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Ana Adelaide

Doutora em Teoria da Literatura pela UFPE Professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas do Centro de Ciências Humanas Letras e Artes da UFPB.


Postado por Ana Adelaide em 5/15/12 as 9:00 AM

Qual a Imagem Que Você Tem Da Sua Mãe?

Na propaganda do Boticário para o Dia das Mães, crianças dizem graciosamente: “A minha mãe tem o cabelo cor de fogo!; Ela tem o nariz pequenininho”, e aí o menino de óculos mágicos diz: “A minha é colorida e brilha!!!”
Bem , a minha mãe nem tem o cabelo cor de fogo, nem tem o nariz tão pequenininho , mas é colorida e brilha também! É colorida porque sempre gostou de roupa florida. E brilha, porque sempre, mesmo diante de tantas adversidades vida afora, achou graça na vida.


Eu agradeço a ela ter puxado esse lado colorido-brilhante. Também me assombro e me assusto diante da vida, cotidianamente.

Afora todas as diferenças e dificuldades, tenho também imagens da minha mãe. Não sei se são boas, santas, maravilhosas, mas são imagens humanas:

Lembro da minha mãe bonita. Vaidosa. De Batom. Mesmo chorando! Gostando de panos e seus doces enganos. A casa José Araújo, Armazém do Norte, Nações Unidas e todas as chitas...

Lembro da minha mãe na máquina de costura, modista, com a Revista Manequim, costurando até altas horas, para ficar bonita, e nos fazer bonitas também;


Lembro da minha mãe cozinhando, reclamando, cozinhando, reclamando,... comidinhas gostosas;

Lembro da minha mãe cantando , enquanto cozinhava. Ainda hoje canto Noel Rosa por conta dela... (“Esse amor que eu não esqueço, e que teve seu começo....”);

Lembro da minha mãe cuidando. Quem sabe por isso adoeci tanto....para tê-la cuidando de mim;

Lembro da minha mãe irritada. Mas bastava atravessar o portão de casa, ou o portal do lar, e a rua lhe fazia feliz. Meu pai sempre me dizia intrigado: “Não sei o que é que acontece que sua mãe em casa é uma, mas atravessou o portão de casa..., acontece uma mágica: ela me dá o braço, e sai assoviando.” Hoje sei bem o que é isso. O portal que divide a domesticidade e o público. O ganhar asas e voar, nem que fosse para à calçadinha de Tambaú.

Lembro da minha mãe atolada em afazeres domésticos. Hoje, também tenho a compreensão do que ser isso. E claro, o cansaço, a impaciência, o esgotamento.

Lembro da minha mãe fumando seu cigarrinho depois do jantar e olhando a lua;

Lembro da minha mãe conversando com as vizinhas. Tricotando. Sabendo fazer de um limão, uma limonada! Ou tomando vinho Celeste!

Lembro da minha mãe indo ao cinema. Quando era à tarde, não me importava. Mas à noite, o que fazia tão pouco, não gostava. A casa da Camilo de Holanda ficava silenciosa, e eu tinha medo.

Lembro da minha mãe aprendendo a dirigir, e eu, uma péssima co-piloto, deixei-a derrubar o muro todinho;

Lembro da minha mãe levando as filhas para o jantar dançante. Reclamava , mas bem que gostava. Aproveitava a desculpas para ver a noite, os jovens, a música, e se requebrar um pouquinho;

Lembro da minha mãe me mandando ler, estudar, tocar piano, dançar ballet,...não me tornei pianista nem bailarina, mas o gosto de escrever, com certeza foi dela.

Lembro da minha mãe de muitas maneiras, e sei que puxei muito à ela, nas coisas de que não gosto, inclusive! mas também nas que gosto principalmente, como gostar de conversar, de cinema, de tomar vinho e cerveja, de gente, de cantar, de passear no shopping (mesmo que ela jure de morte que não goste), de consumir e comprar (ela culpadíssima e eu sem dó nem piedade!), e muito , mas muito mesmo, de dançar. Mas se tiver que citar só uma e talvez a melhor ressaltaria: tenho verdadeira alegria/entusiasmo em ver o mundo e de ter um olhar inaugural diante da vida, e choro muito de emoção com a beleza da arte e tudo o que nos provoca. Hoje mesmo passei o dia extasiada diante do mundo. Cantei o dia todo My Valentine de Paul McCartney, ouvi Carla Bruni, e dei pulinhos de alegria com o dia tão lindo e azul que hoje fez.

