A Menina e o Ladrilho Hidráulico

Quando era menina, a hora depois do almoço era uma hora quando mergulhava num tempo todo meu. Gostava de sentar nos alpendres das casas onde morava. O chão era frio dos mosaicos de ladrilho hidráulico (tão sem importância na época!), e ali me esparramava. Sentia na pele aquela temperatura fria dos desenhos em arabescos. E o mundo, literalmente parava para mim. Brincava de lojinha, onde eu era a dona. Já o meu lado modista, fashionista, de gostar de loja e dos panos. Inventava os fregueses. Arrumava as coisinhas. Subia no muro da Av.Camilo de Holanda para tirar as flores do pé de Ficus. Talos cor de rosa e que tinha uma pele transparente que eu debulhava . Aquilo me parecia bonito, bom de brincar, e fazer coisas da fantasia. Não gostava das bonecas. Então me deliciava com brincadeiras assim salpicadas de comércio, viagens. Já me encantava com vida de caixeiro viajante.... Caminhava pela casa, rodeava o quintal, me balançava. Depois, na Praça da Independência, gostava de admirar a praça. Ver quem passava, quem namorava, a algazarra das brincadeiras. E sonhava..acordada com o que poderia viver nos bancos de uma praça!

Era tão importante para mim ficar sozinha. Sempre gostei dos momentos ensimesmada. Quem sabe isso me segue até hoje. Gosto da solidão! De ficar comigo pensando na vida ou não pensando em nada. Vem-me os flashes dos momentos vividos ou imaginados. Os bons e os não tão bons. Mas não gosto de ficar remoendo os sofrimentos. Penso neles sim. Choro com eles sim. Mas também mudo de canal com facilidade. Escolho a alegria, mesmo nas penumbras.

Ás vezes, quando estou na quentura do verão, e que chega depois do almoço, piso descalça no chão frio do terraço, e, enquanto me balanço na cadeira a olhar o tempo, essas imagens da infância me invadem. Os esconderijos de mim mesma. Aqueles recantos das casas onde morei e aonde gostava de me esconder.

Minha mãe estava sempre a fazer as coisas, meu pai no trabalho, e era o momento onde sabia que haviam esquecido de mim. Curtia esse esquecimento. Aquietava-me pelos cantos. Nas dobras das quinas do terraço. O mormaço invadia os cômodos, mas o chão, ah! o chão era sempre friinho para que eu sentisse já, as delícias do meu corpo. Hoje faço isso na minha cama, com lençóis igualmente friinhos e deslizantes. Adoro deslizar as pernas pelo branco do meu paraíso perdido.

Mais tarde, o depois do almoço era hora de um sono da bela adormecida. Parecia que tinha comido todas as maças! Seriam os hormônios? Talvez. Mal terminava a mesa e a minha cama me seduzia. Levava os gibis para ler, e somente com uma folha de Madame Min ou Mandrake, eu adormecia pesadamente. E ali mergulhava por toda a tarde. O difícil era driblar os estudos, as aulas e mamãe, que achava que eu estava a vagabundar. Como explicar que dormir era viver. E no dia que não dormia, ficava sonâmbula pelos cantos, não aprendia nada, ficava mal humorada e o corpo gemia das faltas. Até hoje sou assim. Quer me ver mal humorada? Me falte o sono. Tenho que dormir bem. E sim, tenho o hábito de dormir pelo dia. Se não for após o almoço, será ao final do dia, um momento das baixas das minhas energias. Tenho sim a doença do sono, de sonhar acordada e de precisar do mergulho de Alice para re-energisar as minhas forças.

Aquietar-me faz falta. Preciso do momento of my own. Do silêncio. E mais ainda do não fazer nada. Reconheço que não é coisa que pareça com trabalho ou vitalidade. A minha passa pelo ócio. Pelo diletante. Pela contemplação. E não tenho nenhuma dificuldade em ficar sem fazer nada; o que para mim é vital para que eu faça alguma coisa.

E hoje , quando olho de volta para a infância, me lembro tanto desses momentos eu sozinha. Ou seja, fui sempre uma menina cheia das irmãs, das amigas, alguns namorados, das boas companhias, mas sim, preciso da minha companhia antes de tudo. Fico tão bem quando estou reclusa nos meus pensamentos. Na minha quietude. E a imagem que guardo dessa solidão festiva é sempre a do chão frio, onde sozinha, eu sentia o prazer da pele em contato com aquela delícia, e o frescor da minha dança, onde corpo e prazer se encontravam, pela simplicidade das varandas por onde morei.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 12 de junho, 2017
 


São Paulo: De Literatura , Diversão & Arte

Para Murilo Jardelino, com afeto


Escute seu coração
Respeite sua intuição
Manifeste-se
Não há limitação

Tenha coragem
Tenha raiva
Estamos todas juntas

Siga seu coração
Use sua intuição
Manifeste-se
Não há confusão

Tenha coragem
Tenha raiva
Estamos emergindo
(Yoko Ono)


Na semana que passou (22/05) , participei de um evento - O papel das escritoras na Literatura: A Produção Literária ontem e hoje. em São Paulo, no Memorial da América Latina (Organizado pelo Professor Murilo Jardelino, Professor da Universidade Uninove-SP). Na mesa, a Profa. Dra. Lucimara Leite – “O Papel da escritora ontem. A experiência de Christine de Pizan”, que também apresentou seu livro: Christine de Pizan – Uma Resistência. Chiado Editora, e resultado da sua pesquisa de Doutorado; a Profa. Dra.Tereza Jardinia, “Voz de ontem e hoje”; e eu com a tarefa de falar do “Papel da escritora hoje e a inscrição da mulher na literatura contemporânea – uma experiência de cronista”. A Profa. Rita Couto, foi a mediadora e apresentadora das participantes. Boas discussões sobre mulheres, literatura, livros, experiência da escrita, publicação, o lugar da mulher hoje, etc. Mais surpreendente ainda é ouvir as vozes outras sobre nosso trabalho. Falei dos meus Brincos..., das minhas Tardes..., meus livros, meus assuntos, a crônica como transgressão, como expressão. Perguntas que deram panos pras mangas. Um auditório repleto de alunos desses professores citados e também da Universidade Uninove. Após os autógrafos, ainda ganhamos um presente luxuoso – um livro de ensaios de Antonio Cândido, da Biblioteca do Memorial. Feliz e plena terminei aquele dia.

Mas São Paulo é trabalho. Mas é também diversão e cultura. E não poderia passar em brancas nuvens aquela semana! Uma maratona de possibilidades à minha espera. Agenda na mão, sapatos confortáveis, um lindo scarf no pescoço e pernas pra que te quero!

São Paulo? Penso logo em comida. Na exuberância gastronômica das tantas misturas culturais que ali se instala. Comida árabe? Adoro! Homus, coalhada seca, iguarias. E todos os véus que me vem à imaginação. Comida Thai, arroz de jasmim, chá de gengibre com hortelã, drink de frutas vermelhas, tin tin. O Spot? Tem truta Sim Senhor! Uma cantina aqui, uma pizza acolá e eis que temos o Eataly! Um complexo gastronômico de pastas, condimentos, vinhos, azeites e um risoto caprese de lamber os beiços. Difícil não se deixar contaminar pela Itália, sua tradição da Mama, seus molhos pomodoros, manjericão e tantos outros aromas. De verbena inclusive. Um sabonete para me perfumar!

E nesse passeio de sabores e gostos, como resistir ao Mercado Municipal? E por entre um mergulho nas uvas doces dos espumantes e nas tâmaras gigantes do oriente, provei maracujá Açu. Dos meus tempos de criança, meu pai trazia do mercado e nós meninas mergulhávamos naquela gosma doce dos deuses. Mais tarde, minha prima Ana Flávia Veloso Borges nascia, e meu pai dizia que: “Flavinha tinha os olhos da cor desse maracujá”. O bolinho de bacalhau tem um formato fálico. Já o pastel de camarão? Só no crocante. Uma festa vadia e apimentada. Um mergulho sim, nos prazeres da carne. Um pacote de joelho de porco – encomendado pelo cunhado à minha irmã. Amor de joelhos! Eu diria! Literalmente!

Sábado? As pernas vão andando sozinhas para a Praça Benedito Calixto, e os meus brincos todos! Astral de cidade cosmopolita. Gente pela calçada. Gente bonita. Gente....

A Virada Cultural? Uma outra aventura. Uma moçada jovem a dançar Kpop. Deu a louca nas meninas! E nos meninos! Todas a dançarem iguaiszinhos no Centro Cultural São Paulo! Questão de Gênero: Menino ou menina? Me perguntava Bebé, minha irmã, a procura dos sinais mais explícitos, que agora se misturam nos codinomes beijaflor, que eu nem dou mais conta. Soube que são mais de 60! Quanta diversidade! E que lindo ver tudo isso junto e misturado! E lá se vai um homem vestido classicamente, mas com uma saia rodada indiana na cintura, em plena Avenida Paulista. Surreal! E ótimo! Quem há de negar que essa lhe é superior? Mariana Aydar com sua figura lânguida a requebrar; Jurçara Marçal com o seu som experimental a cantar Tom Zé, e tantos outros acordes agudos eletrônicos. O público delirava! E observar o entorno fazia parte do show. Jovens, maduros, crianças de colo. São Paulo tem disso. Uma selva, onde todos tem direito a um pedacinho dos perigos todos.

