Os amigos passantes....

Outro dia escrevi sobre a amizade e os inúmeros tipos de amigos que construímos ao longo da vida. Agora, me pego a pensar sobre os amigos que passam, os efêmeros, que um dia conquistamos, convivemos, e os caminhos diversos, que nos distanciaram, e nos tornamos quase estranhos. Estranheza de vida essa que perdemos as pessoas de vista. O mais estranho de tudo é que, algumas dessas pessoas, mesmo que se percam de nós e nós delas, quando encontramos, parece que rua nenhuma andou. E que o tempo parou. Parou na amizade que um dia tivemos. Desconfio que nem é na amizade, que a amizade parou, mas num tempo. O tal tempo da duração, (do filósofo Bergson tão difícil de estudar!) que ficou ali, plasmado no instante que nenhuma máquina fotográfica ou selfie é capaz de captar. A luz da vida. Soberana. Pairando no ar das estrelas. Inalcançável!

Há alguns dias, perdemos Ronaldo Mendonça, médico ortopedista, companheiro da vida toda de Jacinta, pessoa mais que querida de todos que, num exemplo da efemeridade da vida, se despediu de todos assim, num instante, numa cena de aeroporto, onde o acaso trocou o destino da viagem.
Com a morte de Naldo, estou pensativa e filosofando sobre o tempo, as conquistas, e os silêncios. Tanta gente que um dia fomos mais próximas e depois nos perdemos. Não era amiga de Naldo. Mas o conheci lá na minha adolescência, nos namoros da Rua da Palmeira, amigo também de Zezito Soares e Roberto Lira. Por tabela Naldo virou meu amigo também. Anos mais tarde foi médico do meu filho Lucas, que tinha pés muito arqueados e Naldo o levou para um Congresso Nacional aqui em João Pessoa para consulta com o papa dos pés. E quantas vezes fui naquela Clínica na Beira Rio, com queixas e dores. Nos encontramos pela última vez na exposição do amigo dele de infância, Flávio Tavares, assim também como toda a Rua da Palmeira. Tanto que, nem consegui ver a exposição direito . Amigos que pouco vejo, que não frequento a casa, e que não sabem nada de mim. Ou pouco! Há poucos dias, também encontrei Jacinta no estacionamento do Mag Shopping, e trocamos figurinhas da vida. Jamais imaginaria que dali há pouco, Jacinta ficaria viúva, assim como eu. A vida segue, soberana, à nossa revelia.

Quando morre um amigo assim, ir ao velório, é uma questão de honra com o tempo! com a vida! Re-encontramos o vivido e o não vivido que, na nossa memória se fundem e pouco importa a verdade da vivência. A memória inventada também é verdade! Meu pai já dizia que adorava ir em velório, porque era a maior animação em rever as pessoas, e construir assim uma imagem da sua vida. Imagem essa que cada um constrói a sua.

Minha mãe, que está quase com 90 anos, vive a falar das pessoas que fizeram parte da sua vida e que ela não sabe por onde andam ; uma espécie de paisagem humana fora de foco, e todo dia ela lista, olha no infinito a procura de si mesma. E nem conto que muitas dessas pessoas já morreram! E deixo que a sua imaginação faça os cálculos e crie as histórias. Mas também fala daquelas longínquas, que um dia cruzaram sua vida, seu portão, seu trabalho, sua vizinhança, suas festas, seus parentescos. Já comecei esse re-contar das pessoas.

Pois fiquei a pensar naquela colega que não vejo há séculos; naquele vizinho que um dia espichei o olho para ele e sumiu no tempo; naquela vendedora de frutas que um dia fui freguesa; naquela ginecologista que ficava horas esperando pra ser atendida; nos inúmeros alunos/as que fizeram parte da minha sala de aula e onde, eu era que aprendia mais; nos namorados/amantes que um dia tive e por alguma razão sumiram na poeira do vento; das trabalhadoras domésticas da casa da minha mãe (pois as minhas foram tão poucas que ainda não esqueci!), que, povoavam a imaginação daquela sala ou terraço; das turmas de sair à noite, dos bares, das cachaças, literais ou não, que eram assíduas das sextas à noite e hoje nem vejo mais ninguém nas minhas minguadas noites de uma euforia ou outra, enfim....a vida é mesmo uma passagem. Passagem nossa e das pessoas que cruzamos ao longo dos anos. Não é à toa que Virginia Woolf escreve um ensaio sobre personagem – “Mr. Bennett e Mrs Brown”, ambientada num trem, onde constrói pessoas, momentos, descidas e subidas, tudo mesclado com a arte de criar ficção.
E não adianta ficar nostálgica com as perdas da convivência com esses amigos transeuntes. A vida é assim mesmo. Intangível, escorrega pelos dedos. Se esvai. Não temos controle algum. E se essas pessoas passaram, você também passou para elas e para tantos outros. Ladeira abaixo. Numa velocidade de trem bala. Irreversível! O tempo não para nem a vida espera. Por algum motivo, momento, você segue, o outro muda de direção, gosto, tempero, circunstâncias.

E de amigo em amigo, de presentes e de ausentes, a vida segue, vai nos levando como no samba de Zeca Pagodinho. E vamos vivê-la com os presentes. Com as lembranças , as saudades, e com esses personagens fugidios das nossas vidas que foram/são, os amigos passantes.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 10 de agosto de 2017


 


Goretti Zenaide - Uma estrela brilha...

Agora estou numa sinuca. Triste sinuca. A sinuca de escrever de você Goretti. Sim, pois um dia você me apresentou a alguém dizendo da sua admiração pelo meu texto. Fiquei toda prosa! A sua alegria e entusiasmo eram tão verdadeiros! Que eu quase acreditava! Você não tinha porque levantar minha bola assim de graça. Era verdade e não foi uma, nem duas vezes que manifestou sua admiração pelos meus escritos. E lá atrás. Desde que comecei a botar as unhinhas de fora...., digo os escritos. E sempre que eu homenageava alguém nos textos,você também se manifestava. Agora é chegada a hora da sua partida, e me vejo com essa missão triste, mas que sinto como uma estrela, que lanço a você nesse firmamento infinito de mistérios e saudades.

Não era sua amiga próxima Goretti, mas nos últimos anos, acho que desde os anos 90 que ficamos perto. Fosse através da arte, da política ou das festas. E pelos cantos da vida, estávamos sempre a nos encontrar, trocar abraços, notícias e aí soubemos do bem que sentíamos uma pela outra. E a alegria dos encontros sempre era espontânea. E nesse últimos tempos, tenho aprendido muito sobre amizade. Por entre as lonjuras tem sempre os meios e tantos outros lugares!

Estou triste com a partida tão violenta e urgente dessa jornalista que é uma unanimidade na cidade. O que dizer ainda? Mas afeto e saudades são coisas inesgotáveis. Li tantos textos lindos de sua despedida! Kubitscheck Pinheiro, Walter Galvão, Martinho Moreira Franco, Albiege Fernandes, Gonzaga Rodrigues, Vitória Lima, Francisco Gil Messias e tantos colegas e amigos que falaram da amizade, do amor, da honestidade, altruísmo, da simplicidade, da solidariedade, da seriedade, enfim todos os adjetivos e características de personalidade que buscamos ao longo da vida e que Goretti tinha. Fiquei muito impressionada com a repercussão da sua despedida. Tantas msgs de carinho e admiração! Tu devias de ver! Não que você não fosse digna de tudo isso, mas a gente nunca sabe ao certo quem somos até essa viagem final. Em vida, somos tão banais e corriqueiros, não é? E nós humanos respeitamos tanto quem é modesto! A soberba nos irrita. E aqueles mais discretos são sempre tão admirados. E é uma característica inata. Ninguém aprende a ser modesto. A vaidade é de nascença. Você era aquietada Goretti. Sabia do seu tamanho e da sua força! E a simplicidade é a coisa mais difícil, mais sofisticada e mais rica desse mundo. E você era simples! E todos te admiravam por isso. A palavra ética, foi o que mais li na sua despedida. Em tempos tão sombrios e corruptos, acho que é um tesouro ser assim. E com a mesma simplicidade, você se foi. Corajosa, percebi. Pois ninguém enfrenta um diagnóstico desses impunemente. Foi um choque perdê-la assim, abrupta e sorrateiramente, numa luta des-igual para essa doença triste e capciosa que é o câncer, inda mais de pulmão. Silencioso e que dispensa os cigarros. Quando chega, já vem com sombras e perdas avassaladores. E dores. Muitas. Mas você teve os sopros dos anjos. De se ir dormindo. Justo. Demasiado justo, você se despedir sonhando.

