DE MESTRE ESCOLA A PRESIDENTE

Os acontecimentos que culminaram com a chamada Revolução de 1930, na Paraíba, terminaram por erigir um panteão de muitos heróis. Alguns verdadeiros, outros, nem tanto. João Pessoa, ao sacrificar-se, legou à história sua bravura cívica e sua coragem moral. O seu sangue, misturado às lágrimas dos paraibanos, foi o combustível para as mudanças que os tenentes vinham pregando desde 1922. Mas hoje quero falar da Velha República. Logo identifico um bravo, meu patrono da APL que, com destemor, nas paginas do seu jornal enfrentou a arrogância do poder e não sucumbiu ao seu aceno. Refiro-me ao jornalista Artur Aquiles. Um outro destaque, concedo a Solon Barbosa de Lucena. Apontado como um fraco pelos seus oponentes, certa feita salvou esta cidade de um incêndio sem precedentes, por um gesto de coragem inusitado. Todo o Varadouro ardia em chamas. Um depósito de dinamite que seria utilizada nas obras do porto ameaçava explodir. Os trabalhadores recuavam com medo de serem atingidos, mesmo estimulados pelo presidente Solon de Lucena, chamado às pressas ao local do sinistro. Inopinadamente, sem pedir que seu gesto fosse copiado, entrou no armazém em chamas e saiu sobraçando uma enorme caixa de dinamite. A partir da daí, a coragem dos demais aflorou e o comércio da cidade baixa foi salvo da destruição. Álvaro de Carvalho(vice de João Pessoa) conta que Solon nunca vangloriou-se desse feito. Solon de Lucena era filho de Virgínio de Melo e de Amélia Barbosa de Lucena. Sua mãe, que tinha o mesmo nome da avó, era sobrinha de Henrique Pereira de Lucena que, por ter agilizado a tramitação da Lei Áurea quando presidia a Câmara dos Deputados, recebeu da Princesa Isabel o título de Barão de Lucena. Este, por sua vez, era tio de Epitácio Pessoa. Esse parentesco abriu as portas do sucesso para Solon tornando-o apto a participar da oligarquia epitacista. Por razões não explicitadas, a certa altura de sua juventude, quando cursava o quarto ano, Solon largou a faculdade de direito do Recife e veio militar na sua terra natal. Ali ajudou a fundar o famoso Instituto Bananeirense. Na qualidade de mestre-escola, inicia a sua carreia de homem público e, já em 1912, teve o seu nome incluído na chapa de deputados. Nessa mesma legislatura foi eleito presidente da Assembléia e, nessa condição, assumiria pela primeira vez a gestão estadual. Para que sentasse na cadeira governamental foi preciso que o presidente Castro Pinto renunciasse ao seu mandato, entregando o governo ao coronel Antonio Pessoa, primeiro vice-presidente e irmão de Epitácio. Por motivos de saúde, agravados por sua insatisfação com a escolha de Camilo de Holanda para sucedê-lo, Antonio Pessoa retirou-se para sua fazendo em Natuba entregando ao deputado Solon de Lucena a presidência do Estado. O segundo vice-presidente Pedro Bandeira Cavalcanti preferiu continuar como juiz de Guarabira, visando alcançar o cargo de desembargador. Na sucessão de Camilo de Holanda (1916/1920), o primeiro presidente da era epitacista, volta à tona o nome de Sólon de Lucena, desde 1917, exercendo o mandato de deputado federal e reeleito para novo período. Chegou à chefia do executivo paraibano com o apoio até da facção oposicionista do monsenhor Walfredo Leal, tendo como vices presidentes Flavio da Silva Maroja e João Batista Alves Pequeno. Solon chegou ao mais alto posto da administração estadual após ser eleito para um único mandato estadual e dois federais, entre 1912 e 1920. Antes, foi secretario geral da gestão de Camilo e diretor do Liceu Paraibano. Homem simples e honrado, Sólon de Lucena foi “um orador imaginoso e possuía poderosa inteligência” na definição de Apolônio Nóbrega. Enfrentou dificuldades e morreu pobre, na sua Bananeiras, no ano de 1926. Teve uma carreira meteórica firmada na sua capacidade, mas também impulsionada pelo parentesco com Epitácio, a quem devotava fidelidade irrestrita. No grupo político epitacista viria a chefiar os chamados “jovens turcos”. Conta Cunha Pedrosa, em suas memórias, que até 1912 Solon era um modesto professor em Bananeiras, onde fazia oposição à poderosa família Rocha. No governo de João Machado (1908/1912), como professor primário, recebia a irrisória importância de 50 mil reis por mês. Pedrosa registra que lhe conseguiu um aumento de 10 mil réis. De mestre escola chegou à presidência do Estado em apenas oito anos. A fazenda Pedra D´Àgua também pertenceu a Solon de Lucena e, após sua morte, foi adquirida pelo seu compadre, coronel José Fausto da Costa Lira, o farmacêutico que inventou a “vacina de cuspe”. Mas essa é outra história que já contei antes.

