Dunga de volta

O gordinho de maior jogo de cintura que já conheci, está de volta. Para quem começa a vida como caminhoneiro, sentar na cadeira de governador do seu Estado, mesmo por poucas horas, enobrece o curriculum. Quem pensou que ele tinha virado peça da nossa história, pode tirar o cavalinho da chuva. Carlos Marques Dunga, ou simplesmente Dunga, prefeito, deputado estadual e federal, suplente de senador, está de volta à Assembléia e vai dar o que falar.

No penúltimo dia do seu governo e também da minha condição de Lider, Tarcisio Burity mandou me chamar e passou a missão:“Procure Dunga e diga que venha assumir o cargo de Governador. É ele que vai transmitir o Governo a Ronaldo”. E assim foi feito.

Eleito entre os nove deputados da bancada governista, a maior delas, do PRN de Burity, Dunga granjeou a simpatia dos seus companheiros e foi eleito Presidente. Nessa condição daria posse ao novo governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima. Em suma, de chegada, levou os votos do governador que saía e os votos do governador que entrava.

Atuando, principalmente, na área de influência do Município de Boqueirão, não se saiu muito bem nas ultimas eleições municipais. Julgo que sua posição na eleição de 2010 o tenha prejudicado. Votou em Ricardo, Cássio e Vital, além de Nilda Gondim para deputada federal. Essa mistura de nomes associada a uma sopa de letras de vários partidos, pode não ter sido bem entendida na eleição seguinte. Eu mesmo, que era candidato a suplente de Efraim Morais, quando instado a ajudá-lo na sua eleição de deputado, neguei-me a fazê-lo, justamente por que ele não estava votando em Efraim, e, em conseqüência, rejeitara meu nome, que compunha a chapa majoritária. Soube que ficou magoado... Mas já fui perdoado, pois ele não é de guardar ódio nem rancor.

Traído pelo tamanho da legenda, perdeu parte do mandato e já entra na Casa de Epitácio na sua segunda metade, depois de vencer uma batalha judicial que dependia da validade de votação alheia. Com a validação desses sufrágios, foi recomposta a totalização da sua coligação e alterado o quociente partidário. Ganhou o mandato e agora ninguém lhe segura. Sua região tem novamente representante à altura.

Devoto de Padre Cícero desde os tempos em que enchia um pau –de- arara de romeiros e os conduzia ao Juazeiro, Dunga costumava anualmente revisitar o “santo” cearense e agradecer as graças alcançadas. Por certo, voltará agora aos pés do seu “Padim” para contar o milagre de ressuscitar na política, e, na sua fé, haver superado os obstáculos que colocaram no seu caminho.

Um episódio dos idos de 1988 marcou a minha avaliação sobre seu companheirismo e solidariedade. Os servidores públicos em greve invadiram o Plenário da Assembléia e eu, como Líder do Governo, era o principal alvo da irritação dos barnabés. Infiltrado entre eles, uma turba dava sinais de aguerrida e violenta. Dunga me puxou pelo braço e indagou: “Estás armado?” Respondi que não andava armado... E ele apreensivo: Esse movimento é contra você também. Tome cuidado!

E a partir de então, passou a proteger o meu magríssimo esqueleto com o seu corpão de muitas arrobas. É esse o Dunga que o Parlamento tem de volta.


A seca e a falta de leite

A seca e a falta de leite 2
Nascido e criado no brejo, tinha noticia da seca no sertão, quando grupos de homens, mulheres e crianças, maltrapilhas e famintas, chegavam dia de feira em busca de alimento, tangidos pela inclemência da estiagem. Esse cenário remoto pode ser revisitado hoje, apenas nas paginas de A Bagaceira, com as tintas da tragédia pintada por Jose Américo de Almeida. As invasões às cidades e os saques às feiras livres e ao comercio foram contidas pela politica social do Governo Federal, que, se não resolve o problema da subsistência humana, pelo menos ameniza a fome e acalma a quem tem sede. Nessa hora de aflição, bendita Bolsa Familia...


