Encontro com Itamar

Decorria o mês de agosto do ano de 1993 do século passado e Itamar Franco era o Presidente do Brasil após o impedimento de Collor. Ontem como hoje, deputados e senadores sempre procuram o Chefe da Nação para se queixar de desprestígio mais do que para reivindicar investimentos públicos nos seus Estados. Por ambas as razoes a bancada paraibana, excetuando-se os pmdebistas, lograram uma audiência com o Presidente.

Sob o comando do Senador Raimundo Lira fomos todos: Adauto Pereira, Evaldo Gonçalves, Rivaldo Medeiros, Efraim Morais e eu, que assumira no lugar de Ivan Burity. Alguns cargos ocupados por indicação do pefelê, hoje DEM, estavam sendo substituídos por gente do PMDB via Senador Humberto Lucena à época Presidente do Senado e sempre com muito prestígio. Eu já contei essa história mas não custa repetir, diante da partida do ex-presidente.

Ouvidas com paciência as reclamações dos presentes, o presidente indagou como poderia compensar as nossas perdas. Foi por conta dessa indagação presidencial que eu saí do Palácio do Planalto praticamente nomeado Diretor do Banco do Nordeste, já que minha permanência na Câmara Federal tinha prazo curto e se encerrava naquele mês de agosto.

Mas o que me marcou no encontro com o Presidente e traduziu uma avaliação da sua simplicidade foi outro fato. Todos se sentaram nas cadeiras disponíveis. Sendo eu o mais humilde dos presentes, até por que era deputado na condição de suplente, deixei que todos se sentassem e fiquei em pé, pois a única poltrona que restava era a do Presidente.

Vendo-me em pé, mais que depressa o Presidente Itamar voltou à sua mesa onde existiam duas cadeiras e pegando uma delas veio conduzindo-a para que eu me sentasse. Vendo esse gesto de fidalguia e naturalidade, corri e atalhei sua ação, tomando-lhe a cadeira e eu mesmo cuidando da minha acomodação.

Esse gesto assinalou para mim a personalidade desse mineiro nascido a bordo de um navio, que navegando sempre em águas tranqüilas, muitas vezes provocou tempestades. Ao lembrar Itamar Franco o faço com carinho, menos pela nomeação que me fez e mais pelo gesto de desafetação tão incomum em outros ocupantes da mesma cadeira presidencial.Que Deus lhe destine um bom lugar.
 


Centenário de Clovis Bezerra

Aos doze dias do mes de novembro do ano de mil novecentos e quarenta e cinco, as dez e meia hora, no salão principal da Prefeitura Municipal desta cidade de Bananeiras, Estado da Paraíba, onde presente se achava Luis Telésforo de Oliveira, escriturário, compareceu o dr.Clovis Bezerra Cavalcanti que exibiu uma portaria de sua nomeação para o cargo de Prefeito deste município, assinado pelo Exmo. Senhor Interventor Federal deste Estado, Desembargador Severino Montenegro. Presente neste ato o Exmo Senhor Doutor Mario Moacyr Porto, Juiz Eleitoral desta comarca, outras autoridades e pessoas gradas da sociedade local..

O registro acima, que consta do Livro de Ata de Posse dos Prefeitos do Município de Bananeiras aberto em 1º. de setembro de 1940, é o marco inicial da carreira política de dr.Clovis que, se vivo estivesse, completaria hoje cem anos de idade. Em já contei que quando ele completou cinqüenta anos, comemorou o “primeiro cinqüentenário” pois, como acreditava, completaria o segundo, a exemplo de sua avó, dona Dondon, que deixou a terra depois dos cem.

A sua permanência no cargo de prefeito durou até que foi trocado o interventor de plantão. O seu primo Odon Bezerra Cavalcanti, cento e treze dias depois, nomearia Henrique Lucena da Costa como novo prefeito.Seu substituto, Antonio Maia Neto, nomeado pelo Governador eleito Osvaldo Trigueiro de Albuquerque foi empossado pelo novo deputado Clovis Bezerra, no ato representando o Chefe do Executivo Estadual.O primeiro prefeito eleito da cidade, Major Augusto Bezerra Cavalcanti, pai do deputado, só tomaria posse em 15 de novembro de 1947.

