O mais profundo é a pele

Quem visita a capela Sistina e tem a sorte de conseguir olhar para o painel central pintado por Michelangelo, que retrata o juízo final, sem ser, é claro, importunado pelos turistas, verá a figura de São Bartolomeu segurando, com a mão direita, a faca com que foi esfolado, e com a mão esquerda a própria pele que lhe foi retirada. Como no caso de uma renovada serpente que acabou de trocar suas escamas, a antiga pele empunhada pelo santo é velha e flácida, enquanto o novo tecido que o involucra é vigoroso e viçoso.

A vida animal, diz James Hilman, é biologicamente estética: cada espécie revelando-se em pelos, caudas, plumagens, cascas, garras, chifres, presas, colorações, brilhos, conchas, proporções, asas... Os humanos, em contrapartida, são menos exuberantes. A maioria dos nossos semelhantes nasce coberta por uma pele frágil que precisa ser protegida por roupas e cobertas. Alguns poucos, no entanto, desprovidos da sorte, vêm ao mundo com uma enfermidade rara, chamada epidermólise, que faz com que não tenham sequer a pele. Ao tocarem em um objeto, essas pessoas sentem dores intensas ou se machucam. O simples ato de comer para elas é como mastigar pregos ou engolir vidros. Não há cura para essa doença, mas apenas paliativos que amenizam o sofrimento, como pomadas que diminuem a dor ou curativos que tentam imitar o conforto da pele humana.

A pele é um invólucro poroso que abarca o corpo e permite o contato com o mundo externo. Como toda fronteira ou limite, ela é uma interface, um lugar de troca entre o interior e o exterior, entre o corpo e o espírito. A pele é um envelope sensível estabelecendo uma comunicação entre o dentro e o fora. Formada por milhares de células sensoriais, ela é uma membrana que nos protege das doenças, mas também um receptor poderoso que se comunica com o mundo e com outras peles. A pele gosta de ser amada, acariciada e massageada. Em alguns mamíferos, inclusive, não ter a pele lambida pela mãe significa a morte para um filhote. Por isso mesmo, ao sadismo humano apetece tanto torturá-la, como fazem os taxidermistas ou o jovem tatuador imaginado por Tanizaki. Os mais perversos, inclusive, como os carrascos de Buchenwald, apreciam construir abajures com as peles de suas vítimas.

A pele é vital. Pode-se viver cego ou surdo, mas não se vive muito tempo sem o epitélio. No caso dos humanos, a pele desempenha um papel fundamental no desenvolvimento psíquico. Para Freud, o tato é o único dos cinco sentidos a possuir uma estrutura reflexiva. A criança que toca uma parte de seu corpo experimenta duas sensações complementares, a de ser um pedaço de pele que toca e um pedaço de pele que é tocado. Essa reflexividade táctil é decisiva para o próprio pensamento, pois ao se tocar o bebê toma consciência tanto de sua unidade interna quanto de sua existência separada do mundo exterior.

Como um palimpsesto, a pele é marcada por uma diversidade de signos: manchas, pigmentos, sinais, verrugas, tatuagens, cicatrizes, marcas e rugas. A pele é um filtro de trocas e de inscrições, um texto autônomo que se escreve sozinho, e que frequentemente nos trai, confessando nossas emoções. A flor da pele está sempre à flor da pele. No carinho ela se abre e se arrepia, na vergonha enrubesce, no medo fica pálida.

“A pele é o que há de mais profundo no homem”. Durante anos isso me passou desapercebido até que descobri essa enigmática frase de Valery. De lá para cá, tenho reorientado meu pensamento para longe das coisas falsamente profundas, nadado em direção à tona. Aprendi com Deleuze que o filósofo não é mais o ser das cavernas, nem a alma ou o pássaro de Platão, mas ele é o animal chato das superfícies, o carrapato, o piolho.