UM LIVRO COM GOSTO DE MEL E DE CACHAÇA

A primeira promessa que fiz a Zélia Almeida data de 1993. Presidindo uma comissão de análise de projetos, ela me procurou para entregar a reivindicação da Associação da Industria do Vestuário do Estado da Paraíba. Os pequenos produtores de roupa queriam 57 milhões de cruzeiros novos. Eu era diretor do Banco do Nordeste e o banco tinha o dinheiro. Prometi lutar pelo pleito. A segunda promessa, estou cumprindo agora: apresentar, com muita honra, para quem ainda não conhece, o seu livro Bem Estar e Riqueza no Brejo de Areia. Confesso meu pecado: apresentei-o, primeiro, a mim mesmo, um brejeiro que não merece perdão, por ter demorado tanto a mergulhar nas brenhas da terra de Pedro Américo e, pelos olhos de Zélia, del iciar-se com a produção da rapadura e da cachaça. Vi-me de volta à infância, reencontrando nas Laranjeiras, os caminhos percorridos do Poço Escuro, onde minha avó, trazida do sertão para a Casa de Caridade do Padre Ibiapina pontificava como viúva e herdeira, do engenho e da filharada do tenente Zé Rodrigues.

O livro de Zélia é uma declaração de amor ao Brejo de Areia. Como analista de projetos e economista renomada, vasculhou a memória e colocou nas suas páginas a visão da criança e da adolescente a testemunhar a evolução econômica e cultural da sua terra. E definiu alicerces: os engenhos, a escola de agronomia e as freiras alemãs fugidas de Hitler. A cidade viveria em torno desses pilares. Os engenhos, na entressafra, aproveitavam seus trabalhadores na produção da agave. Mas a economia de Areia atravessaria várias fases, desde o café, cuja qualidade rivalizava com o centro sul do País, à cana de açúcar, ainda hoje sobrevivendo e fazendo circular a riqueza do município. Antes, p elo açúcar e a sólida rapadura, hoje pelo líquido precioso que passarinho não bebe: a cachaça. Ela retrata o cenário das Laranjeiras, engenho da sua infância: “No centro, o engenho de rapadura, casa das desfibradeiras de agave, a casa do alambique da cachaça e a casa de farinha. Nos altos, terras de maior declividade, sisal ou cana, dependendo da vontade do Doutor. Doutor duro de vontade que, nem sempre, seguia as vontades compatíveis com tecnologias próprias utilizadas nas terras, daquele local. Ele queria que produzisse. Não media produtividade. Como eram verdes meus altos, vales e ribanceiras”. Fala a memorialista e romântica brejeira, sem perder o norte de quem se preocupa com o resultado econômico da atividade do campo que o Doutor não visualizava. As imagens se misturam, as desfibradeiras rosnam enquanto a menina ap recia o leite morno saindo do peito da vaca.

A mocinha pedia pouco. Bastava correr pelos canaviais que sua felicidade estava completa. “Me sentia a rainha do mundo”, confessa. Mas não despregava os olhos da vida que a cercava. Dava para comparar a distância entre a casa grande e o mocambos dos trabalhadores. A escravidão ganhava outras formas, uma delas, era a dependência do barracão. O Mundo Novo, engenho do coronel Cunha Lima, ainda guardava liames com o passado. “Severina conta que lá, há mais de um barracão. São vários. Paga um, sai dinheiro, fica devendo, compra noutro, sai dinheiro e vai rolando o dinheiro pelos barracões do Mundo Novo. Era o único jeito dos filhos comerem mais. Não comem direito... pouca coisa. Ainda fica pendurado para pagar no dia da conta”. Zélia não comenta esse cenário de pobreza e resignação, deixa ao leitor o julgamento.

Depois que surgiu a Usina de Açúcar, diminuiu a produção de rapadura. Os plantadores de cana, passaram a fornecedores da usina. Poucos resistiram à nova ordem. Também, quem comia rapadura, passou a preferir o açúcar refinado. Um dia, narra a autora, perguntou:

“-Pai, quem come rapadura?

 - Os pobres do sertão!

- E quando os pobres do sertão ficarem ricos, quem vai comer rapadura? Insistiu. A resposta foi premonitória.

- Melhor produzir aguardente. Aguardente é como uísque, todo mundo gosta.

Depois que a má gestão e a Justiça do Trabalho deram fim à Usina Santa Maria, foi o caminho que restou à economia do brejo: a cachaça. Em algumas áreas, a banana surgiu como fonte de renda. A pecuária, só para consumo familiar. Quem criava boi no brejo, tinha que possuir fazenda no Curimataú para onde levava seu rebanho no inverno. O Barão de Araruna levava seu gado para a fazenda Capivara, em Cacimba de Dentro, fugindo do clima de Bananeiras. O mesmo acontecia com os senhores de engenho de Areia. Um parêntesis: Quando deputado federal, enviei apelo ao Ministério da Educação para que se adotasse a rapadura na merenda escolar. Os engenhos diversificaram a apresentação do produto e a rapadura granulada passou a frequentar a mesa da s escolas. Fecho o parêntesis. “A rapadura em Brejo de Areia era comida para substituir a carne. Junto com a farinha. Eu via. Colocavam a rapadura para adoçar o café. Não tinham dinheiro para comprar açúcar. Ou misturavam na coalhada. Era necessário, útil, mas não dava o prazer de comer, como a cachaça dava para beber, ensina Zélia, para quem, “nas usinas do brejo a pobreza se esconde e existe”.

Depois de reviver a saga dos engenhos e dos que vivem neles e do que produzem, Bem Estar e Riqueza no Brejo de Areia revisita, sob os olhos sonhadores da menina Zélia Almeida, a Escola de Agronomia do Nordeste e o Colégio Santa Rita, duas vertentes que desaguaram na cidade e ajudaram a construir a sua história. Conta que José Américo, o idealizador da escola, em tom de blague arrolou entre as vantagens daquele estabelecimento: vai facilitar o casamento das moças de Areia. O Santa Rita educava as meninas, a Escola trazia os futuros noivos.

