“Governo é prá sofrer...”

A Paraíba em um passado recente tinha o seu cenário político povoado por algumas figuras populares que freqüentavam não somente as solenidade oficiais, como a própria sede do Governo, tornando suas presenças, às vezes incômodas, impostas ao ambiente.


Carbureto, made in Campina, invenção dos gaudêncios, reinou no período de Ernani Satyro, convivendo em desarmonia com Caixa D’Água, o poeta de “minha mãe se abruma” e Mocidade, mais inteligente que todos, orador inflamado, herdado de João Agripino que nutria por ele uma forte simpatia. Essa predileção por Mocidade levou-o a permitir sua hospedagem nos fundos da residência oficial, no final do Cabo Branco. Além disso recebia uma pensão mensal paga pela Loteria do Estado.Mesmo assim, Mocidade era assíduo e contundente nas manifestações contra o Governo. Chamado pelo Governador, injuriado com o seu ingrato procedimento, apenas justificou:


-João, governo é prá sofrer mesmo!


E parlamentar governista também. Aplauso fácil se consegue na oposição. Mas há quem pense que ser governo é só auferir vantagens. Colhe o bônus mas não aceita enfrentar o ônus de ser governista nas horas difíceis.


Quando era Lider do Governo enfrentei inúmeros movimentos populares que ecoavam na Assembleia, perturbando as sessões com a presença de manifestantes nem sempre bem comportados. A vaia era o instrumento menos agressivo utilizado. Da tribuna enfrentava a turba sem receio. Era minha obrigação como deputado governista sustentar as teses emanadas do governo. Certa feita, servidores públicos invadiram o plenário ultrapassando a barreira da segurança. Ficamos vulneráveis a qualquer manifestação mais violenta. Carlos Dunga me chamou a um canto de parede e me advertiu:


-Você como líder é o alvo desse pessoal. Tá armado? Respondi que não.


Então, ele e Pedro Medeiros passaram a me dar segurança. Sob as vaias de professores em greve,olhei para as galerias e desafiei:


-Essas vaias não devem partir de professores. Os mestres são educados e passam boas lições aos seus alunos. Essa gente que grita e esperneia deve ter sido recrutada em redutos menos respeitáveis que a sala de aula.
A gritaria aumentou. Nem eu ou qualquer membro da bancada governista mudamos de posição pressionados pelo histerismo da manifestação.


Hoje ainda há parlamentares que se mantêm conscientes do seu papel. Sejam governo ou oposição. Mas há também quem quebre os compromissos ao menor ruído contestatório das galerias. Estes falam com um olho na plateia e outro na câmera de TV. Basta que o apupo lhe alcance, ele muda o voto e sela compromisso com a torcida organizada. Conheci um, que dele se dizia: é fraco indo e voltando...

 


A história da imprensa*

 Conheci Zé Octávio no início de sua vida universitária utilizando as páginas da Tribuna do Povo, composta na única linotipo plantada na Duque de Caxias dos anos 1960. Eu estudava no Liceu e incursionava pela política estudantil, ele ainda aprendia na universidade onde um dia iria ensinar.


Aliás, José Octávio de Arruda Mello foi professor não apenas de nossa Universidade Federal, mas também da Universidade Federal de Pernambuco. Aposentado das UFPB e UEPB, leciona ainda no UNIPÊ. Escolheu a História para, através dela, explicar os fatos e a evolução da sociedade. Na missão fez-se Mestre e Doutor, sendo que os livros que publicou demonstraram, à saciedade, que escolheu o caminho certo. Daí merecer o respeitoso acatamento dos Institutos Históricos e Geográficos Brasileiro e Paraibano, bem como das Academia Paraibana de Letras e Associação Paraibana de Imprensa. Nesta última fincou as raízes do jornalista que nunca deixou de ser.


Este seu trabalho pretende homenagear a mídia paraibana na passagem do Dia da Imprensa e recebeu o título de História da História da Imprensa na Paraíba. É um dos ensaios mais curtos produzidos por quem, desde a era do rádio, tinha os longos comentários lidos na Rádio Arapuan pelo irmão Otinaldo Lourenço e ironicamente batizados de “ampla síntese”.