Dizem os especialistas que acompanham a reincidência do fenômeno climático que este ano estamos assistindo a maior seca de todos os tempos. Na boca de quem sofre, o panorama mais grave é sempre aquele que se está vivendo. Todos sabem que o fenômeno se repete ciclicamente, e mesmo assim, avisados previamente, a cada crise, o homem do campo se depara com os mesmos problemas e reclama as mesmas soluções, sejam transitórias ou definitivas. Quase sempre, surgem as paliativas...


{arquivo}Por conta da seca surgiu o IFOCS, depois o DNOCS, a SUDENE e o BNB e mais recentemente um Instituto do Semiárido que se instalou em Campina depois de muita disputa regional, mas que ainda não se sabe a que veio. Desde Pedro II, que prometeu vender as joias da Coroa, passando por Médici e chegando a Lula e Dilma, mudaram as pessoas mas o sofrimento continua o mesmo. As frentes de emergência foram transformadas em Bolsa Estiagem mas as obras estruturantes que permitiriam ao nordestino sobreviver à seca, continuam em berço esplendido, a exemplo da transposição de aguas do São Francisco para estas bandas.


Essas constatações abalaram minha tentativa de convencer produtores de leite da agricultura familiar a refazer sua parceria com o Governo Estadual visando restabelecer a entrega de 120 mil litros de leite diários a famílias em risco de segurança alimentar. Ouvi relatos constrangedores e criticas contundentes. Infelizmente só ouvi verdades e tenho certeza que muitos não revelaram todo seu padecimento. Julguei que desviavam o produto dos seus rebanhos para outros compradores e descobri que muitos, nem rebanho têm mais. A estiagem transformou em deserto chiqueiros e currais.


O governo lançou programa de distribuição gratuita e venda subsidiada de ração animal. Bem alimentado, o que sobrou do rebanho pode produzir mais leite e abastecer o programa Leite da Paraiba. Mas também foi dito que muitos produtores não puderam atender à nossa convocação por absoluta falta de meios para o seu deslocamento. Alegam que, descapitalizados, não podem nem mesmo arcar com a metade do pagamento da ração. E fulminaram: nós confiamos no governo e entregamos nosso leite para receber não se sabe quando... O governo não confia em nós, temos que pagar adiantado para alimentar nossas cabras...


Essa queixa nos levará à procura de uma solução que garanta a quem tem contrato de fornecimento de leite ao programa, a certeza de que seu rebanho não morrerá de inanição. A confiança terá reciprocidade.


Ronaldo e o sacerdócio

 Ouvi no programa eleitoral de um candidato a prefeito que ele ” fazia da política um sacerdócio, não um balcão de negócio”. A frase foi citada sem atribuir a autoria ao poeta Ronaldo Cunha Lima, que nos deixou recentemente. O plágio e a falta de ética me incomodaram. O fato me fez lembrar que devia aos poucos leitores meu depoimento sobre a convivência com o poeta. Havia sem duvida uma afinidade entre nós, explicitada certa feita pelo filho Cássio: o seu estilo se aproxima mais de Ronaldo que de mim..


Quando prefeito de Campina e nas suas vindas à Capital, era eu um dos seus companheiros de tertúlias poéticas e noitadas intermináveis no Elite Bar. Seu cunhado Ernani Moura era meu vizinho e de repente, entravam os dois pelo meu terraço:


- Ramalhinho, vamos cumprir nossas obrigações alcoólicas...Era o poeta me apressando, pois, na praia, já nos aguardavam Jório Machado, Edvaldo Motta e Orlando Almeida.


Como sempre, o papo era mil vezes superior às doses ingeridas. O encontro valia pela conversa, a revisão política dos fatos e os projetos futuros que todos nós haveríamos de nos engajar. Fui com Humberto Lucena e estive presente à famosa reunião no quarto de Raymundo Asfóra, quando o jovem Cássio transmitiu a decisão de Ronaldo de permanecer até o final do seu mandato, prefeito de Campina. Foi o Dia do Fico de Ronaldo e do nascimento de Raymundo Lira, que tomaria seu lugar na chapa de Senador.