MINHA PASSAGEM PELA TABAJARA

Da varanda posterior do Palácio do Governo já se contemplava os primeiros raios do sol refletindo nas águas do Sanhauá. À cabeceira de uma mesa revestida com tinta dourada, o governador Pedro Gondim corria contra os prazos. A partir do dia seguinte, estariam proibidas as publicações de nomeações ou exonerações. Para encerrar a pauta entrou na ordem do dia, melhor dizendo, da madrugada, o Plano de Cargos da Radio Tabajara da Paraíba, recentemente aprovado, mas ainda não executado. Fiquei até àquela hora na defesa dos meus interesses, como todos que cercavam o governador. Jornalista sindicalizado e registrado no Ministério do Trabalho, sócio da Associação Paraibana de Imprensa e freqüentando as páginas de A União e da Tribuna do Povo, ocupava a função de Oficial de Gabinete, mesmo sem nomeação para esse cargo, vez que, efetivo da Assembléia Legislativa, fora colocado à disposição do Gabinete do Governador. As vagas de Redator da Tabajara eram poucas, mas suficientes para atender aos que já exerciam a função e com alguma folga para contemplar outros jornalistas vinculados ao governo. Foi aí que eu entrei. Nomeado Redator, cargo isolado e de provimento efetivo, só saí do Palácio depois de ver o governador assinar o meu ato e Manoel Costeira, gerente de A União, sair com ele e os demais debaixo do braço para a devida publicação no Diário Oficial. Passei a integrar os quadros da Tabajara, a partir do final de 1965. Iniciado o governo João Agripino, foi nomeado diretor o jornalista José Morais Souto que, sabendo da minha condição de estudante de direito, aproveitou-me logo como presidente da Comissão de Inquérito. Um motorista da emissora resolveu fazer uma farra no carro oficial e acabou com o veículo lá prás bandas de Cabedelo. Dei voltas à minha capacidade de advogado de defesa para salvar o emprego daquele pai de família, irresponsável como servidor, mas necessitado da sua única fonte de renda. Pensando na sua mulher e filhos, recomendei, apenas, uma suspensão. Meu relatório não foi bem aceito pelo Palácio e a minha carreira de inquisidor foi encerrada. A minha vocação mesmo era o jornalismo e a política. Um ajudando a outra. Com Geraldo Cavalcanti na sonoplastia e coadjuvado por Manoel Raposo passei a apresentar o programa Encontro Marcado. Sempre um entrevistado de destaque na política e na sociedade, respondendo às nossas perguntas e, aos ouvintes, através de cartas enviadas durante a semana, pois telefone naquele tempo era ave rara. Do Recife trouxemos Don Helder Câmara, já naquele período em liberdade vigiada e cuja pregação causava arrepios até na farda dos milicos. O governador João Agripino estreou o programa e causou uma polêmica que ocuparia generosos espaços na imprensa. Perguntado por carta por que pagava salário irrisório a um médico, respondeu: “Pago muito a quem faz tão pouco”. A Sociedade de Medicina e todas as entidades médicas ainda vigentes protestaram. O presidente da Assembléia, deputado Waldir dos Santos Lima e o prefeito Damásio Franca foram outros entrevistados que encheram o pequeno auditório do antigo prédio da Rodrigues de Aquino. O programa durou até a entrevista de Dom Helder. Naqueles tempos de democracia consentida a presença do prelado de Olinda era um afronta. Minha passagem pela Tabajara foi meteórica. O secretário Antonio Carlos Escorel, da Administração, instalou uma comissão permanente de acumulação de cargos. Fui dos primeiros a ser chamado. Era servidor da Assembléia e da Tabajara. Acumulação ilegal. Mesmo sob protesto, pedi exoneração do rádio. Pedro Gondim me deu o diploma de radialista, João Agripino cassou. ( Em homenagem aos 80 anos da emissora)

COMO SE FAZIA UM SENADOR

Tudo remonta a Roma, inclusive o Senado. O nome vem do latim. Sen,senex,senior que, etimologicamente, significa velho, idoso. Entendia-se, então, que os mais idosos seriam os mais sábios. Aqui se entendeu que eles deveriam ser os “mais sabidos”. Da mesma origem, vem a palavra senilidade. Na sua verve, Dorgival Terceiro Neto costumava dizer que, para ser senador era preciso já ter feito três operações: cataratas, próstata e hemorróidas. Os tempos mudaram e o Senado já aceita até não operados de fimose. Mas, mesmo diminuindo a média etária dos seus membros, a chamada Câmara Alta continua a ser aquele “paraíso” batizado pelo senador Geraldo Melo(RN). Os oligarcas da República Velha mantinham-se sempre no exercício do mandato de senador e, da metrópole, impunham sua vontade aos seguidores que ficavam na província aguardando as ordens. Na antiga Parahyba foi assim até 1915 com o predomínio de Álvaro Machado e desde então, até 1930, com Epitácio Pessoa. Ambos moraram sempre no Rio e, esporadicamente, foram obrigados a visitar seus conterrâneos. No ano de 1904 governava o nosso Estado o desembargador José Peregrino de Araujo e a eleição do seu sucessor já estava marcada para o dia 22 de junho. O presidente gostaria de eleger seu chefe de policia, Semeão Leal que, todavia, só completaria 30 anos, idade exigida para o cargo, no dia 11 de maio. Reformou-se a Constituição para conceder elegibilidade ao preferido do governo. Peregrino alcançou seu objetivo mas, enfrentou e venceu insistente campanha da imprensa capitaneada pelo valoroso jornalista Artur Achilles no seu “O Commercio”. Semeão tornou-se, de direito, elegível, mas faltava ser acolhido pela vontade do chefe da oligarquia alvarista, o próprio senador Álvaro Machado, que se sentiu desprestigiado com a indicação de um governante à sua revelia. Foi obrigado a visitar a Parahyba para resolver esse imbróglio. A vontade do chefe era uma vontade de ferro. O comando foi exercido com tanta perfeição que o próprio Álvaro foi escolhido sucessor de Peregrino. Semeão teve que se conformar em ser o primeiro vice-presidente, mesmo sem a confiança do titular. A solução, mesmo satisfatória por restaurar a autoridade do chefe, não era do seu agrado. Para ele, o bom mesmo era viver no Rio e ter uma cadeira no Senado, mandando de lá as suas determinações. E passou a agir com esse objetivo. Sem ferir a Constituição ou a lei eleitoral, foram realizados três pleitos extraordinários assim motivados: quando assumiu o Governo, Álvaro abriu vaga no Senado e para o seu lugar elegeu o seu alter ego monsenhor Walfredo Leal que era deputado federal. Para a cadeira de deputado foi eleito Semeão Leal e, em conseqüência, abriu-se a vaga de vice, na qual foi entronizado o Monsenhor Walfredo. Para a vaga de Walfredo no Senado, foi novamente eleito o próprio Álvaro, que retornava em menos de um ano ao seu mandato senatorial e ao seio da família que nunca desejou morar na Paraíba. Para Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo,” na Velha Republica esses arranjos eram freqüentes, se bem que não edificantes”. Na Nova República, nascida após a revolução de 1930, as coisas não mudaram muito. Houve até quem proclamasse que “houve apenas uma troca: os carcomidos velhos, pelos novos”. Os arranjos políticos do tipo acima narrado voltaram a se repetir. O exemplo que escolhi teve como protagonista o jornalista e empresário midiático Assis Chateaubriand. Em 1945 a Paraíba mandou para o Senado Adalberto Ribeiro e Vergniaud Wanderley. Em 1947, a terceira vaga foi preenchida por José Américo de Almeida e, eleitos os suplentes dos três: Carlos Pessoa, Antonio Pereira Diniz e Epitácio Pessoa Cavalcanti, filho do presidente João Pessoa. Chatô, “o Rei do Brasil” como foi consagrado na obra de Fernando Morais, queria ser senador, mas não existia vaga. Sua força era grande perante Getulio Vargas. Conseguiu que o senador Vergniaud Wanderley fosse nomeado ministro do Tribunal de Contas da União. Seu suplente, Pereira Diniz, então deputado federal, preferiu permanecer na Câmara mas foi compensado com um cartório no Rio de Janeiro. Para preencher a cadeira de senador pela Paraíba, foi realizada uma eleição suplementar em 1952. Chateaubriand foi candidato único, tendo Drault Ernani como suplente . Obteve cem por cento dos votos válidos e tornou-se nosso represente no Senado. Na Velha República, como na Nova, era assim que se fazia um senador.

