NOVO ESTILO

O flagrante do recente encontro da presidente Dilma Rousseff com o governador Ricardo Coutinho e auxiliares revela um novo estilo. O comum, nas fotos que visualizei no passado, era uma pose para fotógrafo com o gestor estadual na cadeira de visita e o nacional imponente por trás de uma sisuda mesa. Quando muito, ambos sentados em um sofá de canto de parece da ampla sala presidencial trocando sorrisos convencionais.

O presidente sentado à cabeceira com ministros ao seu lado esquerdo, tendo o governador à direita, acompanhado de auxiliares, foi a primeira vez. O inédito posicionamento dos responsáveis pelo destino do nosso estado e do país, acomodados para ouvir os problemas da pequenina Paraíba e encaminhar soluções satisfatórias, revela a atitude de quem leva projetos sérios para serem executados e a acolhida atenciosa de quem tem poderes e meios de provê-los.

Um encontro com o chefe da nação é evento que se reveste de inúmeros protocolos a começar por espaço na agenda. Os temas a serem debatidos são enviados com antecedência e os integrantes da reunião previamente acordados. A não ser quando a Presidência abre suas portas para cumprimentos de fim-de-ano, por exemplo, a entrada é quase franca, pois é aberta para parlamentares e membros de outros poderes, sem exceção.

Quando o governador Tarcisio Burity resolveu apresentar João Agripino Neto como candidato à sua sucessão, solicitou audiência ao presidente Collor levando o candidato a tiracolo e me convidou para acompanhá-lo, na qualidade de líder do governo na Assembleia,detalhe que não avisou ao protocolo do Palácio do Planalto. Um oficial da marinha, delicadamente, me comunicou a impossibilidade da minha presença na audiência,fato que Burity nem tomou conhecimento pois já entrara na sala presidencial. Fiquei fora do encontro, e Collor, pouco tempo depois, ficou fora do Palácio, mas essa é outra história.

Lembro esse acontecimento distante para estranhar a reclamação pelo fato da bancada federal não ter sido convidada para essa reunião de trabalho com a Presidenta. Ora, o encontro era para detalhar projetos que não estavam na pauta do Congresso, daí por que, sendo uma reunião exclusivamente técnica, dispensável a presença da nossa aguerrida bancada, segundo entendo. Já estive certa feita com um presidente, integrando a nossa bancada no Parlamento. O encontro fora solicitado pela bancada.

No caso atual, não competia, pois, ao Chefe do Executivo Estadual ampliar a composição dos integrantes da reunião, competência que viria a ferir as rígidas normas protocolares. A bancada, pela sua liderança pode muito bem solicitar encontro com a Presidenta para discutir os problemas que afligem a Paraíba. Seria um reforço na direção do atendimento aos pleitos em tramitação nas esferas ministeriais. Nada impede essa ação solidária e complementar.

Essa a minha visão desse auspicioso encontro entre equipes dos governos estadual e federal em Brasília cujos resultados foram amplamente noticiados. Reclamar por não haver participado do encontro, não fica bem na fita nem vai melhorar a foto...
 


O Primo Pobre

Desde o Brasil Colônia que a Capitania de Pernambuco, sendo na região o centro da conquista portuguesa, desempenhou papel de ascendência sobre a capitania da Paraíba chegando até a anexá-la após ter sido arrasada durante a ocupação holandesa. Pelo Porto do Recife, mais bem equipado, escoava toda a produção do açúcar paraibano, mesmo contrariando duas Cartas Régias que mandavam que a Paraíba comercializasse diretamente com a Coroa Portuguesa pois aqui tínhamos nossos ancoradouros que, já naquele tempo, se queixavam da falta de navios.

A Paraíba era explorada duplamente, pela Coroa e pelos comerciantes do Recife. Segundo Horácio de Almeida, “no ano em que a Paraíba se fundou(1585) Pernambuco já ostentava uma vida faustosa em sua nascente sociedade”.