No segundo turno da sua eleição para Governador, comemorava o meu aniversário quando entra Ronaldo e sua alegria, Ernany à tira colo. Já foi recebido com as suas musicas de campanha Ajudei-o na vitória em todos os municípios onde tinha influencia. O destino nos afastou por um tempo.Nos reencontramos e reatamos a velha e adormecida afeição. Tive o prazer de contribuir para a sua eleição de deputado federal, a ultima que disputaria, para completar todos os diplomas que a justiça eleitoral pode conceder ao cidadão,no seu Estado.


Sem dúvida que a política para Ronaldo era um sacerdócio. Para ele, valia muito mais as amizades do que os votos. Milhares não votavam nele, mas lhe devotavam sentimento de admiração e apreço. Esse sacerdócio, exercício de poucos políticos neste País patrimonialista, deve ter tornado Ronaldo um homem rico de afeto, porém, sem bens a transmitir. Está entre os poucos políticos que não têm inventário a fazer. Quando muito, seus bens merecem um arrolamento.


Para Ronaldo Cunha Lima, o “faço política como sacerdócio e não como balcão de negócio”, não era apenas uma rima, mas um mandamento da vida pública.


ESPINHA DE BACALHAU

 Segundo a imprensa especializada, pois de musica entendo muito pouco, foi sob esse titulo que o maestro Severino Araujo de Oliveira compôs o seu chorinho mais famoso, ai pelos anos de 1937 quando era primeiro clarinetista da Banda de Musica da Policia Militar da Paraíba. Egresso do vizinho estado do sul, onde nascera, na cidade de Limoeiro, aprendeu com o pai os primeiros passos da musica e ainda criança se fez instrutor dos alunos do maestro Cazuzinha. Severino Araujo, como ficou conhecido nacionalmente, foi um dos pioneiros na introdução de elementos do jazz e do chorinho na música brasileira, criando arranjos para a Big Band em todos os ritmos disponíveis.

“Espinha de Bacalhau” tornou-se um dos chorinhos mais executados no Brasil e no exterior e foi composto antes que assumisse a regência da Orquestra Tabajara, fato ocorrido em 1938.Em plena segunda guerra mundial, foi arrastado para o Rio de Janeiro por Assis Chateaubrian (sempre ele) e, depois, levou a sua orquestra para a Radio Tupi, do conglomerado Associados, onde ficou por dez anos. Severino Araujo fez Bodas de Ouro na regência da Orquestra Tabajara que realizou cerca de quatorze mil apresentações sob sua batuta, até 2006, quando passou-a para o irmão, Jayme Araujo.

Foi um declaração do referido Jayme que me motivou a dar esse depoimento a respeito do maestro recentemente falecido.Em entrevista publicada na imprensa local, o maestro-sucessor revelou que o irmão partira deste mundo com mágoa da Paraiba, estado que lhe deu berço e o alicerce da fama. Até onde sei, o maestro Severino Araujo sempre foi objeto do carinho e admiração dos paraibanos, levando daqui o nome Tabajara- dos nativos e da emissora mãe de sua orquestra.

Em arrimo do que afirmo, lembro que foi da autoria do então deputado Evaldo Gonçalves, a concessão do titulo de Cidadão Paraibano ao maestro Severino Araujo. Era o ano do Sesquicentenário do Poder Legislativo,(1983?) estando Evaldo na presidência do Poder e eu, além de primeiro secretário da Mesa, tomaria posse como Presidente da União Parlamentar Inter-estadual-UPI/Nordeste, eleito que fora em foro baiano com o respaldo dos votos dos colegas deputados estaduais Luis Eduardo Magalhães (BA) e Garibalde Alves(RN), dos que me lembro agora.

Pois bem, para essa festa que marcaria os 150 anos do Legislativo, no Esporte Clube Cabo Branco, trouxemos à Paraiba o maestro Severino Araujo para que recebesse a maior honraria concedida pela nossa Assembleia, o titulo de Cidadão Paraibano. Ele e a Orquestra Tabajara, uma tarefa hercúlea, num tempo em que a Assembleia não tinha seu duodécimo e dependia da boa vontade do governador para qualquer despesa extraordinária. Evaldo conseguiu que o governador Wilson Braga, que só gosta de forró, custeasse pelo erário as despesas da Big Band. E a Tabajara , depois de muitos anos, voltou a ser ouvida no solo paraibano.