A ESCOLA NO TEMPO DO IMPÉRIO

A valorização da instrução pública era uma das prioridades do Império. Os governantes que passaram pela direção da província da Parahyba do Norte deixaram registrada essa preocupação primeira. Quando Pedro II visitou esta província, no Natal de 1859, nas cidades onde esteve, preocupou-se em conhecer as condições das escolas existentes. Seu exemplo foi seguido pelo gaúcho Silva Nunes, primeiro presidente a percorrer o nosso interior que, recebido nas câmaras municipais, inspecionava as escolas masculina e feminina, abordava os mestres e registrava a frequência. Silva Nunes que, por ser genro do Barão de Muritiba ainda seria eleito deputado pelo Espirito Santo e governaria a Bahia, em sua mensagem de despedida aos paraibanos, deixou nos anais da Assembleia provincial seu conceito sobre a escola e os professores no território paraibano, do que, destaco: “Em Província nenhuma do Império são eles (os professores) remunerados como na Paraiba. Longe de censurável, é louvável esse procedimento dos legisladores da Província; cumpre, porém, que esse bom vencimento só o tenha quem verdadeiramente trabalhe e mereça”.(março de 1861) Alguns anos antes, porém, coube a um baiano, bacharel de Olinda de 1832 e designado para presidir a Paraíba entre 1848 até 1850, mandar elaborar o primeiro regulamento da escola pública paraibana. Chamava-se João Antonio de Vasconcelos e, depois de governar a Paraíba, continuou sua carreira no Judiciário. Chegou a desembargador e presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, de onde saiu para ministro do Supremo, chegando à sua presidência. O regulamento para as escolas de Instrução Primária da Província da Paraíba do Norte data de 20 de janeiro de 1849 e foi elaborado em cumprimento à Lei Provincial nº 14 do ano anterior. Detalhes curiosos foram inseridos nessas normas, a começar do local a ser procurado pelo professor, que deveria ter “para sua aula, casa sadia, com sala grande, bem clara e arejada e em tudo apropriado ao estabelecimento de uma escola”. A submissão à Igreja Católica e ao Império, deveria ficar explícita em cada sala de aula pois “em frente dos meninos, na escola, haverá uma Imagem de Cristo e o retrato de S. M. Imperial.” Nas paredes deveriam ser pregados os avisos em que se achem “traçados os principais deveres dos discípulos e as penas máximas da religião e da moral”. O professor ficaria no centro da sala ou na entrada, sobre um estrado de onde poderia, mesmo sentado, alcançar toda a classe. Na porta de toda escola seria inscrito o seguinte: “Instrução Primária pelo Método Simultâneo, Dirigido pelo Professor( aqui o nome do professor), diz a lei, que se preocupa, também, com a higiene: “A escola será varrida todos os dias e as janelas se conservarão abertas nos intervalos das lições” como foi escrito no artigo 6º do Regulamento. O regimento da escola imperial detalhava as exigências disciplinares, as recompensas e os castigos. Fixava a idade mínima de seis anos para o ingresso na escola. Todavia, o aluno somente seria admitido caso provasse “ter tido bexiga ou sido vacinado” contra o mal. Entre os discípulos mais obedientes, assíduos e inteligentes, seriam escolhidos monitores para ajudar o mestre nas suas tarefas e, inclusive, um monitor-geral exclusivo para substituir ao professor na sua ausência, o que era “mui raro”. Aos monitores era recomendado chegar meia hora antes à escola, para “aparar as penas” e ajudar na organização dos livros e cadernos que deveriam estar em seus lugares antes do início das lições. “Cada discípulo, quando entrar, corteja o professor, vai por seu chapéu no lugar que está marcado com seu nome e número, depois volta a tomar assento no seu banco em silencio”. Se o aluno faltar, a família será comunicada. O professor não se familiarizará com seus alunos, “conquanto lhes deva ter muito amor”. As recompensas aos alunos eram expressas em “bilhetes de satisfação”. O professor estimularia a disputa entre os seus pupilos, premiando as respostas corretas e, “nunca premiará se não a quem houver merecido”. Os alunos premiados teriam seus nomes expostos na escola e no domingo, após a missa, o professor lia essa “lista de honra”. Se o professor estivesse satisfeito com seus alunos, poderia proporcionar-lhes um passeio, durante um meio dia de feriado que seria concedido após um mês de desempenho satisfatório. Quem não obtivesse recompensas ou bilhetes de satisfação, estava fadado ao castigo. A indisciplina, a inaplicação, a má conduta seriam punidas exemplarmente. “Mas os discípulos nunca devem ser batidos”, adverte a lei. Os castigos autorizados eram: “Uma ou mais notas más; a perda do lugar alcançado em vários exercícios; a restituição ou privação de um ou diversos prêmios; a privação de uma parte ou da totalidade das recreações com aumento de trabalho”. E mais: “Os rótulos com as palavras falta de verdade, indisciplinado, falador, preguiçoso etc. designando a natureza do erro... são colocados em papelão pendurados ao pescoço do discípulo por um cordão, caindo-lhes sobre as costas, que assim conservarão somente dentro da escola”.(Hoje seria considerado Bullying ). Mas, de certa forma, o Império era magnânimo e até brando: “O ajoelhamento durante uma parte da aula, ou da recreação: este castigo nunca excederá de um quarto de hora”. No grupo escolar de Borborema, onde estudei, essa norma do Império ainda vigorava aí pelos anos 1950, sob o domínio da professora Jaldete. Para ela, porém, o ajoelhamento de frente para a parede não tinha tempo definido e, sob os joelhos, para os mais rebeldes, acrescentava alguns caroços de milho. Lembrando disso, me deu uma saudade enorme do castigo imperial.

