Medicina sentimental

Embora Shakespeare tenha entendido ser o sonho, penso que é o sofrimento a matéria-prima da qual são feitos os seres humanos. Por uma razão simples: a vida é feita de separações. Na condição primatas que um dia encontraram comida e afeto no seio materno, sofremos permanentemente pela perda desse estado paradisíaco do qual desfrutamos na primeira infância. Todas as separações e perdas seguintes, pelas quais tanto sofremos – um amor, um ente próximo, um país, um ideal, um emprego – evocam essa privação inicial que perdura indefinidamente.

Não existe cura definitiva para o sofrimento humano, salvo a auto-aniquilação, é claro, mas há um paliativo chamado consolo. Este consiste no simples gesto generoso de abraçar o sofredor, enxugar suas lágrimas, fazer com que ele enxergue sua perda de um outro modo ou oferecer a ele algo passível de compensar a falta do objeto perdido. Quase sempre funciona, até porque aquele que sofre, no mais das vezes, precisa apenas do tempo e da presença do outro para voltar a existir, de uma escuta, um gesto, um sorriso, para se reconectar com a vida que parecia ter sido perdida. Porém, convém lembrar que existem também, como faz Michaël Foesse, aqueles inconsolados incorrigíveis, como a personagem Antígona de Sófocles, criaturas que não aceitariam, em qualquer hipótese, serem confortadas, posto que considerariam todo consolo um verdadeiro ato de traição aos seus propósitos.

Os inuit, povos da nação indígena esquimó que habitam as regiões árticas do Canadá, descrevem a paisagem gelada em que vivem a partir de nuances cromáticas inexistentes em nossa língua. Lá onde vemos um simples bloco de gelo branco ou cinza, os inuits conseguem distinguir onze tonalidades diferentes. A dificuldade de consolar reside por vezes nesse aspecto vocabular. Falta-nos um léxico mais largo para descrever a riqueza das tristezas humanas. Por isso, não é raro acontecer que quando queremos consolar uma pessoa afligida por alguma desgraça as palavras costumem nos faltar.

Aparentemente, essa dificuldade não devia existir entre os antigos filósofos gregos e latinos, já que eles dispunham de uma larga tradição consolatória a que podiam recorrer, começando pelo texto da Consolação a Hipocles, escrito por Crantor para reconfortar um pai pela perda do filho e considerada a primeira do gênero. Muito dessa tradição consolatória foi perdida, inclusive o próprio trabalho de Crantor, do qual restam apenas poucos fragmentos, porém, por sorte ainda podemos ler o célebre escrito de Boécio, no qual a deusa da filosofia, em pessoa, vem consolar o filósofo que havia sido injustamente condenado à morte, as Cartas consolatórias de Sêneca, especialmente a carta à Marcia, uma mãe melancólica que não conseguia superar o luto pela morte do filho, e as reflexões de Cícero e Plutarco sobre o tema.

No prosaico mundo moderno, o gênero consolatório entrou em declínio junto com a ideia de que a filosofia poderia ser uma “medicina da alma”. A verdade trágica da vida passou a ser enfrentada pelas religiões e principalmente pela psicologia, com auxílio de terapia, medicamentos, diversões e da detestável ideologia da “resiliência”. E assim, pouco a pouco o consolo literário ou filosófico foi deixado de lado, considerado como simples resquício da antiga retórica greco-latina. Contudo, creio que há muito mais sabedoria nos discursos literários do que se pode encontrar na maior parte dos consultórios.

Não podendo abordar todas as melancolias e de seus respectivos “remédios”, examinarei rapidamente aqui apenas uma delas, talvez a mais banal e fácil de ser tratada: a tristeza pela perda de um amor. Sobre esta, a tradição latina nos legou um clássico absolutamente incontornável, escrito pelo poeta Ovídio, um profundo conhecedor dos prazeres humanos. Em seu poema Os remédios do amor, Ovídio, após ter ensinado como se faz para amar em um livro anterior, intitulado A arte de amar, propõe-se a ensinar aos jovens como enfrentar os infortúnios causados pela perda do amor: queimar as cartas e bilhetes de amor (hoje em dia seriam os e-mails e mensagens eletrônicas), afastar-se dos retratos, evitar os lugares que foram palco dos encontros amorosos e ter sempre em mente os inevitáveis defeitos do outro e os momentos ruins vividos com a pessoa amada.

Tendo eu mesmo já utilizados o método de Ovídio, posso assegurar que funciona. Mas existe outra terapia filosófica que recomendo, proveniente de uma autoridade verdadeiramente insuspeita, o Padre Vieira. Trata-se do Sermão do Mandato, pregado na Misericórdia de Lisboa no ano de 1655. Escrito para os enfermos de um hospital, o sermão trata dos remédios do amor e do amor sem remédio, no caso deste último, o amor por Deus. Retomando as ideias clássicas dos textos consolatórios gregos e latinos, Vieira propõe quatro grandes antídotos contra o amor: o tempo, a ausência, a ingratidão e a melhoria do objeto amado.

O amor, escreve Vieira, não resiste ao tempo. Por isso os artistas antigos retrataram o amor como um deus menino e não como um senhor de barbas brancas. Não há amor tão robusto que chegue a ficar velho. O tempo, prossegue Vieira, despe o cupido de todas as suas armas: “Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge”. Curiosamente, é o próprio amor, portanto, que busca sempre a novidade, o desencadeador de seu fim.

O segundo remédio para o amor tem relação com o espaço, sendo ele a própria ausência. O amor, diz o padre, exige a presença constante do outro. Longe do objeto amado o amor se extingue. Se os mortos, escreve Vieira, são tão esquecidos havendo tão pouca terra entre eles e os vivos; que podem esperar e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos; tantas léguas, que farão? Em outros longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor”.

O terceiro remédio é a ingratidão. O tempo e a ausência diminuem amor, mas a raiva diante de uma ferida provocada pelo ser amado acaba de vez com esse estado emocional. “O tempo, escreve Vieira, tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo ser antigo, ou por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado: se o deixamos de amar, não é culpa sua, é injustiça nossa; porém, se foi ingrato, não só ficou indigno do mais tíbio amor, mas merecedor de todo ódio”.