Sei que ela está indo se consultar em ouvidos treinados para re-avaliar a vida. Saber o que fez certo ou errado... Imagina se isso é possível?! A vida é imponderável, não temos controle sobre nada, e fazemos somente o que é possível. Mas não se avexe não, que nada é para já! E que a vida vale tudo e tudo vale à pena , se a alma não é pequena. A sua, como na propaganda, é colorida e brilhante. E Humana, demasiadamente Humana!

E já com os cabelos brancos, os anos já idos....a vida segue, a memória finda, e vamos que vamos, cantando, dançando e se assombrando a cada dia.

Feliz Dia das Mães!

Com Amor,

João Pessoa, 12 de maio, 2012

Ana Adelaide Peixoto

 


Postado por Ana Adelaide em 4/24/12 as 10:05 AM

Querido Paul: P. S - I Love You!

Escrevo esta cartinha para lhe dizer o quanto estou plena, feliz e grata, por ter ido ao seu show em Recife sábado passado, On the Run. Literalmente abastecida por muitos e muitos anos. Foram 3 horas de show, com mais 3 guardando o lugar na grama, mais duas cervejas, um hora perambulando pelas ruas mal cheirosas ao redor do Arruda, procurando por um Taxi livre, sem comer, e alimentada de êxtase êxtase e todos os total Bliss! “A Arte existe por que a vida não dá conta!”, já disse um artista, e já não caibo em mim.


Confesso que você nunca foi meu Beatle preferido. Achava-o careta e com o rostinho redondo demais. Afinal eu era uma criança quando vocês apareceram e nunca entendi a histeria das mulheres que gritavam e choravam quando os cabeludos Iê Iê Iê. Sábado eu entendi isso. Também fiquei gritando, pulando, e sentindo algo maior que o meu corpo podia suportar. Êxtase! Mas não se afobe não, pois sempre soube do seu virtuosismo e genialidade musical. E depois teve Wings e toda aquela delicadeza sonora, com Linda dando um toque nos pandeiros. Sábado achei-o simpático, bonito, e um monstro nos palcos, com toda aquela energia contagiante aos seus quase 70 anos, sem beber um copo d´água sequer.


Quando ouvi A Hard Day´s Night pela primeira vez na vida, ainda criança, fiquei muda. Mas especificamente I Wanna Hold Your Hand, que até hoje sinto frio na espinha e embrulho nas entranhas, cada vez que ouço. Uma sensação de quem ouve uma obra de arte. Também senti isso com Quero que tudo vá para o inferno (Roberto Carlos), Alegria Alegria(Caetano Veloso), A Banda (Chico Buarque). Não falo somente de gostar, mas de sentir uma vertigem, uma sensação de quando se está diante de uma obra de arte, e não só, uma obra de arte que lhe diz algo, e lhe emociona, assim quando vi a Guernica de Picasso. E com a minha inocência ainda de criança/ adolescente, não sabia explicar o que era “aquilo” que toda vez que cantava Beatles, sentia.


Anos depois, agradeci conhecer Renato e Seus Blue Caps, para novamente entrar em órbita com “Feche os Olhos”, “Ana”, e “Menina Linda”. E ouvi tanto tanto tanto as versões dos Beatles, que passei a ter o exemplo de quando a cópia supera o original!!!!


Depois veio Help, e quando ganhei o LP, não parei mais de escutar Night Before na minha vitrolinha, hoje peça de museu. Meu pai, não entendia como aquilo tudo tanto me fascinava. E por aí foi uma vida de: Eleanor Rigby, Penny Lane, Lady Madona, Michelle, She Loves You, All You Need is Love, Tomorrow, Hey Jude e mais 50 músicas de público e crítica que até hoje ficaram no imaginário do século 20, e claro, na trilha sonora da minha vida.


Em 1987, encontrei com você e Linda, na porta de uma galeria em Bath, quando ela fez uma exposição que tive o privilégio de ver, completamente paralisada por estar diante de um Beatle. Contei essa experiência em crônica também, por ocasião da morte de Linda, quem eu admirava muitíssimo como mulher, e mais ainda como mulher de um Beatle, pois tinha sua própria personalidade, talento e sabedoria para dividir a vida sabiamente. Sem falar numa vida com filhos, ideias transgressoras sobre sustentabilidade, vegetarianismo, o que fez de vocês uma família já muito mais interessante e moderna. Sou fã de Stella McCartney e não perco seus desfiles na TV. Admiro também vê-lo sempre na primeira fila.