Na sua despedida, fiquei a pensar. Seu corpo inerte , ficou na mesma sala que Juca, meu companheiro, também vitimado da mesma doença, e da mesma violenta partida. Re-vivi muito daqueles dias Há quatro anos atrás. E que ironia Goretti!, pois você sempre me abraçava quando nos encontrávamos pelas festas da vida, ou simplesmente nas galerias do Shopping Manaíra sextas à tarde. Sempre na companhia da sua amiga inseparável Roberta Aquino. Perguntava como eu estava, como que me perguntasse: “como é possível estar diante de uma tragédia dessas?”. Agora foi a sua tragédia Goretti. Sim! Não consigo ser tão espiritualizada para achar que Deus te chamou e que vamos nos encontrar. Sou terrena e cética por demais. Desculpa. Agora, você e Juca se encontraram nas cinzas. Muito para a minha pobre compreensão cética. Mas consigo olhar para as estrelas, sim. E rezo. E agradeço à vida.

Conheci-a já quando eras jornalista renomada. Admiradora das minhas crônicas , estavas sempre a publicá-las no seu espaço do Jornal. Depois, quando um suplemento dominical – Caderno de Mulher, fazia questão de me incluir. Dia Internacional da mulher era obrigação minha lhe entregar um texto. E eu ficava muito feliz de participar da sua coluna tão lida e prestigiada. A última vez, me ligou, e queria uma entrevista rápida para A União. Eu ainda pedi: “não dá para eu enviar depois? Pensar um tantinho?” E você: “Não! Quero agora, de sopapo, com todo o seu improviso.” Então tá! Não tinha um aniversário, livro, viagem, brinde, que você não estampasse meu rosto na sua coluna. E eu ficava a ouvir dos amigos que eu era socialite! A última foi na coluna pós sua partida, feita por Albiege Fernandes – sua amiga e chefe, que numa reverência póstumo, fez uma coluna com amigos, afetos, e sorrisos amorosos. A minha foto foi com Claude, minha irmã, em Buenos Aires, junto ao símbolo maior da cidade, a Floraris Generica, quem sabe lhe oferecendo simbolicamente essa flor gigante e reluzente, do tamanho da tristeza que ficamos todos desta cidade.

Suas festas? Fui à muitas! 1968 e qualquer outro ano era motivo. Fazia um reboliço! Como eras vizinha dos meus tios Celso e Carmen Peixoto, no Miramar, estava também sempre a te deixar convites, pautas, escritos, e agradecimentos na tua porta. Mas a última vez, já foi no Bessa, justo em frente ao Caribessa, quando os meus Brincos...e Tardes...foram te visitar.

Pensando no tempo e na sua talvez recuperação, inadvertidamente, ainda te enviei msg de solidariedade, suplicando uma visita, aflita com seu estado, mas também respeitando o momento de choque, incredulidade que deverias estar vivendo com os seus. Mal sabia eu que, não teria visita nenhuma. Conversa nenhuma. Abraço nenhum.

Mas, naquela sala tão triste, me despedi de você. Te agradeci por tudo. Te desejei boa viagem e que a vida e o amor cuide bem dos seus filhos crescidos e amorosos. E da sua neta que não poupavas fotos e fofuras. Sala cheia. Choros muitos. Tristezas. E comoção. De tantas coisas que você deixou. E o seu silêncio. Respeitamos, claro!

Que as estrelas te acolham!

Saudades!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 2 de agosto, 2017
 


Flavio Tavares & A Linha do Sonho

Conheci Flávio Tavares adolescente, e começamos a namorar quando eu tinha 15 anos, já no primeiro olhar, e nos casamos, eu com 19 e ele com 23. Duas crianças. Ficava encantada ao vê-lo pintar. Surgir as cores, formas, vida. Durante 10 anos, acompanhei essa experiência sensorial/gestual /orgânica de outra pessoa, mas que eu, ainda em formação da minha própria identidade intelectual, absorvia as coisas da imaginação, tinha espasmos de felicidade ao ver uma tela surgir, e sofria ao vê-lo criar, ou não criar, mergulhar no seu trabalho. Ele, muito jovem e com muitas inquietações sobre o desenho, a pintura, sua identidade, suas crises de criação, tão normais a quem vive nessa e dessa vertigem. Até hoje sou plugada nesse processo seja de qual arte for.

E nessa vida de artista plástico, tudo acontece na mente de quem se mistura às tintas. Flávio era inundado pelas musas, flores, ramas, pela história familiar (sua mãe, pai e irmãos, sua avó), pelas suas mulheres imaginárias/e/ou reais/, pela fauna e flora brasileira/nordestina, pela Literatura (tantos tantos nomes como José Lins, Augusto dos Anjos e Ariano Suassuna , só para citar alguns), e claro tinha também as sombras, o inferno, o sofrimento, o lado sombrio da vida, as amarguras, os demônios todos (e quem sabe os dele principalmente!), e violências tantas (até porque vivíamos os tempos de Ditadura na década de 70). Confesso que essas figuras “feias” e assombrosas me incomodavam. Ainda não tinha a percepção de sentir a magnitude da “feiura” como conceito estético. Muito mais me encantavam os azuis, os pássaros, as casas simbólicas, os espaços imaginários e vertiginosos. O tempo! Mas, somos feito da matéria ambígua e paradoxal, e temos a luz e sombra dentro de nós todos. Feliz do artista que consegue combinar esse percurso, dando vazão à sua imaginação e expurgando ou não seus demônios e seus anjos.

No último mês de maio, Flavio fez uma exposição monumental na Usina Cultural Energisa, cujo título foi – A linha do sonho, e teve como homenageado, seu querido amigo e tutor artístico, Hermano José. A exposição foi apresentada pelo Ministério da Cultura, e teve a curadoria do também artista plástico, Dyógenes Chaves. Com fotografias do seu fiel expert e fotógrafo que dispensa adjetivos, Antonio David, e texto primoroso de apresentação do artista Raul Córdula – “Pintar é congelar a labareda”.

Nesse trabalho ele experimenta uma nova forma de pintar. Tomando conhecimento e gosto pela caneta-pincel, cria um traço único ininterrupto. Como se a linha, o bico, o contorno não pudessem parar. A pressa da tecnologia o invade nesses desenhos de uma sentada só. Não, não é um conto (como dizia Cortazar!), é um ponto! Um ponto de onde tudo começa. E a partir desse lugar, pássaros, pavões emplumados, onças à espreita, touros Almodovarianos, peixes, serpentes, bichos de todos os monstros, suavidades plenas, mulheres douradas, em fundo branco, preto, e muitos vermelhos, e claro, as danças das sereias, e os mergulhos profundos – na água, no vento, no ar. Mergulhar nas profundezas do ser profundo de cada um. Flávio mergulha! Nas cavalgadas do fio da navalha. Fio único da mulher sozinha. Do des-equilíbrio. Dos limites tênues entre um lado e outro. Entre um pássaro e outro. Entre um mergulho e outro. Que êxtase! De quem admira e contempla!
O dia da exposição foi uma festa. Das artes plásticas. Mas não só. Lá estava uma cidade inteira. Profissionais das Artes, jornalistas, autoridades, socialites, Uma geração já meio nostálgica– da Rua da Palmeira (onde Flávio viveu a vida familiar com seus pais e irmãos), até os dias de hoje, quando jovens aprendizes o visitam em aulas vivenciais no seu ateliê-casa, no Altiplano. Sim! Amigos da vida toda também se cruzavam na noite. Gente do Liceu, dos cine-clubes, das Lourdinas, da minha adolescência também, dos cinemas, da Lagoa, enfim, um encontro com a memória de várias vidas de cada um e de todos nós. A festa de Flávio não é só na pintura, mas nas amizades, no afeto maior que une pessoas que se amam vida afora.

