O IMPERADOR NA PARAHYBA

Muito já se escreveu sobre a visita do Imperador Pedro II à Paraíba. Sabe-se que ele chegou à nossa capital na tarde de uma véspera de Natal. Era um sábado do ano de 1859. Um vapor da Marinha do Brasil conduzia o monarca e sua numerosa comitiva nessa viagem de quatro meses pelas províncias. Cinco dias foram dedicados à Parahyba do Norte. As cidades de Pilar, Mamanguape e Cabedelo tiveram a honra de ver de perto a coroa de D.Pedro que, a cavalo, conheceu ainda alguns engenhos da Várzea. A pompa com que foi recebido, as despesas do erário com as festividades, reformas e adaptações das instalações palacianas, tapetes, móveis e talheres condignos às bocas imperiais, importaram na abertura de um crédito especial para tal finalidade. Um conto de réis que mandaram da Corte foi insuficiente. Há registro de que o Imperador tomara emprestado alguns contos de réis para arcar com as despesas da viagem. O tesouro imperial era parco de recursos, mas, assim mesmo, S.M., “do seu bolsinho”, fez algumas doações que, infelizmente, foram desviadas das suas finalidades. Quem pensar que essa história de desviar dinheiro público é invenção Republicana, está muito enganado. Governava a Paraíba, quando da visita do monarca, o paraense Ambrósio Leitão da Cunha que foi deputado, senador e presidente, ainda, do Pará, Pernambuco, Maranhão e Bahia. No seu périplo pela Província, o Imperador teve ao seu lado o governante local que, como é costume até hoje, rogava ajuda real para todos os males que não podia resolver.Pedro II comoveu-se em duas oportunidades e resolveu atendê-lo. Não voltaria, jamais, para saber o resultado dos investimentos que fez. É essa a história que estou querendo contar... Na visita à Santa Casa da Misericórdia, Dom Pedro efetuou um donativo de seis contos de réis para serem transformados, pelo governador local, em apólices da dívida pública em favor da entidade. O novo governante, o gaúcho Silva Nunes, ao assumir, procurou saber como fora processada aquela operação, tomando conhecimento de que nada fora efetivado. Determinou de imediato, a sua execução. Qual não foi sua surpresa ao ouvir do Inspetor do Tesouro que esse dinheiro, saído “do bolsinho” do Imperador, sumira em função das necessidades urgentes de outros serviços da província. Naquele tempo, os sucessores ainda não brigavam com os antecessores, e Silva Nunes justificou a falha: “Sem dúvida, se por mais algum tempo permanece na administração o meu antecessor, teria realizado a sua intenção, satisfazendo assim as vistas do Soberano”. Andando pela nossa cidade, Dom Pedro repudiou a localização do matadouro público, construído às margens de uma estrada com prejuízo para o meio ambiente. Novamente, como narra Silva Nunes em mensagem ao legislativo de então, o imperador entregou à presidência quatro contos de réis para a remoção do abatedouro para terreno mais condizente. “Sinto ter de dizer-vos (explica aos deputados provinciais) ainda esta vez que o estado dos cofres não me consente ocupar-me por ora com essa obra nem mesmo dispondo para seu começo desses 4.000$rs devidos à generosidade do Imperador, e de que meu digno antecessor viu-se obrigado a lançar mão para acudir a encargos urgentes da Província”. Esse presidente Silva Nunes veio governar a Paraíba graças ao fato de ser genro do Barão de Muritíba, com grande influência na Corte onde era reverenciada essa nobre genrocracia. Tanto é, que saiu daqui para o Senado e governou outras províncias enquanto seu sogro viveu sob o manto protetor de Pedro II. Foi o primeiro governante paraibano a visitar o nosso interior. Recebido com muitas festas por ande passava. viajou trinta dias a cavalo, comendo a poeira do sertão e a lama do brejo, além das iguarias dos banquetes. Em sua primeira mensagem ao legislativo provincial relatou as duas peripécias do antecessor que resumi acima. Mas, ao que parece, era um homem pacato e não fazia mau juízo de ninguém. Os desvios de verbas do seu antecessor mereceram pálida referência e nenhuma censura, sendo até justificadas.Ele, porém, prometeu consertar aquelas irregularidades: “Trato de economizar quanto posso para restituir essa soma ao fim a que foi destinada pelo Augusto Doador”. Só quem não brigou com o antecessor, porque não o teve, foi Tomé de Souza, primeiro governador do Brasil. Eis outra exceção que, seguida desde então, teria evitado muitos episódios da nossa história.Quase ia esquecendo: o Imperador assistiu à Missa do Galo, à meia-noite, na Igreja da Conceição, ao lado do Palácio. (Consultei Wilson Seixas e Maurílio Almeida.Nas transcrições, mantive a grafia da época.Neste Natal, completa 157 anos a visita do imperador)