Do seu primeiro mandato de deputado até o final de sua carreira política Clovis Bezerra conheceu apenas uma derrota pessoal quando ofereceu seu nome ao sacrifício, compondo a chapa de senador encabeçada por Aloísio Afonso Campos, fato descrito por Soares Madruga: “ Sem uma derrota pessoal, perde para suplente por convocação do seu partido.Para crescer ainda mais entre seus correligionários,pois se torna grande até na derrota”.
Fechou o ciclo de sua vida pública ocupando, como sucessor de Tarcisio Burity, o cargo de Governador da Paraíba.Como correligionário comemorei sua escolha para vice de Ernani Satyro em 1970. Quando foi novamente ungido à vice-governança, em 1978 eu já me encontrava em campo oposto e tinha nele meu principal adversário a quem dei o bom combate, sem nunca negar suas qualidades morais e cívicas. Quando voltei à Assembléia, eleito em 1982, era dr. Clovis o Governador deste Estado. O destino me deu hoje a oportunidade de promover, com a equipe de A União e o concurso intelectual de Gonzaga Rodrigues e Martinho Moreira Franco, uma justa homenagem a esse bananeirense de escol, publicando um caderno especial a respeito da sua vida e obra. O Município de Bananeiras pela sua prefeita Marta Eleonora Aragão Ramalho instituiu concurso literário para premiar trabalhos de estudantes sobre a vida do homenageado, na passagem do seu centenário de nascimento. Poder-se-ía indagar: e as querelas do passado, as rixas eleitorais e as mágoas encravadas foram sepultadas com a morte do ilustre adversário? Responderia como Ernani Satyro ao destacar as qualidades de um opositor post mortem: não é que a morte apague tudo, é que a vida é maior do que a morte...
 


O Banco do Severino

O Banco da Renata, do Antonio e da Maria é também o Banco do Severino. Pelo menos é o que diz a propaganda do Banco do Brasil. Vai ver que foi por isso, já naquele tempo, que Lampião, o Rei do Cangaço, ao entrar em uma agencia do banco para assaltá-lo, indagou de um gerente tremendo mais que vara verde:

-Aqui é o Banco do Brasil? O Banco de todos os brasileiros? Pois eu vim buscar a minha parte...

Na semana que passou levei três dias tentando tirar do banco a minha parte, ali depositada legalmente pelo Tesouro do Estado.Antes, por duas vezes, já fora vítima de ataques dos ratos virtuais que levaram dinheiro da minha conta para a deles.O dinheiro me devolveram logo, mas o que sofri para regularizar novamente meu acesso à internet merece registro. Nas muitas viagens que dei à minha agencia não encontrei quem soubesse fazer o serviço ou, se o fazia, era incompleto, o que me obrigava a voltar para concluir a tarefa. Até que um gerente mais atento me ouviu e restaurou minha ligação virtual com o banco fixando meus limites operacionais. As transferências e pagamentos acima disso, tornam impossível a operação.

Por isso levei três dias para pagar uma conta acima do meu limite. Poder-se-ía perguntar: e por que não passou um cheque? Isso, meus amigos se eu o tivesse. Mas o meu banco se nega a me dar um talão de cheques desde que o governo abriu uma conta para depositar meus proventos. E por que não tenho cheques? Vou explicar: em 1996 quando saí da Secretaria de Administração da Prefeitura de João Pessoa deixei inativa uma conta onde eram creditados meus subsídios de secretário e fiquei com um débito de cheque especial que nem tinha conhecimento.Chamado a pagar, o banco me concedeu um desconto nos juros, dentro das suas normas de negociação.Decorridos quinze anos, devido a esse acerto que me propuseram e aceitei pagando na forma acordada, virei ficha suja no Banco do Brasil, sem direito a talão de cheques. Resta-me, portanto, o internet banking ou a boca do caixa.

Busquei enfrentar as quilométricas filas para entrar na agencia e adquirir uma ficha de atendimento.Mesmo usando o estatuto do idoso, a tarefa se projetava por um longo dia de serviço.Como todo esforço tem sempre uma compensação, encontrei um gerente de muita boa vontade e com paciência para me ouvir e, finalmente, em Cruz das Armas, consegui liquidar meu debito. Foi a primeira vez que tive dificuldade em pagar uma conta tendo excesso de fundos...
 


A Rainha do Milho

Começam com as homenagens a Santo Antonio, prosseguem com São João e se encerram com o São Pedro. Mas há quem prolongue os festejos juninos e realize o “João Pedro”, celebrando os dois em um, fora das suas datas, quando as bandas de forró custam um pouco menos.