Mas não se pense que a irrequieta Zélia Almeida revelou conformação com a falta de emprego e renda resultantes da desativação da Usina ou o crescente número de engenhos de fogo morto. Seu livro se encerra com um projeto de futuro: o aproveitamento do clima, da história e da cultura da cidade como motivos de atração turística. A gastronomia, a cachaça de melhor qualidade, as festas que giram em torno até da banana seriam o apelo para conhecer e, melhor, fazer de Areia, uma segunda residência. Surgiram os condomínios fechados e os hotéis. Falta ocupá-los. Zélia dá a formula.

Brejeiro como Zélia, mergulhei com gosto nas páginas do Brejo de Areia. Como disse antes, foi como reviver o meu passado pelos engenhos dos meus avós. Menino urbano, não me prendia muito ao campo. Era um visitante esporádico. Mas lendo Zélia, degustando sua deliciosa narrativa pelas serras verdes dos contrafortes da Borborema, lamentei o quanto perdi. O que li, me deixou com água na boca, digo melhor, com o gosto do mel de engenho, o sabor da rapadura e o desejo de um gole da melhor cachaça.


DOM JOSÉ E O ESQUADRÃO DA MORTE

Lembro-me muito bem da chegada de Dom José Maria Pires a esta capital para assumir o arcebispado da Paraíba. A igrejinha de Santo Antônio, lá no Oitizeiro, a mesma onde Rui Carneiro costumava fazer suas orações todas as vezes que aportava no Estado, foi o ponto de espera. Uma carreata, tendo à frente um jeep sem capota conduzindo o novo chefe da Igreja entre nós, seguiu pelas ruas desta cidade, os fiéis estacionados nas laterais a saudá-lo. Os organizadores da recepção, aos poucos, foram deixando o círculo do poder católico que se instalava. Não rezavam pela cartilha do novo líder. O Palácio do Bispo seria ocupado pelos mais humildes, os injustiçados, os perseguidos. O seu inquilino optara pela Senzala, para desgosto dos donos das Casas Grandes que acabavam de se encastelar no poder, graças à assunção dos militares. Era 1965.

Dom José, nascido em 15 de março de 1919 no distrito de Córregos, Conceição do Mato, MG, tinha um trabalho pastoral voltado para os desvalidos, o que não agradaria às elites dominantes. Seus sermões foram por vezes gravados e censurados pelo regime de então. Era uma missão que ultrapassaria as nossas fronteiras e, uma palavra ouvida com respeito na CNBB. Os bispos nordestinos o entronizaram na presidência da Comissão Episcopal Regional e os trabalhadores de Alagamar, agradecidos, acataram-no como um deles e o amaram para sempre. Subscritor do Pacto das Catacumbas, firmado por Padres Conciliares que se comprometiam a viver na pobreza e a renunciar aos privilégios do poder, deixou a vivenda nobre da praça Dom Adauto e passou a residir em uma pequena casa defronte ao Cruzeiro, no ádrio de São Francisco.

Foi nessa humilde residência que o procurei em um dia de 1985, a pedido do governador Tarcísio Burity. A Paraíba, naqueles tempos, estava violentada pelo chamado Esquadrão da Morte, um grupo paramilitar que pretendia eliminar notórios criminosos e fazer Justiça com as próprias mãos. Os registros de mortes encomendadas cresceram e, pessoas sem qualquer histórico criminal mas, apenas, por serem testemunhas da ação ilegal dos mascarados de capa e botas pretas, foram, igualmente, condenadas. O pároco de Guarabira, Padre Adelino, tomara para si a tarefa de denunciar os matadores que, segundo era sabido e ninguém tinha coragem de denunciar, eram chefiados por um tenente da Policia Militar, chefe do P2 e seus seguidores, um dos quais, por ironia, chamava-se Pacífico. O padre entrou na lista dos marcados para morrer e foi esse o motivo da minha visita a Dom Jos&ea cute;.

Antes, eu já promovera um encontro entre o padre Adelino, o governador Burity e o secretario Talião, na residência de Bosco Carneiro, em Alagoa Grande, instado pelo advogado Paulo Freire, que me apresentou ao vigário. O governador tomou conhecimento da estratégia do grupo de extermino e lembrou sua experiência anterior, quando enfrentou em Campina Grande outro grupelho que se cognominou de Mão Branca, com os mesmo objetivos daquele que passou a atuar em Guarabira e municípios vizinhos. Prometeu tomar providencias. Dias depois, eu cumpriria missão junto a dom José, como narrei no início. Burity estava informado por fonte da inteligência da Policia Militar que o Padre Adelino estava com os dias contados. Para evitar esse desfecho, teria que deixar o país. Foi o recado que levei a Dom José.

Homem preocupado com o respeito aos direito humanos, chegando a criar um Instituto para essa finalidade, Dom José só tinha a lamentar que durante sua gestão como Arcebispo, surgissem, na Paraíba, esses grupos de extermínios. O governador confessava que não tinha como evitar a morte do padre e se comprometia a custear seu exílio quase voluntário. Dom José compreendeu a situação e conseguiu um curso para padre Adelino em Roma. Dois anos depois, desfeito o Esquadrão da Morte, presos ou foragidos os seus integrantes, Adelino retorna à Paraíba e entra na política. Se elege vereador na Capital e depois deputado. Os militares responsáveis pela morte de mais de quarenta pessoas foram sentenciados a penas que ultrapassavam mais de cem anos. Dom José, que coordenava um esquadrão do bem, deu também seu contributo para eliminar o esquadr&a tilde;o do mal. Desde o último domingo, repousa em paz, ao lado do Pai. 


