Repetir é um dom do estilo

Repetir até ficar diferente


Entende o pensador dinamarquês Kierkegaard que a vida é repetição. Não somos outra coisa senão um repetir constante. Fazemos as mesmas coisas, tomamos os mesmos caminhos, falamos com as mesmas pessoas. Vamos nos repetindo a cada dia e contraditoriamente nos inovando nessa constante recorrência. É que a repetição tem dois sentidos. Ela tanto pode ser a duplicação do mesmo, uma recordação, quanto uma recorrência que inova, uma repetição diferencial, uma “retomada” (Gjentagelse, em dinamarquês). Só essa última, entende Kierkegaard, é a verdadeira repetição. “Retomada” e “recordação” constituem um mesmo movimento, porém em sentido contrário. A recordação repete retroativamente, evocando algo que já passou, enquanto a retomada aponta para o futuro.

Para ilustrar a diferença acima, o filósofo dinamarquês nos conta a história de Constantin Constantius (o nome já diz tudo), um homem que toma um trem para Berlim buscando repetir uma viagem que havia feito quando jovem. Ele viaja no mesmo trem, na mesma hora, hospeda-se no mesmo quarto de hotel, vai aos mesmos lugares, come os mesmos pratos. Porém, toda essa tentativa de reviver o passado é inútil, pois sendo o personagem outra pessoa, com diferentes sentimentos, e tendo os lugares igualmente mudado, ele não pode vivenciar a mesma experiência. A impossível repetição do passado deixa Constantin Constantius profundamente infeliz.

Diferente é a história do personagem bíblico Jó. A história de Jó, também recontada por Kierkegaard, trata de uma repetição que não é a simples reprodução do mesmo, mas é a produção de algo original. Tendo perdido tudo que possuía, porém mesmo assim mantido uma fé inabalável em Deus, Jó é agraciado pelo divino com o recebimento do dobro daquilo que tinha antes. O dobro, no caso, não é o mesmo que Jó possuía outrora. O dobro recebido pelo personagem não é uma mera soma ao seu patrimônio, mas é o novo dobrado. Há, portanto, duas repetições nessa história: a insistência de Jó em permanecer fiel a Javé, mesmo na desgraça, e a duplicação de seus bens.

Toda essa consideração sobre a repetição faz parte de uma reflexão mais abrangente que Kierkegaard propõe sobre o amor. No início do livro A Repetição, sabemos que Constantin Constantius havia sido procurado por um jovem apaixonado que sonhava em ser escritor e enfrentava um dilema. A paixão que o jovem sentia por uma moça o inspirava em termos poéticos, fazia com que ele se sentisse profundamente criativo. Permanecer solteiro e perpetuamente enamorado parecia ser o caminho para manter o élan poético. Porém, o jovem havia prometido casamento à moça e assumido o compromisso de formar uma família. Ora, cumprir a promessa seria optar pelo cotidiano, escolher um caminho que poria fim à paixão e arriscar a perder a veia literária. Para Kierkegaard, o dilema do jovem escritor apaixonado traduziria a alternativa que a vida nos apresenta entre duas vias distintas: a estética e a ética. A primeira se caracterizaria pelo hedonismo, pelo prazer da novidade, opondo-se assim ao tédio. A segunda está incrustada no dever e nas exigências de caráter. No entender de Kierkegaard não há um critério objetivo que nos diga qual caminho devemos escolher.

Dom Juan, que ao lado de Casanova, é o maior sedutor da cultura ocidental, optou pela via estética. Casanova existiu de fato, enquanto Don Juan é puro personagem literário. Ambos são conquistadores, mas entre eles as diferenças são enormes. Casanova apaixona-se pelas mulheres que seduz. Após cada conquista, seu interesse se volta para outra mulher, sem contudo perder o amor pela anterior. Casanova no fundo é um romântico. Dom Juan, ao contrário, é aquele que opta pela estética. O cavalheiro espanhol atua de um modo completamente distinto de seu rival italiano. Ele é o sedutor que nunca se apaixona. Seu objetivo é acumular mais e mais conquistas formando um imenso catálogo. Pelas contas de Renato Mezan, Don Juan seduziu 2065 mulheres, só na Espanha 1003, como é dito por Mozart em sua ópera. Para Don Juan, a posse carnal e o próprio gozo sexual pouco importam. O prazer do sedutor está no jogo da sedução. É fazer com que mais mulheres entreguem seus desejos.

Antes de falarmos da sedução contínua como repetição, importa rejeitar a visão moralista sobre ela. Por força da religião cristã, a sedução é vista como perigosa, como algo que se situa no plano da imoralidade. Seduzir é mentir, é usar artifícios para suscitar o desejo nos outros e exercer poder sobre eles. No entanto, essa visão da sedução esbarra numa dificuldade imediata: a sedução não é sempre uma mentira, pois é possível seduzir o outro sem que se tenha a intenção disso. No mais, a visão moralista esquece do fato de que quem lida com o público precisa usar o encanto como estratégia. Não se trata, portanto, de mentir, mas de fazer da sedução um projeto consciente sobre o outro. Um professor, por exemplo, precisa seduzir seus alunos para despertar a curiosidade e o interesse pelo conhecimento. Nesse caso, o objetivo não é possuir ou alienar o outro, mas fazer com que ele se torne livre.

Sedução é uma palavra de origem latina que significa desviar, conduzir alguém para fora do caminho. A visão moralista concebeu Dom Juan como um pervertido, um vilão quase diabólico, deixando de lado a evidência de que o sedutor está no prazer do outro e conta com sua conivência. Antes de seduzir, quem o faz já foi previamente seduzido por aquele ou aquela que pretende conquistar. O seduzido não é necessariamente uma vítima passiva. Ao contrário, talvez em seu mais íntimo segredo ele já espere a sedução. Mas, claro, a sedução é uma arte. Seduzir é convencer o outro, isto é, vencer com o outro, e o segredo para tanto é fazer com que o seduzido acredite que não está sendo seduzido. Para isso, tudo conta. A voz, o olhar, as palavras, os gestos, as roupas. Dom Juan, diz Kierkegaard, é pura música.

Dom Juan repete suas conquistas para fugir da repetição que poria fim ao estado estético em que vive. A vida do cavalheiro de Sevilha é um acúmulo de momentos iguais, instantes pontuais de gozo e de conquista. Dom Juan no fundo é um grande melancólico narcisista que busca repetir suas experiências em um presente contínuo, sem passado ou memória. Mas isso não é uma atestação de culpa solitária. Se a sedução é uma via de mão dupla, importa sempre perguntar sobre as motivações daquela ou daquele que se deixa seduzir. Onde está o fascínio de Dom Juan? Em tempos de facebook e de amores em série, o prazer de seduzir e o gozo de ser seduzido muito informa sobre a construção de subjetividades cada vez mais vacilantes.

Embora Kierkegaard afirme não haver critério objetivo que nos ajude a escolher entre a via estética e a via ética, ele próprio optou pela segunda alternativa, realizando um imenso elogio ao matrimônio. Para o filósofo dinamarquês, Dom Juan não é capaz de entender que a repetição só faz sentido como retomada, recuperação. Repetir os signos do amor em sua fase inicial é tarefa impossível, diz Kierkegaard. No amor, conservar pode ser mais importante que conquistar. A luta do amor é contra o tempo, sua tarefa é preservar-se, como Jó em sua fé. É repetir até ficar diferente, como diz um verso Manoel de Barros. Será? Não sei. Quem quiser que se deixe seduzir pelo burlador de Copenhague.