No tempo em que clube era chamado de sodalício eram nesses recintos freqüentados preferencialmente pelos sócios que os bailes se realizavam. Em junho, diante da fartura da canjica e da pamonha, a Rainha do Milho era prèviamente eleita. O romantismo imperava e a Rainha era celebrada como a verdadeira inspiradora da festa que incluíam ainda as “simpatias” e os afilhados consagrados ao redor da fogueira.


Pesquisando as páginas de A União, uma noticia vinda de Bananeiras me chamou a atenção. No inicio daquele mês de junho de 1942 o Bananeiras Clube elegera a sua Rainha do Milho e como madrinha do clube, fora recepcionada por um grupo destacado de sócios. A retribuição a esse gesto de carinho foi um almoço (que se chamava ágape) na residência da Rainha.A escolhida contava na ocasião com 23 anos e com a alegria que a caracteriza, hoje, aos 92 anos costuma presentear os filhos e amigos com quadros que pinta, ocupação que aprendeu na Organização das Voluntárias depois dos 80 anos. A Rainha do Milho de 1942, senhorita Azeneth Bezerra Cavalcanti viria a ser anos depois esposa de José Antonio Aragão e entre seus filhos, a segunda, Marta Eleonora, seria minha esposa aos 15 anos, vinte anos depois de sua futura mãe ter sido coroada Rainha do Milho.


Agora os festejos juninos ganham espaços públicos e reúnem multidões que se acotovelam ao som do forró, às vezes “de plástico” e às vezes “autêntico” se é que se pode adjetivar pois, para Alceu Valença, “forró é forró, o resto não é”! O evento virou investimento turístico e garantia de redutos eleitorais sedimentados por emendas parlamentares que já conquistaram notoriedade negativa.Quem ajuda na festa é louvado. Quem não destina recursos é execrado, e as celebrações se transformam em verdadeiras disputas políticas consumidas na fogueira das vaidades.


Com dificuldade e com ajuda federal negada em poucas horas, por ser a emenda de autoria de parlamentar fora da base aliada, Bananeiras realizou o Melhor São João Pé de Serra do Mundo, consagrado por Amazan e apresentando a genuína música regional.O Bananeiras Clube reabriu suas portas por algumas horas, durante o dia. No seu dancing lotado por uma juventude efervescente, não mais a imponência do passado quando mandava a Rainha do Milho. Na programação paralela mandou o Forró da Xêta enquanto nas ruas, os “paredões” eram silenciados em defesa do meio ambiente. Quem foi gostou e promete voltar no ano que vem.

 

ramalholeite@uol.com.br
 


Uma viagem complicada

Subindo no mapa do Brasil para o norte não encontrei qualquer dificuldade e o vôo foi rigorosamente cumprido em todos os seus horários de conexão e escalas. Estive em Belém do Pará participando da 47a. Reunião da Associação Brasileira de Imprensas Oficiais, que incluía a comemoração dos 120 anos do Diário Oficial do Pará. Regressar à Paraíba, porém, foi um verdadeiro martírio.


Uma névoa cobriu totalmente o aeroporto de São Paulo e conseguiu atrasar em quatro horas todos os vôos que dalí partiriam para qualquer parte do País. O meu retorno dependia, pois, da aeronave que viria de Manaus, com escalas em Santarém e finalmente Belém, onde consegui embarcar cinco horas depois do horário previsto.


Acometido de forte gripe e reclamando da vacina que tomei e nenhum efeito produziu, consegui me segurar todo esse tempo em cadeiras desconfortáveis e feitas para esperas inferiores a meia hora. Quando a medicação começou a me dar sono, eis que uma alma caridosa me cede uma poltrona e consigo um cochilo restaurador graças a uma ação providencial de minha companheira de viagem, a jornalista Bia Fernandes, penalizada com o meu sofrimento.


Todos acomodados, o comandante avisa que tem que zelar pela segurança dos seus passageiros e foi constatada a necessidade da substituição de um pneu do avião, tarefa já em execução e lamentavelmente, adicional sobre um atraso já insuportável. Quando sentimos que o boeing desceu do macaco, começamos a taxiar e finalmente voar.