Os paraibanos sempre expressaram sua insatisfação com a influencia do vizinho do sul o que provocava até a falta de moeda, atribuída, segundo Elisa Regis de Oliveira, ao fluxo comercial com Pernambuco, onde os paraibanos adquiriam seus mantimentos. Estudo de Wilson Seixas aponta os próprios comerciantes paraibanos como rebeldes ao cumprimento da Carta Régia que os mandava comercializar diretamente com Lisboa.

Na época, acreditava-se no desejo de expansão de Pernambuco sobre seus vizinhos, o que não se pode creditar nos tempos atuais. A rivalidade entre os dois estados, todavia, chegou à era republicana.

Um estudo de Fabio Santa Cruz, da Universidade de Goiás, analisa a rivalidade entre Pernambuco e Paraíba sempre com esta ultima em situação de inferioridade, o primo pobre. Destaca, porém, que na década de 1920, por contar com políticos como Epitácio Pessoa, José Américo de Almeida e o próprio João Pessoa, houve um combate aberto contra a influência de Pernambuco entre nós.

O salto desenvolvimentista de Pernambuco nos últimos anos, deveu-se sem dúvida ao seu filho mais ilustre, o Presidente Lula, que carreou para seu território além de outros benefícios, a Hemobrás, uma Refinaria de Petróleo e agora uma fábrica da Fiat, cujos estudos de localização já se processavam há alguns anos e, para felicidade nossa, ficará mais próximo de nós do que do Recife.

Lembro-me bem que participei no ano de 1994 de uma reunião no Palácio das Princesas com dirigentes do Banco do Nordeste, reivindicada pelo Governador Joaquim Francisco que reclamava o fato de a Paraíba estar acima de Pernambuco no percentual de aplicação de recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste. Apenas por que tem um paraibano na diretoria do Banco? Indagava. O diretor era eu, mas me fiz de desentendido. Hoje, Pernambuco ostenta a segunda posição em aplicações do FNE, empatando com o Ceará e perdendo somente para a Bahia conforme o Plano de Aplicação/2011. A Paraíba está na sexta colocação talvez pela ausência de um paraibano na diretoria do BNB...

Todo esse nariz de cera vem a propósito do barulho que fazem alguns jornalistas e políticos paraibanos pelo fato do Governador Ricardo Coutinho haver comemorado a instalação de uma fábrica em Goiania, com benefícios evidentes para cerca de doze municípios paraibanos no entorno do empreendimento industrial. Queriam uma reação do atual governante, diante de um fato consumado antes mesmo dele ser o governador da Paraíba. Chegam ao exagero de defini-lo como um Marques de Pombal moderno, interessado em anexar a Paraíba ao vizinho estado. Um absurdo!.

Por outro lado, o fato nos leva a refletir sobre outro tema em debate no momento nos fóruns privilegiados onde freqüentam alguns pescadores de águas turvas. Um grupo empresarial ofereceu ao Estado um terreno em troca de outro, onde edificaria um Shopping Center, cobrindo a diferença que resultasse na avaliação feita por entidades acreditadas. O assunto só falta ser criminalizado, mas a invocação do Ministério Público é feita diariamente e já houve até recurso frustrado à Justiça.Nao se trata de doação, mas de uma permuta que não resultará jamais em prejuízo ao erário.

Enquanto isso, atravessando a nossa fronteira sul, o Governo de Pernambuco desapropria o terreno, anuncia investimento de 175 milhões para prepará-lo e entregar, gratuitamente, à Fiat, para que nele seja construída a fábrica de automóveis, pista de prova e outros equipamentos indispensáveis, o que resultará, afinal, em cerca de 4,5 mil empregos diretos e 50 mil indiretos entre os quais, sem duvida, milhares de paraibanos. Esse terreno mede 14 milhões de metros quadrados e nenhum político ou jornalista Pernambuco imaginou a hipótese de se abrir uma licitação para a concretização da obra. Enquanto lá se festeja um empreendimento que vai gerar emprego e renda, aqui se deplora e se combate a tentativa de uma ação de menor porte, mas com igual objetivo. A briga política aqui prevalece sobre o interesse publico.