Se nada disso funcionar, conclui o padre, resta substituir o objeto amado por algo melhor. Um amor é curado com outro. Apenas o amor transcendente e infinito, o amor pelo Cristo, conclui Vieira, não tem remédio nem substitutivo, mas ele é o próprio remédio para todas as nossas loucuras. Não sendo versado em discussões teológicas, deixo essa exortação final de lado. Fico com a simplicidade do pregador e sua precisão irretocável ao tratar da paixão humana. Dizem que padres não sabem falar do amor por conta do celibato. Vieira é uma exceção. Pelo que vi ultimamente, o que os padres parecem não saber mais fazer nos dias de hoje é sermão. E contra essa pobreza exegética das palavras de Deus, também farta em pastores e sacerdotes, não há conforto que baste.

É bem verdade que quando alguém tem fome, conversar, em vez de dar-lhe de comer, é prova de burrice. Mas é verdade também que sofrer em boa parte é simplesmente não entender, como Édipo atônito em Tebas, sem saber porque tudo aquilo lhe acontecia. Certamente a literatura e a filosofia podem não ser remédios que aliviam o sofrimento físico, mas ao menos ajudam o consolador e o inconsolado a colocarem a dor em seu devido lugar.


Terra Incógnita

David Hume observou que os amantes, tanto quanto os comerciantes, os cozinheiros e os alfaiates, são grandes enganadores. Os comerciantes iludem os compradores sobre a qualidade da mercadoria, os cozinheiros enganam os comensais sobre as propriedades da comida, os alfaiates bajulam os clientes sobre a medida das roupas, e os amantes, por fim, mentem a eles mesmos.

Claro, não se deve acreditar em tudo que os intelectuais escrevem sobre o amor. Embora alguns deles tenham sido grandes amantes, a maior parte fracassou nos relacionamentos amorosos, como mostrou Andrew Shaffer em um bem-humorado livro sobre o assunto. Alguns, como Louis Althusser, chegaram até mesmo a esganar a mulher. Outros, como Schopenhauer, contentaram-se em empurrar a companheira escada abaixo. Mesmo assim, o conhecimento do que os grandes pensadores escreveram a propósito do amor pode nos ensinar algumas coisas importantes sobre o tema.

A leitura de textos antigos, como “O Banquete” de Platão, revela que o amor não é um sentimento singular, mas uma série de emoções, relacionamentos e ideias. Tudo parece ser uma questão de vocabulário. Entre os antigos gregos o amor podia ser vivido como desejo ou paixão (eros), mas também como amor fraterno (philia), amor caridoso (ágape), e mesmo como a realização de um projeto em comum (pragma). Na teoria tudo funciona. Na prática, a dificuldade consiste em reunir todas essas classes de amor em uma só pessoa. Em algumas ocasiões há muito eros e pouca philia. Em outras, é exatamente o contrário. Por vezes há pragma, mas falta eros, e assim por diante.

Se o leque semântico dos gregos nos parece hoje excessivo, assim como as diversas marcas de cerveja nas prateleiras dos supermercados, é bom lembrar que existe ainda, nas culturas antigas, o amor “brincalhão” dos latinos, chamado de ludus por Ovídio, e o amor por todas as criaturas sensíveis propugnado pelo budismo (metta). O primeiro é muito frequente nas crianças, que inventam jogos de amor diversos, tais como o “pera, uva e maça” de minha infância. O segundo, creio, seria uma versão mais ampliada do ágape, já que esse amor divino atingiria o conjunto dos seres sencientes.

Baruch Espinoza dizia os seres humanos amam por conta da alegria que o amor provoca, regozijo que tem uma causa externa e que faz com que o amante queira o outro mais do que a si mesmo. Concepção aparentemente simples e ingênua. Afinal, quem já sofreu por amor sabe que este não é necessariamente uma alegria. Contudo, para Spinoza, os sofrimentos do amor não decorrem da essência deste, mas da qualidade dos objetos que recebem nosso amor. Em outros termos, não podemos culpar o amor se é o nosso dedo “podre” que aponta para as pessoas erradas.

Nos últimos anos, muitos livros sobre o amor foram publicados. Com eles aprendemos que o amor é ao mesmo tempo história e cultura. A neurobiologia, por exemplo, mostrou que, ao contrário do que pensavam os poetas, o amor não vem do coração, mas do cérebro. Ao liberar uma série de substâncias químicas, o sistema neuronal é responsável pelo que chamamos de amor em suas várias formas. Porém, para produzir a sensação amorosa, o cérebro precisa realizar um tratamento complexo das sensações fisiológicas e psíquicas dos indivíduos, levando em consideração a experiência pessoal e a cultura em que eles estão inseridos.

Alguns historiadores investiram no que poderia ser chamado de uma história “do” amor. Ao investigar a infância, Philipe Ariès, por exemplo, acabou por apontar elementos importantes do amor materno, no que foi seguido pelo interessante livro de Elisabeth Badinter a propósito do instinto maternal. Edward Shorter, por seu turno, descreveu a mutação sentimental que deu lugar no mundo moderno à família nuclear e ao amor filial. Já as cientistas sociais Viviana Zelizer e Eva Illouz escreveram sobre as mutações do amor na era do capitalismo avançado.

De todos os trabalhos recentes que li sobre o tema, o mais interessante foi o de Tobias Natham. Psiquiatra, Nathan recolheu ao longo de sua atuação clínica inúmeros casos de pessoas que sofreram por amor. Atuando na universidade no campo da etnopsiquiatria, Natham decidiu escrever uma obra sobre a magia do amor, ou melhor, sobre as “magias do amor”: feitiços, amuletos, divindades, entidades etc. Um livro que certamente deixaria feliz nosso querido Câmara Cascudo, pois este, embora não tenha produzido, ao menos que eu saiba, um trabalho sistemático sobre o assunto, minutou várias lendas e crendices existentes em torno do amor.

