O DIA EM QUE QUEIMARAM "A UNIÃO"

O presidente Solon de Lucena realizou, na Parahyba, um dos mais operosos governos de que se tem notícia, na República Velha. Também pudera! Na presidência da nação estava seu parente e chefe, Epitácio Pessoa. Este, paraibano de Umbuzeiro, aquele, de Bananeiras. O jornal Cidade de Bananeiras, edição de 19 de junho de 1908, dá notícia da presença do mestre-escola Solon, ao lado do também professor Álvaro de Carvalho, no encerramento do semestre letivo do Instituto Bananeirense, renomada escola local que educou várias gerações. Alguns anos mais tarde, os dois professores citados alcançariam o mais alto cargo do Estado. Sólon, interinamente, na qualidade de presidente da Assembleia, entre os anos 1912-1915 e eleito, a partir de 1920 até 1924. Álvaro, após a morte trágica de João Pessoa,de quem era primeiro vice-presidente. Em setembro de 1923, por pouco, Solon não foi deposto do cargo de presidente da Parahyba. É essa a história que quero contar. Era um sábado, 22 de setembro de 1923. As duas principais escolas da Parahyba eram o Liceu Paraibano e a Escola Normal, localizadas ambas na praça comendador Felizardo, hoje, João Pessoa. O monsenhor João Milanez, diretor da escola normal, visando preservar a decência de suas alunas e a manutenção da ordem pediu uma autorização especial ao chefe de Polícia, Demócrito de Almeida, para que a Guarda Civil policiasse a praça e impedisse os encontros dos jovens alunos dos dois estabelecimentos de ensino público. Essa vigilância foi entregue ao guarda Antonio Menezes, de número 33. Por conta própria, o padre estabeleceu uma linha imaginária, cognominada de “linha da decência”, cuja travessia era proibida aos jovens do Liceu, enamorados ou não, das suas normalistas e vice-versa. Naquele sábado, Sadi Castor Correia Lima ao tentar aproximar-se de sua namorada Ágaba Gonçalves de Medeiros foi impedido pelo guarda civil citado. Da discussão entre o Guarda 33 e o estudante, surgiu um tiro que atingiu, mortalmente, o jovem Sadi, de 25 anos, que viera de Soledade estudar na capital. O monsenhor Milanez não tinha a menor idéia de que o guarda encarregado na vigilância da praça era um homem violento e com antecedentes criminais. A morte do estudante comoveu o estado e mobilizou seus colegas, revoltados com o crime, atribuído à responsabilidade das autoridades constituídas a começar do Presidente do Estado até o Chefe de Polícia e, principalmente, ao diretor da Escola Normal. Um enterro simbólico do padre, acompanhado de perto pela polícia, seguiu até a sua residência onde foi depositado o caixão fúnebre. A repercussão quase derruba o presidente Solon de Lucena que agiu rápido e, como ainda hoje acontece, fez o pau quebrar-se no espinhaço do mais fraco. O presidente, de imediato, exonerou o diretor Milanez e suspendeu, por decreto, as aulas das duas escolas. Para substituir Milanez, foi nomeado o monsenhor Pedro Anísio, um conterrâneo do presidente. Um mês depois, o fato criminoso ainda em evidência, é agravado pelo suicídio da namorada enlutada. No domingo, 23 de setembro, quando o sepultamento do estudante Sadi era realizado, os estudantes do Liceu permaneciam com o espírito alterado. As passeatas, os discursos inflamados, serviam para reavivar a ferida recentemente aberta. Ao tomar conhecimento de que a edição do jornal A União, daquele dia, “registrara de maneira agressiva e impiedosa o crime da tarde anterior”, como registra Apolônio Nóbrega, os estudantes que já haviam apedrejado a sede da Guarda Civil e transitavam em atitude agressiva perante o Palácio do Governo passaram a recolher nos pontos de venda do jornal A União todos os exemplares entregues à distribuição. Amontoados em praça pública, foram queimados em sinal de protesto. A Parahyba, que no passado assistira ao empastelamento e ao incêndio de jornais da oposição, a exemplo de “O Commercio”, de Artur Aquiles e, de “O Combate”, do jovem Boto de Menezes, pela primeira vez, testemunhava uma atitude de intolerância contra seu jornal oficial. (Consultei “História Republicana da Paraíba” e “Política e Parentela na Paraíba”, de Apolônio Nóbrega e Linda Lewin, respectivamente)