É por essas e outras razões que a Paraíba vai continuar por muito tempo ainda sendo o primo pobre de Pernambuco.
 

 


O Tião da Peste

Fui convidado por Tião Lucena para fazer uma rápida apresentação do seu livro, Peste e Cobiça, perante o público que deverá acudir ao convite da Pousada da Estação, em Bananeiras, onde ocorrerá noite de autógrafos da sua obra. Para me desincumbir da missão mergulhei na cidade de Princesa do início do século vinte e fui me deliciando
com os personagens: o coronel, o juiz, o promotor, o vigário e o delegado que servia a todos eles. Prefeito não tinha, pois, ainda Vila, facultava ao Coronel acumular a função, inclusive, por que “tinha dinheiro e vontade de ganhar mais” e não permitiria jamais dividir seu poder com quem quer que fosse. Os jagunços estavam ali para garantir isso.


Enquanto o poder local girava em torno dessas autoridades maiores, a Vila era dizimada pela peste bubônica sem cura e sem remédio que minorasse o sofrimento de quem  morria “vomitando sangue e cagando podre”. Nesse cenário, a chegada de um médico funcionaria como um presente divino. Seria ele entronizado em um altar se não ousasse casar com uma jovem da sociedade local que para todos era “ver com os olhos e lamber com a testa”, menos para o delegado que pretendia fazer dela sua esposa, mas encontrou uma barreira na vontade do pai da  moça ... Entre o delegado e o médico, preferiu o ultimo para genro.


Jurando vingança, o delegado nunca se rendeu ã humilhação de ser preterido.Com a cumplicidade do padre, cuja missão era “agradar o poder terreno com desvelo celestial” passou a costurar sua vingança.


Acostumado a ler as irreverências de Tião “Medonho” no seu blog com milhões de visitantes, surpreendi-me com a narrativa e a inventiva com que presenteia seus leitores.Sem perder o jeito do repórter que sempre foi, o escritor mistura fatos verdadeiros com outros produzidos pela sua mente, dentro do critério proclamado na sua página virtual: “eu aumento mas não amamento”. É importante ressaltar que no livro o autor não abandona a linguagem aberta e verdadeira que conquistou adeptos através da internet. Não há subterfúgios ou metáforas. Por vezes exagera, como ao descrever as indulgências ou as delícias do paraíso oferecidas pelo pároco aos que acatassem o aumento de cem por cento do dízimo da sua igreja. A forma de dizer, porém, reveste a narrativa de um toque de humor inofensivo que nem a instituição vai reclamar.


Convém lembrar que, como contraponto à ausência de moral do Padre Pita, antes Princesa recebera as bênçãos e os benefícios da caridade de Padre Ibiapina que na seca de 77 aportou na vila e ouviu de um cristão à morte: “Filho, conte seus pecados/Padre eu quero comer”... e morreu!


O poder do coronel Jobilino está assim constituído: “mandava e desmandava,fazia e desfazia,casava e batizava, matava e mandava enterrar,desmanchava casamento e consolava viúvas.Desde o século 19 tomara conta de Princesa e debaixo do seu chicote todos pediam a benção.Quem mijasse fora do caco tomava o bonde errado para o resto da vida.”


Uma história de poder sem limites, amor não correspondido e outros correspondidos demais,vingança desmedida e outra frustrada pela astúcia, cujo final eu não conto, pois se eu contar aqui, Tião vai deixar de vender o livro.

 


Uma viagem improvisada

Quando durmo em Bananeiras e perco o sono, começo a contar aviões.Sim, porque aqui a minha insônia é chic.Eu não conto carneirinhos, como todo mundo. Acima do meu teto as aeronaves que se dirigem a Natal começam seus procedimentos de descida e as ouço muito bem para contá-las até o dia amanhecer. Indo dormir cedo no domingo, a minha madrugada foi assim. Deu para me lembrar, também, de uma viagem improvisada mas com final feliz, que fiz há alguns anos, de avião.

