A arte de aparentar tranquilidade

Por influência de Montaigne, esforço-me para praticar a vagabundagem. Em tempos de crimes tão bárbaros e odiosos, ao menos escolhi cometer uma delinquência de menor potencial ofensivo, sequer tipificada hoje em dia pelo Código Penal. Uma lástima, pois se a vadiagem e a mendicância ainda fossem punidas nesse país, ao menos as minhas poucas obras, ineptas e inúteis, poderiam vir a ser confessadas diante de um juiz.

Nunca entendi porque diziam que Jean Genet era escritor e criminoso, como se as duas coisas não viessem sempre juntas. Todos os escritores são delinquentes. Alguns mais, por serem vadios, cheios de vícios e corruptores dos costumes, outros menos porque apenas mendigam palavras, adjetivos, imagens, personagens, por vezes até mesmo frases inteiras. Quanto a Montaigne, ele mesmo confessa, o delito está na mania frívola de escrever ensaios, dos gêneros literários certamente o mais vagabundo.

Montaigne reivindicou oficialmente o atributo de vadio para sua vida e sua escrita. “Meu estilo e meu espírito vagabundeiam juntos”. O filósofo de Bordeaux se reconhecia como vadio nas duas acepções do termo. Aposentado aos 37 anos, idade avançada para a época, Montaigne vivia dedicado à atividade “inútil” de escrever, nunca disposto a empregar seu tempo nas coisas práticas e na administração dos afazeres domésticos. Doutra parte, embora adorasse a vida sossegada no castelo em que morava, ao filósofo apetecia por vezes viajar, essa atividade igualmente fútil que consiste em sair vagando mundo afora para ver coisas novas e desconhecidas.

Dizia Montaigne que a filosofia contida em seus Ensaios era fruto da liberdade de deixar o pensar e a escrita irem de um lado para outro, preguiçosamente, sem destino; do prazer de permitir que o pensamento errasse sem itinerário certo e assim pudesse encontrar o imprevisível. “Minhas ideias, diz Montaigne, ligam-se umas às outras, mas às vezes de longe; não se perdem de vista, embora por vezes seja necessário que virem a cabeça para percebê-lo”. E prossegue: “Gosto de andar dando cabriolas, à maneira dos poetas, que é ligeira, alada, demoníaca.

Escrevendo sobre o pensamento de Montaigne, o escritor austríaco Stefan Sweig destacou que a ausência de ordem nos Ensaios é apenas aparente. Como os títulos dados por Montaigne aos capítulos de seu livro não estão de acordo com a matéria neles tratada, a impressão que se tem é a de que se está diante de um caçador de borboletas que corre em ziguezague. Contudo, o próprio Montaigne adverte: “O leitor distraído é que perde de vista o meu tema, não eu”. E esse tema que nunca escapa aos olhos atentos de Montaigne, por mais que o filósofo vagueie em seus pensamentos, é a própria vida: “sou eu mesmo a matéria deste livro”, confessa o filósofo.

A confissão é o momento de verdade do vagabundo. Até o Renascimento, as normas da doxa impunham ao sujeito a obrigação de não falar sobre si mesmo senão em três situações específicas: diante do juiz para se defender, diante do padre para confessar os pecados e diante do rei para testemunhar um feito heroico. Montaigne burla a regra dos clássicos e inventa um novo gênero literário. Em que pese “tratarem” de temas diversos, os Ensaios no fundo apenas “retratam” a vida do filósofo.

Em um livro dedicado ao tema da confissão, disse Maria Zambrano que aquela tem sempre um começo desesperado. Confessa-se o cansaço de ser homem, a fadiga de existir. Sem família, trabalho certo ou carteira de identidade, o vagabundo errante aparenta tranquilidade, mas no fundo, poucos sabem, ele sonha mesmo é encontrar casa para sempre.