COMO ERA UM DIA DE ELEIÇÃO

Quando eu “era uma criança pequena” lá em Borborema um dia de eleição era um dia de festa. Também de brigas e muitas discussões, logo esquecidas. Mas a estrutura montada para receber os eleitores, demandava recursos próprios e por isso, poucos tinham direito de pleitear votos. Somente a partir de 1974, com a Lei Etelvino Lins, que proibiu o fornecimento de transporte e comida aos eleitores, gente enxerida da minha qualidade pôde disputar um mandato de deputado. A lei do pernambucano, ex-ministro do TCU, senador e governador daquele estado colocou na responsabilidade da Justiça Eleitoral a organização do translado de eleitores da zona rural para a urbana onde se concentram a maioria das urnas. Alimentar eleitor virou crime eleitoral e, somente em casos excepcionais, a própria Justiça Eleitoral poderá fazê-lo. Antes dos anos 1970, porém, a coisa funcionava de forma muito diferente. Vou contar o que me lembro. Em Bananeiras, UDN e depois a ARENA armavam um jiqui no armazém de fumo do Major Augusto e os eleitores enfileirados chegavam ao prato de comida. No braço recebiam uma marca de tinta, a exemplo do que fazem os palhaços com os meninos que os acompanham nas ruas, valendo o ingresso para o circo. A marca dos eleitores era para evitar que o “dito cujo” repetisse o prato. Mas antes de comer, tinham que mostrar o titulo para comprovar que já haviam votado.Na campanha de prefeito em 1963, Pedro Pessoa de Aguiar, o jovem que inventou oposição na Bananeiras redemocratizada, aludindo à marca gastronômica, pedia aos eleitores que não se deixassem “ferrar”, “como os bezerros de seu Mozart.” O deputado Clovis Bezerra e seu irmão Mozart investiam na estrutura do dia da eleição e a oposição somava votos sem gastar nada. “Comam lá e votem cá”, era a cantinela. O deputado Clovis Bezerra distribuía dezenas de bois que seriam mortos e distribuídos na sede e nos distrito. Estes viraram cidades, mas o costume continuou. Meu pai, Arlindo Ramalho, era candidato a prefeito de Borborema e, de acordo com o eleitorado existente, tinha direito a três bovinos bem curtidos e ao aluguel de alguns veículos para o transporte de eleitores. Nada disso era fiscalizado. Não se prestava contas a ninguém. Era um acordo explícito entre o líder político e seus liderados. Quando matavam os bois, surgia outro problema: os bilhetes e os pedidos de quem se dizia enfermo e não poderia comer junto com os demais. “Minha carne eu mesmo preparo”, exigiam. Meu pai retalhava um dos bois com esses eleitores privilegiados. Os pacotes de carne eram embrulhados e enviados aos compadres e afilhados. Além disso, outras casas eram reservadas para a alimentação de algumas famílias “mais lordes”, que não queriam se misturar com a “plebe ignara”. Sobre esses requintados eleitores, em uma reunião de véspera de eleição entre Clovis Bezerra, cabos eleitorais, motoristas transportadores e fiscais do dia da eleição, ele distribuía tarefas a alguns de seus correligionários. Olhou para o administrador do Engenho Caboclo, propriedade da família e orientou: - Compadre Ribeiro, as moças do Caboclo vão comer na sua casa. Seu Mica, um amigo do peito, resolveu ajudar: - Dr. Clovis, por que essas moças do Caboclo não já vêm comidas de lá? Foi uma risadagem geral. O deputado Clovis Bezerra costumava visitar as cidades vizinhas no dia da eleição. Na casa do meu pai, onde estavam servindo refeições foi até o quintal. Abriu as panelas e resolveu orientar as cozinheiras. Pegou uma colher de pau e mexeu o seu conteúdo. Demorou-se na tarefa. - É assim que se faz, ensinou. Dionísio Pereira dos Santos, naquele ano o escalado pelo PSD para enfrentar meu pai nas urnas de Borborema, por cima do muro, testemunhou a aula de culinária do deputado. Quando perdeu a eleição, resumiu sua vindicta: - Perdi a eleição mas obriguei o deputado a assar carne pros eleitores... A cabine eleitoral era mesmo indevassável. No canto da parede, uma cortina encobria o sigilo do voto. As cédulas individuais eram depositadas nas urnas e o exercício do dia era a “troca de chapa”. Em uma eleição prometi ao deputado Silvio Porto que pelo menos meu irmão Antonio Carlos, depois promotor de justiça, votaria nele. Mas ele esqueceu e na hora de votar colocou na urna uma cédula de Clovis Bezerra. Quando descobri fui a procura de alguém para cumprir minha promessa.Só restou minha mãe, que não aceitou dar esse voto contra dr.Clovis. Ainda bem que alguns eleitores vieram de Guarabira e votaram em Silvio Porto. Dia de eleição deixou de ser uma festa menos romântica quando surgiram os marqueteiros e com eles as pesquisas, a boca de urna e outras ações que passaram a exigir muito dinheiro. Melhor tivessem deixado o transporte e os bois. A exigência de muito dinheiro fez nascer a arrecadação espúria e, a partir daí... Acabou o meu espaço...