FINANCIAMENTO DE CAMPANHA

Há uma corrente do pensamento político nacional que defende o financiamento público de campanhas . Seria a forma, segundo imaginam, de evitar a corrupção resultante do acerto dos eleitos com seus patrocinadores, em detrimento do Erário.O PT, ainda hoje o maior partido nacional, defende a participação total do dinheiro público nas despesas de campanha. Um único país, espremido entre a China e a Índia, o Butão, que adotou a monarquia parlamentarista e realizou sua primeira eleição em 2008, segue esse modelo. Contudo, mais de cem outras nações contribuem com dinheiro publico para as campanhas políticas, alguns chegando a financiar cerca de oitenta por cento das despesas, como é o caso do México, Colômbia. Itália, Espanha e Uruguai. Essa discussão emerge sempre na esteira dos escândalos que têm premiado esta nação tupiniquim. Veio à tona com o “mensalão”, um veículo de apropriação de dinheiro público para financiar apoio parlamentar e campanhas eleitorais, que “nunca existiu”, mas levou alguns protagonistas à cadeia.No rastro da denominada “operação lava-jato” recrudesceu a tentativa de colocar os cofres da Nação à disposição dos políticos e de seus partidos, pavimentando suas eleições com os eflúvios do Erário. Há quem diga que o financiamento público tornaria menos onerosa a campanha política, já que a ninguém até agora foi permitido o direito de pleitear mandato apenas com a exibição do seu curriculum e de suas qualidades pessoais. Outra polêmica que gera muita discordância é o processo de distribuição desses recursos com as agremiações partidárias. Entre nós já temos um Fundo Partidário que, para o Orçamento de 2015, alcançou a cifra de 867 milhões, um salto financeiro exagerado e justificado como uma experiência para alicerçar um hipotético financiamento publico de campanha. Desse dinheiro, cinco por cento seriam distribuídos igualitariamente com todos os partidos existentes e o restante (95%) repassado dentro da proporcionalidade dos votos obtidos por cada partido para a Câmara dos Deputados. Na Alemanha, o Estado paga um Euro por cada Euro que o partido arrecadar. Na Holanda, o repasse depende do numero de filiados. No Brasil, dentro das regras existentes, a ultima campanha nacional arrecadou cerca de cinco bilhões de reais de empresas privadas. Fora das regras, ainda se está apurando...Campanha aqui é muito caro minha gente. Querem saber? Apenas um item da ultima campanha eleitoral que, por ironia, se chama horário gratuito, custou aos cofres públicos cerca de 840 milhões de reais em isenção de impostos aos canais de TV. Tempos modernos. Quando disputei mandatos nunca me preocupei com financiadores de campanha. Nem os conheci. Lembro-me bem que, em uma delas, vendi um terreno em Camboinha a Chico Souto e as parcelas desse pagamento financiaram minhas despesas de campanha. Havia quem ajudasse, modestamente. Em um comício de encerramento de minha campanha em Solânea, instalado em um escritório improvisado, vez por outra entrava um comerciante local para me levar um “ajutório”. Seu Chico Souza, dono da Mortuária São Francisco, chegou logo cedo e contribuiu com alguns cruzeiros. No fim da tarde, voltou com nova contribuição.Argumentei que ele já havia colaborado. Não adiantou! Me esclareceu que um acidente, naquele tarde, resultara em dois mortos, melhorando seu apurado. Do seu lucro, levou algum para me ajudar nas despesas. Era assim a política do meu tempo.