Em Fortaleza nova espera para reabastecimento. Alguém grita lá do rabo do avião: agora vão trocar a bateria. Mesmo encolhido e me defendendo do frio intenso ainda respondi: desde que não nos chamem para empurrar esse bicho...
Na hora marcada para chegarmos ao Recife foi iniciado o vôo. Conexão para João Pessoa não existia mais, o que, já sabíamos desde a partida.A companhia desejava que voltássemos ao hotel e no dia seguinte, pegássemos outro vôo. Me recusei. Chegando em Recife estaria em casa. Providenciei um veiculo para, finalmente, chegar em casa pelas quatro e meia da manhã do domingo, Dia dos Namorados.


Precisando de repouso e sem o aconchego doméstico convidei minha namorada a vir me visitar e passamos o dia juntos. Eu na rede ela numa cadeira. Nem um beijo comemorativo pude lhe dar, para não passar o vírus. Bia Fernandes, que faz amizade com facilidade, ao sair do avião ainda foi se despedir do comandante e agradecer a excelência da viagem. Pode?
 


Arranjos Produtivos

Na plenária do Orçamento Democrático de Guarabira um conterrâneo me perguntou ao ouvido: que danado é isso que Ricardo tanto fala, esse tal de “arranjo produtivo”. A expressão de junta a tantas outras que têm mudado a linguagem que o povo começou a ouvir recentemente pela boca deste Governo nas suas pregações publicas. Inclusão social, Índice de Desenvolvimento Humano-IDH,Indicadores Sociais, Empoderamento do Povo são parâmetros de uma ação político-administrativa que, por seu freqüente uso, tem obrigado também o Chefe do Governo a usar e abusar da expressão: ou seja. É importante que todos entendam e o “ou seja” é a vírgula que ele usa.

Quando oferece colocar o povo do Poder, esse empoderamento vem condicionado a uma ação conjunta que permite ao povo reivindicar metas ao Governo e a um só tempo, fiscalizar seus gestores.Esses gestores, no âmbito municipal, terão apoio até financeiro do Estado mas precisam melhorar seus indicadores sociais, ou seja: melhorar os índices de alfabetização,diminuir o percentual da mortalidade infantil,cumprir as metas de vacinação ou eliminar o índice de repetência nas escolas.Firma-se um Pacto Social, diferentemente do pacto político dirigido somente a quem escreve na cartilha do governo. A gestão resultará na melhoria do IDH, pois, esse padrão, resulta justamente da medição dos índices sociais, incluído nele a renda per capita da população.

Mas o Governo faz o diagnóstico, dá o prognóstico e prescreve o remédio. No nosso interior some-se a aposentadoria rural com o bolsa família que se tem mais da metade do dinheiro circulante. Com os empregos públicos rareando e os quadros superlotados, resta botar a imaginação para funcionar. Aí surgem os “arranjos produtivos” que podem ser uma fabriqueta de picolé, um produtor de móveis rústicos ou o fabrico de tapioca. Não importa o ramo do negócio mas a vontade de crescer e melhorar seu produto. O remédio está posto em doses homeopáticas mas constantes. Trata-se do Empreender Paraiba, já com uma reserva financeira que permitirá garantir a geração de renda a centenas de paraibanos e um sucesso comprovado na Capital.

Quando fui Diretor de Crédito Rural do Banco do Nordeste me deparei com programa semelhante denominado Geração de Emprego e Renda. Em uma de minhas passagens pela presidência do Comitê de Credito chegou indeferido um projeto da Agencia de Solânea, contemplando cerca de trinta pequenos empreendedores que queriam fazer desde a fabricação de pastel à carroceria de caminhão. As normas tendiam a apoiar apenas a concentração do esforço coletivo em uma mesma atividade econômica. Como presidente eu decidia e resolvi pedir a audiência do ETENE o famoso escritório técnico que por muitos anos ditou os caminhos econômicos do nordeste. Minha inconformação foi acolhida e todos saíram ganhando. Certo dia me liga o gerente de Solanea:

- Diretor, hoje está vencendo um parcela daquele empréstimo coletivo.Todos pagaram.Faltou apenas um, pois está preso. A mulher dele esteve aqui no Banco e avisou que está vendendo uma vaquinha e vem pagar na segunda feira.

Conto esse fato para reforçar a minha tese de que o pobre é o melhor pagador de qualquer banco. Daí o sucesso do Empreender- empresta ao pequeno que pensa em crescer.Diferente do grande investidor que usa seu prestigio para tomar emprestado e tem as costas quentes para deixar de pagar. A Paraíba, portanto, está no caminho certo.
 