TERRA À VISTA

Quando Cabral aportou nas costas da Bahia e, das naus de sua esquadra avistou-se um monte alto a que se denominou Monte Pascoal, começou a nascer um país que, quinhentos anos depois, ainda refletiria a semente plantada naquela terça-feira, 21 de abril. Não me acanho de repetir o lugar comum de que, a qualidade da gente trazida para ficar e se misturar com os índios não germinaria bons frutos. Pero Vaz de Caminha mandaria dizer a dom Manuel, o Venturoso, que o Capitão “mandou com eles (os índios) para ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. O degredado levava uma bacia pequena e duas ou tr ês carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se lá o houvesse”. Foi a primeira ação de corrupção com pagamento de propina que se registrou nesta terra de Vera Cruz.

“O Capitão, quando eles (os índios) vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço...acenderam-se tochas e eles entraram...um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra.E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!...Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Narrou o escrivão da frota.

Os portugueses, sem dúvida, estavam interessados no ouro e na prata. A procura de especiarias era só uma desculpa para quem saiu com destino às Índias e, desviado da rota por falta de vento terminou por descobrir novas terras. Os silvícolas pediam pouco. Encantaram-se com as contas de um rosário e pediram-nas de presente, enfeitando de logo seus pescoços. Através de gestos, propunham a troca das contas por ouro e prata que, ao que indicava, era abundante na nova terra. Os visitantes tomaram a resolução de levar dois daqueles índios, mesmo à força, à presença do Rei de Portugal, deixando em seu lugar dois degradados. A primeira tentativa de sequestro entre nós foi abortada pela sugestão de que, os degredados, ficando em terra, teriam muito mais a contar sobre o território conquistado. Assim foi feito e mandado dizer a El Rei:“E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui dois degredados quando daqui partíssemos”. Não esqueceu Pero Vaz de informar que, além dos degredados, “dois grumetes, que esta noite saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. Tutto buona gente!

“E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo” concluiria Pero Vaz. Na despedida, contudo, não deixou de cobrar do seu amo, um pequeno favor. Bastou demorar-se por aqui e respirar o nosso clima por alguns dias, para descobrir o jeitinho brasileiro. Escreveria ao final de sua famosa Carta: “E pois que, Senhor, é certo qu e tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé, a Jorge de Osorio, meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê.”Era a primeira notícia do nepotismo em terras brasilienses.

Lendo a Carta de Pero Vaz de Caminha, nosso primeiro testemunho escrito sobre a nova terra e sua gente, chego à conclusão de que o Brasil tem jeito. Basta começar tudo de novo...


UM PARAIBANO DE CAICÓ

O menino nasceu em Caicó, no vizinho estado do Rio Grande do Norte, pelos idos de 1923, em um dia 13, desafiando a data aziaga. Antes dele, morreram dois irmãos com o mesmo nome. Ele escapou depois de ultrapassar o primeiro ano de vida, sendo o quinto, de uma prole de nove nascidos da união de Francisquinho com Besinha, apelido de Isabel. O pai poderia ser encontrado com o sobrenome de Saldanha ou Sapateiro. Era um liberal, febre que costumava atingir os trabalhadores autônomos. Esse Saldanha tinha origem na Paraíba e fez de Francisquinho um volun tário contra os rebeldes de Zé Pereira que ameaçavam invadir Brejo do Cruz. Na resistência organizada pelos Saldanhas e Maias, lá estava Francisquinho ficando suas raízes paraibanas. Veio para a Capital e nunca mais voltou ao Caicó.

Seu filho, que se chamaria Joacil de Brito Pereira, escreveria muitos anos mais tarde que sua família fugira do ódio e a seca. “Não éramos retirantes, flagelados, pois tínhamos alguns haveres, mas éramos emigrantes fugidos de dois flagelos”. Em João Pessoa, já com essa denominação, passaram a morar em Jaguaribe, onde o pai estabeleceu-se com uma pequena loja de sapatos e miudezas, enquanto a mãe complementava a receita domestica com a fabricação de doces e salgadinhos que eram vendidos por um agregado que os acompanhara desde o Caicó. Educar essa filharada era a missão maior desses abnegados p ais. “Que mãe extraordinária, era a minha”, diria o filho.

Pensava em participar da Segunda Grande Guerra e ser um Expedicionário nos campos da Itália. Não passou de Natal onde os americanos instalaram o Trampolim da Vitória. Um grave incidente no quartel o afastou do Exército tornando-o hóspede de Fernando de Noronha. Injuriado e agredido injustamente, enfermo e não reconhecido, revidou a agressão de um coronel perante o qual fora levado, por perseguição de um sargento. Tentou justificar-se e não foi ouvido. A partir de então, formou-se no seu caráter a firme decisão de enfrentar a injustiça e lutar pelos valores democráticos. Voltou à Paraí ba são e salvo. Perdera a patente de cabo telefonista.

Desde o movimento estudantil na Faculdade de Direito do Recife, de cuja turma de 1950 foi orador e aluno destacado, aos comícios em regozijo pela queda da ditadura Vargas, Joacil esteve presente e com participação elogiada. Em evento na Lagoa, falando perante José Américo, recebeu dele o convite para ingressar na UDN e disputar o mandato de deputado estadual. Pretendia o grande paraibano incentivar novas lideranças. O clima do pós guerra recomendava isso, com o país querendo dar novos passos em direção à democracia. O sangue derramado no front pelos pracinhas brasileiros, reclamava novos tempos.

A advocacia lhe deu fama e, sua inteligência e capacidade de articulador político, lhe deram asas. O Parlamento estadual e o federal lhe reservaram cadeiras em vários mandatos. Como secretário de Estado de vários governos, demonstrou sua eficiência como executivo. Foi simpatizante do comunismo nos arroubos da mocidade mas, no golpe contra João Goulart, já podia ser identificado como o líder civil do movimento entre nós. Agitou a reação contra os militantes de esquerda, ajudou a cassar mandatos e, dentro em pouco passou a combater os excessos dos novos “donatários da capitania”. Diante da injustiça, era em Joacil Pereira que se encontrava arrego.