Era uma segunda-feira já tarde da noite quando batem à minha porta, em Fortaleza. Ao abrí-la deparei-me com o deputado Roberto Burity e o empresário Darcy Souza, sobrinho da deputada Chica Motta. (soube que foi operada e passa bem, graças!) Os dois se dizendo enviados do deputado Valdecir Amorim, nosso amigo comum, estavam alí para me levar ao interior do Piauí, onde ele me esperava com um grupo de investidores. Eram gaúchos interessados em comprar terra e plantar soja na área, precisando do apoio do Banco do Nordeste. Justifiquei que na terça-feira teria reunião de diretoria, não podendo me ausentar. Foi em vão. Resolvi minha presença com um substituto e parti para a aventura, já que o avião que fretaram estava no aeroporto à minha espera.

Até passarmos pela estátua do Padre Cicero e reabastecer o pequeno avião em Juazeiro, não houve problema de comunicação. As rádios do Ceará serviam de guia e orientavam o rumo a seguir. A partir de então, verifiquei que o piloto e seu co-piloto discutiam o rumo em uma mapa que abriram sobre as pernas. Meus companheiros de viagem dormiam como anjos depois de uma noitada no Piratas, único point a funcionar na noite de segunda -feira na terra de Iracema. Eu sofria o ar com pouca refrigeração e o medo de avião, que não me larga, confesso.

A adrenalina subiu alto quando constatei que a carta geográfica usada era da Revista Quatro Rodas, mais indicada para localizar estradas e hotéis.Um linha fora traçada em lápis tinta por sobre o mapa e terminava na cidade de Bom Jesus, nosso destino. Ponderei minha estranheza com o fato e reclamei ainda mais quando pela conversa dos dois, entendi que uma dava aula ao outro:

- Meu amigo, deixe para ensinar pilotagem a esse rapaz outro dia e em outra viagem.Principalmente, quando eu não estiver no seu avião! Disse, assustado.

O piloto compreendeu meu receio e explicou que o mapa era um bom indicador e funcionava a contento. Aguarde e vera, asseverou.

Tinha razão o comandante. Depois de umas duas horas de vôo avistamos as cabeceiras da pista de pouso onde lá embaixo, Valdecir me aguardava cercado por uns cem gaúchos desejosos de se fixar no Vale do Rio Gurguéia.
Um churrasco no estilo dos pampas estava sendo preparado e o pessoal técnico do BNB, também acionado, estava a postos para ouvir as pretensões dos gaúchos.

Sai da diretoria de credito rural do BNB em 1995. Soube alguns anos depois que os gaúchos levados por Valdecir Amorim ao Piaui compraram cerca de 90 mil hectares de terra e fincaram suas raízes no Vale plantando soja e desenvolvendo a agricultura regional.

Avaliei depois que a insistência de Valdecir em me levar ao seu encontro era para provar aos seus convidados que tinha prestigio junto ao Banco do Nordeste. Conseguiu! Mesmo me fazendo passar um grande susto com essa viagem improvisada mas de resultados futuros satisfatórios.


 

 


Roberto Carrefour

Se fosse possível eu aconselharia o nosso estimado Roberto Santiago a mudar seu nome para Roberto Carrefour. Com a marca francesa, talvez seus empreendimentos fossem melhor acolhidos. Oriundo ali de Santa Rita, onde bota a cabeça, querem cortá-la. É o nosso complexo de vira-lata. Os de casa não podem crescer mas os de fóra sempre são bem recebidos.

Responsável por um dos maiores empreendimentos comerciais da Paraíba e um dos maiores contribuintes individuais do Imposto de Renda, o construtor do Manaira Shopping cresceu no trabalho. Seu centro comercial cobriu um curso de água fedorento que banha a “ bem comportada” comunidade São José e por isso, teve que enfrentar uma batalha. Para compensar o “crime ecológico” construiu uma creche e patrocinou aquela iluminação feérica que transforma a nossa orla em um dia durante a noite.