A FALA DO TRONO

No início de cada sessão legislativa, é da tradição democrática, o envio pelo Poder Executivo de mensagem ao Poder Legislativo, em todos os níveis: municipal, estadual e federal. A tradição virou norma, e entre nós, está inserta no artigo 86, inciso IX, da Constituição do Estado da Paraíba, na competência exclusiva do Governador. A Carta fala em “remeter mensagem à Assembleia Legislativa, por ocasião da abertura da sessão legislativa, expondo a situação do Estado e solicitando as providências que julgar necessárias”. Às vezes, o chefe do executivo prefere apresentar o balanço das atividades do governo, pessoalmente, notadamente, quando esse balanço é positivo e revela um acervo de obras e ações importantes para o desenvolvimento do Estado. Foi o que fez na semana passada o governador Ricardo Coutinho, por mais de uma hora, diante de um plenário em silêncio e impressionado com revelações que muitos desconheciam, ante à pouca publicidade da gestão. A essa presença governamental se cognominou de Fala do Trono pois, sua origem, vem do regime monárquico e tinha no soberano seu principal protagonista. A prática nasceu no Reino Unido. Na Holanda preferem a denominação de Dia do Príncipe e se assemelha à Noruega. Na Suécia, o monarca faz um pequeno discurso antes da prestação de contas do Primeiro Ministro, o mesmo ocorrendo no Japão. No Brasil, Pedro I introduziu o costume, imortalizado, contudo, pelo Imperador Pedro II, cujo cenário foi objeto de tela do nosso Pedro Américo. A Fala do Trono, do pintor Pedro Américo, mostra o Imperador como figura central da tela, de pé diante do trono sobre um tapete vermelho, segurando na mão esquerda a espada e na direita o cetro. À direita do monarca identificam-se várias figuras do Império, como o barão do Rio Branco e o duque de Caxias. No alto, em uma tribuna, vê-se a imperatriz Tereza Cristina e a princesa Isabel, todos aguardando a palavra do Imperador, vestido nos seus majestosos trajes. Pedro II falaria perante e na abertura da Assembleia Geral. A obra de Pedro Américo está no Museu Imperial. Era tradição no Brasil Imperial os discursos proferidos pelos imperadores e regentes nas reuniões de abertura e de encerramento do ano legislativo da Assembleia Geral. Diante de deputados e senadores, o monarca discorria sobre os problemas que enfrentava na condução do país e as propostas para tentar resolvê-los. Na fala de abertura de 1830, Pedro I preconizava leis que facilitassem o acesso à terra e acordos internacionais para por fim ao tráfego de escravos: “O tráfego da escravidão cessou e o governo está decidido a empregar todas as medidas que a boa fé e a humanidade reclamam para evitar a continuação de qualquer forma ou pretexto que seja: portanto julgo de indispensável necessidade indicar-vos que é conveniente facilitar a entrada de braços úteis. Leis que autorizem a distribuição de terras incultas e que afiancem a execução dos ajustes feitos com os colonos, seriam de manifesta utilidade e de grande vantagem para a nossa indústria em geral”. Na Fala do Trono de 1888, abrindo os trabalhos da Assembleia, a Princesa Isabel, recebida pelos parlamentares na sede do Senado, defende o fim do trabalho escravo. A Lei Àurea seria aprovada dez dias depois do discurso da Princesa, em regime de urgência. Presidia a Assembleia o deputado Henrique Pereira de Lucena, pernambucano com raízes na Paraíba. Em agradecimento ao seu esforço pela aprovação da Lei Áurea, a princesa Isabel lhe outorgou o título de Barão de Lucena. Na sua última Fala do Trono, o imperador Pedro II começou dizendo que “animam-me esperanças, que a pátria deposita em seus eleitos, todas as vezes que, a eles reunido, venho abrir os trabalhos legislativos”. Prosseguiu registrando as boas relações do seu Império com as potencias estrangeiras que “continuam, felizmente, a ser da mais cordial amizade”. A situação interna, na visão do imperador, era próspera e de absoluta tranquilidade. Mas, já naquele tempo, uma seca inclemente perturbava a ação do governo e inutilizava o trabalho agrícola, sem “renascer as esperanças com as primeiras chuvas” Ontem como hoje, a preocupação com a instrução pública se voltava para a formação profissional. Para o Imperador “sobressai a criação de escolas técnicas adaptadas às condições e conveniências locais” e ainda, preconiza a criação de duas universidades, uma no sul e outra no norte “donde partirá o impulso vigoroso e harmônico de que tanto carece o ensino”. A idéia de criação de escolas técnicas, mais de um século depois, encontrou na província da Paraíba um executor dedicado. Hoje são oferecidas mais de três mil vagas nas Escolas Técnicas Integrais Cidadãs espalhadas por este estado, com garantia de ampliação. Em sua última mensagem, Pedro II tinha as vistas voltadas para a acomodação de imigrantes que começavam a chegar ao País para substituir o trabalho servil. E disse à Assembleia: “Para fortalecer a imigração e aumentar o trabalho agrícola, importa que seja convertida em lei, como julgar vossa sabedoria, a proposta para o fim de regularizar a propriedade territorial e facilitar a aquisição e cultura das terras devolutas. Nessa ocasião resolvereis sobre a conveniência de conceder ao Governo o direito de desapropriar, por utilidade pública, os terrenos marginais das estradas de ferro, que não são aproveitadas pelos proprietários e podem servir de núcleos coloniais”. Convém registrar as palavras finais do Imperador Pedro II dirigidas à Assembleia: “Augustos e Digníssimos Srs. Representantes da Nação: Muito haveis feito pelo progresso e felicidade de nossa Pátria, porém muito resta ainda por fazer em uma nação nova, de extenso território, cheia de riquezas naturais e votada pela Providencia aos mais esplendidos destinos. Se é grande o encargo que assumis, não é menor o vosso patriotismo e o Brasil o recorda com a mais segura confiança. Está aberta a sessão”( Nas transcrições mantive a grafia da época)

PRINCESA VISTA LÁ FORA (3)