A CORRUPÇÃO DO ELEITOR

Publiquei recentemente uma coletânea de autoria do meu filho Flávio, falecido há um ano, contendo temas eleitorais vistos sob o ângulo do eleitor, do candidato e da Justiça. Ao livro dei o título de “Polêmicas Eleitorais”. Em busca de assunto para a coluna de hoje, sentei-me para escrever sobre a fidelidade de certos eleitores ao seu candidato, e escolhi um deles. Ele andava pelo nordeste inteiro acompanhando as linhas do trem, por ser ferroviário, mas na véspera da eleição chegava em Borborema para votar no meu pai para vereador e depois para prefeito. Vou deixar a sua história para outra oportunidade. Ao abrir o livro de Flávio deparei-me com o título “Vender o Voto Também è Corrupção Eleitoral” e resolvi apreciar o seu escrito e o outro lado da moeda – o eleitor que vende o seu voto ou troca, como se mercadoria fosse. O autor começa por demonstrar que “a conduta de vender voto, no Brasil, está inserida na cultura popular. Se ainda hoje existem candidatos comprando votos é porque existem milhares de eleitores vendendo seus votos, sempre amparados na certeza da impunidade, da ineficiência da estrutura governamental encarregada de aplicar as devidas punições, na expectativa da “delação premiada”, ou no frágil argumento do “estado de necessidade” de quem recebe pequenas doações em troca do voto.” Na realidade a lei prevê a conduta ilícita ao se referir a “solicitar para sí ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem” como se pode ler no nosso Código Eleitoral vigente. E a pena é de reclusão de até quatro anos, além de multa. Não se conhece, porém, nenhum eleitor condenado por exigir ou receber algum bem em troca do voto. Quando um juiz resolve cumprir a lei e prender eleitores, é considerado exagerado e/ou excêntrico. Eleitores que se prestam a testemunhar em Ações de Impugnação de Mandado Eletivo ou de Investigação Eleitoral confessam que foram cooptados mediante oferta, receberam, votaram como lhe mandaram, às vezes prestam falso testemunho e saem da audiência palitando os dentes. Nada lhes acontece. Constata Flávio, vivido no cenário dos candidatos- a Assembleia Legislativa, e no seio da Justiça, como servidor judiciário, que “Atualmente é inegável que a Justiça Eleitoral pune muitos candidatos que cometem esse tipo de ilícito, mas deixa de punir os eleitores também corruptos”. Eu só vivi um lado dessa questão: o de candidato. Como tal, recebi os pedidos mais esdrúxulos de eleitores. Uma jovem senhora, por exemplo, queria que eu lhe conseguisse um emprego urgente. Tinha recebido um presente do amante e não podia usá-lo sem despertar suspeitas do marido. A renda do emprego camuflaria seu pecado. A ausência de punição do eleitor vem acompanhada da excludente de criminalidade que faz par com a legítima defesa: o estado de necessidade. A carência do eleitor fala mais alto aos ouvidos da Justiça que, no caso da venda do voto, permanece com a venda nos olhos, perdoem o trocadilho. Outro aspecto que merece destaque é a investigação eleitoral focada quase que, exclusivamente, em quem ganhou a eleição. As testemunhas arroladas são direcionadas a cassar o diploma do empossado. As ações contra os que perdem a eleição ficam esquecidas nos escaninhos dos tribunais, “como se vencer o pleito, por si só, já fosse uma infração eleitoral”. O sem número de ações que surgem durante e, principalmente, após o pleito contestando seu resultado, ameaçam transformar a Justiça Eleitoral na antiga “Comissão de Verificação de Poderes como existia na época da República Velha, e dessa forma avalizando uma equivocada e preocupante transferência de poder, por via judicial, aos candidatos que foram rejeitados nas urnas, como se santificados fossem pela derrota, apesar de todos saberem que os candidatos derrotados também usaram e abusaram dos mesmos ilícitos eleitorais que costumam denunciar, num verdadeiro e incontestável exercício da hipocrisia”, destaca Flávio Ramalho. Eis um pequeno retalho do Brasil de hoje, de ontem e de sempre que nos levam cada dia aos escândalos do financiamento ilegal de campanha. Os eleitores são insaciáveis...(Do livro GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE)

PRIMEIRA CONVERSA (2)