Em tom de ironia, Tobias Nathan se propôs em seu livro a ensinar como despertar no outro o frenesi da paixão, no melhor estilo das cartomantes que se propõem a trazer os nossos amores de volta. Para tanto, tomando por base o relato de seus próprios pacientes, Nathan investigou o largo inventário disponível de práticas existentes sobre o assunto, do mundo antigo até o século XVIII, especialmente aquelas contidas na tradição literária e em narrativas etnográficas: talismãs em barro, fios de cabelo amarrados em fitas, perfumes variados, comidas e bebidas as mais diversas, pedaços de unhas colocados em travesseiros, evocações de entidades diabólicas etc.

O autor, claro, não garante que os recursos irão funcionar caso o leitor queira testá-los, porém alerta para os riscos dessas praticas: é mais fácil trazer um amor de volta do que dele se livrar! Os filtros do amor, alerta o psiquiatra francês, devem ser usados com precaução, pois não há antídotos contra eles.

O livro de Tobias Nathan não é uma blague. Acreditemos ou não na força das práticas culturais e históricas de captura amorosa, o fato é que elas muito ensinam sobre quem busca o amor. Isso é o que importa. Com efeito, se amor é desejo, pode-se perguntar: o que se deseja finalmente aquele que busca o amor? Não seria amar, como disse Lacan, apenas querer ser amado pelo outro? Não seria o amor impossível, na medida em que, em última análise, ele seria a busca de realização de si mesmo através do outro? Não há respostas satisfatórias a essas perguntas. Em tempos de “love me tinder” o amor continua a ser uma imensa terra incógnita. 


A vida dos filósofos

Dizia Espinosa, logo no início de seu Tratado Teológico-Político, que alguns filósofos fazem “sátira moral”, não filosofia. No lugar de perguntarem como são as coisas, eles preferem indagar como deveriam ser os homens. Disfarçada de “postura crítica”, a filosofia se transforma em catecismo, os livros de filosofia em sermões e os filósofos em inquisidores.

Sempre desconfiei das tentativas de legitimação da filosofia. A filosofia é inútil porque se trata do simples exercício do pensar, coisa absolutamente improfícua diante da banalidade cotidiana. Por isso, quando um aluno me pergunta “para que serve a filosofia”, costumo dar a mesma resposta enunciada por Heidegger: não serve para nada! A filosofia, como diz a velha piada, é o saber com o qual ou sem o qual o mundo permanece igual.

Ora, a única missão da filosofia é tentar diminuir a besteira que existe no mundo, é prejudicar o emburrecimento, conforme já havia observado Nietzsche. Nesse sentido, se a filosofia não tem o poder de transformar o mundo, ocorre, por vezes, mas nem sempre é o caso, que ela venha a operar uma transformação no próprio sujeito que se mete a filosofar. Sobre essa possibilidade, o filósofo e historiador francês Pierre Hadot propôs a ideia da filosofia como exercício. Para Hadot, mais que a construção de um sistema conceitual, a filosofia é a arte de viver, ou melhor, um exercício espiritual. Assim, além de apontar para o aspecto prático da filosofia, Hadot destacou a necessidade de exemplaridade da existência dos filósofos. Estes últimos, entende Hadot, precisariam colocar suas vidas e ideias em acordo.

Será? Se já é difícil ser sincero com os outros, mais difícil ainda é ser sincero consigo mesmo. Sobre a nossa verdade, bem observou Lacan, é impossível tudo dizer. No máximo, pode-se dizer pela metade, dizer em parte, “semi-dizer”. E o que vale para o “simples” leigo, vale igualmente para os “poderosos” filósofos. As ideias que estes últimos professam nem sempre estão em acordo com suas biografias, como bem mostrou François Noudelmann em um interessante livro sobre os filósofos como sublimes mentirosos.

Senão vejamos. Rousseau escreveu uma obra clássica sobre a educação de crianças tendo abandonado seus cinco filhos. Kierkegaard produziu escritos religiosos tendo sido, na verdade, um grande libertino. Sartre propugnou o engajamento político, mas teve um papel pífio durante a ocupação nazista da França. Foucault exaltou a coragem da verdade, mas procurou esconder de todos que era soropositivo e estava prestes a morrer. Deleuze, filósofo do nomadismo, detestava viajar. Simone de Beuavoir, ao tempo em que teorizava sobre o feminismo, confessava em cartas íntimas enviadas a seu amante norte-americano um desejo de completa submissão.

Contudo, vamos com calma. Se o objetivo do livro fosse fazer um julgamento moral dos filósofos como grandes hipócritas, Noudelmann com certeza não mereceria ser lido. A grandeza dessa obra está, ao contrário, na analogia que ela estabelece entre as obras literárias e as obras filosóficas, sobretudo do ponto de vista da construção e reconstrução do sujeito que as escreve. Filosofar, diz Noudelmann, é uma forma de se definir, de se inventar e de se transformar através da construção de um pensamento. Os filósofos, assim, são “mentirosos” não na acepção moral do termo, mas no mesmo sentido em que são igualmente os escritores. Os primeiros criam conceitos tal como os segundos criam ficções e para tanto praticam o “mentir-verdadeiro”(mentir-vrai) propugnado pelo escritor Louis Aragon.

Aragon, que foi criado numa mentira terrível sobre sua suposta irmã, que na verdade era sua mãe, bem como sobre seu suposto padrinho, que era seu pai, tornou-se um grande mentiroso e escreveu um livro para se justificar. Mentindo ele reconstruiu sua identidade, criou uma espécie de segunda pele, pode-se dizer. Ora, quem somos quando pensamos e construímos conceitos, pergunta Noudelmann. Somos nós mesmos ou podemos ser um outro que se manifestaria através discurso? Não seria o pensar, mais que a atividade de um sujeito, o exercício de identidades ficcionais ou potenciais? Quem sabe a filosofia não seja outra coisa senão performance intelectual, teatro de conceitos. Um caminho perigoso, mas ao mesmo tempo promissor para se decifrar o gênio inventivo dos filósofos.