Começa ele por explicar que todos os fenômenos da sociedade comportam duas linhas de abordagem. Não seria diferente com a Imprensa, também objeto da História e da Historiografia, uma representando as formas de que se reveste – jornal, rádio, TV – bem como seus veículos, e a outra “a versão do fato histórico” na visão de analistas e autores, tomando como cenário os diferentes momentos da História.


A História da Imprensa paraibana é obra de poucos pesquisadores. Patrono de cadeira na Academia Paraibana de Letras, Alcides Bezerra, meu conterrâneo de Bananeiras, foi o pioneiro com “A Imprensa na Parahyba”, divulgado na Revista do IHGP de número 5, datado de 20 de maio de 1920. Mais modernamente, vêm Eduardo Martins e Fátima Araújo, para ficar apenas nos que se dedicaram com mais afinco a contar o nascimento e a morte de jornais e revistas que circularam na terra tabajarina, do Império à República, chegando aos dias atuais.


O autor também registra os trabalhos voltados para a História do Rádio e o seu papel ideológico, traço marcante da Imprensa do passado, dividida entre conservadores e liberais até se chegar às Rádios Comunitárias que ocupam as ondas de frequência modulada, em nosso interior.


Todos os historiadores são unânimes em apontar a Gazeta do Governo da Paraíba do Norte, de 1826, como o primeiro periódico de nosso Estado. A União, o mais antigo em circulação, data de 1893 e pertenceu originalmente ao Partido Republicano. Sobre o assunto há um questionamento até hoje não explicado: como um jornal partidário tornou-se propriedade do Estado? – Para o historiador Marcus Odilon, o tema virou “segredo de confessionário”, mas se afirmava, à época, que Álvaro Machado ou seu partido, que se confundia com o Governo, teria recebido uma “indenização polpuda”. Fátima Araújo, porém, credita a versão às más línguas, pois o fato nunca ficou provado.


O certo é que A União que no dizer de Odilon Ribeiro foi a “nau capitânea” que orientou a mídia na Paraíba durante muitos anos, é grande formadora de jornalistas. Para ele, porém, um jornal suspeito, pois sempre atrelado às instâncias do poder. Retirar a chapa branca de A União tem sido missão difícil mas não impossível. Quando, todavia, os interesses comerciais falam mais alto nas páginas das empresas jornalísticas e cada vez mais a ética se confunde com o caixa, vislumbro uma vantagem no jornal oficial: é do Governo e não nega.


Há uma lacuna no trabalho de Zé Octávio, talvez porque ainda não tenha sido escrita. A ação dos órgãos oficiais ou oficiosos, na censura à Imprensa. A censura interna, voltada para os interesses financeiros das empresas e a censura externa, acionada sempre nos períodos de exceção. Falta contar a história dos jornais e jornalistas perseguidos na Paraíba, seja no período de Estado Novo ou no tempo dos generais pós 64. A história da censura à Imprensa na Paraíba “resta por ser feita”, como diria Alcides Bezerra.


Fica a sugestão para o competente José Octávio de Arruda Mello, historiador oficial apenas para a língua irônica e impiedosa que todos conhecemos.


No essencial, J. O. é um revisionista que se esforçou em introduzir na Paraíba cientistas sociais como Vicente Licínio Cardoso, José Honório Rodrigues, Nelson Werneck Sodré, Geraldo Ireneo Joffily e Gabriel Bittencourt. É deles que uma vez mais se vale para composição das páginas que se seguem.


*Prefácio do livro “A História da História da Imprensa na Paraíba”


Pobre também "Avôa"

A democratização da venda de passagens aéreas tem feito a festa de uma faixa da população que sempre utilizou o transporte terrestre. Promoções via internet garantem o acesso de quem olhava para um avião como quem olha o céu no desejo de alcançar uma graça.Não precisa o IBGE para se constatar que agora pobre também “avôa”...
Nunca na história deste País se viajou tanto de avião, diria Lula, chamando para sua sardinha a preferência dos mais pobres pela condução a jato. Para ele foi o surgimento de uma nova classe média, recheada por distribuição de renda mais justa, que proporcionou status de viajante aéreo aos assalariados. As facilidades creditícias reservam poltronas para quem sempre sofreu mais de três dias para alcançar o sul maravilha.

Uma tarde dessas aguardava a chegada de um vôo no Castro Pinto e me assustei quando vi uma multidão se deslocar para a vidraça da estação de passageiros. Parecia a chegada do trem com os passageiros subindo a Barão de Triunfo em direção ao Ponto Cem Reis. Corri também. Era uma aeronave que pousava e todos queriam assistir à descida dos parentes.Foi uma festa.