Hoje Flávio transita com maestria, unanimidade e muitas certezas do seu traço, seu gesto imperioso, por entre técnicas do óleo, desenho, guache, crayons, e mais recentemente com a tecnologia das cores cítricas e ininterruptas. Quando folheio seus livros/coletânea dos quadros, fico assustada como que pintou tanto ao longo das suas mais de seis décadas de vida. Uma vida na prancheta! Lambuzado dos vermelhos magenta e das terebentinas. Desde menino rascunhando, herdado do seu pai Dr. Arnaldo, o gosto pelo bico de pena, Flávio é uma imensidão de obras que se confundem com ele mesmo, com a cidade, e com cada um de nós que, acompanhamos seu trabalho há tantos tempos. Eu particularmente, sempre me emociono quando vejo seus traços e cores, e mesmo depois de tantos anos, e tantos caminhos cruzados, contemplo sua arte com uma intimidade que só poderia ter raízes no tempo e no amor.


E fico aqui com meus botões, a pensar nesses azuis, as cores mais quentes; nos vermelhos, fraternos e apaixonantes; e nos brancos e dourados – e em como suaves são as noites!


Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 31 de maio, 2017
 


Amigos: Tantos & Tão Poucos

Por esses dias foi dia do amigo. Muitas mensagens. Flores. Trocas de carinhos explícitos. Em tempos digitais e fazendo parte de alguns poucos grupos, claro que choveu rosinhas e beijinhos de afagos pela amizade.

Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, já dizia a canção/poema. E a neurolinguística se esforça para explicar a empatia que sentimos por alguém que queremos para amigo.

Quando criança fazemos alianças no colégio, na vizinhança, numa aula qualquer, na rua, etc. Lembro tanto das amigas de infância. Por vezes arengava com uma, fuxicava da outra, tinha inveja do corpo daquela lá, botava olho pidão para o cabelo da outra...(cabelo- o meu desejo de Dalila, sempre!). E claro, quando da infância, a gente vive grudada nas amigas. Parece que nem existimos sem elas. Mas tinha também os amigos. Aqueles que queríamos só para amigos (confidências, companhias, trocas com o masculino, interesses no amigo do amigo...), e tinha aquele amigo, que tínhamos outras intenções escusas...

Gracias à internet, recuperei as amigas de infância, as das Lourdinas, as do estrangeiro, as de tempos longínquos, as não tão amigas assim, enfim, uma vida passada pelo facebook! E até aqueles que nos surpreendemos e exclamamos: Como fui ser amigo dele/a?

Com o tempo passando, e mais ainda quando casamos, na nossa sociedade, as mulheres se afastam dos amigos e das amigas também. O marido, pretenso todo-poderoso substituinte de toda e qualquer forma de amor. Exclusividade. E a gente se sente única, rodeada dos amores, e nem sabe da armadilha que aquela exclusividade significa. Continua assim. Observo o mundo ao meu redor. Precisamos sim, de amigos todos para toda a nossa vida individual e particular seguir. Sem isso somos incompletos e logo logo o que era amor e paixão se transforma em posse, isolamento e vulnerabilidade.

Se por algum motivo as mulheres se separam dos maridos, a constatação de que se está só no mundo é grandiosa, se não tivermos mantido os amigos. E os amigos do casal, sempre tem que tomar partido. No meu caso particular, o partido nunca foi o meu. E me vi sozinha e sem identidade social. Difícil. Aos poucos cabe a nós nos jogarmos na vida. E construir novas amizades. Mas também tem aquelas pessoas que só existem em turma. O casal não tem assunto sozinhos. Tem que sair, viajar, comer, beber, amar com um punhado de gente por perto. Sempre fui avesso à turma. Gosto dos avulsos! Dos encontros extemporâneos. Mas também gosto dos convites. Do assédio com moderação....

Quando os anos passam, tão difícil fazer novos amigos! Dá preguiça de expor a vida, de ter curiosidade pelo novo, aceitar as limitações de ambas as partes, ter disponibilidade (todos já tem suas famílias, netos, prioridades, etc). Fazer amigos, e principalmente mantê-los, exige tempo e dedicação. E compaixão. Amigo para o papo; para trocar sabedorias ou futilidades; amigo para sair e tomar uns chopes; para ir à praia; para comer, viajar (ih! esse item é difícil!); amigo para frequentar a casa; para chamar tarde da noite quando se está angustiada; amigo para confidências – e não ouvir o que não se quer!, amigo para expor nossas fragilidades (esse é perigoso, a natureza humana é cruel!). E aqueles amigos que estão distantes no tempo e no espaço, mas quando encontramos, o abraço fraterno é sincero, cheio das saudades, e das alegrias com o encontro.

E numa cidade como João Pessoa, que já foi pequena, e continua provinciana, somos conhecidos de muita gente. Tenho uma amiga que mora fora do país que sempre diz: “Não gosto de conhecidos! Gosto dos amigos!”. Nas cidades mais cosmopolitas, amigos são raros e se tem o hábito de convidar para vir na casa – almoçar, jantar, conversar. Geralmente escuto das pessoas de outros Estados, que vem morar aqui que, é difícil fazer amizade em João Pessoa. E é! As pessoas são fechadas nos seus umbigos e familiares. Verdade.

Mas amigos, contamos nos dedos. Agora com o facebook e outras fontes de amizades virtuais, os amigos são muitos, mas não existem. Por vezes encontro na rua com alguém que estou sempre a curtir a comentar pelas redes, mas no fundo é um estranho. O que dizer pessoalmente? Não somos íntimos. Mas no face criamos a falsa impressão de que somos amigos. Que susto! Ainda estou tateando nessas novas emoções que nem música de Roberto Carlos entende.
E quando se fica viúva, o mergulho nas amizades tem que ser de um trampolim ainda mais alto. Resgatar amizades antigas. Abstrair-se das exigências. Maior aceitação com as pessoas que aparecem, convidam. E aí entra o amadurecimento. Sabemos melhor aproveitar o momento, o ser humano, e a circunstância. Ideal? Nunca teremos, mas vai-se navegando por mares nunca dantes navegado. A solidão. O tempo. As escolhas. A manutenção das amizades de infância, a abertura para outras, e a satisfação também de conferir a sua própria companhia de sempre. O saber estar sozinho. A convivência com seus fantasmas, sonhos, e o tempo todo nosso, para os devaneios inclusive.

Os amigos se transformam. Nós também. Por vezes vamos por estradas excludentes. Por outras nem tanto. Sim! Podemos ser amigos de alguém diferente, com vidas distantes. O afeto se sobrepõe à tanta coisa! Tem amigos que nem precisamos falar. Já conhece a nossa voz – o timbre, as falhas, a musicalidade. Já tem outros que são mais ácidos. Estão sempre com uma pitada de amargura. Respiramos fundo. Aqueles um poço de lealdade – agradecemos! E aqueles que nos surpreendem, esses nos fazem acreditar na amizade.

E tem aqueles amigos que, se transformaram em amantes. Sim, um belo dia olhamos aquele amigo e sentimos algo maior. E um calafrio escorre pelo corpo. Como pode? aquele de tanta intimidade de amigo, agora dar um beijo na boca? Sim, amigos tem dessas coisas. O limiar é tênue. E por vezes ultrapassamos a fronteira. É bom. É estranho. É humano. Demasiado. E com aquele amigo, temos um segredo. O segredo de que fomos além. O amor maior, tudo misturado. Difícil mantê-lo como amigo? Depende do amigo, da paixão bem resolvida, e de que forma vivenciamos esses abismos afetivos. Tudo vale à pena! E as almas? Se transformam. Pequenas, grandes, tudo tudinho. Salve os amigos apaixonantes!

Nesse dia do amigo, fiquei a pensar sobre amizade. Os amigos que fiz ao longo da vida. O que sou para os amigos – tão poucos! Mas queridos! E a me perguntar do meu talento para a amizade. Sim, é um talento aqueles que fazem amigos. Coisa rara! E cara!

Hoje eu brindo aos amigos. Daqui e de alhures! De ontem e de hoje! Os próximos e os que vejo tão pouco e queria mais. E aqueles que surgiram assim do nada, e já viraram amigos de infância. E aquele amigo especial, de tanto tanto tempo, mas que nunca tinha tido a chance de lhe dizer isso pessoalmente.