Quando a política passou a depender mais de dinheiro do que de vocação, abandonou-a. Mas continuou a lutar pelo seu estado e pela cidade que escolheu por moradia. “Nela expandi alegrias e chorei tristezas”. Outros fóruns reclamaram sua presença. A Academia de Letras, o Instituto Histórico e inúmeras outras entidades passaram a receber o concurso da sua capacidade criadora. Teve o meu voto como candidato ao Senado. Não perdi o voto. O Senado é que perdeu!


A FESTA DA PADROEIRA

 Falei antes na Festa da Padroeira de Borborema. Merece um capítulo. A comunidade católica de Borborema tem a proteção de Nossa Senhora do Carmo, sua padroeira. A igreja, situada no ponto mais alto da cidade, foi aos poucos melhorada. Não se tem precisão da data de sua construção. A sua única torre eu me lembro quando surgiu. Há fotografias da cidade, onde aparece o trem da Great Western parado para abastecer com água a Maria Fumaça, com o local da igreja ocupado, apenas, pela mata de eucaliptos. Como o trem aportou na cidade em 1913, está claro que a construção da matriz é posterior. Contam alguns que o dr. José Amâncio Ramalho mandou construir a igreja. Uma placa mandada fixar pelo próprio na entrada da matriz, desmente essa versão. O soba borboremense é responsável pela construção das escadarias que dão acesso ao templo, satisfazendo a última vontade de sua esposa, como perpetuou em bronze: “ESTE PATAMAR E ESCADARIAS FORAM CONSTRUIDOS PELO DR.JOSÉ AMANCIO RAMALHO NO ANO DE 1946/ULTIMA VONTADE DE SUA ESPOSA D.LUIZINHA RAMALHO/ INAUGURADOS A 15 DE JANEIRO DE 1947/ QUINQUAGÉSIMO SÉTIMO ANIVERSARIO DO SEU NASCIMENTO/ (PROJETO DO DR.CARLOS FEST)”.

 O projeto incluiu a implantação de seis estátuas de figuras bíblicas: Abraão, Moisés e Noé, do lado esquerdo de quem sobe e Matheus, Lucas e João, do lado direito. Os profetas foram fixados em cada um dos descansos da escadaria, toda feita em pedra. Quando minha mãe casou nessa igreja, em 1940, ao subir a íngreme ladeira, deve ter arrastado na poeira a calda do seu vestido de noiva.

 Na minha infância/adolescência, um padre que marcou época foi o padre Cornélio Belo. Vigário de Serraria, sede da paróquia, vivia às turras com as lideranças de Borborema. Parece que frequentava a cidade, apenas, para cumprir tabela, como dizem os cronistas esportivos. Criticava muito os ausentes às suas prédicas. A estes, cognominava “católicos de rótulos de garrafa”. Diziam-se católicos mas não compareciam à igreja, recriminava. A festa da padroeira era motivo de choque entre o padre a comissão organizadora. As vezes conseguia se impor, outras não. Meu pai, organizador da festa por muitos anos, repelia suas idiossincrasias: a festa não é do padre, é do povo.

 Interessante notar que, apesar de a Padroeira da cidade ser Nossa Senhora do Carmo, a festa era realizada no dia de São Sebastião e, para muitos, a festa era Dele. Para evitar discórdias, até os dias de hoje, na procissão do dia 20 de janeiro, dois andores percorrem as ruas conduzidos pelos fieis: um leva Nossa Senhora, outro, São Sebastião.

 Antônio Nogueira Campos, comerciante e senhor de engenho, outro pioneiro que chegou a Camucá na mesma época de José Amâncio, era devoto de São Sebastião e, em assim sendo, mandou construir uma capela em terreno de sua propriedade. Terminada a festa oficial da paróquia, começava a dele. Os parques eram desmontados e remontados ao redor da capela. Até morrer, minha prima Lourdes Leite era uma espécie de capelã desse templo. A devoção do fundador, porém, teve continuidade durante toda a existência de sua viúva, d.Elisa Nogueira, uma guerreira que, mesmo em uma cadeira de rodas, ainda se divertia organizando os carnavais da cidade.

 Os parques de diversão eram a alegria da meninada e também serviam para suas traquinagens. A onda, brinquedo que desapareceu, constava de uma bancada redonda onde todos se sentavam e, manualmente, homens fortes impulsionavam seus arcos, provocando uma oscilação em círculos que simulava as ondas do mar. Daí a denominação. Em uma dessas festas, eu e Gilson Escorel, de saudosa memória, saímos por traz da onda unindo com broches as saias das mulheres. Na hora da descida, estavam as moças com as saias emendadas com alfinetes de segurança. Quem saísse mais apressada rasgava a saia. Aliás, por pura maldade, o objetivo era esse mesmo.