Porcelana e vulcão

O título desta crônica foi retirado de um dos capítulos da Lógica dos sentidos, de Gilles Deleuze. O filósofo francês era um tipo excessivo, como se pode ver nos vídeos da série Abecedário disponíveis no youtube. Tive a oportunidade de vê-lo uma vez pessoalmente em uma palestra na universidade de Strasbourg. Além da estatura intelectual, impressionou-me as unhas imensas que se enrolavam nos dedos do filósofo, como se ele fosse um personagem saído de um filme de terror.

Na letra “b” do Abecedário, Deleuze fala de sua relação com a bebida. Conta de bebeu compulsivamente e repete várias vezes que o álcool é muito perigoso. Afirma que a conduta aditiva em relação à bebida impede a criação, pois esta exige um continuum espaço-temporal que seria afetado pelo álcool. Estranhamente, reconhece mais adiante no vídeo que bêbado produziu conceitos filosóficos.

A relação dos filósofos com as drogas sempre foi dúbia. Alguns reconhecem que essas substâncias despertam o espírito e funcionam como portas de acesso a uma verdade. Ernest Junger lembrava que a frase in vino veritas não significa que a verdade esteja contida numa garrafa de vinho, mas sim que ela se encontra no sujeito que a bebe. Porém, a grande maioria dos filósofos acreditam que as drogas, por acabarem com a sobriedade e a lucidez, ameaçam destruir a própria razão. Mas convém lembrar aqui que a filosofia sempre resistiu ao poder das imagens e das formas e mais ainda ao poder da imaginação. Do mesmo modo que as substâncias narcóticas, a imaginação é frequentemente considerada pelos filósofos como mera fonte de divertimento e ilusão, como magistralmente mostrou Cynthia Fleury em seu livro Metafísica da imaginação.

Alguns pensadores, no entanto, utilizaram drogas como experimento filosófico. O jovem Freud, por exemplo, em um escrito intitulado Um pouco de cocaína para desligar a língua, descreveu entusiasmado os efeitos terapêuticos que nele o alcaloide produziu. O psicanalista consumiu a substância por 12 anos e escreveu outros textos sobre o assunto, especialmente o longo ensaio Über Coca. O interesse do psicanalista pelo assunto não deve ser visto como uma atitude isolada, mas ela fazia parte de todo o espírito de uma época de descoberta das técnicas de anestesia.

De fato, o século XIX foi a era das drogas as mais diversas. Nele surgiu um vasto arsenal de substâncias e técnicas anestesiantes para curar a neurastenia, doença que chamaríamos hoje de depressão: o éter, a cocaína, a hipnose, os choques elétricos e o próprio banho de mar. Naquela época, derivados de ópio eram dados em creches às crianças para que ficassem mais tranquilas, aguardando o retorno de suas mães operárias. E aqui está a chave de compreensão do uso intenso das drogas anestesiantes nesse período. A dependência de substâncias químicas, na verdade, é uma característica do capitalismo moderno. É que partir do final do século XIX e principalmente a partir da primeira guerra mundial, a própria realidade se tornou narcótica, como bem percebeu Walter Benjamin, outro filósofo a realizar experiências com o corpo.

Benjamin fez uso do haxixe deambulando pelas ruas de Marselha e escreveu sob os efeitos da droga em ensaio memorável em que destaca os sintomas emotivos e as alterações das sensações de espaço e tempo. Contudo, é preciso relacionar esse texto com a compreensão estética e política que Benjamin tinha da experiência moderna em termos sinestésicos, isto é, como uma experiência centrada no “choque”. Para Benjamin, o capitalismo avançado é o reino dos estímulos externos: técnicas de iluminação, projeção de imagens, transporte em massa, reprodução mecânica etc., tudo isso provoca uma “crise de percepção”, uma alteração traumatizante dos sentidos que apenas pode ser atenuada pelo uso de drogas.

As experiências de Freud e de Benjamin, longe de serem anedóticas, são reveladoras, portanto, de algo muito mais profundo do que a ideologia contemporânea da medicalização busca nos convencer. A falta de consciência da catástrofe que nos cerca parece ter efeitos muito mais nefastos do que aqueles provocado pelas drogas. Mas é preciso ficar claro, especialmente para os mais jovens, que o uso dessas substâncias, longe de ser libertador, pode não ser outra coisa senão uma estratégia alienante de convivência pacífica com o nosso próprio desespero.

Deleuze se suicidou no dia 06 de novembro de 1995, aos 70 anos, jogando-se da janela de seu apartamento em Paris. Ninguém jamais soube porque mantinha unhas tão grandes. Um de seus amigos, Michel Cressole, escreveu um artigo sobre o assunto dizendo que as unhas em Deleuze eram como os óculos escuros de Greta Garbo ou os corpetes de Marilyn Monroe. Indignado, Deleuze respondeu ao amigo que de todas as interpretações possíveis, ele havia escolhido a mais vulgar. Acrescentou que sofria de uma doença raríssima que havia destruído suas impressões digitais e tornava o contato direto dos dedos com os objetos bastante sensível. Nunca saberemos a verdade. Mesmo tendo parado de beber, Deleuze no fundo sabia que a existência inteira não passa de imaginação e fantasia.
 


A travessia das imagens

Tornou-se um lugar comum dizer que vivemos na era das imagens. De fato, as imagens estão em toda parte. Elas movimentam um gigantesco setor econômico formado pela indústria do entretenimento e a publicidade. As imagens são também aliadas importantes do poder e influenciam as ações políticas. São armas de guerra no mundo militar, arquivos que guardam a memória dos acontecimentos, meio de análise na área médica e objeto de um arsenal jurídico sem precedentes. 

Mas, por trás de tudo isso há uma boa dose de desconhecimento. Embora estejamos a viver na era das imagens, sabemos pouco sobre elas. E pior, não compreendemos aspectos básicos do funcionamento da linguagem visual. O que é finalmente uma imagem? Como as imagens são produzidas e a quem elas se destinam? Como e por quem elas são vistas, interpretadas e utilizadas?