Sábado, depois de todo um ritual de : compra de ingresso, viagem, espera, taquicardia, energia compartilhada, e deslumbramento, finalmente o show começou. Antes porém, não posso deixar de mencionar o vídeo que passou antes, com um passeio pela contracultura, Beatles, Liverpool, Abbey Road, e tantas imagens de coisinhas pequeninas e gigantescas, que talvez permeiem todos esses anos da sua vida e carreira.


Durante as 3 horas de show, você, o repertório, os músicos, o telão gigante, os vídeos no palco, a qualidade do som, a luz, e a reação do público, tudo de uma excelência que transcendeu todas as minhas expectativas e tudo começou a girar como se o tempo não existisse. Ontem, Hoje e Amanhã. Rock Rock Rock. E a multidão extasiada, cantava e cantava e dançava e dançava- Na Na Na Na – Hey Jude!. Eu, uma formiga naquele meio, me entregava às sensações mais intensas e diversas. Saudades, nostalgia, alegria, euforia, êxtase. E quando a coluna ou os pés davam sinal de cansaço, alongava e outra música indescritível de beleza e história me embalava e/ou alvoroçava, como foi o caso de My Valentine (com o belíssimo vídeo de Natalie Portman e Johnny Depp), no som do carro desde que comprei Kisses in the Botton, me revirando os olhinhos....; ou na linda homenagem a George, e uma Somenthing solitária, com seu ukulelê em punho, com vídeo desse seu parceiro que parecia dizer que: All things DO NOT Pass!


Adorei a homenagem à Linda (aliás, senti a presença dela durante todo o show), à Nancy, a John, e claro ao meu Beatle preferido, George, a Ringo e Yellow Submarine, e ao público "Recifiano", que você chamou carinhosamente e com um sotaque charmoso, de “Público Arretado”! Ou ainda, quando desfilou com a bandeira de Pernambuco. Nesse momento mudei de Estado, e senti-me uma mistura de caboclinho e cidadã do mundo. Já posso até hibernar por alguns anos de tão abastecida de MPB (pois fiz a extravagância de ir ver Chico Buarque na véspera), de Arte e de Beatles. Ainda estou cantando I`ve Got a Feeling! até agora! Ouvir Blackbird quase me levou às lágrimas, e viajei back to 1971, Columbus Ohio, num encontro mágico e afetivo. Também fiquei impressionada com sua capacidade de aglutinar tanta gente para cantar: Give Peace a Chance. Harmonia e puro amor. Sempre. O restante do ano? Close your eyes....saudades da Av, Almirante Barroso, onde os Beatles aconteceram para mim; das Lourdinas, onde cantei She Loves You para os garotos da época; e do Cine Municipal, onde vi Help, com o braço cheio de pulseiras barulhentas, que mudou minha vida e minha vitrola....e Let it be, onde chorei o final dos Beatles, junto com o resto do mundo.

Voltando para casa, na melancolia do domingo, botei Beatles na vitrola, não mais de museu, e ainda em estado de transcendência, ouvi Golden Slumbers e The End, para acreditar no grand finale. E até agora, Ainda estou a cantarolar baixinho, Night Before, e lembrar que, ouvimos no Arruda você cantá-la pela primeira vez no Brasil. The Day After, amanheci com essa sensação de que foi uma experiência única, inexplicável, e "inenarrável".

Quis contar do show para as pessoas, mas não tinha palavra que desse conta do tamanho do impacto. Bárbaro? É pouco! Só aí entendi o slogan das camisetas: “Paul McCartney: Eu fui!”, pois essa é uma experiência vivencial e orgástica; não de um show de um ídolo qualquer, mas de um ídolo que durante mais de 50 anos eletriza um público. Eu fui! Com a performance de Live And Let Die, e toda a parafernália cênica de luzes e fogos, tive a experiência de que nada mais era preciso. E rouca e exausta! Morri. Com as pernas bambas e as carnes trêmulas, vislumbrei o fim. Do show, claro.

E deixo aqui esse bilhetinho:


For you Paul,
P.S. I Love you!

Ana Adelaide Peixoto - João Pessoa, 24 de abril, 2012


Postado por Ana Adelaide em 4/17/12 as 10:00 AM

Linda & Paul McCartney: Meninas Eu Vi!

 (crônica escrita por ocasião da morte de Linda McCartney, em 1998, e atualizada)

Quando vi na TV a notícia da morte de Linda McCartney, ela aparecia cavalgando com Paul ao som de uma de suas belíssimas canções. Lembrei-me de um dia, na primavera de 1987, na cidade de Bath, Inglaterra,. Fui conhecer essa cidade linda e famosa pelas suas termas e arquitetura romana, quando li no jornal que Linda McCartney estava fazendo uma exposição do fotografias no dia seguinte. Aventurei-me a ir até a galeria, para dar uma espiada de véspera....