DIÓGENES "CASCUDO" DA CUNHA LIMA

Graças à iniciativa do paraibano Adalberto Targino e seus confrades da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte fui honrado com a inclusão do meu nome entre os novos sócios da entidade, na categoria de correspondente. Em muito boa companhia: Berilo Ramos Borba, Roque de Brito Alves,Raimundo de Oliveira, Ralph Siqueira, Itapuan Botto Targino, Walber de Moura Agra,Ricardo Bezerra, além dos ausentes mas não menos destacados desembargadores Rogério Fialho e Fátima Bezerra Cavalcanti. A solenidade foi coroada com a posse de nova imortal, a advogada natalense Lúcia Jales. Roubado da cena jurídica muito cedo, quando a tribuna parlamentar me convocou, mesmo assim percorri algumas searas que enriqueceram meu curriculum e me levaram à honra de pertencer àquele silogeu.Coube ao ex-reitor Berilo Borba traçar o perfil dos empossandos. Sobre a minha modesta pessoa escreveu: “nascido em Borborema, fez os primeiros anos do ensino médio aqui em Natal, onde teve de acompanhar as travessuras de “Pecado” que agitava a moçada.Terminou seu curso secundário no Liceu , em João Pessoa.Graduou-se em direito.Foi advogado militante e procurador.Na política foi vereador em Borborema e presidente da Câmara, deputado estadual e federal. Hoje é membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e da Academia Paraibana de Letras.Jornalista consagrado,cronista,historiador e escritor:autor de vários livros”.O jornalista consagrado vem da generosidade do orador. Registro a espontânea acolhida dos membros da ALEJURN, entidade que reúne os mais representativos juristas da terra potiguar, desde o presidente Lúcio Teixeira, ao eterno presidente da Academia Norte Riograndense de Letras, o causídico, poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima primo/irmão de Ronaldo, sobre quem publicou recentemente ilustrado trabalho lançado na nossa Academia de Letras. Seu admirador de longa data, pelo conjunto da obra, nossa ligação é também familiar. É Ramalho da descendência dos Amâncio Ramalho e viúvo de Moema Ramalho Tinoco, filha de Artur Tinoco e Carmésia, esta, filha do velho José Amâncio Ramalho, fundador da minha terra natal e pioneiro da energia hidroelétrica no nordeste brasileiro. Diógenes é especialista em Luiz da Câmara Cascudo. Cascudo está para o Rio Grande como Gilberto Freyre para Pernambuco e José Américo para a Paraíba. Aliás, Cascudo tem algo mais em comum com Zé Américo: ambos foram depurados quando eleitos deputados federais em 1930. “O meu mandato durou três dias”, diria Cascudo. Desde então abominou a política. Zé Américo seguiu em frente. Diógenes esmiuçou a obra cascudiana, anotou conversas, guardou dedicatórias e se deliciou com suas cartas. Absorveu essa convivência de vinte anos e documentou seus melhores momentos. Para ele, Cascudo era um brasileiro feliz.A princípio, o mestre reclamou da definição: indiretamente, milhões de brasileiros seriam infelizes... Terminou por aceitar o conceito e proclamou: “sou o que Diógenes me chamou: um brasileiro feliz”. Eu acrescentaria: e de muito bom humor.O livro de Diógenes, “Camara Cascudo um brasileiro feliz”, já vai na quarta edição e inclui um Dicionário do Humor do renomado escritor,folclorista, sociólogo, antropólogo, historiador, poeta e professor de Direito Internacional Publico. Fundador da Academia de Letras do RN e de tantas outras instituições culturais fez jus à definição de Jorge Amado: “pobre de bens materiais, mas rico de alegria criadora”. A simbiose entre Diógenes e Cascudo, resultado de uma longa convivência e respeitosa amizade levou-me a acrescentar Cascudo no nome do poeta para compor o titulo acima. O velho mestre não reclamaria. Seu discípulo, muito menos. Desde os treze anos, quando deixou Nova Cruz para continuar os estudos em Natal, Diógenes passou a freqüentar o casarão da Junqueira Ayres. Só saia de lá com a carinhosa ordem do dono da casa: vá baixar noutro terreiro! Foi assim que começou a “beber água na fonte”,cumprindo, com rigor e dedicação a recomendação paterna: “ Procure Cascudo. Câmara Cascudo é um rio, o resto tudo é riacho”.

PARAIBANOS PAIS DA REPÚBLICAS

Terminei de ler há pouco mais um livro do paranaense Laurentino Gomes- 1889. É o ultimo da trilogia que começou com o 1808 e continuou com 1822. Se todos os que cuidassem da história, narrassem os fatos da forma como ele o faz, todo mundo gostaria de ler livros de história. O singular da sua escrita é que ele conta os bastidores dos acontecimentos que a versão oficial não passou adiante. Até os detalhes sórdidos e o burlesco dos fatos e seus atores, são transmitidos aos que se debruçam sobre os livros. Foi assim com a transmudação da Família Real para o Brasil, a Independência e agora, a República que, para ele, foi fruto da existência de um imperador cansado (Pedro II), um marechal vaidoso (Deodoro da Fonseca) e um professor injustiçado (Benjamim Constant). O Imperador deposto por um golpe de estado foi embarcado em uma madrugada para o exílio, mesmo tendo radicais, como o advogado paulista Silva Jardim, que pregavam o trucidamento da família real, a exemplo do que sofrera a Corte francesa de Luiz XVI onde a estrela fora Maria Antonieta. Deodoro teria aderido à Republica diante de um fato consumado: o manifesto publicado no jornal do abolicionista José do Patrocínio que, como o Marechal, era monarquista empedernido. Patrocínio, por ser negro, devotava amor infinito à Princesa Isabel, por motivos óbvios, sendo o responsável pelo titulo de A Redentora com que a filha de Dom Pedro entrou para a história. Na movimentação militar que antecedeu o 15 de novembro, dois paraibanos se destacaram: um militar, o general Almeida Barreto e o jornalista Aristides Lobo, o primeiro nascido em João Pessoa e o segundo em Cruz do Espírito Santo. O jornalista viveu parte de sua vida em Alagoas onde, mais tarde, disputaria dois mandatos consecutivos de deputado geral, como eram chamados os parlamentares federais no Império. Expunha a defesa da mudança do regime no jornal A República, fundado por ele e outros companheiros de empreitada. Instalada a nova ordem, Aristides Lobo foi nomeado Ministro do Interior, cargo que ocupou por pouco mais de dois meses, rompendo com Deodoro. A participação do paraibano Almeida Barreto foi mais polêmica. Conta Laurentino Gomes que o Visconde de Ouro Pedro, chefe do ultimo ministério monárquico, refugiara-se em um quartel e tinha a garantir sua integridade e da monarquia agonizante, justamente as tropas sob o comando do general Almeida Barreto. Sem que o governo soubesse, o general também estava comprometido com os golpistas, mas não tinha a absoluta confiança de Deodoro. Este, ao se deparar com as tropas diante do quartel, mandou intimar o general Barreto a mudar de posição. Como Pedro negou a Cristo três vezes, o general teria deixado de atender ao chamamento do proclamador da República. Na terceira convocação, irritado, Deodoro verbera: - Menino, vá dizer ao Barreto que faça o que já por duas vezes lhe ordenei, ou então que meta sua espada no ...,pois não preciso dele! O conteúdo chulo da frase de Deodoro tem sido amenizado por outros historiadores que preferem se referir a “frase impulsiva e vigorosa” ou “uma exclamação violenta”. Para o coronel Ernesto Sena, citado por Laurentino, Deodoro mandou o general meter “ a espada... na bainha”. Seja como for, o recado surtiu efeito. O general Almeida Barreto saiu do muro, juntou-se a Deodoro e, mais tarde, ganhou um mandato de senador pela Paraíba. Esteve aqui em visita, recebido com muitas festas. E hoje é nome de rua.( Do meu livro “Gente do Passado,Fatos do Presente”, à venda na Livraria do Luiz)