Seria impossível traduzir o sentimento de gratidão e a emoção do maestro Severino Araujo ao exibir o diploma de cidadão e receber a comenda, júbilo que revelou - guardaria para sempre, pois, mesmo se considerando um paraibano, faltava ser reconhecido. Não foi com qualquer mágoa,mas com a alegria de ser um descendente dos Tabajaras que morreu Severino Araujo.


Ganhos e Perdas

Comecei o ano recebendo a missão de dirigir este periódico. Inscrever meu nome entre tantos ilustres paraibanos que por aqui passaram ao longo dos seus 118 anos de existência, me envaideceu. Em 02 de fevereiro, o jornal voltou ao formato stand, encerrando sua vegetativa vida de tablóide. Duas semanas depois, minha mãe, que há algum tempo vivia sob cuidados médicos, nos deixou. Começou aí a minha velhice. Perdi a única pessoa que me chamava de menino.

A vida, sem dúvida, é feita de ganhos e perdas. Quando pensava em encerrar o ano sem outras dores a acrescentar, me despeço do único irmão. Dizem que os pais quando batizam filhos com nomes de santos, a estes oferecem suas vidas. Meu nome nasceu de uma promessa a São Severino do Ramo. Meu irmão foi dedicado a Santo Antonio. Antonio Carlos era o seu nome, talvez uma conciliação entre a escolha do pai e a preferência da mãe.

Era uma pessoa alegre. Nunca cogitou fazer o mal a alguém. Inexplicavelmente, foi escolhido para passar por acidentes de percurso que não merecia. Aos dezoito anos, submeteu-se a uma cirurgia complicada que lhe tomou parte do intestino. Nem fumava e nem bebia mas ganhou três úlceras inesperadas à entrada do duodeno. Poucos meses depois, volta à sala de cirurgia para extirpar o apêndice que infeccionara. Foi atropelado quando passava entre dois veículos estacionados... Se não bastasse, um noivado de dez anos transformado em casamento se encerra no nascimento do primeiro filho. Perde a esposa em uma época em que não se morria mais de parto.

Estava com a vida re-organizada.Novamente casado, mais dois filhos, Promotor de Justiça na Comarca de Souza, professor na sua nascente Faculdade de Direito, tirou alguns dias de licença para tratamento de saúde. No quintal de casa, subiu em uma escada para acessar a um pé de côco. A escada desmanchou-se e ele fraturou a coluna. Permaneceu com um colete ortopédico por algum tempo. Ao retirar o colete, a vértebra trincada se desloca e secciona a medula. Paraplégico desde então.

Mesmo em cadeira de rodas cumpria sua rotina na Vara de Mangabeira. Tive a satisfação de ouvir depoimentos elogiosos de juízes e advogados sobre sua atividade ministerial. Muitos dos seus colegas promotores compareceram para lhe prestar a ultima homenagem. Aposentado, restauram-lhe alguns anos para acompanhar a vida dos filhos. Sob os cuidados de uma Unidade de Terapia Intensiva, ainda ouviu da filha Fernanda relato sobre sua monografia final do curso de direito.Com dificuldade, recomendou que estudasse para o exame da Ordem.

Na véspera do Natal recebeu a mulher e os filhos na UTI. No dia do nascimento do menino Jesus, sua alma foi levada a Deus como um presente de Natal.

 


A "Farra" de Marta

O Tribunal de Contas do Estado da Paraíba é pioneiro no Brasil na adoção do processo eletrônico, e antes, despontou na vanguarda da transparência dos gastos públicos, próprios, e dos seus jurisdicionados. A criação do SAGRES possibilitou o acesso de todos a um mundo de informações que, no passado, era privilégio de poucos. O fornecimento de dados colhidos nesse banco, ganha, de imediato, foro de credibilidade, mas, às vezes, se presta ao exagero do noticiário lastreado quase sempre no preconceito contra determinadas despesas ou categoria de gestores. É o caso dos prefeitos municipais, cuja execução dos dispêndios têm sido objeto de ação disciplinadora e de vigilante contenção naquela Corte de Contas.