Essas questões não deveriam interessar não apenas aos que lidam com arte ou comunicação visual, mas a todo mundo. Afinal, a predominância das imagens é o indício mesmo de que entramos em outra fase da história da humanidade. Em seu famoso texto sobre Paris, Walter Benjamin mostrou como a iluminação artificial, o uso de espelhos, a arquitetura em vidro e aço, o metrô, a moda e outras invenções e tecnologias alteraram os modos de sentir dos indivíduos no final do século XIX. Uma sensibilidade diferente teve ali início. O surgimento do cinema, por exemplo, criou entre os indivíduos uma percepção “distraída” da realidade.

Agora é a vez de se entender como a injunção de tantas imagens está a alterar nosso próprio modo de ser e de pensar. Sim, porque talvez pensar, refletir, não seja mais somente trabalhar com conceitos, algo que Deleuze já havia sugerido. Na verdade, o impacto das imagens visuais impõe a necessidade mesma de uma reapreciação das condições e das formas de conhecimento. Estamos preparados para isso? A recusa dos intelectuais em desenvolver uma inventividade visual não explicaria o declínio deles em nossa época? Seriam os educadores capazes de pensar visualmente e de transmitir tal habilidade a seus estudantes?

Pensar por imagens exige antes de tudo uma reabilitação da sensibilidade, entendida como aquilo que diz respeito aos nossos sentidos básicos. Afinal, a sensibilidade é o lugar de produção e recepção das imagens, como bem revelam os espelhos.

Faça a experiência. Olhe para sua imagem no espelho. A imagem refletida, embora esteja no espelho, não se confunde com este, ou seja, ela não é o próprio espelho. Contudo, ainda que a imagem projetada na superfície seja sua, você não é essa coisa que está no espelho. Em suma: a imagem é a “forma” da coisa refletida, uma forma que existe independente do sujeito que a percebe e independente do mundo dos objetos. Assustador, não?

Isso explica o fascínio pela imagem e toda intolerância que algumas religiões desenvolveram contra ela. Aliás, não só as religiões, a filosofia também. Em sua célebre alegoria da caverna, Platão diz não haver conhecimento sobre as imagens, mas somente imaginação e fantasia, pois se as coisas que estão no mundo sensível já são elas próprias cópias de modelos que se encontram no mundo inteligível, então as imagens que elas projetam não passam de cópias de cópias, reflexos de reflexos.

Curiosamente, ainda que elaborando uma noção tão profundamente negativa das imagens, Platão acabou por revelar a própria força que elas exercem sobre o pensamento e as ações dos seres humanos. As imagens seduzem, é claro, mas elas revelam também a constituição sensível do ser humano. Este necessita das imagens não apenas para fugir, iludir-se, alienar-se do mundo, mas também para se observar e se conhecer. Através das imagens nos tornamos seres “sensíveis”.

Os autores medievais já haviam notado que a imagem faz parte de um “terceiro” mundo, diferenciado tanto do mundo da subjetividade que vê a imagem, como do mundo do objeto em que a imagem se encontra. Esse “terceiro mundo” é fluxo, interface, trajeto. As imagens existem, portanto, em um espaço intermediário. Elas são coisas cintilantes que se “abrem” e se “fecham” alternativamente aos nossos sentidos. A imagem é pura astúcia. Entender isso requer um novo e enorme trabalho de imaginação.


Pensamento selvagem

Quando Platão disse que o homem não era outra coisa senão um bípede implume, Diógenes levou até ele uma galinha depenada e retrucou: “eis aqui o homem platônico”! Em outra ocasião, capturado e posto à venda como escravo, perguntou-lhe o leiloeiro sobre o que sabia fazer. “Sei dar ordens como ninguém”, disse Diógenes, logo em seguida ordenando ao leiloeiro que viessem procurá-lo apenas no caso de aparecer alguém interessado em comprar um senhor. Platão chamou Diógenes de “Sócrates louco”. Para mim ele é o exemplo mesmo de alguém que pratica um pensamento selvagem, pensamento que não serve, não porque seja inútil, mas pelo fato de que não ama servir e menos ainda ser servido.

O antropólogo francês Claude Levi-Strauss enterrou a visão eurocêntrica de que os povos sem escritas seriam menos racionais que os europeus. Em seu clássico livro sobre o pensamento selvagem, Levi-Strauss mostrou que havia método, ordem e sentido nas classificações que os povos indígenas faziam do mundo. Muitas décadas depois, o brasileiro Viveiros de Castro foi mais adiante e propôs que o pensamento selvagem não é um pensamento sobre os selvagens, mas é o próprio pensamento em estado selvagem, isto é, pensamento que se mantém indomesticado. Para além de todas as interessantes consequências da tese de Viveiros de Castro, principalmente a de que a filosofia não seria prerrogativa dos gregos e alemães, mas que ela estaria presente entre os nossos índios, muito aprecio a metáfora de um pensamento bruto, indócil, não domesticado. Um pensamento na selva, irremediavelmente ligado ao mundo sensível. 

No meu modo de ver, o pensamento filosófico não tem objeto específico, gênero único ou método próprio. Tudo se presta à reflexão: um conceito, uma obra, mas também uma canção, uma gota de orvalho, cartas de amor e até mesmo carreteis de linha. Da mesma maneira, o pensamento filosófico não tem uma forma específica. Ele pode fazer uso dos mais diferentes gêneros literários e estilos: poesia, ensaio, peça de teatro, romances, aforismos e, em casos extremos, como ocorre com os lógicos, empregar até mesmo as formulas matemáticas. Tampouco possui a filosofia um único método. Há muitas maneiras de se pensar. O que importa verdadeiramente é possuir uma paixão desenfreada pelo conhecimento, onde quer que ele esteja.