UM BANQUETE NO PALÁCIO

No passado, era normal e não merecia a mais leve censura, as comemorações oficiais realizadas pelo governo. Às vezes, após um lauto banquete, seguia-se um animado baile, onde o governo confraternizava-se com a alta sociedade. O povo? Ah! O povo. Este componente não era chamado nem para votar, quanto mais para comemorar a posse de um governante. O eleitor era escolhido entre a elite dominante. Essa elite participava do rega-bofe e o “populacho” se contentava em ficar na praça a ouvir tocar uma banda de musica escalada para a ocasião. A Gazeta do Commércio, órgão que circulou até os primeiros anos republicanos,narrou uma dessas festividades. A narrativa foi considerada especial pelo governo, daí porque, a mandou transcrever em A União de 28 de outubro de 1898. Eu considerei uma curiosidade exemplar e resolvi compartilhar um trecho com meus parcos leitores: “Como já havemos dito,o banquete offerecido ao exmo.sr.dr.Antonio Alfredo da Gama e Mello, por se ter empossado no alto cargo de Presidente d´este Estado, começou ás 6 e ½ horas da tarde do dia 22 do corrente, n´um dos vastos salões do Lyceu Parahybano. Ostentava-se, no centro do salão onde ia ter lugar o festim, uma extensa meza primorosamente preparada em forma de ferradura e, sobre a qual, destacavam-se, pelos jorros de luz despejados dos candelabros, crystaes, flores, as mais finas iguarias a par com os mais deliciosos licores. Das paredes pendiam brasões entrelaçados de bandeirolas de todas as nações amigas,vendo-se na parte de honra, o retrato do illustre parahybano que era o alvo das expansivas manifestações d´aquelle dia e exprimia o prenúncio da paz, da ordem e do progresso do seu Estado natalício. A hora aprazada para começo do festim,s.exc.sr.dr. Gama, acompanhado de grande numero de cavalheiros, representantes da fina flor parahybana,vindo de Palácio entrou no salão e tomou a presidência da meza, em volta da qual sentaram-se também cento e sessenta convivas. Os compartimentos immediatos estavam cheios de numeroso pessoal, que não tiveram lugar, aguardando-se uma segunda refeição, que foi servida depois da primeira. Reinou em tudo muita ordem e muita animação, sendo o primeiro brinde levantado pelo illustre desembargador José Peregrino de Araujo, ao eminente dr.Gama e Mello,que foi recebido com expansivas demonstrações de aplausos. Após seguiram-se outros, salientando-se os do exmo.e revmo.sr Padre Walfredo Leal, ex-Vice-presidente do Estado, ao mesmo sr.dr. Gama e do eloqüente e illustrado orador parahybano,dr Castro Pinto, saudando a imprensa na pessoa do Presidente do Estado, que, como sempre, eletrisou, com sua palavra fluente e enfeitada de verdadeiros arroubos oratórios,todos os circunstantes. Em agradecimento as justas felicitações que lhe eram enthusiasticamente dirigidas, levantou-se o exmo.sr.dr. Gama e Mello e n´um discurso em que primou pela linguagem florida e entremeada dos mais bellos conceitos, que só sabe uzal-os o talento e a ilustração,pediu o concurso de todos os parahybanos, para que o seu governo seja de prosperidade para o Estado e findou saudando o progresso da Parahyba”.( Mantive a grafia da época) Mais modernamente, com o surgimento do rádio entre nós, a Tabajara, emissora oficial, era sempre escalada para a cobertura dos eventos palacianos. Lembro que Geraldo Cavalcanti manteve o microfone oficial em suas mãos por vários governos. Certa ocasião, estando afônico, orientou um substituto para a tarefa e destacou que, na chegada do governador, não esquecesse de lembrar que ele estava acompanhado da primeira dama do estado.O locutor não se fez de rogado. O governador foi descendo do carro e enquanto puxava a esposa pela mão, ela sapecou: - Acaba de chegar, Sua Excia, o governador, acompanhado de sua primeira mulher... Não preciso dizer que o locutor perdeu o emprego! Lembro também Paschoal Carrilho, esse, mais debochado, vez por outra fazia das suas. Designado para cobrir a realização de um banquete no Palácio, oferecido a um general cinco estrelas, de má vontade, iniciou a transmissão: - Começou o banquete. Já estão comendo a mulher do governador e o bispo. Os demais aguardam na fila... (do futuro livro “Pequenas histórias para quem tem preguiça de ler as grandes”)