O nosso visitante francês estendeu sua ação para o Conjunto dos Bancários. Invadiu as calçadas e as transformou em acesso ao seu edifício. Se alguém reclamou o eco foi pequeno e desapareceu logo das ondas de rádio ou das páginas da internet.

Um cliente passou mal e morreu na calçada do Manaira. A mídia chegou perto de acusar o dono da casa de homicídio culposo. Um cidadão morreu na fila do Banco do Brasil. Seria o caso de responsabilizar o gerente? Só não ouvi qualquer reclamação quando o empresário, por sua conta e risco, ampliou o Retão de Manaíra e construiu a praça lateral. A cidade gostou, mas ninguém agradeceu.Um bando de ingratos.

Lembro que nos anos 1970 o poder público desapropriou várias casas na Praça Castro Pinto para que ali fosse instalado o primeiro Supermercado da Paraiba, o Bom Preço, oriundo das plagas pernambucanas. Não houve protesto. A opinião pública só avistou os empregos e os benefícios advindos do investimento.

Uma missão permanente e prioritária de governantes é a de gerar emprego e renda. O ex-governador Cassio Cunha Lima ao conceder incentivos fiscais e facilidades legais para atrair investidores costumava dizer: a minha vida é comprar emprego! Pois é isso, qualquer esforço é bem vindo para que se promova o desenvolvimento.

A troca de um terreno proposta pelo Estado é válida e vantajosa. Financeira e socialmente. Financeiramente por que a diferença de preço será compensada satisfatoriamente, e socialmente, em função do numero de empregos que o novo Shopping que se quer fazer em Mangabeira haverá de gerar. Sem falar na construção dos novos equipamentos da Segurança Pública, o que agregará centenas de trabalhadores durante sua edificação.Em qualquer lugar do mundo só seriam ouvidos aplausos.

O problema é que no meio está Roberto Santiago. E sendo um paraibano de sucesso, a inveja grassa e a maledicência permeia a cabeça dos inimigos do governo. As viúvas do passado tentam criminalizar todas as ações do governo, por mais corajosas e transparentes que sejam, só para divergir e, com isso, poder captar dividendos eleitorais. Macaco nunca olha pro seu rabo...

 


Encontro com Itamar

Decorria o mês de agosto do ano de 1993 do século passado e Itamar Franco era o Presidente do Brasil após o impedimento de Collor. Ontem como hoje, deputados e senadores sempre procuram o Chefe da Nação para se queixar de desprestígio mais do que para reivindicar investimentos públicos nos seus Estados. Por ambas as razoes a bancada paraibana, excetuando-se os pmdebistas, lograram uma audiência com o Presidente.

Sob o comando do Senador Raimundo Lira fomos todos: Adauto Pereira, Evaldo Gonçalves, Rivaldo Medeiros, Efraim Morais e eu, que assumira no lugar de Ivan Burity. Alguns cargos ocupados por indicação do pefelê, hoje DEM, estavam sendo substituídos por gente do PMDB via Senador Humberto Lucena à época Presidente do Senado e sempre com muito prestígio. Eu já contei essa história mas não custa repetir, diante da partida do ex-presidente.

Ouvidas com paciência as reclamações dos presentes, o presidente indagou como poderia compensar as nossas perdas. Foi por conta dessa indagação presidencial que eu saí do Palácio do Planalto praticamente nomeado Diretor do Banco do Nordeste, já que minha permanência na Câmara Federal tinha prazo curto e se encerrava naquele mês de agosto.

Mas o que me marcou no encontro com o Presidente e traduziu uma avaliação da sua simplicidade foi outro fato. Todos se sentaram nas cadeiras disponíveis. Sendo eu o mais humilde dos presentes, até por que era deputado na condição de suplente, deixei que todos se sentassem e fiquei em pé, pois a única poltrona que restava era a do Presidente.

Vendo-me em pé, mais que depressa o Presidente Itamar voltou à sua mesa onde existiam duas cadeiras e pegando uma delas veio conduzindo-a para que eu me sentasse. Vendo esse gesto de fidalguia e naturalidade, corri e atalhei sua ação, tomando-lhe a cadeira e eu mesmo cuidando da minha acomodação.