(Apresentação do livro GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE) Ao descobrir o Instituto Histórico e suas prateleiras de arquivos que escaparam das traças e da ação do tempo, mergulhei de máscara e luvas nesse tesouro do passado. Revisitei as minhas colunas de assuntos estudantis de A Tribuna do Povo, jornal da UDN dirigido por Clovis Bezerra e secretariado por Archimedes Cavalcanti, também membro do IHGP. Um exercício que entusiasma. Encontrei Pedro Gondim, governador dos paraibanos, na solidariedade à rebeldia do seu colega Leonel Brizola, pela manutenção do estado de direito e garantia da posse de Jango Goulart na Presidência da República. Li em edição de O Comercio de 1900, o Cunha Lima, de Areia, denunciando atos de vandalismo praticados a partir de um sobrado cedido por seu dono para ser os Correios e, ocupado, indevidamente, pela policia, que o teria transformado “em quartel de soldados, capangas e bandidos”. Cheguei aos tempos em que já tinha noção dos acontecimentos e avistei Getúlio Vargas apaixonado pela noiva e, depois, esposa, do seu chefe de gabinete. Seria novidade se esse exemplo não viesse de longe, pois os poderosos sempre cultivaram a tese de que as esposas destinam-se à procriação e as amantes ao desfrute e ao prazer. Fui apresentado às amantes de Pedro I, que desfrutaram de serviços inconfessáveis patrocinador pelo Imperador, fossem escravas da sua senzala ou monjas de convento portugues . Suas filhas bastardas receberam títulos nobiliárquicos. Por falar em títulos, investiguei os nobres paraibanos e me demorei na figura do Barão de Araruna cujo nome foi aproveitado para personagem de telenovelas e no romance Sinhá Moça, mas existiu de verdade e foi coletor de impostos e chefe político de Bananeiras quando aquela Vila incorporava, inclusive, o atual município de Araruna. Pedro II puxou ao pai, todavia, foi mais discreto em suas paixões. Segundo consta, porém, começou a cortejar a Condessa de Barral, preceptora de suas filhas, cutucando-a por debaixo da mesa, enquanto as filhas eram educadas em vários idiomas. Cuidei também de lembrar fatos e atitudes de vários paraibanos ilustres. Mereceram atenção minha convivência com Pedro Gondim, João Agripino, Antonio Mariz, Dorgival Terceiro Neto, Edme Tavares, almirante Cândido Aragão, de geração mais recente. Da nascente República, paginei, em rápidas pinceladas, Venâncio Neiva, Álvaro Machado, Almeida Barreto, Aristides Lobo, pais da República mas que vieram do Império, como o Barão de Mamanguape e o Barão de Abiaí. Alguns assumiram o novo regime na Paraíba por falta de republicano para fazê-lo. Mas o exemplo vem do alto, Deodoro da Fonseca, tido e havido como o Proclamador da Republica, era um monarquista empedernido e quase chora quando teve que despedir Pedro II. A memória ainda funciona e aproveitei para reintronizar a figura de José Amâncio Ramalho, egresso de Araruna e que entre outros empreendimentos implantou em Camucá, depois Borborema, a terceira hidroelétrica do país. Revivi os tempos em que o alemão Guilherme Groth fez do meu pai seu sócio brasileiro e renasceu das cinzas, literalmente, depois que seu comércio foi incendiado no distrito de Moreno, hoje Solânea. Foi um vitima da guerra, mesmo a milhares de léguas do teatro de operações. Para quem gosta de história, muitos textos são agradáveis passagens do passado e aproveitam o pitoresco, o inusitado e até o burlesco, deixando de lado o cientificismo histórico e tornando a narrativa mais atrativa. Exemplo disso: no golpe que implantou a Republica, o destaque ficou com o cavalo de Deodoro, cuja missão lhe rendeu a imortalidade em pintura a óleo e uma cota de capim até o fim da vida, longe do trabalho rotineiro do quartel e das ruas. Foi o inventor da sinecura. O leitor vai encontrar fatos e personagens do passado que servem de exemplo, em razão de acontecimentos do presente, como vai se deparar com fatos do presente que seriam deplorados por figuras do passado. O passado e o presente se entrelaçam e se encontram para mostrar cenários históricos que me pareceram merecedores de destaque. Meus amigos: Comecem a ler e, tendo algo em contrário, que falem agora ou se calem para sempre. (Fundação Casa de José Américo, Tambaú,setembro 2016)

PRIMEIRA CONVERSA (1)