LEMBRANDO LOURIVAL CAETANO

Sob os auspícios do Instituto Histórico de Bayeux, Vanildo de Brito Caetano resolveu perenizar em livro, a vida e obra de seu pai, Lourival Caetano de Lima, a maior liderança política que aquela cidade conheceu. Fui seu admirador e ele, um dia, me honrou como meu eleitor. Conheci Lourival como companheiro de bancada na Assembléia Legislativa da Paraíba. Eu na ARENA e ele no MDB. Naquelas eleições de 1978 ele conquistara sua cadeira parlamentar com 10.224 votos.Obtive trezentos votos a mais, todavia, fui traído pela legenda altíssima que me deixou na primeira suplência. Assumi no início do Governo Burity e, a partir de então, pude desfrutar a salutar convivência desse idolatrado líder bayeuxense. Lourival Caetano não nasceu político, mas nasceu para a política. Iniciado no comércio de pães, bolachas e biscoitos, curtido nas madrugadas do forno à lenha da Padaria São Francisco, de lá foi requisitado pelo deputado Heraldo Gadelha para a política partidária. De vereador em Santa Rita, então sede do município onde se inseria o reduto eleitoral de Bayeux, chegou à vice-prefeito e assumiu o cargo por um bom período, substituindo o titular Antonio Teixeira, afastado para ser candidato a deputado estadual. Essa vinculação o impediu de ser o primeiro prefeito da nascente cidade de Bayeux. Seu candidato perdeu por poucos votos. Era o ano de 1960 e nessa eleição a Paraíba elegeu Pedro Gondim governador e Janio Quadros, presidente da República. Na eleição seguinte, não houve quem segurasse o Louro.Tomou posse como prefeito em janeiro de 1965. Estava implantada a sua hegemonia política na antiga Barreiras, nome arquivado pelo interventor Rui Carneiro quando resolveu homenagear Bayeux,a primeira cidade francesa da Normandia libertada pelas tropas aliadas na Segunda Guerra. A partir das raízes fincadas em obras e em um tratamento humanitário dedicado dia e noite ao seu eleitorado, Lourival colheria sucessivas vitórias. Elegeu seu sucessor em 1968, voltou em 1972 à prefeitura e obteve um feito inédito: elegeu sua esposa, Severina Freire de Melo, a popular Dona Niná sua sucessora, na eleição de 1976. A inexistência de vinculo civil entre ambos tornou isso possível. Quando quis repetir a dose e voltar em 1982, a jurisprudência mudara de entendimento e sua candidatura foi impugnada. Era então, deputado estadual, desde 1979. Nem por isso, Lourival deixou de festejar mais uma vitória eleitoral.Elegeu prefeito a Pedro Juvêncio, um bombeiro aposentado que era modesto auxiliar da gestão de Dona Diná.Mas o Louro voltaria mais uma vez a dirigir os destinos de Bayeux ,desta feita, em 1988, quando o povo da sua querida cidade lhe conferiu o ultimo mandato. Na eleição de 1986, com muita honra eu havia recebido o apoio de Lourival Caetano e do prefeito Pedro Juvêncio à minha candidatura a deputado estadual. Caminhando pela cidade, entrando nas casas humildes, subindo em palanques com Lourival, Vanildo, Delson, Dona Niná e tantos amigos seus, pude avaliar melhor o amor que aquela cidade dedicava ao meu antigo colega de Assembléia. Encontrei na sua liderança, traços do meu pai, também um homem do povo, da casa dos seus amigos e compadres e, retribuindo sempre, com amor, os votos que recebia. A cena que Vanildo descreve, com o pai cercado de amigos impedindo uma refeição tranqüila, parece que ocorrera na cozinha da minha casa, com o prefeito Arlindo Ramalho, de Borborema,mandando que puxassem uma cadeira, um tamborete, pois na mesa que come um, comem todos! Faltou a Vanildo descrever, por que não viu, seu pai cercado de populares, atendendo a todos na garagem da Assembléia. Quando eu entrava e via aquela pequena multidão, não precisava ninguém me dizer que Lourival estava no Plenário. Terminada a sessão, ouvia os pleitos, pacientemente e, quando não tinha solução, mandava que entrassem no seu carro e os levava de volta para além da Ponte Sanhauá. Foi esse o Lourival que conheci e ainda hoje guardo na memória. Cabe ao IHB preservar essa história para que sirva de exemplo às futuras gerações.