Chegando lá, avistei uma limusine hollywoodiana preta, estacionada na porta, com uns dois guardas britânicos e meia dúzias de fãs com flores, na calçada. De pronto não entendi o que se passava. Quando me aproximei, o que vejo: Linda e Paul McCartney, saindo da galeria, cumprimentado as pessoas e convidando-as para entrar e dar a tal olhadinha de véspera. Fiquei em choque, em transe, em pânico! Estava eu ali, em frente a um Beatle! Não era o meu Beatle preferido, os meus eram John - Imagine e George – My Sweet Lord, mas ficar diante dele me dizendo Hello, fiquei boba e deslumbrada diante de um ídolo, daquele que achamos distante e inatingível. Com minhas pernas bambas, ainda fui capaz de dizer hello, tirar uma foto tremida (na minha Cannon automática!) e dar pulinhos histéricos de felicidade pela oportunidade de me ver frente a frente, não com uma celebridade qualquer, mas com toda uma experiência de fã desse que representava um grupo de cabeludos que alucinaria toda a minha adolescência, cantando Help e A Hard Day´s Night no Cine Municipal; ou Let it Be a vida toda.


Passado o susto, entrei na galeria e tive o privilégio de explorar foto por foto de Linda McCartney e seu grande e precioso acervo dos Beatles, dos bastidores dos shows, dos quatro com suas guitarras que gentilmente choraram por todos nós. Fiquei maravilhada com o que vi e principalmente com a coincidência de topar assim ao léu, com Linda e Paul McCartney, tão banais e tão comuns, numa linda tarde primaveril. A felicidade até existe, pensei...
Ao ouvir o anúncio da morte de Linda, de câncer de mama, chorei por ela, por mim e por todas as mulheres que vivem com esse medo constante e aterrorizador de nos deparar com um caroçinho no meio do caminho. No meu pensamento, surgiram nomes como Ana Laura Caldas e Eliane Babá, e tantas outras amigas, umas mais próximas, outras nem tanto, mas mulheres da minha geração e que se foram tão jovens. Com elas, com certeza também vai um pouco de quem fica e temos a nítida consciência de que as notícias de morte não estão somente no Jornal Nacional. A morte anunciada chegou no quintal de casa. E a música Tomorrow, do Wings, que me apontava um futuro tão distante, hoje vejo que foi ontem!


Em Tempo: Hoje, estou a ouvir My Valentine, música do mais recente cd de Paul, numa homenagem belíssima aos seus pais, e me preparando para a maratona do próximo sábado, quando finalmente, poderei cantar todas as músicas que me embalaram os sonhos dos anos 60, 70, 80 e continuam... Se encontrarem nos gramados do Arruda, Recife, com uma fã , um tanto assim, animada....não estranhem, pois estarei rouca de cantar Olê Olá, de um Chico Buarque na véspera, e num outro êxtase tardio em Bands on the Run!

Ana Adelaide Peixoto – Essa crônica foi escrita e publicada há nos no Correio da Paraíba. E foi atualizada para 17/04/2012


Postado por Ana Adelaide em 10/4/12 as 8:30 AM

PINA: Dançar, Dançar & Dançar!

 “A obra de arte é o maior de todos os enigmas, mas o ser humano é a solução”(Joseph Beuys)


O que Pina Bausch conta no palco e na plateia é um teatro que liberta todas as inibições, é festa, jogo, sonho, símbolo, recordação, antecipação, cerimônia. É um conforto que se destrói doce e insidiosamente, porque o que a gente quer é que toda essa harmonia, toda essa leveza, todo esse encantamento não acabe jamais e que a vida seja assim. (Federico Fellini)

Ouvi falar em Pina Bausch lá pela década de 70, mas era somente um nome que me seduzia lá longe. Como gostava e gosto até hoje de dança, seu nome me chegou assim como um cometa dançante que passa no céu. Somente na década seguinte, através da minha amiga e minha professora de dança Angela (Inha) Navarro, que fiquei sabendo quem era Pina Bausch. Sua revolução na Dança, seu expressionismo, e sua dança orgânica, onde não interessava como você se movimentava, mas o que levava você a se movimentar. Tínhamos um grupo maravilhoso de “dançarinos”: Eu, Vitória Lima, Márca Lucena, Luciano Klosterman, Sarita, Gualberto, só para citar alguns. E na sala da casa de Inha, tentávamos investigar o que desejávamos e o que nos movia. Bolas, panos, despreendimentos, e alguns exercícios, levitávamos.