Tin Tin!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 23 julho 2017
 


Buenos Aires, Mira!

Para Claude, minha irmã querida e companheira de viaje!!!

Foi sem querer, e quando vimos (minha irmã Claude e eu) estávamos no voo de inauguração da Gol – João Pessoa – Buenos Aires, abrindo assim um canal de comunicação do turismo entre as duas cidades. Palmas para o Governo do Estado e a PBTur, na pessoa exultante de Ruth Avelino. Pois lá fomos nós voar inaugurando os céus. E claro, um luxo! Para quem há décadas pega voos em Recife e Natal, e fica horas em conexão, voar para o extremo sul e voo direto, foi no mínimo uma experiência rápida.

Não gosto de Alfajors, nem de Parrilada, ou Choripan só comi de leve....,mas não foi por isso que demorei a conhecer Buenos Aires. A primeira vez foi somente há dois anos. E a gente nunca esquece. E fiquei com vontade de voltar. E na estreia, ficamos restritos aos pontos mais turísticos. Julho? Sim, certos passeios exigem um clima frio, para rimar com Malbec! Casacos! E o vento cortante na face. De calor já basta o nosso de cada dia.
Pois assim tivemos. Frio de 11 a 14 graus e dias absurdamente ensolarados, para depois mais alguns com chuva, mas guarda chuva existe para isso. Abri-los! E a moça exclamava: “Para Água! Mais barato que uma gripe!”

Desta vez nada de Caminito, nem Teatro Colon. Mas sempre um rabo de olho nas belas avenidas 9 de julho, Alvear, Libertador, Santa Fé.

Feira de San Telmo aos domingos – imperdível! Uma rua quase minha! Cheia de brechós, antiquários, artesania local, souvernirs, moda exclusiva, inclusiva, couros, alfajors, e claro, músicos de qualidade a tocar e dançar tango . Eu queria ficar parada ali o dia todo, só ouvindo Aranjuez Mon Amour, Recuerdos de la Alhambra (F. Tarrega), e comendo empanadas caseiras, apimentadas, e visitando lugares charmosos para um chope com essas iguarias. Perdi a Feira de Mataderos, que também só acontece aos domingos.

Ricoleta – melhor lugar para ficar. Bairro charmoso, e mais calmo diante do frenesi do Centro. Sem falar que salpicado de parques, lojas, comércio, cafés, restaurantes, e o Alvear Palace Hotel – a gente se transforma em princesa para um brunch das deusas. Pães, frios, espinafre a la creme! Iogurtes com Frutas do Bosco!! Tudo para comer gemendo. Vale a aventura. Mas se fores uma princesa modesta o Le Pain Cotidien também nos leva aos céus com seus produtos orgânicos.

Museu Malba – Arte da América Latina de Buenos Aires! muita alegria de ver ao vivo o Abaporu, de Tarsila do Amaral, e contemplar a tela que despertou o Movimento Antropofágico, como também obras dos brasileiros Helio Oiticica, Antonio Dias, Di Cavalcanti e Portinari. Sem falar nos mexicanos Frida, Rivera e Orozco. No restaurante /café do Museu vale o almoço! Entre as caminhadas pelos parques da cidade uma entrada rápida no Museu de Belas Artes, e apreciar as bailarinas de Degas e tantos outros pintores mais conhecidos, ou não. Pelo título, também fomos visitar a Manzana de las Luces, que só o nome poético me invadiu com ares de naftalina. Tantos biscuits, cristaleiras, vidros, potes e louças e bordados. Um equipamento de cultura, lazer e arte, perto da Casa Rosada.

Parques – O melhor para os dias frios ensolarados – Parque das Nações e verde que te quero verde! Ficar namorando a Floraris Generica, uma escultura gigante em forma de rosa, do arquiteto argentino Eduardo Catalana e símbolo de Buenos Aires. Uma obra imponente e que nos causa impacto. Toda a singeleza de uma rosa, com todo o seu simbolismo de paixão, fugacidade, perfeição está ali em prateado, reluzindo majestosamente, e que se abre de dia à luz do sol e se fecha pra dormir quando a noite cai, mais poético impossível! Reserve tempo, pois o melhor de todo parque é ouvir o silêncio e contemplar. Depois ainda tem a Praça Francia, o Rosedal e o Jardim Japonês, prepare os olhos, os sentidos, e as pernas. Caminhar é preciso!

Tangos – Buenos Aires respira tango! Seja nas feiras ou simplesmente aos nossos ouvidos, mas tem que se ir a um Tango em Buenos Aires. Da primeira vez fui ver o espetáculo do Café Tortoni. Turístico sim! Mas sem tantas plumas como os mais tradicionais. Mais despojado, mas nem por isso menos exuberante. Dessa vez fui conhecer um Centro de Cultura – Torquato Tasso (San Telmo), e ouvir Negro Falótico, com seu grupo de músicos extraordinário, incluindo uma japonesa e seu bandoneon. E cito sua nacionalidade porque nada mais exótico que essas duas nacionalidades. A leveza do oriente e aquele movimento de sangrar os sentidos que tem esse instrumento de Astor. Piazzola, meu querido! Quantas saudades! Claro que, ao ouvir aquela voz de veludo e toda a tragicidade que o gênero pede, tive o meu entrelaçado de pernas no juízo, pois como não lembrar de Carlos Saura e o seu Tango particular. Obrigada ao casal Elaine e Luiz, cariocas e moradores de João Pessoa, e habitués das terras portenhas, que gentilmente nos acompanharam à contradança.

Palermo Soho – Viva passear!. Praçinha Julio Cortázar, lojas lindas, avenida Borges Luis Borges, e um pouco de literatura nas sacolas. Mas a Calle Florida, ainda é uma aventura. A Galeria Pacífico (ares de Milão!), as lojas de departamento Fallabella, para alguns sonhos consumistas. Pero, não gosto de outlets nem tão pouco das correrias às compras, e quando temos pouco tempo, a prioridade é sempre a rua, o povo, os queridos anônimos (de Rodolfo Athayde).

Porto Madero – Averiguar a revitalização dessa área uma vez decadente, mas hoje uma avenida de restaurantes tantos; imponente , lá está a Puente de La Mujer. Pedi truta da Patagônica com legumes assados! No Cumaná, também fomos para provar o arroz de campo indicado por minha colega Danielle Almeida. Mas aí já é outra história!

A livraria El Ateneu repeti a visita. Não consigo ler em espanhol, coisas de quem já fala uma língua e tem bloqueio para outra. Mas só estar ali no meio de tanta beleza e livros já é um mergulho na arte da escrita. E por entre os 8 mil Cafés que existe na cidade o Tortoni não poderia faltar, para os famosos churros. E desse aroma inconfundível, voltei até tonta.

Outro passeio imperdível é passar o dia em Colonia Del Sacramento, na margem uruguaia do Rio da Prata. Muitos seguem viagem até Montevidéu. Mas nós fizemos bate e volta no Buquebus – Balsa. Lugar de traineirinhas e escunas, mas o que enche a vista de beleza é o centrinho histórico com um passeio à beira do rio murado, voltado par o poente, o Paseo San Gabriel. Pouco resta da arquitetura original portuguesa, mas o traçado e o calçamento e a Calle de lós Suspiros é de suspirar, literalmente. O Quadrado, ou a Plaza Mayor é de sentar a beira do caminho e ficar sentindo o perfume das laranjeiras em fruta. Nesse dia, o clima mudou para nublado e ventava. A atmosfera era de - O morro dos ventos uivantes, mas nem por isso menos encantador. Enchia a vista a vastidão daquele rio caudaloso e infinito, com suas árvores esquisitas e exóticas na beirada. Tinha até um farol gentil, para me lembrar de Virginia Woolf e de Praia Formosa. Pensei comigo mesma: estou no extremo sul do mundo!