Antigamente avião era coisa de gente sofisticada. A indumentária do homem era o paletó e a gravata. A mulher escolhia seu melhor traje para viajar. Agora, nem os Congressistas que pegam avião na terça pela manhã para iniciar sua semana de três dias em Brasília botam uma gravata. Vestem a roupa protocolar em seus gabinetes, pois, nos dias atuais, não é muito conveniente que sejam identificados entre gente comum. Usar o broche da Casa a que servem, nem pensar...

Está no avião? Pode olhar de lado que você vai encontrar na poltrona vizinha gente de bermuda e de sandálias. Felizmente foi proibido fumar, pois cigarro de palha é um bicho muito fedorento desde os tempos de Ageu de Castro, deputado de Pombal e usuário de um pé-de-fumo dos fortes. Conta-se que, o condutor de um ônibus o advertiu e lhe mostrou uma placa que dizia ser proibido fumar cigarro de palha, ao que, retrucou:
-Se fosse para obedecer a placa, eu vinha tomando Coca-cola desde Pombal...

O certo é que a viagem de avião banalizou-se. Com pouco dinheiro e nome limpo no Serasa se viaja o mundo todo por poucos dias e muitos meses para pagar. Já se inventou até um pacote para idosos fazer turismo, relaxar e gozar... Ninguém se admire se em breve forem reservadas poltronas para os beneficiários do bolsa- família. Afinal, esse é um País de todos...
 


Novo Estilo

Quando cheguei ao Sesc de Guarabira e me deparei com os prefeitos da oposição e da situação, em um mesmo evento, fosse eu um estranho pensaria que se tratava de uma reunião da Justiça Eleitoral. Todavia, a convocação fora feita pelo Governo do Estado para que os prefeitos assinassem os convênios selecionados pelo Pacto da Solidariedade na área da educação e da saúde. A alegria estampada no rosto dos edis revelava o entusiasmo de todos pela participação no montante de quase cinqüenta milhões colocado à disposição dos municípios, independentemente de cor partidária.


Novas salas de aulas a serem construídas e inúmeras reformadas, hospitais melhorados fisicamente e em equipamentos, foram projetos contemplados pelo Estado nesse nascente regime de parceria. O Estado dá o dinheiro, o Município melhora os índices sociais. A contrapartida, negociada caso a caso, envolve desde a diminuição do numero de analfabetos à redução da mortalidade infantil e, ainda, o incremento das matrículas de crianças nas creches e no ensino infantil.


Quem chegou à mesa de negociação não foi trazido pelo número de votos, pela legenda partidária ou por influência de amizade palaciana. Um edital foi baixado e quem preencheu as condições estabelecidas, foi aprovado. Quem não acreditou, por razões meramente políticas, ficou de fora e prejudicou a própria cidade e seus munícipes.
Sem dúvida a Paraíba vive novo estilo administrativo.Quem estranhar, não pode, porém, reclamar. Tudo que está sendo feito foi amplamente anunciado em palanque.Quem se surpreende é porque pensava que o prometido não haveria de ser cumprido.


Há bem pouco tempo lembro que Bananeiras, premiado pelo Unicef pela segunda vez com o selo de Município Aprovado, recebeu do Governo do Estado uma ambulância de presente, pela conquista da comenda, fato que ocorreu com outros vinte municípios. O convênio foi assinado e publicado mas não foi honrado,mesmo com recurso à Justiça, pois mudara o “inquilino” do Palácio.Ainda por se socorrer da Justiça, o Município evitou que fossem retiradas as máquinas de costura que servem a mães do Bolsa Família que, ao constituírem renda própria, são capacitadas a deixar o programa federal.


As centenas de ônibus que desfilaram nesta capital e destinadas ao transporte escolar, contemplaram até duplamente algumas cidades, mas nenhum chegou a Bananeiras, apenas por que a prefeita não rezava pela cartilha do Palácio. Uma ordem firmada pelo próprio governador foi dada ao deputado Tiao Gomes, em vão.O fato do município ter dois terços da sua população na zona rural e transportar cerca de dois mil e quinhentos alunos diariamente para as salas de aulas localizadas na sua sede, e nos distritos, de nada adiantou.