Avenida Paulista – tinha manifestação, chuva, poesia, e agora a Casa do Japão e todos os seus papéis de arroz e bambus. Uma bela história! Depois, a Livraria Cultura e aquela escultura linda no teto. Avistei de longe Augusto de Campos e seu boné/boina. Pensei: “estou no lugar certo!” E não é que comprei o cd de Roberto Carlos? Queria ouvir as músicas do show! O meu lado popular. Mas para o outro lado não se sentir menosprezado, trouxe também o CD de Mauro Senise, Edu Lobo e Cia.

Nas artes plásticas uma ida ao Instituto Tomie Ohtake, para ver Yoko Ono com sua bela e instigante exposição, que pinta com as palavras, “ O Céu ainda é azul, você sabe....” – Sempre admirei a oriental que seduziu e apaixonou-se por John Lennon. E agora, tive a oportunidade de conferir a sua arte. Uma artista preocupada com a sustentabilidade da terra e dos afetos. “Sinta! Peça Sol! Observe o sol até que ele se torne quadrado”, nos pede Yoko. Pedras, pregos e cacos para que colássemos e imaginássemos as releituras do mundo. Uma homenagem às mães, com milhares de bilhetinhos – “Mamãe é linda! Escreva suas memórias sobre sua mãe” . Eu deixei lá o meu: “Querida mamãe!” Outra sala com milhares de relatos de estupro. As mulheres? Seu foco. Mas um foco mais subjetivo – o da leveza, o da felicidade e da realização.

“Árvore dos Pedidos para o mundo. Faça um pedido. Peça à árvore que envie seus pedidos a todas as árvores do mundo.” Eu deixei lá o meu pedido na árvore também. Fiquei trêmula na sala da Sombra de Hiroshima, com o nome Esqueça! Onde a imagem da pessoa que está na sala permanece na parede depois que um flash de luz brilha como a explosão da bomba atômica de Hiroshima. Literalmente explodimos. Um truque da tecnologia para que possamos passar por essa experiência sensorial das mais perturbadoras. Aquela foto histórica do casal de irmãos a correr despelando com a gota gigante de fogo atrás não poderia passar desapercebida dos meus olhos e do meu corpo. Senti-o queimar. Mesmo que simbolicamente. Triste.

No Centro Cultural Banco do Brasil, fui buscar os sonhos nas aquarelas do artista pernambucano Cícero Dias. Não se chega naquele lugar impunemente. Primeiro se extasia com o espaço belo e suntuoso. Há alguns anos tinha assistido Happy Days, de Samuel Beckett. E fiquei com toda a performance de Vera Holtz na cabeça. Dessa vez foi diferente. De Recife para o mundo. Para o onírico. Eram os deuses sonhadores? Tinha assistido o documentário sobre o artista compadre de Picasso e tinha me encantado com o seu trabalho. Agora pude inclusive ouvir o poema de Paul Éluard, Liberdade, poema esse que, Dias jogava aos soldados da resistência francesa na época da guerra. Ouvir aqueles poemas em francês me levou a ultrapassar todas as fronteiras de espaço e tempo.

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome
....Liberdade de Paul Éluard/Carlos Drummond e Manuel Bandeira

A Cracolândia (Região do Centro onde se concentra os mendigos e usuários do crack) tinha passado pelo horror da pretensa higienização do prefeito Dória. Partiu meu coração atravessar a Praça da Sé, a 25 de Março, e ruas adjacentes. No frio e na garoa, mendigos, loucos, moradores de rua, e miseráveis. A miséria urbana , como maltrata!

E no meio do caminho tinha uma loja de esportes! Do tamanho de um shopping. E fiquei vesga de tantas jaquetas, tendas, botas, mochilas, luvas, calças , montanha, vento, barco, trekking, trilhas, flisses e boinas. Para cada esporte um guarda roupa próprio. E eu? Que sou lerda e ando devagar, fiquei tonta. E me deu canseira antes mesmo da primeira trilha. Decididamente não sou uma desportista!

E pra terminar, só abraços e brindes com vinho, café, ou cerveja com os amigos queridos e afetos tantos que nos abraçam, que vem de longe, da vida, e do amor.

Abraços para Leda Rejane, Myres, Murilo Jardelino, Dena Cunha, Helena, Marília e Paula Dieb, Gabriel e Luisa Resende e tantas outras pessoas queridas que me brindam com mensagens, bilhetinhos e gosto bom da amizade .

Especiais abraços para Bebé Peixoto, minha irmã e companheira de viagem e de lojas esportivas! Obrigada querida!

Alguma coisa acontece no meu coração. Em São Paulo! Sempre!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 26 de maio de 2017


Roberto Carlos - São tantas emoções!

Para Silvio Osias e Martinho Moreira Franco

Na semana passada fui ao show do Roberto Carlos. Confesso que tinha planejado ir. Desisti pelos preços. E no último minuto, incentivada por um fã ardoroso, comprei o ingresso , paguei caro, mas me dei ao desfrute de ir ver o Rei. Sozinha pego um Ubber e o que está a tocar – Mayara e Maraísa. Só para começar a noite.

Tive oportunidade de ver Roberto na minha meninice. Primeiro no Astreia , escalando muros e obrigando a minha mãe (jovem na época) a fazer o mesmo. Até hoje ela re-lembra : “o que não se faz por uma filha!” Mas sei que adorou a desculpa e ama Roberto Carlos até hoje. E quando escuta “Como é grande o meu amor por você” , diz que se lembra dos namorados das quatro filhas...

Todos esses anos, assisto ao programa Especial de Roberto Carlos na TV, final de ano. Quase um ritual para passar a limpo aquelas músicas que fizeram a trilha da minha adolescência e que até hoje me emocionam. Gosto muito da voz de Roberto e do seu repertório . Claro que sua fase religiosa não é a minha preferia, e muitas outras músicas também não gosto. Admiro muito o tempo que se mantém como Rei, com toda sua legião de fãs que não arredam o pé. Há muitos anos que não compro um cd seu, mas a grande maioria das suas músicas, vivi, fiquei na fossa, me encantei, namorei, me embalei nos sonhos de uma jovem menina-moça.

Logo no início do show, Roberto nos brinda com Que vá tudo pro inferno. Li nos jornais e no blog do fã e crítico Silvio Osias, que , devido à sua doença (TOC), ele não cantava essa música ; a palavra inferno lhe maltratava. Gracias a la vida, fez tratamento e já na TV cantou. Agora ouvir esse hit que adoro, com arranjos mais que incrementados, me passou o filme. Tinha meus 11 anos, veraneava em Areia Dourada (que chamávamos Praia do Osso), gostava de pensar na vida (sempre fui sonhadora e contemplativa ), quando ouvi essa música pela primeira vez . E desde então que fiquei tocada e tomada. A letra era transgressora. O ritmo também. E eu, uma pré-adolescente que queria mandar tudo pro inferno! E o meu compact-disc relamente furou de tanto que ouvia e dançava pela casa, ou pelo coqueiral lindo daquela casa à beira mar que meu pai comprara, e um dia tive o luxo de veranear.

O show, como já disse Silvio, é impecável. Uma qualidade que supera todo e qualquer desconforto da casa de shows. Um som! Uma qualidade! Uma orquestra de músicos inigualáveis. As cordas, os metais, e a voz bela de Roberto. Profissionalismo e respeito para com os fãs. Sem falar das dezenas de rosas jogadas às mulheres enlouquecidas â beira do caminho. Digo do palco! Claro que, se pudesse, meteria a mão naquele seu cabelo e assanhava todo. Mas acho que, com a sua doença da perfeição, imagina que aquele cabelo se parece com os cachos lindos ao vento da Estrada de Santos. Tudo se perdoa! Inda mais um cabelo!
Enquanto assistia à Lady Laura, chorei com saudades de uma mãe perdida no meu inconsciente; Porque que é eu rolo na cama – sem comentários; Detalhes? Nós dois!, Amada Amante (Ah! Quem um dia já não foi?!), e principalmente Sua Estupidez – uma nostalgia for the past! fiquei com saudades eternas dos meus namorados ou amores pela vida. Alô Alô pessoal! Lembrei de cada um de vocês, viu!. Dos beijinhos no portão escondido. Dos amassos proibidos. Dos olhares arregalados. Dos arrepios. Dos sonhos eróticos , mas não só. De beijo mais longo. Do mais estrelado. Dos toques. Da iniciação sexual. Dos jambeiros cúmplices/silenciosos da minha casa. Do escondido. Do velado. Do sagrado. E mais ainda do profano! E das pequenas transgressões da menina. E das grandes também. É por isso que gosto de Roberto! Sua música embalava um tempo da jovem guarda, que era um tempo meu. Assistia todos os programas de TV- ( Só depois viria a ser mutante, tropicalista, revolucionária e mulher de Atenas!) Comprei minha calça Saint-tropez, vesti mini-blusa, me rebolei nas matinês do Cabo Branco. E peguei na mão daquele que um dia viria a ser o meu marido. E outras também...às escondidas e às claras. Roberto fala de tudo isso. E com uma melodia, que nos transborda de alegrias, saudades, nostalgia e amor.