(Apresentação do livro GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE) Este é mais um volume de conversas com meus poucos leitores, publicadas nos jornais desta antiga província da Parahyba do Norte e enfeixadas em livro. Já ocupei espaços dos falecidos Tribuna do Povo e O Norte, e dos sobreviventes Correio da Paraíba e A União, este com coluna cedida aos sábados a partir de 2011, quando exerci a sua direção. A publicação em papel se junta a um arquivo que vem dos idos de 1893, quando o presidente Álvaro Machado transformou o diário porta-voz do seu partido em órgão oficial do Estado. Mas, se sou prestigiado pela Velha Senhora, também me cedem espaço virtual os sítios da rede mundial de computadores que por estas plagas também atendem pelo nome de sites e blogs, fazendo a febre dos mais jovens e cansando a vista dos mais velhos que desejam atualizar-se com o mundo mais rapidamente. Tenho que agradecer aos que me publicam em suas páginas: wscom, blogdotiaolucena, blogdopredromarinho, agendaparaiba, cristianomachado, expressoparaiba, caririligado, focandoanoticia, giropb, hermesdeluna, bananeirasagora, nordeste1 e blogdevavadaluz A esta coleção denominei GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE, e saí um pouco, mas sem ausentar-me totalmente, da paixão pelo memorialista que reina em mim, para mergulhar em páginas do passado que despertaram a minha atenção e, por certo, tendem a prender os que, por acaso, se debruçarem sobre os meus textos. Quem já me conhece sabe que costumo colocar em fatos sérios uma pitada de humor, dourar com ironia atitudes muitas vezes equivocadas e criticar com acidez atos que incomodam a perspicácia deste ativista político que exerceu mandatos, ajudou outros a conquistá-los e, por isso mesmo, acumulou a experiência que o transformou em um gestor público requisitado por vários governos. Iniciando na cátedra de história incursionei pelo jornalismo antes de escolher a advocacia como profissão. Foi lá, na faina diária da busca pela Justiça, que foram me buscar para a tribuna política, quando apenas inaugurara a tribuna do júri, à qual pensava me dedicar como Promotor de Justiça. A falta de um mandado eletivo que não mais busquei, fez-me retornar à atividade do passado e cuidei de construir uma nova tribuna - a imprensa. Surgiram então, Dá Licença,um Aparte, Nos Espelhos do Palácio, Em Prosa e No Verso, O Vendedor de Calúnias e A Botija de Camucá, a exceção do último, todos com edição esgotada. Em 2013, quando me inscrevi para concorrer a uma cadeira na Academia Paraibana de Letras e, no ano seguinte, ao Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, fui obrigado a recorrer aos sebos para encontrar exemplares dos meus trabalhos até então publicados. Em conseqüência dessa busca, ao acervo já nominado acrescentei um trabalho sobre a vida e obra de Solon de Lucena, bananeirense que chegou à presidência do Estado, sob o titulo: Solon de Lucena-Democracia e Década de Vinte na Paraíba, com a respeitável companhia de José Octávio de Arruda Melo, Joacil de Brito Pereira e Humberto Lucena, publicado por ocasião do centenário do ilustre paraibano desaparecido em 1926. Encontrei ainda no Sebo Cultural, uma instituição que ocupa espaço elogiado na Paraíba, um trabalho técnico - A Constituição de 1967 e A Doutrina do Poder Constituinte, dissertação aprovada com nota dez pelo professor paulista Manoel Gonçalves Ferreira Filho um dos mestres a USP que ministraram o curso de pós-graduação a que freqüentei na UFPB. Eleito para essas duas respeitáveis instituições, adicionei ao meu trabalho jornalístico e de pesquisa, os discursos pronunciados por ocasião da minha posse na Cadeira 07, da Academia de Letras e na Cadeira 45, do Instituto Histórico, cujos patronos e seus ocupantes até então, engrandeceram a historia paraibana do século passado. A primeira tem como patrono Artur Aquiles, o destemido e perseguido jornalista, e nela tiveram assento, Coriolano de Medeiros, Maurílio Augusto Almeida e Dorgival Terceiro Neto. A segunda, sob o patronato do historiador, governador da Paraíba e ministro do Supremo Tribunal Federal Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo, foi fundada por Dorgival Terceiro Neto. Para minha honra, nessas duas solenidades fui saudado pelo acadêmico Juarez Farias e pelo historiador Renato Cesar Carneiro, e seus pronunciamentos enriquecem este compêndio e o meu curriculum.(CONTINUA)

PRIMEIRA CONVERSA (1)

Este é mais um volume de conversas com meus poucos leitores, publicadas nos jornais desta antiga província da Parahyba do Norte e enfeixadas em livro. Já ocupei espaços dos falecidos Tribuna do Povo e O Norte, e dos sobreviventes Correio da Paraíba e A União, este com coluna cedida aos sábados a partir de 2011, quando exerci a sua direção. A publicação em papel se junta a um arquivo que vem dos idos de 1893, quando o presidente Álvaro Machado transformou o diário porta-voz do seu partido em órgão oficial do Estado. Mas, se sou prestigiado pela Velha Senhora, também me cedem espaço virtual os sítios da rede mundial de computadores que por estas plagas também atendem pelo nome de sites e blogs, fazendo a febre dos mais jovens e cansando a vista dos mais velhos que desejam atualizar-se com o mundo mais rapidamente. Tenho que agradecer aos que me publicam em suas páginas: wscom, blogdotiaolucena, blogdopredromarinho, agendaparaiba, cristianomachado, expressoparaiba, caririligado, focandoanoticia, giropb, hermesdeluna, bananeirasagora, nordeste1 e blogdevavadaluz A esta coleção denominei GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE, e saí um pouco, mas sem ausentar-me totalmente, da paixão pelo memorialista que reina em mim, para mergulhar em páginas do passado que despertaram a minha atenção e, por certo, tendem a prender os que, por acaso, se debruçarem sobre os meus textos. Quem já me conhece sabe que costumo colocar em fatos sérios uma pitada de humor, dourar com ironia atitudes muitas vezes equivocadas e criticar com acidez atos que incomodam a perspicácia deste ativista político que exerceu mandatos, ajudou outros a conquistá-los e, por isso mesmo, acumulou a experiência que o transformou em um gestor público requisitado por vários governos. Iniciando na cátedra de história incursionei pelo jornalismo antes de escolher a advocacia como profissão. Foi lá, na faina diária da busca pela Justiça, que foram me buscar para a tribuna política, quando apenas inaugurara a tribuna do júri, à qual pensava me dedicar como Promotor de