Ontem, finalmente, e sem 3D, para meu desgosto, fui ver o documentário Pina, de Wim Wenders. Documentário que levou-o primeiramente a fazer sobre a Cia Wuppertal e registrar assim, o processo de criação dessa coreógrafa maravilhosa, mas que, com sua morte repentina, desistiu de tudo, sofreu o luto, e mais tarde mudando o motivo de Sobre para Para, continuar o trabalho, resultando num registro transcendental de dança, teatro, cor, plasticidade, música e espanto – Para Pina Bausch, pois!


Pina Bausch , uma mulher franzina, cabelos escorridos, olhar triste, magérrima, e com o dom da observação da alma humana. A subjetividade do ser e do movimento lhe interessava. Os bailarinos antigos e novos, aparecem tristes e despedaçados, a olhar no infinito primeiramente, para logo em seguida fixar à câmera e resumir o que Pina havia lhes ensinado. “Você é frágil, mas sua fragilidade é sua força”, disse para uma oriental igualmente franzina.

“Estou triste, você parece ter medo de mim? O que te fiz?”,indagou à uma outra mexicana, talvez, sobre sua timidez diante da mestra. “Dance bonito, mas não só. Desconcerte-me”, ordenou a um outro. “Seja lindo! Me assuste e faça minha cabeça girar!”


No filme, suas coreografias, seu corpo em repetição à exaustão, seus cenários, trilha, escolha de figurinos, me fez querer falar alemão, morar no seu lugarejo, andar de metrô pendurado de superfície, e passear pelo bosque, ou tomar banho nos riachos da Floresta Negra, talvez.


Sua trupe, um caldeirão de nacionalidades. Pina já exercia a multi-culturalidade e expressões diversas. A dança dos alemães mais simétricas, duras, enquanto os orientais mais fluidos e samurais. E tudo misturado. Ela dizia que sua companhia não era alemã, mas uma colcha de retalhos: “Nosso trabalho não se prende a fronteiras, antes rompe todas as fronteiras. É como as nuvens, como o Sol. Na Índia inventei para mim uma frase : Se eu fosse um pássaro, seria então um pássaro alemão?” Confesso que por várias vezes as lágrimas escorreram. Lágrimas de sensações fortes, talvez em conexão com o que movia aqueles bailarinos e suas coreografias. “Leãozinho” de Caetano, em movimentos pequenos, diminutos e espartanos. Como não fazer referência à dança de Fred Astaire, numa cena do documentário: “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, quando sua dança vaporosa se mescla com as pernas tortas de Garrincha, numa fusão de dança e futebol, para Maracanã nenhum botar defeito. Ou ainda de Isadora Ducan, e seus véus e pés descalços; ou até mesmo Nijinsky com sua L\'Aprés-Midi d\'un Faune,, para o horror das mudanças do início do Século XX.


Na dança de Pina, a interpretação é mais importante que a representação. "A mim não interessa como as pessoas se movem, mas o que as move", costumava falar sobre sua investigação coreográfica, em que os bailarinos, vindos de várias partes do mundo, incorporavam as próprias associações, pensamentos e lembranças aos números: “Quando fiquei perdida e sem direção, lembrei da dança que me puxava os cabelos.” confessava uma bailarina. Numa entrevista à Folha de São Paulo (27/08/2000), disse: “Estou interessada principalmente no não dizer. A maior parte do tempo, eu não digo...Na dança, o que se vai dizer não está sempre no que se vai dizer...”


O filme começa com uma coreografia das Estações, e nos gestos mínimos a expressão da primavera, verão, outono e Winter! Folhas, grama e um teatro vazio. Despejos de muita terra para compor o cenário da Sagração da Primavera de Stravinksy (Adoração da Terra e Sacrifício). Um vestido vermelho solitário à espera do sacrifício. Os elementos de Pina: Terra, ar, água. “Devemos enlouquecer mais”! Dizia. E um bailarino atesta que PINA é uma pintora, e eles, os dançantes/ tintas para pintar.


Lá pelas tantas Ela própria atesta a importância do olhar frente ao movimento. Cada olhar, um sentimento certo. Ou único. E tudo muda. Cada detalhe ? uma possibilidade. “É preciso fechar os olhos para ver e ouvir”, dizia. Em uma de suas coreografias mais famosas, Café Muller, muitas cadeiras, tropeços e o abrir caminhos. Caminhos inusitados. Equilíbrios desconcertantes. Volume. Aí Um sapateado e um cachorro que late. Um bailarino a define: “Pina é igual à uma casa com um sótão! E cheia de casas dentro.” Bachelard fala de casas, espaços poéticos e sótãos. A magia dos espaços, dos cantos, das margens, e dos vazios e cheios, preenchem essas criaturas quase divinas.