Esse gesto assinalou para mim a personalidade desse mineiro nascido a bordo de um navio, que navegando sempre em águas tranqüilas, muitas vezes provocou tempestades. Ao lembrar Itamar Franco o faço com carinho, menos pela nomeação que me fez e mais pelo gesto de desafetação tão incomum em outros ocupantes da mesma cadeira presidencial.Que Deus lhe destine um bom lugar.
 


Centenário de Clovis Bezerra

Aos doze dias do mes de novembro do ano de mil novecentos e quarenta e cinco, as dez e meia hora, no salão principal da Prefeitura Municipal desta cidade de Bananeiras, Estado da Paraíba, onde presente se achava Luis Telésforo de Oliveira, escriturário, compareceu o dr.Clovis Bezerra Cavalcanti que exibiu uma portaria de sua nomeação para o cargo de Prefeito deste município, assinado pelo Exmo. Senhor Interventor Federal deste Estado, Desembargador Severino Montenegro. Presente neste ato o Exmo Senhor Doutor Mario Moacyr Porto, Juiz Eleitoral desta comarca, outras autoridades e pessoas gradas da sociedade local..

O registro acima, que consta do Livro de Ata de Posse dos Prefeitos do Município de Bananeiras aberto em 1º. de setembro de 1940, é o marco inicial da carreira política de dr.Clovis que, se vivo estivesse, completaria hoje cem anos de idade. Em já contei que quando ele completou cinqüenta anos, comemorou o “primeiro cinqüentenário” pois, como acreditava, completaria o segundo, a exemplo de sua avó, dona Dondon, que deixou a terra depois dos cem.

A sua permanência no cargo de prefeito durou até que foi trocado o interventor de plantão. O seu primo Odon Bezerra Cavalcanti, cento e treze dias depois, nomearia Henrique Lucena da Costa como novo prefeito.Seu substituto, Antonio Maia Neto, nomeado pelo Governador eleito Osvaldo Trigueiro de Albuquerque foi empossado pelo novo deputado Clovis Bezerra, no ato representando o Chefe do Executivo Estadual.O primeiro prefeito eleito da cidade, Major Augusto Bezerra Cavalcanti, pai do deputado, só tomaria posse em 15 de novembro de 1947.

Do seu primeiro mandato de deputado até o final de sua carreira política Clovis Bezerra conheceu apenas uma derrota pessoal quando ofereceu seu nome ao sacrifício, compondo a chapa de senador encabeçada por Aloísio Afonso Campos, fato descrito por Soares Madruga: “ Sem uma derrota pessoal, perde para suplente por convocação do seu partido.Para crescer ainda mais entre seus correligionários,pois se torna grande até na derrota”.
Fechou o ciclo de sua vida pública ocupando, como sucessor de Tarcisio Burity, o cargo de Governador da Paraíba.Como correligionário comemorei sua escolha para vice de Ernani Satyro em 1970. Quando foi novamente ungido à vice-governança, em 1978 eu já me encontrava em campo oposto e tinha nele meu principal adversário a quem dei o bom combate, sem nunca negar suas qualidades morais e cívicas. Quando voltei à Assembléia, eleito em 1982, era dr. Clovis o Governador deste Estado. O destino me deu hoje a oportunidade de promover, com a equipe de A União e o concurso intelectual de Gonzaga Rodrigues e Martinho Moreira Franco, uma justa homenagem a esse bananeirense de escol, publicando um caderno especial a respeito da sua vida e obra. O Município de Bananeiras pela sua prefeita Marta Eleonora Aragão Ramalho instituiu concurso literário para premiar trabalhos de estudantes sobre a vida do homenageado, na passagem do seu centenário de nascimento. Poder-se-ía indagar: e as querelas do passado, as rixas eleitorais e as mágoas encravadas foram sepultadas com a morte do ilustre adversário? Responderia como Ernani Satyro ao destacar as qualidades de um opositor post mortem: não é que a morte apague tudo, é que a vida é maior do que a morte...
 