Dentro do estilo de chamamento por edital para apresentação de projetos, agora adotado na Paraiba, Bananeiras adquiriu do Governo Federal três novos ônibus escolares e cerca de mil e quinhentas carteiras e mesas para professor. Duas unidades de saúde serão construídas, uma cozinha comunitária, uma nova creche para 220 crianças beneficiando áreas de assentamento rural e uma estação de inclusão digital - só para lembrar ações em andamento. Não custa recordar que o deputado sufragado pela prefeita é da oposição e o seu senador foi depurado. Até o presente não assumiu o mandato.


Encontrei também no evento, prefeitos que em passado recente foram obrigados a devolver ambulâncias que estavam cedidas pelo Estado e que, mudando a orientação partidária do Governo do Estado, passaram à oposição, a exemplo de Serraria.


No brejo, o novo estilo de transferir recursos aos municípios contemplou Solânea, Belém, Borborema, Cacimba de Dentro e outros de filiação oposicionista.Conversei com todos e pude sentir que a satisfação pela assinatura de convênios carregava também uma grande surpresa. Nunca pensaram que o beneficio chegaria aos seus munícipes, apesar de sua declarada posição política. Voltaram para casa com a certeza de que a Paraíba está mudando.


NOVO ESTILO

O flagrante do recente encontro da presidente Dilma Rousseff com o governador Ricardo Coutinho e auxiliares revela um novo estilo. O comum, nas fotos que visualizei no passado, era uma pose para fotógrafo com o gestor estadual na cadeira de visita e o nacional imponente por trás de uma sisuda mesa. Quando muito, ambos sentados em um sofá de canto de parece da ampla sala presidencial trocando sorrisos convencionais.

O presidente sentado à cabeceira com ministros ao seu lado esquerdo, tendo o governador à direita, acompanhado de auxiliares, foi a primeira vez. O inédito posicionamento dos responsáveis pelo destino do nosso estado e do país, acomodados para ouvir os problemas da pequenina Paraíba e encaminhar soluções satisfatórias, revela a atitude de quem leva projetos sérios para serem executados e a acolhida atenciosa de quem tem poderes e meios de provê-los.

Um encontro com o chefe da nação é evento que se reveste de inúmeros protocolos a começar por espaço na agenda. Os temas a serem debatidos são enviados com antecedência e os integrantes da reunião previamente acordados. A não ser quando a Presidência abre suas portas para cumprimentos de fim-de-ano, por exemplo, a entrada é quase franca, pois é aberta para parlamentares e membros de outros poderes, sem exceção.

Quando o governador Tarcisio Burity resolveu apresentar João Agripino Neto como candidato à sua sucessão, solicitou audiência ao presidente Collor levando o candidato a tiracolo e me convidou para acompanhá-lo, na qualidade de líder do governo na Assembleia,detalhe que não avisou ao protocolo do Palácio do Planalto. Um oficial da marinha, delicadamente, me comunicou a impossibilidade da minha presença na audiência,fato que Burity nem tomou conhecimento pois já entrara na sala presidencial. Fiquei fora do encontro, e Collor, pouco tempo depois, ficou fora do Palácio, mas essa é outra história.

Lembro esse acontecimento distante para estranhar a reclamação pelo fato da bancada federal não ter sido convidada para essa reunião de trabalho com a Presidenta. Ora, o encontro era para detalhar projetos que não estavam na pauta do Congresso, daí por que, sendo uma reunião exclusivamente técnica, dispensável a presença da nossa aguerrida bancada, segundo entendo. Já estive certa feita com um presidente, integrando a nossa bancada no Parlamento. O encontro fora solicitado pela bancada.

No caso atual, não competia, pois, ao Chefe do Executivo Estadual ampliar a composição dos integrantes da reunião, competência que viria a ferir as rígidas normas protocolares. A bancada, pela sua liderança pode muito bem solicitar encontro com a Presidenta para discutir os problemas que afligem a Paraíba. Seria um reforço na direção do atendimento aos pleitos em tramitação nas esferas ministeriais. Nada impede essa ação solidária e complementar.

Essa a minha visão desse auspicioso encontro entre equipes dos governos estadual e federal em Brasília cujos resultados foram amplamente noticiados. Reclamar por não haver participado do encontro, não fica bem na fita nem vai melhorar a foto...
 