O Supremo chegou depois

 A polêmica nacional gerada pela decisão do Supremo Tribunal Federal reconhecendo a relação homo afetiva como união estável, gerando, portanto, direitos civis aos parceiros, chegou à Paraíba antes do Supremo. Devo dizer que o Rio Grande do Sul, por decisão judicial, já determinara ao INSS o reconhecimento de pensão ao primeiro homem que, comprovadamente, viveu longos anos em companhia de outro, partilhando angústias, alegrias e também afetos. É gaucho, portanto, o primeiro beneficiário de pensão vitalícia resultante de uma relação duradoura entre dois seres humanos do mesmo sexo.

Na Paraíba, uma mulher que mantinha vida em comum com outra, partilhando o mesmo teto, conta bancária, plano de saúde e sobretudo, afetuosidade, obteve a primeira pensão do Brasil concedida em razão do reconhecimento da união estável entre as duas. Nesse caso, não houve decisão judicial. Por analogia foi seguida a recomendação do INSS sobre o assunto e, como no âmbito do Regime Próprio de Previdência as normas do Regulamento Geral são
subsidiárias e não podem divergir uma da outra, foi deferido o pedido da pensão.

O fato foi amplamente noticiado em novembro de 2006. “Mulher ganha pensão por morte da companheira”. ..de acordo com o Presidente da PBPREV, Ramalho Leite, a decisão obedeceu a critérios legais e é inédita na Paraíba....as duas possuíam conta conjunta há 16 anos, residência sob o mesmo teto e comprovante do pagamento do plano de saúde..” a noticia do 14Horas News acrescenta que. em vida,(é claro) a segurada da PBPREV compareceu ao cartório mandando lavrar uma escritura de reconhecimento de união estável com sua companheira, comprovando, inclusive, a dependência econômica. O evento foi comemorado pela Organização Não Governamental Maria Quitéria que luta pelos direitos dos homossexuais e na ocasião, sua presidente, Adneusa Araújo, declarou “ É um ganho para o movimento e abre precedente para outras mulheres também fazerem a mesma reivindicação”.

Segundo os especialistas, um casal heterossexual tem cerca de 112 direitos que são negados a um casal homossexual e a união homo afetiva estável reconhecida pelo Estado, deve restringir apenas o direito ao casamento civil. Para eles o mais chocante é o direito à herança. O parceiro participa da formação patrimonial, acresce valores aos bens adquiridos em conjunto e com a morte de um deles, vem um parente, que virava a cara para não revelar o parentesco e leva tudo que o casal construiu.

A decisão do Supremo Tribunal Federal, com efeito vinculante, vai acabar com as decisões conflitantes e às vezes preconceituosas historicamente registradas neste Brasil continental. E mais uma vez, o STF supre a inércia ou falta de coragem do Congresso Nacional onde tramitam mais de vinte projetos relativos ao tema. Essa censura, porém, não se pode fazer à Paraíba nem ao ex-presidente da PBPREV, modéstia à parte,responsável pela atitude de vanguarda que antecipou em cinco anos a decisão do Supremo.

 


Quem matou o general?

Aproveitei o feriadão para ler a alentada pesquisa de Glauce Burity sobre a vida e obra de Antenor Navarro e os acontecimentos ao seu redor que culminaram com a revolução de outubro de 1930. Encantei-me com o trabalho e com o biografado, esse extraordinário paraibano desaparecido aos 33 anos,quando Interventor da Paraíba,vítima da queda de um avião em que também viajava José Américo (“ o mar me engoliu, o mar me vomitou”).


Alguns fatos fartamente documentados não são acompanhados pela opinião da autora.Ao que parece, seu objetivo foi deixar o leitor firmar a própria convicção diante dos documentos transcritos.


Um dos eventos mais controversos do Levante de 1930 foi a tomada de assalto do 22º.BC, hoje 15º.Batalhão de Infantaria Motorizada situado na Avenida Cruz das Armas. Para começar, alguns preferem dizer que nem assalto houve. O Tenente Agildo Barata que era o Oficial de Dia, aproveitando o silencio da madrugada facilitou a entrada dos revolucionários, indo encontrá-los na Praça Bela Vista. Os que viveram esses episódios preferem, porém, serem chamados de assaltantes, mesmo com a recomendação cautelar de evitar derramamento de sangue, o que não foi conseguido.A principal vitima do ataque foi o General Lavanère Wanderley que hoje é patrono da Praça em frente ao quartel. Sua morte, todavia, permanece ainda envolta em mistério e sem autor definitivo à vista dos depoimentos colhidos pela escritora Glauce Burity.