AMANTES DE PODEROSOS

Em algumas sociedades mais exigentes, a descoberta de uma relação extraconjugal de detentor de cargo público eleito ou nomeado, resulta no repúdio do eleitorado, quando não, na renúncia ao mandato ou ao cargo. Outras mais tolerantes, tratam o assunto como privado, merecendo confidencialidade. A natureza machista do brasileiro, porém, costuma colocar-se ao lado do homem, e tem até quem ache que a mulher deveria pedir desculpas por ter sido traída... Não iniciei este assunto para emitir conceitos morais, mas para revelar passagens da nossa história, envolvendo homens públicos que foram líderes em sua época e deixaram famosas também as mulheres que passaram por suas alcovas. Dei uma rápida olhada no passado e encontrarei nosso Imperador Pedro I concedendo títulos nobiliárquicos a Domitila de Castro Canto, que terminou Marquesa de Santos, pelos relevantes serviços prestados à recém nascida pátria brasileira, na intimidade do Império. Foi a mais famosa das amantes nacionais, com direito até a registro nos livros escolares. Pedro II não desmereceu o pai. Transformou Margarida Luisa de Barros, preceptora de sua filha Isabel, em amante. Baiana de Santo Amaro da Purificação, essa conterrânea de Caetano Veloso foi feita Condessa de Barral e morreria em Paris sob as graças do Rei Luis Felipe I. Na República os registros são mais discretos e foram tornados públicos após a morte do personagem famoso. Uma ação da VAR-Palmares, organização integrada pela atual presidente Dilma Rousseff (Estela) e seu companheiro de então, resultou no “seqüestro” do cofre de Adhemar de Barros, governador de São Paulo duas vezes e candidato eterno à Presidência da República. O cofre, que rendeu mais de dois milhões de dólares aos guerrilheiros de Lamarca, estava sob a guarda da família de Ana Guimol, famosa amante de Adhemar, por este chamada de Dr. Rui. “Pois não, dr. Rui...” - era assim que ele atendia a seus telefonemas quando cercado por outras pessoas. Era um segredo de polichinelo, pois somente dona Leonor, sua esposa, não sabia. Getúlio Vargas, quando se dizia “um homem no declínio da vida...banhado por um raio de sol”, estava rememorando os instantes passados nos braços de sua amada, para ele “um momento sentimental de transbordante alegria”. Passou a se chamar Aimée Lopes, depois que casou com o oficial de gabinete do presidente, mas desde o tempo de noivado, desfrutava as horas furtivas que Getúlio conseguia, graças à ajuda de Iêdo Fiuza, então diretor do DNER e ex-prefeito de Petrópolis, conhecedor de todas as garçonieres do Rio, ainda não servido de motéis. Reconhecido nos serviços prestados à causa, Luiz Simões Lopes, o marido traído, foi nomeado primeiro diretor do DASP, o embrião do Ministério da Administração. Desfeito seu casamento, Aimée abandonou também o amante e casou nos Estados Unidos, onde foi destacada por uma revista especializada como uma das três mulheres mais belas e elegantes do mundo. Foi o que Getúlio perdeu e, inconformado, confessa ao seu diário: “Vou a uma visita galante. Saio um tanto decepcionado. Não tem o encanto das anteriores. Foi-se o meu amor, nada se lhe pode aproximar”. A Vedete do Brasil, Virginia Lane, que ganhou fama mostrando as belas pernas no palco, foi a sucessora de Aimée, sem, no entanto, acalmar o coração do gaúcho. Um dos presidentes mais queridos do Brasil, o construtor de Brasília, Juscelino Kubitschek, quando vitimado por um acidente voltava de um encontro com a amada Maria Lúcia Pedroso. Conhecido como um homem galanteador, famoso pé–de-valsa, dele contavam muitas histórias. Atrizes de renome costumavam acompanhá-lo em suas inspeções ao canteiro de obras de Brasília. O “Catetinho” deve ter muita história para contar. Eu teria também muitas outras, mas o espaço que me dão, é pequeno. Morram de curiosidade, mas não contarei nada sobre aquele general presidente! (do livro “Gente do Passado, Fatos do Presente”)

OS IMPERADORES E SUAS AMANTES

Já escrevi sobre amantes de poderosos e, naquele texto, incluí gente da nossa época, a exemplo de Getúlio Vargas, Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek e certo general que dizia gostar mais de cheiro de cavalo, mas consumia muitas milhas em busca de um cangote feminino. De passagem, lembrei Pedro I, que dividiu seu reinado com a principal amante, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos. Acho que deixei em paz Pedro II, seu filho, um tremendo “come quieto”, que não ficava longe do pai em matéria de ocupar as camarinhas do Palácio. A diferença entre pai e filho residia na seleção das eventuais companheiras de alcova. Pedro I era mais promíscuo. Apesar da Marquesa de Santos, com quem teve cinco filhos, ainda engravidou outra filha do brigadeiro Canto e Melo, de nome Maria Benedita, casada com o Barão de Sorocaba. Antes da marquesa, uma atriz francesa inaugurou seu caderno de traição à Imperatriz Leopoldina. Os costumes da época, pelo menos no ambiente das cortes, justificavam que o leito conjugal servia apenas para perpetuar a linhagem. As paixões e os prazeres era coisa para se conseguir no aconchego das amantes. Uma comerciante francesa, de nome Clemence Saisset, também lhe deu um filho bastardo. A atriz uruguaia Maria Del Carmem Garcia não lhe deu filho, deixando essa missão para a monja portuguesa Ana Augusta. No caderno do nosso primeiro Imperador ainda entraram uma escrava do Convento da Ajuda, a esposa de um general e uma atriz portuguesa, o que demonstra que ao voltar para Portugal, Pedro ainda carregava o fogo dos trópicos. Para encerrar, obteve favores sexuais da esposa de seu homem de confiança e, até, da filha do bibliotecário de dona Leopoldina. Dom Pedro II era um galegão de um metro e noventa, pernas e voz finas, olhos azuis, mas tristes. Há quem diga, pelo abandono do pai e morte prematura da mãe. Conhecera a futura esposa por uma pintura da cintura para cima, obra de artista europeu. Pela pintura não dava pra saber que Tereza Cristina era baixa, feia e puxava por uma perna. Foi uma desilusão que o levou às lágrimas. Mesmo assim tiveram três filhos: o homem morreu ainda pequeno e as filhas Isabel e Leopoldina se transformaram na única esperança de Dom Pedro para um terceiro reinado. Isabel desempenharia papel importante e, ao assinar a Lei Áurea, assinou também a queda da monarquia. Mas quero falar das mulheres de Pedro II, a “ metade” que teria passado a vida procurando e, parece ter encontrado, na pessoa da preceptora de suas filhas, a Condessa de Barral. Ainda passaram pela biblioteca de Dom Pedro, transformada em alcova eventual, a Condessa de Villeneuve e Eponine Otaviano, esposa de um seu amigo de infância, a Condessa de La Tour e outras menos votadas. O Imperador era pouco generoso com suas amantes e, não foram poucos os maridos da Corte que, orgulhosos, chegaram à falência para permitir que suas consortes continuassem a freqüentar a “biblioteca” do Palácio São Cristovão. A busca de Dom Pedro II por sua alma gêmea começou com Maria Lopes de Paiva, filha do barão de Maranguape, sua primeira paixão. Um filho bastardo de Pedro I, portanto seu meio irmão, era casado com Carolina Bergaro e foi à porta dessa dama que a ronda policial surpreendeu o Imperador e alguns amigos, animados pela bebida. Identificado o Imperador, o policial debulhou-se em desculpas e acordou seu chefe pela madrugada para contar o ocorrido na certeza de que estava encerrando sua carreira. O historiador americano Roderick Berman acredita que esse relacionamento de Dom Pedro II com a cunhada durou cerca de dez anos, na maior discrição. Pedro II recebera esmerada educação para, justamente, não ser comparado ao pai, devasso e inconseqüente ao ponto de conceder titulo de nobreza a quase todos os filhos bastardos. A todos não podia dar, pois foram contados mais de sessenta bastardinhos entre o Brasil e Portugal. Hoje, com os escândalos revelados na nossa Corte Republicana, haveremos de ter saudade dos escândalos do Império.(do meu livro GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE, a ser encontrado na Livraria do Luiz)