UMBUZEIRO TERRA DE GRANDES

Para mim era desconhecida a informação de que a cidade de Umbuzeiro tem a mesma padroeira de Bananeiras - Nossa Senhora do Livramento. E ambas as paróquias devem o incentivo maior da edificação de suas matrizes ao abnegado pastor José Maria de Ibiapina. Data de 1870 a primeira Igreja de Umbuzeiro, situada à rua coronel Antonio Pessoa. Em Bananeiras, pela rua do mesmo nome chega-se à Matriz do Livramento, iniciada em 1861.Mas as ligações históricas entre os dois municípios não param por aí. O major José Fabio Lira era prefeito de Umbuzeiro quando foi involuntàriamente envolvido em um conflito de ordem pessoal. Escapou de um atentado à bala e escolheu Bananeiras para sua nova morada. Levava uma carta do seu compadre “Toinho” Pessoa ( coronel Antonio Pessoa, irmão de Epitácio) para o primo Solon de Lucena, ao tempo uma liderança emergente no brejo. O major Zé Fabio como era conhecido, era um autodidata e estudioso da biologia e da aplicação da flora regional aos males do corpo. Inventou uma vacina produzida pela saliva humana e com ela promoveu a cura de várias moléstias, inclusive diabetes e tuberculose, antes do surgimento da penicilina. Seu “método consistia na esterilização a frio do liquido bucal das pessoas sãs e novas e transmudando ainda vivo para os doentes”. Sua fama correu o mundo e o jornal carioca A Noite chegou a compará-lo com o cientista russo Voronoff que difundiu um tratamento de rejuvenescimento que lhe deu fama, ao tempo em que ganhava a censura dos órgãos médicos oficiais. José Fabio sabia estar à margem da lei e, por essa razão chegou a se evadir para outros centros urbanos fugindo da perseguição da Associação Médica da Paraíba. Deusdedith Leitão encontrou-se com ele em afogados de Ingazeira, Ceará. Sua maior frustração foi não ter oferecido a cura ao seu compadre e amigo Solon de Lucena. Umbuzeiro tornou-se cidade a partir de 1938 apesar de município desde 1890. Deve ter sido na década de 1920 que o major Zè Fabio aportou em Bananeiras. Com ele “vieram” o coronel Antonio Pessoa, João Pessoa, Epitácio Pessoa e Castro Pinto que, juntos com Solon marcaram sua época. Por conta dessa ligação política e familiar esses filhos de Umbuzeiro passaram a denominar ruas e praças da cidade brejeira. Mas se Bananeiras era governista desde os tempos do coronel Felinto Rocha, Umbuzeiro, já no inicio do século passado ensaiava um coro oposicionista. Encontrei em O Comércio, jornal das classes conservadoras, na edição de sábado, 5 de maio de 1900, uma carta dos umbuzeirenses, denunciando Gama e Melo, “governo d´este infeliz Estado”. A carta dos habitantes da terra de Epitácio fazia queixa ao governo através do jornal, contra “as arbitrariedades e violencias de que, a cada passo, somos victimas, por parte de uma autoridade tão ignorante quanto desmoralizada, e esse propósito é devido ao fato de não vermos para quem appellar, uma vez que o governo do Sr. Gama e Mello, é isso ai que todos nós presenciamos, mas para que ao menos o publico tenha conhecimento da nossa triste situação derigimo-vos estas linhas pedindo-vos que as publiqueis no vosso independente jornal”. E não se pense que denúncias de fraudes eleitorais são coisas do presente. O relato dos umbuzeirenses nos dá a certeza de que sempre existiram: “começo relatando o que aqui ocorreu por ocasião da eleição, que se devia proceder hoje. Como é do costume n´esta terra, não se reunio a meza e isto pelo fato de ter o desmoralizado Sr. Toné, arvorado em chefe político, reunido, apenas 14 eleitores”. Segundo o missivista, a oposição reunia cerca de 71 votos que não puderam votar. Ao que parece o Sr. Toné era um pequeno ditador e, segundo a nota, “despeitado com o numero esmagador dos nossos amigos, que impossibilitados de votar fizeram valer os seus direitos protestando perante a autoridade competente, o Sr. Toné, que desde pela manha se entregava as libações costumeiras, achou opportunidade de desabafar seu despeito, indo tomar uma faca de um nosso amigo, quando este se retirava para sua residência fora d´esta povoação”. E continua a carta, de um humor duvidoso: “o nosso amigo Manoel Tenente, moço morigerado e que colloca a integridade do seu caracter em altura onde os Toneis jamais conseguirão attingir, vendo o estado lastimo em que se achava o Sr Toné, não fez questão de entregar-lhe a referida faca retirando-se pacifica e precipitadamente, não com receio da autoridade, mas da pipa, pois podia dar-se um incendio...” Para os umbuzeirenses responsáveis pela denuncia, o sr,Toné “ é uma autoridade que persegue tudo quanto é bom e honesto, deixa que neste distrito os ladrões andem impunemente, deixa que os cangaceiros freqüentem desasombrados este povoado e até lhes dá dinheiro...estamos nadando em um ar de infelicidades, pois alem de todas essas misérias,encontramo-nos a braços com uma seca horrorosa”. Deve ter sido por não querer nadar nesse mar de infelicidades que o major Zé Fabio resolveu mudar-se para Bananeiras, mantendo-se sob o manto protetor de Nossa Senhora do Livramento. Amém.(Nas transcrições mantive a grafia da época)