DORGIVAL TERCEIRO NETO

Dificilmente eu deixava de ir abraçá-lo a cada 12 de setembro.Se levasse uma simples gravata de presente, era recriminado. Dispensava qualquer afago, mas não me negava a alegria de um abraço sincero.Era o seu jeito. Acostumado ao poder sem dele tirar proveito, sabia como ninguém viver longe dele e reconhecer os verdadeiros amigos. Na despedida, concluía: você é dos poucos que se lembram de mim...E continuo me lembrando, Dorgival, e lhe rendendo as melhores homenagens.Hoje me falta o abraço, mas não deixo de registrar minha saudade. Em um discurso, chegou a traçar o seu perfil: “Ninguém procura o destino; percorrem-se caminhos que levam até ele. Menino do mato, nascido nas terras sáfaras de Taperoá, que foi meu berço e será meu túmulo, criei-me contemplando, a pouca distância das fraldas da Borborema, a pedra do pico, segundo ponto mais alto da Paraíba, com o feitio de um polegar gigante apontando para o infinito. Mas minha admiração silenciosa para o alto, nunca me infundiu inveja e nem ambição para alcançar mais do que a vida me reservasse.” Dorgival Terceiro Neto não procurou o seu destino. O destino o procurou e fez dele um dos grandes da Paraíba. Deixou o Colégio de Padre Vieira, em Patos, e virou comensal da Casa do Estudante da rua da Areia, onde ingressou em 1951. Foi concluinte da Faculdade de Direito em 1957, já federalizada.Enquanto estudava, iniciava-se no jornalismo na velha escola da Praça João Pessoa- A União. Foi servidor da Universidade e do Judiciário, recebendo do governador Flávio Ribeiro seu primeiro emprego, no DER. Diretor do Paraiban, dalí saiu para governar nossa Capital. Como prefeito de João Pessoa estruturou a edilidade e deu-lhe o primeiro Plano Diretor. Fez seu cadastro imobiliário e instalou um Centro de Processamento de Dados quando pouco se falava em computador por estas bandas. Os servidores municipais passaram a receber salário mínimo como piso. Começou a pagar a previdência nunca honrada em seus créditos. Até o Fundo de Garantia, um ilustre desconhecido por ali, sentou praça na Prefeitura.Construiu 16 unidades escolares e acabou com os “pardieiros”, como chamava as escolas então existentes.Deu sede a várias secretarias e a cidade ganhou um novo Pronto Socorro. Quando ainda não se falava em mobilidade urbana, avançou no tempo e abriu a Pedro II, ligando-a ao Castelo Branco; a BR-230, chegou à Beira-mar pelo retão de Manaíra; o Cabo Branco ganhou uma avenida de retorno e o contorno do Farol; paralela à Epitácio, surgiu a Beira-rio e da favela removida de suas margens, nasceu a Cidade Padre Zé. Deixou a Lagoa toda ajardinada e com um sistema de irrigação permanente; reformou a Bica e levou para a maré a água que transformava o Bairro dos Estados em uma lagoa a cada inverno. Construiu os mercados do Bairro dos Estados, Jaguaribe, Castelo Branco e Oitizeiro. Tudo isso em apenas dois anos e dez meses. A ligação da Cidade Alta com a Cidade Baixa deu lugar ao Viaduto da Miguel Couto. Como era o terceiro viaduto da cidade, eu o batizei de Terceirão, na data de sua abertura. Passaram a chamá-lo de Viaduto Dorgival Terceiro Neto. Nunca houve uma lei que concedesse esse batismo. Aguardo a iniciativa de um licurgo municipal. Antes que me esqueça: a antiga Universidade Autônoma de João Pessoa, hoje UNIPÊ, empreendimento vitorioso de um grupo empresarial/religioso foi viabilizada em seu nascedouro por que Dorgival criou a Fundação Municipal exigida pelo MEC. Nunca se fez esse reconhecimento histórico. Pela obra que realizou na Capital, Dorgival foi escolhido vice-governador de Ivan Bichara e ocupou em caráter definitivo o cargo de governador da Paraíba. Como advogado manteve um respeitado escritório de advocacia e, na qualidade de mais antigo filiado à OAB, foi o principal homenageado durante os 80 anos daquela Casa.Ocupou a Cadeira 07 da Academia Paraibana de Letras e a Cadeira 45 do Instituto Histórico. Se vivo estivesse, completaria, hoje, 83 anos.Para resumir a vida e obra de Dorgival Terceiro Neto, concedo-lhe, novamente, a palavra: “Assumi compromissos e tomei responsabilidades, mas tão logo me desincumbia dos afanosos ofícios, saia às pressas, sem olhar para trás, por que não carregava pesadelos”.(Do capítulo Gente do Meu Passado, no livro Gente do Passado,Fatos do Presente,republicado nos 84 anos de DTN)