OS JOVENS TURCOS

A queda do Império Otomano e a fundação da república turca teve como líder Mustafá Kemal Ataruk, militar graduado, revolucionário e primeiro presidente da Turquia. Antes, porém, ganhou renome com sua atuação na primeira guerra mundial. Lutou ao lado dos alemães e foi derrotado pelas forças aliadas. A partir de então, passou a liderar a Guerra da Independência Turca que culminou com a proclamação da república em substituição ao Império Otomano. Na sua juventude, por volta de 1907, promovido a capitão do exército, Mustafá passou a integrar o Comitê para a União e o Progresso, cujos integrantes eram chamados de “jovens turcos”. A chamada “revolução dos jovens turcos” alcançou algum poder e chegaria finalmente à República sob a liderança de Kemal. A notícia da atividade kemaliana ganhou o mundo. No Brasil, Benjamim Constant defendia a tese do soldado-cidadão: antes de ser soldado, o militar seria um cidadão a serviço do regime republicano. Pregava a extinção das forças armadas que seriam reduzidas a atividades policiais vinculadas à ordem pública. Na oposição a essa tese, a partir da Primeira Guerra, surgiram militares nacionalistas e defensores da profissionalização do exército. Até um jornal editavam: “A Defesa Nacional”. A essa geração de militares intelectualizados foi denominada de “jovens turcos”. Na Parahyba, não foram os militares, mas uma plêiade de políticos seguidores de Epitácio Pessoa que se apropriaram do nome e das idéias dos militares turcos e nacionais. Marcaram época e alcançaram o poder com o nome de “jovens turcos”. Segundo Cunha Pedrosa, deputado, senador e ministro do TCU, os “jovens turcos” paraibanos reuniram-se pela primeira vez em 1916, na Fazenda Roma, em Bananeiras, residência de Solon de Lucena. O mentor do grupo era o coronel Antonio Pessoa, irmão de Epitácio, que deixara o governo da Parahyba nas mãos de Solon, então presidente da Assembléia. Esses jovens, a maioria egressa dos bancos da faculdade de direito do Recife, sonhava em suceder a geração que aportara na política paraibana a partir de 1880 e alcançaria a Primeira Republica. Os “jovens turcos” eram adeptos da pregação epitacista que buscava o desenvolvimento do estado, via integração do nosso interior produtivo com o mercado litorâneo. Essa união visava uniformizar o crescimento econômico que seria estimulado, sem dúvida, pela influência política de Epitácio no cenário nacional.Do outro lado estavam os “guelas”, assim chamados por sua preferência pela ocupação dos melhores cargos públicos. Os “jovens turcos”, liderados por Solon de Lucena, era ainda integrado por Álvaro de Carvalho, que se agregara a Solon desde quando fizeram parte do corpo docente do Instituto Bananeirense. Chegou à presidência do Estado com a morte de João Pessoa. José Américo incorporou-se ao grupo a partir de 1917. Lá estavam Celso Mariz, Demócrito de Almeida, Walfredo Guedes Pereira, o grande prefeito da Capital na gestão de Solon, João Suassuna, Antonio Pessoa Filho e outros menos conhecidos. Há quem defina os “jovens turcos” como um grupo de doutores do litoral que se opunha aos coronéis do sertão. Para Fernando Nóbrega, porém, essa hipótese se desmerece a partir da identificação que faz dos jovens turcos: José Parente, do Piancó; coronel José Pereira, de Princesa; coronel Targino Pereira, de Araruna; Benedito Queiroga, de Pombal; Solon de Lucena, pelo litoral e brejo; Celso Mariz, pelo sertão.Essa funalização expressa pelo ex-secretário de Suassuna sugere mais uma adesão dos coronéis ao grupo, quando este passou a dominar a política paraibana, a começar do governo de Solon de Lucena até Álvaro de Carvalho, passando pelo João, que era mais Pessoa do que turco. José Américo só chegaria ao poder após a revolução de 1930 e por eleição, na memorável campanha de 1950. Os “jovens turcos” começaram a ocupar cadeiras no governo da Parahyba desde a gestão de Camilo de Holanda mas, hostilizados, revolveram abandonar o barco, deixando o governo sem deixar Epitácio. Demócrito foi Chefe de Polícia, Solon, secretário de governo e Antonio Pessoa Filho, prefeito da capital. Menosprezados como “parentes de Epitácio”, foram atormentados por Camilo até que pedissem demissão. Camilo passou a preferir seus próprios sobrinhos aos sobrinhos de Epitácio, não sem receber deste várias reprimendas. Para Epitácio, Camilo no governo estaria “procedendo como não procederia um adversário.Basta notar que o seu governo só considera adversários os parentes e amigos mais íntimos, meus ou de minha família.Pelo menos só a eles trata como tais. Valfredo, Semeão,(dos Santos Leal) José Rodrigues (de Carvalho),Heráclito (chefe da oposição), para não citar senão os adversários, são cumulados de todas as deferências e favores...enquanto Solon, Pessoa Filho, Suassuna, Carlos Espínola, para indicar também só quatro amigos, são desconsiderados ostensivamente” (centenária carta de Epitácio a Camilo em 6 abril de 1917). Os “jovens turcos” Antonio Pessoa, Solon de Lucena, João Suassuna e Álvaro de Carvalho ocuparam a cadeira presidencial parahybana. Mustafá Kamel jamais imaginou que os seus “jovens turcos” teriam seu exemplo copiado nos confins do brejo paraibano, a partir da Fazenda Roma, na distante Bananeiras, onde morava Sólon de Lucena - o maior de todos os seus filhos.(Consultei Linda Lewin,Osvaldo Trigueiro Mello e Apolonio Nóbrega)