Mas o roteiro melhor da viagem foram realmente os parques, as ruas, os cafés, e o espaço urbano ocupado e desfrutado com calma e segurança. Nós que hoje vivemos aprisionadas e sem poder dar um passo a pé, ficamos embevecidas de circular e de ver a cidade sendo compartilhada pelos seus moradores. Os idosos vivem! Festejam, vão a restaurantes, bares, sítios; bebem vinho, conversam, comem, visitam, e são desfrutes da própria existência. Percebo que aqui, os idosos vivem em casa, arrastando chinelos e sem vida própria. Sei que tem o fator econômico, o climático (calor demais), mas percebo a cultura da rua pujante em cada palmo que andamos em terras portenhas. Domingo à noite e as pessoas ocupando os bancos das praças e dos restaurantes. Eu própria, nessa hora da semana, já me recolho à minha insignificância da preguiça e já não gosto de sair. Fiquei pensativa a respeito.

Voltamos abastecidas de cultura, contemplação, vinhos, frio, doce de leite, e tangos. Da próxima vez, o Tigre não me escapa. Nem as Províncias. Nem as Milongas, que agora, escaparam propositadamente às minhas mãos.

Agradeço às amigas: Danielle Almeida, Elinês Albuquerque, Elaine e Luiz, Genilda Azeredo pelas dicas de viagem preciosas. Muchas Gracias!

Ana Adelaide Peixoto – 10 de julho, 2017
 


A Finitude & A Medicina Paliativa

A morte é um acontecimento existencial!
(Café Filosófico, de 25/06/2017)

Finitude! Essa é uma palavra que minha mãe tem usado muito nos últimos tempos. Com 89 anos, e se sentindo indisposta muitos dias, o médico do alto do seu poder maior, lhe disse: “A senhora não tem nada. É a finitude!” E ela, bem contrariada com esse diagnóstico devastador, desde então, não parou mais de falar desse mantra.

Venho em contato com a morte desde a despedida do meu pai há mais de duas décadas. De lá para cá, muitas perdas de tios, primos, amigos queridos. No caso do meu pai, lidei muito mal. Tinha 39 anos e a minha crise dos 40 se deu não pelas rugas ou idade, mas pelas perdas e danos. Entrei em pânico e não admitia o sofrimento do meu pai. Foi um calvário assisti-lo tão impotente. E minha fragilidade era tanta que, anos mais tarde, quando chegou a vez de Juca, meu amado companheiro, os familiares e amigos próximos, acharam que eu não resistiria à tamanha dor. Mas a vida é um poço de surpresas inusitadas. E o ser humano uma incógnita. E eu, virava pedra, virava molusco, sem nem conhecer direito a poesia de Frances Ponge. E enfrentei tudo e mais um pouco, com uma calma toda minha. Até eu, não me reconhecia naquele estado de/ e em choque. Já sabia daquele caminho irreversível da perda, e as circunstâncias, sem saída. Foquei no agora e no amor. Mas não foi algo consciente. Foi uma sobrevivência; um mar que transbordava em dor e silêncio.

Depois dessas duas experiências devastadoras de despedidas, passei a me interessar muito pelo tema da morte. Não por morbidez. Mas por interesse filosófico, se é que podemos chamar assim. Logo depois da morte do meu pai, a Revista Veja estampou uma matéria sobre Morte Digna, e fiquei muito triste de constatar o quão longe estávamos daquele direito. E pensei de como não temos profissionais para nos propiciar aquele direito e conforto que a matéria propunha.

Com Juca, como estava no hospital Sirio Libanes – SP, pude constatar essa trajetória de conforto hospitalar, médico, psicológico, enfim, tudo que alguém merece e deveria ter no seu momento de finitude; de limite, aceitação e resignação. Claro que, isso apazigua quem está doente, e seus familiares.
E foi lá, nesse hospital de excelência que tive contato com o nome Medicina Paliativa. Depois, através da Dra. Anelise Carvalho Pulschen, com quem troquei algumas conversas interessantes.

No último domingo (25/06) no programa Café Filosófico , TV Cultura, dando prosseguimento à série: "Finitude e o desejo da infinitude"!
a palestrante foi a geriatra, Doutora em Bioética pela Universidade do Porto, Claudia Burlá. Fui tomada de ternura e curiosidade sobre essa área da medicina tão fundamental e tão distante de nós.. Medicina Paliativa x Cuidados Paliativos. Tudo explicadinho. De como enfrentarmos doenças crônicas com os devidos cuidados de proteção ao doente para minimizar dores, fadigas, e tantas fontes de sofrimento. E quando não há mais nada a fazer, aí é que temos o que fazer, disse a médica. Ou seja, alivio para o enfermo, seja com morfina, remédios, e cuidados com uma rede interdisciplinar de profissionais da área da saúde, para estar perto, cuidar, e fazer da finitude e morte, um momento quieto, calmo, íntimo e transcendente.

A Dra. Cláudia falou de mortes abruptas (acidentes, infartos, etc); doenças de câncer (diagnósticos e sobrevidas); doenças degenerativas crônicas (Alzheimer e outras demências) e de como lidar com cada uma das situações. Porque, explicava ela, quando temos um foco só na doença, algo está errado. O doente deve ser o foco. E quando temos um doente com doenças crônicas e de longa duração, como no caso do Alzheimer, toda a família adoece junto. Daí a importância de acionar aqueles profissionais que sabem lidar com a falta de comunicação do doente, a chamada caduquices, as dores, as fadigas, e outros sintomas difíceis para minimizar o sofrimentos do doente e de quem cuida.

Lembrei muito do trabalho da minha amiga Marta Pessoa e o Site Mundo Prateado, que há tempos se dedica e pensar sobre a velhice assistida. E foi a partir da assistência à distância a um ente querido e brilhante em tudo que faz desde os tempos das Lourdinas que, Marta começou a questionar tudo e todos que de alguma forma estivessem ligados à velhice e suas circunstâncias de saúde ou não.

Na semana passada, tive o privilégio de assistir o curador desse Café Filosófico, Alexandre Kalache, estreando com o episódio “Finitude e a revolução da longevidade”. Kalache falou da velhice, e de como ele, mineiro, e de uma família enorme, conviveu a vida toda com os velhos da família e, de como essa convivência tinha sido determinante para sua vida e olhar, e lhe transformado em alguém mais compadecido e atento para o tema.

Hoje , com a expectativa de vida mais longeva de nós todos, cheguei numa fase de que eu e todos os amigos, lidamos de uma forma ou de outra com a finitude dos pais, ou familiares. Os assuntos em mesa de bar não fogem ao tema: mamãe fez isso, a cuidadora fez aquilo, como lidar com esse ponto ou aquele outro. Não sabemos nada. E tudo é des-encontro e sofrimento.

Precisamos urgentemente de: pessoas que acompanhem o velho ao cinema ou ao parque; pessoas que leiam poesia para os velhos (como no filme Em Seu Lugar); pessoas acompanhantes que contem histórias, que conversem, que façam massagem, etc e tal. Leio que nos países nórdicos, alunos de Universidade ganham descontos, bolsas para dividirem casas com os velhos solitários. Eles, os jovens, ganham generosidade e compaixão e os velhos companhia e juventude. Sim, só os familiares não dão conta de tantas demandas, paciência, tempo e abnegações para com os seus velhos. Conferir o filme Juventude – um belo, ácido e impactante retrato da velhice, para nos assustarmos ainda mais com o tema.

Penso também em outro filme igualmente belo e intrigante – A Partida (Yôjirô Takita, 2008), vencedor de melhor filme estrangeiro do Oscar 2009 – onde um jovem violoncelista desempregado e assustado, arruma um emprego numa funerária, para embalsamar e preparar o morto para sua despedida. No início, assustado com o corpo inerte e seus medos da morte, se apavora. Aos poucos, vai se familiarizando naquela tarefa de rituais e expertise, e mergulhando no ofício da Cerimônia do Adeus (Simone de Beauvoir), se encanta com os momentos transcendentes que se enleva e até se torna uma pessoa melhor.

E por entre finitudes, partidas, dores, despedidas, me interesso cada vez mais por essas novas abordagens da morte como parte da vida. Claro que, eu mesma já me encontro finita em tantas coisas... Um outro lado de tudo, Irreversível. Insuportável. Mas que, podemos sim, ter direito ao nosso luto apaziguado, como mostra as pesquisas dessa área Paliativa, que, quando temos esses direitos e carinhos médicos, a dor da despedida se transforma sim, em aceitação e apaziguamento. Acho que foi isso que tive, quando de Juca, e é isso que desejo para todos.

