZÉ LINS Relembrar José Lins do Rego é sempre um regalo para o espírito. A Academia Paraibana de Letras realizou um seminário sobre sua obra. Ali, percorri o Engenho Corredor e revi seus moradores assustados com as enchentes do rio Paraíba. As peripécias do menino Carlinhos e do moleque Ricardo, suas aventuras e inconfidências voltaram à cena. O encerramento foi coroado com a presença de Walter Lima Junior, o cineasta que colocou na tela o romancista de Menino de Engenho. O reviver de Zé Lins me levou também a páginas já visitadas. Fui em busca de “Meus Verdes Anos”, memórias da primeira infância, e encontrei uma referência que me transportou para o Brejo de Areia e à tragédia que vitimou duas famílias, armando mentes e mãos criminosas, que nem o castigo da forca fez esquecer. Para Zé Lins, seu mundo terminava nos limites do Corredor, e ninguém era maior que seu avô, senhor do Engenho e dono dos votos sob sua influência. E tanto era verdade que lhe concederam uma cadeira de deputado e ele designou seu genro, Cazuza Trombone, para a vaga. Mas sua vó Janoca “também mandava no Corredor; e tinha seus protegidos...havia porém limites para o poderio da velha. Quando ela quis trazer para a casa de dona Delmana o negro Domingos, não o permitiu o meu avô.A casa de dona Delmana ficava dentro do cercado grande.Vivia sempre fechada.Quem teria sido aquela dona Delmana? As negras não sabiam e aquele mistério permaneceu até que me fiz homem”. Já homem feito, Zé Lins tomou ciência da história que quase lhe comera os miolos em formação. Dona Delmana fora viúva de um deputado assassinado em Brejo de Areia, a mando de uma mulher. O clima na cidade, após a morte de seu esposo, tornara-se inseguro para ambas as famílias envolvidas no crime, e ela resolveu migrar para perto dos parentes do marido, nascido no Pilar. Partiu em companhia de um filho e de um serviçal do deputado para morar no Engenho Santa Fé, do velho Lula de Holanda Chacon. Na viagem, segundo Zé Lins, apaixonou-se pelo empregado, chamado Cabral, e terminou cansando-se com ele. O segundo casamento não foi aceito pela família do falecido e, desprezada, a ex-viúva terminou seus dias naquela casa do Engenho Corredor cedida pelo avô do imortal. A mulher que mandou matar o deputado Trajano Chacon, chamava-se Carlota, e o fez, como vingança pela desfeita que recebeu do político, seu vizinho. O deputado chegou a ameaçar com um rebenque a futura algoz quando a encontrou em animado papo de calçada com sua esposa. Na ocasião, ela prometeu vingança, e logo contratou pessoas de sua confiança para a empreitada. No dia em que foi eleito deputado geral (deputado federal) o ex-promotor Trajano Chacon encontrou a morte, nas cercanias do Quebra, em Areia. O derrotado era justamente o amante de Carlota, o major Quincas, que estava foragido no cariri por outro fato e tomou ciência do ocorrido a posteriori. “Aquela mulher me mata. Mas o que está feito, está feito”, teria dito. Mesmo assim, sofreu condenação juntamente com Carlota e os executores do crime. De todos os condenados à forca, apenas Beiju- Antonio das Virgens, que não atendeu ao apelo de misericórdia da vítima, conheceu o patíbulo. Em segundo júri, as penas dos demais foram transformadas em prisão perpétua, inclusive, a de Carlota. Esta cumpriu pena em Fernando de Noronha. A República reduziu a pena máxima para trinta anos. Carlota foi solta e terminou a vida como dona de uma pensão no Recife. Em Fernando Noronha abandonou o ex- amante à própria sorte e se fez constante na cama e na mesa do seu carcereiro. Em Areia, porém, seu tempo de fama e de poder ficou marcado na história da cidade. Segundo Horácio de Almeida, até os presos clamavam a sua proteção. Diariamente, saiam da prisão com um barril de excremento para jogar em local ermo. “A isso chamavam de faxina”. Ao ganhar as ruas, os presos cantavam: “Rua abaixo, rua acima/ Com meu chapéu de bolota/Me solte seu major Quincas/ Me valha dona Carlota”.

