A ESCOLA NO TEMPO DO IMPÉRIO


A valorização da instrução pública era uma das prioridades do Império. Os governantes que passaram pela direção da província da Parahyba do Norte deixaram registrada essa preocupação primeira. Quando Pedro II visitou esta província, no Natal de 1859, nas cidades onde esteve, preocupou-se em conhecer as condições das escolas existentes. Seu exemplo foi seguido pelo gaúcho Silva Nunes, primeiro presidente a percorrer o nosso interior que, recebido nas câmaras municipais, inspecionava as escolas masculina e feminina, abordava os mestres e registrava a frequência. Silva Nunes que, por ser genro do Barão de Muritiba ainda seria eleito deputado pelo Espirito Santo e governaria a Bahia, em sua mensagem de despedida aos paraibanos, deixou nos anais da Assembleia provinciana seu conceito sobre a escola e os professores no território paraibano, do que, destaco: “Em Província nenhuma do Império são eles (os professores) remunerados como na Paraiba. Longe de censurável, é louvável esse procedimento dos legisladores da Província; cumpre, porém que esse bom vencimento só o tenha quem verdadeiramente trabalhe e mereça”.(março de 1861)

Alguns anos antes, porém, coube a um baiano, bacharel de Olinda de 1832 e designado para presidir a Parahyba entre 1848 até 1850, mandar elaborar o primeiro regulamento da escola pública paraibana. Chamava-se João Antonio de Vasconcelos e, depois de governar a Paraíba, continuou sua carreira no Judiciário. Chegou a desembargador e presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, de onde saiu para ministro do Supremo, chegando à sua presidência. O regulamento para as escolas de Instrução Primária da Província da Paraíba do Norte data de 20 de janeiro de 1849 e foi elaborado em cumprimento à Lei Provincial nº 14 do ano anterior. Detalhes curiosos foram inseridos nessas normas, a começar do local a ser procurado pelo pro fessor, que deveria ter “para sua aula, casa sadia, com sala grande, bem clara e arejada e em tudo apropriado ao estabelecimento de uma escola”.

A submissão à Igreja Católica e ao Império, deveria ficar explícita em cada sala de aula pois “em frente dos meninos, na escola, haverá uma Imagem de Cristo e o retrato de S. M. Imperial.” Nas paredes deveriam ser pregados os avisos em que se achem “traçados os principais deveres dos discípulos e as penas máximas da religião e da moral”. O professor ficaria no centro da sala ou na entrada, sobre um estrado de onde poderia, mesmo sentado, alcançar toda a classe. Na porta de toda escola seria inscrito o seguinte: “Instrução Primária pelo M&eacu te;todo Simultâneo Dirigido pelo Professor( aqui o nome do professor), diz a lei, que se preocupa, também, com a higiene: “A escola será varrida todos os dias e as janelas se conservarão abertas nos intervalos das lições” como foi escrito no artigo 6º do Regulamento.

O regulamento da escola imperial detalhava as exigências disciplinares, as recompensas e os castigos. Fixava a idade mínima de seis anos para o ingresso na escola. Todavia, o aluno somente seria admitido caso provasse “ter tido bexiga ou sido vacinado” contra o mal. Entre os discípulos mais obedientes, assíduos e inteligentes, seriam escolhidos monitores para ajudar o mestre nas suas tarefas e, inclusive, um monitor- geral exclusivo para substituir ao professor na sua ausência, o que era “mui raro”. Aos monitores era recomendado chegar meia hora antes à escola, para “aparar as penas” e ajudar na organização dos liv ros e cadernos que deveriam estar em seus lugares antes do início das lições. “Cada discipulo, quando entrar, corteja o professor, vai por seu chapéu no lugar que está marcado com seu nome e número, depois volta a tomar assento no seu banco em silencio”. Se o aluno faltar, a família será comunicada. O professor não se familiarizará com seus alunos, “conquanto lhes deve ter muito amor”.

As recompensas aos alunos eram expressas em “bilhetes de satisfação”. O professor estimularia a disputa entre os seus pupilos, premiando as respostas corretas e, “nunca premiará se não a quem houver merecido”. Os alunos premiados teriam seus nomes expostos na escola e no domingo, após a missa, o professor leria essa “lista de honra”. Se o professor estivesse satisfeito com seus alunos, poderia proporcionar-lhes um passeio, durante um meio dia de feriado que seria concedido após um mês de desempenho satisfatório.

Quem não obtivesse recompensas ou bilhetes de satisfação, estava fadado ao castigo. A indisciplina, a inaplicação, a má conduta seriam punidas exemplarmente. “Mas os discípulos nunca devem ser batidos”, adverte a lei. Os castigos autorizados eram: “Uma ou mais notas más; a perda do lugar alcançado em vários exercícios; a restituição ou privação de um ou diversos prêmios; a privação de uma parte ou da totalidade das recreações com aumento de trabalho”. E mais: “Os rótulos com as palavras falta de verdade, indisciplinada, falador, preguiçoso etc. des ignando a natureza do erro... são colocados em papelão pendurados ao pescoço do discipulo por um cordão, caindo-lhes sobre as costas, que assim conservarão somente dentro da escola”.(Hoje seria considerado Bullying ). Mas, de certa forma, o Império era magnânimo e até brando: “O ajoelhamento durante uma parte da aula, ou da recreação: este castigo nunca excederá de um quarto de hora”. No grupo escolar de Borborema, onde estudei, essa norma do Império ainda vigorava aí pelos anos 1950, sob o domínio da professora Jaldete. Para ela, porém, o ajoelhamento de frente para a parede não tinha tempo definido e, sob os joelhos, acrescentava alguns caroços de milho. Lembrando disso, meu deu uma saudade enorme do castigo imperial.


Turma de Direito Comemora 50 Anos de formatura

A turma concluinte de 1967 da Faculdade de Direito da UFPB, vai comemorar seus cinquenta anos de formatura com um encontro de confraternização que será encerrado com uma missa no Carmelo Madre Tereza, na Capital do Turismo do Interior- Bananeiras, no próximo domingo dia 26 do corrente. Uma da menores turmas daquela faculdade, primeira sem o latim no vestibular, substituído por sociologia, terminou por eliminar muitos candidatos.

Da turma dois foram eleitos deputados; dois juízes estaduais; dois juízes do trabalho; dois desembargadores estaduais e outro federal; duas procuradoras, uma delas junto ao TCE e os demais, dedicaram-se à advocacia e ao serviço público estadual e federal, na área do direito. A propósito da formatura desses bacharéis, o Di&aa cute;rio de Pernambuco de 17 de setembro de 1967, publicou a seguinte nota:

“Presidente Costa e Silva Paraninfará Concluintes de Direito em João Pessoa- O presidente da República marechal Costa e Silvam, virá a Paraíba no próximo dia 22 de dezembro, a fim de paraninfar a turma concluinte da faculdade de Direito. A confirmação da vinda do marechal Costa e Silva foi transmitida a reportagem pelos universitários Eiman Pessoa e Severino Ramalho Leite. Os concluintes de direito convidaram o presidente da República para seu paraninfo quando da sua última visita ao Estado tendo o marechal Costa e Silva afirmando na ocasião que tudo faria para vir a Paraíba, fato confirmado através de telegrama enviado ao presidente da comissão organizadora da turma concluinte. Os novos bacharéis em direito são: Ademar Teotônio, Severino Ramalho Le ite, Sonia Maria Guedes, Eimam Pessoa, Luiz Guimaraes, Haenel de Carvalho, Geraldo Magela Macedo, Geraldo Magela Nóbrega, Otacílio Cartaxo Filho, Lavoisier Nunes de Castro, Marivardo Toscano, Jose Di Lorenzo Serpa, Gabriel Agra, Rostand Agra, Ana Tereza Nobrega, Maria Emília Torres, Jose Tarcísio Fernandes, Moacir Machado, João Machado, Geraldo dos Santos, Jose Mario Pedrosa, Josias de Figueiredo, Nelson Calixto dos Santos,  Aurea Brilhante, Maria Sonia Leite, Pérsia Vitório Serafim, Emilson Ribeiro, Maria Helena Soares de Pinho, Tereza Cristina de Ataíde.”