O COLÉGIO DAS DOROTEIAS

Neste ano da graça de 2016 a Congregação das Doroteias está completando 150 anos de sua chegada ao Brasil. No mesmo ano de 1866 era aberta também a Casa de Portugal. Na nossa pátria mãe, as comemorações ocorreram entre março e abril do corrente. Não tomei conhecimento de qualquer evento alusivo à presença marcante dessas educadoras entre nós.De sua atividade em Bananeiras, a partir de 1917, restam o túmulo mandado construir pelas ex-alunas e o antigo prédio do colégio, que voltou ao patrimônio da Diocese e hoje é um colégio municipal, por obra e graça de uma ex-aluna, a prefeita Marta Ramalho. As Doroteias nasceram na Itália por iniciativa de Paula Franssineti. Moradora de uma vila de pescadores denominada Quinta Al Mare, fundou, com outras doze moças, uma comunidade religiosa com o nome de Filhas de Santa Fé, dedicada à evangelização da juventude. Nos idos de 1834 chega a Gênova o Conde de Passi, dedicado à Obra de Santa Doroteia, cujo objetivo era desenvolver o seu apostolado fora do ambiente das casas religiosas, com foco nos jovens e crianças pobres. Essa proposta foi acolhida pelas Filhas de Santa Fé que passaram, então, a se denominar Irmãs de Santa Doroteia. Doroteia, natural da Capadócia,na Turquia, escolheu viver na castidade perfeita e se entregou ao jejum e à oração. Sua humildade, prudência e doçura atraíram a atenção de seguidores. Por outro lado, a perseguição aos cristãos encetada sob o Império de Diocleciano, no Século III, levaram suas idéias a julgamento. Por manter suas convicções, foi decapitada. Paula Franssineti, a fundadora da Congregação também alcançaria a santidade. A Congregação das Irmãs Doroteias plantou escolas em várias partes do mundo, educando jovens e crianças.Sua primeira casa no Brasil instalou-se na Diocese de Olinda e Recife, por solicitação do então bispo dom Manoel do Rego Medeiros, conforme me informa a Wikipédia. Foi justamente a madre provincial de Olinda, irmã Julia Cassini, que recebeu a doação que lhe fez o arcebispo da Paraíba, dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, do patrimônio com casa e capela do Sagrado Coração de Jesus, existente na cidade de Bananeiras. Dom Adauto no seu arrazoado considerou o bem espiritual da Paróquia de N. S. do Livramento “e o extraordinário proveito que pode advir de um estabelecimento de ensino dirigido por uma Congregação Religiosa”, daí por que, transmitiu às religiosas da Congregação de Santa Doroteia, em Pernambuco, aquele acervo, sob algumas condições explícitas em documento. A primeira cláusula exigia das Irmãs a obrigação de “prover o pessoal apto e suficiente para a direção e conservação de um colégio destinado a educação de meninas”. Em segundo, o colégio manteria “uma aula de ensino elementar e trabalhos manuais gratuitamente para as crianças pobres” As religiosas estavam proibidas de transferir o colégio para outro prédio “mais vantajoso e mais apropriado ao fim ao qual era destinado, isto é, para a estruturação e conservação de um colégio para meninas”. Enfim, caso a Congregação resolvesse “retirar seu pessoal e deixar a direção do dito Colégio do Sagrado Coração de Jesus da cidade de Bananeiras não lhe será devida qualquer indenização”. As Doroteias se instalaram ainda em Cajazeiras e Alagoa Grande e mais recentemente, nesta Capital.Até o ano de 1962 eu ainda avistava as meninas internas no Colégio das Doroteias passeando, em fila dupla, pelas ruas da cidade, sob a vigilância de uma sisuda freira. Era um exercício esperado pela rapaziada. Abrir as portas do colégio para visitantes era mais difícil. O professor Vicente Nóbrega, que ensinava voleibol às meninas, entrava e sai quando queria. Eu, que paquerava uma aluna, ficava a vê-la passar, de longe, de passo firma, blusa branca e a saia plissada das normalistas. Esse colégio tem muita história, mas não serei eu que irei contá-las.Com a palavra uma pupila de Madre Rodrigues. (Fonte: Livro de Tombo da Paróquia de N.S.do Livramento)

QUEM FOI O BARÃO DE RAMALHO

Vim descobrir recentemente por que a família da minha esposa fazia restrições ao seu casamento comigo. Para casar, tive que roubar a moça. O coronel Camporra, irmão do Barão de Araruna era seu trisavô. Com essa ascendência nobre, como permitir a união com o filho de um plebeu, cujo mais ilustre membro familiar era tenente da Guarda Nacional? Mas a história abre caminhos e a genealogia nos leva a conhecer o passado. Em busca desses ancestrais encontrei Joaquim Inácio Ramalho, Barão de Ramalho, um ilustre homem do direito, contemplado com todas as honrarias do Segundo Império. Um dia ainda vou reivindicar esse titulo de nobreza. Só não sei perante qual juízo... Filho de um espanhol, o futuro barão nasceu a 6 de janeiro de 1809, em São Paulo.Os irmãos Antonio Nunes Ramalho (parente da Elba) e Anna Felisberta Ramalho foram seus pais de criação, recebendo deles o sobrenome Ramalho. Foi dos primeiros alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco onde se bacharelou em 1834 e foi doutor em 1835. No ano seguinte já era professor substituto da mesma escola onde se graduara. Dez anos depois foi eleito vereador e presidente da Câmara de São Paulo. Sua destacada atuação lhe valeu a nomeação, através de decreto imperial, para a presidência da Província de Goiás, até 1848 quando se elege deputado geral por Goiás. No retorno, foi deputado provincial paulista, por duas legislaturas. É ainda comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo. Conselheiro do Governo Imperial lidera um grupo de advogados para fundar o Instituto dos Advogados de São Paulo, ativo ainda hoje. Depois de aposentado como catedrático da Faculdade de Direito foi distinguido pelo Império com o baronato. Denominado Barão de Água Branca, em homenagem à cidade alagoana do mesmo nome, recusou o titulo. Somente aceitaria o titulo de Barão, caso houvesse referencia à família de sua esposa Paula da Costa Ramalho, filha de um dos Ramalho que o criara. Assim, em 28 de maio de 1887, torna-se o Barão de Ramalho.Nomeado diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ocupa esse cargo até sua morte em 15 de agosto de 1902, aos 93 anos. Em artigo sobre os Notáveis do Direito, Alessandro Hirata, livre docente da USP, considera o Barão de Ramalho “um exemplo de carreira dedicada à academia.Passou a maior parte de sua longa vida nos bancos da São Francisco. Sua atuação é modelo não apenas para a tradicional faculdade paulistana, mas para todo o mundo acadêmico jurídico”. Acabei de falar sobre o Barão de Ramalho brasileiro. Dona Maria II, de Portugal, contudo, destacou um político do Açores com o titulo de Barão do Ramalho.Chamava-se Antonio Tomé da Fonseca Carvão Paim Câmara, o 1º Barão. Seu neto, Antonio da Fonseca Carvão Paim da Câmara, foi o 2º. Barão e além de político e jornalista foi governador civil, por diversas vezes, do Distrito de Angra do Heroismo e de Ponta Delgada até 1878. Cavalheiro da Casa Real, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, eram alguns dos seus títulos. Era formado em Ciências Naturais pela Universidade de Bruxelas. Com essa ascendência nobre, tanto brasileira quando d’além mar, juntei a Casa dos Aragão com a Casa dos Ramalho e ainda hei de reivindicar o meu titulo de nobreza. O coronel Camporra que me aguarde!