QUASE 200 ANOS DE VILA

Neste 16 de outubro, Bananeiras completa 136 anos de elevação à categoria de cidade. Deve-se ao então presidente da província da Parayba, José Rodrigues Pereira Junior, a assinatura da lei que emancipou seu território. Sua identidade política, porém, vem de mais atrás. Data de 10 de outubro de 1833 a elevação do povoado em Vila, por força de lei sancionada pelo presidente Antonio Joaquim de Melo. A povoação, até então, era parte da Vila Real de Brejo de Areia e antes, pertencera à jurisdição da Vila de São Miguel da Baía da Traição ou Vila de Mont Mor da Preguiça. A comarca de Bananeiras, foi instalada, porém, em 10 de outubro de 1857. Com efeito, em mensagem enviado à Assembléia Provincial pelos idos de 1860 o então presidente da província, o gaucho Silva Nunes esclareceu que “divide-se a Província da Paraíba nas sete comarcas da Capital, Pilar, Bananeiras, Areia, São João,Pombal e Souza” e ressaltou: “em Bananeiras, existem como juízes letrados e efetivamente providos”. Na época do Império, o Estado e a Igreja se não eram um só corpo, eram um só espírito, e as ações de ambos se entrelaçavam. Daí por que, foi a Assembléia Provincial, em lei de 25 de abril de 1835, proposta pelo conselheiro padre Francisco de Holanda Chacon, que deu status de Freguesia à Capela de Nossa Senhora do Livramento, “outrora filial da Matriz de Brejo de Areia”. A Paróquia, portanto, então denominada de Freguesia, completou 180 anos. Não se confunda, pois, com a idade da Igreja Matriz, apontada alhures como sendo inaugurada em 1861. A capela que deu origem à matriz é cercada de uma romântica lenda que envolve o livramento de um homem branco - Gregório da Costa Soares, aprisionado pelos índios e liberto por uma linda tapuia. A aflição do prisioneiro o fez rogar à interseção da Virgem do Livramento, prometendo que, caso escapasse com vida, mandaria erguer um templo no local do seu tormento. Foi o que fez: casou com a índia e doou a terra para a igreja. A segunda parte da historia se prova com documento, a primeira ninguém sabe quem contou. A matriz não pode ter sido inaugurada em 1861, pois, em 1873 há registro oficial de que a obra de construção da matriz, “progride sob a administração de uma comissão e as despesas correm por conta de loterias extraídas na Corte,” conforme revelou o presidente Francisco Teixeira de Sá. Um pouco antes, em 1860, o citado presidente Silva Nunes esteve em visita a Bananeiras e “foi visitar a igreja sob a invocação do Coração de Jesus que serve atualmente de matriz, cujo exterior não é mau, achando-se ainda por terminar o interior; há material disponível para a edificação da matriz que se projeta”. Acrescentou, ainda, que seu antecessor no governo foi autorizado pela Assembléia “a mandar orçar e construir a nova matriz da vila do Ingá e reedificar a de Bananeiras”, mas se desculpou perante os deputados provinciais: “sinto porém dizer-vos, o estado de penúria dos cofres tem sido tal, que não permitiu ainda o começo de qualquer dessas obras...” A planta para a reforma da matriz do Livramento data de 1858 e foi iniciativa do presidente Beaurepaire Rohan. À falta de recursos públicos, durava uma eternidade a construção de um novo templo. A matriz de Bananeiras não fugiu à regra e, falhando a ajuda oficial teve que recorrer às “esmolas do fieis”. Os “barões do café” deram sua contribuição e, em recompensa, ocupavam espaços elevados nas laterais da igreja. Daqueles púlpitos assistiam às missas e novenas, costume derrubado, literalmente, pelo monsenhor José Diniz, que destruiu as antipáticas tribunas. Historiadores como Humberto Nóbrega, Maurílio Almeida, Celso Mariz, Wilson Seixas e o pesquisador Manoel Luiz da Silva, tiveram a preocupação de retratar a Bananeiras de antanho, cuja existência política está chegando aos 200 anos. A cidade agora é outra, e sedimenta um futuro que não envergonha um passado que “apaixona e empolga”, como disse Humberto Nóbrega. ( Republicado nos 137 de cidade e 183 anos de emancipação política.DO livro Gente do Passado,Fatos do Presente)

A VILA DE BANANEIRAS

Uma povoação, no regime monárquico, adquiria sua independência política ganhando o status de Vila. Bananeiras, como povoado, estava inserida no mapa da Vila de São Miguel da Baía da Traição até que passou a integrar o território da Vila Real de Brejo de Areia em 1872. Seis anos depois, em 10 de outubro de 1833, foi dada emancipação política e criada a Vila de Bananeiras, “arrastando consigo os territórios de Guarabira, Cuité e Pedra Lavrada”, segundo Horácio de Almeida. O artigo segundo da lei que criou o novo município, ao invés de Pedra Lavrada, por certo fazendo parte de Cuité, se refere a Serra da Raiz. Guarabira chama-se, então, Independência.E prossegue Horácio: “em densidade demográfica, coloca-se Areia em terceiro lugar na Província, seguido apenas pela Capital e por Bananeiras. Nessa época, Bananeiras era a maior município do Brejo em extensão territorial, com uma área que ia até os limites de Areia ao Rio Grande do Norte, inclusive, o atual município de Araruna”. Araruna esteve sob a jurisdição da Vila de Bananeiras até 11 de julho de 1877 quando se instalou como Vila, com a posse dos seus primeiros vereadores, perante o presidente Manoel da Costa Espínola, da Câmara de Bananeiras. Desde 1871, porém, nasceria a inconformação dos moradores de Araruna com a dependência de Bananeiras, principalmente devido à distância entre o distrito e a sede municipal. Araruna era administrada à distância pelos chefes políticos de Bananeiras. Um documento descoberto pelo historiador Humberto Fonseca de Lucena e firmado pelas figuras mais representativas de Araruna, datado de 1871, defende a criação daquele município. Os moradores da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Povoação de Araruna, Termo e Comarca de Bananeiras reclamavam a distancia de nove léguas para se alcançar a sede municipal onde “são obrigados a prestar serviço do júri, reunir colégio eleitoral e requerer qualquer ato judicial”. O Barão de Mamanguape, senador do Império e presidente da Província sancionou a lei 616 que criou a Vila de Araruna, desmembrando-a de Bananeiras. Está comprovado, pois, que Bananeiras emancipou-se em 1833 quando foi elevada à categoria de Vila, ganhando foros de município independente. Dois anos depois, seria criada a Freguesia de Nossa Senhora do Livramento e, apenas em 1879, seria elevada à categoria de cidade. Era assim no passado. Hoje, um distrito tem a sede em uma Vila, e ganhando emancipação passa a ser uma cidade, sede do respectivo município. É, portanto um equivoco histórico e que precisa ser corrigido, referir-se a 16 de outubro de 1879 como data da emancipação política de Bananeiras. Esta é a data da elevação da Vila à categoria de Cidade. Independência política e administrativa Bananeiras possui há cerca de 182 anos, isto é, desde 10 de outubro de 1833, quando deu adeus à Vila Real de Brejo de Areia. A comarca de Bananeiras, porém, seria criada, apenas, em 1857, pois permanecia vinculada à jurisdição de Areia desde que se tornara Vila. A Província, contudo, não se descurara da cobrança de impostos. Por volta de 1844 foi instalada a coletoria de Bananeiras e seu primeiro coletor foi Estevão José da Rocha, agraciado, quase trinta anos depois, com o titulo de Barão de Araruna. O cemitério de Bananeiras, onde procurei o tumulo desse Barão, como se procura uma agulha no palheiro e não encontrei, seria construído em 1856. Mas a Vila ganhou o Correio dois anos depois de sua emancipação política, em 1835. A energia chegou na segunda década do século passado, em 1919 e o trem apitou pela primeira vez depois do Túnel da Viração em 15 de novembro de 1925. Humberto Nóbrega registra que em 1908 havia uma rede telefônica ligando Bananeiras a Moreno e às fazendas Jardim, Cardeiro, Gamelas, Muquem, Roma, Pilões, Genipapo e Cananfístula. De Borborema, José Amâncio falava por telefone com as cidades para as quais vendia energia. Nos anos 1940, Pedro de Almeida foi buscar água na Bica do Gato e distribuiu na cidade. O distrito de Chã do Lindolfo, hoje quase um bairro da antiga Vila de Bananeiras foi fundada por Lindolfo Américo Ferreira Grilo, justamente o primeiro escrivão do cartório do registro civil de Bananeiras, instalado em 1888. Uma curiosidade revelada pelo historiador bananeirado Humberto Nóbrega: o primeiro estrangeiro a fixar residência em Bananeiras foi o português Tomás de Aquino Freire de Andrade que ali aportou por volta de 1887. Acrescento eu: esse portuga viria a ser o pai de dona Maria Eugenia Andrade Bezerra, esposa de Francisco Bezerra Cavalcanti, de cujo casamento nasceu uma única filha: Azeneth Bezerra Aragão, minha sogra. Outra curiosidade: a energia vinda da Hidroeletrica de Borborema não era lá essas coisas... Que o diga o padre José Pereira Diniz quando registrou no Livro de Tombo da Igreja de N S do Livramento que o dr.Jose Amâncio fornecedor de energia à Igreja desde 1930, mandou em 1938 cortar a luz da Igreja. Motivo: todas as vezes que se acendiam as luzes da Matriz, havia uma queda de potência na iluminação publica, resultando em multa municipal contra a empresa. Corrobora com esse fato, a história do professor Waldez Borges: seu pai, Manoel Soares, comprou o primeiro ferro elétrico da cidade e quando sua mãe ligava o ferro as lâmpadas dos postes piscavam e o povo reclamava: “Mané Soares ligou o ferro elétrico!” (do livro GENTE DO PASSADO,FATOS DO PRESENTE. Republicado em homenagem aos 183 anos de emancipação política de Bananeiras, e não 137, como se comemora amanhã,16)