Exemplo do que afirmo foi o amplo noticiário do ultimo domingo, destacando as despesas com diárias civis beneficiando titulares de mandato executivo municipal. A notíia evidencia uma acusação explícita de que os prefeitos estariam engordando seus subsídios à custas de diárias fictícias. Não há no serviço público detentor de cargo que se desloque, a serviço, sem que se utilize do recebimento de diárias, seja ele prefeito, deputado, ministro, desembargador, procurador ou conselheiro. Mas quando se trata de prefeitos, se generaliza a suspeita e se expõem os nomes na imprensa como se houvessem cometido um crime hediondo.

Sem dúvida fiquei incomodado lendo o nome da prefeita de Bananeiras colocada na 91ª posição com relação à percepção de diárias. Sua “farra de diárias” atingiu no ano, R$ 7.780,00(sete mil setecentos e oitenta reais). Tendo viajado a Belém do Pará e depois a Florianópolis para encontro nacional de gestores de assistência social e de turismo, e a Natal, recebeu diárias dentro do que autoriza a Lei Municipal n º 444/09, somando esses eventos despesa de R$ 3.000,00(três mil reais). Resta uma despesa no valor total de R$ 4.780,00 (quatro mil,setecentos e oitenta reais) que, divididos por dez meses, adicionou aos seus ganhos mensais, a quantia de R$ 478,00(quatrocentos e setenta e oito reais). Abordo o assunto por que fiquei constrangido: minha mulher estaria “ engordando” seus subsídios com um adicional financeiros de menos de um salário mínimo. A despesa global com diárias civis dos 223 prefeitos da Paraíba, alcança, segundo a reportagem, cerca de R$1,5 milhão. Segundo o SAGRES, a Justiça Comum chegou a R$ 1,4 milhão, o TCE despendeu R$ 487 mil, a Assembléia R$ 237 e o Ministério Público R$ 697 mil, no mesmo período. Não poderia ser diferente! Todos esses órgãos deslocam servidores e membros para fora de sua sede, tendo eles direito ao ressarcimento de suas despesas. Mas em se tratando de prefeitos, o assunto vira logo um escândalo.

Sempre adotei o costume de dar resposta a todo fato que deixe no ar qualquer suspeita de irregularidade no meu comportamento de homem publico. O mesmo proceder tenho recomendado à prefeita Marta Ramalho de quem sou “assessor afetivo”. Com a sua décima conta de gestora municipal aprovada recentemente pelo TCE, não posso ficar calado quando seu nome é exposto de forma injuriosa, como se algum crime houvesse cometido. Prestar contas corretas é um dever, receber diárias é um direito. Alguém deve um pedido de desculpas aos prefeitos municipais levados à execração pública por usar de um direito que a lei lhes faculta. Quanto a dona Marta, sua despesa é irrisória por que ela não paga a dormida no meu apartamento.
 


A "Farra" de Marta

O Tribunal de Contas do Estado da Paraíba é pioneiro no Brasil na adoção do processo eletrônico, e antes, despontou na vanguarda da transparência dos gastos públicos, próprios, e dos seus jurisdicionados. A criação do SAGRES possibilitou o acesso de todos a um mundo de informações que, no passado, era privilégio de poucos. O fornecimento de dados colhidos nesse banco, ganha, de imediato, foro de credibilidade, mas, às vezes, se presta ao exagero do noticiário lastreado quase sempre no preconceito contra determinadas despesas ou categoria de gestores. É o caso dos prefeitos municipais, cuja execução dos dispêndios têm sido objeto de ação disciplinadora e de vigilante contenção naquela Corte de Contas.

Exemplo do que afirmo foi o amplo noticiário do ultimo domingo, destacando as despesas com diárias civis beneficiando titulares de mandato executivo municipal. A notíia evidencia uma acusação explícita de que os prefeitos estariam engordando seus subsídios à custas de diárias fictícias. Não há no serviço público detentor de cargo que se desloque, a serviço, sem que se utilize do recebimento de diárias, seja ele prefeito, deputado, ministro, desembargador, procurador ou conselheiro. Mas quando se trata de prefeitos, se generaliza a suspeita e se expõem os nomes na imprensa como se houvessem cometido um crime hediondo.