Ana Adelaide Peixoto – 26 de junho, 2017
 


A Menina e o Ladrilho Hidráulico

Quando era menina, a hora depois do almoço era uma hora quando mergulhava num tempo todo meu. Gostava de sentar nos alpendres das casas onde morava. O chão era frio dos mosaicos de ladrilho hidráulico (tão sem importância na época!), e ali me esparramava. Sentia na pele aquela temperatura fria dos desenhos em arabescos. E o mundo, literalmente parava para mim. Brincava de lojinha, onde eu era a dona. Já o meu lado modista, fashionista, de gostar de loja e dos panos. Inventava os fregueses. Arrumava as coisinhas. Subia no muro da Av.Camilo de Holanda para tirar as flores do pé de Ficus. Talos cor de rosa e que tinha uma pele transparente que eu debulhava . Aquilo me parecia bonito, bom de brincar, e fazer coisas da fantasia. Não gostava das bonecas. Então me deliciava com brincadeiras assim salpicadas de comércio, viagens. Já me encantava com vida de caixeiro viajante.... Caminhava pela casa, rodeava o quintal, me balançava. Depois, na Praça da Independência, gostava de admirar a praça. Ver quem passava, quem namorava, a algazarra das brincadeiras. E sonhava..acordada com o que poderia viver nos bancos de uma praça!

Era tão importante para mim ficar sozinha. Sempre gostei dos momentos ensimesmada. Quem sabe isso me segue até hoje. Gosto da solidão! De ficar comigo pensando na vida ou não pensando em nada. Vem-me os flashes dos momentos vividos ou imaginados. Os bons e os não tão bons. Mas não gosto de ficar remoendo os sofrimentos. Penso neles sim. Choro com eles sim. Mas também mudo de canal com facilidade. Escolho a alegria, mesmo nas penumbras.

Ás vezes, quando estou na quentura do verão, e que chega depois do almoço, piso descalça no chão frio do terraço, e, enquanto me balanço na cadeira a olhar o tempo, essas imagens da infância me invadem. Os esconderijos de mim mesma. Aqueles recantos das casas onde morei e aonde gostava de me esconder.

Minha mãe estava sempre a fazer as coisas, meu pai no trabalho, e era o momento onde sabia que haviam esquecido de mim. Curtia esse esquecimento. Aquietava-me pelos cantos. Nas dobras das quinas do terraço. O mormaço invadia os cômodos, mas o chão, ah! o chão era sempre friinho para que eu sentisse já, as delícias do meu corpo. Hoje faço isso na minha cama, com lençóis igualmente friinhos e deslizantes. Adoro deslizar as pernas pelo branco do meu paraíso perdido.

Mais tarde, o depois do almoço era hora de um sono da bela adormecida. Parecia que tinha comido todas as maças! Seriam os hormônios? Talvez. Mal terminava a mesa e a minha cama me seduzia. Levava os gibis para ler, e somente com uma folha de Madame Min ou Mandrake, eu adormecia pesadamente. E ali mergulhava por toda a tarde. O difícil era driblar os estudos, as aulas e mamãe, que achava que eu estava a vagabundar. Como explicar que dormir era viver. E no dia que não dormia, ficava sonâmbula pelos cantos, não aprendia nada, ficava mal humorada e o corpo gemia das faltas. Até hoje sou assim. Quer me ver mal humorada? Me falte o sono. Tenho que dormir bem. E sim, tenho o hábito de dormir pelo dia. Se não for após o almoço, será ao final do dia, um momento das baixas das minhas energias. Tenho sim a doença do sono, de sonhar acordada e de precisar do mergulho de Alice para re-energisar as minhas forças.

Aquietar-me faz falta. Preciso do momento of my own. Do silêncio. E mais ainda do não fazer nada. Reconheço que não é coisa que pareça com trabalho ou vitalidade. A minha passa pelo ócio. Pelo diletante. Pela contemplação. E não tenho nenhuma dificuldade em ficar sem fazer nada; o que para mim é vital para que eu faça alguma coisa.

E hoje , quando olho de volta para a infância, me lembro tanto desses momentos eu sozinha. Ou seja, fui sempre uma menina cheia das irmãs, das amigas, alguns namorados, das boas companhias, mas sim, preciso da minha companhia antes de tudo. Fico tão bem quando estou reclusa nos meus pensamentos. Na minha quietude. E a imagem que guardo dessa solidão festiva é sempre a do chão frio, onde sozinha, eu sentia o prazer da pele em contato com aquela delícia, e o frescor da minha dança, onde corpo e prazer se encontravam, pela simplicidade das varandas por onde morei.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 12 de junho, 2017
 


São Paulo: De Literatura , Diversão & Arte

Para Murilo Jardelino, com afeto


Escute seu coração
Respeite sua intuição
Manifeste-se
Não há limitação

Tenha coragem
Tenha raiva
Estamos todas juntas

Siga seu coração
Use sua intuição
Manifeste-se
Não há confusão

Tenha coragem
Tenha raiva
Estamos emergindo
(Yoko Ono)


Na semana que passou (22/05) , participei de um evento - O papel das escritoras na Literatura: A Produção Literária ontem e hoje. em São Paulo, no Memorial da América Latina (Organizado pelo Professor Murilo Jardelino, Professor da Universidade Uninove-SP). Na mesa, a Profa. Dra. Lucimara Leite – “O Papel da escritora ontem. A experiência de Christine de Pizan”, que também apresentou seu livro: Christine de Pizan – Uma Resistência. Chiado Editora, e resultado da sua pesquisa de Doutorado; a Profa. Dra.Tereza Jardinia, “Voz de ontem e hoje”; e eu com a tarefa de falar do “Papel da escritora hoje e a inscrição da mulher na literatura contemporânea – uma experiência de cronista”. A Profa. Rita Couto, foi a mediadora e apresentadora das participantes. Boas discussões sobre mulheres, literatura, livros, experiência da escrita, publicação, o lugar da mulher hoje, etc. Mais surpreendente ainda é ouvir as vozes outras sobre nosso trabalho. Falei dos meus Brincos..., das minhas Tardes..., meus livros, meus assuntos, a crônica como transgressão, como expressão. Perguntas que deram panos pras mangas. Um auditório repleto de alunos desses professores citados e também da Universidade Uninove. Após os autógrafos, ainda ganhamos um presente luxuoso – um livro de ensaios de Antonio Cândido, da Biblioteca do Memorial. Feliz e plena terminei aquele dia.

Mas São Paulo é trabalho. Mas é também diversão e cultura. E não poderia passar em brancas nuvens aquela semana! Uma maratona de possibilidades à minha espera. Agenda na mão, sapatos confortáveis, um lindo scarf no pescoço e pernas pra que te quero!

São Paulo? Penso logo em comida. Na exuberância gastronômica das tantas misturas culturais que ali se instala. Comida árabe? Adoro! Homus, coalhada seca, iguarias. E todos os véus que me vem à imaginação. Comida Thai, arroz de jasmim, chá de gengibre com hortelã, drink de frutas vermelhas, tin tin. O Spot? Tem truta Sim Senhor! Uma cantina aqui, uma pizza acolá e eis que temos o Eataly! Um complexo gastronômico de pastas, condimentos, vinhos, azeites e um risoto caprese de lamber os beiços. Difícil não se deixar contaminar pela Itália, sua tradição da Mama, seus molhos pomodoros, manjericão e tantos outros aromas. De verbena inclusive. Um sabonete para me perfumar!

E nesse passeio de sabores e gostos, como resistir ao Mercado Municipal? E por entre um mergulho nas uvas doces dos espumantes e nas tâmaras gigantes do oriente, provei maracujá Açu. Dos meus tempos de criança, meu pai trazia do mercado e nós meninas mergulhávamos naquela gosma doce dos deuses. Mais tarde, minha prima Ana Flávia Veloso Borges nascia, e meu pai dizia que: “Flavinha tinha os olhos da cor desse maracujá”. O bolinho de bacalhau tem um formato fálico. Já o pastel de camarão? Só no crocante. Uma festa vadia e apimentada. Um mergulho sim, nos prazeres da carne. Um pacote de joelho de porco – encomendado pelo cunhado à minha irmã. Amor de joelhos! Eu diria! Literalmente!