Dos integrantes da turma, quatorze já nos deixaram. Na quinta-feira próxima, dia 23, haverá uma visita de saudade ao prédio da faculdade e depois um almoço de confraternização.
 


Evolução Histórica da Cidade de Borborema - Antecedentes

Bananeiras, até 1827 pertencia a Vila de São Miguel da Baia da Traição ou Vila de Mont Mor da Preguiça e, a partir de então, foi integrada ao território da Vila Real de Brejo de Areia. Essa incorporação não demorou muito: em 10 de outubro de 1833, o presidente Antônio Joaquim de Melo sancionou a lei que deu emancipação política ao município, que passou a ter sede na Vila de Bananeiras. Essa lei tornou Bananeiras a segunda maior área geográfica do Estado, “arrastando consigo os territórios de Guarabira, Cuité e Pedra Lavrada” no dizer de Horácio de Almeida. Pelo texto da lei, porém, está citada Serra da Raiz e, os seus limites chegavam à fronteira do Rio Grande do Norte, com Araruna inserida, até 1877, quando conquistou sua independência. A população de Ara runa sempre reclamou a distância de nove léguas entre o distrito e a sede municipal, onde “são obrigados a prestar o serviço do júri, reunir colégio eleitoral e requerer qualquer ato judicial”, pois, desde 1857 fora criada a comarca de Bananeiras. O Barão de Mamanguape, senador do Império e Presidente da Província, assinou a lei 616 que criou a Vila de Araruna.

Nas décadas finais do Século XIX, o coronel Antônio Amâncio da Silva e sua esposa Águeda Rodrigues Ramalho, ele nascido em Piancó e ela em Bonito de Santa Fé por volta de 1856, deixam o sertão e se estabelecem no distrito de Tacima, onde nasceria, 1880, o primogênito desse casal, José Amâncio Ramalho. Seu pai era influente na política de Araruna e rico proprietário de terras. O jovem, que conheceríamos no futuro como um grande empreendedor, estudou em João Pessoa e depois foi concluir seus estudos na vetusta Faculdade de Direito do Recife, no ano de 1908, turma de que fez parte o escritor, político e renomado brasileiro José Américo de Almeida. Visionário desde a juventude, frustrado por não ter estudado engenharia, José Amâncio, contudo, exerceria grande influência no desenvolvimento econômico desta região, a começar por Araruna onde se fixou inicialmente.

José Amâncio não havia concluído ainda o curso de direito. Convenceu os políticos da Vila de Araruna a construir um Mercado Público, como meio de organizar seu comercio e desenvolver o progresso daquela comunidade. Ainda no ano de 1908, o bacharelando assinou um contrato com o Conselho Municipal de Araruna para erigir aquele empreendimento. A Vila de Araruna não dispunha mais do que dez contos de reis anuais. O Mercado custaria cerca de trinta contos. José Amâncio resolveu bancar a construção, dentro de algumas condições que lhe asseguravam a exploração dos serviços por cerca de dez anos. A repercussão dessa iniciativa colocou o empreiteiro em alta diante da sociedade ararunense, causando ciúmes aos Targinos que, desde então, já dominavam o poder econômico e político da Vila. O espaço político qu e José Amâncio tentava conquistar lhe foi negado. Sua divergência com os Targinos levou à rescisão do contrato de exploração do Mercado. Um acordo foi celebrado e pelos quatro anos restantes, o contratado recebeu quatro contos de reis de indenização.

“Idealista, corajoso, espírito criador e de acurada visão do futuro, Amâncio trazia consigo os ideias de mudanças despertadas com a chegada do novo século” diz Humberto Fonseca, traçando seu perfil. Por volta de 1914, desfeita a sociedade com o Conselho Municipal de Araruna, José Amâncio resolve buscar novos ares. Há um registro de que desde 1912, teria comprado terras a um tal de João da Mata. O único que identifiquei, era influente em Araruna e se tratava do capitão João da Mata Lins Fialho que, detentor de posses nesta área, as vendeu a José Amâncio.

O trem acabara de aportar na Vila de Camucá e José Amâncio divisou novos horizontes onde exercer seu espirito empreendedor. A essas terras, dr. Zé Amâncio, como tornar-se-ia conhecido, denominou Boa Vista. Até 1943 chamou-se Camucá e, finalmente, Borborema.

UM DISTRITO DE DESTAQUE

O trem passaria dez anos tendo Borborema como sua parada final. Somente depois de concluído o túnel da Serra da Viração, o comboio alcançou Bananeiras, isto por volta de 1925. Alguns anos antes, em 1919, a sede municipal passou a utilizar a energia elétrica. O distrito de Camucá, porém, já estava iluminado pela iniciativa de José Amâncio Ramalho, criador da Hidroelétrica Borborema. Daqui seria distribuído energia para sete cidades do brejo. Uma barragem do rio Canafístula possibilitou essa inventiva pioneira no nordeste, perdendo apenas para Delmiro Gouveia que aproveitou as águas do São Francisco para uma pequena usina destinada à sua fábrica de linhas. Depois surgiria Paulo Afonso.

O lago que se formou com o barramento do rio, invadiu terras e derrubou casas que ficavam na sua margem. Ainda lembro que, nos anos mais secos, a queda do nível da barragem deixava ver os alicerces das casas submersas. Os proprietários foram indenizados. Descobri escrituras de terras compradas a um pernambucano de Timbaúba, de nome José Cavalcanti e, também do doutor Nuno Guedes Pereira, todas inundadas pelo açude. Antônio Nogueira Campos, outro pioneiro, por igual teve terras cobertas pelas águas. Para compensar as ruas desaparecidas, foi elaborado um novo traçado da cidade, e o distrito ganhou avenidas largas e espaçosas que não se vê em outra cidade da região. Essas ruas receberam a denominação dos estados brasileiros. Eu, por exemplo, nasci na rua Amazonas, hoje Barôncio Lucena. Tudo obra do desbravador José Amâncio Ramalho que tenho como Fundador do Povoado de Boa Vista, depois Borborema, Camucá e novamente Borborema.