Sem dúvida fiquei incomodado lendo o nome da prefeita de Bananeiras colocada na 91ª posição com relação à percepção de diárias. Sua “farra de diárias” atingiu no ano, R$ 7.780,00(sete mil setecentos e oitenta reais). Tendo viajado a Belém do Pará e depois a Florianópolis para encontro nacional de gestores de assistência social e de turismo, e a Natal, recebeu diárias dentro do que autoriza a Lei Municipal n º 444/09, somando esses eventos despesa de R$ 3.000,00(três mil reais). Resta uma despesa no valor total de R$ 4.780,00 (quatro mil,setecentos e oitenta reais) que, divididos por dez meses, adicionou aos seus ganhos mensais, a quantia de R$ 478,00(quatrocentos e setenta e oito reais). Abordo o assunto por que fiquei constrangido: minha mulher estaria “ engordando” seus subsídios com um adicional financeiros de menos de um salário mínimo. A despesa global com diárias civis dos 223 prefeitos da Paraíba, alcança, segundo a reportagem, cerca de R$1,5 milhão. Segundo o SAGRES, a Justiça Comum chegou a R$ 1,4 milhão, o TCE despendeu R$ 487 mil, a Assembléia R$ 237 e o Ministério Público R$ 697 mil, no mesmo período. Não poderia ser diferente! Todos esses órgãos deslocam servidores e membros para fora de sua sede, tendo eles direito ao ressarcimento de suas despesas. Mas em se tratando de prefeitos, o assunto vira logo um escândalo.

Sempre adotei o costume de dar resposta a todo fato que deixe no ar qualquer suspeita de irregularidade no meu comportamento de homem publico. O mesmo proceder tenho recomendado à prefeita Marta Ramalho de quem sou “assessor afetivo”. Com a sua décima conta de gestora municipal aprovada recentemente pelo TCE, não posso ficar calado quando seu nome é exposto de forma injuriosa, como se algum crime houvesse cometido. Prestar contas corretas é um dever, receber diárias é um direito. Alguém deve um pedido de desculpas aos prefeitos municipais levados à execração pública por usar de um direito que a lei lhes faculta. Quanto a dona Marta, sua despesa é irrisória por que ela não paga a dormida no meu apartamento.
 


Transparência

O senador João Capiberibe era prefeito em uma cidade do Acre, e um belo dia, teve a idéia: por que não colocar na frente da prefeitura, em um quadro negro, todas as receitas e despesas do Município? E assim foi feito, conta ele. Antes que me esqueça, esse Senador acaba de tomar posse com atraso, em virtude da Lei da Ficha Limpa, acusado de comprar votos. Coisas deste nosso Brasil.

A esposa do senador é a deputada federal Janete Capiberibe, igualmente atingida pela lei eleitoral e co-autora, juntamente com o marido, da Lei 131/2009, a conhecida Lei da Transparência ou Lei Capiberibe, que, em resumo, determina: de agora em diante, todos os órgãos, de todas as esferas, e todos os poderes, são obrigados a publicar na internet como usam o dinheiro do contribuinte.

Deixando à parte a história da familia Capiberibe e de seu infortúnio recente, destaco a sanção pelo governador Ricardo Coutinho de projeto de autoria do deputado oposicionista Vituriano de Abreu que obriga a publicação de contratos firmados pelo poder publico estadual com pessoas jurídicas de direito privado, na sua integralidade. Se voltarmos a um passado não muito distante, lembraria projeto semelhante, de autoria do então deputado Ricardo Coutinho, obrigando o estado a adotar a internet como ferramenta de transparência para divulgação dos atos de gestão. O inquilino do Palácio da Redenção era José Maranhão e o projeto foi vetado.

Mesmo sem uma lei específica, quando secretario do Controle da Despesa Publica mandei fazer o SIGA, com o apoio do então Secretario de Planejamento, Fernando Catão. Por esse sistema foi institucionalizada a publicação de contratos e convênios, em resumo, na rede mundial de computadores. Lembro que, certo dia, o governador Cássio Cunha Lima, a meu pedido, sentou-se na minha cadeira para conhecer o sistema e aprová-lo ou não. Gostou e me disse: pode mandar brasa. E as despesas do Estado começaram a se abrir para o mundo. Hoje, no Portal da Controladoria existem mais detalhes, já sob a égide da lei Capiberibe que, na Paraíba, não fosse o veto de Maranhão, poder-se-ia chamar Lei Ricardo Coutinho, pioneiro no assunto, faça-se justiça.