Pensamento selvagem é também o nome de uma flor tricolor, da família das violetas, que brota em muitos lugares da Europa, especialmente em terras não cultivadas e pastos abandonados. Gosto de saber que o pensamento selvagem é uma flor banal que aprecia terrenos indômitos. Emanuele Coccia, de quem eu retirei essa concepção de uma filosofia bruta, indócil e mergulhada no mundo sensível, acabou de publicar um livro maravilhoso sobre a vida das plantas, tema habitualmente negligenciado pelos filósofos da academia. A flor, mostra Caccio, é o apêndice que permite às plantas realizar o processo de captura e absorção do mundo. Graças às flores, a vida vegetal é uma explosão de cores, formas e odores. Função cósmica, portanto, em que o perfume desempenha um papel fundamental, visto que os agentes polinizadores voam em direção das flores guiados pelo cheiro. Apraz-me muito essa imagem do perfume se espalhando pelo ar e funcionando como força de atração. Certamente porque, animado pelo sopro, como os insetos, eu também só saiba pensar a partir do que sinto.
 


Na nuvem


Aprendi com meu orientador de mestrado que em filosofia, assim como na literatura e nas artes, é preciso saber repetir os mestres e ser uma espécie de ventríloquo dos nossos predecessores. Segundo Roberto Markenson, só muito depois de contemplar a paisagem sobre os ombros de um gigante é que podemos correr o risco de largar a via segura dos clássicos e iniciarmos a caminhada por veredas ignotas. No meu caso, isso aconteceu quando deixei momentaneamente de lado os grandes autores e passei a escolher os gêneros menores, as escritas marginais, a literatura trivial, enfim, a me interessar por assuntos banais, situados nas margens e dobras do establishmen acadêmico.

Byung-Chul Han é um desses autores que me fascinam. Embora seja cada vez mais conhecido mundo afora, e considerado até mesmo como o sucessor de Sloterdijk, Han ainda é pouco lido no Brasil. Nascido em Seul, Coreia do Sul, Han foi metalúrgico em seu país, até que se mudou para a Alemanha, onde se doutorou em filosofia, com uma tese sobre Heidegger, tornando-se em seguida professor universitário. A metalurgia, convém lembrar, forneceu aos homens os utensílios da vida cotidiana, sobretudo as armas. Nietzsche reivindicava uma filosofia feita a “golpes de martelo”. É o que o metalúrgico Han tenta fazer em sua forja, martelando alguns temas imprescindíveis à nossa era, especialmente o fenômeno da hipercomunicação digital. 

Para esse pensador germano-coreano, a revolução digital modificou significativamente a percepção, a sensação, o pensamento e a própria vida social, sem que ainda seja possível avaliar todas as consequências dessa transformação. Conquanto favoreça o estabelecimento de contatos com estranhos e elimine a distância entre as pessoas, a hipercumunicação digital acaba por anular a relação, a proximidade e a amizade. Afinal, nessa raivosa e ruidosa ágora contemporânea que são as redes sociais, tudo está excessivamente próximo, de maneira que não há mais distinção entre emissão e recepção. Trata-se de uma verdadeira Torre de Babel onde todos falam, mas finalmente ninguém se comunica, uma multidão de indivíduos isolados, estimulados por informações e impulsos os mais diversos, refugiados no mundo da imagem e manipulados em seus sentimentos e emoções.

A multidão é pensada por Byung-Chul Han de um modo diferente daquele proposto pela psicologia clássica, mas também da maneira indicada por autores contemporâneos como Michael Hardt e Antonio Negri. A multidão digital é uma nuvem densa, sem harmonia ou identidade coletiva. Ela é pós-urbana e pós-humana, agindo através de uma profusão caótica de dados: posts, comments, likes, tweets, feeds etc.

E de todas essas formas de expressão numéricas, o like é sem dúvida o mais interessante, não apenas por contas dos aspectos emocionais envolvidos, mas sobretudo pelo fato de que a “curtida” revela uma transformação importante no exercício do poder. No entender de Han, o like é a expressão de um poder que dispensa os meios repressivos tradicionais exatamente por não ser mais repressor, mas ao contrário, sedutor e cativante, contando com a submissão voluntária de todos, como já havia notado La Boétie em sua análise clássica do tema da servidão. Hoje, informações que antes só podiam ser obtidas com imensa dificuldade, apenas por meio da espionagem, são expostas nas redes sociais de forma voluntária, em troca de um like. Embora algumas redes sociais permitam o uso de emoticons no lugar da simples “curtida”, a expressão de completo desgosto em relação a um conteúdo não é autorizada, pois ela romperia com o princípio de uma sociedade positiva. 

Contrário à verborragia de muitos filósofos, Byung-Chul Han escreve livros curtos, breves mesmo, num estilo não muito denso, mas que exigem uma cultura filosófica de fundo. É discreto, apesar da notoriedade crescente. Segundo o jornal francês L’Express, é um notívago que trabalha até as primeiras horas da madrugada. Definitivamente ele não faz parte da multidão.


Composições espontâneas e outras improvisações

Eu sempre quis ter habilidades sobre-humanas, como a força descomunal ou a visão de raio X. Não para salvar o mundo ou mesmo para salvar os outros, mas antes para ser capaz de vencer a mim mesmo. Seja por desagravo à honra ou pelo simples desafio de poder me afrontar, bati-me em duelo comigo por diversas vezes. Apesar dos treinos e da extenuante preparação, perdi todos os combates. Pouco importaram as armas ou a gravidade da ofensa, o outro sempre ganhou, deixando-me por vezes seriamente ferido. Na última contenda, no entanto, após cinco minutos de duelo, morremos os dois, sem testemunhas nem atas, o que nos permitiu seguir vivendo apesar da extinção.

Consulto o telefone, são treze horas e vinte. Desde que cheguei ao hospital apenas duas pessoas vieram a ter comigo, a enfermeira que recolheu meu sangue e o jovem médico residente com seu curioso espirômetro. Aguardo o diagnóstico definitivo que virá apenas com a tomografia. Carlota avisou que voltará o mais rápido possível. Não fosse ela eu ainda estaria inerte, catatônico. Uma fraqueza súbita me fez sentir as pernas enfraquecerem. Em poucas horas perdi a sensação delas. Deitei-me e não consegui mais me levantar. Não ouvi a campainha tocar. Acordei com Carlota gritando aos meus ouvidos depois de tentar por muitas vezes inutilmente me despertar. "Adriano, porra, eu te amo, não faz isso comigo"! Não é para tanto, eu disse, percebendo de imediato que aquilo a deixaria enfurecida.