Uma noiva no trem. E as costas musculosas de Pina. “Essa é a maravilha da dança: que o corpo seja uma realidade pela qual se atravessa”!. Um Travesseiro. Como não associar ao travesseiro do artista cearense, Leonilson, com um bordado escrito: “Ninguém!”


O documentário é sempre entrecortado por maquetes, palcos, recursos usados para fazer a fronteira entre o que é documento, projeção, fílmico. O longe e o perto; o tangível, o diminuto, o palco, o olhar. E tudo acontece numa outra dimensão. Ficção x realidade. O palco como o lado de lá. Sentir o que tá dentro. “Queria sentir a dor dela. Sua força, sua solidão”!. E de repente um vestido vaporoso se faz bouquet – Uma oferenda! Uma Elegia!


A água corre. As Àguas: Águas Claras, Festivas, Mornas, Místicas, Águas que vinculam. Devemos falar do dia, para que sejamos humanos. Demasiado Humano! Virginia Woolf também dizia que tudo acontece em Um dia! (Mrs. Dalloway).


O Tempo : um velho e/ou criança; os olhos transformam. Um Trem-vamos! movimento! Woolf também escreveu sobre personagem em um texto: “Mr. Bennet e Mrs. Brown”, e um trem que segue. E La Nave Vá! Nino Rota me põe a cantar!


Os settings? lugares comuns: estação, parque, sinal de trânsito, encruzilhadas, pistas, ruas, porto, córrego, trem suspenso, jardins que não são da Babilônia. A Dança é igual a algo do cotidiano Pessoas nadam, acordam, olham. Sapatilha de ponta; rodopios ; tudo se contrapõe à aridez do lugar, às flores, à suavidade da música.


Em algum momento, todos os bailarinos estão nos seus lugares no palco, e um fotógrafo faz flashes azuis, para congelar a imagem dos casais, mesclando com os depoimentos. Blues, Banzo e saudades. Veludo Azul! Plasmar o instante. Quanto mais frágil mais força! Andar com os paus pelo corpo. O peso leve da travessia: com quantos paus se faz uma jangada? Sonhos. O ginasta. O Narciso, veste e tira as calças para às mulheres. A agonia de se exibir. Cada gesto? Uma honestidade;


Uma pedra no meio do caminho. O mito de Sísifo. Repetir. Repetir. Um obstáculo, uma moça vestida de Rosa se coça. Tímida e com medo. Brinca com a água. Procura, busca, onde? Qual a direção? Um Pendulo, ao som de um violoncelo. Lua Cheia - Alegria Alegria. Caetano. Um vestido amarelo, uma caixa branca de vidro enorme, uma prisão, Andréeeeeeee - Luna de Margarida. Sonhar contigo. Um aspirador no Bosque, um estranhamento, uma re-significação do objeto. Marcel Duchamp!


Pina – ainda não sonhei com você!


Pina - um rinoceronte! Work work work. Como fazer para corresponder? Medo, assombro. Resistência. Um iceberg. Um abismo. Uma vertigem. Uma imensidão. Uma paisagem. Um risco. Até onde posso ir? Uma barreira! Um penhasco. Dance! E no meio da cena, uma mulher toma chuva – Anita Ekberg? La Doce Vida, Fellini!
Pina – está em cada um de nós! Ou o contrário!


Pina, o sagrado; Pina, o profano; Pina, uma epifania; Pina, um rosário de amargura. Pina, a princesa austro-húngara cega de La Nave Vá, de Fellini.


Adeus.


A cortina sobe


A celebração final: Requebro, quebro, re-faço, re-vejo,


Tem artistas que são únicos e ponto. Pina foi um desses. E quando esses artistas morrem, eu choro despudoradamente. Foi assim com Fellini, com Mastroiani, com Elis, Cássia, e até mesmo Marylin, que chorei sem ter a consciência ainda da sua figura mítica. Com Pina, não foi diferente. Nunca a vi dançar pessoalmente. Contentei-me com o filme de Almodóvar: “Fale com ela”, e aquele Prólogo e Epílogo com a própria Pina dançando a solidão e o silêncio no primeiro e a voz e a alegria no segundo.


Dançar é preciso! uma música, uma cadeira, um sofrimento, uma cidade, uma chuva, uma lua, um depoimento, um trabalho, uma emoção, uma sensação, um rodopio, muitas nacionalidades, um arrepio, um êxtase, um Leãozinho, uma mulher, uma repetição, muitas repetições, um metrô, um hipopótamo, uma casa de vidro, uma lágrima, uma dor, um vento, um vestido, TUDO!