O FUNDADOR DA REPÚBLICA

Há quem diga que a República, entre nós, nunca foi proclamada como nos contaram na escola primária. O marechal Deodoro da Fonseca, tido e havido como comandante do golpe militar que derrubou Pedro II, teria, apenas, diante do fato consumado e anunciado pelo jornal de José do Patrocínio, aceito as circunstancias e assinado o decreto que instituiu o Governo Provisório da república federativa dos estados unidos do Brasil. Um paraibano assinou o decreto Numero Um, logo após a assinatura de Deodoro: o jornalista Aristides da Silveira Lobo. Os demais assinantes foram Ruy Barbosa, Quintino Bocaiúva e Benjamim Constant. Coube a este último, porém,o título de Fundador da República, oficializado nas disposições transitórias da primeira Constituição republicana de 1891, como veremos mais adiante. Benjamim Constant Botelho de Magalhães é carioca de Niteroi, onde nasceu em outubro de 1836. Pobre desde o nascimento acompanhou sua família em mudanças por várias cidades à procura de melhoria de vida. O pai, professor de gramática e latim, vivia das aulas que ministrava. Antigo tenente da Marinha Portuguesa, chegou ao Brasil pelos idos de 1822 e, casando com uma brasileira, permaneceu no nosso Exército após a Independência. Protegido do Barão de Laje passou a administrar uma fazenda de sua propriedade, em Minas. Quando melhorava a sua sorte, foi colhido pela morte. A desesperança volta a reinar no seio da família Constant e a mãe de Benjamim termina seus dias entregue à loucura. A partir da perda do chefe da família, o jovem Benjamim teria que lutar para manter-se e ajudar os seus. Ainda em Minas Gerais conseguiu ser admitido no mosteiro de São Bento onde adquiriu conhecimentos suficientes para o ingresso na Escola Militar, em busca do sonho de ser professor. Conseguiu. Lecionou até na Escola Superior de Guerra. Apesar de militar, era um pacifista e defendia o “soldado cidadão”. Para ele, o soldado deveria ser mais cidadão do que soldado. Participou da guerra do Paraguai e foi um crítico severo da sangrenta disputa e, principalmente, do seu comandante, o futuro duque da Caxias. Suas cartas a respeito do assunto foram publicadas em livro sob o patrocínio do Instituto Histórico Brasileiro e do Museu Casa de Benjamim Constant. Sobre essa casa, onde morou e faleceu Benjamim Constant, reportou-se a primeira constituição da República, quando, em artigo explícito perpetuou o seu nome como o Fundador da República. Por outro lado, o artigo sétimo das disposições transitórias da Carta de 1891 concede a Dom Pedro de Alcântara, ex-imperador do Brasil, uma pensão que lhe “garanta por todo o tempo de sua vida, uma subsistência decente”. Nos dias atuais muito se comenta e contesta a pensão vitalícia concedida a ex-presidente e ex-governador brasileiros. O modelo, contudo, vem de longe. Com relação ao patriota Benjamim Constant, o constituinte foi afável: “O governo Federal adquirirá para a Nação a casa em que faleceu o dr.Benjamim Constant Botelho de Magalhães e mandará colocar uma lápide em homenagem à memória do grande patriota- o fundador da Republica”. E diz mais, no parágrafo único: “A viúva do dr Benjamim Constant terá, enquanto viver, o usufruo da casa mencionada”. A casa situa-se no bairro de Santa Tereza, à rua Monte Alegre 255, no Rio de Janeiro. Apenas no ano de 1982 do século passado, foi criado o Museu Casa de Benjamim Constant, graças ao esforço do seu neto, o general Pery Constant Beviláqua, muito falado nos idos de 1964. A pensão vitalícia de Pedro II e a casa da viúva do Fundador da República, nos dias de hoje seriam consideradas sinecuras. Mas são exemplos históricos que merecem registro, principalmente, pelo aval que receberam dos senadores Almeida Barreto e Firmino Gomes da Silveira e dos deputados Epitácio Pessoa, Antonio Couto Cartaxo, João Batista de Sá Andrade e o tenente João da Silva Retumba, constituintes paraibanos de 1891 e ilustrados nomes de ruas desta Capital. Para encerrar, é bom lembrar que, quando os ministros militares investidos do poder revolucionário de 1964, plantaram na emenda no. 1 à Constituição de 1967, uma pensão vitalícia para o presidente Costa e Silva e autorizaram o Erário a custear as despesas hospitalares do marechal enfermo, estavam apenas, modestamente, seguindo o exemplo dos seus heróicos antepassados. Os males vêm da fundação...