O Banco do Severino

O Banco da Renata, do Antonio e da Maria é também o Banco do Severino. Pelo menos é o que diz a propaganda do Banco do Brasil. Vai ver que foi por isso, já naquele tempo, que Lampião, o Rei do Cangaço, ao entrar em uma agencia do banco para assaltá-lo, indagou de um gerente tremendo mais que vara verde:

-Aqui é o Banco do Brasil? O Banco de todos os brasileiros? Pois eu vim buscar a minha parte...

Na semana que passou levei três dias tentando tirar do banco a minha parte, ali depositada legalmente pelo Tesouro do Estado.Antes, por duas vezes, já fora vítima de ataques dos ratos virtuais que levaram dinheiro da minha conta para a deles.O dinheiro me devolveram logo, mas o que sofri para regularizar novamente meu acesso à internet merece registro. Nas muitas viagens que dei à minha agencia não encontrei quem soubesse fazer o serviço ou, se o fazia, era incompleto, o que me obrigava a voltar para concluir a tarefa. Até que um gerente mais atento me ouviu e restaurou minha ligação virtual com o banco fixando meus limites operacionais. As transferências e pagamentos acima disso, tornam impossível a operação.

Por isso levei três dias para pagar uma conta acima do meu limite. Poder-se-ía perguntar: e por que não passou um cheque? Isso, meus amigos se eu o tivesse. Mas o meu banco se nega a me dar um talão de cheques desde que o governo abriu uma conta para depositar meus proventos. E por que não tenho cheques? Vou explicar: em 1996 quando saí da Secretaria de Administração da Prefeitura de João Pessoa deixei inativa uma conta onde eram creditados meus subsídios de secretário e fiquei com um débito de cheque especial que nem tinha conhecimento.Chamado a pagar, o banco me concedeu um desconto nos juros, dentro das suas normas de negociação.Decorridos quinze anos, devido a esse acerto que me propuseram e aceitei pagando na forma acordada, virei ficha suja no Banco do Brasil, sem direito a talão de cheques. Resta-me, portanto, o internet banking ou a boca do caixa.

Busquei enfrentar as quilométricas filas para entrar na agencia e adquirir uma ficha de atendimento.Mesmo usando o estatuto do idoso, a tarefa se projetava por um longo dia de serviço.Como todo esforço tem sempre uma compensação, encontrei um gerente de muita boa vontade e com paciência para me ouvir e, finalmente, em Cruz das Armas, consegui liquidar meu debito. Foi a primeira vez que tive dificuldade em pagar uma conta tendo excesso de fundos...
 


A Rainha do Milho

Começam com as homenagens a Santo Antonio, prosseguem com São João e se encerram com o São Pedro. Mas há quem prolongue os festejos juninos e realize o “João Pedro”, celebrando os dois em um, fora das suas datas, quando as bandas de forró custam um pouco menos.


No tempo em que clube era chamado de sodalício eram nesses recintos freqüentados preferencialmente pelos sócios que os bailes se realizavam. Em junho, diante da fartura da canjica e da pamonha, a Rainha do Milho era prèviamente eleita. O romantismo imperava e a Rainha era celebrada como a verdadeira inspiradora da festa que incluíam ainda as “simpatias” e os afilhados consagrados ao redor da fogueira.


Pesquisando as páginas de A União, uma noticia vinda de Bananeiras me chamou a atenção. No inicio daquele mês de junho de 1942 o Bananeiras Clube elegera a sua Rainha do Milho e como madrinha do clube, fora recepcionada por um grupo destacado de sócios. A retribuição a esse gesto de carinho foi um almoço (que se chamava ágape) na residência da Rainha.A escolhida contava na ocasião com 23 anos e com a alegria que a caracteriza, hoje, aos 92 anos costuma presentear os filhos e amigos com quadros que pinta, ocupação que aprendeu na Organização das Voluntárias depois dos 80 anos. A Rainha do Milho de 1942, senhorita Azeneth Bezerra Cavalcanti viria a ser anos depois esposa de José Antonio Aragão e entre seus filhos, a segunda, Marta Eleonora, seria minha esposa aos 15 anos, vinte anos depois de sua futura mãe ter sido coroada Rainha do Milho.