Dance Dance Dance, senão estamos perdidos!
(disse-lhe uma garotinha cigana quando Pina visitava um acampamento na Grécia)


Referências:
Cypriano Fabio : Pina Bausch.São Paulo : Cosaf & Naif, 2005
Folha de São Paulo, Caderno Mais, São Paulo, Ago, 21, 2000.


Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 1 de Abril, 2012


Postado por Ana Adelaide em 3/27/12 as 8:40 AM

Comer, Beber, Rezar

 Estou aqui em pleno domingo enfadonho, sem saber se vá ao Leblon fazendo assim Fon Fon....; revendo as matérias com os personagens de Chico Anysio, Alberto Roberto, Bozó, Sr. Popó Pantaleão, hein Terta? E pensando na vida dos domingos. E entre as diversões ou hábitos de domingo, e enquanto pensava o que e como almoçar, fiquei brincando com as caraminholas na cabeça.


COMER: A vida toda de menina e depois, não existia o hábito por aqui de se almoçar fora. Se almoçava dentro! Uma aventura, quando se tinha visitas e íamos ao Badionaldo, comer todos os pirões. Adorava o amarelinho de camarão. Outro programa dos deuses, foi quando descobri a sopa de palmito do Cassino da Lagoa. Sem falar no Jurandir e seu Cachorro quente. E ponto. Não se comia fora. Jantar então??? Era sopa de feijão e cuscuz em casa mesmo. Chovesse ou fizesse sol. Hoje, sem necessariamente precisar ser Julia Roberts, adoro comer fora, experimentar pratos, fazer piquenique (se é que ainda existe isso), e mais que tudo, sentar à mesa para filosofar. Comer para mim é atividade sagrada. Sozinha inclusive. Mas, compartilhar a hora do alimento à mesa, ainda é algo que me motiva e me alegra. Mas sei que hoje, em tempos modernos, em tempos da tela à frente, em tempos do comer correndo, o meu tempo slow, já se faz (des)comedido .


BEBER: Descobri a Cuba Libra logo cedo. Aquela coca cola que dava barato. E dor de barriga aguda! Mas era o que tomava os teens do começo dos anos 70. Depois veio um Rosé garrafão, que comprávamos no supermercado, para brincarmos de enólogos fajutos. Cerveja e chope? Não conseguia gostar, e achava mais que libertador ver alguém pedir uma cerveja num bar. De tanto admirar e insistir, hoje adoro cerveja e chope. Para dar zonzeira? Tomávamos com Steinhaeger, e ai ai!! Continuo a achar transgressor pedir uma cerveja num bar, inda mais se estiver sozinha, e sonhos de cena de cinema. Destilada? Nunca fui muito chegada. Tinha trauma do cheiro. Coisas de Divã. Depois até que apreciei. Mas só tomava em festa. E puro, com gelo. Mas, minha antipatia por Whisky não impediu que provasse os puro maltes da Irlanda ou da Escócia. Tudo nacional! Agora, cachaça São Paulo, passei uns tempos in Love. Com caldinho de peixe ou caju. Caipirinha nunca achei graça: muito açúcar e a impressão errada de que estamos a tomar suco de limão. O resultado? Desastroso. O problema é que a danada da branquinha é fuerte, e logo logo perdemos o senso, o prumo, e ficamos à margem do Rio. Mas, quem já não se embriagou, que atire a primeira pedra. No Rio também. E ficar louca, nem que seja uma vez, é imprescindível nessa vida. Pequenas loucuras, digamos assim. Hoje, com o tal de espumante, encontramos uma forma de fugir dos destilados, e saborearmos essas champanhes multi multi sabores, que com cuidados e tomados geladíssimos, ficamos chiques e mais bem comportados. Quanto a vinho? Ah! Aí o caminho é longo. Amo de paixão, mas nesse calor, não consigo ser boa companhia. Estou sempre preferindo a Devassa! Mas um bom vinho tinto, uma boa massa e um pão de alho do lado, com queijos e frios salpicados, ainda é hors concours! Comer um bom prato e beber uma bebida boa...transcende qualquer conflito, e se estabelece um dos prazeres maiores. Tenho horror à restrições alimentares. E o jeito?