 Além da onda, haviam as canoas. Nada mecanizado, tudo dependia da força física do frequentador e pagante, ou do empregado do parque, como no caso dos carroceis. Haviam dois, um de Severino Cordeiro, sem os cavalinhos e outro, de Pedro Vitorino: “No carrossé de Pedro Vitorino, corre homem, mulher e menino”. Não eram poucas as crianças e, até adultos, que desciam do carrossel vomitando as tripas. Tempos depois apareceu a sombrinha de Pedro Mecânico. Pelo nome do dono, já se conclui que a peça era motorizada. A roda gigante surgiria mais adiante. Mas o sucesso da festa era feito pelos serviços de alto falantes, oferecendo música para os ouvintes: “de alguém para outro alguém”, era a mensagem dos tímidos. Havia os que aproveitavam a festa para declarar o seu amor: “Antônio do Camucá, oferece essa música a Toinha de Poço Escuro, como prova de admiração e carinho”. Outros, mandavam através da música a sua mensagem cifrada: “Verinha, escute essa melodia, de um alguém para você. Na voz maravilhosa de Nora Ney, o cartão postal de Ary Barroso – Risque”, que começava assim: Risque/ meu nome do seu caderno/ pois não suporto o inferno/ de nosso amor fracassado... ( Trecho do capitulo 5º do meu livro de memórias ERA O QUE TINHA A DIZER) 


DE MESTRE ESCOLA A PRESIDENTE

Os acontecimentos que culminaram com a chamada Revolução de 1930, na Paraíba, terminaram por erigir um panteão de muitos heróis. Alguns verdadeiros, outros, nem tanto. João Pessoa, ao sacrificar-se, legou à história sua bravura cívica e sua coragem moral. O seu sangue, misturado às lágrimas dos paraibanos, foi o combustível para as mudanças que os tenentes vinham pregando desde 1922. Mas hoje quero falar da Velha República. Logo identifico um bravo, meu patrono da APL que, com destemor, nas paginas do seu jornal enfrentou a arrogância do poder e não sucumbiu ao seu aceno. Refiro-me ao jornalista Artur Aquiles. Um outro destaque, concedo a Solon Barbosa de Lucena. Apontado como um fraco pelos seus oponentes, certa feita salvou esta cidade de um incêndio sem precedentes, por um gesto de coragem inusitado. Todo o Varadouro ardia em chamas. Um depósito de dinamite que seria utilizada nas obras do porto ameaçava explodir. Os trabalhadores recuavam com medo de serem atingidos, mesmo estimulados pelo presidente Solon de Lucena, chamado às pressas ao local do sinistro. Inopinadamente, sem pedir que seu gesto fosse copiado, entrou no armazém em chamas e saiu sobraçando uma enorme caixa de dinamite. A partir da daí, a coragem dos demais aflorou e o comércio da cidade baixa foi salvo da destruição. Álvaro de Carvalho(vice de João Pessoa) conta que Solon nunca vangloriou-se desse feito. Solon de Lucena era filho de Virgínio de Melo e de Amélia Barbosa de Lucena. Sua mãe, que tinha o mesmo nome da avó, era sobrinha de Henrique Pereira de Lucena que, por ter agilizado a tramitação da Lei Áurea quando presidia a Câmara dos Deputados, recebeu da Princesa Isabel o título de Barão de Lucena. Este, por sua vez, era tio de Epitácio Pessoa. Esse parentesco abriu as portas do sucesso para Solon tornando-o apto a participar da oligarquia epitacista. Por razões não explicitadas, a certa altura de sua juventude, quando cursava o quarto ano, Solon largou a faculdade de direito do Recife e veio militar na sua terra natal. Ali ajudou a fundar o famoso Instituto Bananeirense. Na qualidade de mestre-escola, inicia a sua carreia de homem público e, já em 1912, teve o seu nome incluído na chapa de deputados. Nessa mesma legislatura foi eleito presidente da Assembléia e, nessa condição, assumiria pela primeira vez a gestão estadual. Para que sentasse na cadeira governamental foi preciso que o presidente Castro Pinto renunciasse ao seu mandato, entregando o governo ao coronel Antonio Pessoa, primeiro vice-presidente e irmão de Epitácio. Por motivos de saúde, agravados por sua insatisfação com a escolha de Camilo de Holanda para sucedê-lo, Antonio Pessoa retirou-se para sua fazendo em Natuba entregando ao deputado Solon de Lucena a presidência do Estado. O segundo vice-presidente Pedro Bandeira Cavalcanti preferiu continuar como juiz de Guarabira, visando alcançar o cargo de desembargador. Na sucessão de Camilo de Holanda (1916/1920), o primeiro presidente da era epitacista, volta à tona o nome de Sólon de Lucena, desde 1917, exercendo o mandato de deputado federal e reeleito para novo período. Chegou à chefia do executivo paraibano com o apoio até da facção oposicionista do monsenhor Walfredo Leal, tendo como vices presidentes Flavio da Silva Maroja e João Batista Alves Pequeno. Solon chegou ao mais alto posto da administração estadual após ser eleito para um único mandato estadual e dois federais, entre 1912 e 1920. Antes, foi secretario geral da gestão de Camilo e diretor do Liceu Paraibano. Homem simples e honrado, Sólon de Lucena foi “um orador imaginoso e possuía poderosa inteligência” na definição de Apolônio Nóbrega. Enfrentou dificuldades e morreu pobre, na sua Bananeiras, no ano de 1926. Teve uma carreira meteórica firmada na sua capacidade, mas também impulsionada pelo parentesco com Epitácio, a quem devotava fidelidade irrestrita. No grupo político epitacista viria a chefiar os chamados “jovens turcos”. Conta Cunha Pedrosa, em suas memórias, que até 1912 Solon era um modesto professor em Bananeiras, onde fazia oposição à poderosa família Rocha. No governo de João Machado (1908/1912), como professor primário, recebia a irrisória importância de 50 mil reis por mês. Pedrosa registra que lhe conseguiu um aumento de 10 mil réis. De mestre escola chegou à presidência do Estado em apenas oito anos. A fazenda Pedra D´Àgua também pertenceu a Solon de Lucena e, após sua morte, foi adquirida pelo seu compadre, coronel José Fausto da Costa Lira, o farmacêutico que inventou a “vacina de cuspe”. Mas essa é outra história que já contei antes.