No show, fiquei feliz. Muito. E adorei ver os casais jovens dançando. E pensei: “que amor!” , dançar ao som de Roberto , ao vivo. Ao meu lado tinha um casal de meia idade (não sei bem o que isso significa?) e quando Roberto cantou seu mais novo sucesso (trilha da novela A força do Querer) Sereia, a jovem senhora de cabelos brancos agarrou selvagemente seu companheiro e tascou-lhe um beijo na boca. Beijo em pé, como dizemos! Ele carinhosamente abraçou-a e retribuiu, e daí engataram uma dança de rosto bem colado, ardentes e botando o amor em dia. Pensei: “Ai Ai meu Deus! O amor é mesmo lindo!”. Senti muitas saudades. E confesso que nem foi somente do meu querido Juca (amor eterno), mas dos outros amores também. De todos. Dos meus antigos namorados. Nem foram tantos! Mas um bocado para o gasto das lembranças queridas e para cantarolar Roberto Carlos e os botões da blusa...

Ainda estou a cantar pelo meio da casa: Chegaste, Sereias, Esse Cara sou eu, Outra Vez , Como vai você, Olha, Desabafo, Se você pensa, e Como é grande o meu amor por você que, antes era a minha mãe que chorava, hoje sou eu, com uma saudade grande dos amores da vida, que na verdade é uma saudade de mim mesma, e mais, saudade da vida. Saudade do tempo! Roberto nos resgata essa vida, e mais ainda, esse tempo.

Foi bárbaro!

Ana Adelaide Peixoto, 13 de maio, 2017.
 


De Saraus, Copos e Jornais – Um só embrulho!

 

Para Suzy Lopes, Paulo Vieira e Ricky Mala

Na última terça, a atriz e performática Suzy Lopes e o seu companheiro de vida e palco, Paulo Vieira, e ainda o Dj Ricky Mala (que teimava em tocar Adelaide, minha anã paraguaia!), felicitaram o projeto Sarau Póético pelos seus doze anos de existência, com a noite – Adelaide , pra que te quero?, numa alusão a um dos livros e textos de minha autoria, dos livros Brincos, pra que te quero? e De paisagens e de outras tardes. Foi uma noite esfuziante! Ver meus textos em pé me deu uma dimensão e estrangeira do que escrevo. Cheguei até mesmo a perguntar: “Quem escreveu isso?” , de tão distante que a minha fala de si estava. Amigos, filhos, irmãs, drinks, aplausos, e a irreverência de Suzy com seu corpete, suas curvas, seu espelho, que de uma certa forma também eram meus. Os meus livros que andam sozinhos. E tem pernas pra que te quero. E sob dancinhas e alegria alegria, agradeci emocionada.

Claro que, os jornais (Correio da Paraíba e A União) divulgaram, a rádio Tabajara (Jamarri Nogueira) nos entrevistaram, e novamente estava lá a recortar meu rosto que insistia em me lembrar quem sou. Guardei tudo bem guardadinho nos arquivos das faces, que por vezes nem mais reconheço como sendo minhas.

Dois dias após o evento, fui fazer minha feira num dos supermercados e lembre que estava precisando comprar copos. Afinal, de tantos brindes & felicitações, há de se quebrar copos. Nenhum vinho é tão resistente. Pois comprei meia dúzia deles. Ao chegar no caixa , enquanto preenchia o cheque (sim! Ainda uso esse artifício!), olho para o embalador que, cuidadosamente embalava meus copos em jornal. Assim como peixe, assim como coisas que quebram....De repente, meu olhar deu um zoom. Foco. Avistei meu rosto machucado, com mais rugas do que deveria! A página do Jornal Correio da Paraíba, com matéria assinada por André Maia, falando do Sarau no Emporio Café, ilustrado com minha foto, estava ali, agora a serviço dos copos. Vazios, é bem verdade. Ainda sem a prontidão dos néctares que viria a beber. Fiquei gélida e paralisada. E nem tinha bebido nada. Olhei para o pacote, ri desingonçadamente, e apontei o dedo buscando a cumplicidade do embalador: Olha eu! Veja eu! (cantarolei Marisa Monte, pois cena com trilha sonora dá samba!). O moço me olhou perplexo e sem acreditar (afinal estava de boné, óculos escuros) e de nada parecia com aquela foto formosa clicada por Rodolfo Athayde para o seu Projeto Parahybas. Deu um sorriso amarelo e perguntou: “É a Senhora?”, e eu orgulhosa: “Sim, sim, sou eu – não pareço? É porque é de manhã, e nessas horas matinais, moço, todas as gatas são pardas!”. Ele me parabenizou sem entender muito bem a importância de pacotes, retratos e copos, e juntou aqueles jornais cobertos de copos num saco plástico.

Para que serve um jornal depois de lido? Para embrulhar peixe e copos! Tomei um susto. Um susto inspirado em Marcel Duchamp quem sabe também teve ao inverter o seu bidê e transformar em fonte. Um objeto fora do lugar, fora da sua significação primeira e agora re-significado. Alguém talvez poderia ficar acabrunhado em se ver das páginas da cultura para o balcão ordinário do supermercado. Lixo, talvez? Eu , ao contrário, passado o susto primeiro, senti um misto de estranheza e orgulho ao me ver ali, passeando machucada, encriquilhada de papel, para proteger meu copo e fazê-lo não quebrável até o caminho de casa.

Achei mesmo que eles estavam a me brindar antes da hora. Tilintar no tin tin, embrulhados de mim.

Ao chegar em casa com as compras, tive todo o cuidado de desembalar os copos,  pegar o jornal todo amassado com as letras e fotos, e ali, tive a sensação de que os nossos feitos e lembranças andam sozinhos.

Pois bem, os copos já estão ali esperando por suco de mangaba, água gelada, ou cerveja. Quanto ao jornal machucado? Guardei como brincos. Como tardes. Como eu!

 

Ana Adelaide Peixoto – 1 de maio, 2017
 


De Livros, Leituras & Crônicas

Para Zezita Matos

As bibliotecas deviam ser declaradas da família dos aeroportos, porque são lugares de partir e de chegar.

Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende como se tivesse uma lâmpada dentro....Os leitores mesmo inteligentes aprendem a ler tudo, até aquilo que não é um livro. Leem claramente o humor dos outros, a ansiedade, conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Alguns leitores, um dia, podem aprender a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs e laranjas. Pessoas que dão palavras. (Valter Hugo Mãe)

No último dia 10 de abril, à convite da atriz e educadora paraibana Zezita Mattos, fui a um evento no Unipê , fazer um pequeno lançamento dos meus livros e já que estávamos em abril, mês que tem os dias 18 (Dia Nacional do Livro Infantil) e dia 23 (Dia Mundial do Livro), e que a Instituição estava lançando um Clube de Leitura, fui lá falar um pouco de pingos desses assuntos. E também apresentar meus livros de crônicas Brincos pra que te quero? e De paisagens e de outras tardes.

Coletei pedaços de textos de leituras mais recentes/ou não, rascunhei, recortei, colei, e fiz assim meu guia para o que iria falar: Leitura, livros, crônica e apresentar meus livros. Divido com vocês:

Comecei falando da importância da leitura, e citando Virginia Woolf, como o seu texto “Como se deve ler um livro? Capítulo de O leitor comum, de onde retiro algumas citações :“Biblioteca – que é esse lugar único? Conglomeração, amontoado de coisas confusas. Poemas e romances, histórias e memórias, dicionários e relatórios; livros escritos em todas as linguagens por homens e mulheres de todos os temperamentos, raças e idades apertam-se uns aos outros na estante. E lá fora os asnos urram, as mulheres fofocam em torno da bomba d´água, os potros galopam pelos campos. Onde, estamos? Como traremos a ordem para este fabuloso caos e então conseguir daquilo que lemos o prazer mais vasto e profundo?”

“Escrever? Perigos e dificuldades das palavras. Evoque, portanto algum acontecimento que lhe tenha deixado uma impressão especial – como, numa esquina, quem sabe, em que você passou por duas pessoas que conversavam. Uma árvore agitava-se; a luz elétrica tremeluzia; o tom da conversa era cômico, mas também trágico,; uma visão completa, uma ideia intergral parecia contida....” bem típico de Woolf, pensar nas tantas impressões dos instantes, imensuráveis do cotidiano de cada um. E que tudo vale à pena observar: “Mas ao entregar aos encantos da leitura de certas tolices você pode se surpreender, ser deveras conquistado, pelas relíquias de humanidade que foram banidas do que se considera modelo. Pode ser uma carta – mas que perspectiva descortina! Podem ser algumas frases – mas quanto sugere!”

Depois ainda com Virginia, ilustrei meus pensamentos com o livro O sol e o Peixe, e o texto – “A paixão pela leitura”. E Woolf comenta: “Durante a leitura, novas impressões estão sempre anulando ou completando as velhas. Deleite, raiva, enfado, riso se alternam, enquanto lemos sem parar. O julgamento fica em suspenso, pois não podemos saber o que está por vir. Mas agora o livro acabou. Tomou uma forma definitiva. E o livro como um todo é diferente do livro há pouco absorvido em variadas e diferentes partes. Ele tem uma forma, ele tem um ser....Eles (os livros), estão ali, penduradas no armário da mente – as formas dos livros que já lemos, como roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada...A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo.”

E por entre livros, peixes, e contos, como não mencionar Clarice Lispector e seu conto delícia – Felicidade Clandestina? Conhecem? Perguntei aos alunos. Já se viram em situação semelhante?

