Ex halos

Anos atrás, a biblioteca da Universidade Complutense de Madrid realizou uma mostra sobre objetos encontrados no interior de alguns dos livros de seu acervo: fotos, bilhetes, desenhos, plantas secas, cédulas, cartões de loteria, selos, versos, uma oração de São Tomás de Aquino, e até mesmo balas de metralhadora incrustradas em um livro que serviu como parapeito de proteção para um combatente durante a Guerra Civil. Alguns desses objetos devem ter sido usados como marcadores por leitores distraídos, mas outros foram propositadamente deixados entre as páginas das publicações para servir, talvez, como cápsulas de tempo. Livros, diria Quintana, são “baús de espanto” contendo todo tipo de coisas esquecidas.

Consultando aleatoriamente um livro da estante sobre os mares antigos, encontro um bilhete de agradecimento pelo empréstimo da Odisseia, escrito por um antigo aluno fascinado pela leitura do poema de Homero. Como muitos outros leitores, o jovem estudante com nome de rei persa destaca o fato de que Ulisses lhe pareceu ser, ao mesmo tempo, o maior dos aventureiros e o sumo nostálgico. A propósito, Vladimir Jankélevitch escreveu um belíssimo texto em que destacou que a nostalgia estaria antes de tudo ligada à irreversibilidade do tempo. Ulisses pôde voltar ao lugar de onde partiu, mas não ao momento de sua partida. A passagem do tempo é irreversível, irrevogável. Temos pela frente não um grande futuro, mas um enorme passado ao qual não podemos finalmente regressar. De novo em Ítaca, Ulisses é um outro homem. Penélope também mudou, assim como a ilha já não é a mesma.

Em um livro intitulado A Sombra de Ulisses, Piero Boitani sustenta que o personagem de Homero é um signo aberto que cada tempo e cultura interpreta conforme seu próprio sistema de signos. Isso explica o ressurgimento constante do personagem com significados diferentes ao longo da história. Ulisses não se limita aos poemas homéricos, mas ele está em Dante, em Camões, em Joyce, em Kafka, em Pessoa, em Kaváfis. O personagem pula de um livro para outro, cumprindo talvez a profecia que lhe foi feita no inferno pelo adivinho Tirésias de que somente após aplacar a ira de Poseidon o aventureiro teria uma morte ex halos, vinda do mar. E como Homero não conta o final da história, a viagem de Ulisses, acredita Boitani, pode não ter acabado com o simples retorno à Itaca.

Ulisses, o memorioso. Em todas as suas aventuras mar adentro, o herói derrotou as várias armadilhas do esquecimento postas por Poseidon. Venceu o torpor causado pelo canto das sereias, o encantamento de Circe, a flor amnésica de loto, e o próprio sono, que é uma forma suave de olvido. Ulisses sobrepujou a morte, não apenas escapando ileso de tantas aventuras, mas recusando a oferta de imortalidade que lhe foi feita no caminho. E a morte dos homens, convém lembrar, é a única coisa que os deuses seguramente invejam. Ulisses não esquece, não rejeita sua condição letífera. Ulisses é ninguém em pessoa. Por isso ele é tantos. Quando menos se espera, ele salta dos mares de um livro na forma de um bilhete deslembrado.