MINHA PASSAGEM PELA TABAJARA

Da varanda posterior do Palácio do Governo já se contemplava os primeiros raios do sol refletindo nas águas do Sanhauá. À cabeceira de uma mesa revestida com tinta dourada, o governador Pedro Gondim corria contra os prazos. A partir do dia seguinte, estariam proibidas as publicações de nomeações ou exonerações. Para encerrar a pauta entrou na ordem do dia, melhor dizendo, da madrugada, o Plano de Cargos da Radio Tabajara da Paraíba, recentemente aprovado, mas ainda não executado. Fiquei até àquela hora na defesa dos meus interesses, como todos que cercavam o governador. Jornalista sindicalizado e registrado no Ministério do Trabalho, sócio da Associação Paraibana de Imprensa e freqüentando as páginas de A União e da Tribuna do Povo, ocupava a função de Oficial de Gabinete, mesmo sem nomeação para esse cargo, vez que, efetivo da Assembléia Legislativa, fora colocado à disposição do Gabinete do Governador. As vagas de Redator da Tabajara eram poucas, mas suficientes para atender aos que já exerciam a função e com alguma folga para contemplar outros jornalistas vinculados ao governo. Foi aí que eu entrei. Nomeado Redator, cargo isolado e de provimento efetivo, só saí do Palácio depois de ver o governador assinar o meu ato e Manoel Costeira, gerente de A União, sair com ele e os demais debaixo do braço para a devida publicação no Diário Oficial. Passei a integrar os quadros da Tabajara, a partir do final de 1965. Iniciado o governo João Agripino, foi nomeado diretor o jornalista José Morais Souto que, sabendo da minha condição de estudante de direito, aproveitou-me logo como presidente da Comissão de Inquérito. Um motorista da emissora resolveu fazer uma farra no carro oficial e acabou com o veículo lá prás bandas de Cabedelo. Dei voltas à minha capacidade de advogado de defesa para salvar o emprego daquele pai de família, irresponsável como servidor, mas necessitado da sua única fonte de renda. Pensando na sua mulher e filhos, recomendei, apenas, uma suspensão. Meu relatório não foi bem aceito pelo Palácio e a minha carreira de inquisidor foi encerrada. A minha vocação mesmo era o jornalismo e a política. Um ajudando a outra. Com Geraldo Cavalcanti na sonoplastia e coadjuvado por Manoel Raposo passei a apresentar o programa Encontro Marcado. Sempre um entrevistado de destaque na política e na sociedade, respondendo às nossas perguntas e, aos ouvintes, através de cartas enviadas durante a semana, pois telefone naquele tempo era ave rara. Do Recife trouxemos Don Helder Câmara, já naquele período em liberdade vigiada e cuja pregação causava arrepios até na farda dos milicos. O governador João Agripino estreou o programa e causou uma polêmica que ocuparia generosos espaços na imprensa. Perguntado por carta por que pagava salário irrisório a um médico, respondeu: “Pago muito a quem faz tão pouco”. A Sociedade de Medicina e todas as entidades médicas ainda vigentes protestaram. O presidente da Assembléia, deputado Waldir dos Santos Lima e o prefeito Damásio Franca foram outros entrevistados que encheram o pequeno auditório do antigo prédio da Rodrigues de Aquino. O programa durou até a entrevista de Dom Helder. Naqueles tempos de democracia consentida a presença do prelado de Olinda era um afronta. Minha passagem pela Tabajara foi meteórica. O secretário Antonio Carlos Escorel, da Administração, instalou uma comissão permanente de acumulação de cargos. Fui dos primeiros a ser chamado. Era servidor da Assembléia e da Tabajara. Acumulação ilegal. Mesmo sob protesto, pedi exoneração do rádio. Pedro Gondim me deu o diploma de radialista, João Agripino cassou. ( Em homenagem aos 80 anos da emissora)