Sábado? As pernas vão andando sozinhas para a Praça Benedito Calixto, e os meus brincos todos! Astral de cidade cosmopolita. Gente pela calçada. Gente bonita. Gente....

A Virada Cultural? Uma outra aventura. Uma moçada jovem a dançar Kpop. Deu a louca nas meninas! E nos meninos! Todas a dançarem iguaiszinhos no Centro Cultural São Paulo! Questão de Gênero: Menino ou menina? Me perguntava Bebé, minha irmã, a procura dos sinais mais explícitos, que agora se misturam nos codinomes beijaflor, que eu nem dou mais conta. Soube que são mais de 60! Quanta diversidade! E que lindo ver tudo isso junto e misturado! E lá se vai um homem vestido classicamente, mas com uma saia rodada indiana na cintura, em plena Avenida Paulista. Surreal! E ótimo! Quem há de negar que essa lhe é superior? Mariana Aydar com sua figura lânguida a requebrar; Jurçara Marçal com o seu som experimental a cantar Tom Zé, e tantos outros acordes agudos eletrônicos. O público delirava! E observar o entorno fazia parte do show. Jovens, maduros, crianças de colo. São Paulo tem disso. Uma selva, onde todos tem direito a um pedacinho dos perigos todos.

Avenida Paulista – tinha manifestação, chuva, poesia, e agora a Casa do Japão e todos os seus papéis de arroz e bambus. Uma bela história! Depois, a Livraria Cultura e aquela escultura linda no teto. Avistei de longe Augusto de Campos e seu boné/boina. Pensei: “estou no lugar certo!” E não é que comprei o cd de Roberto Carlos? Queria ouvir as músicas do show! O meu lado popular. Mas para o outro lado não se sentir menosprezado, trouxe também o CD de Mauro Senise, Edu Lobo e Cia.

Nas artes plásticas uma ida ao Instituto Tomie Ohtake, para ver Yoko Ono com sua bela e instigante exposição, que pinta com as palavras, “ O Céu ainda é azul, você sabe....” – Sempre admirei a oriental que seduziu e apaixonou-se por John Lennon. E agora, tive a oportunidade de conferir a sua arte. Uma artista preocupada com a sustentabilidade da terra e dos afetos. “Sinta! Peça Sol! Observe o sol até que ele se torne quadrado”, nos pede Yoko. Pedras, pregos e cacos para que colássemos e imaginássemos as releituras do mundo. Uma homenagem às mães, com milhares de bilhetinhos – “Mamãe é linda! Escreva suas memórias sobre sua mãe” . Eu deixei lá o meu: “Querida mamãe!” Outra sala com milhares de relatos de estupro. As mulheres? Seu foco. Mas um foco mais subjetivo – o da leveza, o da felicidade e da realização.

“Árvore dos Pedidos para o mundo. Faça um pedido. Peça à árvore que envie seus pedidos a todas as árvores do mundo.” Eu deixei lá o meu pedido na árvore também. Fiquei trêmula na sala da Sombra de Hiroshima, com o nome Esqueça! Onde a imagem da pessoa que está na sala permanece na parede depois que um flash de luz brilha como a explosão da bomba atômica de Hiroshima. Literalmente explodimos. Um truque da tecnologia para que possamos passar por essa experiência sensorial das mais perturbadoras. Aquela foto histórica do casal de irmãos a correr despelando com a gota gigante de fogo atrás não poderia passar desapercebida dos meus olhos e do meu corpo. Senti-o queimar. Mesmo que simbolicamente. Triste.

No Centro Cultural Banco do Brasil, fui buscar os sonhos nas aquarelas do artista pernambucano Cícero Dias. Não se chega naquele lugar impunemente. Primeiro se extasia com o espaço belo e suntuoso. Há alguns anos tinha assistido Happy Days, de Samuel Beckett. E fiquei com toda a performance de Vera Holtz na cabeça. Dessa vez foi diferente. De Recife para o mundo. Para o onírico. Eram os deuses sonhadores? Tinha assistido o documentário sobre o artista compadre de Picasso e tinha me encantado com o seu trabalho. Agora pude inclusive ouvir o poema de Paul Éluard, Liberdade, poema esse que, Dias jogava aos soldados da resistência francesa na época da guerra. Ouvir aqueles poemas em francês me levou a ultrapassar todas as fronteiras de espaço e tempo.

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome
....Liberdade de Paul Éluard/Carlos Drummond e Manuel Bandeira

A Cracolândia (Região do Centro onde se concentra os mendigos e usuários do crack) tinha passado pelo horror da pretensa higienização do prefeito Dória. Partiu meu coração atravessar a Praça da Sé, a 25 de Março, e ruas adjacentes. No frio e na garoa, mendigos, loucos, moradores de rua, e miseráveis. A miséria urbana , como maltrata!

E no meio do caminho tinha uma loja de esportes! Do tamanho de um shopping. E fiquei vesga de tantas jaquetas, tendas, botas, mochilas, luvas, calças , montanha, vento, barco, trekking, trilhas, flisses e boinas. Para cada esporte um guarda roupa próprio. E eu? Que sou lerda e ando devagar, fiquei tonta. E me deu canseira antes mesmo da primeira trilha. Decididamente não sou uma desportista!

E pra terminar, só abraços e brindes com vinho, café, ou cerveja com os amigos queridos e afetos tantos que nos abraçam, que vem de longe, da vida, e do amor.

Abraços para Leda Rejane, Myres, Murilo Jardelino, Dena Cunha, Helena, Marília e Paula Dieb, Gabriel e Luisa Resende e tantas outras pessoas queridas que me brindam com mensagens, bilhetinhos e gosto bom da amizade .

Especiais abraços para Bebé Peixoto, minha irmã e companheira de viagem e de lojas esportivas! Obrigada querida!

Alguma coisa acontece no meu coração. Em São Paulo! Sempre!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 26 de maio de 2017


Roberto Carlos - São tantas emoções!

Para Silvio Osias e Martinho Moreira Franco

Na semana passada fui ao show do Roberto Carlos. Confesso que tinha planejado ir. Desisti pelos preços. E no último minuto, incentivada por um fã ardoroso, comprei o ingresso , paguei caro, mas me dei ao desfrute de ir ver o Rei. Sozinha pego um Ubber e o que está a tocar – Mayara e Maraísa. Só para começar a noite.

Tive oportunidade de ver Roberto na minha meninice. Primeiro no Astreia , escalando muros e obrigando a minha mãe (jovem na época) a fazer o mesmo. Até hoje ela re-lembra : “o que não se faz por uma filha!” Mas sei que adorou a desculpa e ama Roberto Carlos até hoje. E quando escuta “Como é grande o meu amor por você” , diz que se lembra dos namorados das quatro filhas...

Todos esses anos, assisto ao programa Especial de Roberto Carlos na TV, final de ano. Quase um ritual para passar a limpo aquelas músicas que fizeram a trilha da minha adolescência e que até hoje me emocionam. Gosto muito da voz de Roberto e do seu repertório . Claro que sua fase religiosa não é a minha preferia, e muitas outras músicas também não gosto. Admiro muito o tempo que se mantém como Rei, com toda sua legião de fãs que não arredam o pé. Há muitos anos que não compro um cd seu, mas a grande maioria das suas músicas, vivi, fiquei na fossa, me encantei, namorei, me embalei nos sonhos de uma jovem menina-moça.

Logo no início do show, Roberto nos brinda com Que vá tudo pro inferno. Li nos jornais e no blog do fã e crítico Silvio Osias, que , devido à sua doença (TOC), ele não cantava essa música ; a palavra inferno lhe maltratava. Gracias a la vida, fez tratamento e já na TV cantou. Agora ouvir esse hit que adoro, com arranjos mais que incrementados, me passou o filme. Tinha meus 11 anos, veraneava em Areia Dourada (que chamávamos Praia do Osso), gostava de pensar na vida (sempre fui sonhadora e contemplativa ), quando ouvi essa música pela primeira vez . E desde então que fiquei tocada e tomada. A letra era transgressora. O ritmo também. E eu, uma pré-adolescente que queria mandar tudo pro inferno! E o meu compact-disc relamente furou de tanto que ouvia e dançava pela casa, ou pelo coqueiral lindo daquela casa à beira mar que meu pai comprara, e um dia tive o luxo de veranear.