COMO ERA UM DIA DE ELEIÇÃO

Quando eu “era uma criança pequena” lá em Borborema um dia de eleição era um dia de festa. Também de brigas e muitas discussões, logo esquecidas. Mas a estrutura montada para receber os eleitores, demandava recursos próprios e por isso, poucos tinham direito de pleitear votos. Somente a partir de 1974, com a Lei Etelvino Lins, que proibiu o fornecimento de transporte e comida aos eleitores, gente enxerida da minha qualidade pôde disputar um mandato de deputado. A lei do pernambucano, ex-ministro do TCU, senador e governador daquele estado colocou na responsabilidade da Justiça Eleitoral a organização do translado de eleitores da zona rural para a urbana onde se concentram a maioria das urnas. Alimentar eleitor virou crime eleitoral e, somente em casos excepcionais, a própria Justiça Eleitoral poderá fazê-lo. Antes dos anos 1970, porém, a coisa funcionava de forma muito diferente. Vou contar o que me lembro. Em Bananeiras, UDN e depois a ARENA armavam um jiqui no armazém de fumo do Major Augusto e os eleitores enfileirados chegavam ao prato de comida. No braço recebiam uma marca de tinta, a exemplo do que fazem os palhaços com os meninos que os acompanham nas ruas, valendo o ingresso para o circo. A marca dos eleitores era para evitar que o “dito cujo” repetisse o prato. Mas antes de comer, tinham que mostrar o titulo para comprovar que já haviam votado.Na campanha de prefeito em 1963, Pedro Pessoa de Aguiar, o jovem que inventou oposição na Bananeiras redemocratizada, aludindo à marca gastronômica, pedia aos eleitores que não se deixassem “ferrar”, “como os bezerros de seu Mozart.” O deputado Clovis Bezerra e seu irmão Mozart investiam na estrutura do dia da eleição e a oposição somava votos sem gastar nada. “Comam lá e votem cá”, era a cantinela. O deputado Clovis Bezerra distribuía dezenas de bois que seriam mortos e distribuídos na sede e nos distrito. Estes viraram cidades, mas o costume continuou. Meu pai, Arlindo Ramalho, era candidato a prefeito de Borborema e, de acordo com o eleitorado existente, tinha direito a três bovinos bem curtidos e ao aluguel de alguns veículos para o transporte de eleitores. Nada disso era fiscalizado. Não se prestava contas a ninguém. Era um acordo explícito entre o líder político e seus liderados. Quando matavam os bois, surgia outro problema: os bilhetes e os pedidos de quem se dizia enfermo e não poderia comer junto com os demais. “Minha carne eu mesmo preparo”, exigiam. Meu pai retalhava um dos bois com esses eleitores privilegiados. Os pacotes de carne eram embrulhados e enviados aos compadres e afilhados. Além disso, outras casas eram reservadas para a alimentação de algumas famílias “mais lordes”, que não queriam se misturar com a “plebe ignara”. Sobre esses requintados eleitores, em uma reunião de véspera de eleição entre Clovis Bezerra, cabos eleitorais, motoristas transportadores e fiscais do dia da eleição, ele distribuía tarefas a alguns de seus correligionários. Olhou para o administrador do Engenho Caboclo, propriedade da família e orientou: - Compadre Ribeiro, as moças do Caboclo vão comer na sua casa. Seu Mica, um amigo do peito, resolveu ajudar: - Dr. Clovis, por que essas moças do Caboclo não já vêm comidas de lá? Foi uma risadagem geral. O deputado Clovis Bezerra costumava visitar as cidades vizinhas no dia da eleição. Na casa do meu pai, onde estavam servindo refeições foi até o quintal. Abriu as panelas e resolveu orientar as cozinheiras. Pegou uma colher de pau e mexeu o seu conteúdo. Demorou-se na tarefa. - É assim que se faz, ensinou. Dionísio Pereira dos Santos, naquele ano o escalado pelo PSD para enfrentar meu pai nas urnas de Borborema, por cima do muro, testemunhou a aula de culinária do deputado. Quando perdeu a eleição, resumiu sua vindicta: - Perdi a eleição mas obriguei o deputado a assar carne pros eleitores... A cabine eleitoral era mesmo indevassável. No canto da parede, uma cortina encobria o sigilo do voto. As cédulas individuais eram depositadas nas urnas e o exercício do dia era a “troca de chapa”. Em uma eleição prometi ao deputado Silvio Porto que pelo menos meu irmão Antonio Carlos, depois promotor de justiça, votaria nele. Mas ele esqueceu e na hora de votar colocou na urna uma cédula de Clovis Bezerra. Quando descobri fui a procura de alguém para cumprir minha promessa.Só restou minha mãe, que não aceitou dar esse voto contra dr.Clovis. Ainda bem que alguns eleitores vieram de Guarabira e votaram em Silvio Porto. Dia de eleição deixou de ser uma festa menos romântica quando surgiram os marqueteiros e com eles as pesquisas, a boca de urna e outras ações que passaram a exigir muito dinheiro. Melhor tivessem deixado o transporte e os bois. A exigência de muito dinheiro fez nascer a arrecadação espúria e, a partir daí... Acabou o meu espaço...

