O riso simples das criadas

A imagem do filósofo como um homem que viveria com a cabeça nas nuvens parece ser debitária da célebre passagem da vida do pensador grego Tales de Mileto, contada por Platão, em que o primeiro, contemplando os astros, acabou caindo no buraco de um poço, provocando risos em sua criada. 

Hans Blumenberg escreveu um livro em que examinou com muita maestria algumas das questões levantadas por esse episódio: a própria autenticidade da história, que parece ter sido inspirada por uma fábula de Esopo, o impacto do riso sobre a imagem da filosofia, o lugar desta na cidade grega e a liberdade de Tales comparada à servidão da criada, que talvez por ser mulher e estrangeira, sequer é merecedora de um nome, ainda que tenha sido descrita por Platão, certamente com alguma motivação misógina, como “muito bonitinha”.

Platão parece ter inventado essa anedota sobre Tales não para criticar a atitude especulativa deste, mas para sustentar exatamente a ideia de que a filosofia exigiria uma ascensão progressiva do nível do senso comum para um grau de realidade mais elevado onde se encontrariam as ideias eternas e imutáveis. O filosofo precisaria saber deixar o plano “daqui de baixo”, o nível das coisas sensíveis e duvidosas, para subir até o céu luminoso dos conceitos e abstrações, movimento que a inculta criada de Tales não teria sido capaz de compreender. No entender de Platão, nada parece ser mais oposto à filosofia do que a imersão no cotidiano, esse mundo das obrigações vulgares e das sensações enganosas.

Mas a história do pensamento nos legou também uma imagem alternativa do filósofo como alguém que se encontraria envolto no dia-a-dia, tal como aparece no episódio da vida de outro pensador pré-socrático, Heráclito, em que este, morador de uma caverna obscura, convida alguns curiosos que vieram conhecê-lo a entrarem em sua morada rupestre, e junto com ele assarem prosaicamente um pão à beira do fogo. A atitude de Heráclito, que não tem uma criada para lhe servir, representa a exigência mesma de descenso da filosofia do céu para a terra, de imersão do filósofo na vida ordinária e nos objetos cotidianos, atitude que será reivindicada de modo radical, muitos séculos mais tarde, pela fenomenologia de Sartre.

Gosto muito dessa ideia da filosofia submersa nas coisas triviais. Sempre me interessei por autores que souberam trabalhar nas bordas, revirando a lata de lixo da história da filosofia, explorando resíduos rechaçados. Outro dia li o ensaio de Peter Stallybrass intitulado O casaco de Marx e fiquei profundamente encantado. Raras vezes vi alguém tratar de um tema denso como é o da memória de modo tão poético e encantador. O livro de Stallybrass é composto de três curtos ensaios sobre algo bastante banal: as roupas que usamos e as lembranças que elas carregam. O título da obra, aparentemente surpreendente, remete ao segundo ensaio no qual o autor analisa o conceito de mercadoria no capitalismo a partir de um episódio da biografia de Marx. Por uma década, enquanto redigia O Capital, Marx viveu em condições de extrema penúria, necessitando penhorar seu casaco de inverno ora para comer, ora para poder frequentar o espaço da biblioteca do Museu britânico onde realizava suas pesquisas.

Os objetos prosaicos que nos circundam marcam nossa existência e estão repletos de presença e de lembrança. Aprendi isso lidando com o espólio íntimo de entes queridos que perdi. Sendo eu o que se chama hoje em dia de um “acumulador”, guardo em casa inúmeros objetos que pertenceram aos meus antepassados, afora aqueles que adquiri ao longo da vida em lojas especializadas: bonecas antigas, cartões-postais, selos, livros, quadros, pedras, cartas e fotografias de pessoas que sequer conheci...

Como o velho Noé em sua arca, ou o artista Juan Miró que colecionava objetos abandonados, recolho com muito empenho esses artigos inúteis, na esperança de preservar a memória de seus antigos proprietários. Sofro antecipadamente por saber que essa tarefa, com nítidos contornos de obsessão, não será continuada quando do meu próprio desaparecimento. Afinal, quem ficará com a tela que retrata o sonho do marinheiro nos braços de uma prostituta que se encontra no centro da parede de minha sala? Quem admirará a coleção de bebês alemães em porcelana que enfeita a cristaleira?

A ideia de que as coisas seriam efêmeras expressa apenas uma meia-verdade. Por experiência própria, aprendi que as pessoas é que necessariamente morrem enquanto as coisas costumam sobreviver. Estas são verdadeiras relíquias, tanto quanto são a língua bendita de Santo Antônio e o cordão umbilical do menino Jesus. São essas coisas partidas e silenciosas que definem o meu modo de pensar. Tendente ao simplismo, não posso pensar na grandiosidade das coisas do céu se sou incapaz de refletir sobre os objetos humildes que me cercam.