COMO SE FAZIA UM SENADOR

Tudo remonta a Roma, inclusive o Senado. O nome vem do latim. Sen,senex,senior que, etimologicamente, significa velho, idoso. Entendia-se, então, que os mais idosos seriam os mais sábios. Aqui se entendeu que eles deveriam ser os “mais sabidos”. Da mesma origem, vem a palavra senilidade. Na sua verve, Dorgival Terceiro Neto costumava dizer que, para ser senador era preciso já ter feito três operações: cataratas, próstata e hemorróidas. Os tempos mudaram e o Senado já aceita até não operados de fimose. Mas, mesmo diminuindo a média etária dos seus membros, a chamada Câmara Alta continua a ser aquele “paraíso” batizado pelo senador Geraldo Melo(RN). Os oligarcas da República Velha mantinham-se sempre no exercício do mandato de senador e, da metrópole, impunham sua vontade aos seguidores que ficavam na província aguardando as ordens. Na antiga Parahyba foi assim até 1915 com o predomínio de Álvaro Machado e desde então, até 1930, com Epitácio Pessoa. Ambos moraram sempre no Rio e, esporadicamente, foram obrigados a visitar seus conterrâneos. No ano de 1904 governava o nosso Estado o desembargador José Peregrino de Araujo e a eleição do seu sucessor já estava marcada para o dia 22 de junho. O presidente gostaria de eleger seu chefe de policia, Semeão Leal que, todavia, só completaria 30 anos, idade exigida para o cargo, no dia 11 de maio. Reformou-se a Constituição para conceder elegibilidade ao preferido do governo. Peregrino alcançou seu objetivo mas, enfrentou e venceu insistente campanha da imprensa capitaneada pelo valoroso jornalista Artur Achilles no seu “O Commercio”. Semeão tornou-se, de direito, elegível, mas faltava ser acolhido pela vontade do chefe da oligarquia alvarista, o próprio senador Álvaro Machado, que se sentiu desprestigiado com a indicação de um governante à sua revelia. Foi obrigado a visitar a Parahyba para resolver esse imbróglio. A vontade do chefe era uma vontade de ferro. O comando foi exercido com tanta perfeição que o próprio Álvaro foi escolhido sucessor de Peregrino. Semeão teve que se conformar em ser o primeiro vice-presidente, mesmo sem a confiança do titular. A solução, mesmo satisfatória por restaurar a autoridade do chefe, não era do seu agrado. Para ele, o bom mesmo era viver no Rio e ter uma cadeira no Senado, mandando de lá as suas determinações. E passou a agir com esse objetivo. Sem ferir a Constituição ou a lei eleitoral, foram realizados três pleitos extraordinários assim motivados: quando assumiu o Governo, Álvaro abriu vaga no Senado e para o seu lugar elegeu o seu alter ego monsenhor Walfredo Leal que era deputado federal. Para a cadeira de deputado foi eleito Semeão Leal e, em conseqüência, abriu-se a vaga de vice, na qual foi entronizado o Monsenhor Walfredo. Para a vaga de Walfredo no Senado, foi novamente eleito o próprio Álvaro, que retornava em menos de um ano ao seu mandato senatorial e ao seio da família que nunca desejou morar na Paraíba. Para Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo,” na Velha Republica esses arranjos eram freqüentes, se bem que não edificantes”. Na Nova República, nascida após a revolução de 1930, as coisas não mudaram muito. Houve até quem proclamasse que “houve apenas uma troca: os carcomidos velhos, pelos novos”. Os arranjos políticos do tipo acima narrado voltaram a se repetir. O exemplo que escolhi teve como protagonista o jornalista e empresário midiático Assis Chateaubriand. Em 1945 a Paraíba mandou para o Senado Adalberto Ribeiro e Vergniaud Wanderley. Em 1947, a terceira vaga foi preenchida por José Américo de Almeida e, eleitos os suplentes dos três: Carlos Pessoa, Antonio Pereira Diniz e Epitácio Pessoa Cavalcanti, filho do presidente João Pessoa. Chatô, “o Rei do Brasil” como foi consagrado na obra de Fernando Morais, queria ser senador, mas não existia vaga. Sua força era grande perante Getulio Vargas. Conseguiu que o senador Vergniaud Wanderley fosse nomeado ministro do Tribunal de Contas da União. Seu suplente, Pereira Diniz, então deputado federal, preferiu permanecer na Câmara mas foi compensado com um cartório no Rio de Janeiro. Para preencher a cadeira de senador pela Paraíba, foi realizada uma eleição suplementar em 1952. Chateaubriand foi candidato único, tendo Drault Ernani como suplente . Obteve cem por cento dos votos válidos e tornou-se nosso represente no Senado. Na Velha República, como na Nova, era assim que se fazia um senador.

A ESCOLA NO TEMPO DO IMPÉRIO

A valorização da instrução pública era uma das prioridades do Império. Os governantes que passaram pela direção da província da Parahyba do Norte deixaram registrada essa preocupação primeira. Quando Pedro II visitou esta província, no Natal de 1859, nas cidades onde esteve, preocupou-se em conhecer as condições das escolas existentes. Seu exemplo foi seguido pelo gaúcho Silva Nunes, primeiro presidente a percorrer o nosso interior que, recebido nas câmaras municipais, inspecionava as escolas masculina e feminina, abordava os mestres e registrava a frequência. Silva Nunes que, por ser genro do Barão de Muritiba ainda seria eleito deputado pelo Espirito Santo e governaria a Bahia, em sua mensagem de despedida aos paraibanos, deixou nos anais da Assembleia provincial seu conceito sobre a escola e os professores no território paraibano, do que, destaco: “Em Província nenhuma do Império são eles (os professores) remunerados como na Paraiba. Longe de censurável, é louvável esse procedimento dos legisladores da Província; cumpre, porém, que esse bom vencimento só o tenha quem verdadeiramente trabalhe e mereça”.(março de 1861) Alguns anos antes, porém, coube a um baiano, bacharel de Olinda de 1832 e designado para presidir a Paraíba entre 1848 até 1850, mandar elaborar o primeiro regulamento da escola pública paraibana. Chamava-se João Antonio de Vasconcelos e, depois de governar a Paraíba, continuou sua carreira no Judiciário. Chegou a desembargador e presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, de onde saiu para ministro do Supremo, chegando à sua presidência. O regulamento para as escolas de Instrução Primária da Província da Paraíba do Norte data de 20 de janeiro de 1849 e foi elaborado em cumprimento à Lei Provincial nº 14 do ano anterior. Detalhes curiosos foram inseridos nessas normas, a começar do local a ser procurado pelo professor, que deveria ter “para sua aula, casa sadia, com sala grande, bem clara e arejada e em tudo apropriado ao estabelecimento de uma escola”. A submissão à Igreja Católica e ao Império, deveria ficar explícita em cada sala de aula pois “em frente dos meninos, na escola, haverá uma Imagem de Cristo e o retrato de S. M. Imperial.” Nas paredes deveriam ser pregados os avisos em que se achem “traçados os principais deveres dos discípulos e as penas máximas da religião e da moral”. O professor ficaria no centro da sala ou na entrada, sobre um estrado de onde poderia, mesmo sentado, alcançar toda a classe. Na porta de toda escola seria inscrito o seguinte: “Instrução Primária pelo Método Simultâneo, Dirigido pelo Professor( aqui o nome do professor), diz a lei, que se preocupa, também, com a higiene: “A escola será varrida todos os dias e as janelas se conservarão abertas nos intervalos das lições” como foi escrito no artigo 6º do Regulamento. O regimento da escola imperial detalhava as exigências disciplinares, as recompensas e os castigos. Fixava a idade mínima de seis anos para o ingresso na escola. Todavia, o aluno somente seria admitido caso provasse “ter tido bexiga ou sido vacinado” contra o mal. Entre os discípulos mais obedientes, assíduos e inteligentes, seriam escolhidos monitores para ajudar o mestre nas suas tarefas e, inclusive, um monitor-geral exclusivo para substituir ao professor na sua ausência, o que era “mui raro”. Aos monitores era recomendado chegar meia hora antes à escola, para “aparar as penas” e ajudar na organização dos livros e cadernos que deveriam estar em seus lugares antes do início das lições. “Cada discípulo, quando entrar, corteja o professor, vai por seu chapéu no lugar que está marcado com seu nome e número, depois volta a tomar assento no seu banco em silencio”. Se o aluno faltar, a família será comunicada. O professor não se familiarizará com seus alunos, “conquanto lhes deva ter muito amor”. As recompensas aos alunos eram expressas em “bilhetes de satisfação”. O professor estimularia a disputa entre os seus pupilos, premiando as respostas corretas e, “nunca premiará se não a quem houver merecido”. Os alunos premiados teriam seus nomes expostos na escola e no domingo, após a missa, o professor lia essa “lista de honra”. Se o professor estivesse satisfeito com seus alunos, poderia proporcionar-lhes um passeio, durante um meio dia de feriado que seria concedido após um mês de desempenho satisfatório. Quem não obtivesse recompensas ou bilhetes de satisfação, estava fadado ao castigo. A indisciplina, a inaplicação, a má conduta seriam punidas exemplarmente. “Mas os discípulos nunca devem ser batidos”, adverte a lei. Os castigos autorizados eram: “Uma ou mais notas más; a perda do lugar alcançado em vários exercícios; a restituição ou privação de um ou diversos prêmios; a privação de uma parte ou da totalidade das recreações com aumento de trabalho”. E mais: “Os rótulos com as palavras falta de verdade, indisciplinado, falador, preguiçoso etc. designando a natureza do erro... são colocados em papelão pendurados ao pescoço do discípulo por um cordão, caindo-lhes sobre as costas, que assim conservarão somente dentro da escola”.(Hoje seria considerado Bullying ). Mas, de certa forma, o Império era magnânimo e até brando: “O ajoelhamento durante uma parte da aula, ou da recreação: este castigo nunca excederá de um quarto de hora”. No grupo escolar de Borborema, onde estudei, essa norma do Império ainda vigorava aí pelos anos 1950, sob o domínio da professora Jaldete. Para ela, porém, o ajoelhamento de frente para a parede não tinha tempo definido e, sob os joelhos, para os mais rebeldes, acrescentava alguns caroços de milho. Lembrando disso, me deu uma saudade enorme do castigo imperial.