O Tenente Juracy Magalhães tem uma versão sobre a abordagem ao General diferente da narrativa de Agildo Barata. Primeiro Juracy, cearense aquartelado em João Pessoa:


“O general deixou seu reduto, que ficava na parte alta do prédio, e veio descendo as escadas com as mãos para cima. De repente, abaixou-se, como se fosse puxar uma arma, e nesse instante, num gesto de reflexo, Agildo fez fogo contra ele. Lavanère encolheu-se com um rictus de dor. A bala o atingira no flanco esquerdo. Ainda conseguiu descer os últimos degraus da escada, vendo que me aproximava dele, pediu:


-Tenente, me arranje uma cadeira que estou ferido.


O tenente Agildo Barata, por outro lado, atribui o desfecho trágico a um soldado desconhecido:


“O general se apresentou fardado, na porta do quartel(sic).(deve ser “porta do quarto onde dormia) Eu me dirigi a um dos meus auxiliares e determinei: leve o general para um dos carros estacionados aí em frente ao quartel e conduza-o ao “Buraquinho”(...) Enquanto eu estava preocupado em transmitir essa ordem,o general Wanderley visou-me e disparou, por duas vezes seu revolver.Os projetis, porém, não me atingiram.Mais tarde,um dos assaltantes me disse que fora ferido no braço por um desses disparos.Este (assaltante) depois de ferido,respondera ao fogo, alvejando também o general Wanderley.Este deixou cair no chão a sua arma(alias um revolver Colt,calibre 32) e eu me abaixei e peguei a arma.”


Há uma versão difundida pelos governistas de que o general teria sido ferido enquanto dormia, não havendo prova dessa afirmativa popularmente propagada pelos perrepistas.


Conta Agildo que vendo o general ferido, cancelou a ordem de recolhê-lo ao “Buraquinho” isto é, à mata do Buraquinho onde Antenor Navarro, diretor do Serviço de Água e Saneamento havia improvisado um prisão para os militares fieis a Washington Luis. O tenente rebelado, como se lê nas suas memórias, além de negar a autoria do disparo contra o general Lavanère Wanderley, faz deboche com os paraibanos civis que arriscaram suas vidas nessa empreitada cívica. E conta :


“As reservas de energia e coragem que souberam conservar até então abandonaram os meus companheiros civis e um começo de pânico fê-los bater em retirada. Alguns só foram tomar fôlego depois de chegar no centro da cidade, distante alguns quilômetros do quartel.


Das duas dezenas de assaltantes só permaneceram ao meu lado uns 6 ou 7 companheiros.Lembro-me que “agüentaram a mão” os seguintes; Artur Sobreira, Antenor Navarro,Basileu Gomes, Borja Peregrino,Francisco Cicero, Odom Bezerra e Caetano.


O desfecho feliz da tomada da cidadela militar foi comemorada em toda a capital da Paraíba, àquela altura já denominada João Pessoa. Conta Glauce Burity que as comemorações foram acompanhadas por gritos de nós vencemos, é revolução.Se alguma dúvida havia, tocaram a sirene do jornal A União, anunciando a vitória da revolução.
 


A marca dos cem dias

Talvez devêssemos começar pela origem dessa tradição de um governo mostrar nos primeiros cem dias, a sua própria marca. Ironicamente, a remissão aos cem dias nasceu da crônica de uma derrota. Napoleão Bonaparte foge da Ilha de Elba e retoma o poder na França levando Luiz XVIII à fuga e ao abandono do Trono. Com a adesão das forças que foram ao seu encontro para combatê-lo, Napoleão se mantém à frente do País por pouco mais de cem dias, até ser derrotado em Waterloo.É o fim do Império Napoleônico.

Os americanos e sempre eles, adotaram a idéia de avaliar os governos nos primeiros cem dias. Frankin Delano Roosevel iniciou a comemoração jactando-se do extraordinário feito de aprovar quinze projetos de envergadura em meio à Grande Depressão que afetou a economia dos EE.UU e contaminou o mundo. A partir de então, a mídia não tem deixado em paz os novos governantes, exigindo um balanço de suas atividades nos primeiros cem dias de gestão.