UM DISCURSO DE SILVA MARIZ

A crise hídrica do nordeste tem os seus olhos voltados para a transposição de águas do Velho Chico destinadas aos estados que não possuem rios perenes. Entre nós, o volume de Boqueirão chegou ao seu nível histórico mais baixo. Há uma corrida em evidência para ver quem chega primeiro: o inverno ou as águas do São Francisco. E dá para Campina e seu entorno esperarem? Não sou técnico no assunto mas acompanho sua evolução. Causa admiração que esse problema secular não tenha ainda uma solução definitiva. Desde que o Brasil é Brasil, seca no nordeste virou tema cíclico de discursos inflamados e promessas n ão cumpridas. No Império ou na República, vários caminhos foram apontados para a convivência do nordestino com as secas. Persiste o problema. Que as águas do “rio da integração nacional” não sejam uma panacéia e, resolvam mesmo, nosso problema de abastecimento d’água.

Nos primórdios da República, a construção das estradas de ferro era apontada como medida eficiente de combate aos efeitos das secas. Assim pensava o deputado Silva Mariz, quando em discurso na Câmara Federal, em 02 de outubro de 1896, fez o seguinte pronunciamento falando sobre a Paraíba: “ A zona é estéril para a agricultura, mas é riquíssima para a creação pastoril.Apezar de não chover alli por muitos mezes, a creação produz muito bem, devido a especialidade do terreno que é coberto de muitos arbustos forrageiros, salientando-se a família dos cardos. De Batalhão (Taperoá) para o alto sertão teremos novas dificuldades a vencer na descida da Borborema, mas a florescentíssima Villa está ás portas da fertilíssima zona do alto sertão, onde, além da industria pastoril, se cultiva em grande escala o algodão, a canna de asssucar e todos os cereaes. Sei Sr. Presidente, que se procura eliminar a Central da Parahyba,(Linha férrea central) dando-se como ponto de parada Alagoa Grande. Mas o senhor ministro da Industria e Viação não pode se estribar na autorização que lhe deu o Congresso no §7º do art. 6º da lei nº 360 de 30 de dezembro do ano passado, porquanto essa mesma lei determinava o prolongamento de Mulungú a Campina Grande destinando verba de 400:000$ para a continuação da sua construção que já se achava feita até Alagoa Grande e que hoje j&a acute; se acha á mais de dous kilometros além daquelle ponto.E tanto é certo o que afirmo, é que o illustre ministro em suas tabellas pede verba para a continuação da construção além de Alagoa Grande”.

Aparteando, o deputado Lauro Muller lembra que o decreto do ministro marca Alagoa Grande como ponto de parada. “É exatamente o que estou combatendo” , frisou Silva Mariz. Não se dando por satisfeito, o paraibano verbera que o ministro não poderia determinar o final da linha férrea em Alagoa Grande, pois o Congresso determinara sua parada em Campina Grande, destinando recursos pára tal.

E conclui o deputado Silva Mariz:” Si o governo tivesse vistas largas, há muito teria estudado os meios prophyláticos de combater as calamidades provocadas pelas seccas periódicas que afligem os três infelizes estados do Norte- Ceará, Rio Grande do Norte e Parahyba e nunca se lembraria de fazer paradas, nem mesmo provisórias de suas linhas férreas”. Como se observa, naquele tempo se vinculava a construção de estradas de ferro às obras contra as secas, para gerar emprego, melhorar as comunicações e fomentar o desenvolvimento. A estrada Independência/Picuí, por exe mplo, que nunca foi concluída, pretendia ligar a área do brejo ao curimataú atingindo o semi-árido do vizinho Rio Grande do Norte.

Mas quem foi Silva Mariz, haverão de perguntar. Era médico nascido em Souza. Ingressou na política no período imperial, filiando-se ao Partido Liberal. Aderiu à República, elegeu-se deputado e participou da primeira constituinte estadual. Em 1894 foi ungido deputado federal, reeleito em 1987 e em 1900. Tomou assento na Câmara, no Rio de Janeiro, até 1902. Seu filho, José Marques da Silva Mariz, deputado estadual a partir de 1928, participou da revolução de trinta e foi interventor estadual. Voltou à Assembléia em 1951 e terminou seu mandato em 1953 quando veio a falecer. Silva Mar iz era avô do deputado federal, senador e governador da Paraíba, Antonio Marques da Silva Mariz e do conselheiro aposentado do TCE, José Marques da Silva Mariz.