Na imprensa de todo o País repercutiam os acontecimentos que tinham como palco o território livre de Princesa. Os rebeldes comandados pelo deputado e coronel José Pereira infligiam sucessivas derrotas à nossa briosa policia militar, aquartelada no Piancó e entrincheirada nos arredores das cidadelas ocupadas pelos pereristas. Lutando em território que conheciam com a palma da mão, os rebeldes levavam vantagem diante das tropas legais. Além do mais, enquanto o presidente João Pessoa tinha dificuldade em aparelhar suas fileiras, os rebeldes recebiam armas e munição através da fronteira com Pernambuco, onde os primos de João Pessoa, com seus interesses comerciais na Paraíba dificultados pelo parente, resolveram se alinhar com o coronel Pereira. Apesar das dificuldades, a PM conseguia ser armada de forma clandestina, fugindo ao cerco que o governo federal impunha à Paraíba . O jornal “A Noite”, do Rio, em sua edição de 9 de maio de 1930, publicou notícia oriunda de Princesa: “Entre o material aprehendido pela columna de Marcolino Diniz, no combate do Gavião, foram encontradas munições que assignalam aquisição clandestina feita pelo Governo do Estado e contendo os nomes e firmas que serão oportunamente divulgadas”. Segundo o noticiário, a tropa de Marcolino “destroçou a polícia parahybana” e fez mais de doze prisioneiros, alguns deles feridos. E concluía: “ o deputado José Pereira mandou internal-os no hospital de sangue recomendando o melhor tratamento para todos”. O noticiário da capital da República dá conta de que o presidente João Pessoa recorreria ao Supremo Tribunal Federal visando conseguir comprar armas e munições para sua polícia. Divulgava o Diário de Notícias, em 3 de julho de 1930: “ O STF, ao que estamos informados, vae ser solicitado a pronunciar-se sobre o caso da Parahyba, porque em favor do Sr. João Pessoa será requerido um recurso judiciário, que lhe permitta adquirir armamentos e munições para a policia estadual, baseado em que cabe ao governo do Estado manter com a sua policia a ordem interna”. Na justificativa se propagava que o território paraibano estava convulsionado por bandoleiros e o Presidente não poderia armar sua policia em virtude dos impedimentos opostos pelo governo federal. A guerra era também travada nas páginas dos jornais. Divulgava-se, com ênfase, apoios recebidos pelo presidente João Pessoa e, por outro lado, as estratégias armadas para atacar Princesa. Algumas notícias tinham cheiro de terrorismo. Vejamos esta: “Recife, 9, (especial para A Noite): O deputado José Pereira recebeu o seguinte telegrama, procedente da Parahyba: “Nosso amigo Heitor Santiago acaba de informar estar inteirado de fonte official, que Princeza será bombardeada, de hoje até sábado, por um avião que se encontra em Teixeira, e que empregará gazes asphyxiantes fabricados num laboratório allemão de Rio Tinto...Confio na altivez dos princezenses, que manterão,serenos, sua defesa heróica. Abraços (a) João Dantas”. A essa altura, o lado rebelde pressentia que João Pessoa tinha pressa em acabar com a luta de guerrilha instalada nas cercanias de Princesa, antes que um projeto de intervenção no Estado, fosse aprovado. O Jornal do Comercio, do Recife, pintava um João Pessoa apavorado com a iminência de uma intervenção. Publicou e mandou para a imprensa do Rio, o seguinte despacho: “Parahyba, 8, Aterrorizado com a possibilidade de uma intervenção federal, o presidente João Pessoa, procura por todos os meios, insinuar e até forçar manifestações de protesto pelo Estado, com objectivo de impressionar o povo e provocar grande repercussão em todo o paiz.Nesse sentido tem exercido forte pressão até junto aos alumnos das escolas da capital do estado, que foram obrigados a andar de porta em porta, angariando assignaturas para telegramas de protesto contra a intervenção federal, dirigidos aos altos poderes da Republica. A todos os collegios e escolas publicos e particulares em toda a Parahyba foram transmittidas instruções com o mesmo fim” As manifestações de solidariedade ao presidente, imolado alguns dias depois, entretanto, surgiam espontâneas e, até inusitadas. “O maior proprietário da Parahyba hipoteca solidariedade ao Sr.João Pessoa”. O jornal A Noite , do Rio, na edição de 3 de julho contava que o Sr. Alfredo Atahyde, que é “talvez o maior proprietário desta Capital”, acumulou uma fortuna de dois milhões de contos de reis. Procurou o presidente e disse: “com satisfação e orgulho, a um aceno do presidente João Pessoa, recolheria elle imediatamente ao Thesouro do Estado essa importância.”. As alunas da Escola Normal, por outro lado, cobriram João Pessoa de flores em visita devidamente documentada e relatada na imprensa do sul.”Parahyba, 17- Cerca de trezentas alunas da Escola Normal estiveram ontem em Palácio, onde foram entregar a sua contribuição para as viúvas dos soldados mortos em Princeza.Falou em nome das alumnas o Sr.Matheus de Oliveira, diretor da Escola, tendo o presidente João Pessoa agradecido em vehemente discurso terminando por dizer: Deus não permitirá a vitória do trabuco sobre a lei.As alumnas cobriram o Sr.João Pessoa de flores vermelhas”...Nove dias depois, o presidente paraibano voltaria do Recife coberto de flores brancas! O trabuco venceu!(Nas transcrições,mantive a grafia da época.Obs. O Sr. Alfredo Atahyde veio a ser sogro do ex-governador Clovis Bezerra, portanto, avô do ex-deputado Afrânio Bezerra)

PRINCESA VISTA LÁ FORA (2)

