A tristeza do filósofo

No dia seguinte à morte de Jean-Jacques Rousseau, ocorrida no dia 03 de julho de 1778, o escultor neoclássico francês Jean-Antoine Houdon e seus assistentes italianos produziram a máscara funerária do filósofo. Logo depois, o molde retirado foi trabalhado pelo artista em seu atelier de maneira mais livre em três peças que seriam produzidas na sequência, dentre elas um busto que hoje se encontra no Louvre e que retrata Rousseau como se este tivesse vivido na antiga Grécia.

Chama a atenção na máscara mortuária do filósofo a presença de uma ferida na testa, marca que motivou um boato de que o autor do Contrato Social teria morrido não de trombose, conforme atestou a autópsia então realizada, mas de um assassínio talvez perpetrado por sua própria esposa. Diante da suspeita, o corpo de Rousseau chegou a ser exumado, confirmando a causa da morte apontada pelo laudo inicial. Contudo, até hoje alguns seguem acreditando que o corpo do filósofo não era aquele que se encontrava na tumba.

Um texto atribuído a Aristóteles, intitulado Problema XXX, contém a espantosa afirmação de que os homens excepcionais seriam invariavelmente depressivos. Desde então, criou-se um mito sobre a aproximação existente entre distúrbios psicológicos e genialidade. Rousseau, que tradicionalmente é reconhecido como um grande melancólico, não parece contestar essa tese. Aliás, ele vai bem mais adiante, concebendo a atividade intelectual como uma espécie de enfermidade mental. “Se a natureza nos destinou a estar sãos, quase me atrevo a afirmar que o estado reflexivo é um estado antinatural e o homem que medita é um animal depravado”, escreve o filósofo em suas Confissões.

Nenhum outro pensador parece ter recebido tantos diagnósticos de insanidade quanto Rousseau. Voltaire o acusou de ser um “louco furioso”. Diderot o chamou de “pervertido”. Nem mesmo Lacan poupou o autor do Emílio de um diagnóstico: “paranoico de gênio”. Rousseau seria considerado paranoico, dentre outras coisas, pela atenção que dedicava a sua infância, pelo amor à natureza que ele identificava com a mãe que mal conheceu, e pelo gosto que nutria pelo gesto narcisista da confissão de si. Convicto de sua bondade, o filosofo suíço se apresenta em suas memórias como o melhor de todos os homens, conforme bem disse a psicanalista Colette Soler.

Ao estabelecer um elo entre a atividade intelectual e a loucura, Rousseau conquistou a inimizade dos filósofos iluministas, especialmente Voltaire. No entanto, o vínculo entre filosofia e loucura é muito antigo, remontando a Platão. Só que para o filósofo grego, a loucura que estaria por trás da filosofia não seria qualquer loucura, mas aquela “mania” outorgada pelos deuses. É o entusiasmo divino que dá lugar ao saber. A filosofia, para Platão, nasce assim de um delírio, de uma espécie de surto psicótico provocado pelos deuses.

Mas, a loucura do intelectual evocada por Rousseau é de natureza mais mundana. No século XX, um filósofo marxista amigo de Lacan e muito próximo da psicanálise, então considerado um dos maiores intelectuais franceses, estrangulou sua esposa num acesso de cólera paranoica. Louis Althusser, o filósofo assassino, foi considerado “demente” pela justiça e julgado inimputável. Ao escrever um livro sobre o crime por ele praticado, Althusser retomou o diagnóstico do autor do Contrato Social sobre a doença de ser um “animal reflexivo”, acrescentando: “Por desgraça, não sou Rousseau”. Isso porque, ao contrário do filósofo genebrino, Althusser não escreve suas confissões para se defender, mas para se declarar culpado.

A psicanálise concebeu a paranoia como um sistema filosófico deformado. A paranoia é uma distorção da realidade consensual. Os paranoicos atribuem grande importância aos detalhes insignificantes que normalmente escapam aos homens normais. A paranoia é uma “maneira de ver” : o sujeito paranoico vê algo que escapa aos outros, sua visão é mais “profunda” que aquela do pensamento normal. A paranoia, diz Freud, é um delírio de observação. Não se trata de uma doença, mostrou Lacan. Aliás, a paranoia até pode ser um método artístico quando se é capaz de transformar o delírio em força criadora, tal como acontecia com Salvador Dali.

Os bustos de Rousseau feitos por Jean-Antoine Houdon deixam transparecer que o filósofo tinha um olhar triste. Mas Rousseau era um camaleão, um mestre dos disfarces. Pelas questões que coloca, dificilmente o filósofo poderia não ser triste. Mas isso não conta. A filosofia pode até não ser risonha, mas o que importa mesmo é que ela não seja desencantada.