O Primo Pobre

Desde o Brasil Colônia que a Capitania de Pernambuco, sendo na região o centro da conquista portuguesa, desempenhou papel de ascendência sobre a capitania da Paraíba chegando até a anexá-la após ter sido arrasada durante a ocupação holandesa. Pelo Porto do Recife, mais bem equipado, escoava toda a produção do açúcar paraibano, mesmo contrariando duas Cartas Régias que mandavam que a Paraíba comercializasse diretamente com a Coroa Portuguesa pois aqui tínhamos nossos ancoradouros que, já naquele tempo, se queixavam da falta de navios.

A Paraíba era explorada duplamente, pela Coroa e pelos comerciantes do Recife. Segundo Horácio de Almeida, “no ano em que a Paraíba se fundou(1585) Pernambuco já ostentava uma vida faustosa em sua nascente sociedade”.

Os paraibanos sempre expressaram sua insatisfação com a influencia do vizinho do sul o que provocava até a falta de moeda, atribuída, segundo Elisa Regis de Oliveira, ao fluxo comercial com Pernambuco, onde os paraibanos adquiriam seus mantimentos. Estudo de Wilson Seixas aponta os próprios comerciantes paraibanos como rebeldes ao cumprimento da Carta Régia que os mandava comercializar diretamente com Lisboa.

Na época, acreditava-se no desejo de expansão de Pernambuco sobre seus vizinhos, o que não se pode creditar nos tempos atuais. A rivalidade entre os dois estados, todavia, chegou à era republicana.

Um estudo de Fabio Santa Cruz, da Universidade de Goiás, analisa a rivalidade entre Pernambuco e Paraíba sempre com esta ultima em situação de inferioridade, o primo pobre. Destaca, porém, que na década de 1920, por contar com políticos como Epitácio Pessoa, José Américo de Almeida e o próprio João Pessoa, houve um combate aberto contra a influência de Pernambuco entre nós.

O salto desenvolvimentista de Pernambuco nos últimos anos, deveu-se sem dúvida ao seu filho mais ilustre, o Presidente Lula, que carreou para seu território além de outros benefícios, a Hemobrás, uma Refinaria de Petróleo e agora uma fábrica da Fiat, cujos estudos de localização já se processavam há alguns anos e, para felicidade nossa, ficará mais próximo de nós do que do Recife.

Lembro-me bem que participei no ano de 1994 de uma reunião no Palácio das Princesas com dirigentes do Banco do Nordeste, reivindicada pelo Governador Joaquim Francisco que reclamava o fato de a Paraíba estar acima de Pernambuco no percentual de aplicação de recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste. Apenas por que tem um paraibano na diretoria do Banco? Indagava. O diretor era eu, mas me fiz de desentendido. Hoje, Pernambuco ostenta a segunda posição em aplicações do FNE, empatando com o Ceará e perdendo somente para a Bahia conforme o Plano de Aplicação/2011. A Paraíba está na sexta colocação talvez pela ausência de um paraibano na diretoria do BNB...

Todo esse nariz de cera vem a propósito do barulho que fazem alguns jornalistas e políticos paraibanos pelo fato do Governador Ricardo Coutinho haver comemorado a instalação de uma fábrica em Goiania, com benefícios evidentes para cerca de doze municípios paraibanos no entorno do empreendimento industrial. Queriam uma reação do atual governante, diante de um fato consumado antes mesmo dele ser o governador da Paraíba. Chegam ao exagero de defini-lo como um Marques de Pombal moderno, interessado em anexar a Paraíba ao vizinho estado. Um absurdo!.

Por outro lado, o fato nos leva a refletir sobre outro tema em debate no momento nos fóruns privilegiados onde freqüentam alguns pescadores de águas turvas. Um grupo empresarial ofereceu ao Estado um terreno em troca de outro, onde edificaria um Shopping Center, cobrindo a diferença que resultasse na avaliação feita por entidades acreditadas. O assunto só falta ser criminalizado, mas a invocação do Ministério Público é feita diariamente e já houve até recurso frustrado à Justiça.Nao se trata de doação, mas de uma permuta que não resultará jamais em prejuízo ao erário.