Carlota me conduziu ao hospital. No trajeto tentou me distrair. Conversamos sobre boxe e jazz. Escute só, disse-me ela enquanto dirigia, Mohamed Ali foi um verdadeiro mestre do jazz, como Dexter Gordon e Eric Dolphy. Ali tinha uma técnica enorme, porém brilhava no ringue muito mais por sua personalidade. Dançava, dava pequenos saltos, improvisava, justificando a escolha dos ingleses de darem ao boxe o nome de "sweet science". Hoje em dia o jazz e o boxe estão decadentes. À exemplo de outras coisas do mundo, quanto mais melhoram menos adeptos possuem, concluiu Carlota com um fingido sorriso.

Receio que seja minha culpa também, tal como no enfarte. Ontem, sem que Carlota soubesse, usei ketamina. Havia prometido não mais fazer isso. Fiquei no Workies até pouco antes das duas. Dancei freneticamente, rindo do mundo e de mim. Mohamed Ali não faria melhor. Já em casa, senti os primeiros sintomas. As pernas começaram a formigar. Agora elas estão completamente paralisadas. Disse-me o jovem médico que pode ser algo passageiro, por conta da ketamina, mas é igualmente possível que seja algo muito mais sério, como uma esclerose lateral amiotrófica.

Ao perceber que eu nada sabia do assunto, acrescentou: é a doença que acometeu o físico Stephen Hawking. Consulto novamente o telefone. É a mazela que matou Charles Mingus. Pithecanthropus Erectus, que ironia o músico ter morrido em uma cadeira de rodas. Certamente ele deve ter quebrado as três regras fundamentais: não se colocar diante da luz forte, menos ainda diante da luz solar; jamais se molhar; e nunca se alimentar após a meia-noite. Porém, Mingus e eu sabemos que as regras foram feitas para serem quebradas. Do contrário elas não fariam sentido. Aliás, é a desobediência a uma regra que revela a presença dela.

Carlota finalmente chegou, ofegante. Atravessou a cidade inteira para me ver. Antes de pegar a ponte comprou pastéis de nata fresquinhos. No corredor do hospital Carlota cruzou com o médico que lhe apresentou meu diagnóstico. Seu namorado, disse ele, sofre apenas de excesso de sonho. A ketamina é uma droga arriscada. Ele ficará na cadeira de rodas por alguns dias. Agora que os pés momentaneamente não respondem mais ao ímpeto do espírito, por que vocês não aprendem a dançar de outro modo, como aquele garoto que cego desde os 13 meses de idade, passou a perceber o espaço como um morcego, estalando a língua e emitindo flashes de som que refletem nas superfícies e voltam para ele.

Prefiro o boxe. Carlota também. Um saco suspenso, um putching-ball, uma corda para pular. Uppercuts, cruzados, ganchos. Ali venceu Sonny Liston com um golpe invisível. O boxe e o jazz têm as mesmas raízes. Ambos improvisam entre cordas e barras, sob a luz branca e esfumaçada. E se a chave para se entender um grande homem fosse apenas o medo, perguntou-me Carlota antes de sair para buscar um café. Sorri. Ignora a minha amada que o destino me colocou diante de um adversário durão, porém amador, cuja força de vontade é bem maior que a habilidade. Não tenho medo. Ele jamais será vencido, mas tampouco me derrotará em definitivo.


Arco-íris albino

Morando em um edifício do século XVII, de arquitetura rigorosa, durmo com dois querubins que me espreitam a noite inteira do alto de paredes enormes. Na verdade, são apenas duas cabeças de anjo, barrocas, incrustradas em formosos retábulos adornados com elementos vegetais. Não possuem aquele olhar teatral e alucinado que alguns anjos desse período costumam ter. São sossegados e tristes, envoltos que estão, creio, em pensamentos puramente seráficos.

Sempre entretive comércio com os anjos. Na infância, várias criaturas angélicas estiveram ao meu lado, mas quase todas se foram com o avançar da idade. Talvez por conta da frequência vibratória ou quem sabe pelo fato de que as crianças têm um suave cheiro de flor de laranja, os anjos com muita razão preferem a companhia delas. Por isso, antes de deitar, costumo colocar água de colônia no travesseiro e enunciar a oração que um deles me ensinou: Santo anjo do Senhor, meu eterno guardador...

Por vezes funciona. Em sonho, claro, outra noite veio ter comigo Aladiah. Pelo que revelou, foi designado a pajear meu lado físico. Um outro, chamado Vehuel, deveria se ocupar da parte emocional, mas é um tanto distraído. Jacob pelejou sozinho com um anjo para conseguir ser por ele abençoado, e venceu, algo que nunca entendi. Eu apenas converso com eles. Em Dublin estudei a obra de John Dee. Não posso me vangloriar de dominar o alfabeto enoquiano, mas sou capaz de entreter pequenas tertúlias celestiais.

Os anjos foram criaturas intermediárias no processo da Criação, não comparáveis ao Ser divino, é claro, mas também distantes dos seres humanos, principalmente pelo fato de possuírem uma subjetividade muito mais aguçada. Com o passar dos anos, a imaginação humana fez com que essas criaturas aladas, que no início dos tempos realizavam tarefas boas e más, se transformassem em seres unicamente bondosos, de beleza delicada, dotados de um halo divino, aquele anel de luz, frequentemente dourado ou amarelo, que circunda a cabeça. Os anjos que me visitam não têm halo. Se tivessem seria numa cor dourada, quase vermelho.