Não poderia deixar de mencionar tão pouco, filmes que tiveram seus enredos e conflitos a partir de livros, como no caso de As Horas (e o romance Mrs. Dalloway) e Balzac e a costureirinha chinesa (tempos sombrios na China rural, onde tudo cabe na imaginação e nas viagens através das estórias de Balzac). Como escrevi textos sobre esses dois filmes, pincelei frases, comentários e referências em mim mesma.

De Adriana Falcão – também defini livro, leitura e outras palavrinhas mágicas. “ Ler = ter o poder de viver outras vidas sem precisar nem sair da cama”

De Marguerite Duras, a frase: “Escrever é um ato selvagem.”

E finalmente, de Valter Hugo mãe, com seu livro, Contos de cães e maus lobos, que tem no último conto do livro, “Biblioteca” , toda a poesia de que precisava para falar dos temas sobre livros. Lembrando sempre dos amigos André Ricaro Aguiar, (uma traça querida, e que está sempre in Love com seus livros, frases, capas, autores, estórias) e Lu Damasceno (igualmente traça e que se apaixona pelos livros todos dela).

E o autor português com nome de mãe, filosofa! Transcrevo aqui algumas ideias pelas quais fiquei embevecida:

“Os livros são parentes directos dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. Os livros são da família das nuvens, e como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se entrassem dentro do próprio ar, a ver o que existe para depois do que não se vê.”

“O leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas.”

“Os livros são também toupeiras ou minhocas., troncos caídos, maduros de um a longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo. Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde voltam ao início, a serem como crianças. Os livros tem crianças ao dependuro e giram como carrosséis para as ouvir rir e para as fazer brincar.”

“Podemos pensar que abrir e fechar um livro é obrigá-lo a pestanejar, mas dentro de um livro nunca se faz escuro.”

“As Bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas...Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam canções ou trombetas a cada instante.”

“As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas.”

Da minha pasta, adicionei outros textos, que costumava dividir com meus alunos de literatura no primeiro dia de aula- “A arte de ler se pode aprender, de Eliane Cardoso: “Quem não sabe ler vive na prisão pequenina de si mesmo. Mas o bom leitor tira a própria pessoa do caminho e dá passagem ao outro. Olha, Escuta. Rende-se”. Também o texto “Entre a realidade e ficção”, de Tatiana Salem Levi: “Por mais que o escritor se transforme em seres estranhos e se desloque por épocas desconhecidas, o texto que ele produz passa sempre por ele, pelo seu campo de conhecimento e, ainda mais, pelo seu corpo.”

Claro que o meu roteiro não foi um roteiro muito rígido (nem poderia, uma vez que sou do mundo da lua e vivo a dobrar esquinas), e que vou alinhavando, costurando, dando voltas, fazendo digressões, comentários, ouvindo, perguntando, e deixando o novelo fluir.

Já nesse momento, comecei a falar da crônica. E ninguém melhor para defini-la como Rubem Braga: “ Há homens que são escritores e fazem livros que são verdadeiras casas, e ficam. Mas o cronista de jornal é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha, e vai.”

Os alunos eram poucos e de áreas da saúde. A Unipê já não tem mais o curso de Letras – uma pena!, mas fui logo citando alguém que fundou cadeiras de Literatura em cursos de Medicina. Tratar o doente quando se estuda literatura, aumenta nossa capacidade de humanidade. José Eduardo Agualusa, também tem um texto “ A cura pela palavra”, que reflete sobre os “remédios” da poesia.

Para falar mais da crônica, me referi a José Castello e as suas “ As feridas de um leitor” e seu capítulo - “Crônica , um gênero brasileiro”. Uma delícia de passeio sobre isso que tento escrever. E Castello reflete, tento resumir: “Crônica, um gênero menor? Literatura ? Jornalismo? Desconfiança? Registro documental? Espaço fronteiriço? Vida cotidiana? Lugar de risco, lugar que está onde não deveria estar, invenção ou simples fotografia da existência? Coisa séria ou puro entretenimento? Confissão? Poesia? Ficção? Ensaio? Não? Crônica?”

“Crônica – radical liberdade, sem compromisso com nada, imaginação. O cronista não precisa brilhar, nem ultrapassar, nem surpreender, ou chocar, ele só deseja a leveza da escrita. O cronista pode ser informal, ligeiro, dispensar a originalidade, pode tudo. Pode falar de si, dos fatos, da memória, confessar-se , desabar, mentir, falsificar, imaginar, acrescentar, censurar, distorcer...E assim fica o cronista, um cigano, um nômade a transitar, um errante!

Ao terminar, com as poucas pessoas e aquele ar de que gostaram e trocaram comigo experiências, findamos a conversar. Mostrei meus Brincos..., e minhas Tardes..., e fui embora com a sensação que tinha celebrado os dias dos livros.

Obrigada Zezita!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa , 23 de abril 2017
 


Viajar no século XX – como era assustadora a minha ignorância!

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio — com toda a sua empolgação e seus paradoxos — quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos — ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir — embora a arte de viajar pareça evocar naturalmente uma série de questionamentos nem tão simples ou triviais, cuja análise poderia contribuir, de forma modesta, para uma compreensão daquilo que os filósofos gregos chamavam lindamente de eudaimonia, ou desabrochar humano".( A Arte de Viajar – Alain de Botton)

Outro dia, conversando com sobrinhos recém chegados de Florença onde moraram por um ano (pós graduação), e ouvindo eles a falar de viagem e todas as facilidades de hoje, (Alugar carro, blogs, GPS, mapas, reservas antecipadas, etc), fiquei a pensar como era viajar no século passado, antes de se ter a vida digital. E assim do nada, comecei a contar estórias pitorescas e me dei conta de que eu sou um ser em extinção, e naqueles tempos, era louca e aventureira, aliás o mundo, por se lançar nos mapas, sem mapas ou quaisquer senso de orientação, não era para qualquer um, inda mais uma!

Lembrei de quando fui a primeira vez à Europa, em 1975, para estudar Inglês em Londres. Depois de um mês, fui viajar por Paris, Estrasburgo, Zurique, Berna, Lucern, Roma, Florença, Barcelona e Lisboa. Tudo isso em dois meses de voos, trens, ônibus e sonhos. Como não tínhamos roteiro pré-estabelecido (somente uma passagem aérea bem grossa em papel, travels cheques e um passaporte não válido para Cuba!), tudo era pelo mapa da intuição ou conhecimento prévio de jovens curiosos.

Tão pouco tínhamos o savoir fair de viajar, mas na precariedade da experiência, tínhamos muitas malas. Não resisti aos mercados londrinos e me enchi de túnicas indianas de espelhinhos! O companheiro de viagem, de livros de arte e pincéis e tintas e papel couché. Aprendi aí que, não se pode andar com tantas malas! Deixávamos essas benditas no aeroporto e numa malinha fazíamos as mudas para aqueles 5/6 dias nos lugares. Era inverno, então imaginem nesses tempos a aventura o que era vestir pulovers emprestados das primas, casacos que nem sempre estavam na moda, e gorros ridículos! Mas, o conforto era preciso. Por conta dessa operação aeroporto, sempre chegávamos horas antes dos voos para poder trocar as mudas de roupa suja com as limpas. Sim , lavamos roupa na pia do hotel, com sabão de coco que minha mãe cuidadosamente me indicava. Uma vez, queimei um suéter lindo emprestado porque tinha colocado-o para secar no aquecedor do quarto. Cada uma! Pela falta de dinheiro, sempre escolhíamos a hora dos voos em hora de almoço ou jantar....filar a boia era preciso. Nos voos da Pan Air!

Viajar era para os fortes, e a vida toda os governos me dificultara à vida. Nessa viagem mesmo, existia uma lei que tínhamos que depositar 12.000 Cruzeiros por um ano no banco. E depois disso, com a inflação galopante, perdíamos tudo. As quantias eram parcas e por isso em Paris, era Crepe Suzette sempre com uma taça de vinho e nada de água ou café...Numa noite extravagante – um prato de frutos do mar, com os mariscos saltitantes e uma taça de vinho branco. Éramos pobres e sabíamos!

Chegávamos na cidade, íamos à estação de ônibus (porque era onde se tinha hotéis mais baratos), fazíamos check in, e depois de ter o mapa da cidade, escolhíamos os locais de visita e imaginávamos quantos dias seriam suficientes para aquele programa. Aí vinha a operação mais complicada. Fazer as contas de quanto dinheiro iríamos precisar. Em tempos de Libra, Franco Francês, Suiço, Lira, Pesos e Escudos, tínhamos que entender de câmbio para não trocar demais nem de menos, inda mais com as moedas – sempre gastávamos as restantes no aeroporto com chocolate, mas sempre, tínhamos prejuízo com aquelas que teimavam em não comprar nada e viravam souvenir nas gavetas. O dinheiro era curtíssimo, e comíamos na maioria das vezes nas estações de trem. Lembro que, em Zurique, filávamos a boia dos ferroviários, um PF barato e bom. Só não tínhamos os macacões. E quando passeávamos nas Strasses, a contemplar os Trams, a distinção de classe era gritante. Aquele povo chique de casacos de peles, e nós com nossas roupinhas caseiras e disformes. Mas o desejo de conhecer o mundo era tanto, que tudo era pouco diante da felicidade de jogar moedas na Fontana de Trevi, sentar nas Boulevards de Paris, ou saborear um éclair pelas ruelas medievais de Estrasburgo. Virávamos os lugares pelo avesso. Museus, praças, livrarias, Mercados das Pulgas (para enlouquecer), um crepe ali, uma taça acolá, uma sopa de cebola, uma oração na Catedral Westminster, um assobio em Roma, um beijo na ponte de Florença. Tudo me dilatava a pupila. Com ou sem moeda local!

E sem mapa, nem planejamento prévio, nos lançávamos no abismo do desconhecido. Na Suiça, subimos até Greendwald, os Alpes Suiços, e por estar vestidos inadequadamente, ficamos cegos diante da luminosidade da neve; não tínhamos conhecimento cultural daquelas cidades e por vezes descartávamos programas importantes; fiquei boquiaberta diante de uma paisagem de inverno em Interlaken – Montanhas nevadas, lagos e pinheiros iguais aos calendários que mamãe pendurava na cozinha. Em Berna, me senti um brinquedo de filme de Pinóquio; em Lisboa fui ao cabeleireiro e fiz um permanente; em Roma comprei um óculos para me parecer com Sophia Loren ; em Londres um casaco jeans comprido que me dava um ar grunge e alternativo. Nada de Galeria Lafayette; nada de marcas; nada de make up; nada de nada. Quando entrei na Harrods em Londres, senti-me amiga da Rainha! E saí por aquelas portas giratórias imaginando uma vida de princesa. Mas a minha terminava logo ali. Mas , na Ponte de Waterloo, eu olhava para a Torre de Londres e pensava em Ana Bolena. Minhas aulas de História do Lyceu de Tambiá! E de scone em scone eu seguia pelo mundo, sem lenço e sem documento e sem nenhuma organização maior para me lançar nos espaços alhures e quem sabe intuir o tamanho desse mundo.

Entrei em muitas roubadas viajando no século passado. E também em estórias pitorescas: encontrei Paul & Linda McCartney nas calçadas de Bristol; dormi num quarto comunitário para caixeiros viajantes em Cuzco-Peru; meu ônibus engalhou numa ribanceira em Chichicastenango na Guatemala, e entrei em pânico achando que iria cair das alturas: avistei um ciclone por essas mesmas estradas; tomei vinho Alsaciano em Calmar; peguei metrôs de madrugada em Londres para buscar cunhado (Sérgio Tavares) na estação de Vitória Station, e tive medo de encontrar Jack, o estripador; subi as colinas em Pisa-Peru, e andei de carona na boleia de caminhão junto às Cholitas e aquele francês lindo com um chapéu mais lindo ainda; passei um ano novo nos Alpes Suiços (Goretti & Alain Antille), tomando quentão com pão feito pelos esquiadores que, com suas tochas, anunciavam o ano gelado! Comi marmota, um bichinho peludo que tem pele luxuosa para casacos; dancei muito nas noites Londrinas nos clubbers dos anos 70 e tantas coisitas...; fiquei muda no Sena e diante do Arco do Triunfo; Place de Vosges! Os vitrais da Catedral de Chartres; as rezas das mesquitas em Istambul; o Mar Egeu das Ilhas Gregas e meu topless of my own em Mikonos – Zorba era eu! Com Moussaka e Tzazique na mesa e octopus grelhado; meu espanto nas águas do Bósphorus; minha loucura no Grand Bazaar e todas as granadas e véus – meu saruel de florzinhas! Meu passeio de burro pelas ladeirinhas abissais da Ilha de Ios, Santorini! E suas ruelas brancas e igrejinhas azuis; as cerâmicas eróticas que compramos no México – Puebla, Antígua, pirâmides e um certo anel de ônix e Lápis-lazúli.

A minha bagagem gigante sempre vinha abarrotada de cartões, mapas, souvenirs de tickets e outras lembranças das casas de escritores, quadros famosos, ou música flamenca! Um vidrinho de curry, um chá breakfast , uma matrioska de Praga e o desejo de voltar em tantas cidades divinas e maravilhosas. Cidades que eu não tinha mapa nem direção, somente o olhar, o sentir, o perder pelas ruelas de Veneza e avistar uma gôndola acolá. Anônima Veneziana eu era!

Hoje, quando vejo as viagens, excursões e tantos planejamentos, fico a lembrar, até com uma certa nostalgia, o acaso que era se lançar no mundo. Ficar sem notícias de casa, dos medos de que alguém morresse na minha ausência ( e morreram muitos!), do olhar arregalado do meu pai vendo aquela menina que gostava dos países, das línguas e do des-conhecido para além de Goiana.

Ao término da conversa com meus sobrinhos Raphael, Bartyra e do quase adolescente Samuel, fiquei viajando nas minhas memórias viajantes. Tantas!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 27 de novembro 2016
 


A Velhice de Cada Um

Minha mãe tem reclamado pelo nome das pessoas que conheceu na vida: “Cadê Lucinha? Trabalhou comigo na Saboaria Paraibana? Tão linda! E me chamava de Biscuit! E Josélio? Chegava ao Banco tão cedo. Elogiava meu sorriso. Minha com-postura! Meu Deus! Por onde anda toda essa gente que conheci e fez parte da minha vida? Sumiu todo mundo?”

Minha mãe tem reclamado que não tem amigas. Queria ter um punhado delas. Para sair para dançar. Perambular. Ir ao teatro. Ao cinema. Tomar café. Jogar conversa fora. “As paraibanas se anulam”, reclama do alto dos seus 89 anos e nascida em Itabuna-BA. Tendo visto as senhoras no além mundo, não se conforma com a reclusão dos velhos. O abandono dos velhos. A solidão dos velhos.

Minha mãe não quer mais saber dos dias. Se dana a dormir de dia, para ficar em alerta à noite. Ouvir o rádio bem alto. “A Rádio de Santa Rita que é boa! Toca música brega. Nelson Gonçalves e Roberto Carlos!” se gaba, e toda uma roedeira em busca de um passado/amores perdidos.

Minha mãe não ouve bem. E nós, aprendemos que, ficar sem esse sentido da audição é tão grave quanto a cegueira. Não se ouvindo, o mundo te percebe não somente surdo, mas também cego. Abstraído da vida. Não participa. Não pertence. Não sabe. Escuto, logo existo!

Minha mãe, quando passeia no carro, vai apontando para as casas das grandes avenidas da cidade e um novelo da memória se desenrola a partir do espaço urbano para o espaço afetivo. “Tá vendo aquela casa ali? Morava Dr. Fulano! E aquela outra? Uma figura conhecida. Tinha carro. Aliás, o único carro da cidade. Quando vinha buscar as filhas, todo mundo olhava. Quanta imponência.” Re-lembra a cada mangueira ou jambeiro clicado.

Minha mãe fala da vida. Da sua vida solitária, mas com os olhos bem abertos e excitados com a Praça João Pessoa, com seu coreto e os olhares dos rapazes. Diz que, bem que namorou! E muito. Não tem do que se queixar. Sonhou! Fez planos! E os seus doces enganos!

Minha mãe, pergunta tanto! É tão in-discreta! Quer saber de tudo o que perdeu, como se nos déssemos contas de tantas perdas. “Maria Dulce? Morreu? Nunca mais a vi. Também, não saio de casa! Dolores? Casou? Mora onde?” , indaga assim aos quatro ventos sem resposta.

Minha mãe faz do passado a sua vida do presente. Os velhos não tem presente. Sim, pode ser triste! A estrada tomada lá atrás é quem faz o percurso diário. Ninguém quer ouvir um velho. Ninguém se interessa por um velho a não ser para lhe objetificar: “tão bonitinha! Tão charmosinha! Tão vaidosinha!”. Minha mãe detesta diminutivos. É como se ela não fizesse mais parte dos substantivos, nem dos verbos nem dos adjetivos que denotam força, vida e poder. Os inhos de uma fragilidade mórbida à toda prova, à toda parte, à toda margem! Insuportável!

Minha mãe faz palavras cruzadas. Muitas. E vibra com as delícias das dificuldades dos sinônimos. Lê os jornais e faz perguntas. Cozinha sua farofa mágica. Não tem mais apetite para grandes almoços, nem acha graça em vinho seco. Gosta dos suaves e doces. E cerveja todo dia no almoço. E seu sono está sempre por outros lugares. Em vigília!

Difícil lidar com o velho! Um problema satisfazer um velho! Ando pensando no tempo. Nas limitações e em o quanto humilde temos que ser para aceitar. Aceitar. E aceitar! A impossibilidade da autonomia. A dificuldade de locomoção. O isolamento. E a perda do seu mundo que, com certeza desmanchou-se no ar. Os amigos ou morreram, ou estão num outro lugar, que nem sempre é aqui. Fico a imaginar a sua cidade como uma cidade fantasma, onde só e somente ela, vaga atordoada pelos cantos. Sem referência alguma. Cadê a missa aos domingos? Cadê minha rua? Minha casa? E as minhas circunstâncias? Os costumes? Distantes como um mar de léguas. Hoje com o mundo digital então, whatsapp e facebook, minha mãe não tem como se conectar. Não posta, não curte e nem compartilha. Detesta celular e TV fechada. Se perde nos botões e tudo parece vir do mundo da lua. Se consome em veias abertas de uma mão única sem volta. Esperar a morte? Ninguém sabe dessa espera. Outro dia, um médico querido disse-lhe que era “um fenômeno”. Guardou isso como que um mantra. E repetia e repetia alegremente. Mas depois, esse mesmo médico lhe disse que estava “na finitude”. Ficou horrorizada, afinal, isso não é coisa que se diga! Finitos somos todos, mas aos quase 90 queremos virar dinossauros. Outro mantra! O veneno da velhice, e pragueja!

Confesso que não tenho gostado muito do que vejo. E ando me ensimesmando a respeito. Afinal? Qual seria o segredo da velhice compadecida, humilde, leve, e abnegada e sem vitimização e azedumes? Com a nossa população vivendo tanto, pouco se conhece dessa nada boa idade, e menos ainda, se tem de políticas e prazeres públicos para os velhos.

E de fenômenos em fenômenos, e de finitudes em finitudes, vamos todas nós, num aprendizado diário com esse tempo chamado de Velhice. Afinal estamos todos já ou quase lá!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 18 de abril,2017
 


Maria Maria

...Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria (Maria Maria, Milton Nascimento)


"Onde vive a mulher Selvagem? No fundo do poço, nas nascentes, no éter no início dos tempos. Ela está na lágrima e no oceano. Está no câmbio das árvores, que zune à medida que cresce. Ela vem do futuro e do início dos tempos. ...Ela vive no verde que surge através da neve; nos caules farfalhantes do milho seco do outono; ali onde os mortos vêm ser beijados e para onde os vivos dirigem suas preces. ELA VIVE NO LUGAR ONDE É CRIADA A LINGUAGEM. ELA VIVE DA POESIA, DA PERCUSSÃO E DO CANTO."

No último sábado de carnaval, no Bloco Raparigas de Chico (Sebo Cultural), em meio a um monte de mulheres no palco, que cantavam “Joga Merda na Geni”, “A Banda”, e outras delícias do nosso Chico Buarque; e outras tantas que fantasiadas, dançavam no salão, eis que vi Maria. Fantasiada de alegria dela mesma, Maria estava toda pintada e deixava o corpo nu. Pulava, cantava, com uma espontaneidade e alegria e força e poder que, não é muito comum de se ver. As mulheres, por mais expostas que possam aparecer, essa exposição, raramente é de tamanha genuinidade. Aquilo me comoveu. Quando ouço música, essa alegria e poder também me inundam. Inda mais no Carnaval. Mas, Maria destoava de tudo e de todas. E o que vejo comumente? Muitas vezes uma alegria estudada, uma fantasia comportada, uma cachaça contida. Com o seu ar aborígene tabajara, Maria explodia. Maria Maria! Que uma vez Milton Nascimento cantou e virou hino de uma geração de mulheres que lutava pelos seus direitos. Maria Mulher! Cunhã! 8 de Março!

Ao me emocionar com a dança de Maria, imediatamente me lembrei do livro Mulheres Que Correm com os Lobos, de Clarissa Estés Pinkola, minha bíblia dos anos 90, e que tanto me elucidou e apaziguou, diante de questões existenciais. Na introdução das suas análises de mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, Pinkola pergunta: “O que é a Mulher Selvagem?”. E analisa: “Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, ela é a alma feminina. No entanto, ela é a origem do feminino...Ela é a força da vida-morte-vida; é a incubadora...é a vidência...fluentes no linguajar dos sonhos....Ela sussurra os sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la...Ela é ideias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito tempo. ... Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa ... Ela é quem se enfurece diante da injustiça. Ela é a que gira como uma roda enorme. É a criadora de ciclos. ELA É A RAIZ ESTRUMADA DE TODAS AS MULHERES”. Maria dançante e emplumada de colares coloridos, era a representação dessa mulher estrumada!

Conheci Maria (Maria Elza) nos anos 70. Fundou a Oficina Azul em Miramar, junto com seu hoje ex-marido, o Professor Paulo Adisse, e onde construiu sua família de filhos. A Oficina era um lugar de vanguarda. Abriu portas para outros depois, como o Parahyba Café, Felipéia, Casa FurtaCor. Mas, diferente desses outros posteriores, era um lugar transgressor, porque a época assim pedia. Eram os tempos da ditadura e abertura política. Estávamos todas desgrenhadas e de sovacos cabeludos. Lá, tinha moda, bebida, happenings, danças, e toda uma ebulição inquietante de frequentadores de professores universitários e funcionários, que nem eu viria a ser em 1980. Muita doidera, muita paz e amor, mas muita política dos costumes também. Um encontro azul, de liberdades e irreverências.

Anos depois Maria abriu o restaurante Oca (Av. Almirante Barroso), com toda a sua mentalidade orgânica, vegetariana, etc, que não tinha ainda o status que tem hoje. Adorava ir almoçar lá quando ia fazer compras na Mesbla. Aos poucos, os funcionários caretas e conservadores das instituições ao redor, advogados e gente mais bem comportada, descobriram os sabores das bardanas e das raízes da vida. Isso tudo, Bela Gil nem tinha nascido. Comer gergelim era preciso!
Maria se chamava Elza. Mas depois, de caminho em caminho, adotou o Maria. Confesso que tive e tenho dificuldades até hoje. Tamanha a força do seu nome, da sua pessoa. Não sou nem nunca fui tão próxima da sua vida. Mas sempre tive muito afeto nos abraços que nos enroscamos vida afora. Admiro-a. Pela simplicidade. Pelo seu comprometimento com a vida, talvez pelo contrário do que Pinkola Estés classifica: “A mulher moderna é um borrão de atividade”. Maria trabalha duramente, mas sem borrão. É folha inteira e branca, que com sua arte do existir e do fazer, vai colorindo os seus parágrafos.

Já comprei muito das suas roupas alternativas. Já trocamos de roupa. De pele, como as focas. Quem sabe! E gersal fresco e salgadinho também comprava. Maria foi pro mato. Voltou. Dançou a dança da chuva. Do fogo. É uma deusa. Uma mulher poderosa. Assim como os lobos, “tem percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e tem grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha”.

E nesse carnaval de tantas mulheres nuas e bombadas e empenadas/empanadas, ver uma mulher magra, seios à mostra, corpo de quem já tem a vida tatuada nos vincos e cabelos brancos, me deu uma dimensão – que sempre tive e tenho, de que, só embelezou ainda mais o meu pensamento e alguma certeza, se é que tenho alguma nessa vida, sobre o poder de um corpo que não cai! Tombar? Tombei! Como já canta a rosa choque Karol Conka

Uma vez, nos anos 80, numa Maratona de Biodança, com o Mestre Rolando Toro, de quem fui aluna durante alguns anos, fizemos um exercício de identidade que era assim: todos numa roda, seminus, gente de todos os tipos e formas e idades, e íamos ao meio da roda dizer o nosso nome. Na época, uma colega de mais de 50 anos, e eu tinha uns 30, com os peitos bem caídos (que qualquer mulher ligada à beleza institucionalizada, esconderia entre mil corpetes), o corpo bem marcado pelos anos, foi lá na frente, a passos largos e seguros, e disse de alto e bom tom: “Meu nome é Alícia!” Eu fiquei tão emocionada com tanta força e beleza que chorei! Se já tinha uma convicção sobre beleza feminina, corpo, tempo etc. (e eu era magra, e jovem), saí desse exercício sentindo o poder que a vida nos dá .

Eu também fui na roda dizer meu nome. E nunca me senti tão poderosa com meu corpo magro, seios pequenos, e um viço todo meu. Tal grito visceral, um grito da identidade of our own, não passava somente pelas dis-formas, mas mais pelas profundezas do nosso ser sem fim. Aqueles peitos volumosos e caídos e lindos, nunca mais me saíram da cabeça, nem nunca mais me deixaram embarcar na mercadoria do silicone do dia. Somos quem somos! Com nossas rugas, marcas e circunstâncias. E nosso Poder.

Pois, fossem os seios caídos de Alícia, ou os de Maria, pintados, soltos e dançantes, me trouxeram à tona essa força guerreira das mulheres, que a nossa sociedade de consumo urge em destruir, nos empurrando de goela abaixo padrões magros, empinados, fabricados e falsos e mortos!

“A arte é importante porque ela celebra as estações da alma, ou algum acontecimento trágico ou especial na trajetória da alma. A arte não é só para o indivíduo; não é só um marco da compreensão do próprio indivíduo. Ela é também um mapa para aqueles que virão depois de nós...O ofício de perguntar, o ofício de contar histórias, o ofício de ocupar as mãos – todos esses representam a criação de algo, e esse algo é a alma. Sempre que alimentamos a alma, ela garante a expansão.”

A imagem de Maria no carnaval me alimentou a alma e me fez celebrar minhas perguntas, minhas histórias e minha expansão, e com ela, eu homenageio às mulheres no dia 8 de março. A imagem da “ mulher que mora no final do tempo ou de “mulher que mora no fim do mundo”...ela é amiga e mãe de todas as que se perderam, de todas as que precisam aprender, de todas as que tem um enigma par resolver, de todas as que estão lá fora na floresta ou no deserto, vagando e procurando” . E de onde bradamos – Nenhuma à menos!

Obs: Todas as citações são de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 8 de março de 2017
 


The Crown

The Crown

The Crown é uma série de televisão anglo-americana criada e escrita por Peter Morgan para a Netflix. A série é uma história biográfica sobre a família real do Reino Unido. Foi vencedora do Globo de Ouro de melhor série dramática e também o Globo de Ouro de melhor atriz em série dramática para Claire Foy, no papel de Elizabeth II. A primeira temporada, que estreou em 4 de novembro de 2016, está disponível com 10 episódios. Peter Morgan, que escreveu o filme A Rainha, de 2006 escreve o roteiro com o diretor Stephen Daldry, de As Horas.

A história passeia pela vida da Rainha Elizabeth II, desde o tempo do seu pai, o Rei George VI, (imortalizado no Cinema por Colin Firth no filme, O discurso do rei), sua morte, a coroa que cai de repente na cabeça da filha mais velha, aos 24 anos?!, sua imaturidade, ingenuidade, not-ready para um fardo/peso/orgulho/reinado. Seu casamento, sua paixão por Philip, por cavalos e seu crescimento como mulher/pessoa/rainha.
A série é deslumbrante. Na reconstituição, na escolha dos atores, em especial para John Lithgow, no papel de Winston Churchill, e os seus mais de 50 tons de anos à frente da política Britânica. Tive oportunidade de visitar sua casa e jardins, e, assistindo à série, me transportei no tempo e espaço. E na beleza dos jardins Ingleses.

A monarquia Britânica sempre despertou fascínio no mundo. A nossa porção contos de fada é tomada de beijo pelo príncipe da Bela Adormecida, e entramos no conto da Cinderela com carruagens e tudo. Vivi esse reinado nas minhas fantasias, sempre lendo e acompanhando as notícias dos bastidores, os escândalos, a Princesa Diana, sua morte, seus filhos, William, casamentos, príncipes, etc. Ou nas visitas às redondezas do Palácio de Buckinham, Parque Saint James, e adjacências.

Na Série, gostei de conhecer a personalidade da Rainha, forte e bela, mas do que seus olhos cor de esmeralda. Enfrentou às fragatas, observou atenta às fanfarrices débeis do marido, acariciou seus cavalos, enfrentou sua mãe, avó, os ministros, o próprio Churchill, o glamour e competição da sua irmã Margareth, e todos os percalços que lhe apareciam por trás das inúmeras portas e corredores seculares. E se incomodou em não ter tido uma “proper education”. Cobra da mãe o por quê? E esta lhe responde que não precisava aprender nada mais, mas como se comportar e silenciar. Que nem eloquente precisava ser! Claro que ela interdiz, alegando que não quer ficar à sós com os estadistas e não saber falar de nada. Contrata um Tutor e pesquisa sobre o Presidente americano, Eisenhower, e política externa, Império, Colônias, Poder, e outras coisas que não fosse somente as crinas e rabos.

O humor Britânico é mostrado com requintes de ironia. Como na cena do cruzamento do cavalo preferido da Rainha com uma égua, nem muito atirada, nem muito recatada (ou do lar?!). A cena é toda intermediada entre a raiva e ciúme que o Príncipe Philip está do treinador de cavalos (antigo pretendente da Rainha), e uma linguagem nas entrelinhas entre, o sexo dos monarcas, e o das éguas, nos faz, literalmente, rinchar de rir!

Mas uma das minhas cenas preferidas foram as do Churchill sendo retratado pelo pintor – Graham Sutherland (interpretado pelo ator, Stephen Dillane, que também fez o magistral Mr. Leonard Woolf em As Horas). Aliás várias pitadas desse meu filme particular: Os Stephens- Daldry e Dillane; e indiretamente o ator que faz o dono do castelo na Escócia, para onde a Rainha Mãe vai descansar, é o mesmo que faz Richard Dalloway, marido de Mrs. Dalloway, no filme do mesmo nome.

No pintar o retrato de Churchill para a posteridade, inimaginável o diálogo que se estabelece entre o que seja um retrato?, aparências, verdade x ficção, o que mostrar ou não, o que fica na memória ou não, as cores, as pinceladas, os tons na palheta, as mãos, o charuto, as névoas da fumaça e da personalidade de alguém tão poderoso e que também pintava e entendia das nuances dos rascunhos e das telas em branco. Os dois ficam amigos, confidenciam perdas (das filhas: Sutherland perdeu um bebê de 2 meses, Churchill a sua Marigold, com poucos anos). E logo Sutherland, com seu silêncio perspicaz, descobre o segredo do Ministro. Havia pintado o lago de sua casa mais de vinte vezes. E todas as cartelas das cores estavam lá. Churchill se surpreende com a sutileza do comentário e confessa que o lago foi construído para Marigold. Toda a sua saudade, dor, e melancolia pela perda da menina enfim, retratada na descrição de um “Pond”. Que águas sombrias seriam essas? Cada um esconde o que pode, onde consegue. Mas o nosso inconsciente fala sozinho como ventríloquo, e a ele não podemos driblar.

Ao final, quadro pronto para a celebração dos 80 anos de Churchill, este não gosta do quadro. Está decadente, patético e feio, esbraveja. O real? Tudo o que não queria. E Sutherland então lhe diz bravamente: Mas isso tudo é o Senhor! Inclusive essa decadência e feiura. Nenhum pedido de renúncia pela oposição ou até mesmo da Rainha foi convincente para de fato Churchill o fazê-lo, mas ver-se retratado como um “Dorian Gray”, sem alma vendida , foi demais para homem tão poderoso. E Churchill renuncia ao se deparar com o que diz o poema de Cecília Meireles: Retrato- “Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios...” Aonde está o meu rosto? Ou tantos outros poemas que falam do rosto perdido nosso de cada um.
Como não relacionar também com um conto do também escritor Inglês, D. H. Lawrence – “The Horse Dealer´s Daughter”, uma pequena amostra da arte desse que sabia tanto falar das relações amorosas, da decadência dessas mesmas relações, da oposição do instinto x intelecto, do não vivido. Nesse conto também temos um certo lago de água parada, símbolo da morte, onde a protagonista tenta suicídio, mas que logo é salva para enfim viver um grand finale de entrega e paixão, para finalmente acontecer a epifania, elemento tão recorrente nos contos modernos.

Em The Crown, o espectador também se extasia com a exuberância e beleza da paisagem do countryside Britânico, dos cliffs e cores monocromáticas da costa Escocesa, seus castelos, e toda a pujança da décor dos palácios de reis e rainhas da segunda metade do Século XX. A continuação de The Crown já vem por aí, para, assim como outra série magnífica – Dowton Abbey – traçar não somente a monarquia Britânica, mas também o seu declínio, e suas transformações políticas e sociais que ocorreram no mundo e o surgimento de novos tempos.

Do lado de cá, ficamos sonhando. Não com rainhas mais. Mas com toda essa magia que essas estórias continuam nos assombrando.

Ana Adelaide Peixoto. João Pessoa 20 de fevereiro- 2017
 


Rita Lee: Uma Ovelha de Todas as Cores

“O Clube do Bolinha afirmava que para fazer rock “precisava ter culhão”, eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê.” (Rita Lee)

Conheci Rita Lee nos Mutantes. Ando meio desligado me pegou e nunca mais me des-conectei desse povo. Mas agora, lendo a sua autobiografia, reconheço que não acompanhei sua carreira musical. Curti muitos discos, CDs, até assisti ao show Babilônia no Rio de Janeiro e literalmente fui lá - na Babilônia de todas as tribos do Circo voador. Cantei e dancei Ovelha Negra, Lança Perfume, Pagu, Miss Brasil 2000, 2001, Panis et Circenses, Doce Vampiro, Mania de você, Baila comigo, Caso sério, Nem luxo nem lixo, Atlântida, Tudo vira bosta, Reza. Até hoje adoro o seu CD Bossa´N`Beatles, e achei hilária a sua irreverência de comentário, quando Yoko não autorizou uma música, pois , segundo Rita, deve ter traduzido ao pé da letra – Te amo pra xuxu! Para - I Love you for cucumber!! Até hoje gosto muito. E fui dançar num ano novo passado, nas areias de Tambaú, com a roqueira do cabelo vermelho mais alegrinha, recém saída de um auê em Aracaju.

Ler sua história é um mergulho na luta de uma mulher do rock, imersa nas drogas (lícitas e ilícitas), mas não só. NÂO! Uma menina tipicamente paulistana, mas que queria pular os muros da Vila Mariana para tocar guitarra e cuidar dos gatos nas horas vagas. Muitas notas num só rock! Sua vida vale um passeio! E por Sampa (sim! A música de Caetano), e de uma família bem paulistana, com pai, mãe, agregadas (Balú e Carú), irmãs (Virginia e Mary Lee), madrinhas, tias até mesmo um Jeep Willys, de nome “Charles”, etc. Um tal sobrado que toda a sua vida foi o seu chão, lugar para voltar, e chamado de lar. Rita foi e voltou mil vezes.

Foi à loucura/s várias; foi viver em comunidade psicodélica com os irmãos Mutantes, casamento meio doido, sumiços, etc. Mas sempre tendo como ponto de referência, sua mãe, Chesa, seu pai, Charles, seu room of her own, e claro, seus bichos. Muito tocante sua relação com os bichos. E não falo só de cachorro, mas de gato, e até cobra. Para loucura de quem com ela dividia a vida, Rita teve duas cobras criadas! Só de ler, saí correndo.Os nomes dos queridos, eram sempre nomes da situação em que vivia , fosse filosófica ou mundana: Pitágoras, Caca colo, Fuffy , Leonor!

Vim me aproximar mais dessa delícia de artista, no programa TV Mulher (Marília Gabriela), quando era figura tarimbada e mais recentemente quando fez Saia Justa, programa do GNT, que juntava quatro mulheres famosas e notórias no seu ofício para conversar sobre e das Mulheres. Mas como ela mesmo relata, era mais um alter-ego das outras participantes, e funcionava como ombudsman quando o assunto lhe chocava (geralmente natureza e bichos). Foi aí que descobri sua veia extremamente afiada e irônica. Mas uma ironia até certo modo infantil já que faz tanto uso dos diminutivos – “disquinho bacaninha”.

Sua irreverência na música, no vestir, no dizer, e no cantar, claramente passou para a sua autobiografia. Narrando os fatos da sua vida, Rita tem discurso próprio, como também inventa a Língua portuguesa, e consegue ser ácida até mesmo com as críticas:
“Vai Rita, vista sua guerrilheira do desbum e seja uma porra-louca feliz”

Domingo no Parque – Aqueles caras eram roquenrou pra caralho, pensei eu, ....transformei uma toalha indiana em túnica e vesti ozmano com capas pretas à La Beatles. Antes de entrar no palco com meus pratos, ainda deu tempo de desenhar com batom um coraçãozinho vermelho no rosto.”
“a primeira vaia a gente nunca esquece. Aliás, ser vaiado em festival de música brasileira para os Mutantes foi uma honra, afinal, éramos tudo o que os puristas escravocratas do violão e banquinho da MPB repudiavam como imperialismo colonizador. Militância bocejante.”
“Enquanto vocês se masturbam com a minha vida, eu vou ao banheiro queimar um baseado.”

E entre um rock e outro, Rita fala de Danny (cachorro amor amor), Hebe Camargo, Elis Regina , prisão, brigas, das manias (Nojinho, a ideia de fluidos alheios ao meu redor daria um bom nome de filme de terror: O ácaro que devorou a cantora. E o pânico quando avistava um pentelho desgarrado grudado no Box do chuveiro....); das idas aos hospícios/asilos/desintoxicações, viagens, de todos os tipos, dos músicos famosos que conheceu ou não (“Nelson Gonçalves aqui...então Ritinha, estou hospedado no mesmo hotel e pergunto se voe está a fim de cheirar umas lagartas de fuder as cartilagens?”), e tudo isso num português/inglês que só ela sabe como escrever. Dos vexames, do mercado da música : “Hoje, para um artista se dar bem, ele tem que vender a alma ao cartel empresarial, que por sua vez vende a alma ao cartel político, que vende a alma ao cartel da poderosa nova ordem mundial. Muito diabo pra pouco caldeirão.” ; de amigas malas!, “Estávamos sim anos-luz à frente do nosso tempo, pena a nossa alegria espontânea ter perdido para a falsa ilusão da glória passageira.

Rita fala dos seus homens, poucos, e do seu amor arrebatador por um certo Roberto: Ficar de quatro no ato. Seu amor à primeira vista, seu parceiro musical, seu limite, pai dos três filhos, e companheiro dos mundos e do cotidiano. Inúmeras músicas ela falou dessa paixão, do sexo com tesão, das brigas e pazes, do carinho incondicional, e de todo o amor que houver nessa vida.

O livro é recheado de fotos lindas e cronológicas – família, lanços, colares de pérolas , melindrosas, batizados, praia, meinhas, chapéus, e organdis, James Dean, primeira comunhão, hóstia mordida, loirice caseira, Beatles, Nossa Senhora Aparecida, cílios desenhados de caneta, Tutti Frutti, botas roubadas da Biba, ficha de polícia, bebês, Doce de pimenta, Gil Jiló, R & R in Love. Grávida de Juca! (adorei!), Azmina, vaca sagrada leiteira! Fumando conchas.

Rita Lee é feminista sim, e também crítica ao movimento. Passeia pelo direito das mulheres. Fala de tantas coisas das nossas conquistas. Beleza, solidão, questões de gênero, mas claro, com sua ironia própria , sua brincadeirinhas afiadas, e por vezes nem tanto: “ Nenhuma mulher faz aborto sorrindo. Cabe a elas, e somente a elas, a decisão de interromper uma gravidez, assim como de segurar sozinhas as consequências moral, espiritual e oskimbau. Me refiro ao “sagrado feminino”, de nós meninas que temos um buraco a mais no corpo para administrar, do nosso universo complexo demais para machos, religiosos e políticos meterem o bico, esses para os quais prevalecem mais o direito do feto que ainda nem nasceu ao da mãe que não deseja pari-lo por motivos que não nos cabe julgar, psicológicos, econômicos, neurológicos, até mesmo espirituais”.

“Cor-de-rosa-choque- hino das fêmeas planetárias com sotaque brazuquês. Sendo assim, usei e abusei de palavras-chaves como Eva, menstruação, sexto sentido, gata borralheira, dondoca, sexo frágil, mulher é bicho esquisito, todo mês sangra. Eu lá diante da mulher-tailleurzinho-cinza-soviètico, defendendo a tese: Sabe quando a senhora antes de menstruar sente uma esquisitice hormonal e meio que dá uma pirada? Vulgo TPM”

Rita Lee não economiza com as suas próprias questões ou abismos. Não tem pudor em se definir, se criticar, se apontar e se redimir: ” o anjinho de procissão que mordeu a hóstia, o menino baiano que tomou um porre na fazenda da tia, a fanática pelos Beatles que assistiu A Hard Day´s Night dezesseis vezes seguidas sem sair do cinema, a rebelada que fugia pela janela para tocar bateria, a hippie comunista que não trancou matrícula na USP, a que foi presa grávida, a mãe do Beto e do Juca. Estava explicado por que a filha, thank God, não foi ser freira nem dentista.”

É direta e sem subterfúgios: “Não saber quando parar is my middle name. Não demorei a entrar no palco já babando, muitas vezes nocauteada antes do bis, para alegria dos jornais locais sensacionalistas. Se naquele tempo tivesse internet, certamente eu não sairia dos trending topics. #PloftCaiu”

“Sim, é um clichê. Sou mais uma a dizer que o lugar onde mais me sentia em casa era no palco. Lá somos bem mais porretas do que fora dele. ...O altar do palco é viciante, o lugar mais seguro para se viver perigosamente.”

“Sei que ainda há quem me veja malucona, doidona, porra-louca, maconheira, droguística, alcoólatra e lisérgica , ...confesso que vivi essas e outras tantas, mas não faço a ex-vedete-neo-religiosa, apenas encontrei um barato ainda maior: a mutante virou meditante.”

“Uma das coisas que mais me dão prazer é fazer o que não devo, tipo fumar na frente de quem faz campanha anticigarro. Não é tarde para ser o que eu deveria ter sido. Eis-me aqui, uma pós-famosa anônima observando os macro e micro-omniversos dentro e fora de mim.”

Lendo sua história é ler um pouco da nossa também. Lembrar dos Festivais de Música, da ditadura, da censura, e tantos episódios tristes. E até nesse quesito ela é ímpar , sem perder o humor jamais: “Censura, Solange, mudança das letras – tunnel of Love – Doris Day.”

E é humana, demasiadamente humana, quando fala das suas perdas dos entes queridos: beijo na boca no morto, roquinrriu! Bocejos, birinaites, cupins chupins, fundo do poço, Rita cachaceira, Ó céus!

Quanto à velhice, é implacável e meiga quando fala da neta, razão pela qual re-viu seus mergulhos na loucura das drogas e deu um basta. Seu ultimo hospício – Ziza, a neta. Ser avó uma droga melhor e mais orgânica como sempre foi . Aliás viveu sempre nessa dualidade entre o saudável, fosse da forma de viver e se relacionar, e o jogar merda no ventilador e se danar. Equação muito difícil de se administrar. Mas que, os seus cabelos de fogo, agora brancos e assumidos, foram sempre a sua força de Sansão. Ziza foi amor intra-uterino e o afeto e afagos dessa menina, fizeram da avó uma ovelha, mas mesclada de pele/penugem branquinha das velhinhas que querem bem à vida: “Aquela cena manjada da celebridade vetusta solitária e saudosa de sua juventude não era minha praia, nem lamentar que os bons tempos não voltam mais, menos ainda tentar exibir boa forma em público com plásticas e botoxes para me dizer viva. Envelhecer com bom humor e uma boa dose de sarcasmo não é para maricas. Sempre dei mais valor à dignidade de uma Hilda Hilst do que àquelas em busca da fonte da juventude que não percebem o tempo como aliado da feitiçaria feminina.”

E não tem dó nem piedade em se despedir dela mesma, quando isso vier a acontecer: “Santa Rita de Sampa, em homenagem a mim mesma, que havia passado pelos quintos do s infernos e ressuscitado direto para o céu, minha definitiva autocanonização, uma respeitosa e esculhambada adoração à imagem da padroeira dos frascos e comprimidos.”

Rita conseguiu se despedir dos frascos, das drogas lícitas e das agonias. Agora é só cabelo branco (belíssima a foto na cotra-capa do livro), distância (dos palcos), e reclusão (mora longe de Sampa, numa terra toda sua), rodeada de bichos, amor e os seus setenta anos de vida. Não é pouco!

Ana Adelaide Peixoto – Janeiro 2017