Enquanto isso, atravessando a nossa fronteira sul, o Governo de Pernambuco desapropria o terreno, anuncia investimento de 175 milhões para prepará-lo e entregar, gratuitamente, à Fiat, para que nele seja construída a fábrica de automóveis, pista de prova e outros equipamentos indispensáveis, o que resultará, afinal, em cerca de 4,5 mil empregos diretos e 50 mil indiretos entre os quais, sem duvida, milhares de paraibanos. Esse terreno mede 14 milhões de metros quadrados e nenhum político ou jornalista Pernambuco imaginou a hipótese de se abrir uma licitação para a concretização da obra. Enquanto lá se festeja um empreendimento que vai gerar emprego e renda, aqui se deplora e se combate a tentativa de uma ação de menor porte, mas com igual objetivo. A briga política aqui prevalece sobre o interesse publico.

É por essas e outras razões que a Paraíba vai continuar por muito tempo ainda sendo o primo pobre de Pernambuco.
 

 


O Tião da Peste

Fui convidado por Tião Lucena para fazer uma rápida apresentação do seu livro, Peste e Cobiça, perante o público que deverá acudir ao convite da Pousada da Estação, em Bananeiras, onde ocorrerá noite de autógrafos da sua obra. Para me desincumbir da missão mergulhei na cidade de Princesa do início do século vinte e fui me deliciando
com os personagens: o coronel, o juiz, o promotor, o vigário e o delegado que servia a todos eles. Prefeito não tinha, pois, ainda Vila, facultava ao Coronel acumular a função, inclusive, por que “tinha dinheiro e vontade de ganhar mais” e não permitiria jamais dividir seu poder com quem quer que fosse. Os jagunços estavam ali para garantir isso.


Enquanto o poder local girava em torno dessas autoridades maiores, a Vila era dizimada pela peste bubônica sem cura e sem remédio que minorasse o sofrimento de quem  morria “vomitando sangue e cagando podre”. Nesse cenário, a chegada de um médico funcionaria como um presente divino. Seria ele entronizado em um altar se não ousasse casar com uma jovem da sociedade local que para todos era “ver com os olhos e lamber com a testa”, menos para o delegado que pretendia fazer dela sua esposa, mas encontrou uma barreira na vontade do pai da  moça ... Entre o delegado e o médico, preferiu o ultimo para genro.


Jurando vingança, o delegado nunca se rendeu ã humilhação de ser preterido.Com a cumplicidade do padre, cuja missão era “agradar o poder terreno com desvelo celestial” passou a costurar sua vingança.


Acostumado a ler as irreverências de Tião “Medonho” no seu blog com milhões de visitantes, surpreendi-me com a narrativa e a inventiva com que presenteia seus leitores.Sem perder o jeito do repórter que sempre foi, o escritor mistura fatos verdadeiros com outros produzidos pela sua mente, dentro do critério proclamado na sua página virtual: “eu aumento mas não amamento”. É importante ressaltar que no livro o autor não abandona a linguagem aberta e verdadeira que conquistou adeptos através da internet. Não há subterfúgios ou metáforas. Por vezes exagera, como ao descrever as indulgências ou as delícias do paraíso oferecidas pelo pároco aos que acatassem o aumento de cem por cento do dízimo da sua igreja. A forma de dizer, porém, reveste a narrativa de um toque de humor inofensivo que nem a instituição vai reclamar.


Convém lembrar que, como contraponto à ausência de moral do Padre Pita, antes Princesa recebera as bênçãos e os benefícios da caridade de Padre Ibiapina que na seca de 77 aportou na vila e ouviu de um cristão à morte: “Filho, conte seus pecados/Padre eu quero comer”... e morreu!


O poder do coronel Jobilino está assim constituído: “mandava e desmandava,fazia e desfazia,casava e batizava, matava e mandava enterrar,desmanchava casamento e consolava viúvas.Desde o século 19 tomara conta de Princesa e debaixo do seu chicote todos pediam a benção.Quem mijasse fora do caco tomava o bonde errado para o resto da vida.”


Uma história de poder sem limites, amor não correspondido e outros correspondidos demais,vingança desmedida e outra frustrada pela astúcia, cujo final eu não conto, pois se eu contar aqui, Tião vai deixar de vender o livro.

 


Uma viagem improvisada

Quando durmo em Bananeiras e perco o sono, começo a contar aviões.Sim, porque aqui a minha insônia é chic.Eu não conto carneirinhos, como todo mundo. Acima do meu teto as aeronaves que se dirigem a Natal começam seus procedimentos de descida e as ouço muito bem para contá-las até o dia amanhecer. Indo dormir cedo no domingo, a minha madrugada foi assim. Deu para me lembrar, também, de uma viagem improvisada mas com final feliz, que fiz há alguns anos, de avião.