Agora os festejos juninos ganham espaços públicos e reúnem multidões que se acotovelam ao som do forró, às vezes “de plástico” e às vezes “autêntico” se é que se pode adjetivar pois, para Alceu Valença, “forró é forró, o resto não é”! O evento virou investimento turístico e garantia de redutos eleitorais sedimentados por emendas parlamentares que já conquistaram notoriedade negativa.Quem ajuda na festa é louvado. Quem não destina recursos é execrado, e as celebrações se transformam em verdadeiras disputas políticas consumidas na fogueira das vaidades.


Com dificuldade e com ajuda federal negada em poucas horas, por ser a emenda de autoria de parlamentar fora da base aliada, Bananeiras realizou o Melhor São João Pé de Serra do Mundo, consagrado por Amazan e apresentando a genuína música regional.O Bananeiras Clube reabriu suas portas por algumas horas, durante o dia. No seu dancing lotado por uma juventude efervescente, não mais a imponência do passado quando mandava a Rainha do Milho. Na programação paralela mandou o Forró da Xêta enquanto nas ruas, os “paredões” eram silenciados em defesa do meio ambiente. Quem foi gostou e promete voltar no ano que vem.

 

ramalholeite@uol.com.br
 


Uma viagem complicada

Subindo no mapa do Brasil para o norte não encontrei qualquer dificuldade e o vôo foi rigorosamente cumprido em todos os seus horários de conexão e escalas. Estive em Belém do Pará participando da 47a. Reunião da Associação Brasileira de Imprensas Oficiais, que incluía a comemoração dos 120 anos do Diário Oficial do Pará. Regressar à Paraíba, porém, foi um verdadeiro martírio.


Uma névoa cobriu totalmente o aeroporto de São Paulo e conseguiu atrasar em quatro horas todos os vôos que dalí partiriam para qualquer parte do País. O meu retorno dependia, pois, da aeronave que viria de Manaus, com escalas em Santarém e finalmente Belém, onde consegui embarcar cinco horas depois do horário previsto.


Acometido de forte gripe e reclamando da vacina que tomei e nenhum efeito produziu, consegui me segurar todo esse tempo em cadeiras desconfortáveis e feitas para esperas inferiores a meia hora. Quando a medicação começou a me dar sono, eis que uma alma caridosa me cede uma poltrona e consigo um cochilo restaurador graças a uma ação providencial de minha companheira de viagem, a jornalista Bia Fernandes, penalizada com o meu sofrimento.


Todos acomodados, o comandante avisa que tem que zelar pela segurança dos seus passageiros e foi constatada a necessidade da substituição de um pneu do avião, tarefa já em execução e lamentavelmente, adicional sobre um atraso já insuportável. Quando sentimos que o boeing desceu do macaco, começamos a taxiar e finalmente voar.


Em Fortaleza nova espera para reabastecimento. Alguém grita lá do rabo do avião: agora vão trocar a bateria. Mesmo encolhido e me defendendo do frio intenso ainda respondi: desde que não nos chamem para empurrar esse bicho...
Na hora marcada para chegarmos ao Recife foi iniciado o vôo. Conexão para João Pessoa não existia mais, o que, já sabíamos desde a partida.A companhia desejava que voltássemos ao hotel e no dia seguinte, pegássemos outro vôo. Me recusei. Chegando em Recife estaria em casa. Providenciei um veiculo para, finalmente, chegar em casa pelas quatro e meia da manhã do domingo, Dia dos Namorados.


Precisando de repouso e sem o aconchego doméstico convidei minha namorada a vir me visitar e passamos o dia juntos. Eu na rede ela numa cadeira. Nem um beijo comemorativo pude lhe dar, para não passar o vírus. Bia Fernandes, que faz amizade com facilidade, ao sair do avião ainda foi se despedir do comandante e agradecer a excelência da viagem. Pode?