Conseguida a energia, outros empreendimentos surgiriam. Os engenhos de produção de rapadura e aguardente, somente a partir dos anos 1960 adotariam a energia elétrica como força propulsora, inclusive o Engenho de José Amâncio, que ficava no pé da queda d´água e a dois passos da usina de energia. Um pouco acima, foi instalada uma indústria de fécula e ainda um despolpadora de arroz. Dessas inIciativas de Amâncio, resta o açude e, até pouco tempo, o bueiro da fecularia já desaparecido. Sua sirene, acionada na passagem do trem por seu terreiro, ainda ressoam em meus ouvidos. Nascido na beira da linha, foi o segundo som que me chegou aos ouvidos. O primeiro, foi o grito da parteira mãe Luiza: é homem. Nas minhas narinas, ainda sinto o cheiro da fuligem cuspida pela Maria Fumaça.

O trem e a energia elétrica foram os dois alicerces propulsores do desenvolvimento do distrito. Um comercio efervescente e um centro de compra e venda de especiarias formou-se por aqui. A civilização do café e os seus resultados nos bolsos do produtores, refletem ainda hoje no casario antigo que se mantém intacto, merecendo tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico, para evitar sua descaracterização. Para montar a usina elétrica, chegaram os alemães. Mecânicos dos melhores, depois se estabeleceram para consertar e fabricar peças de engenhos e alambiques. Frederico Kramer esteve aqui até 1922. Voltou à Alemanha e trouxe seu irmão Harris que casou com uma Lucena, dona Alzira, chefe dos Correios até se aposentar. Guilherme Groth completou o trio germano. Este foi comerciante o tempo todo. Esteve em Borborema até 1936, quando se tem n otícia de venda de alguns imóveis seus ao dr. Zé Amâncio. Mudou-se para Moreno (Solânea) onde ficou até que lhe queimaram a casa, após afundamento de navios brasileiros pelas forças do Eixo. Chegou de volta à Borborema em 1942 com os salvados do incêndio. Aqui se estabeleceu fazendo de meu pai, Arlindo Rodrigues Ramalho, o seu sócio brasileiro. Vendiam tecidos, ferragens, material de construção e até agua destilada para encher bateria. Frederico, que em Borborema também negociou com café, migraria depois para Natal e nos anos 1930, era o gerente da Usina Borborema, em Bananeiras. Encontramos o registro de sua passagem por esse emprego, no Livro de Tombo da Igreja de Nossa Senhora do Livramento, em queixa do padre José Diniz, inconformado com a ação do alemão cortando a luz da igreja a mandado do proprietário da Usina, sob a
justificativa de que caia a qualidade da energia publica quando eram acesas as luzes da Matriz.

Nos anos 1940, com a grande guerra começando nos campos da Europa, Borborema ganhou perfil no Censo Demográfico daquele ano, como registrou Coriolano de Medeiros no seu Dicionário Corográfico da Paraíba:

“Na Vila encontra-se a queda d’água da Canafístula, movimentando a usina elétrica que fornece energia e luz à vila, à vila de Solânea e às cidades de Serraria e Bananeiras. É servida de estação ferroviária, por agencia postal e por duas escolas públicas primárias que tiveram 160 matriculados em 1942 e uma frequência média de 102. Segundo o recenseamento de 1940, tem a vila 312 prédios urbanos, 8 suburbanos, 1.750 rurais e a população urbana, 1.262 habitantes; suburbana 87 e rural, 3.419,”

A EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO

O registro de Coriolano Medeiros sobre a educação na Vila, demoraria a sofrer alterações. Por muitas décadas, apenas o chamado curso primário, era ministrado. A primeira professora nomeada pelo estado para atuar na cidade foi Argentina Pereira Gomes que lecionou no Liceu Paraibano até perto dos setenta anos, demorando a se aposentar. Seu nome batizou uma Escola de Formação de Professores, na Capital. Fui seu aluno de português no Liceu e ela, sabendo que eu aqui nascera, fazia questão de ressaltar esse detalhe do seu curriculum: - Fui a primeira professora de Borborema, dizia orgulhosa.

As irmãs Jardim, dona Matilde, dona Laura e dona Aline, por muitos anos, pontificaram na educação de muitas gerações. Fui aluno de dona Laura e de dona Matilde. Na direção do grupo escolar quase se eterniza a professora Jaldete Guedes Pereira de quem fui aluno no último ano do curso primário. Mas a minha querida professora foi mesmo Carminha Costa. Dedicada aos seus alunos, com ela não precisava comprar livros. Ditava as aulas que eu copiava e depois meu pai passava a limpo. Minha primeira professora chamava-se Maria Candido e teve um triste fim depois de um casamento infeliz. Em Borborema, quem quisesse estudar mais, teria que se mudar. Eu, por exemplo, fui exilado para Natal.

Somente nos anos 1970 foi criada uma unidade de ensino médio, a Escola Comercial que consegui instalar através da Fundação Padre Ibiapina. Fui diretor da Escola e o sr. Antônio Costa, seu secretário e professor de contabilidade. Na administração do governador Dorgival Terceiro Neto quando eu já era deputado estadual, estadualizei a escola. O prefeito Amâncio Ramalho, conseguiu instalar o segundo grau. Está ai funcionando a Escola Estadual Efigênio Leite e a partir dele, muitos jovens borboremenses ingressaram no curso superior. Era esse o meu desejo, expresso quando da criação do colégio estadual: que os meus jovens conterrâneos tivessem na sua terra, a oportunidade de estudo que eu não tive. Para a história, gostaria de registar: fui o primeiro bacharel em direito nascido na cidade. O primeiro médico foi Cícero Pereira que morava em c asa vizinha à do meus pais. O primeiro odontólogo, Geraldo Nogueira Campos era filho de Tota Nogueira. O segundo foi João Américo Pinto, filho do comerciante Júlio Pinto. Hoje, com muita alegria sei que é difícil contar os filhos desta cidade que conseguiram o grau superior.

O NASCER DE UMA CIDADE

Quando Solânea lutava pela sua independência, o dr. Zé Amâncio mandou chamar meu pai para participar de uma reunião em sua residência. Chegando lá, ele encontrou o vereador João Rocha, o advogado Alfredo Pessoa de Lima e o professor Alencar, membros da comissão encarregada dos tramites visando a emancipação do distrito de Moreno. Dr. Zé Amâncio tinha uma proposta a fazer ao meu pai: se ele aceitasse que o Distrito de Borborema fosse agregado ao Município de Solânea, seria nomeado primeiro prefeito do novo município. Meu pai recusou a oferta e justificou que estava lutando pela independência de Borborema. Solânea tornou-se cidade em 1953, Borborema em 1959.

À época, a Assembleia Legislativa exigia do município sede, uma Resolução que indicasse os limites da nova unidade a ser criada. A Câmara de Bananeiras votou a Resolução 34/58 de 12 de dezembro de 1958, autorizando o desmembramento e fixando os limites. Um projeto do deputado Antônio Nominando Diniz foi transformado na Lei 2.133, de 18 de maio de 1959, dando autonomia ao território do antigo distrito de Camucá. A criação da Comarca de Borborema também constava da lei, todavia, um veto parcial do governador Pedro Gondim negou a comarca e liberou a cidade. Sua instalação ocorreria a 12 de novembro daquele mesmo ano, com a nomeação e posse do primeiro prefeito, sr. Antônio Barbosa da Costa. Este, ao lado de Arlindo Rodrigues Ramalho, Dionísio Pereira dos Santos, Diógenes Pinto de Sena, Severino Leite Ramalho, Aristeu Uchoa Pinto, José Luciano de Medeiros, Carmelo Gomes de Souza, Francisco Cardoso, José Aguiar Bezerra e outros, representavam a comissão de frente da luta pela emancipação política de Borborema.