Como vimos anteriormente, os despachos telegráficos do secretário José Américo de Almeida designavam de cangaceiros as tropas formadas pelos rebeldes do coronel José Pereira. Raramente o tratamento de “bandidos” era esquecido quando a referência era dirigida aos comandados do soba princesence. Há exemplo publicado: “Comunicam de Piancó que o acampamento do tenente Mauricio foi atacado fortemente pelos “pereristas”, repelidos com perdas.”(Diário de Notícias,Rio,8.06.1930) O jornal da capital federal também refletiu em suas páginas memorial de proprietários rurais sertanejos, aflitos com a ação de cangaceiros, não distinguidos dos rebeldes pereristas. O presidente João Pessoa recebeu assinado por Vicente Leitão o seguinte despacho telegráfico: “ Levo ao conhecimento de v.ex. que um grupo de setenta cangaceiros há três dias que vem praticando neste município toda sorte de depredações. Na estrada de rodagem que liga esta cidade a Malta acabam elles de incendiar minhas propriedades e de outros amigos nos lugares Baudarra, Padrinho e Várzea Redonda.Hoje esse grupo se acha acampado em Ipueira na casa de Dondon Dantas.A população está preparada para a defesa.Confiamos em que tome enérgicas providências o intemorato governo de v.ex. Saudações”. “A impaciência das tropas para acabar de vez com a revollta de Princeza” como mandou dizer ao Presidente João Pessoa o Sr. José Américo, exigia uma ação mais efetiva. A nossa polícia tentava avançar em um campo minado pelo conhecimento dos pereristas, recrutados nas terras áridas do sertão. As emboscadas sucediam-se e as perdas de vidas humanas aumentavam as estatísticas. Um mecânico chamado João Barros inventou uma máquina de “reenchimento de cartuchos já deflagados offerecendo-a ao governo do estado”. Para quem estava a padecer de armamento e tinha dificuldade em importar munição, foi um achado. Imaginou-se, ainda, atacar a cidadela do coronel Pereira pelo ar. O Diário de Noticias publicou o fato como auspicioso aos que queriam o fim do estado de guerra.”Recife-Comunicam de Piancó que o avião Garoto, tripulado pelo aviador Roland que como se sabe fugiu do campo do Ibura, desta cidade, tomando o rumo da Pahyba recebendo ali grande quantidade de explosivos estando prompto para voar sobre Princeza. Afirma-se que o aviador Roland procederá dentro de alguma horas , ao bombardeio daquela cidade, quartel general das força do coronel Jose Pereira”. O coronel, por outro lado, tomou conhecimento dos preparativos para bombardear sua cidade e preparou os melhores atiradores para alvejar “o apparelho que voa”.O jornal do Comercio do Recife, repercutiu também essa notícia. Havia uma guerra também de contra-informação. Outro despacho telegráfico divulgado no DN, servia para tranqüilizar os pereristas: “Recife- Segundo as noticias que corem aqui, o avião Garoto retirado do campo de Ibura pelo aviador Reynaldo Gonçalves, tendo partido de Piancó não foi visto sobre Princeza,nem voltou ao ponto de partida.Presume-se o apparelho ter soffrido qualquer desarranjo”. Note-se que o nome do piloto já mudou. Há noticia de que o aviador, que era estrangeiro, teria falecido em Piancó, onde ficou para sempre. A verdade é que Princesa nunca foi bombardeada, a não ser, com panfletos, apelando para o rendimento dos seguidores de José Pereira. Enquanto esse cenário permanecia indefinido e só teria desfecho após a morte de João Pessoa, na capital federal havia outra preocupação maior, como indicam os destaques jornalísticos. As misses de Minas Gerais e da Paraíba estavam atrasadas para a apresentação no Concurso Internacional de Beleza. Os representantes dos dois estados pediram prazo para permitir a presença das duas distintas senhoritas. Prazo negado, os dois ficaram fora do concurso e os juízes Nóbrega da Cunha e Manoel Henriques da Silva, representantes desses estados perderam seus mandatos na comissão julgadora. Não duvido nada que esse primeiro entrevero que uniu Minas à Paraíba tenha servido também de alicerce para a futura Aliança Liberal. O Rio Grande, terceiro estado aliancista, este chefiado por Getúlio Vargas, todavia, seguia tranqüilo, com sua miss, Yolanda Pereira, sendo recebida festivamente no Cassino Beira Mar. ( Nas transcrições mantive a grafia da época)

PRINCESA VISTA LÁ FORA

O que já se escreveu sobre a rebeldia do deputado José Pereira contra o governo de João Pessoa, daria uma biblioteca exclusiva sobre o assunto. Não terei a veleidade de romper com os liames que vinculam o historiador aos fatos, até por que, nessa história, nunca houve imparcialidade. Os escritos levam os resquícios da paixão vivida à época e, poucos se deram ao trabalho de narrar aqueles dias tormentosos fugindo da visão dicotômica: contra ou a favor de Zé Pereira ou de João Pessoa. O paraibano acostumou-se com as versões que, ao longo desses quase noventa anos, passaram por suas mãos e alimentaram suas mentes. Nos nossos dias, não é incomum encontrar-se um descendente de perrepista ou de liberal, ainda alimentando o ódio do passado. O que despertou minha curiosidade, para voltar ao assunto, foi a visão que lá fora, outros brasileiros tiveram do cenário aqui vivenciado ou a versão que chegava ao restante do país, através da imprensa. Tomei como paradigma o Rio de Janeiro e, como veículo, o Diário de Notícias, jornal editado na capital da República. Entre os dias 08 e 13 de julho de 1930, enquanto a manchete daquele periódico dedicava-se a um “Concurso Internacional de Belleza” e à escolha da Miss Brasil, no miolo, uma coluna era mantida sob o titulo: “A Luta Armada na Parahyba”. Os subtítulos eram reveladores- “ Os últimos momentos de Princeza - O governo exige a rendição”.Eram as informações do secretario de segurança, José Américo de Almeida, transmitidas ao Presidente João Pessoa e chegando ao conhecimento dos cariocas. Parahyba-7- O Sr.João Pessoa recebeu o seguinte rádio: Piancó- 4 - “ Os cangaceiros foram surpreendidos na fazenda do Oriente, situada no município de Pombal, pela coluna dos tenentes Manoel Benício e Marques Filho, debandando nos primeiros tiros dos atacantes.Os bandidos recuaram, continuando as forças ao encalço dos que fugiam.Essas correrias visam especialmente o roubo,como aconteceu com a fazenda do coronel João Alves, neste Município, que foi despojado de seus bens, no valor de cerca de 80:000$000. O sub-delegado de Malta, que foi feito prisioneiro e retido como refém, acaba de ser posto em liberdade mediante a entrega de avultada quantia aos bandidos.O povo do vale do rio Piancó tem estado admirável. Chegam diariamente dezenas de pessoas, de logares distantes, pedindo armas para a defesa da nossa causa-José Américo de Almeida”(Diário de Noticias, de 08 de julho de 1930,pag 3).O secretário de segurança, aquartelado com sua milícia na cidade de Piancó, adiantaria ao Presidente que “as tropas estão impacientes para avançar e acabar de vez com a revolta de Princeza”. As informações ufanista do graduado auxiliar de João Pessoa eram, contudo, contestadas por outros informantes que conseguiam chegar às páginas do Diário, através de correspondentes do Recife: “José Pereira Amplia seu Raio de Ação”era a notícia. “Recife-7- Noticiam de Princeza que a gente de José Pereira amplia seu raio de ação por outros municípios entre os quais o de Piancó, Pombal, Patos, Souza,Conceição, Misericórdia,São José de Piranhas,São João do Rio do Peixe,Cajazeiras e Teixeira, onde a população se mostra preocupada com o rumo dos acontecimentos”. O leitor carioca, lendo os textos que as linotipos compunham, a quente, mas servidos com a frieza de noticiário isento, não firmaria um juízo perfeito dos fatos que se desenrolavam nas caatingas do interior da Paraíba. Cada facção fazia divulgar sua própria versão. Faltavam poucos dias para o desfecho trágico da Confeitaria Gloria que encerrou a trajetória de João Pessoa e calou as armas de Princesa. (Mantive nas transcrições a grafia da época. CONTINUA)