O QUE NÃO CONSTA DO LIVRO DE TOMBO DO PADRE ZÉ DINIZ

RAMALHO LEITE O QUE NÃO CONSTA DO LIVRO DE TOMBO DO PADRE ZÉ DINIZ Depois de revelar alguns registros do Livro de Tombo da paróquia de Bananeiras durante a gestão do monsenhor José Pereira Diniz, resolvi contar algumas histórias do folclore local, envolvendo a figura singular do vigário.Tido e havido como um homem de posses, senhor de engenho e de poucos amigos, fabricava rapadura e cachaça. O fisco estadual chegou a apreender um carregamento de álcool destinado à fabricação não muito pura, da chamada “cachaça milagrosa”. O batismo é da Revista O Cruzeiro, na sua famosa coluna “O impossível Acontece”, ao noticiar sobre a ação fiscal e a atividade extracurricular do vigário. O advogado Alfredo Pessoa de Lima em júri popular (eu estava presente na platéia), negou a autoria da notícia que lhe atribuíram. E justificou: “cachaceiro não é aquele que ingere em excesso a bebida, produto da cana-de-açúcar. Cachaceiro, pelo sufixo eiro, indica profissão. Cachaceiro, é, portanto, quem fabrica a cachaça”, ensinou, e concluiu: “Tivesse sido eu o autor da matéria, teria completado que em Bananeiras quase todo mundo é cachaceiro. É cachaceiro não somente o padre, (Zé Diniz, dirigia o Engenho de Nossa Senhora) mas o juiz, (Semeão Cananéa tinha um engenho em Remígio), o promotor (não sei onde era o engenho de Onaldo Montenegro) e o prefeito (José Rocha era dono do Engenho Jardim). A notícia publicada na principal revista do país, à época, teve ampla repercussão, e gerou contra o padre comentários desconfortáveis. O monsenhor era um homem rico e, Zé do Cinema, seu colaborador, afilhado e um dos seus poucos interlocutores, preocupado,contou-lhe o que se dizia na rua. O padrinho não tinha por que se explicar e, encerrou o assunto: - Zé, eu fiz voto de castidade! Quem fez voto de pobreza foi Frei Damião! O monsenhor era conhecido pela pouca convivência social. Dificilmente comparecia a qualquer evento que não dissesse respeito às suas atividades religiosas. Seu veículo, um jeep, cortava as estradas de barro e deixava os transeuntes na poeira. Contam que um frade, à época seu coadjuvante, voltava esbaforido e a pé, de Vila Maia, onde fora celebrar uma missa. A passagem da condução do padre Diniz só fez aumentar a poeira na túnica marrom do capuchinho, esperançoso por uma carona. Mesmo com essa fama de uso individual de sua viatura, Zé do Cinema insistia com o padrinho para que comprasse um jeep de quadro portas, os jipões que estavam na moda e, justificava: dr. Clovis e seu Mozart Bezerra já compraram; seu Zé Rocha recebeu o dele;major Jurandir também; só falta “meu padim” comprar o seu: -Pra que eu quero quadro portas Zé! Meu jeep tem duas portas e eu só uso uma... O meu amigo Vicente da Nóbrega, pai do jornalista Rubens Nóbrega e professor do Colégio Agrícola, morava na rua principal de Bananeiras, em casa alugada ao padre, também administrador dos bens da Sociedade São Vicente. Uma chuva forte revelou uma porção de goteiras. Aproveitando uma tarde de folga, o professor subiu ao telhado e tentava realizar o conserto. De repente, estaciona no meio da rua o padre Diniz e, de dentro do seu veículo, grita: - Você ai em cima, está destruindo minha casa? A resposta de Vicente veio desassombrada, como manda a tradição familiar: - Sua casa não! Essa casa é de Nossa Senhora. Só não sei se ela está recebendo o aluguel... Sobre a definição de cachaceiro, aludida acima, encontrei recente canção de um sertanejo chamado Eduardo Costa, que parece ter ouvido a lição do advogado Pessoa de Lima: “Dizem que sou cachaceiro/ cachaceiro eu não sou/ cachaceiro é quem fabrica a pinga/Eu sou só consumidor”.