Em 3 de outubro de 1960 foi realizada a eleição do primeiro prefeito, recaindo a escolha, justamente, no vereador e servidor público Arlindo Ramalho. Seu vice Antônio Targino Leão venceu a José Aguiar Bezerra. Meu pai obteve 338 votos sagrando-se prefeito contra as pretensões do agrônomo Rubens Guerreiro de Lucena que alcançou 156 sufrágios. O analfabeto ainda não votava.

A primeira Câmara Municipal foi composta dos seguintes vereadores: Severino Leite Ramalho, presidente; Reginaldo Leite de Queiroz, José do Carmo Ramalho, Cicero Ferreira da Silva, Dionísio Pereira dos Santos, Luiz Galdino Ferreira, e José Luciano de Medeiros.

Naquele tempo as campanhas eram feitas a pé, ou a cavalo. Meu pai detinha uma relação com os nomes de todos os eleitores, apelidos, parentesco e residências. Mas lhe faltava o cavalo. O major Augusto Bezerra lhe emprestou o animal e, montado nele, meu pai visitou todos os eleitores do município, casa por casa.

Anunciada a vitória, uma caravana motorizada partiu de Borborema para Bananeiras, nos jeeps e caminhões disponíveis. À época a cidade contava apenas, doze veículos. À frente da caravana, desde a entrada da cidade, ia meu pai, montado no cavalo, ambos cansados da batalha vencida. Todos desceram dos veículos e a caminhada foi até a casa do major Augusto, onde o cavalo foi solenemente devolvido ao seu dono.
Com o nascimento da cidade, começa um novo capítulo da sua história. 


RUA DO SILO, BORBOREMA-PB

Quando eu era uma criança pequena lá em Borborema, subi algumas vezes pela escada de ferro que dava acesso ao teto, em forma de cone, de um silo existente no final da rua que tinha início na margem da linha do trem, antes chamada de Avenida Amazonas e hoje,Barôncio de Lucena. A partir dali, se iniciava a Rua do Silo. Um pequeno caminho, ligava o terreiro do silo ao horto dos eucaliptos que oferecia encanto e perfume aos arredores da igreja de Nossa Senhora do Carmo. Nunca procurei saber a origem daquele depósito de cereais e acho que, na cidade, ninguém conhece a sua história. O silo continua lá, imponente, testemunha daquilo que vou contar.

O presidente Solon de Lucena, um dos maiores gestores da Parahyba na primeira República, contratou no ano de 1921, o engenheiro americano H. Frank Machner para a construção de dois depósitos de cereais, a serem erigidos nas zonas secas do estado. Escolheu Arara e Catolé do Rocha para as primeiras unidades. Em mensagem à Assembleia, um ano depois, dizia: ”Feito para modelo e estímulo à curiosidade dos nossos agricultores, o silo construído em Arara mostrou às populações d’aquelle povoado e arredores como é possível conservar o milho e outros cereaes, a salvo das pragas que os atacam, ficando assim resolvido praticamente o problema da conservação dos mesmos e, se houver um pouco de inciativa individual regularizada, de vez, a valorização d’aquelles gêneros de primeira necessidade, no desequilibro criado pelas demasias intempestivas da oferta e da procura. Com capacidade para cinquenta toneladas foram nelle guardadas, por espaço de 6 mezes, 1.700 cuias de milho havendo sido encontradas, no fim desse tempo, em perfeito estado de conservação.”(grafia da época)

Dois anos depois, o Presidente vangloriava-se da sua iniciativa, vez que, muitos proprietários, seguiram o exemplo do governo e mandaram construir outros depósitos à semelhança dos projetados pelo engenheiro americano.

Foi o que fez o major Barôncio de Lucena, nas suas terras da Vila de Borborema. Mandou construir o silo na parte mais elevada da Vila, em cima de uma lajedo, escavado em apenas seis centímetros para sua fundação. O silo tem dois compartimentos, separados por placa de concreto armado. O major inovou no seu modelo e colocou duas válvulas de descarga, permitindo que o silo fosse sendo esvaziado aos poucos, sem expor os cereais ao perigo com a abertura das portas de enchimento. O empreendimento custou oito contos de reis ( 8:000$000) e o Major pagou 40 dias de serviço aos pedreiros, 600 dias aos trabalhadores, além de 75 dias ao administrador da obra. A capacidade do silo era de seis mil e setecentas cuias de cereais. O administrador dessa obra, feita sob as vistas do Major Barôncio, foi o sr. Severino Guilherme de Figueiredo, residente em Timbauba( PE).

A ideia dos silos foi do PresidenteSolon de Lucena mas o presidente João Suassuna, já eleito, avisou que pretendia fazer algumas alterações no modelo em voga. Pretendia o novo governante da Parahyba, a partir de 1925, mandar alterar o teto dos silos. Ao invés do seu formato em cone ou pirâmide, passaria a ter um teto em formato de funil, possibilitando o enchimento, por gravidade e, de forma mais rápida. Sendo proprietário de uma dessas unidades em Taperoá, Suassuna pretendia oferecer uma ajuda do Estado a quem desejasse os silos em suas propriedades. O Estado construiria e, no final, receberia a parte que competiria ao proprietário. Mandaria vir dos Estados Unidos, pelo menos, duas formas metálicas para facilitar o trabalho. Não tenho informação se esse propósito foi executado.

Em Pernambuco foi disseminado outro modelo de silo que chegou à Parahyba através de Princesa. Era o silo de ferro galvanizado. Um comerciante local, de nome Nebrídio Granja possuía uma infinidade desses silos e passou a ser um verdadeiro monopolista do comercio de cereais, em qualquer época do ano, pois o silagem lhe permitia enfrentar as oscilações de preços com a garantia de lucro certo. Uma fábrica desses depósitos de ferro foi instalada em Princesa pelo sr.Inocêncio Nobrega que, na produção dos silos empregava de seis a oito operários. Quem me leu até aqui, há de se perguntar onde encontrei esses detalhes que acabo de expor. Vou dizer: um jornalista nascido em Martins-RN, visitou a Parahyba em 1924 e registrou em um livro suas impressões sobre o que viu nas cidades por onde passou. Fez o percurso de trem e onde tinha estação ele parou, conversou e anotou. Joaquim Ignácio Carvalho chegou ao senado da República.

Na nova república ou na novíssima, não lembro de nenhum governante que tivesse a preocupação de proteger a produção agrícola dos agricultores. Só TarcisioBurity, no seu segundo período. Ainda hoje, quem andar pelo sertão e curimataú encontrará nas salas dos agricultores um silo metálico distribuído pelo seu governo. Mas essa é outra história.

O que desejei mesmo, com esse assunto, foi trazer à lide, a cidade de Borborema, onde nasci na beira da linha do trem e que, neste 12 de novembro, completa 58 anos de emancipação política. Invoquei a Rua do Silo e um pouco da sua história, em homenagem à data.