"O PAIZ" VISITA O ESTADO

O imigrante português João José dos Reis Junior, portador do titulo nobiliárquico de conde São Salvador de Matosinho, era o proprietário da casa número 63 da Rua do Ouvidor, no centro do Rio, onde, por inspiração de Quintino Bocaiúva, “o príncipe da imprensa brasileira” fundou e instalou “O Paíz”, jornal “independente, político, literário e noticioso”. Era primeiro de outubro de 1884. O diário adotaria diversos perfis políticos ao tempo em que, enfrentava também, dificuldades financeiras. Sobreviveu até os anos 1930. Foi grande instrumento da causa abolicionista. Atravessou a República Velha sempre ao lado do poder. Intransigente adversário da Aliança Liberal, ao chegar à era Vargas, já estava nos estertores devido à longa noite de censura imposta a partir de 1924 na gestão de Artur Bernardes na presidência da Republica. O permanente “estado de sitio” amordaçou a imprensa e deixou em situação desfavorável os órgãos que se propunham a defender o governo, como era o caso de “O Paiz”. Durante sua existência, o jornal registrou a passagem por sua redação de figuras eminentes da intelectualidade nacional, a exemplo de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Alcindo Guanabara, João Lage e Eduardo Salamone, este ultimo um veterano desde os tempos da fundação e que assumiria a chefia de redação a partir de 1891.Com sua sede invadida por uma multidão de fanáticos getulistas, e incendiada, a historia desse jornal chega ao final com suas rotativas arrematadas em um leilão pelo paraibano Assis Chateaubriand. Eduardo Salamone, já referido anteriormente, redator chefe de “O Paiz”, esteve em visita à Paraíba e foi festivamente recebido pelos integrantes do jornal O Commercio, conforme noticia em sua primeira pagina a edição de 8 de maio de 1900. A rapidez da visita foi lamentada pelo jornal de Artur Aquiles que assim dirigiu-se aos seus leitores: “ A inesperada partida do porto de Pernambuco do vapor Planeta, não nos deo tempo sulfficiente para aparelharmos a recepção que merecia Eduardo Salamone, entretanto, proporcionamo-lhe quanto nos permittio a restrição do tempo e nas poucas horas que esteve entre nós manifestamo-lhe a satisfação, a ufania e apreço recebidas da imprensa e moços d’ esta terra. A uma hora da tarde, em bonde especial, gentilmente offerecido pelo Sr Gerente da Companhia, percorremos todos as partes da cidade servidas por este meio de transporte, até que pelas 3 horas o notável homem de letras teve de regressar a estação central, a tomar o trem que o havia de condusir ao bojo do “Planeta” fundeado em Cabedello”. O ilustre visitante estava acompanhado da esposa e dois filhos e foram hospedes de O Commercio. Na estação ferroviária estavam a esperá-lo o próprio Artur Aquiles, responsável pelo diário e seu co-proprietário, jornalista Eduardo Fernandes, e Affonso Gouveia. O tesoureiro Diomedes Cantalice deslocou-se até Cabedelo para abraçar o periodista carioca, também acolhido pelo correspondente de “O Paiz” entre nós, Tito Enrique da Silva. O jornal paraibano não esqueceu de registrar que a família visitante passou por alguns momentos de repouso,” preenchidos pela prosa castiça de Salamone” antes que lhe fosse servido um modesto almoço na residência dos moços Manoel de Carvalho,Joaquim Etelvino e Antonio Peixoto, “muitos distintos moços de nosso commercio”. O Commercio fazia oposição ao governo estadual da Paraíba e aproveitou para alfinetar seus adversários, censurando a ausência de representante do jornal oficial A União, na recepção ao badalado jornalista brasileiro: “Tornou-se notável a ausência de qualquer dos confrades da “União” na recepção ao talentoso redactor do “Paiz”, tanto mais quanto fora ella avisada com antecedência do facto de sua passagem por esta capital. Eduardo Salamone é um dos luminares da imprensa do Brasil; eis a explicação da falta do nosso colega indígena,cuja preocupação exclusiva é, actualmente, a politicagem de aldeia e o engrossamento aos que afinam só pelo diapasão do partidarismo armado a dynamite”. Detalhe curioso sobre a história desse importante periódico: Rui Barbosa só assumiria a chefia da sua redação por três dias, sendo substituído por Quintino Bocaiúva que ali permaneceu até ser nomeado ministro de Deodoro da Fonseca. Joaquim Nabuco, apesar de abolicionista, era monarquista e por divergir da linha editorial do jornal, que defendia a República, despediu-se de suas páginas. E aqui termina a narrativa da visita de “O Paiz” à Paraíba.( Nas transcrições mantive a grafia da época)

