Wittgenstein e a escada

Em Asas do Desejo, filme de Wim Wenders com roteiro do escritor alemão Peter Handke, paisagens e ruínas da Berlim do pós-guerra são mostradas a partir das visões dos anjos Damiel e Cassil. Enquanto percorrem a cidade, invisíveis aos olhos dos pobres mortais, exceto os das crianças, as criaturas celestiais escutam fragmentos de vozes e pensamentos de seres humanos angustiados, que experimentam sensações de profundo abandono. Um desses seres é Marion, trapezista de um circo decadente por quem Damiel se apaixona. Por Marion, o anjo se abandona, abre mão de sua natureza célica e de sua condição de imortal.

O significado do vocábulo abandono não é evidente. Derivado da junção latina entre a partícula “ab”, que designa distanciamento, e o sufixo “bandum”, que significa bandeira, a expressão faz referencia à figura do soldado desertor. Abandono é exílio, desterro, banimento. Mas há também abandonos menos mundanos que remetem ao religioso ou ao místico. A auto-constrição da luz divina que gera o espaço vazio do universo na Cabala. O Cristo em seu calvário, sentindo-se abandonado pelo Pai. O menino Moisés descendo rio abaixo em um cesto. O santo abandono dos bens materiais praticado pelos monges.

Somos seres destinados ao abandono. Quem sabe nossa “existência abandonada” seja uma experiência constitutiva, uma condição ontológica, como suspeitava Jean-Luc Nancy. Em algum momento abandonamos ou somos abandonados. Abandonamos as coisas que nos abandonam. O abandono, disse Victor Hugo, é um campo de batalha com heróis obscuros.

No ano de 2011, foi descoberto em Cambridge o arquivo do filósofo Ludwig Wittgenstein que havia desaparecido no caos da Segunda Guerra Mundial. A descoberta acabou por revelar aspectos da relação amorosa que o filósofo cultivou com seu antigo aluno, Francis Skinner. Wittgenstein ditou a maior parte do arquivo a Skinner em conversas ocorridas na Inglaterra e na Noruega. Os dois aprenderam russo juntos e planejavam viajar para a União Soviética onde se tornariam operários. O projeto foi cancelado diante da morte prematura do estudante, aos 29 anos, de poliomielite, em meio aos bombardeios promovidos pela aviação alemã. Wittgenstein, que esteve ao lado de Skinner durante toda a internação, teve uma crise nervosa diante da perda do amigo. E mais uma vez decidiu abandonar a filosofia.

Wittgenstein abdicou da filosofia em sucessivas ocasiões. A primeira, para se alistar como voluntário no exército austríaco. Em seguida, após ter renunciado à imensa fortuna que havia herdado do pai milionário, o autor do Tractatus, abandonou a filosofia para se tornar professor de uma escola infantil localizada em uma pequena aldeia. Posteriormente, depois de ser jardineiro em um mosteiro na Baixa Áustria, Wittgenstein trocou a filosofia pelo simples trabalho de padioleiro em um hospital. Por fim, com a morte de Skinner, o filósofo abandonou o cargo de professor em Cambridge para morar na Irlanda em uma cabana de pescador, até que veio a falecer na Inglaterra.

Na verdade, a própria chegada de Wittgenstein no campo da filosofia resultou de um abandono de seus projetos iniciais. O filósofo, que na infância havia fabricado sozinho uma máquina de costura, esteve interessado em aeronáutica até que começou a assistir às aulas de filosofia ministradas por Bertrand Russell. Um dia o estudante procurou o mestre para perguntar se deveria continuar a estudar filosofia ou prosseguir no campo da engenharia, já que julgava-se idiota. Russell propôs que ele escrevesse um texto. Meses depois, ao ler a primeira frase do escrito, o filósofo inglês afirmou: “Não, você não é idiota. Não deve se tornar engenheiro aeronáutico”.

Quem sabe Russell estivesse enganado, não quanto ao talento do discípulo, é claro, mas em relação à sua vocação filosófica. Em que pese ter inventado a filosofia analítica, a concepção que Wittgenstein tinha dos problemas filosóficos como “enganos” produzidos pela linguagem, e o desprezo que ele nutria pela história do pensamento, revelam sua característica de antifilosófo. “Sobre aquilo de que não pode falar, deve-se calar”, disse Wittgenstein. Esse poderia ser o maior ensinamento do filósofo aeronauta. Para mim, no entanto, a grande lição de Wittgenstein foi ter mostrado que a filosofia é um instrumento feito para um determinado fim e não para ser carregado eternamente às costas. No túmulo muito simples de Wittgenstein em Cambridge, há uma lápide com um canteirinho onde se encontra uma pequena escada. Indispensável para subir, a escada pode ser deixada de lado quando já se está no alto. Quem puder compreender, compreenda.