Era uma segunda-feira já tarde da noite quando batem à minha porta, em Fortaleza. Ao abrí-la deparei-me com o deputado Roberto Burity e o empresário Darcy Souza, sobrinho da deputada Chica Motta. (soube que foi operada e passa bem, graças!) Os dois se dizendo enviados do deputado Valdecir Amorim, nosso amigo comum, estavam alí para me levar ao interior do Piauí, onde ele me esperava com um grupo de investidores. Eram gaúchos interessados em comprar terra e plantar soja na área, precisando do apoio do Banco do Nordeste. Justifiquei que na terça-feira teria reunião de diretoria, não podendo me ausentar. Foi em vão. Resolvi minha presença com um substituto e parti para a aventura, já que o avião que fretaram estava no aeroporto à minha espera.

Até passarmos pela estátua do Padre Cicero e reabastecer o pequeno avião em Juazeiro, não houve problema de comunicação. As rádios do Ceará serviam de guia e orientavam o rumo a seguir. A partir de então, verifiquei que o piloto e seu co-piloto discutiam o rumo em uma mapa que abriram sobre as pernas. Meus companheiros de viagem dormiam como anjos depois de uma noitada no Piratas, único point a funcionar na noite de segunda -feira na terra de Iracema. Eu sofria o ar com pouca refrigeração e o medo de avião, que não me larga, confesso.

A adrenalina subiu alto quando constatei que a carta geográfica usada era da Revista Quatro Rodas, mais indicada para localizar estradas e hotéis.Um linha fora traçada em lápis tinta por sobre o mapa e terminava na cidade de Bom Jesus, nosso destino. Ponderei minha estranheza com o fato e reclamei ainda mais quando pela conversa dos dois, entendi que uma dava aula ao outro:

- Meu amigo, deixe para ensinar pilotagem a esse rapaz outro dia e em outra viagem.Principalmente, quando eu não estiver no seu avião! Disse, assustado.

O piloto compreendeu meu receio e explicou que o mapa era um bom indicador e funcionava a contento. Aguarde e vera, asseverou.

Tinha razão o comandante. Depois de umas duas horas de vôo avistamos as cabeceiras da pista de pouso onde lá embaixo, Valdecir me aguardava cercado por uns cem gaúchos desejosos de se fixar no Vale do Rio Gurguéia.
Um churrasco no estilo dos pampas estava sendo preparado e o pessoal técnico do BNB, também acionado, estava a postos para ouvir as pretensões dos gaúchos.

Sai da diretoria de credito rural do BNB em 1995. Soube alguns anos depois que os gaúchos levados por Valdecir Amorim ao Piaui compraram cerca de 90 mil hectares de terra e fincaram suas raízes no Vale plantando soja e desenvolvendo a agricultura regional.

Avaliei depois que a insistência de Valdecir em me levar ao seu encontro era para provar aos seus convidados que tinha prestigio junto ao Banco do Nordeste. Conseguiu! Mesmo me fazendo passar um grande susto com essa viagem improvisada mas de resultados futuros satisfatórios.


 

 


Roberto Carrefour

Se fosse possível eu aconselharia o nosso estimado Roberto Santiago a mudar seu nome para Roberto Carrefour. Com a marca francesa, talvez seus empreendimentos fossem melhor acolhidos. Oriundo ali de Santa Rita, onde bota a cabeça, querem cortá-la. É o nosso complexo de vira-lata. Os de casa não podem crescer mas os de fóra sempre são bem recebidos.

Responsável por um dos maiores empreendimentos comerciais da Paraíba e um dos maiores contribuintes individuais do Imposto de Renda, o construtor do Manaira Shopping cresceu no trabalho. Seu centro comercial cobriu um curso de água fedorento que banha a “ bem comportada” comunidade São José e por isso, teve que enfrentar uma batalha. Para compensar o “crime ecológico” construiu uma creche e patrocinou aquela iluminação feérica que transforma a nossa orla em um dia durante a noite.

O nosso visitante francês estendeu sua ação para o Conjunto dos Bancários. Invadiu as calçadas e as transformou em acesso ao seu edifício. Se alguém reclamou o eco foi pequeno e desapareceu logo das ondas de rádio ou das páginas da internet.