TIO PITA DEU A ORDEM

Muito se tem escrito sobre os acontecimentos que culminaram com a chamada revolução de 1930. Não terei a veleidade de, neste pequeno espaço, analisar fatos ou emitir conceitos. Prefiro o registro dos acontecimentos deixando aos leitores seu juízo de valor. Todos sabem que Getúlio Vargas manteve o presidente Washington Luiz, de quem foi ministro da Fazenda, por longo período, acreditando na sua fidelidade. O gaúcho, enquanto permitia seus seguidores tramarem, em surdina, sua candidatura presidencial, negociava créditos federais para obras prioritários no Rio Grande do Sul. Uma carta de sua lavra, jurando apoio ao Catete, foi amplamente divulgada. Posteriormente, outra missiva juntou-se à primeira no arquivo de Washington Luiz, com pensamento totalmente oposto. Osvaldo Aranha ouviu o seu desabafo: “A última carta de Getulio foi para mim uma surpresa brutal”, como conta Lira Neto em um dos três volumes sobre o caudilho dos pampas. À época, os fatos políticos eram gerados por cartas e telegramas. Getúlio terminou ganhando o apelido de “Getúlio Cartas”. Decidida sua candidatura para enfrentar a chapa oficial, Getúlio precisava de um vice. Uma consulta feita por Washington Luiz sobre o apoio ao nome de Júlio Prestes, então presidente de São Paulo, para seu sucessor, recebera a aprovação da ampla maioria dos estados. Minas, de Antonio Carlos, a Paraíba, de João Pessoa e o Rio Grande, juntos, adotaram o NEGO paraibano e passaram a compor a chamada Aliança Liberal que apresentaria a chapa Getúlio presidente, João Pessoa, vice. Antes de se chegar ao nome de João Pessoa, sondaram Paulo de Frontin, senador pelo Distrito Federal e grande prefeito do Rio. Alegando ser amigo do Presidente, aderiu a Júlio Prestes. Outro consultado foi o Simões Filho, líder da bancada baiana na Câmara e fundador do jornal A Tarde. Este recusou, veementemente, e foi acusado por João Neves da Fontoura, líder gaúcho, de estar negociando para a Bahia a mesma posição na chapa oficial em troca de favores inconfessáveis. Chegaram aos empurrões. O vice escolhido foi o presidente dos baianos, Vital Soares. Subindo o mapa do Brasil, os emissários de Getúlio ainda procuraram Estácio Coimbra, presidente de Pernambuco. A sua negativa levou ao nome de João Pessoa, destacado governante da Paraíba que ganhara o noticiário nacional com medidas austeras e práticas inovadoras, enfrentando a política dos coronéis. “Só uma vassourada em regra pode purificar a vida pública, rebaixada por figuras sem significação e aproveitadores gulosos”, diria. Terminaram por varrê-lo. O imposto que João Pessoa instituiu e que lhe valeu o epíteto de “João Porteira” visava fortalecer a economia interna e canalizar nossas exportações para o porto de Cabedelo, o que desagradou, principalmente, à praça pernambucana, acostumada desde os tempos coloniais a explorar as riquezas da nossa “capitania”. A reação não intimidou João Pessoa que avisou pelo jornal A União: “Os descontentes que se mudem para o Ceará ou Pernambuco, vivam por lá, e não se lembrem de voltar, porque voltando, terão de pagar a incorporação, ( era o imposto novo) talvez acrescida”. Pois esse espírito bravio, austero e que dava demonstrações de uma coragem exemplar, politicamente, era dependente do tio Pita, ou seja, seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente do Brasil e naquele tempo, membro da Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda. Vejam o que nos narra Lira Neto: “Naquele fim de julho de 1929, dezenas de telegramas cruzaram o Atlântico pelo cabo submarino internacional que então servia às comunicações entre o Brasil e a Europa. Apesar do temperamento aguerrido e autoritário de João Pessoa, havia um ritual hierárquico a ser cumprido.Somente após o necessário consentimento de Epitácio- tio Pita, é que o sobrinho passou a ser abordado de modo direto pelos mensageiros de Getúlio....Na segunda feira, 29 de julho, Epitácio escreveu mensagem ao sobrinho para avisá-lo que autorizara o presidente mineiro Antonio Carlos a oficializar o convite (para vice de Getúlio). Isto significa que aceitarás”. Ordenou Epitácio Pessoa. O professor Lira Neto vai mais longe na sua avaliação: “A despeito de representar um pequeno estado e de ter entrado na política paraibana pela janela das contingências oligárquicas, Pessoa vinha causando perplexidade nas lideranças estaduais mais conservadoras ao mandar cortar despesa supérfluas,demitir pessoal excedente, extinguir secretarias que funcionavam como meros cabides de emprego e impedir a reeleição indefinida dos intendentes municipais”. De longe, porém, o tio Pita advertia: “Sei que as medidas que está tomando são todas de moralidade e justiça. Não estão acostumados a isto. A grita está sendo e há de ser enorme. Não se extirpam num instante hábitos enraizados desde muitos anos”. A impaciência de João Pessoa levou-o ao trágico final. A mudança brusca que procurou imprimir aos costumes da terrinha, terminou por fulminá-lo. Seu cadáver seria o estopim que deflagraria o movimento de 1930. Mas essa é outra história.