UM LIVRO COM GOSTO DE MEL E DE CACHAÇA

A primeira promessa que fiz a Zélia Almeida data de 1993. Presidindo uma comissão de análise de projetos, ela me procurou para entregar a reivindicação da Associação da Industria do Vestuário do Estado da Paraíba. Os pequenos produtores de roupa queriam 57 milhões de cruzeiros novos. Eu era diretor do Banco do Nordeste e o banco tinha o dinheiro. Prometi lutar pelo pleito. A segunda promessa, estou cumprindo agora: apresentar, com muita honra, para quem ainda não conhece, o seu livro Bem Estar e Riqueza no Brejo de Areia. Confesso meu pecado: apresentei-o, primeiro, a mim mesmo, um brejeiro que não merece perdão, por ter demorado tanto a mergulhar nas brenhas da terra de Pedro Américo e, pelos olhos de Zélia, del iciar-se com a produção da rapadura e da cachaça. Vi-me de volta à infância, reencontrando nas Laranjeiras, os caminhos percorridos do Poço Escuro, onde minha avó, trazida do sertão para a Casa de Caridade do Padre Ibiapina pontificava como viúva e herdeira, do engenho e da filharada do tenente Zé Rodrigues.

O livro de Zélia é uma declaração de amor ao Brejo de Areia. Como analista de projetos e economista renomada, vasculhou a memória e colocou nas suas páginas a visão da criança e da adolescente a testemunhar a evolução econômica e cultural da sua terra. E definiu alicerces: os engenhos, a escola de agronomia e as freiras alemãs fugidas de Hitler. A cidade viveria em torno desses pilares. Os engenhos, na entressafra, aproveitavam seus trabalhadores na produção da agave. Mas a economia de Areia atravessaria várias fases, desde o café, cuja qualidade rivalizava com o centro sul do País, à cana de açúcar, ainda hoje sobrevivendo e fazendo circular a riqueza do município. Antes, p elo açúcar e a sólida rapadura, hoje pelo líquido precioso que passarinho não bebe: a cachaça. Ela retrata o cenário das Laranjeiras, engenho da sua infância: “No centro, o engenho de rapadura, casa das desfibradeiras de agave, a casa do alambique da cachaça e a casa de farinha. Nos altos, terras de maior declividade, sisal ou cana, dependendo da vontade do Doutor. Doutor duro de vontade que, nem sempre, seguia as vontades compatíveis com tecnologias próprias utilizadas nas terras, daquele local. Ele queria que produzisse. Não media produtividade. Como eram verdes meus altos, vales e ribanceiras”. Fala a memorialista e romântica brejeira, sem perder o norte de quem se preocupa com o resultado econômico da atividade do campo que o Doutor não visualizava. As imagens se misturam, as desfibradeiras rosnam enquanto a menina ap recia o leite morno saindo do peito da vaca.

A mocinha pedia pouco. Bastava correr pelos canaviais que sua felicidade estava completa. “Me sentia a rainha do mundo”, confessa. Mas não despregava os olhos da vida que a cercava. Dava para comparar a distância entre a casa grande e o mocambos dos trabalhadores. A escravidão ganhava outras formas, uma delas, era a dependência do barracão. O Mundo Novo, engenho do coronel Cunha Lima, ainda guardava liames com o passado. “Severina conta que lá, há mais de um barracão. São vários. Paga um, sai dinheiro, fica devendo, compra noutro, sai dinheiro e vai rolando o dinheiro pelos barracões do Mundo Novo. Era o único jeito dos filhos comerem mais. Não comem direito... pouca coisa. Ainda fica pendurado para pagar no dia da conta”. Zélia não comenta esse cenário de pobreza e resignação, deixa ao leitor o julgamento.

Depois que surgiu a Usina de Açúcar, diminuiu a produção de rapadura. Os plantadores de cana, passaram a fornecedores da usina. Poucos resistiram à nova ordem. Também, quem comia rapadura, passou a preferir o açúcar refinado. Um dia, narra a autora, perguntou:

“-Pai, quem come rapadura?

 - Os pobres do sertão!

- E quando os pobres do sertão ficarem ricos, quem vai comer rapadura? Insistiu. A resposta foi premonitória.

- Melhor produzir aguardente. Aguardente é como uísque, todo mundo gosta.

Depois que a má gestão e a Justiça do Trabalho deram fim à Usina Santa Maria, foi o caminho que restou à economia do brejo: a cachaça. Em algumas áreas, a banana surgiu como fonte de renda. A pecuária, só para consumo familiar. Quem criava boi no brejo, tinha que possuir fazenda no Curimataú para onde levava seu rebanho no inverno. O Barão de Araruna levava seu gado para a fazenda Capivara, em Cacimba de Dentro, fugindo do clima de Bananeiras. O mesmo acontecia com os senhores de engenho de Areia. Um parêntesis: Quando deputado federal, enviei apelo ao Ministério da Educação para que se adotasse a rapadura na merenda escolar. Os engenhos diversificaram a apresentação do produto e a rapadura granulada passou a frequentar a mesa da s escolas. Fecho o parêntesis. “A rapadura em Brejo de Areia era comida para substituir a carne. Junto com a farinha. Eu via. Colocavam a rapadura para adoçar o café. Não tinham dinheiro para comprar açúcar. Ou misturavam na coalhada. Era necessário, útil, mas não dava o prazer de comer, como a cachaça dava para beber, ensina Zélia, para quem, “nas usinas do brejo a pobreza se esconde e existe”.

Depois de reviver a saga dos engenhos e dos que vivem neles e do que produzem, Bem Estar e Riqueza no Brejo de Areia revisita, sob os olhos sonhadores da menina Zélia Almeida, a Escola de Agronomia do Nordeste e o Colégio Santa Rita, duas vertentes que desaguaram na cidade e ajudaram a construir a sua história. Conta que José Américo, o idealizador da escola, em tom de blague arrolou entre as vantagens daquele estabelecimento: vai facilitar o casamento das moças de Areia. O Santa Rita educava as meninas, a Escola trazia os futuros noivos.

Mas não se pense que a irrequieta Zélia Almeida revelou conformação com a falta de emprego e renda resultantes da desativação da Usina ou o crescente número de engenhos de fogo morto. Seu livro se encerra com um projeto de futuro: o aproveitamento do clima, da história e da cultura da cidade como motivos de atração turística. A gastronomia, a cachaça de melhor qualidade, as festas que giram em torno até da banana seriam o apelo para conhecer e, melhor, fazer de Areia, uma segunda residência. Surgiram os condomínios fechados e os hotéis. Falta ocupá-los. Zélia dá a formula.

Brejeiro como Zélia, mergulhei com gosto nas páginas do Brejo de Areia. Como disse antes, foi como reviver o meu passado pelos engenhos dos meus avós. Menino urbano, não me prendia muito ao campo. Era um visitante esporádico. Mas lendo Zélia, degustando sua deliciosa narrativa pelas serras verdes dos contrafortes da Borborema, lamentei o quanto perdi. O que li, me deixou com água na boca, digo melhor, com o gosto do mel de engenho, o sabor da rapadura e o desejo de um gole da melhor cachaça.