Na Paraíba hoje, se faltar alguma informação, recorre-se ao Sagres. Esse sistema, com nome de gente e artes do demônio para os que temem a lei, tem evitado até diligencias de auditores, em função da riqueza de detalhes com que informa a sociedade sobre os gastos públicos dos jurisdicionados pelo Tribunal de Contas do Estado. A propósito, enquanto não estão obrigados a colocar na internet o destinos de suas despesas, os municípios poderiam utilizar o Sagres nas suas paginas virtuais. Bastaria um link direcionado para o sítio do TCE.

Não tendo mandato para fazer uma lei, vali-se de uma certidão de casamento que vai completar cinqüenta anos e sugeri essa medida à prefeita de Bananeiras. Os bananeirenses podem chegar mais rapidamente às despesas municipais acessando a pagina da prefeitura: bananeiras.pb.gov.br. A propósito, a pagina hoje registra de 104 mil,328 visitantes do Brasil e do mundo.
 


Personagem da história

Considerar Nelson Coelho, apenas, como testemunha da história, é muito pouco.As histórias que conta no seu mais recente trabalho o envolvem totalmente. É mais personagem do que testemunha. Na cena dos acontecimentos políticos da Paraíba nos últimos cinqüenta anos, como catador de notícia ou como “gato de palácio”, Nelson viu quase tudo. O que não viu lhe contaram, e se não contaram, imaginou, pois o que não lhe falta é a capacidade de perquirir e investigar.De tudo, acumulou um acervo de fatos que ganham em seu livro “Testemunha da Historia” o selo da perpetuidade.


Vinculado a um partido político, não procura demonstrar isenção na sua narrativa.Pelo contrário, destaca sua condição de militante e, por vezes, revela frustrações e decepções com os companheiros de luta aos quais serviu e não foi correspondido como se julgava merecedor. Penitencia-se e se confessa arrependido de alguns momentos em que se deixou vencer pela paixão e defendeu com fúria seus amigos injuriados. Colheu desilusão e vai perpetuar inimizades.


A leitura é interessante e nos faz voltar a um passado recente.Rememora fatos que só mereciam o esquecimento da historia, como o vergonhoso desconvite que o Cabo Branco fez a JK para que participasse do seu carnaval. Os milicos vetaram a presença do ex-presidente cassado, apesar do esforço de Nelson para que o fato fosse contornado pelo Governador Ernani Satyro. Um fato para mim inédito: um segundo atentado à vida de Aloisio Afonso Campos, acontecido em Brasilia e que fez vitima de um balaço a sua secretária. Do hospital, Aloisio se socorre de Raymundo Asfora para as providencias legais e abafamento da mídia.Na ocasião, quem estava com Asfora em um restaurante de Brasilia? Justamente Nelson, que ajudou a acudir a moça.


O testemunho de Nelson Coelho envereda pela sua vida familiar e narra sem meias palavras as dificuldades que enfrentou ao virar oposição.Não esconde por igual sua decepção com os que lhe voltaram as costas naquele momento de sofrimento, negando-lhe uma oportunidade de trabalho. Renova sua fidelidade a José Maranhão mesmo diante da sua negativa de lhe favorecer com um exílio voluntário e remunerado junto a um governo amigo de estado vizinho.No governo a que serviu, se o chefe lhe faltava, os culpados eram Giovanni Meireles e Solon Benevides, nunca o chefe maior. Revela com esse comportamento, um acendrado sentimento de gratidão e de respeito, coisa incomum nos dias de hoje.


Quando aportei no Palácio da Redenção como repórter da Sala de Imprensa. e depois Oficial de Gabinete do Governador Pedro Gondim, Nelson Coelho já estava lá. Eu sai e ele ficou. E como foi difícil tirá-lo de lá...