OS IMPERADORES E SUAS AMANTES

Já escrevi sobre amantes de poderosos e, naquele texto, incluí gente da nossa época, a exemplo de Getúlio Vargas, Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek e certo general que dizia gostar mais de cheiro de cavalo, mas consumia muitas milhas em busca de um cangote feminino. De passagem, lembrei Pedro I, que dividiu seu reinado com a principal amante, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos. Acho que deixei em paz Pedro II, seu filho, um tremendo “come quieto”, que não ficava longe do pai em matéria de ocupar as camarinhas do Palácio. A diferença entre pai e filho residia na seleção das eventuais companheiras de alcova. Pedro I era mais promíscuo. Apesar da Marquesa de Santos, com quem teve cinco filhos, ainda engravidou outra filha do brigadeiro Canto e Melo, de nome Maria Benedita, casada com o Barão de Sorocaba. Antes da marquesa, uma atriz francesa inaugurou seu caderno de traição à Imperatriz Leopoldina. Os costumes da época, pelo menos no ambiente das cortes, justificavam que o leito conjugal servia apenas para perpetuar a linhagem. As paixões e os prazeres era coisa para se conseguir no aconchego das amantes. Uma comerciante francesa, de nome Clemence Saisset, também lhe deu um filho bastardo. A atriz uruguaia Maria Del Carmem Garcia não lhe deu filho, deixando essa missão para a monja portuguesa Ana Augusta. No caderno do nosso primeiro Imperador ainda entraram uma escrava do Convento da Ajuda, a esposa de um general e uma atriz portuguesa, o que demonstra que ao voltar para Portugal, Pedro ainda carregava o fogo dos trópicos. Para encerrar, obteve favores sexuais da esposa de seu homem de confiança e, até, da filha do bibliotecário de dona Leopoldina. Dom Pedro II era um galegão de um metro e noventa, pernas e voz finas, olhos azuis, mas tristes. Há quem diga, pelo abandono do pai e morte prematura da mãe. Conhecera a futura esposa por uma pintura da cintura para cima, obra de artista europeu. Pela pintura não dava pra saber que Tereza Cristina era baixa, feia e puxava por uma perna. Foi uma desilusão que o levou às lágrimas. Mesmo assim tiveram três filhos: o homem morreu ainda pequeno e as filhas Isabel e Leopoldina se transformaram na única esperança de Dom Pedro para um terceiro reinado. Isabel desempenharia papel importante e, ao assinar a Lei Áurea, assinou também a queda da monarquia. Mas quero falar das mulheres de Pedro II, a “ metade” que teria passado a vida procurando e, parece ter encontrado, na pessoa da preceptora de suas filhas, a Condessa de Barral. Ainda passaram pela biblioteca de Dom Pedro, transformada em alcova eventual, a Condessa de Villeneuve e Eponine Otaviano, esposa de um seu amigo de infância, a Condessa de La Tour e outras menos votadas. O Imperador era pouco generoso com suas amantes e, não foram poucos os maridos da Corte que, orgulhosos, chegaram à falência para permitir que suas consortes continuassem a freqüentar a “biblioteca” do Palácio São Cristovão. A busca de Dom Pedro II por sua alma gêmea começou com Maria Lopes de Paiva, filha do barão de Maranguape, sua primeira paixão. Um filho bastardo de Pedro I, portanto seu meio irmão, era casado com Carolina Bergaro e foi à porta dessa dama que a ronda policial surpreendeu o Imperador e alguns amigos, animados pela bebida. Identificado o Imperador, o policial debulhou-se em desculpas e acordou seu chefe pela madrugada para contar o ocorrido na certeza de que estava encerrando sua carreira. O historiador americano Roderick Berman acredita que esse relacionamento de Dom Pedro II com a cunhada durou cerca de dez anos, na maior discrição. Pedro II recebera esmerada educação para, justamente, não ser comparado ao pai, devasso e inconseqüente ao ponto de conceder titulo de nobreza a quase todos os filhos bastardos. A todos não podia dar, pois foram contados mais de sessenta bastardinhos entre o Brasil e Portugal. Hoje, com os escândalos revelados na nossa Corte Republicana, haveremos de ter saudade dos escândalos do Império.

O IMPERADOR NA PARAHYBA

Muito já se escreveu sobre a visita do Imperador Pedro II à Paraíba. Sabe-se que ele chegou à nossa capital na tarde de uma véspera de Natal. Era um sábado do ano de 1859. Um vapor da Marinha do Brasil conduzia o monarca e sua numerosa comitiva nessa viagem de quatro meses pelas províncias. Cinco dias foram dedicados à Parahyba do Norte. As cidades de Pilar, Mamanguape e Cabedelo tiveram a honra de ver de perto a coroa de D.Pedro que, a cavalo, conheceu ainda alguns engenhos da Várzea. A pompa com que foi recebido, as despesas do erário com as festividades, reformas e adaptações das instalações palacianas, tapetes, móveis e talheres condignos às bocas imperiais, importaram na abertura de um crédito especial para tal finalidade. Um conto de réis que mandaram da Corte foi insuficiente. Há registro de que o Imperador tomara emprestado alguns contos de réis para arcar com as despesas da viagem. O tesouro imperial era parco de recursos, mas, assim mesmo, S.M., “do seu bolsinho”, fez algumas doações que, infelizmente, foram desviadas das suas finalidades. Quem pensar que essa história de desviar dinheiro público é invenção Republicana, está muito enganado. Governava a Paraíba, quando da visita do monarca, o paraense Ambrósio Leitão da Cunha que foi deputado, senador e presidente, ainda, do Pará, Pernambuco, Maranhão e Bahia. No seu périplo pela Província, o Imperador teve ao seu lado o governante local que, como é costume até hoje, rogava ajuda real para todos os males que não podia resolver.Pedro II comoveu-se em duas oportunidades e resolveu atendê-lo. Não voltaria, jamais, para saber o resultado dos investimentos que fez. É essa a história que estou querendo contar... Na visita à Santa Casa da Misericórdia, Dom Pedro efetuou um donativo de seis contos de réis para serem transformados, pelo governador local, em apólices da dívida pública em favor da entidade. O novo governante, o gaúcho Silva Nunes, ao assumir, procurou saber como fora processada aquela operação, tomando conhecimento de que nada fora efetivado. Determinou de imediato, a sua execução. Qual não foi sua surpresa ao ouvir do Inspetor do Tesouro que esse dinheiro, saído “do bolsinho” do Imperador, sumira em função das necessidades urgentes de outros serviços da província. Naquele tempo, os sucessores ainda não brigavam com os antecessores, e Silva Nunes justificou a falha: “Sem dúvida, se por mais algum tempo permanece na administração o meu antecessor, teria realizado a sua intenção, satisfazendo assim as vistas do Soberano”. Andando pela nossa cidade, Dom Pedro repudiou a localização do matadouro público, construído às margens de uma estrada com prejuízo para o meio ambiente. Novamente, como narra Silva Nunes em mensagem ao legislativo de então, o imperador entregou à presidência quatro contos de réis para a remoção do abatedouro para terreno mais condizente. “Sinto ter de dizer-vos (explica aos deputados provinciais) ainda esta vez que o estado dos cofres não me consente ocupar-me por ora com essa obra nem mesmo dispondo para seu começo desses 4.000$rs devidos à generosidade do Imperador, e de que meu digno antecessor viu-se obrigado a lançar mão para acudir a encargos urgentes da Província”. Esse presidente Silva Nunes veio governar a Paraíba graças ao fato de ser genro do Barão de Muritíba, com grande influência na Corte onde era reverenciada essa nobre genrocracia. Tanto é, que saiu daqui para o Senado e governou outras províncias enquanto seu sogro viveu sob o manto protetor de Pedro II. Foi o primeiro governante paraibano a visitar o nosso interior. Recebido com muitas festas por ande passava. viajou trinta dias a cavalo, comendo a poeira do sertão e a lama do brejo, além das iguarias dos banquetes. Em sua primeira mensagem ao legislativo provincial relatou as duas peripécias do antecessor que resumi acima. Mas, ao que parece, era um homem pacato e não fazia mau juízo de ninguém. Os desvios de verbas do seu antecessor mereceram pálida referência e nenhuma censura, sendo até justificadas.Ele, porém, prometeu consertar aquelas irregularidades: “Trato de economizar quanto posso para restituir essa soma ao fim a que foi destinada pelo Augusto Doador”. Só quem não brigou com o antecessor, porque não o teve, foi Tomé de Souza, primeiro governador do Brasil. Eis outra exceção que, seguida desde então, teria evitado muitos episódios da nossa história.Quase ia esquecendo: o Imperador assistiu à Missa do Galo, à meia-noite, na Igreja da Conceição, ao lado do Palácio. (Consultei Wilson Seixas e Maurílio Almeida.Nas transcrições, mantive a grafia da época.Neste Natal, completa 157 anos a visita do imperador)