DOM JOSÉ E O ESQUADRÃO DA MORTE

Lembro-me muito bem da chegada de Dom José Maria Pires a esta capital para assumir o arcebispado da Paraíba. A igrejinha de Santo Antônio, lá no Oitizeiro, a mesma onde Rui Carneiro costumava fazer suas orações todas as vezes que aportava no Estado, foi o ponto de espera. Uma carreata, tendo à frente um jeep sem capota conduzindo o novo chefe da Igreja entre nós, seguiu pelas ruas desta cidade, os fiéis estacionados nas laterais a saudá-lo. Os organizadores da recepção, aos poucos, foram deixando o círculo do poder católico que se instalava. Não rezavam pela cartilha do novo líder. O Palácio do Bispo seria ocupado pelos mais humildes, os injustiçados, os perseguidos. O seu inquilino optara pela Senzala, para desgosto dos donos das Casas Grandes que acabavam de se encastelar no poder, graças à assunção dos militares. Era 1965.

Dom José, nascido em 15 de março de 1919 no distrito de Córregos, Conceição do Mato, MG, tinha um trabalho pastoral voltado para os desvalidos, o que não agradaria às elites dominantes. Seus sermões foram por vezes gravados e censurados pelo regime de então. Era uma missão que ultrapassaria as nossas fronteiras e, uma palavra ouvida com respeito na CNBB. Os bispos nordestinos o entronizaram na presidência da Comissão Episcopal Regional e os trabalhadores de Alagamar, agradecidos, acataram-no como um deles e o amaram para sempre. Subscritor do Pacto das Catacumbas, firmado por Padres Conciliares que se comprometiam a viver na pobreza e a renunciar aos privilégios do poder, deixou a vivenda nobre da praça Dom Adauto e passou a residir em uma pequena casa defronte ao Cruzeiro, no ádrio de São Francisco.

Foi nessa humilde residência que o procurei em um dia de 1985, a pedido do governador Tarcísio Burity. A Paraíba, naqueles tempos, estava violentada pelo chamado Esquadrão da Morte, um grupo paramilitar que pretendia eliminar notórios criminosos e fazer Justiça com as próprias mãos. Os registros de mortes encomendadas cresceram e, pessoas sem qualquer histórico criminal mas, apenas, por serem testemunhas da ação ilegal dos mascarados de capa e botas pretas, foram, igualmente, condenadas. O pároco de Guarabira, Padre Adelino, tomara para si a tarefa de denunciar os matadores que, segundo era sabido e ninguém tinha coragem de denunciar, eram chefiados por um tenente da Policia Militar, chefe do P2 e seus seguidores, um dos quais, por ironia, chamava-se Pacífico. O padre entrou na lista dos marcados para morrer e foi esse o motivo da minha visita a Dom Jos&ea cute;.

Antes, eu já promovera um encontro entre o padre Adelino, o governador Burity e o secretario Talião, na residência de Bosco Carneiro, em Alagoa Grande, instado pelo advogado Paulo Freire, que me apresentou ao vigário. O governador tomou conhecimento da estratégia do grupo de extermino e lembrou sua experiência anterior, quando enfrentou em Campina Grande outro grupelho que se cognominou de Mão Branca, com os mesmo objetivos daquele que passou a atuar em Guarabira e municípios vizinhos. Prometeu tomar providencias. Dias depois, eu cumpriria missão junto a dom José, como narrei no início. Burity estava informado por fonte da inteligência da Policia Militar que o Padre Adelino estava com os dias contados. Para evitar esse desfecho, teria que deixar o país. Foi o recado que levei a Dom José.

Homem preocupado com o respeito aos direito humanos, chegando a criar um Instituto para essa finalidade, Dom José só tinha a lamentar que durante sua gestão como Arcebispo, surgissem, na Paraíba, esses grupos de extermínios. O governador confessava que não tinha como evitar a morte do padre e se comprometia a custear seu exílio quase voluntário. Dom José compreendeu a situação e conseguiu um curso para padre Adelino em Roma. Dois anos depois, desfeito o Esquadrão da Morte, presos ou foragidos os seus integrantes, Adelino retorna à Paraíba e entra na política. Se elege vereador na Capital e depois deputado. Os militares responsáveis pela morte de mais de quarenta pessoas foram sentenciados a penas que ultrapassavam mais de cem anos. Dom José, que coordenava um esquadrão do bem, deu também seu contributo para eliminar o esquadr&a tilde;o do mal. Desde o último domingo, repousa em paz, ao lado do Pai. 


TERRA À VISTA

Quando Cabral aportou nas costas da Bahia e, das naus de sua esquadra avistou-se um monte alto a que se denominou Monte Pascoal, começou a nascer um país que, quinhentos anos depois, ainda refletiria a semente plantada naquela terça-feira, 21 de abril. Não me acanho de repetir o lugar comum de que, a qualidade da gente trazida para ficar e se misturar com os índios não germinaria bons frutos. Pero Vaz de Caminha mandaria dizer a dom Manuel, o Venturoso, que o Capitão “mandou com eles (os índios) para ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. O degredado levava uma bacia pequena e duas ou tr ês carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se lá o houvesse”. Foi a primeira ação de corrupção com pagamento de propina que se registrou nesta terra de Vera Cruz.

“O Capitão, quando eles (os índios) vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço...acenderam-se tochas e eles entraram...um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra.E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!...Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Narrou o escrivão da frota.

Os portugueses, sem dúvida, estavam interessados no ouro e na prata. A procura de especiarias era só uma desculpa para quem saiu com destino às Índias e, desviado da rota por falta de vento terminou por descobrir novas terras. Os silvícolas pediam pouco. Encantaram-se com as contas de um rosário e pediram-nas de presente, enfeitando de logo seus pescoços. Através de gestos, propunham a troca das contas por ouro e prata que, ao que indicava, era abundante na nova terra. Os visitantes tomaram a resolução de levar dois daqueles índios, mesmo à força, à presença do Rei de Portugal, deixando em seu lugar dois degradados. A primeira tentativa de sequestro entre nós foi abortada pela sugestão de que, os degredados, ficando em terra, teriam muito mais a contar sobre o território conquistado. Assim foi feito e mandado dizer a El Rei:“E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui dois degredados quando daqui partíssemos”. Não esqueceu Pero Vaz de informar que, além dos degredados, “dois grumetes, que esta noite saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. Tutto buona gente!

“E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo” concluiria Pero Vaz. Na despedida, contudo, não deixou de cobrar do seu amo, um pequeno favor. Bastou demorar-se por aqui e respirar o nosso clima por alguns dias, para descobrir o jeitinho brasileiro. Escreveria ao final de sua famosa Carta: “E pois que, Senhor, é certo qu e tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé, a Jorge de Osorio, meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê.”Era a primeira notícia do nepotismo em terras brasilienses.

Lendo a Carta de Pero Vaz de Caminha, nosso primeiro testemunho escrito sobre a nova terra e sua gente, chego à conclusão de que o Brasil tem jeito. Basta começar tudo de novo...