Como médico, Silva Mariz era um cientista. Clinicou muitos anos no sertão e, em Souza, mantinha uma farmácia onde manipulava medicamentos aproveitando plantas medicinais da flora regional. Seu neto Antonio Mariz, quando perdeu a eleição para governador ficou com tempo disponível , e passava as tardes na Biblioteca Nacional, no Rio. Tentou o verbete Mariz, tentando encontrar Celso ou mesmo suas publicações parlamentares. Encontrou a “These” que seu avô defendeu ao se formar em medicina. Sua dissertação versava sobre os efeitos terapêuticos de alguns espécimes florais.Sil va Mariz é nome de uma rua no bairro de Cruz das Armas.( Nas transcrições mantive a grafia da época.Jornal A União, nº 936, ano de 1896)
 


OS RECLAMES DO PLIN PLIN

Aquele famoso apresentador de nossa televisão faria melhor o programa sem a sua presença. O cara é chato e só é superado por outro exemplar que elege como heróis alguns casais de desocupados, confinados em uma casa para engorda e, outras “cositas” mais por baixo do edredom. Mas nós, mortais comuns, temos que conviver com a fama deles ou trocar de canal. O programa melhora nos intervalos quando são apresentados os “reclames do plin plin”. São as mensagens dos anunciantes que pagam toda a parafernália armada a cada domingo da graça global. Melhor faria o programa se desse mais espaço ao seu corpo de balé, uma seleção de pernas e bocas de fazer inveja a algumas atletas olímpicas de países que nunca ouvi falar. Os reclames de hoje são muitos divertidos e prendem o telespectador. Acostumado a voltar para a leitura, nos intervalos, muitas vezes me delicio apreciando a forma mágica que os marqueteiros encontraram para vender seus produtos. Mas nesse espaço, tenho preferido mostrar fatos do passado e, hoje, levo os meus poucos leitores ao inicio do século passado, a edição de 8 de março de 1900, do jornal O Commercio, editado pelo jornalista Arthur Achilles, nesta cidade de Nossa Senhora das Neves que acaba de aniversariar. Na sua página comercial, os reclames de remédios, como eram chamados, ganhavam destaque. Sob o titulo de “Remédios que Curam: Nevralgias, Rheumatismo agudo ou chronico, dor de dentes, SELLOS ante-rheumaticos do dr.Heinzelman”. Para a cura certa da “Dyspepsia, falta de appetite, náuseas, prisão de ventre e tonturas, recomendavam-se as Pílulas Ante-dyspépticas”do mesmo farmacêutico. Também estava no comércio um fármaco para combater as tosses, a rouquidão e o catarro - as Pílulas Expectorantes, que não serviam para eliminar as anemias, fraqueza ou inchação no rosto e nas pernas. Para esses males, a Pharmácia Londres tinha à venda as Pílulas Ferruginosas. Naquele tempo, a Homeopatia já ganhava espaço e, visando desclassificar os charlatães, anunciava-se a Homeophatia Verdadeira, cujo especialista chama-se Umbelino Álvares, sediado na Rua Larga do Rosário, 38, no Recife. Para evitar as falsificações, a marca era a foto do famoso homeopata estampada em tinta azul, com a recomendação: “Exija-se o seguinte retrato”. Mas para comprar com confiança, devia ser procurada a Pharmácia Londres, situada na rua Maciel Pinheiro, 76, na cidade da Parahyba. Não posso deixar de lembrar o Específico Áureo de Harvey, que prometia “cura infalível” para “Debilidade Nervosa, Espermatorreia, Perdas Seminaes noturnas ou diurnas, Inchação dos testículos, Prostração nervosa, Moléstias de rins e da bexiga, Emissões involuntárias e fraqueza dos órgãos genitaes”. Era uma oportunidade para se largar o chá de catuaba ou a gemada, já que o ovo de codorna foi indicado décadas depois pelo rei Luiz Gonzaga. Nas páginas dos jornais se vendia tudo: vinho de Málaga, para os convalescentes; Alcatrão Benzoico, para “bronchite ou laryngite” e também o Xarope de Cumarú. Phosphoros Cruzeiro, Salitre e Enxofre; Cimento e, um óleo denominado de Luz Brilhante, próprio para a iluminação aromática de lamparinas, sem produzir fumaça. Nessa época, é bom que se diga, a Drogaria Rabelo, fazia concorrência com a Pharmácia Londres. Os reclames chamavam a atenção do belo sexo, eternamente em busca de elegância e beleza, para os calçados oferecidos pela loja “A Botina Elegante, um grande empório de calçados”.E destacava o anuncio: “Esta casa, a primeira nesse gênero n’esta praça, recebe regularmente das principais fabricas estrangeiras e nacionais as mais altas e primorosas novidades em calçados em todos os feitios e tamanhos”. Respondia pela firma, J. Etelvino & Montenegro, a rua Maciel Pinheiro 50. E para encerrar, a Casa da Fortuna, de Marcionillo Bezerra anunciava os prêmios da Loteria Esperança, que chegava a doze contos de reis; a Grande Loteria Nacional, poderia fazer um milionário de duzentos contos, prometendo descontar dos premiados uma “diminuta percentagem”. Não vou perguntar, mas tenho certeza: vocês vão preferir os reclames do Faustão. Não por ele, mas pelas meninas do balé!