O show, como já disse Silvio, é impecável. Uma qualidade que supera todo e qualquer desconforto da casa de shows. Um som! Uma qualidade! Uma orquestra de músicos inigualáveis. As cordas, os metais, e a voz bela de Roberto. Profissionalismo e respeito para com os fãs. Sem falar das dezenas de rosas jogadas às mulheres enlouquecidas â beira do caminho. Digo do palco! Claro que, se pudesse, meteria a mão naquele seu cabelo e assanhava todo. Mas acho que, com a sua doença da perfeição, imagina que aquele cabelo se parece com os cachos lindos ao vento da Estrada de Santos. Tudo se perdoa! Inda mais um cabelo!
Enquanto assistia à Lady Laura, chorei com saudades de uma mãe perdida no meu inconsciente; Porque que é eu rolo na cama – sem comentários; Detalhes? Nós dois!, Amada Amante (Ah! Quem um dia já não foi?!), e principalmente Sua Estupidez – uma nostalgia for the past! fiquei com saudades eternas dos meus namorados ou amores pela vida. Alô Alô pessoal! Lembrei de cada um de vocês, viu!. Dos beijinhos no portão escondido. Dos amassos proibidos. Dos olhares arregalados. Dos arrepios. Dos sonhos eróticos , mas não só. De beijo mais longo. Do mais estrelado. Dos toques. Da iniciação sexual. Dos jambeiros cúmplices/silenciosos da minha casa. Do escondido. Do velado. Do sagrado. E mais ainda do profano! E das pequenas transgressões da menina. E das grandes também. É por isso que gosto de Roberto! Sua música embalava um tempo da jovem guarda, que era um tempo meu. Assistia todos os programas de TV- ( Só depois viria a ser mutante, tropicalista, revolucionária e mulher de Atenas!) Comprei minha calça Saint-tropez, vesti mini-blusa, me rebolei nas matinês do Cabo Branco. E peguei na mão daquele que um dia viria a ser o meu marido. E outras também...às escondidas e às claras. Roberto fala de tudo isso. E com uma melodia, que nos transborda de alegrias, saudades, nostalgia e amor.

No show, fiquei feliz. Muito. E adorei ver os casais jovens dançando. E pensei: “que amor!” , dançar ao som de Roberto , ao vivo. Ao meu lado tinha um casal de meia idade (não sei bem o que isso significa?) e quando Roberto cantou seu mais novo sucesso (trilha da novela A força do Querer) Sereia, a jovem senhora de cabelos brancos agarrou selvagemente seu companheiro e tascou-lhe um beijo na boca. Beijo em pé, como dizemos! Ele carinhosamente abraçou-a e retribuiu, e daí engataram uma dança de rosto bem colado, ardentes e botando o amor em dia. Pensei: “Ai Ai meu Deus! O amor é mesmo lindo!”. Senti muitas saudades. E confesso que nem foi somente do meu querido Juca (amor eterno), mas dos outros amores também. De todos. Dos meus antigos namorados. Nem foram tantos! Mas um bocado para o gasto das lembranças queridas e para cantarolar Roberto Carlos e os botões da blusa...

Ainda estou a cantar pelo meio da casa: Chegaste, Sereias, Esse Cara sou eu, Outra Vez , Como vai você, Olha, Desabafo, Se você pensa, e Como é grande o meu amor por você que, antes era a minha mãe que chorava, hoje sou eu, com uma saudade grande dos amores da vida, que na verdade é uma saudade de mim mesma, e mais, saudade da vida. Saudade do tempo! Roberto nos resgata essa vida, e mais ainda, esse tempo.

Foi bárbaro!

Ana Adelaide Peixoto, 13 de maio, 2017.
 


De Saraus, Copos e Jornais – Um só embrulho!

 

Para Suzy Lopes, Paulo Vieira e Ricky Mala

Na última terça, a atriz e performática Suzy Lopes e o seu companheiro de vida e palco, Paulo Vieira, e ainda o Dj Ricky Mala (que teimava em tocar Adelaide, minha anã paraguaia!), felicitaram o projeto Sarau Póético pelos seus doze anos de existência, com a noite – Adelaide , pra que te quero?, numa alusão a um dos livros e textos de minha autoria, dos livros Brincos, pra que te quero? e De paisagens e de outras tardes. Foi uma noite esfuziante! Ver meus textos em pé me deu uma dimensão e estrangeira do que escrevo. Cheguei até mesmo a perguntar: “Quem escreveu isso?” , de tão distante que a minha fala de si estava. Amigos, filhos, irmãs, drinks, aplausos, e a irreverência de Suzy com seu corpete, suas curvas, seu espelho, que de uma certa forma também eram meus. Os meus livros que andam sozinhos. E tem pernas pra que te quero. E sob dancinhas e alegria alegria, agradeci emocionada.

Claro que, os jornais (Correio da Paraíba e A União) divulgaram, a rádio Tabajara (Jamarri Nogueira) nos entrevistaram, e novamente estava lá a recortar meu rosto que insistia em me lembrar quem sou. Guardei tudo bem guardadinho nos arquivos das faces, que por vezes nem mais reconheço como sendo minhas.

Dois dias após o evento, fui fazer minha feira num dos supermercados e lembre que estava precisando comprar copos. Afinal, de tantos brindes & felicitações, há de se quebrar copos. Nenhum vinho é tão resistente. Pois comprei meia dúzia deles. Ao chegar no caixa , enquanto preenchia o cheque (sim! Ainda uso esse artifício!), olho para o embalador que, cuidadosamente embalava meus copos em jornal. Assim como peixe, assim como coisas que quebram....De repente, meu olhar deu um zoom. Foco. Avistei meu rosto machucado, com mais rugas do que deveria! A página do Jornal Correio da Paraíba, com matéria assinada por André Maia, falando do Sarau no Emporio Café, ilustrado com minha foto, estava ali, agora a serviço dos copos. Vazios, é bem verdade. Ainda sem a prontidão dos néctares que viria a beber. Fiquei gélida e paralisada. E nem tinha bebido nada. Olhei para o pacote, ri desingonçadamente, e apontei o dedo buscando a cumplicidade do embalador: Olha eu! Veja eu! (cantarolei Marisa Monte, pois cena com trilha sonora dá samba!). O moço me olhou perplexo e sem acreditar (afinal estava de boné, óculos escuros) e de nada parecia com aquela foto formosa clicada por Rodolfo Athayde para o seu Projeto Parahybas. Deu um sorriso amarelo e perguntou: “É a Senhora?”, e eu orgulhosa: “Sim, sim, sou eu – não pareço? É porque é de manhã, e nessas horas matinais, moço, todas as gatas são pardas!”. Ele me parabenizou sem entender muito bem a importância de pacotes, retratos e copos, e juntou aqueles jornais cobertos de copos num saco plástico.

Para que serve um jornal depois de lido? Para embrulhar peixe e copos! Tomei um susto. Um susto inspirado em Marcel Duchamp quem sabe também teve ao inverter o seu bidê e transformar em fonte. Um objeto fora do lugar, fora da sua significação primeira e agora re-significado. Alguém talvez poderia ficar acabrunhado em se ver das páginas da cultura para o balcão ordinário do supermercado. Lixo, talvez? Eu , ao contrário, passado o susto primeiro, senti um misto de estranheza e orgulho ao me ver ali, passeando machucada, encriquilhada de papel, para proteger meu copo e fazê-lo não quebrável até o caminho de casa.

Achei mesmo que eles estavam a me brindar antes da hora. Tilintar no tin tin, embrulhados de mim.

Ao chegar em casa com as compras, tive todo o cuidado de desembalar os copos,  pegar o jornal todo amassado com as letras e fotos, e ali, tive a sensação de que os nossos feitos e lembranças andam sozinhos.

Pois bem, os copos já estão ali esperando por suco de mangaba, água gelada, ou cerveja. Quanto ao jornal machucado? Guardei como brincos. Como tardes. Como eu!

 

Ana Adelaide Peixoto – 1 de maio, 2017