UM PARAIBANO DE CAICÓ

O menino nasceu em Caicó, no vizinho estado do Rio Grande do Norte, pelos idos de 1923, em um dia 13, desafiando a data aziaga. Antes dele, morreram dois irmãos com o mesmo nome. Ele escapou depois de ultrapassar o primeiro ano de vida, sendo o quinto, de uma prole de nove nascidos da união de Francisquinho com Besinha, apelido de Isabel. O pai poderia ser encontrado com o sobrenome de Saldanha ou Sapateiro. Era um liberal, febre que costumava atingir os trabalhadores autônomos. Esse Saldanha tinha origem na Paraíba e fez de Francisquinho um volun tário contra os rebeldes de Zé Pereira que ameaçavam invadir Brejo do Cruz. Na resistência organizada pelos Saldanhas e Maias, lá estava Francisquinho ficando suas raízes paraibanas. Veio para a Capital e nunca mais voltou ao Caicó.

Seu filho, que se chamaria Joacil de Brito Pereira, escreveria muitos anos mais tarde que sua família fugira do ódio e a seca. “Não éramos retirantes, flagelados, pois tínhamos alguns haveres, mas éramos emigrantes fugidos de dois flagelos”. Em João Pessoa, já com essa denominação, passaram a morar em Jaguaribe, onde o pai estabeleceu-se com uma pequena loja de sapatos e miudezas, enquanto a mãe complementava a receita domestica com a fabricação de doces e salgadinhos que eram vendidos por um agregado que os acompanhara desde o Caicó. Educar essa filharada era a missão maior desses abnegados p ais. “Que mãe extraordinária, era a minha”, diria o filho.

Pensava em participar da Segunda Grande Guerra e ser um Expedicionário nos campos da Itália. Não passou de Natal onde os americanos instalaram o Trampolim da Vitória. Um grave incidente no quartel o afastou do Exército tornando-o hóspede de Fernando de Noronha. Injuriado e agredido injustamente, enfermo e não reconhecido, revidou a agressão de um coronel perante o qual fora levado, por perseguição de um sargento. Tentou justificar-se e não foi ouvido. A partir de então, formou-se no seu caráter a firme decisão de enfrentar a injustiça e lutar pelos valores democráticos. Voltou à Paraí ba são e salvo. Perdera a patente de cabo telefonista.

Desde o movimento estudantil na Faculdade de Direito do Recife, de cuja turma de 1950 foi orador e aluno destacado, aos comícios em regozijo pela queda da ditadura Vargas, Joacil esteve presente e com participação elogiada. Em evento na Lagoa, falando perante José Américo, recebeu dele o convite para ingressar na UDN e disputar o mandato de deputado estadual. Pretendia o grande paraibano incentivar novas lideranças. O clima do pós guerra recomendava isso, com o país querendo dar novos passos em direção à democracia. O sangue derramado no front pelos pracinhas brasileiros, reclamava novos tempos.

A advocacia lhe deu fama e, sua inteligência e capacidade de articulador político, lhe deram asas. O Parlamento estadual e o federal lhe reservaram cadeiras em vários mandatos. Como secretário de Estado de vários governos, demonstrou sua eficiência como executivo. Foi simpatizante do comunismo nos arroubos da mocidade mas, no golpe contra João Goulart, já podia ser identificado como o líder civil do movimento entre nós. Agitou a reação contra os militantes de esquerda, ajudou a cassar mandatos e, dentro em pouco passou a combater os excessos dos novos “donatários da capitania”. Diante da injustiça, era em Joacil Pereira que se encontrava arrego.

Quando a política passou a depender mais de dinheiro do que de vocação, abandonou-a. Mas continuou a lutar pelo seu estado e pela cidade que escolheu por moradia. “Nela expandi alegrias e chorei tristezas”. Outros fóruns reclamaram sua presença. A Academia de Letras, o Instituto Histórico e inúmeras outras entidades passaram a receber o concurso da sua capacidade criadora. Teve o meu voto como candidato ao Senado. Não perdi o voto. O Senado é que perdeu!


A FESTA DA PADROEIRA

 Falei antes na Festa da Padroeira de Borborema. Merece um capítulo. A comunidade católica de Borborema tem a proteção de Nossa Senhora do Carmo, sua padroeira. A igreja, situada no ponto mais alto da cidade, foi aos poucos melhorada. Não se tem precisão da data de sua construção. A sua única torre eu me lembro quando surgiu. Há fotografias da cidade, onde aparece o trem da Great Western parado para abastecer com água a Maria Fumaça, com o local da igreja ocupado, apenas, pela mata de eucaliptos. Como o trem aportou na cidade em 1913, está claro que a construção da matriz é posterior. Contam alguns que o dr. José Amâncio Ramalho mandou construir a igreja. Uma placa mandada fixar pelo próprio na entrada da matriz, desmente essa versão. O soba borboremense é responsável pela construção das escadarias que dão acesso ao templo, satisfazendo a última vontade de sua esposa, como perpetuou em bronze: “ESTE PATAMAR E ESCADARIAS FORAM CONSTRUIDOS PELO DR.JOSÉ AMANCIO RAMALHO NO ANO DE 1946/ULTIMA VONTADE DE SUA ESPOSA D.LUIZINHA RAMALHO/ INAUGURADOS A 15 DE JANEIRO DE 1947/ QUINQUAGÉSIMO SÉTIMO ANIVERSARIO DO SEU NASCIMENTO/ (PROJETO DO DR.CARLOS FEST)”.

 O projeto incluiu a implantação de seis estátuas de figuras bíblicas: Abraão, Moisés e Noé, do lado esquerdo de quem sobe e Matheus, Lucas e João, do lado direito. Os profetas foram fixados em cada um dos descansos da escadaria, toda feita em pedra. Quando minha mãe casou nessa igreja, em 1940, ao subir a íngreme ladeira, deve ter arrastado na poeira a calda do seu vestido de noiva.

 Na minha infância/adolescência, um padre que marcou época foi o padre Cornélio Belo. Vigário de Serraria, sede da paróquia, vivia às turras com as lideranças de Borborema. Parece que frequentava a cidade, apenas, para cumprir tabela, como dizem os cronistas esportivos. Criticava muito os ausentes às suas prédicas. A estes, cognominava “católicos de rótulos de garrafa”. Diziam-se católicos mas não compareciam à igreja, recriminava. A festa da padroeira era motivo de choque entre o padre a comissão organizadora. As vezes conseguia se impor, outras não. Meu pai, organizador da festa por muitos anos, repelia suas idiossincrasias: a festa não é do padre, é do povo.

 Interessante notar que, apesar de a Padroeira da cidade ser Nossa Senhora do Carmo, a festa era realizada no dia de São Sebastião e, para muitos, a festa era Dele. Para evitar discórdias, até os dias de hoje, na procissão do dia 20 de janeiro, dois andores percorrem as ruas conduzidos pelos fieis: um leva Nossa Senhora, outro, São Sebastião.

 Antônio Nogueira Campos, comerciante e senhor de engenho, outro pioneiro que chegou a Camucá na mesma época de José Amâncio, era devoto de São Sebastião e, em assim sendo, mandou construir uma capela em terreno de sua propriedade. Terminada a festa oficial da paróquia, começava a dele. Os parques eram desmontados e remontados ao redor da capela. Até morrer, minha prima Lourdes Leite era uma espécie de capelã desse templo. A devoção do fundador, porém, teve continuidade durante toda a existência de sua viúva, d.Elisa Nogueira, uma guerreira que, mesmo em uma cadeira de rodas, ainda se divertia organizando os carnavais da cidade.