Um cliente passou mal e morreu na calçada do Manaira. A mídia chegou perto de acusar o dono da casa de homicídio culposo. Um cidadão morreu na fila do Banco do Brasil. Seria o caso de responsabilizar o gerente? Só não ouvi qualquer reclamação quando o empresário, por sua conta e risco, ampliou o Retão de Manaíra e construiu a praça lateral. A cidade gostou, mas ninguém agradeceu.Um bando de ingratos.

Lembro que nos anos 1970 o poder público desapropriou várias casas na Praça Castro Pinto para que ali fosse instalado o primeiro Supermercado da Paraiba, o Bom Preço, oriundo das plagas pernambucanas. Não houve protesto. A opinião pública só avistou os empregos e os benefícios advindos do investimento.

Uma missão permanente e prioritária de governantes é a de gerar emprego e renda. O ex-governador Cassio Cunha Lima ao conceder incentivos fiscais e facilidades legais para atrair investidores costumava dizer: a minha vida é comprar emprego! Pois é isso, qualquer esforço é bem vindo para que se promova o desenvolvimento.

A troca de um terreno proposta pelo Estado é válida e vantajosa. Financeira e socialmente. Financeiramente por que a diferença de preço será compensada satisfatoriamente, e socialmente, em função do numero de empregos que o novo Shopping que se quer fazer em Mangabeira haverá de gerar. Sem falar na construção dos novos equipamentos da Segurança Pública, o que agregará centenas de trabalhadores durante sua edificação.Em qualquer lugar do mundo só seriam ouvidos aplausos.

O problema é que no meio está Roberto Santiago. E sendo um paraibano de sucesso, a inveja grassa e a maledicência permeia a cabeça dos inimigos do governo. As viúvas do passado tentam criminalizar todas as ações do governo, por mais corajosas e transparentes que sejam, só para divergir e, com isso, poder captar dividendos eleitorais. Macaco nunca olha pro seu rabo...

 


Encontro com Itamar

Decorria o mês de agosto do ano de 1993 do século passado e Itamar Franco era o Presidente do Brasil após o impedimento de Collor. Ontem como hoje, deputados e senadores sempre procuram o Chefe da Nação para se queixar de desprestígio mais do que para reivindicar investimentos públicos nos seus Estados. Por ambas as razoes a bancada paraibana, excetuando-se os pmdebistas, lograram uma audiência com o Presidente.

Sob o comando do Senador Raimundo Lira fomos todos: Adauto Pereira, Evaldo Gonçalves, Rivaldo Medeiros, Efraim Morais e eu, que assumira no lugar de Ivan Burity. Alguns cargos ocupados por indicação do pefelê, hoje DEM, estavam sendo substituídos por gente do PMDB via Senador Humberto Lucena à época Presidente do Senado e sempre com muito prestígio. Eu já contei essa história mas não custa repetir, diante da partida do ex-presidente.

Ouvidas com paciência as reclamações dos presentes, o presidente indagou como poderia compensar as nossas perdas. Foi por conta dessa indagação presidencial que eu saí do Palácio do Planalto praticamente nomeado Diretor do Banco do Nordeste, já que minha permanência na Câmara Federal tinha prazo curto e se encerrava naquele mês de agosto.

Mas o que me marcou no encontro com o Presidente e traduziu uma avaliação da sua simplicidade foi outro fato. Todos se sentaram nas cadeiras disponíveis. Sendo eu o mais humilde dos presentes, até por que era deputado na condição de suplente, deixei que todos se sentassem e fiquei em pé, pois a única poltrona que restava era a do Presidente.

Vendo-me em pé, mais que depressa o Presidente Itamar voltou à sua mesa onde existiam duas cadeiras e pegando uma delas veio conduzindo-a para que eu me sentasse. Vendo esse gesto de fidalguia e naturalidade, corri e atalhei sua ação, tomando-lhe a cadeira e eu mesmo cuidando da minha acomodação.

Esse gesto assinalou para mim a personalidade desse mineiro nascido a bordo de um navio, que navegando sempre em águas tranqüilas, muitas vezes provocou tempestades. Ao lembrar Itamar Franco o faço com carinho, menos pela nomeação que me fez e mais pelo gesto de desafetação tão incomum em outros ocupantes da mesma cadeira presidencial.Que Deus lhe destine um bom lugar.