A união há cem anos

Tenho recebido muitas reclamações pela ausência da coluna social nas páginas de A União.Há quem acredite que as noticias sociais atraem publicidade comercial.A vaidade custa caro, já me disseram. Noto certa resistência na “ creche” que Beth Torres organizou na redação. Os talentosos jornalista saídos da nossa universidade não valorizam a crônica social.Os que faziam A União., no passado, porém, não deixavam passar em branco as datas que marcavam o aniversário de destacados paraibanos.


Assim, em 1º de janeiro de 1911, A União tipografou o seguinte:”Dr. João Lopes Machado.Festas do dia do seu aniversário natalício.....foram ainda servidas finas bebidas.As 11 horas serviram-se finas iguarias, tomando parte na mesa todos os presentes.Terminaram assim as festas do dia primeiro, em regosijo pela passagem da data feliz do aniversario natalício de S. Exc.Dr.João Lopes Machado.Pessoalmente cumprimentaram s.exc.:dr. Pedro Pedrosa, coronel Ignacio Evaristo,dr.Carlos Cavalcanti,desembargadores Caldas Brandão e Heráclito Cavalcanti,drs. Américo Falcão e Xavier Junior, coronel Ernesto Monteiro,drs.Manoel Paiva e Ascendino Cunha...”


Mas o jornal popularizava a noticia e não privilegiava apenas as autoridades com seus registros sociais.Em ANIVERSÁRIOS, se escrevia: “ FAZEM ANNOS HOJE: o nosso talentoso colaborador e dedicado amigo Alcibíades Silva, zeloso contador dos Correios desta Estado...e “ o inteligente menino João Dubeux Moreira, filho do nosso distincto amigo dr.Artur Moreira...”


Sem duvida que à época o jornal era indispensável aos lares paraibanos e não tinha concorrente à altura.Por essa razão, a prestação de serviços era ampla, geral e irrestrita tal qual a anistia de 64. Assim, o jornal avisava aos alunos do Lyceu que “Hoje, as 10 horas do dia serão chamados à prova oral de línguas os estudantes inscriptos para o curso de Pharmacia” (07.03.1911). Por outro lado, pelas nossas páginas, saber-se-ía quais os membros da nossa briosa Policia estariam de serviço:”Serviço de hoje:Ronda à Guarnição-Alferes Elysio.Official de dia no Batalhão-Tenente Ladislau.Auxiliar de Official de Ronda-1º Sargento Francelino.Inferior do dia-2º Sargento Enéas.Comandante da Guarda da Cadeia-3º sargento Juvino”.


Os serviços religiosos eram anunciados regularmente. No dia 18.02.1911, a Santa Casa avisou que “ realizar-se-á amanhã as 7 da tarde, a bênção da imagem de Sant´Anna, que será collocada em um dos nichos do altar mor da Egreja da Santa Casa. A mesa administrativa convida os irmãos para comparecerem a esta solenidade.Haverá após a bênção da imagem, ladainha e benção do S.S. Sacramento com a assistência do preclaro Snr.Bispo,Ex.mo D,Adaucto” .Por outro lado, os eventos que comprometiam os adversários da nossa “religião oficial”, também não eram esquecidos.Assim se publicou:” Depois de commungarem na egreja lutherana Peterrhoff, Russia, 32 pessoas sentiram-se doentes.Descobrio-se depois que tinham ingerido Acido Sulpfurico e chlorato de potassa, em lugar de vinho.Todas ellas vieram a falecer.”


A proteção à saúde também era objeto de prestação de serviços. Foi transcrita noticia da Provincia do Recife, em 1º de janeiro de 1911 que anunciava: “ a acreditada pharmacia Modelo, dos srs.J.B.Guimaraes & Cia, sita a rua Barão de Victoria n.67, recebeu o afamado especifico contra syphilis, o “606” que está sendo vendido sob a denominação de Salvarsan”.


Por fim, destaco mais uma vez Fernando Moura em resposta ao meu pedido de desculpa por incursionar na seara do “Jornal de Hontem:...” Quisera que pudéssemos ampliar preferências e pesquisas para que a história paraibana não ficasse restrita a privilegiados como nós, que podemos dispor do rico acervo da Velhinha para nosso deleite e esclarecimento” .


Ontem, tive acesso a uma primeira proposta de digitalização do nosso arquivo de 118 anos, para disponibilização na rede mundial de computadores, a Net, para os íntimos.