Quando um Governo sucede a ele mesmo, a marca dos cem dias passa desapercebida. Uns poucos ajustes e uma correção de metas satisfaz a curiosidade midiática. Quando a sucessão ocorre entre companheiros de uma mesma família partidária, as alterações são feitas mas dificilmente são explicados os motivos que as originaram. Trata-se de uma continuidade pacífica que não afeta nem mesmo os índices de popularidade do sucessor, beneficiário de um acervo de realizações que alicerçaram sua própria ascensão.

Na Paraíba estamos diante de um quadro diferenciado. O antecessor extrapolou todos os limites do bom senso na busca de uma vitória que não ocorreu. O tempo que teria para consertar seus próprios erros foi negado pelo eleitorado. Coube ao sucessor a tarefa de realinhar os atos de gestão e buscar o equilíbrio necessário para alicerçar um trabalho consciente na direção do futuro.

Nesse período, reina espécie de “quarentena”, quando a oposição garante uma trégua ao governo que se inicia. Até isso foi negado ao atual governo. As primeiras medidas alcançaram privilégios irrenunciáveis. Quem deveria se penitenciar, passou a cobrar. A ação negativa do passado virou responsabilidade do presente. Se passou a exigir do atual governante o cumprimento de promessas que não fez. As dificuldades foram enfrentadas e as medidas restritivas impactadas dificilmente o seriam depois dessa quadra simbólica.

Os cem dias servem sem dúvida para a fixação do perfil de um novo governo. O Governador Ricardo Coutinho já disse a que veio. Veio para mudar e essas mudanças foram anunciadas amplamente durante o período do debate eleitoral. Está cumprindo o que prometeu. A ninguém será dado o direito de dizer que foi enganado. Obstáculos foram feitos para serem vencidos e ele, obstinado como é, vencerá a todos. Ao completar os primeiros cem dias, o novo governo da Paraíba faz um balanço positivo de suas ações e anuncia metas que, sem dúvida, respondem à confiança dos paraibanos.
 


A que ponto chegamos

A meu sentir, como dizem as vestais de preto lá do Supremo, a tentativa de colocar ao redor de uma mesma mesa os representantes da Paraíba no Congresso para discutir prioridades e encaminhar soluções, era para valer. O esforço do jovem deputado Ruy Carneiro parecia a reencarnação de um seu ancestral homônimo, coerente sempre nas suas posições mas desnudado das suas vestes partidárias quando falava mais alto o interesse da Paraiba de todos nós. Até por isso, a iniciativa mereceria mais respeito e acatamento.


Pensei que chegara a Brasilia o aceno do Governador Ricardo Coutinho na direção de unir forças antagônicas na direção do interesse publico, chamando gestores municipais de todos os matizes para dividir a responsabilidade de alguns programas que beneficiam os que mais precisam. Mas estávamos todos enganados, há quem ainda prefira respirar o ódio ou perder-se em detalhes menores que só fazem diminuir a atividade política.


Prevaleceu a “oposição predatória” batizada por outro menudo congressual, o deputado Efraim Filho. Alguns parlamentares perderam-se em detalhes que só a vaidade humana explica, já que Freud não os conhece, para deixar de participar da convocada união em favor da Paraíba. Foram inúteis os elogios antecipados e perdidos os festejados encômios.


Por esta e outras é que a cada dia diminui o conceito da atividade política na sociedade contemporânea. A política virou uma atividade degradante e a cada dia os verdadeiros vocacionados se afastam dando lugar a uma representação que para tristeza nossa, mantém uma distancia abismal com seus representados. A regra não é imutável. Não custa repetir o lugar comum: em toda regra tem exceção e graças a essas exceções, o Brasil pode testemunhar com lágrimas a partida desse guerreiro José Alencar, exemplo de homem publico a ser seguido.


A classe política tem que se espelhar nos bons exemplos e reagir para recuperar a credibilidade do sistema republicano. Não são as leis, por mais severas que sejam, os únicos veículos na condução desse norte. Talvez a reedição do artigo único da Constituição de Capistrano de Abreu fosse o remédio:” toda brasileiro é obrigado a ter vergonha”.


Por falar em vergonha, corei diante da televisão. Bruna Surfistinha, a garota de programa que virou filme, quando indagada se tivera entre seus clientes algum político, respondeu na bucha: Político não, graças a Deus... A que ponto chegamos!