Dizem que os anjos não possuem sexo, mas isso não é verdade, pelo que me contaram. Em muitas pinturas, quando não há uma faixa cobrindo as partes íntimas dessas criaturas, dá para ver um pintinho de menino, nunca circuncisado. Outro dia, na Alemanha, roubaram o pênis de um anjo adulto e barrigudo que enfeitava o jazigo da família de Wolfgang Joop, o famoso estilista alemão. Mas tudo isso é pura liberdade artística. Os anjos não têm sexo pelo simples fato de que eles não possuem um corpo sensível, nem mesmo um coração onde possam esconder segredos. A substância angélica é transparente, sem secretas paixões nem desejos desconhecidos, por isso tão distante.

Por não possuírem um corpo sensível, os anjos podem assumir todas as formas. Eles podem andar, falar, ocupar um espaço etc. Só não podem beber ou comer, nem mesmo néctar ou ambrosia. Observados de longe, os anjos fingem comer, como se humanos fossem. Mas eles se alimentam apenas do invisível, de pequenas porções de ar condensado.

Anjos são corpos celestes de humidade, cujas roupas se confundem com as nuvens, como nos quadros dos mestres italianos da pintura. Do alto, contemplam um arco-íris branco, albino, conhecido pelo nome de Glória. Simulam uma vida e aguardam o dia em que lutarão de novo até o dia amanhecer.
 


Profissão de fé do soldadinho de chumbo

Não se pode atribuir a culpa apenas aos cientistas sociais pela incapacidade contemporânea de prever os acontecimentos. A física também aceitou a incerteza e abandonou o sonho de uma descrição determinista perfeita. A economia, então, nunca foi tão insegura, fazendo planar sobre as nossas cabeças um constante vento de incerteza. O direito, minha área de trabalho, também teve que se curvar diante da insegurança, assumindo a noção de risco e empregando a categoria de fato imprevisível como obstáculo aos efeitos de uma obrigação. Sim, é muito difícil viver em uma época tão insegura, que nos assusta diariamente com suas rupturas, viradas, bifurcações e momentos de redefinição.

A chegada de Donald Trump ao poder e sua posse no cargo no dia de ontem representa mais um desses sustos. Quem poderia prever há alguns anos que isso aconteceria? A imprensa europeia, sempre tão sóbria, amanheceu em novembro último chocada com a vitória de um personagem que parece ter saído de uma revista em quadrinhos da minha infância: Riquinho. Trump, um bililionário depravado sem qualquer experiência política, responsável pela bancarrota de vários de seus concorrentes empresariais, autor de inumeráveis declarações nacionalistas, xenófobas e misóginas, é hoje presidente da maior potencia econômica e militar do planeta.

A própria eleição de Trump foi vislumbrada como a instalação definitiva da “política da pós-verdade”, expressão que designa a cultura política em que os líderes abandonaram a exigência de adequação do discurso à realidade e conduziram o debate público para o campo das crenças e emoções. Claro, a política sempre foi feita com a manipulação das paixões. O que aparece como novidade, entretanto, é o uso das tecnologias mediáticas digitais, especialmente das redes sociais, com o fito de falsificar os fatos e banalizar mentiras com fins eleitorais, apelando para a credulidade dos eleitores. Uma vez obtida a vitória política, as falsas promessas são desfeitas e a coerência dos fatos reestabelecida, sem que isso cause qualquer escândalo, a não ser entre os adversários.

Fazendo uso da “pós-verdade, no dia seguinte ao referendum do Brexit, Nigel Farage, líder dos nacionalistas britânicos, assumiu seu completo “equívoco” ao formular durante a campanha a promessa de recuperar os supostos 450 milhões de euros enviados semanalmente pelos cidadãos do Reino Unido ao orçamento da União europeia. Foi assim também que Donald Trump pôde afirmar cinicamente que a certidão de nascimento de Barach Obama era falsa, desmentindo a informação logo em seguida sem escandalizar seus fiéis eleitores. Foi assim que no Brasil a presidente da República veio a ser afastada do cargo sem ter sido julgada culpada pelos crimes de responsabilidade que lhe foram imputados.

Sinceramente, até o momento não sei o que será pior para o mundo. Com efeito, se Trump cumprir suas promessas de campanha o mundo empiorará consideravelmente. O tratado sobre mudanças climáticas, por exemplo, irá para a lata do lixo, os imigrantes ilegais serão expulsos dos EUA e os americanos mais pobres perderão o sistema mínimo de proteção social esboçado por Barack Obama. A própria pax americana estará ameaçada. Se, ao contrário, Donald Trump não cumprir as suas promessas, o mundo talvez piorará ainda mais. O que farão seus eleitores decepcionados? Eles por acaso irão apostar em outros futuros candidatos? Ou eles simplesmente se convencerão do fracasso da democracia liberal?

No entender dos pesquisadores Roberto Stefan Foa e Yascha Mounk, da universidade de Harvard, está em curso no mundo um processo que pode ser chamado de “desconsolidação” da democracia, isto é, o fato de que cidadãos que antes consideravam a democracia como única forma legítima de governo estão cada vez mais abertos às alternativas autoritárias. Qual efeito terá a era Trump nesse processo? Na tentativa de reformar o sistema, Obama foi o plano A. A eleição e posse de Trump é o plano B. Qual será o plano C, se ele vier a fracassar? E se, ao contrário, Trump tiver êxito em seus projetos, quais serão as consequências? Tal como a fumaça do cigarro que desenha uma linha aleatória, turbulenta, não há previsão possível.


Em um texto intitulado Experiência e pobreza, Walter Benjamin escreveu que no mundo contemporâneo a capacidade de trocar experiências havia entrado em declínio. No passado, disse Benjamin, sabíamos o que era a experiência. Respeitávamos as pessoas mais velhas, aquelas que diziam palavras duráveis e contavam histórias dotadas de uma moralidade. Hoje, quem ainda é ajudado por um provérbio ou por uma parábola oportuna? Onde estão as pessoas que transmitiam máximas e conselhos? Onde foi parar tudo isso? No início da era Trump, o único vaticínio que me vem ao espírito é uma frase que meu pai costumava enunciar diante de uma dificuldade que lhe parecia enorme: estamos mesmo no mato sem cachorro! Mas como sempre sobrevivíamos, apesar de tudo, guardo a esperança e sigo procurando a saída do labirinto.