A CORRUPÇÃO DO ELEITOR

Publiquei recentemente uma coletânea de autoria do meu filho Flávio, falecido há um ano, contendo temas eleitorais vistos sob o ângulo do eleitor, do candidato e da Justiça. Ao livro dei o título de “Polêmicas Eleitorais”. Em busca de assunto para a coluna de hoje, sentei-me para escrever sobre a fidelidade de certos eleitores ao seu candidato, e escolhi um deles. Ele andava pelo nordeste inteiro acompanhando as linhas do trem, por ser ferroviário, mas na véspera da eleição chegava em Borborema para votar no meu pai para vereador e depois para prefeito. Vou deixar a sua história para outra oportunidade. Ao abrir o livro de Flávio deparei-me com o título “Vender o Voto Também è Corrupção Eleitoral” e resolvi apreciar o seu escrito e o outro lado da moeda – o eleitor que vende o seu voto ou troca, como se mercadoria fosse. O autor começa por demonstrar que “a conduta de vender voto, no Brasil, está inserida na cultura popular. Se ainda hoje existem candidatos comprando votos é porque existem milhares de eleitores vendendo seus votos, sempre amparados na certeza da impunidade, da ineficiência da estrutura governamental encarregada de aplicar as devidas punições, na expectativa da “delação premiada”, ou no frágil argumento do “estado de necessidade” de quem recebe pequenas doações em troca do voto.” Na realidade a lei prevê a conduta ilícita ao se referir a “solicitar para sí ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem” como se pode ler no nosso Código Eleitoral vigente. E a pena é de reclusão de até quatro anos, além de multa. Não se conhece, porém, nenhum eleitor condenado por exigir ou receber algum bem em troca do voto. Quando um juiz resolve cumprir a lei e prender eleitores, é considerado exagerado e/ou excêntrico. Eleitores que se prestam a testemunhar em Ações de Impugnação de Mandado Eletivo ou de Investigação Eleitoral confessam que foram cooptados mediante oferta, receberam, votaram como lhe mandaram, às vezes prestam falso testemunho e saem da audiência palitando os dentes. Nada lhes acontece. Constata Flávio, vivido no cenário dos candidatos- a Assembleia Legislativa, e no seio da Justiça, como servidor judiciário, que “Atualmente é inegável que a Justiça Eleitoral pune muitos candidatos que cometem esse tipo de ilícito, mas deixa de punir os eleitores também corruptos”. Eu só vivi um lado dessa questão: o de candidato. Como tal, recebi os pedidos mais esdrúxulos de eleitores. Uma jovem senhora, por exemplo, queria que eu lhe conseguisse um emprego urgente. Tinha recebido um presente do amante e não podia usá-lo sem despertar suspeitas do marido. A renda do emprego camuflaria seu pecado. A ausência de punição do eleitor vem acompanhada da excludente de criminalidade que faz par com a legítima defesa: o estado de necessidade. A carência do eleitor fala mais alto aos ouvidos da Justiça que, no caso da venda do voto, permanece com a venda nos olhos, perdoem o trocadilho. Outro aspecto que merece destaque é a investigação eleitoral focada quase que, exclusivamente, em quem ganhou a eleição. As testemunhas arroladas são direcionadas a cassar o diploma do empossado. As ações contra os que perdem a eleição ficam esquecidas nos escaninhos dos tribunais, “como se vencer o pleito, por si só, já fosse uma infração eleitoral”. O sem número de ações que surgem durante e, principalmente, após o pleito contestando seu resultado, ameaçam transformar a Justiça Eleitoral na antiga “Comissão de Verificação de Poderes como existia na época da República Velha, e dessa forma avalizando uma equivocada e preocupante transferência de poder, por via judicial, aos candidatos que foram rejeitados nas urnas, como se santificados fossem pela derrota, apesar de todos saberem que os candidatos derrotados também usaram e abusaram dos mesmos ilícitos eleitorais que costumam denunciar, num verdadeiro e incontestável exercício da hipocrisia”, destaca Flávio Ramalho. Eis um pequeno retalho do Brasil de hoje, de ontem e de sempre que nos levam cada dia aos escândalos do financiamento ilegal de campanha. Os eleitores são insaciáveis...(Do livro GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE)