Viajar no século XX – como era assustadora a minha ignorância!

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio — com toda a sua empolgação e seus paradoxos — quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos — ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir — embora a arte de viajar pareça evocar naturalmente uma série de questionamentos nem tão simples ou triviais, cuja análise poderia contribuir, de forma modesta, para uma compreensão daquilo que os filósofos gregos chamavam lindamente de eudaimonia, ou desabrochar humano".( A Arte de Viajar – Alain de Botton)

Outro dia, conversando com sobrinhos recém chegados de Florença onde moraram por um ano (pós graduação), e ouvindo eles a falar de viagem e todas as facilidades de hoje, (Alugar carro, blogs, GPS, mapas, reservas antecipadas, etc), fiquei a pensar como era viajar no século passado, antes de se ter a vida digital. E assim do nada, comecei a contar estórias pitorescas e me dei conta de que eu sou um ser em extinção, e naqueles tempos, era louca e aventureira, aliás o mundo, por se lançar nos mapas, sem mapas ou quaisquer senso de orientação, não era para qualquer um, inda mais uma!

Lembrei de quando fui a primeira vez à Europa, em 1975, para estudar Inglês em Londres. Depois de um mês, fui viajar por Paris, Estrasburgo, Zurique, Berna, Lucern, Roma, Florença, Barcelona e Lisboa. Tudo isso em dois meses de voos, trens, ônibus e sonhos. Como não tínhamos roteiro pré-estabelecido (somente uma passagem aérea bem grossa em papel, travels cheques e um passaporte não válido para Cuba!), tudo era pelo mapa da intuição ou conhecimento prévio de jovens curiosos.

Tão pouco tínhamos o savoir fair de viajar, mas na precariedade da experiência, tínhamos muitas malas. Não resisti aos mercados londrinos e me enchi de túnicas indianas de espelhinhos! O companheiro de viagem, de livros de arte e pincéis e tintas e papel couché. Aprendi aí que, não se pode andar com tantas malas! Deixávamos essas benditas no aeroporto e numa malinha fazíamos as mudas para aqueles 5/6 dias nos lugares. Era inverno, então imaginem nesses tempos a aventura o que era vestir pulovers emprestados das primas, casacos que nem sempre estavam na moda, e gorros ridículos! Mas, o conforto era preciso. Por conta dessa operação aeroporto, sempre chegávamos horas antes dos voos para poder trocar as mudas de roupa suja com as limpas. Sim , lavamos roupa na pia do hotel, com sabão de coco que minha mãe cuidadosamente me indicava. Uma vez, queimei um suéter lindo emprestado porque tinha colocado-o para secar no aquecedor do quarto. Cada uma! Pela falta de dinheiro, sempre escolhíamos a hora dos voos em hora de almoço ou jantar....filar a boia era preciso. Nos voos da Pan Air!

Viajar era para os fortes, e a vida toda os governos me dificultara à vida. Nessa viagem mesmo, existia uma lei que tínhamos que depositar 12.000 Cruzeiros por um ano no banco. E depois disso, com a inflação galopante, perdíamos tudo. As quantias eram parcas e por isso em Paris, era Crepe Suzette sempre com uma taça de vinho e nada de água ou café...Numa noite extravagante – um prato de frutos do mar, com os mariscos saltitantes e uma taça de vinho branco. Éramos pobres e sabíamos!

Chegávamos na cidade, íamos à estação de ônibus (porque era onde se tinha hotéis mais baratos), fazíamos check in, e depois de ter o mapa da cidade, escolhíamos os locais de visita e imaginávamos quantos dias seriam suficientes para aquele programa. Aí vinha a operação mais complicada. Fazer as contas de quanto dinheiro iríamos precisar. Em tempos de Libra, Franco Francês, Suiço, Lira, Pesos e Escudos, tínhamos que entender de câmbio para não trocar demais nem de menos, inda mais com as moedas – sempre gastávamos as restantes no aeroporto com chocolate, mas sempre, tínhamos prejuízo com aquelas que teimavam em não comprar nada e viravam souvenir nas gavetas. O dinheiro era curtíssimo, e comíamos na maioria das vezes nas estações de trem. Lembro que, em Zurique, filávamos a boia dos ferroviários, um PF barato e bom. Só não tínhamos os macacões. E quando passeávamos nas Strasses, a contemplar os Trams, a distinção de classe era gritante. Aquele povo chique de casacos de peles, e nós com nossas roupinhas caseiras e disformes. Mas o desejo de conhecer o mundo era tanto, que tudo era pouco diante da felicidade de jogar moedas na Fontana de Trevi, sentar nas Boulevards de Paris, ou saborear um éclair pelas ruelas medievais de Estrasburgo. Virávamos os lugares pelo avesso. Museus, praças, livrarias, Mercados das Pulgas (para enlouquecer), um crepe ali, uma taça acolá, uma sopa de cebola, uma oração na Catedral Westminster, um assobio em Roma, um beijo na ponte de Florença. Tudo me dilatava a pupila. Com ou sem moeda local!

E sem mapa, nem planejamento prévio, nos lançávamos no abismo do desconhecido. Na Suiça, subimos até Greendwald, os Alpes Suiços, e por estar vestidos inadequadamente, ficamos cegos diante da luminosidade da neve; não tínhamos conhecimento cultural daquelas cidades e por vezes descartávamos programas importantes; fiquei boquiaberta diante de uma paisagem de inverno em Interlaken – Montanhas nevadas, lagos e pinheiros iguais aos calendários que mamãe pendurava na cozinha. Em Berna, me senti um brinquedo de filme de Pinóquio; em Lisboa fui ao cabeleireiro e fiz um permanente; em Roma comprei um óculos para me parecer com Sophia Loren ; em Londres um casaco jeans comprido que me dava um ar grunge e alternativo. Nada de Galeria Lafayette; nada de marcas; nada de make up; nada de nada. Quando entrei na Harrods em Londres, senti-me amiga da Rainha! E saí por aquelas portas giratórias imaginando uma vida de princesa. Mas a minha terminava logo ali. Mas , na Ponte de Waterloo, eu olhava para a Torre de Londres e pensava em Ana Bolena. Minhas aulas de História do Lyceu de Tambiá! E de scone em scone eu seguia pelo mundo, sem lenço e sem documento e sem nenhuma organização maior para me lançar nos espaços alhures e quem sabe intuir o tamanho desse mundo.

Entrei em muitas roubadas viajando no século passado. E também em estórias pitorescas: encontrei Paul & Linda McCartney nas calçadas de Bristol; dormi num quarto comunitário para caixeiros viajantes em Cuzco-Peru; meu ônibus engalhou numa ribanceira em Chichicastenango na Guatemala, e entrei em pânico achando que iria cair das alturas: avistei um ciclone por essas mesmas estradas; tomei vinho Alsaciano em Calmar; peguei metrôs de madrugada em Londres para buscar cunhado (Sérgio Tavares) na estação de Vitória Station, e tive medo de encontrar Jack, o estripador; subi as colinas em Pisa-Peru, e andei de carona na boleia de caminhão junto às Cholitas e aquele francês lindo com um chapéu mais lindo ainda; passei um ano novo nos Alpes Suiços (Goretti & Alain Antille), tomando quentão com pão feito pelos esquiadores que, com suas tochas, anunciavam o ano gelado! Comi marmota, um bichinho peludo que tem pele luxuosa para casacos; dancei muito nas noites Londrinas nos clubbers dos anos 70 e tantas coisitas...; fiquei muda no Sena e diante do Arco do Triunfo; Place de Vosges! Os vitrais da Catedral de Chartres; as rezas das mesquitas em Istambul; o Mar Egeu das Ilhas Gregas e meu topless of my own em Mikonos – Zorba era eu! Com Moussaka e Tzazique na mesa e octopus grelhado; meu espanto nas águas do Bósphorus; minha loucura no Grand Bazaar e todas as granadas e véus – meu saruel de florzinhas! Meu passeio de burro pelas ladeirinhas abissais da Ilha de Ios, Santorini! E suas ruelas brancas e igrejinhas azuis; as cerâmicas eróticas que compramos no México – Puebla, Antígua, pirâmides e um certo anel de ônix e Lápis-lazúli.

A minha bagagem gigante sempre vinha abarrotada de cartões, mapas, souvenirs de tickets e outras lembranças das casas de escritores, quadros famosos, ou música flamenca! Um vidrinho de curry, um chá breakfast , uma matrioska de Praga e o desejo de voltar em tantas cidades divinas e maravilhosas. Cidades que eu não tinha mapa nem direção, somente o olhar, o sentir, o perder pelas ruelas de Veneza e avistar uma gôndola acolá. Anônima Veneziana eu era!

Hoje, quando vejo as viagens, excursões e tantos planejamentos, fico a lembrar, até com uma certa nostalgia, o acaso que era se lançar no mundo. Ficar sem notícias de casa, dos medos de que alguém morresse na minha ausência ( e morreram muitos!), do olhar arregalado do meu pai vendo aquela menina que gostava dos países, das línguas e do des-conhecido para além de Goiana.

Ao término da conversa com meus sobrinhos Raphael, Bartyra e do quase adolescente Samuel, fiquei viajando nas minhas memórias viajantes. Tantas!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 27 de novembro 2016
 


A Velhice de Cada Um

Minha mãe tem reclamado pelo nome das pessoas que conheceu na vida: “Cadê Lucinha? Trabalhou comigo na Saboaria Paraibana? Tão linda! E me chamava de Biscuit! E Josélio? Chegava ao Banco tão cedo. Elogiava meu sorriso. Minha com-postura! Meu Deus! Por onde anda toda essa gente que conheci e fez parte da minha vida? Sumiu todo mundo?”

Minha mãe tem reclamado que não tem amigas. Queria ter um punhado delas. Para sair para dançar. Perambular. Ir ao teatro. Ao cinema. Tomar café. Jogar conversa fora. “As paraibanas se anulam”, reclama do alto dos seus 89 anos e nascida em Itabuna-BA. Tendo visto as senhoras no além mundo, não se conforma com a reclusão dos velhos. O abandono dos velhos. A solidão dos velhos.

Minha mãe não quer mais saber dos dias. Se dana a dormir de dia, para ficar em alerta à noite. Ouvir o rádio bem alto. “A Rádio de Santa Rita que é boa! Toca música brega. Nelson Gonçalves e Roberto Carlos!” se gaba, e toda uma roedeira em busca de um passado/amores perdidos.

Minha mãe não ouve bem. E nós, aprendemos que, ficar sem esse sentido da audição é tão grave quanto a cegueira. Não se ouvindo, o mundo te percebe não somente surdo, mas também cego. Abstraído da vida. Não participa. Não pertence. Não sabe. Escuto, logo existo!

Minha mãe, quando passeia no carro, vai apontando para as casas das grandes avenidas da cidade e um novelo da memória se desenrola a partir do espaço urbano para o espaço afetivo. “Tá vendo aquela casa ali? Morava Dr. Fulano! E aquela outra? Uma figura conhecida. Tinha carro. Aliás, o único carro da cidade. Quando vinha buscar as filhas, todo mundo olhava. Quanta imponência.” Re-lembra a cada mangueira ou jambeiro clicado.

Minha mãe fala da vida. Da sua vida solitária, mas com os olhos bem abertos e excitados com a Praça João Pessoa, com seu coreto e os olhares dos rapazes. Diz que, bem que namorou! E muito. Não tem do que se queixar. Sonhou! Fez planos! E os seus doces enganos!

Minha mãe, pergunta tanto! É tão in-discreta! Quer saber de tudo o que perdeu, como se nos déssemos contas de tantas perdas. “Maria Dulce? Morreu? Nunca mais a vi. Também, não saio de casa! Dolores? Casou? Mora onde?” , indaga assim aos quatro ventos sem resposta.

Minha mãe faz do passado a sua vida do presente. Os velhos não tem presente. Sim, pode ser triste! A estrada tomada lá atrás é quem faz o percurso diário. Ninguém quer ouvir um velho. Ninguém se interessa por um velho a não ser para lhe objetificar: “tão bonitinha! Tão charmosinha! Tão vaidosinha!”. Minha mãe detesta diminutivos. É como se ela não fizesse mais parte dos substantivos, nem dos verbos nem dos adjetivos que denotam força, vida e poder. Os inhos de uma fragilidade mórbida à toda prova, à toda parte, à toda margem! Insuportável!

Minha mãe faz palavras cruzadas. Muitas. E vibra com as delícias das dificuldades dos sinônimos. Lê os jornais e faz perguntas. Cozinha sua farofa mágica. Não tem mais apetite para grandes almoços, nem acha graça em vinho seco. Gosta dos suaves e doces. E cerveja todo dia no almoço. E seu sono está sempre por outros lugares. Em vigília!

Difícil lidar com o velho! Um problema satisfazer um velho! Ando pensando no tempo. Nas limitações e em o quanto humilde temos que ser para aceitar. Aceitar. E aceitar! A impossibilidade da autonomia. A dificuldade de locomoção. O isolamento. E a perda do seu mundo que, com certeza desmanchou-se no ar. Os amigos ou morreram, ou estão num outro lugar, que nem sempre é aqui. Fico a imaginar a sua cidade como uma cidade fantasma, onde só e somente ela, vaga atordoada pelos cantos. Sem referência alguma. Cadê a missa aos domingos? Cadê minha rua? Minha casa? E as minhas circunstâncias? Os costumes? Distantes como um mar de léguas. Hoje com o mundo digital então, whatsapp e facebook, minha mãe não tem como se conectar. Não posta, não curte e nem compartilha. Detesta celular e TV fechada. Se perde nos botões e tudo parece vir do mundo da lua. Se consome em veias abertas de uma mão única sem volta. Esperar a morte? Ninguém sabe dessa espera. Outro dia, um médico querido disse-lhe que era “um fenômeno”. Guardou isso como que um mantra. E repetia e repetia alegremente. Mas depois, esse mesmo médico lhe disse que estava “na finitude”. Ficou horrorizada, afinal, isso não é coisa que se diga! Finitos somos todos, mas aos quase 90 queremos virar dinossauros. Outro mantra! O veneno da velhice, e pragueja!

Confesso que não tenho gostado muito do que vejo. E ando me ensimesmando a respeito. Afinal? Qual seria o segredo da velhice compadecida, humilde, leve, e abnegada e sem vitimização e azedumes? Com a nossa população vivendo tanto, pouco se conhece dessa nada boa idade, e menos ainda, se tem de políticas e prazeres públicos para os velhos.

E de fenômenos em fenômenos, e de finitudes em finitudes, vamos todas nós, num aprendizado diário com esse tempo chamado de Velhice. Afinal estamos todos já ou quase lá!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 18 de abril,2017
 


Maria Maria

...Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria (Maria Maria, Milton Nascimento)


"Onde vive a mulher Selvagem? No fundo do poço, nas nascentes, no éter no início dos tempos. Ela está na lágrima e no oceano. Está no câmbio das árvores, que zune à medida que cresce. Ela vem do futuro e do início dos tempos. ...Ela vive no verde que surge através da neve; nos caules farfalhantes do milho seco do outono; ali onde os mortos vêm ser beijados e para onde os vivos dirigem suas preces. ELA VIVE NO LUGAR ONDE É CRIADA A LINGUAGEM. ELA VIVE DA POESIA, DA PERCUSSÃO E DO CANTO."

No último sábado de carnaval, no Bloco Raparigas de Chico (Sebo Cultural), em meio a um monte de mulheres no palco, que cantavam “Joga Merda na Geni”, “A Banda”, e outras delícias do nosso Chico Buarque; e outras tantas que fantasiadas, dançavam no salão, eis que vi Maria. Fantasiada de alegria dela mesma, Maria estava toda pintada e deixava o corpo nu. Pulava, cantava, com uma espontaneidade e alegria e força e poder que, não é muito comum de se ver. As mulheres, por mais expostas que possam aparecer, essa exposição, raramente é de tamanha genuinidade. Aquilo me comoveu. Quando ouço música, essa alegria e poder também me inundam. Inda mais no Carnaval. Mas, Maria destoava de tudo e de todas. E o que vejo comumente? Muitas vezes uma alegria estudada, uma fantasia comportada, uma cachaça contida. Com o seu ar aborígene tabajara, Maria explodia. Maria Maria! Que uma vez Milton Nascimento cantou e virou hino de uma geração de mulheres que lutava pelos seus direitos. Maria Mulher! Cunhã! 8 de Março!

Ao me emocionar com a dança de Maria, imediatamente me lembrei do livro Mulheres Que Correm com os Lobos, de Clarissa Estés Pinkola, minha bíblia dos anos 90, e que tanto me elucidou e apaziguou, diante de questões existenciais. Na introdução das suas análises de mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, Pinkola pergunta: “O que é a Mulher Selvagem?”. E analisa: “Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, ela é a alma feminina. No entanto, ela é a origem do feminino...Ela é a força da vida-morte-vida; é a incubadora...é a vidência...fluentes no linguajar dos sonhos....Ela sussurra os sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la...Ela é ideias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito tempo. ... Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa ... Ela é quem se enfurece diante da injustiça. Ela é a que gira como uma roda enorme. É a criadora de ciclos. ELA É A RAIZ ESTRUMADA DE TODAS AS MULHERES”. Maria dançante e emplumada de colares coloridos, era a representação dessa mulher estrumada!

Conheci Maria (Maria Elza) nos anos 70. Fundou a Oficina Azul em Miramar, junto com seu hoje ex-marido, o Professor Paulo Adisse, e onde construiu sua família de filhos. A Oficina era um lugar de vanguarda. Abriu portas para outros depois, como o Parahyba Café, Felipéia, Casa FurtaCor. Mas, diferente desses outros posteriores, era um lugar transgressor, porque a época assim pedia. Eram os tempos da ditadura e abertura política. Estávamos todas desgrenhadas e de sovacos cabeludos. Lá, tinha moda, bebida, happenings, danças, e toda uma ebulição inquietante de frequentadores de professores universitários e funcionários, que nem eu viria a ser em 1980. Muita doidera, muita paz e amor, mas muita política dos costumes também. Um encontro azul, de liberdades e irreverências.

Anos depois Maria abriu o restaurante Oca (Av. Almirante Barroso), com toda a sua mentalidade orgânica, vegetariana, etc, que não tinha ainda o status que tem hoje. Adorava ir almoçar lá quando ia fazer compras na Mesbla. Aos poucos, os funcionários caretas e conservadores das instituições ao redor, advogados e gente mais bem comportada, descobriram os sabores das bardanas e das raízes da vida. Isso tudo, Bela Gil nem tinha nascido. Comer gergelim era preciso!
Maria se chamava Elza. Mas depois, de caminho em caminho, adotou o Maria. Confesso que tive e tenho dificuldades até hoje. Tamanha a força do seu nome, da sua pessoa. Não sou nem nunca fui tão próxima da sua vida. Mas sempre tive muito afeto nos abraços que nos enroscamos vida afora. Admiro-a. Pela simplicidade. Pelo seu comprometimento com a vida, talvez pelo contrário do que Pinkola Estés classifica: “A mulher moderna é um borrão de atividade”. Maria trabalha duramente, mas sem borrão. É folha inteira e branca, que com sua arte do existir e do fazer, vai colorindo os seus parágrafos.

Já comprei muito das suas roupas alternativas. Já trocamos de roupa. De pele, como as focas. Quem sabe! E gersal fresco e salgadinho também comprava. Maria foi pro mato. Voltou. Dançou a dança da chuva. Do fogo. É uma deusa. Uma mulher poderosa. Assim como os lobos, “tem percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e tem grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha”.

E nesse carnaval de tantas mulheres nuas e bombadas e empenadas/empanadas, ver uma mulher magra, seios à mostra, corpo de quem já tem a vida tatuada nos vincos e cabelos brancos, me deu uma dimensão – que sempre tive e tenho, de que, só embelezou ainda mais o meu pensamento e alguma certeza, se é que tenho alguma nessa vida, sobre o poder de um corpo que não cai! Tombar? Tombei! Como já canta a rosa choque Karol Conka

Uma vez, nos anos 80, numa Maratona de Biodança, com o Mestre Rolando Toro, de quem fui aluna durante alguns anos, fizemos um exercício de identidade que era assim: todos numa roda, seminus, gente de todos os tipos e formas e idades, e íamos ao meio da roda dizer o nosso nome. Na época, uma colega de mais de 50 anos, e eu tinha uns 30, com os peitos bem caídos (que qualquer mulher ligada à beleza institucionalizada, esconderia entre mil corpetes), o corpo bem marcado pelos anos, foi lá na frente, a passos largos e seguros, e disse de alto e bom tom: “Meu nome é Alícia!” Eu fiquei tão emocionada com tanta força e beleza que chorei! Se já tinha uma convicção sobre beleza feminina, corpo, tempo etc. (e eu era magra, e jovem), saí desse exercício sentindo o poder que a vida nos dá .

Eu também fui na roda dizer meu nome. E nunca me senti tão poderosa com meu corpo magro, seios pequenos, e um viço todo meu. Tal grito visceral, um grito da identidade of our own, não passava somente pelas dis-formas, mas mais pelas profundezas do nosso ser sem fim. Aqueles peitos volumosos e caídos e lindos, nunca mais me saíram da cabeça, nem nunca mais me deixaram embarcar na mercadoria do silicone do dia. Somos quem somos! Com nossas rugas, marcas e circunstâncias. E nosso Poder.

Pois, fossem os seios caídos de Alícia, ou os de Maria, pintados, soltos e dançantes, me trouxeram à tona essa força guerreira das mulheres, que a nossa sociedade de consumo urge em destruir, nos empurrando de goela abaixo padrões magros, empinados, fabricados e falsos e mortos!

“A arte é importante porque ela celebra as estações da alma, ou algum acontecimento trágico ou especial na trajetória da alma. A arte não é só para o indivíduo; não é só um marco da compreensão do próprio indivíduo. Ela é também um mapa para aqueles que virão depois de nós...O ofício de perguntar, o ofício de contar histórias, o ofício de ocupar as mãos – todos esses representam a criação de algo, e esse algo é a alma. Sempre que alimentamos a alma, ela garante a expansão.”

A imagem de Maria no carnaval me alimentou a alma e me fez celebrar minhas perguntas, minhas histórias e minha expansão, e com ela, eu homenageio às mulheres no dia 8 de março. A imagem da “ mulher que mora no final do tempo ou de “mulher que mora no fim do mundo”...ela é amiga e mãe de todas as que se perderam, de todas as que precisam aprender, de todas as que tem um enigma par resolver, de todas as que estão lá fora na floresta ou no deserto, vagando e procurando” . E de onde bradamos – Nenhuma à menos!

Obs: Todas as citações são de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 8 de março de 2017
 


The Crown

The Crown

The Crown é uma série de televisão anglo-americana criada e escrita por Peter Morgan para a Netflix. A série é uma história biográfica sobre a família real do Reino Unido. Foi vencedora do Globo de Ouro de melhor série dramática e também o Globo de Ouro de melhor atriz em série dramática para Claire Foy, no papel de Elizabeth II. A primeira temporada, que estreou em 4 de novembro de 2016, está disponível com 10 episódios. Peter Morgan, que escreveu o filme A Rainha, de 2006 escreve o roteiro com o diretor Stephen Daldry, de As Horas.

A história passeia pela vida da Rainha Elizabeth II, desde o tempo do seu pai, o Rei George VI, (imortalizado no Cinema por Colin Firth no filme, O discurso do rei), sua morte, a coroa que cai de repente na cabeça da filha mais velha, aos 24 anos?!, sua imaturidade, ingenuidade, not-ready para um fardo/peso/orgulho/reinado. Seu casamento, sua paixão por Philip, por cavalos e seu crescimento como mulher/pessoa/rainha.
A série é deslumbrante. Na reconstituição, na escolha dos atores, em especial para John Lithgow, no papel de Winston Churchill, e os seus mais de 50 tons de anos à frente da política Britânica. Tive oportunidade de visitar sua casa e jardins, e, assistindo à série, me transportei no tempo e espaço. E na beleza dos jardins Ingleses.

A monarquia Britânica sempre despertou fascínio no mundo. A nossa porção contos de fada é tomada de beijo pelo príncipe da Bela Adormecida, e entramos no conto da Cinderela com carruagens e tudo. Vivi esse reinado nas minhas fantasias, sempre lendo e acompanhando as notícias dos bastidores, os escândalos, a Princesa Diana, sua morte, seus filhos, William, casamentos, príncipes, etc. Ou nas visitas às redondezas do Palácio de Buckinham, Parque Saint James, e adjacências.

Na Série, gostei de conhecer a personalidade da Rainha, forte e bela, mas do que seus olhos cor de esmeralda. Enfrentou às fragatas, observou atenta às fanfarrices débeis do marido, acariciou seus cavalos, enfrentou sua mãe, avó, os ministros, o próprio Churchill, o glamour e competição da sua irmã Margareth, e todos os percalços que lhe apareciam por trás das inúmeras portas e corredores seculares. E se incomodou em não ter tido uma “proper education”. Cobra da mãe o por quê? E esta lhe responde que não precisava aprender nada mais, mas como se comportar e silenciar. Que nem eloquente precisava ser! Claro que ela interdiz, alegando que não quer ficar à sós com os estadistas e não saber falar de nada. Contrata um Tutor e pesquisa sobre o Presidente americano, Eisenhower, e política externa, Império, Colônias, Poder, e outras coisas que não fosse somente as crinas e rabos.

O humor Britânico é mostrado com requintes de ironia. Como na cena do cruzamento do cavalo preferido da Rainha com uma égua, nem muito atirada, nem muito recatada (ou do lar?!). A cena é toda intermediada entre a raiva e ciúme que o Príncipe Philip está do treinador de cavalos (antigo pretendente da Rainha), e uma linguagem nas entrelinhas entre, o sexo dos monarcas, e o das éguas, nos faz, literalmente, rinchar de rir!

Mas uma das minhas cenas preferidas foram as do Churchill sendo retratado pelo pintor – Graham Sutherland (interpretado pelo ator, Stephen Dillane, que também fez o magistral Mr. Leonard Woolf em As Horas). Aliás várias pitadas desse meu filme particular: Os Stephens- Daldry e Dillane; e indiretamente o ator que faz o dono do castelo na Escócia, para onde a Rainha Mãe vai descansar, é o mesmo que faz Richard Dalloway, marido de Mrs. Dalloway, no filme do mesmo nome.

No pintar o retrato de Churchill para a posteridade, inimaginável o diálogo que se estabelece entre o que seja um retrato?, aparências, verdade x ficção, o que mostrar ou não, o que fica na memória ou não, as cores, as pinceladas, os tons na palheta, as mãos, o charuto, as névoas da fumaça e da personalidade de alguém tão poderoso e que também pintava e entendia das nuances dos rascunhos e das telas em branco. Os dois ficam amigos, confidenciam perdas (das filhas: Sutherland perdeu um bebê de 2 meses, Churchill a sua Marigold, com poucos anos). E logo Sutherland, com seu silêncio perspicaz, descobre o segredo do Ministro. Havia pintado o lago de sua casa mais de vinte vezes. E todas as cartelas das cores estavam lá. Churchill se surpreende com a sutileza do comentário e confessa que o lago foi construído para Marigold. Toda a sua saudade, dor, e melancolia pela perda da menina enfim, retratada na descrição de um “Pond”. Que águas sombrias seriam essas? Cada um esconde o que pode, onde consegue. Mas o nosso inconsciente fala sozinho como ventríloquo, e a ele não podemos driblar.

Ao final, quadro pronto para a celebração dos 80 anos de Churchill, este não gosta do quadro. Está decadente, patético e feio, esbraveja. O real? Tudo o que não queria. E Sutherland então lhe diz bravamente: Mas isso tudo é o Senhor! Inclusive essa decadência e feiura. Nenhum pedido de renúncia pela oposição ou até mesmo da Rainha foi convincente para de fato Churchill o fazê-lo, mas ver-se retratado como um “Dorian Gray”, sem alma vendida , foi demais para homem tão poderoso. E Churchill renuncia ao se deparar com o que diz o poema de Cecília Meireles: Retrato- “Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios...” Aonde está o meu rosto? Ou tantos outros poemas que falam do rosto perdido nosso de cada um.
Como não relacionar também com um conto do também escritor Inglês, D. H. Lawrence – “The Horse Dealer´s Daughter”, uma pequena amostra da arte desse que sabia tanto falar das relações amorosas, da decadência dessas mesmas relações, da oposição do instinto x intelecto, do não vivido. Nesse conto também temos um certo lago de água parada, símbolo da morte, onde a protagonista tenta suicídio, mas que logo é salva para enfim viver um grand finale de entrega e paixão, para finalmente acontecer a epifania, elemento tão recorrente nos contos modernos.

Em The Crown, o espectador também se extasia com a exuberância e beleza da paisagem do countryside Britânico, dos cliffs e cores monocromáticas da costa Escocesa, seus castelos, e toda a pujança da décor dos palácios de reis e rainhas da segunda metade do Século XX. A continuação de The Crown já vem por aí, para, assim como outra série magnífica – Dowton Abbey – traçar não somente a monarquia Britânica, mas também o seu declínio, e suas transformações políticas e sociais que ocorreram no mundo e o surgimento de novos tempos.

Do lado de cá, ficamos sonhando. Não com rainhas mais. Mas com toda essa magia que essas estórias continuam nos assombrando.

Ana Adelaide Peixoto. João Pessoa 20 de fevereiro- 2017
 


Rita Lee: Uma Ovelha de Todas as Cores

“O Clube do Bolinha afirmava que para fazer rock “precisava ter culhão”, eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê.” (Rita Lee)

Conheci Rita Lee nos Mutantes. Ando meio desligado me pegou e nunca mais me des-conectei desse povo. Mas agora, lendo a sua autobiografia, reconheço que não acompanhei sua carreira musical. Curti muitos discos, CDs, até assisti ao show Babilônia no Rio de Janeiro e literalmente fui lá - na Babilônia de todas as tribos do Circo voador. Cantei e dancei Ovelha Negra, Lança Perfume, Pagu, Miss Brasil 2000, 2001, Panis et Circenses, Doce Vampiro, Mania de você, Baila comigo, Caso sério, Nem luxo nem lixo, Atlântida, Tudo vira bosta, Reza. Até hoje adoro o seu CD Bossa´N`Beatles, e achei hilária a sua irreverência de comentário, quando Yoko não autorizou uma música, pois , segundo Rita, deve ter traduzido ao pé da letra – Te amo pra xuxu! Para - I Love you for cucumber!! Até hoje gosto muito. E fui dançar num ano novo passado, nas areias de Tambaú, com a roqueira do cabelo vermelho mais alegrinha, recém saída de um auê em Aracaju.

Ler sua história é um mergulho na luta de uma mulher do rock, imersa nas drogas (lícitas e ilícitas), mas não só. NÂO! Uma menina tipicamente paulistana, mas que queria pular os muros da Vila Mariana para tocar guitarra e cuidar dos gatos nas horas vagas. Muitas notas num só rock! Sua vida vale um passeio! E por Sampa (sim! A música de Caetano), e de uma família bem paulistana, com pai, mãe, agregadas (Balú e Carú), irmãs (Virginia e Mary Lee), madrinhas, tias até mesmo um Jeep Willys, de nome “Charles”, etc. Um tal sobrado que toda a sua vida foi o seu chão, lugar para voltar, e chamado de lar. Rita foi e voltou mil vezes.

Foi à loucura/s várias; foi viver em comunidade psicodélica com os irmãos Mutantes, casamento meio doido, sumiços, etc. Mas sempre tendo como ponto de referência, sua mãe, Chesa, seu pai, Charles, seu room of her own, e claro, seus bichos. Muito tocante sua relação com os bichos. E não falo só de cachorro, mas de gato, e até cobra. Para loucura de quem com ela dividia a vida, Rita teve duas cobras criadas! Só de ler, saí correndo.Os nomes dos queridos, eram sempre nomes da situação em que vivia , fosse filosófica ou mundana: Pitágoras, Caca colo, Fuffy , Leonor!

Vim me aproximar mais dessa delícia de artista, no programa TV Mulher (Marília Gabriela), quando era figura tarimbada e mais recentemente quando fez Saia Justa, programa do GNT, que juntava quatro mulheres famosas e notórias no seu ofício para conversar sobre e das Mulheres. Mas como ela mesmo relata, era mais um alter-ego das outras participantes, e funcionava como ombudsman quando o assunto lhe chocava (geralmente natureza e bichos). Foi aí que descobri sua veia extremamente afiada e irônica. Mas uma ironia até certo modo infantil já que faz tanto uso dos diminutivos – “disquinho bacaninha”.

Sua irreverência na música, no vestir, no dizer, e no cantar, claramente passou para a sua autobiografia. Narrando os fatos da sua vida, Rita tem discurso próprio, como também inventa a Língua portuguesa, e consegue ser ácida até mesmo com as críticas:
“Vai Rita, vista sua guerrilheira do desbum e seja uma porra-louca feliz”

Domingo no Parque – Aqueles caras eram roquenrou pra caralho, pensei eu, ....transformei uma toalha indiana em túnica e vesti ozmano com capas pretas à La Beatles. Antes de entrar no palco com meus pratos, ainda deu tempo de desenhar com batom um coraçãozinho vermelho no rosto.”
“a primeira vaia a gente nunca esquece. Aliás, ser vaiado em festival de música brasileira para os Mutantes foi uma honra, afinal, éramos tudo o que os puristas escravocratas do violão e banquinho da MPB repudiavam como imperialismo colonizador. Militância bocejante.”
“Enquanto vocês se masturbam com a minha vida, eu vou ao banheiro queimar um baseado.”

E entre um rock e outro, Rita fala de Danny (cachorro amor amor), Hebe Camargo, Elis Regina , prisão, brigas, das manias (Nojinho, a ideia de fluidos alheios ao meu redor daria um bom nome de filme de terror: O ácaro que devorou a cantora. E o pânico quando avistava um pentelho desgarrado grudado no Box do chuveiro....); das idas aos hospícios/asilos/desintoxicações, viagens, de todos os tipos, dos músicos famosos que conheceu ou não (“Nelson Gonçalves aqui...então Ritinha, estou hospedado no mesmo hotel e pergunto se voe está a fim de cheirar umas lagartas de fuder as cartilagens?”), e tudo isso num português/inglês que só ela sabe como escrever. Dos vexames, do mercado da música : “Hoje, para um artista se dar bem, ele tem que vender a alma ao cartel empresarial, que por sua vez vende a alma ao cartel político, que vende a alma ao cartel da poderosa nova ordem mundial. Muito diabo pra pouco caldeirão.” ; de amigas malas!, “Estávamos sim anos-luz à frente do nosso tempo, pena a nossa alegria espontânea ter perdido para a falsa ilusão da glória passageira.

Rita fala dos seus homens, poucos, e do seu amor arrebatador por um certo Roberto: Ficar de quatro no ato. Seu amor à primeira vista, seu parceiro musical, seu limite, pai dos três filhos, e companheiro dos mundos e do cotidiano. Inúmeras músicas ela falou dessa paixão, do sexo com tesão, das brigas e pazes, do carinho incondicional, e de todo o amor que houver nessa vida.

O livro é recheado de fotos lindas e cronológicas – família, lanços, colares de pérolas , melindrosas, batizados, praia, meinhas, chapéus, e organdis, James Dean, primeira comunhão, hóstia mordida, loirice caseira, Beatles, Nossa Senhora Aparecida, cílios desenhados de caneta, Tutti Frutti, botas roubadas da Biba, ficha de polícia, bebês, Doce de pimenta, Gil Jiló, R & R in Love. Grávida de Juca! (adorei!), Azmina, vaca sagrada leiteira! Fumando conchas.

Rita Lee é feminista sim, e também crítica ao movimento. Passeia pelo direito das mulheres. Fala de tantas coisas das nossas conquistas. Beleza, solidão, questões de gênero, mas claro, com sua ironia própria , sua brincadeirinhas afiadas, e por vezes nem tanto: “ Nenhuma mulher faz aborto sorrindo. Cabe a elas, e somente a elas, a decisão de interromper uma gravidez, assim como de segurar sozinhas as consequências moral, espiritual e oskimbau. Me refiro ao “sagrado feminino”, de nós meninas que temos um buraco a mais no corpo para administrar, do nosso universo complexo demais para machos, religiosos e políticos meterem o bico, esses para os quais prevalecem mais o direito do feto que ainda nem nasceu ao da mãe que não deseja pari-lo por motivos que não nos cabe julgar, psicológicos, econômicos, neurológicos, até mesmo espirituais”.

“Cor-de-rosa-choque- hino das fêmeas planetárias com sotaque brazuquês. Sendo assim, usei e abusei de palavras-chaves como Eva, menstruação, sexto sentido, gata borralheira, dondoca, sexo frágil, mulher é bicho esquisito, todo mês sangra. Eu lá diante da mulher-tailleurzinho-cinza-soviètico, defendendo a tese: Sabe quando a senhora antes de menstruar sente uma esquisitice hormonal e meio que dá uma pirada? Vulgo TPM”

Rita Lee não economiza com as suas próprias questões ou abismos. Não tem pudor em se definir, se criticar, se apontar e se redimir: ” o anjinho de procissão que mordeu a hóstia, o menino baiano que tomou um porre na fazenda da tia, a fanática pelos Beatles que assistiu A Hard Day´s Night dezesseis vezes seguidas sem sair do cinema, a rebelada que fugia pela janela para tocar bateria, a hippie comunista que não trancou matrícula na USP, a que foi presa grávida, a mãe do Beto e do Juca. Estava explicado por que a filha, thank God, não foi ser freira nem dentista.”

É direta e sem subterfúgios: “Não saber quando parar is my middle name. Não demorei a entrar no palco já babando, muitas vezes nocauteada antes do bis, para alegria dos jornais locais sensacionalistas. Se naquele tempo tivesse internet, certamente eu não sairia dos trending topics. #PloftCaiu”

“Sim, é um clichê. Sou mais uma a dizer que o lugar onde mais me sentia em casa era no palco. Lá somos bem mais porretas do que fora dele. ...O altar do palco é viciante, o lugar mais seguro para se viver perigosamente.”

“Sei que ainda há quem me veja malucona, doidona, porra-louca, maconheira, droguística, alcoólatra e lisérgica , ...confesso que vivi essas e outras tantas, mas não faço a ex-vedete-neo-religiosa, apenas encontrei um barato ainda maior: a mutante virou meditante.”

“Uma das coisas que mais me dão prazer é fazer o que não devo, tipo fumar na frente de quem faz campanha anticigarro. Não é tarde para ser o que eu deveria ter sido. Eis-me aqui, uma pós-famosa anônima observando os macro e micro-omniversos dentro e fora de mim.”

Lendo sua história é ler um pouco da nossa também. Lembrar dos Festivais de Música, da ditadura, da censura, e tantos episódios tristes. E até nesse quesito ela é ímpar , sem perder o humor jamais: “Censura, Solange, mudança das letras – tunnel of Love – Doris Day.”

E é humana, demasiadamente humana, quando fala das suas perdas dos entes queridos: beijo na boca no morto, roquinrriu! Bocejos, birinaites, cupins chupins, fundo do poço, Rita cachaceira, Ó céus!

Quanto à velhice, é implacável e meiga quando fala da neta, razão pela qual re-viu seus mergulhos na loucura das drogas e deu um basta. Seu ultimo hospício – Ziza, a neta. Ser avó uma droga melhor e mais orgânica como sempre foi . Aliás viveu sempre nessa dualidade entre o saudável, fosse da forma de viver e se relacionar, e o jogar merda no ventilador e se danar. Equação muito difícil de se administrar. Mas que, os seus cabelos de fogo, agora brancos e assumidos, foram sempre a sua força de Sansão. Ziza foi amor intra-uterino e o afeto e afagos dessa menina, fizeram da avó uma ovelha, mas mesclada de pele/penugem branquinha das velhinhas que querem bem à vida: “Aquela cena manjada da celebridade vetusta solitária e saudosa de sua juventude não era minha praia, nem lamentar que os bons tempos não voltam mais, menos ainda tentar exibir boa forma em público com plásticas e botoxes para me dizer viva. Envelhecer com bom humor e uma boa dose de sarcasmo não é para maricas. Sempre dei mais valor à dignidade de uma Hilda Hilst do que àquelas em busca da fonte da juventude que não percebem o tempo como aliado da feitiçaria feminina.”

E não tem dó nem piedade em se despedir dela mesma, quando isso vier a acontecer: “Santa Rita de Sampa, em homenagem a mim mesma, que havia passado pelos quintos do s infernos e ressuscitado direto para o céu, minha definitiva autocanonização, uma respeitosa e esculhambada adoração à imagem da padroeira dos frascos e comprimidos.”

Rita conseguiu se despedir dos frascos, das drogas lícitas e das agonias. Agora é só cabelo branco (belíssima a foto na cotra-capa do livro), distância (dos palcos), e reclusão (mora longe de Sampa, numa terra toda sua), rodeada de bichos, amor e os seus setenta anos de vida. Não é pouco!

Ana Adelaide Peixoto – Janeiro 2017
 


Dias de Abandono

Para Monica Rique, quem me apresentou Elena


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumí¬nio e espelhos monótonos;... (O amor acaba, Paulo Mendes Campos)

Escrever de verdade é falar do fundo do ventre materno. Virar a página, Olga, começar de novo.(Dias de Abandono, Elena Ferrante)

Esse é o título de um dos sucessos editoriais da escritora Italiana Elena Ferrante, pseudônimo de uma festejada autora que nunca mostrou o rosto, nem sequer deu pistas da sua identidade. Ao contrário do movimento das mulheres e a literatura e a luta pela autoria, Elena não quer saber disso. Ao contrário, mergulha num mistério do anonimato e assim segue com sua A amiga genial e História do novo sobrenome, História da menina perdida e outros sucessos.
Comprei esse exemplar pelo título e assunto. “Depois de quinze anos de casamento, Olga é abandonada por Mario. Presa ao cotidiano estilhaçado com dois filhos, um cachorro e nenhum emprego, ela se recusa a assumir o papel da poverella (a pobre mulher abandonada). Essa opção a projeta num turbilhão de obsessões, angústias e ímpetos violentos, capazes de afastar Olga do fato de que as derrotas precisam ser assumidas para que a vida possa enfim seguir adiante “ Com essa orelha, foi difícil resistir.

Sou de uma geração que rompeu o conservadorismo do casamento institucional e primeiro se separou. Não que antes os casais não se separassem, mas era um perdido. Separar era tabu e muitos pais diziam: “Filha minha não separa. Filha minha fica viúva!”. Gracias a La vida o meu pai não era assim. Pelo contrário, acolhimento era o seu tom. Racionalismo! E em primeiro lugar, a felicidade das filhas. Na minha casa, quase todas se separaram.

Separei-me do meu primeiro marido, quando tinha 25 anos. Muito jovem para tudo. Mais ainda para uma ruptura tão gigante. A geração antes da minha, na maioria, ficou nos casamentos, fossem eles bons ou ruins. Felizes ou infelizes, se é que podemos defini-los assim. A minha chutou o pau da barraca. Eram os anos setenta, e a explosão dos costumes, principalmente os sexuais, davam o tom. Queríamos tudo. Estar casada e experimentar outras coisas, inclusive amores. Casamento aberto. Amizade Colorida. Tinha que dar em merda. E falo de sofrimento. Perdição. Perdas e Danos, como depois constatei nesse belo e apavorante filme de Louis Malle. No filme entendi quase tudo. Fazemos e somos responsáveis por nossas escolhas. Mesmo que inconfessáveis!

A geração de hoje se separa porque querem contos de fadas; a saber desde a festa de casamento. A minha queria igualdade, parceria, amor incondicional, e muita muita simbiose amorosa. A vida é muito mais complexa que isso. Amor e sexo , então!!! Daí nos separamos para cair na gandaia, no poço sem fundo, no agito, na busca frenética, no sexo livre, enfim, para atolar os dois pés nas jacas todas, sem olhar para trás. Nos demos mal? No casamento não . Fomos felizes enquanto durou. O Depois? Acho que vivemos coisas delirantes e irreversíveis. E isso bastou. Ou não. Uns se perderam. Outros se acharam. Não necessariamente nessa equação. Um enigma, talvez. A decifrar.

Ao ler Elena e seu abandono, muito me identifiquei. Principalmente com sua linguagem crua, e seus ímpetos violentes. Os vivi todos. E como Olga, a protagonista do Abandono, também senti que “a banalidade da vida tem um tom extraordinário, misterioso.” Também confessei minhas fragilidades, meus ciúmes exacerbados, meus medos, minha inveja insuportável, e minhas vergonhas alucinantes. Também vivi dias trancafiada em casa. Bebi todas as cachaças. Pensei todas as loucuras. Vi várias auroras, luzes sorumbáticas. Perdi-me várias vezes. Muitos pesadelos, obsessões, saudades doidas e doídas!

Assim como Olga, também senti-me em armadilhas tantas e nenhuma reparação. Meus desejos? Em falta!: “Que decisão injusta, unilateral. Soprar ao vento o passado como um inseto feio, pousado na palma da mão. O meu passado, não somente o seu, tinha chegado a este desmanche. ....Desse jeito, na confusão da vida ao deus-dará, eu estava definhando, murchando, estava seca como uma concha vazia numa praia no verão. E naquelas longas horas fui a sentinela da dor, velei junto à multidão de palavras mortas.”

Olga, sozinha e com os filhos que a culpam, a xingam, adoecem, ficam em casa no verão, sem férias e com toda a raiva dela e da vida a fazem entrar num êxtase de definhamento. Leva o pastor alemão , Otto, para passear no parque, dedetiza a casa, cachorro adoece, vomita, tem espasmos, morre, assim como ela que, sozinha e silenciosamente também tem os seus refluxos de sangue, repulsa, des-orientação e abandono. Vi-me em Olga. Acho que muitas de nós fomos Olga algum dia. Na revolução sexual dos anos 70 também jogamos a toalha, perdemos, achamos, vivenciamos, ouvimos Hurricane de Dylan, em êxtases, e, sentamos no meio fio das calçadas mornas das madrugadas da praia, e choramos.

Quando uma vez avistei o meu Mario na calçadinha, assim como Olga, presenciei que: “No seu corpo, no seu rosto, não havia vestígio da nossa ausência. Enquanto eu carregava em mim – só de leve me tocou o seu olhar e tive certeza – todos os sinais do sofrimento, ele não conseguia esconder os do bem-estar, talvez de felicidade.” Insuportável certas imagens!

Como Olga tinha 38 anos, seu marido fala que tinha medo das horas e que dormir com ela na mesma cama sentia como um relógio – “um medidor de vida que vai embora deixando um rastro de angústia”. Olga pergunta então raivosa: “então quer dizer que dormindo comigo você se sentia envelhecer? A morte, você, a meia na minha bunda, como era gostosa antes e como tinha ficado agora?...” De bundas e vozes, uma performance que Olga se pergunta: “Quantas mulheres não conseguem abrir mão da encenação da voz infantil. Eu tinha desistido imediatamente, com dez anos eu já procurava um tom adulto. Nem nos momentos de amor eu fazia o papel da menininha. Uma mulher é uma mulher.”

Olga começa então a ouvir as estórias que a mãe contava – A da Mulher Abandonada, sem amor que morriam vivendo. Olga foge desse estereótipo e procura vida no desamparo e mesmo no desengano. Avista um vizinho estranho, o Sr. Carrano,e com ele se entrega numa ação ácida e de mau hálito e gosto. Onde só sua língua caspenta tem peso. Uma saída, um beco escuro que na solidão extrema, quem já não se aventurou?

Olga diz que não sabe gritar – “as palavras caem por perto de mim como pedrinhas jogadas pela mão de uma criança”. Já eu, gritei muito com Pink Floyd. Tanto tanto e tão entregue à outras dimensões da consciência perdida que, um dia acordei nas areias do Cabo Branco. Em um outro, me vi nua num chuveiro em Baía Formosa, tomando pinga 31 com D. Regina, D. Vandete, peixe frito peixe frito. Todos estavam inebriados a cantar alguma música brega. E o meu coração bobo e o bombo de Alceu, uma vez aqui e outra acolá me devolviam o prumo. Forte, tentei ser. Mas uma vez, assim como Olga, também vi flying sources in the Sky. Jogava-me nas almofadas da sala até adormecer sem saber muito onde estava o real e a ficção. “ah! A virtude de uma bunda dura” bradava Olga. Também devo de ter tido esses brados nada retumbantes!

Em toda e qualquer separação, há o sentimento de raiva e frustração pelo tempo perdido, tentando construir algo que aparentemente se dissolve no ar. Mas nada se perde! Somos o que vivemos , o que perdemos, inclusive o que não vivemos, segundo Maria Rita Kehl e sua “teoria do esquecimento”. No abandono, contemplamos de camarote tudo aquilo que era a nossa vida ir se realizar no quintal de outro. Olga pensa sobre isso: “Eu tinha tirado um tempo que era meu para somá-lo ao seu e fazê-lo então mais potente. Eu tinha posto de lado as minhas aspirações para acompanhar as suas. Para cada crise de desconforto dele, eu tinha estancado as minhas crises para poder confortá-lo. Eu tinha me perdido nos seus minutos, nas suas horas, para que ele se concentrasse. Eu tinha cuidado da casa, da comida, dos filhos, eu tinha me ocupado de todas as chatices da sobrevivência do cotidiano, enquanto ele escalava teimosamente o declive da nossa origem sem privilégios. E agora, agora ele me largava carregando consigo todo aquele tempo toda aquela energia, todos aqueles sacrifícios ....de uma hora para outra, para gozar os frutos com outra, uma estranha que não tinha mexido um dedo para pari-lo, nutri-lo e fazer com que ele se tornasse o que era. Parecia-me uma ação tão injusta,....” Essa fala enlutada e rancorosa de Olga é sim pequena, mas legítima quando pensamos nas milhares de mulheres que silenciaram seus mais profundos desejos em nome do casamento e da família, e quando são largadas, perdem o bonde, a capacitação, o mercado de trabalho e o pior, perdem a si mesmas.

Sentimentos de perda de identidade, des-amparo, de solidão profunda, nos rodeiam. Assim também como Olga, um dia me perguntei: “Que fim tinha levado a mulher que eu tinha imaginado ser quando era adolescente? Compartilhei com Olga esse ser dissolvido em um nada, tabula rasa! Alguém que teria sido construído a partir de um outro que não eu. “Quem sou Eu?”, vira sim um mantra. E a triste constatação de que não existimos como indivíduo, mas como um casal, essa entidade limitada e asfixiante: ”Que mistura complicada e espumosa é um casal. Embora a relação quebre e se desfaça, ela continua a agir por vias secretas, não morre, não quer morrer.” Essa é a grande e maior arapuca! A entidade não desaparece. Por vezes, nunca! E os amigos que foram do casal, não sabem mais o que fazer com aquela entidade que se rompeu. Perdemos o marido, a casa, a simbiose de dois seres a procura de uma unidade impossível, e perdemos os amigos! E no meio de tantas perdas – Olga conclui: “É ruim o círculo do dia vazio, quando a noite se enrola no pescoço como um nó.”

E quando encontramos um ex- explodindo com a sua acintosa felicidade, só um pensamento-tormenta nos persegue: “Agora que o vejo me parece que aquela intimidade não pertence a ele, seja de outro que o substituiu, talvez a memória de um pesadelo da minha adolescência, talvez a fantasia de olhos abertos de uma mulher desfeita. Onde estou? Em que mundo me abismei, em que mundo reemergi? A qual vida voltei? Com qual objetivo?. ” Fecha a cena! A cortina! O sonho! E a vida tem sim dessas exigências. Corremos atrás dela , pois!

Um palmo à frente é quase um infortúnio pensar. O futuro então! Só o passado nos ofusca. Olga tem tonturas ao pensar sobre isso: “O futuro – pensei – será todo assim, a vida viva junto ao cheiro úmido da terá dos mortos, a atenção com a desatenção, os saltos entusiastas do coração junto às quedas bruscas de significado. Mas não será pior do que o passado.”

Juntar os cacos, re-fazer-se, re-inventar-se, Começar de novo, como tantas vezes cantei com Ivan Lins. Diante dos filhos então, Olga tem urgência: “Queria ser eu, se essa fórmula ainda tivesse algum sentido. Ou pelo menos queria ver o que permanecia em mim, uma vez que o houvesse retirado.”

Todas um dia fomos as mulheres quebradas! E como é difícil ver a vida inteira quando crescemos acreditando no amor romântico que tudo salva, tudo consegue e toda felicidade conquista. Do nada, temos que acreditar que a vida é bela, que a vida segue, que existem outras possibilidades, amorosas inclusive. Aquela amputação terá cura. Outro braço não vai nascer, mas uma outra dinâmica é urgente se mergulhar. Eu, eu e eu! Pensava. Olga, se alegra: “Aquela noite, quando Mario foi embora, voltei a ler as páginas em que Anna Karenina está próxima de morrer, folheei aquelas páginas que falava de mulheres quebradas. Lia e no entanto sentia-me segura, eu não era mais como aquelas senhoras das páginas, não as sentia como uma voragem que me sugava. Me dei conta de que tinha até sepultado em algum lugar a mulher abandonada da minha infância...a pobre coitada voltou a ser como uma foto antiga, passado petrificado, sem sangue.”

Na maldição do amor romântico, nos iludimos; achamos ter sido escolhidas porque alguém morre de amor por nós. Eu não vivo sem você! Escutamos! E nos enchemos de orgulho e vaidade. Qual nada! Olga é crua: “Somos ocasiões. Consumimos e perdemos a vida porque um qualquer, em tempos longínquos, por vontade de descarregar o pau dentro de nós, foi gentil, nos escolheu entre as mulheres” . A realidade é tão crua quanto Olga! Olga sabe disso: “Não, pensei apertando o pano de chão e levantando-me com dificuldade; o futuro , de certo ponto em diante, é somente a necessidade de viver o passado. Refazer imediatamente os tempos verbais”.

No auge do abandono, Olga se vê no completo não existir, que se traduz no não reagir , não estimar por si, e claro que isso também tem uma significação no corpo. Pessoas tristes e des-amparadas não se cuidam. “Quanto mais choro mais passo batom”, fala o poema de Vitória Lima, numa justaposição dessas forças antagônicas. Cuidar de si, é preciso! E Olga questiona: “Quando foi que eu perdi aquela força e teimosia da energia animal, talvez na adolescência. Agora estava num processo de volta ao selvagem, olhei meus tornozelos, minhas axilas, desde quando eu não me depilava, desde quando não me raspava? Eu, que até quatro meses atrás era só ambrosia e néctar.... Levitar. Queria sair do chão, queria que me visse suspensa em equilíbrio, elevada, como acontece com as coisas integralmente boas...Pensava a beleza como um esforço constante de apagamento da corporalidade.... Tornara-me uma esposa obsoleta, um corpo negligenciada, minha doença é só a vida feminina que ficou fora de uso.;;;meu rosto escorregou para fora do espelho.”

Ambrosia e néctar! Precisamos dessas palavras e desses sabores para seguirmos a vida! E quase todas nós mulheres, também um dia, tivemos nossos rostos escorregados para fora do espelho!

Ana Adelaide Peixoto – 05 de novembro 2016
 obs - Texto publicado no Correio das Artes - A União , 29/01/2017


O Que Está Por Vir

Conquanto o desejemos, podemos viver sem a felicidade. Esperamos para conquistá-la. Se a felicidade não vem, a esperança se prolonga e o charme da ilusão dura o mesmo tempo que a paixão que a causa. Assim, esse estado basta a si mesmo e a inquietude que ele traz é uma espécie de alegria que suplanta a realidade, talvez melhorando-a. Pena de quem não tem nada a desejar. Ele perde tudo aquilo que possui. Gostamos menos daquilo que obtemos do que daquilo que desejamos e ficamos felizes antes de realmente nos tornarmos. (Jean Jacques Rousseau_

Sou apaixonada por duas mulheres do Cinema Francês: Isabelle Huppert e Juliette Binoche. A primeira pela densidade e estranheza ruiva (desde o seu premiadíssimo A professora de piano e Oito Mulheres), a segunda, pelo mistério da beleza simples (A Liberdade é Azul, Perdas e Danos, Cópia Fiel). Recentemente assisti à Elle, que deu o prêmio de melhor atriz à Huppert, no recente Globo de Ouro 2016.

O título do filme em Francês – L`Avenir (França/Alemanha 2016 – Direção de Mia Hansen-Løve), perde a força de uma palavra só na tradução para nossa língua, O que está por vir; precisamos de uma frase inteira para designar o que uma só palavra já antecipa. A concisão faz diferença na força da língua.

Filme francês me encanta. Aparentemente não falam de nada e falam de tudo. Esse em particular fala de uma professora de filosofia, Nathalie, que vê sua vida passar por mudanças abruptas, numa idade que já se quer sombra e serenidade. O marido se envolve com outra mulher (nada mais previsível aos homens de meia idade e de casamentos longos); a mãe (uma personagem hilária que a consome de pedidos de socorro), e como uma ex-modelo, se debate contra a finitude, e que pede seu casaco de pele para melhorar do frio, e chama os bombeiros para apagar o fogo da sua solidão e desespero da velhice atordoada. Os filhos de Nathalie também partiram. E o seu melhor aluno, lhe faz críticas ideológicas e filosóficas. Mas Nathalie já não tem o arroubo da juventude para ficar filosofando em alemão! Na sala de aula no entanto, se preocupa em instigar os alunos a pensar.

No trabalho, Nathalie também se vê atropelada por outros tempos. O tempo do mercado! A editora em que edita seus ensaios encerra a parceria; a Escola lhe adverte com novos rumos, e os alunos estão fazendo barricadas. Mas Nathalie já viveu isso antes, em 68. Dejà vu! E ela sai em busca de si. E confessa: "Quando eu paro para pensar, meus filhos já saíram de casa, meu marido me abandonou, minha mãe morreu… Encontrei minha liberdade. Uma liberdade completa como nunca conheci. É incrível".

Fico intrigada de ver as casas dos professores em Paris – quanta simplicidade! Nathalie mora assim, se veste desprovida de qualquer supérfluo, cozinha uma ceia natalina frugal, – um frango com castanhas e só. Nada de tanto fuzuê como nós aqui no Natal e na vida. Nathalie anda de cá pra lá em Paris; trabalha, senta no parque, divaga, encontra o marido, passeia na Bretanha, molha os pés, mergulha, cuida das flores, olha no infinito.. Simples assim. E nesse olhar/viver como um flaneur, o espectador vai participando dos temas abordados no filme: separação na meia idade, ninho vazio, perdas, morte, re-encontro consigo mesma, liberdade, ter um gato de repente, e tantos outros assuntos mundanos ou não. Eis a vida! E a filosofia!

O filme é todo entrecortado de frases e pensamentos de Rousseau, Pascal, Schopenhauer, e tantos outros filósofos contemporâneos, que permeiam as estantes dos personagens, Aliás, a ausência do marido se faz notar, através dos espaços vazios nas estantes de Nathalie. Cada livro uma presença/uma falta! E ela fica indignada quando vê seus filósofos irem embora, inda mais aqueles livros onde ela própria deixou sua assinatura do tempo em anotações mais íntimas.

Quase em todo filme francês, e nesse não é diferente, os personagens são pragmáticos e céticos. Se perde, se trai, se morre, sem drama! Tudo faz parte da existência. O marido de Nathalie , que se chama Heinz (nome feio, segundo sua sogra), recebe da filha o ultimato – “tens uma amante, vai ter que escolher!” E ele escolhe, a amante. A mãe pede ajuda de madrugada, mais uma chantagem, e Nathalie diz: “não posso!” O aluno pergunta sobre re-fazer a vida amorosa e ela responde: “Não quero um velho à essa altura da vida, nem me interesso por um moço!” A mocinha lhe questiona sobre posição política e ela singelamente diz: “já vivi muito isso, agora não me interesso mais”. No cinema, assistindo ao filme Cópia Fiel, Nathalie sofre um assédio e se irrita : “Não estou interessada! Me deixa!” Ou seja, reações prontas e sem maiores tragédias. Fiquei a pensar como somos diferentes! E de como fazemos um dobrado para o nosso cotidiano tragicômico.

A trilha sonora do filme de arrepiar. Óperas! Woody Guthrie (fui apresentada pelo querido amigo Larry Vellani em Columbus Ohio, 1971) E o desfecho, com um coral cantando a música tema do filme Ghost – “Oh my Love, my Darling!!! Enquanto Nathalie cantarola Christmas Carols/Cantigas de Ninar para o neto recém nascido. Ao final, a cena plasma na sala de estar do seu apartamento, onde se tem uma ideia da domesticidade daquela família: almoço, neto, choro de bebê, ex-marido que visita, árvore de natal, gato que foi embora, enfim....mais um dia, somente um dia!

Saio do cinema querendo falar francês, filosofar, morar em Paris, passear nas montanhas da França, perambular pelos Jardins das Tuileries, pensar na vida em português mesmo, mas com certeza dizendo Bonjour! As francesas me seduzem. Huppert me encanta. E esse modelo de vida, que jamais será o meu ( não dá mais tempo), também me faz pensar na singeleza de que é feita a vida. Mas não só!

O que Está por Vir não é um filme filosófico, mas mora na filosofia. E não deixa de ter uma visão feminina e feminista, que faz dos silêncios subjetivos da personagem de Nathalie, quem sabe o seu mergulho interior, explícitos quando da sua caminhada sozinha pelo bosque , na montanha, ensimesmada com tudo o que lhe acolhe e lhe distancia no seu re-inventar-se tododiatodo. Não é à toa que o quinto longa-metragem de Mia Hansen-Løve foi premiado com o Urso de Prata de Melhor Direção no 66º Festival de Berlim.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 16 de janeiro 2017
 


Prós & Contras

Tenho dificuldade para...

Vender casa, tomar grandes decisões. Burocracia. Ir em repartições. Lidar com bichos, baratas, timbus, gato e cachorro. Ser prática e objetiva. Ter foco. Correria. Organizar e fazer planilhas. Saber o que fazer. Manter o carro limpo. Comprar o essencial. Pagar contas. Traçar metas. Ir ao centro para resolver pepinos. Fazer dieta. Não beber quando o médico proíbe. Fazer exercícios. Fazer exames. Enfrentar trânsito. Andar de elevador. De avião. Ficar sem ajudante. Cuidar do jardim , das caixas de gordura, de lâmpadas queimadas, do lixo que não passa. De começar coisas. De terminar coisas. De cuidar de idosos. De crianças. De todo mundo. De lidar com gripes e dengues. De ver a vida cor de rosa demais. Cinza demais. De perder pessoas queridas. De perder algo. De desapegar de bugigangas e papéis. Sempre acho que vou precisar. De me desfazer das coisas. De fazer economia. De não comprar o que quero. De comer fora de hora. De dormir pouco. De correr com as coisas. Fazer compras de Natal. Chamar o encanador, eletricista . De deixar a casa em ordem. De ter pastas com tags das contas. De fazer imposto de renda. ESocial. Comprar por internet. De entender de partidos políticos. De Eleições. Domingo à noite. Fazer programas infantis (quando os filhos eram pequenos), fazer programas em grupo toda hora, perder o controle. Morar no campo. Cheiros fortes. Comer carne. Desarrumar malas. Ler mapas. Ler manuais. Jogar Pokémon. Esperar pelos outros. A fé. Os Dogmas. Saber o que vou ser quando crescer? Quando adulta. Quando velha. Enfim...

Tenho facilidades para...

Não vender casa. Tomar pequenas decisões. Anarquia. Ser sonhadora e pensativa. Dispersão. Deixar tudo ir voando. Em não saber o que fazer. Em ter o carro sujo e cheio de coisas. Comprar o supérfluo. Adiar coisas. Ir ao Centro resolver coisinhas. Andar a esmo e depois me perder. Não fazer dieta . Beber cerveja gelada antes do almoço e vinho nas noites chuvosas. Ficar no sofá. Viajar sem pensar que estou no avião. Falar. Escrever. De ficar em silêncio horas. De ficar sozinha. De sair sozinha. De chorar. De rir. Lidar com serviçais, contanto que eu não tenha que faxinar e cozinhar todo dia. Cozinhar de quando em vez. De estar no meio das coisas começadas com dificuldade e sem saber como vão terminar. Novelas. Filmes. Livros. Cartas. Beijo na boca. De massagem – adoro que me toquem. De dormir de pijama e edredom. De garimpar coisas. De brechós. Antiques. De guardar tudo que acho interessante. De acumular coisas des-interessantes. De gastar. De comprar brincos, sandálias . De calça jeans e roupa preta. De dormir. De fazer tudo devagar. De divagar. De contemplar. Pensar na vida. Não saber o que fazer amanhã. Segunda feira. Dançar. Ir a qualquer lugar sem me sentir uma estranha no ninho. Não ser tão simpática. Ficar em casa sozinha. Não ter medo de ladrão. Fazer um pouco de loucura – não muita! Dizer não (hoje). Saber mais de mim. Aceitar mais minhas limitações. Morar perto do mar. Arrumar malas. Fazer roteiros de viagem. Fazer visita. Escrever cartão. Comprar cartão de arte. Fazer listas e cronogramas. Sem cumpri-los! Ir ao cinema sozinha. Fazer compras sozinha. Ficar na minha companhia. Falar ao telefone. Conversar. Não fazer nada! Me orientar nos lugares. Sem mapas. E sem manuais. Rezar. Olhar no infinito. Agradecer. Não saber mais nada quando envelheço! Deixar o rio correr, que ele corre sozinho!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 04 de janeiro de 2017
 


Anotações de Poesia

Quando menina, não era daquelas alunas que sentavam na frente. Gostava do meio. Para me distrair deliberadamente das aulas . E pensar no sonho. Voava pela janela. Pensava em outras coisas para além da Escola. Difícil concentrar quando se tem pouca idade. As outras coisas importam mais que raiz quadrada ou oração subordinada.

Mas, depois, tomando gosto pelos estudos, já na graduação, aprendi a sentar na frente, justamente pela dispersão que faz parte do meu ser. Na frente sou tomada (ou não!) pelo som embriagante de quem fala. E, ao invés de me dispersar pela janela, viajo no assunto, no tom do falante, e na instigante atividade de aprender.
E tenho feito isso vida afora. E não só em aula. Ando com bloquinho/caderno na bolsa, e a tudo quero anotar. Como se quisesse anotar o mundo! E como não cabe, fico a pensar alto, a falar ao vento, etc e tal. Minhas estantes são cheias de cadernos e notas, e muitas dessas notas, são meus arquivos também para minhas aulas, ou para as crônicas.

Não sou conhecedora de poesia como deveria, mas gosto de me espantar com elas. E gosto mais ainda de ouvir os poetas.
Em Agosto de 2006, por ocasião do Congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada), no Rio de Janeiro, tive o prazer de assistir a muitas coisas. Mas a melhor foi a palestra de encerramento, formada por uma mesa de peso da poesia, com Antonio Carlos Sechin, Ivan Junqueira e Ferreira Gullar. Lembro que minha mão e minha caneta não conseguiam anotar tantas coisas interessantes desses três mestres da poesia, crítica, e da literatura em geral. E correndo contra os dedos, anotei tantas palavras.

Por ocasião da morte de Ferreira Gullar recentemente, fui procurar meu caderno e logo logo achei. E parecia vê-lo com sua figura lânguida e de cabelos compridos a balançar, e a ouvi-lo dizer: “Compreende?” Eu te responderia: “Compreendi muito!” E fiquei fascinada em ouvi-lo sobre o processo de criação do Poema Sujo.
Como as notas estão caóticas, como o meu próprio punho se perdia, faço aqui o meu próprio pastiche, com as falas desses três, para lembrar a Poesia em geral e Gullar em particular. Divido com vocês minhas anotações de Poesia:

Abralic Agosto 2006- Antonio Carlos Sechin

Poesia é sempre depois. Poeta é operário da palavra. O alvo? O incerto. A sina, aceitar no que intui. Grande poema – reordenar o mundo para que existam nomes demais. Uma quarta margem!

Poesia, animal sem vísceras. Obra de Arte – desafia o fim do mundo. Poesia? O imponderável, um hóspede invisível, um vestígio de sua passagem = poema. Poesia – sem rosto. Poeta, a estranheza e solidão!

Poesia é um baixo falante, que tenta apreender os ruídos do mundo. Sensibilidade de cada um. O poeta, uma ilha cercada por poesia de todos os lados. Poeta, escuta feito voz, variações de espanto, e o desafio do artista é não se ater à homogeneização, nem um boneco da própria voz, clausura da sua libertação.

O poeta é menos sábio que seu texto. O poema sabe o que o poeta diria, escrevo sobre aquilo que pensava que sabia- Poesia do desconhecimento, não se localize na reiteração da forma, sem fórmulas! Um experimento, em oposição à adesão. Dois poetas juntos é um complô. Três já é uma Academia!

Toda linguagem é vertigem! “me aprendo em teu silêncio, feliz com um portão azul”

Falar é tatear o nome do que se afasta! Cultivar o deserto como um pomar às avessas. João Cabral.

O que fazer com um fim de uma paixão?

Tiro você da vida
E boto você no poema

Paixão e Alpinismo – céu e abismo! Paixão e astronomia é ver estrelas à luz do dia. Um amor antigo e matemática.1cm de Poesia, 10 k de prosa!

Ivan Junqueira:

Poesia é um mistério que escorrega entre os dedos. Seria uma hesitação lancinante entre o som e o significado. Uma hesitação entre uma coisa e outra. A Poesia não pode se confundir com a espontaneidade da Natureza. O poema é uma construção , numa certa medida se fabrica, com dor. Uma intuição mais a exigência da arte poética. O pessoal , o mecanismo metabólico, uma herança da voz própria.

O Modernismo de 22 – Era preciso olhar para o país em que vivíamos! 1930- Período decisivo para a poesia brasileira, distensão da linguagem e ritmo. Bandeira, Drummond, Jorge de Lima, Vinicius. Geração de 45. Geração 60- poetas desgarrados. Uma preocupação – já tinha sido feito tudo, as vanguardas.
Poesia hoje? Um enigma! Qual a poesia do futuro?

Ferreira Gullar:

Quando Ferreira Gullar começou a falar, e falou por último, não conseguia anotar o que dizia. Fiquei fascinada pelos seus cabelos longos e brancos, pelo seu rosto marcante, seus gestos, mais doçura, mas, principalmente pela forma como falava. E claro, preferi ouvi-lo do que anotar. Mas ainda assim, por entre rabiscos , sons, e fragmentos da poesia, ou do fazer poético, restou palavras, palavras, palavras!

Poesia nasce como toda arte – Pastiche. Você percebe a coisa com o seu saber, vê a vida em decassílabo. Agora era eu e o mundo, sem a linguagem. Via as peras, via o galo e me deparava com o estranho , o contrário do parnasiano.

Não posso escrever da forma de como eu domino. Cada poema era outra forma.A linguagem tinha que nascer com o poema, a linguagem envelhecia o que eu queria dizer! Como os restos de um incêndio; luta corporal, desencadeou a Poesia Concreta, buscar um novo verso, não buscar uma nova sintaxe, já desintegrada. Nova sintaxe? Visual, disposição visual das palavras, sem discurso, lei da proximidade e semelhança. O caminho? Desintegrou a linguagem.
Concretismo – experiência fenomenológica, equação matemática concretista.

O Poema Sujo – no exílio – vomitar o Poema – Sozinho. O som U – como se fosse a última coisa, sem passaporte, na argentina, os amigos sumindo.

A poesia nasce do espanto, como o cheiro de tangerina! A própria vida faz a poesia – a matéria da própria existência.
Depois de ouvir esses poetas a conversar sobre Poesia, saí do Hotel da Glória, olhando para o Pão de Açúcar e pensando:

...E Feliz Natal e Um Ano Melhor em 2017!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa dezembro , 2016
 


Elis - Upa Neguinha!

Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer

(Belchior –Velha Roupa Colorida)

Nos cinemas, Elis, novo filme do diretor Hugo Prata, fazendo um recorte da vida da consagrada cantora de MPB, que encantou a todos com Fascinação, Como nossos pais, e Águas de Março, só para citar algumas das canções que até hoje cantarolamos emocionados quando o assunto é música brasileira.

O filme faz sim um recorte do trajeto dessa pequena pimenta, chegando à cidade maravilhosa na década de sessenta, com um riso solto (com a gengiva aparecendo) e uma voz imensa, e uma determinação a fazer sucesso, não importasse o que teria que vencer ou quebrar – convenções e long plays (numa cena de raiva do seu marido Ronaldo Boscoli, quando descobre uma de suas muitas traições, Elis pergunta: “ Já viu disco voador? Pois vai ver agora!” e avoa toda a coleção tesouro do marido pela janela.)

Como se trata de um recorte, saímos sempre com a sensação de que faltou algo. Como já disseram: faltou explorar mais sua amizade com Tom Jobim e Vinicius de Morais; sua fama incontrolável em tantos sucessos, etc e tal. Uma vida não cabe em um filme! E o diretor opta por contar do início da sua carreira; seus casamentos, casas e filhos; experiência com a ditadura – seus medos e até submissões tão criticadas.

A atriz Andreia Horta faz espetacularmente Elis. E como ela mesma disse: não poderia ser Elis. Era uma atriz interpretando um mito e com todas as minhas limitações. Mas Andreia já tem de cara o physique du rôle e as limitações foram muito bem superadas pelo trabalho de gesto, de corpo de mise-en-scene. A risada, os dentes, o bocão, os braços balançando, as raivas, a pimenta. Lane Dale (Júlio Andrade)! – nem lembrava mais dele! Faz esse trabalho no texto fílmico, e é quem primeiro faz a performance/navegando da tão famosa Arrastão.

O filme me trouxe informações importantes sobre sua vida. Uma guerreira, determinada que sabia o que queria, seus encontros afetivos e amorosos com Miéle, Bôscoli, Nelson Motta, Cesar Camargo Mariano e Atrás da Porta. Upa Neguinho e Jair Rodrigues. Henfil! E o Bêbado e a Equilibrista. Os militares e Madalena – adorava cantar e nunca soube do fato dela com medo dos medos. Nara e a crítica à figura “desmilinguida” e sua não voz do barquinho. Como se fumava naquela época! Lembrei do Long Play – O Fino da Bossa , que ouvia todo dia e sabia de cor de cabo a rabo- O morro não tem vez,...acender a vela...!

Cantei no cinema. Chorei no cinema. Elis, por quem chorei tanto quando se foi. Estava eu fragilizada no início dos 80´s ! Tão simplista dizer que morreu de overdose! Era intensa. Se angustiava com o momento. Mãe amorosa – Maria Rita, Rita Lee! Bebia Whisky. Muito. Chorava e não encontrava seu canto. Fascinação! Queria saber o que as Baianas tinham? Gaúcha. Miúda. Desconhecida. Você não sabe não vê quem não é meu amigo! Somos jovens! Cantei muito no Edifício Gravatá. Ai! se meu apartamento falasse! Assisti a dois shows de Elis. Um deles no Cine Municipal que virou palco. Eterno Brilhante. Brilhamos todos assistindo Elis com tanta propriedade e tanta voz. Queria cantar. Era uma intérprete. Queria liberdade de não fazer arte engajada. Todos deveríamos ter. Mas talvez sem nem saber, fez. Chamou os milicos de gorilas em Paris. Seu bêbado virou hino da Anistia. Fez as pazes com Henfil. Solitária nas suas lindas casas. Bôscoli um galinha assumido que não queria brincar de casinha, filhinho....César, calmo, virtuose, ponderado, com uma casa no campo, não aguentava tanta angustia e whisky. Ah! Essas mulheres artistas. Como é difícil conciliar vida doméstica e vida artística – hein Sylvia Plath?

Saí do cinema com tantas saudades. De Elis, das canções, da minha vida, de um tempo, de tantas coisas.....Ah! só eu sei, tanto amor, eu lhe dei!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 28 de novembro,2016