DIÓGENES "CASCUDO" DA CUNHA LIMA

Graças à iniciativa do paraibano Adalberto Targino e seus confrades da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte fui honrado com a inclusão do meu nome entre os novos sócios da entidade, na categoria de correspondente. Em muito boa companhia: Berilo Ramos Borba, Roque de Brito Alves,Raimundo de Oliveira, Ralph Siqueira, Itapuan Botto Targino, Walber de Moura Agra,Ricardo Bezerra, além dos ausentes mas não menos destacados desembargadores Rogério Fialho e Fátima Bezerra Cavalcanti. A solenidade foi coroada com a posse de nova imortal, a advogada natalense Lúcia Jales. Roubado da cena jurídica muito cedo, quando a tribuna parlamentar me convocou, mesmo assim percorri algumas searas que enriqueceram meu curriculum e me levaram à honra de pertencer àquele silogeu.Coube ao ex-reitor Berilo Borba traçar o perfil dos empossandos. Sobre a minha modesta pessoa escreveu: “nascido em Borborema, fez os primeiros anos do ensino médio aqui em Natal, onde teve de acompanhar as travessuras de “Pecado” que agitava a moçada.Terminou seu curso secundário no Liceu , em João Pessoa.Graduou-se em direito.Foi advogado militante e procurador.Na política foi vereador em Borborema e presidente da Câmara, deputado estadual e federal. Hoje é membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e da Academia Paraibana de Letras.Jornalista consagrado,cronista,historiador e escritor:autor de vários livros”.O jornalista consagrado vem da generosidade do orador. Registro a espontânea acolhida dos membros da ALEJURN, entidade que reúne os mais representativos juristas da terra potiguar, desde o presidente Lúcio Teixeira, ao eterno presidente da Academia Norte Riograndense de Letras, o causídico, poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima primo/irmão de Ronaldo, sobre quem publicou recentemente ilustrado trabalho lançado na nossa Academia de Letras. Seu admirador de longa data, pelo conjunto da obra, nossa ligação é também familiar. É Ramalho da descendência dos Amâncio Ramalho e viúvo de Moema Ramalho Tinoco, filha de Artur Tinoco e Carmésia, esta, filha do velho José Amâncio Ramalho, fundador da minha terra natal e pioneiro da energia hidroelétrica no nordeste brasileiro. Diógenes é especialista em Luiz da Câmara Cascudo. Cascudo está para o Rio Grande como Gilberto Freyre para Pernambuco e José Américo para a Paraíba. Aliás, Cascudo tem algo mais em comum com Zé Américo: ambos foram depurados quando eleitos deputados federais em 1930. “O meu mandato durou três dias”, diria Cascudo. Desde então abominou a política. Zé Américo seguiu em frente. Diógenes esmiuçou a obra cascudiana, anotou conversas, guardou dedicatórias e se deliciou com suas cartas. Absorveu essa convivência de vinte anos e documentou seus melhores momentos. Para ele, Cascudo era um brasileiro feliz.A princípio, o mestre reclamou da definição: indiretamente, milhões de brasileiros seriam infelizes... Terminou por aceitar o conceito e proclamou: “sou o que Diógenes me chamou: um brasileiro feliz”. Eu acrescentaria: e de muito bom humor.O livro de Diógenes, “Camara Cascudo um brasileiro feliz”, já vai na quarta edição e inclui um Dicionário do Humor do renomado escritor,folclorista, sociólogo, antropólogo, historiador, poeta e professor de Direito Internacional Publico. Fundador da Academia de Letras do RN e de tantas outras instituições culturais fez jus à definição de Jorge Amado: “pobre de bens materiais, mas rico de alegria criadora”. A simbiose entre Diógenes e Cascudo, resultado de uma longa convivência e respeitosa amizade levou-me a acrescentar Cascudo no nome do poeta para compor o titulo acima. O velho mestre não reclamaria. Seu discípulo, muito menos. Desde os treze anos, quando deixou Nova Cruz para continuar os estudos em Natal, Diógenes passou a freqüentar o casarão da Junqueira Ayres. Só saia de lá com a carinhosa ordem do dono da casa: vá baixar noutro terreiro! Foi assim que começou a “beber água na fonte”,cumprindo, com rigor e dedicação a recomendação paterna: “ Procure Cascudo. Câmara Cascudo é um rio, o resto tudo é riacho”.