O ÚLTIMO PRESIDENTE DA PARAHYBA

Pelo decreto número 01, de 15 de novembro de 1889, que instituiu a República Federativa do Brasil, as antigas províncias imperiais passaram a se denominar estados. Seus gestores seriam chamados de governadores e nomeados na qualidade de delegados do governo provisório que se estabelecera sob a chefia do marechal Deodoro da Fonseca. A primeira Constituição republicana, de 24 de fevereiro de 1891, mudou a designação dos administradores estaduais para presidentes de estado. Assim, o primeiro governante da Parahyba, o juiz Venâncio Neiva era tratado por governador. Seu sucessor, o major do exército Álvaro Machado seria o nosso primeiro presidente do Estado. O último foi o intelectual e imortal, um dos fundadores da nossa Academia de Letras, Álvaro Pereira de Carvalho, que sucedeu a João Pessoa. Até receber das mãos de João Pessoa o cargo de presidente da Parahyba, o professor Álvaro de Carvalho percorreu um longo caminho. Encontrei-o em 1908, nas páginas de “A Cidade de Bananeiras”, em um sábado festivo, participando ao lado do mestre-escola Sólon de Lucena, ambos acadêmicos de direito, de solenidade no Instituto Bananeirense. O jornal narra sua participação: ”Nesse momento assomou a tribuna o professor Álvaro de Carvalho. A oração do nosso talentoso colega, além dos bens lançados conselhos sobre a responsabilidade e o objeto da educação de nosso tempo,foi um brado sincero de estimulo,uma cadeia de palavras confortantes e animadoras para os que ensinam e os que aprendem”. A platéia ouviu ainda a Solon de Lucena, sem imaginar que, em futuro próximo seriam os dois, nomes de elevada projeção no cenário político estadual. Há quem atribua a Celso Cirne a iniciativa de levar para o distrito de Moreno o professor Álvaro de Carvalho, depois, requisitado por Sólon, para Bananeiras, e com ele irmanado na caminhada que empreenderam até o fim de suas vidas. Com Solon de Lucena, Álvaro de Carvalho incorporou-se aos “jovens trucos”, grupo epitacista de vanguarda que acreditava na força do mercado do interior incorporando-se ao litoral, para promover o desenvolvimento do Estado. A ascensão de Solon ao governo da Parahyba levaria Álvaro ao seu secretariado e, depois, ao mandato de deputado federal, donde saiu para exercer a primeira vice-presidência do Estado. Aí começaram os seus dissabores. O crime da Confeitaria Glória iria encontrá-lo à frente do governo. Na noite anterior, João Pessoa lhe passara o cargo. De substituto eventual, tornou-se presidente efetivo com a morte do titular. Começava a gestão, que durou 70 dias, do último presidente da Parahyba. Era 26 de julho de 1930. Na véspera, Álvaro tentara demover João Pessoa dessa temerária viagem ao Recife, cidade infestada de inimigos. Seu irmão Osvaldo, desejava acompanhá-lo. Foi demovido da idéia, sob a ameaça, caso insistisse, de desistir da viagem projetada.O que tem de acontecer tem muita força, diria José Américo. A triste notícia chegou ao início da noite e “espalhou-se célere e, dentro em pouco, a Paraíba levantava-se desvairada como um só homem, num grito horrível de desespero e de vingança”,conta Álvaro de Carvalho. O sucessor de João Pessoa manteve todo o secretariado escolhido pelo pranteado morto. E era dentro desse corpo que se tramava a conspiração que culminaria na chamada Revolução de 1930. Juarez Távora estava escondido “na casa do meu líder na Assembléia, e eu não o sabia”. Logo na manhã de 4 de outubro a Revolução fez de Álvaro a sua primeira vitima. Segundo José Américo, “não foi deposto oficialmente, a meu pedido.Nossas relações tinham esfriado, mas eu devia esse gesto.Pensei encontrá-lo sucumbido e estava,admiravelmente sereno, a mostrar que a hora da adversidade era também a das afirmações”. Para Álvaro de Carvalho essas “relações esfriadas” só chegaram ao seu conhecimento a partir da publicação das memórias do autor de A Bagaceira em 1948. Desde então, afastaram-se definitivamente: “Mas continuo a julgá-lo, hoje, como sempre: honesto,apaixonado,medianamente sociável para os que o procuram,agressivo para os desafetos,cheio de excelências para o seu Eu, virtude que as posições exaltaram,talvez desmesuradamente”, escreveria anos depois. Homem comedido e, preocupado, apenas, em atender aos reclamos da sua consciência, Alvaro de Carvalhoa não agradou aos mais apaixonados seguidores do Presidente imolado. A Revolução estava sendo tramada ao seu redor, sem que ele tomasse conhecimento de nada. Gerou-se uma agressiva desconfiança contra seus atos. Foi censurado até por designar o tratamento de Excelência ao presidente da República, a quem se queria atribuir responsabilidade pela morte de João Pessoa. Considerado, injustamente, um traidor dos ideais defendidos pelo seu antecessor, teve que se afastar na Paraíba por alguns anos. Foi levar sua experiência de professor à juventude da cidade de Santos. Pobre a vida inteira, regressando ao Estado, conseguiu uma modesta moradia para a família através do antigo Montepio. Nessa casa da rua Artur Aquiles foram feitas as primeiras reuniões da Academia Paraibana de Letras. Membros do Congresso Nacional registraram-lhe o perfil, nas homenagens tributadas por ocasião de sua morte, em 1952. O então deputado Samuel Duarte, encaminhando o requerimento de pesar, destacou: “Os acontecimentos de 30 o surpreenderam no exercício da Suprema Magistratura do Estado e ele se conduziu com tal espírito de tolerância, de elevação e de patriotismo que pode conquistar a admiração de seus próprios adversários”. “No tumulto que caracterizou seu breve período de governo, conduziu-se o dr. Álvaro de Carvalho com inexcedível dignidade,deixando em nossa história política um alto exemplo de fidelidade aos deveres do seu partido e mais particularmente à liderança de Epitácio Pessoa”, registrou o deputado Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Mello. Para o jornalista Assis Chateaubriand, à época senador, Álvaro de Carvalho “como mentor da juventude do Liceu Paraibano, como guia político dos seus concidadãos fazia questão de ser impecável, antes de tudo, com a sua consciência”. Darei, afinal, a palavra, a esse grande paraibano de quem me ocupo hoje, para encerrar, neste espaço, sua pequena grande história: “Tres dias depois da Revolução, voltei ao Liceu e assumi o meu posto de professor.Deste modo,renunciei ao cargo que ocupava e à vida publica em que fui mal sucedido.Decididamente não tinha o estofo onde se talham os heróis”. ( Consultei Ademar Vidal, Osvaldo Trigueiro Mello e Álvaro de Carvalho em, “Nas Vésperas da Revolução”)