 Os parques de diversão eram a alegria da meninada e também serviam para suas traquinagens. A onda, brinquedo que desapareceu, constava de uma bancada redonda onde todos se sentavam e, manualmente, homens fortes impulsionavam seus arcos, provocando uma oscilação em círculos que simulava as ondas do mar. Daí a denominação. Em uma dessas festas, eu e Gilson Escorel, de saudosa memória, saímos por traz da onda unindo com broches as saias das mulheres. Na hora da descida, estavam as moças com as saias emendadas com alfinetes de segurança. Quem saísse mais apressada rasgava a saia. Aliás, por pura maldade, o objetivo era esse mesmo.

 Além da onda, haviam as canoas. Nada mecanizado, tudo dependia da força física do frequentador e pagante, ou do empregado do parque, como no caso dos carroceis. Haviam dois, um de Severino Cordeiro, sem os cavalinhos e outro, de Pedro Vitorino: “No carrossé de Pedro Vitorino, corre homem, mulher e menino”. Não eram poucas as crianças e, até adultos, que desciam do carrossel vomitando as tripas. Tempos depois apareceu a sombrinha de Pedro Mecânico. Pelo nome do dono, já se conclui que a peça era motorizada. A roda gigante surgiria mais adiante. Mas o sucesso da festa era feito pelos serviços de alto falantes, oferecendo música para os ouvintes: “de alguém para outro alguém”, era a mensagem dos tímidos. Havia os que aproveitavam a festa para declarar o seu amor: “Antônio do Camucá, oferece essa música a Toinha de Poço Escuro, como prova de admiração e carinho”. Outros, mandavam através da música a sua mensagem cifrada: “Verinha, escute essa melodia, de um alguém para você. Na voz maravilhosa de Nora Ney, o cartão postal de Ary Barroso – Risque”, que começava assim: Risque/ meu nome do seu caderno/ pois não suporto o inferno/ de nosso amor fracassado... ( Trecho do capitulo 5º do meu livro de memórias ERA O QUE TINHA A DIZER) 


DE MESTRE ESCOLA A PRESIDENTE

Os acontecimentos que culminaram com a chamada Revolução de 1930, na Paraíba, terminaram por erigir um panteão de muitos heróis. Alguns verdadeiros, outros, nem tanto. João Pessoa, ao sacrificar-se, legou à história sua bravura cívica e sua coragem moral. O seu sangue, misturado às lágrimas dos paraibanos, foi o combustível para as mudanças que os tenentes vinham pregando desde 1922. Mas hoje quero falar da Velha República. Logo identifico um bravo, meu patrono da APL que, com destemor, nas paginas do seu jornal enfrentou a arrogância do poder e não sucumbiu ao seu aceno. Refiro-me ao jornalista Artur Aquiles. Um outro destaque, concedo a Solon Barbosa de Lucena. Apontado como um fraco pelos seus oponentes, certa feita salvou esta cidade de um incêndio sem precedentes, por um gesto de coragem inusitado. Todo o Varadouro ardia em chamas. Um depósito de dinamite que seria utilizada nas obras do porto ameaçava explodir. Os trabalhadores recuavam com medo de serem atingidos, mesmo estimulados pelo presidente Solon de Lucena, chamado às pressas ao local do sinistro. Inopinadamente, sem pedir que seu gesto fosse copiado, entrou no armazém em chamas e saiu sobraçando uma enorme caixa de dinamite. A partir da daí, a coragem dos demais aflorou e o comércio da cidade baixa foi salvo da destruição. Álvaro de Carvalho(vice de João Pessoa) conta que Solon nunca vangloriou-se desse feito. Solon de Lucena era filho de Virgínio de Melo e de Amélia Barbosa de Lucena. Sua mãe, que tinha o mesmo nome da avó, era sobrinha de Henrique Pereira de Lucena que, por ter agilizado a tramitação da Lei Áurea quando presidia a Câmara dos Deputados, recebeu da Princesa Isabel o título de Barão de Lucena. Este, por sua vez, era tio de Epitácio Pessoa. Esse parentesco abriu as portas do sucesso para Solon tornando-o apto a participar da oligarquia epitacista. Por razões não explicitadas, a certa altura de sua juventude, quando cursava o quarto ano, Solon largou a faculdade de direito do Recife e veio militar na sua terra natal. Ali ajudou a fundar o famoso Instituto Bananeirense. Na qualidade de mestre-escola, inicia a sua carreia de homem público e, já em 1912, teve o seu nome incluído na chapa de deputados. Nessa mesma legislatura foi eleito presidente da Assembléia e, nessa condição, assumiria pela primeira vez a gestão estadual. Para que sentasse na cadeira governamental foi preciso que o presidente Castro Pinto renunciasse ao seu mandato, entregando o governo ao coronel Antonio Pessoa, primeiro vice-presidente e irmão de Epitácio. Por motivos de saúde, agravados por sua insatisfação com a escolha de Camilo de Holanda para sucedê-lo, Antonio Pessoa retirou-se para sua fazendo em Natuba entregando ao deputado Solon de Lucena a presidência do Estado. O segundo vice-presidente Pedro Bandeira Cavalcanti preferiu continuar como juiz de Guarabira, visando alcançar o cargo de desembargador. Na sucessão de Camilo de Holanda (1916/1920), o primeiro presidente da era epitacista, volta à tona o nome de Sólon de Lucena, desde 1917, exercendo o mandato de deputado federal e reeleito para novo período. Chegou à chefia do executivo paraibano com o apoio até da facção oposicionista do monsenhor Walfredo Leal, tendo como vices presidentes Flavio da Silva Maroja e João Batista Alves Pequeno. Solon chegou ao mais alto posto da administração estadual após ser eleito para um único mandato estadual e dois federais, entre 1912 e 1920. Antes, foi secretario geral da gestão de Camilo e diretor do Liceu Paraibano. Homem simples e honrado, Sólon de Lucena foi “um orador imaginoso e possuía poderosa inteligência” na definição de Apolônio Nóbrega. Enfrentou dificuldades e morreu pobre, na sua Bananeiras, no ano de 1926. Teve uma carreira meteórica firmada na sua capacidade, mas também impulsionada pelo parentesco com Epitácio, a quem devotava fidelidade irrestrita. No grupo político epitacista viria a chefiar os chamados “jovens turcos”. Conta Cunha Pedrosa, em suas memórias, que até 1912 Solon era um modesto professor em Bananeiras, onde fazia oposição à poderosa família Rocha. No governo de João Machado (1908/1912), como professor primário, recebia a irrisória importância de 50 mil reis por mês. Pedrosa registra que lhe conseguiu um aumento de 10 mil réis. De mestre escola chegou à presidência do Estado em apenas oito anos. A fazenda Pedra D´Àgua também pertenceu a Solon de Lucena e, após sua morte, foi adquirida pelo seu compadre, coronel José Fausto da Costa Lira, o farmacêutico que inventou a “vacina de cuspe”. Mas essa é outra história que já contei antes.