FINANCIAMENTO DE CAMPANHA

Há uma corrente do pensamento político nacional que defende o financiamento público de campanhas . Seria a forma, segundo imaginam, de evitar a corrupção resultante do acerto dos eleitos com seus patrocinadores, em detrimento do Erário.O PT, ainda hoje o maior partido nacional, defende a participação total do dinheiro público nas despesas de campanha. Um único país, espremido entre a China e a Índia, o Butão, que adotou a monarquia parlamentarista e realizou sua primeira eleição em 2008, segue esse modelo. Contudo, mais de cem outras nações contribuem com dinheiro publico para as campanhas políticas, alguns chegando a financiar cerca de oitenta por cento das despesas, como é o caso do México, Colômbia. Itália, Espanha e Uruguai. Essa discussão emerge sempre na esteira dos escândalos que têm premiado esta nação tupiniquim. Veio à tona com o “mensalão”, um veículo de apropriação de dinheiro público para financiar apoio parlamentar e campanhas eleitorais, que “nunca existiu”, mas levou alguns protagonistas à cadeia.No rastro da denominada “operação lava-jato” recrudesceu a tentativa de colocar os cofres da Nação à disposição dos políticos e de seus partidos, pavimentando suas eleições com os eflúvios do Erário. Há quem diga que o financiamento público tornaria menos onerosa a campanha política, já que a ninguém até agora foi permitido o direito de pleitear mandato apenas com a exibição do seu curriculum e de suas qualidades pessoais. Outra polêmica que gera muita discordância é o processo de distribuição desses recursos com as agremiações partidárias. Entre nós já temos um Fundo Partidário que, para o Orçamento de 2015, alcançou a cifra de 867 milhões, um salto financeiro exagerado e justificado como uma experiência para alicerçar um hipotético financiamento publico de campanha. Desse dinheiro, cinco por cento seriam distribuídos igualitariamente com todos os partidos existentes e o restante (95%) repassado dentro da proporcionalidade dos votos obtidos por cada partido para a Câmara dos Deputados. Na Alemanha, o Estado paga um Euro por cada Euro que o partido arrecadar. Na Holanda, o repasse depende do numero de filiados. No Brasil, dentro das regras existentes, a ultima campanha nacional arrecadou cerca de cinco bilhões de reais de empresas privadas. Fora das regras, ainda se está apurando...Campanha aqui é muito caro minha gente. Querem saber? Apenas um item da ultima campanha eleitoral que, por ironia, se chama horário gratuito, custou aos cofres públicos cerca de 840 milhões de reais em isenção de impostos aos canais de TV. Tempos modernos. Quando disputei mandatos nunca me preocupei com financiadores de campanha. Nem os conheci. Lembro-me bem que, em uma delas, vendi um terreno em Camboinha a Chico Souto e as parcelas desse pagamento financiaram minhas despesas de campanha. Havia quem ajudasse, modestamente. Em um comício de encerramento de minha campanha em Solânea, instalado em um escritório improvisado, vez por outra entrava um comerciante local para me levar um “ajutório”. Seu Chico Souza, dono da Mortuária São Francisco, chegou logo cedo e contribuiu com alguns cruzeiros. No fim da tarde, voltou com nova contribuição.Argumentei que ele já havia colaborado. Não adiantou! Me esclareceu que um acidente, naquele tarde, resultara em dois mortos, melhorando seu apurado. Do seu lucro, levou algum para me ajudar nas despesas. Era assim a política do meu tempo.