REZAR: Estudei em colégio de freiras, Lourdinas, e logo logo me atordoei em confessar pecados que não entendia, comungar solenemente, e rezar orai pro nobis....; primeira sexta feira do mês; primeira comunhão; retiro; semana santa; procissão; tudo estava lá, de terço na mão e véu rendado na cabeça. Mas sempre fui meio cética a todos os eventos, e questionava mais que me entregava à sublimação. Mas o meu ceticismo não me impede de rezar, agradecer, me consternar, e rezar mais, pedir, e me abstrair na imensidão do mistério. Passei muitos anos da vida fazendo oferendas pessoais, catando flores no caminho de casa, e jogando ao mar; imaginando Iemanjá e com respeito à Nossa Senhora; o movimento do ri e vir das ondas, me levava ao ciclo da vida, pedindo para meus entes queridos viajarem tranquilamente seus percursos de luz. Acho que sou mística e tenho religiosidade dentro de mim. Uma certa transcendência e também humildade diante do desconhecido. Mistério sempre há de pintar por aí! A natureza me assusta e me aterroriza, pela sua imensidão e beleza, mas é a arte que me faz esse diálogo com o sublime e sou capaz de me ajoelhar diante da dança de Pina Bausch; do cinema de Felinni e Almodóvar, da música de Chico,Caetano, Marisa,Tulipa ou Beatles ou Cole Porter, da poesia de Adélia Prado, Clarice e Virginia Woolf, ou de uma orquestra tocando desde as sonatas de Beethoven à dança cossaca. Uma bateria de Escola de Samba também faz tremer. Qualquer manifestação artística enfim, desde a mais erudita até D. Lindalva fazendo suas bonecas de pano, lá em Bayeux. Quando vi A Guernica em Nova York, nos anos 70´s exilada da sua terra por questões políticas, me ajoelhei ao rio sem ser Piedra, e chorei. Anos depois re-vi no seu habitat de direito, Museu Picasso, e mais lágrimas. Euforia mesmo. Êxtase! Que somente as músicas de George Harrison do álbum All things must pass, ou a trilha de Hair, deixariam meus ralos cabelos, literalmente em pé.

Por isso, quando vi o filme Comer Rezar e Amar, adaptação do livro homônimo, de Elizabeth Gilbert, com Julia Roberts, senti tanta empatia com os caminhos por ela percorridos, para fugir da dor e flertar com o auto-conhecimento; ficar provando Sardella e andando de lambreta na Toscana; tomando vinho e perambulando por lugarejos, para depois vestir um Sári na Índia (lugar que sempre quis ir e me perder nas cores e nos curries), e cantar Hare Hare!. Fiquei a pensar no meu percurso pessoal de transitar por esses três espaços religiosos ou não, mas que re-ligam, e fazem a interseção daquilo que temos de mais único e podermos conectá-lo com o outro. E se encontrar Javier Bardem pela frente, ah! Hare! Hare!

E porque hoje é domingo, vou ali no pé do cachimbo...

Em tempo: E temos concorrente na praça! Julio Rafael, estreiou nesse domingo passado, como colunista do Jornal da Paraíba. Dividiremos mais essa agora....Sucesso Juca! 

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 25 de Março, 2012


Postado por Ana Adelaide em 3/13/12 as 1:10 PM

Eleonora & Lourdes

 Se alguém ´é´ uma mulher, isso certamente não é tudo o que esse alguém é . (Judith Butler)

Esta semana, estiveram aqui em João Pessoa, a Ministra da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres (SPM) da Presidência da República, Eleonora Menigucci e a sua vice, Profa Lourdes Bandeira. Vieram lançar linha de crédito para mulheres, para que possam enfrentar as desigualdades de gênero no trabalho.Duas mulheres feministas, poderosas, que sempre estiveram à frente das lutas das mulheres, fosse na saúde ou na Academia e pesquisas sobre Violência contra à Mulher, e que hoje legitimadas e autorizadas representam o que Rose Marie Muraro, chamou de “Nova Ordem Simbólica” nos espaços políticos, não mais centrados no Falo (o poder, o matar ou morrer que é a sua lei), mas uma nova ordem que possa permear desde o inconsciente individual até os sistemas macroeconômicos, mas agora estruturada sobre a vida.

Quem não viu na posse de Dilma, quando a Presidenta se referiu à amiga Eleonora, dos tempos de prisão, quando dividiram a mesma cela, durante os tempos negros da ditadura. Eu mesma fiquei de peito cheio de orgulho.
Conheci essas duas mulheres, primeiro de longe. Ouvia falar de uma, com seus cabelos naturalmente encaracolados sem medo de botar a boca no trombone; e da outra, professora universitária, sempre à frente das discussões acadêmicas ou não, igualmente com a boca nos mesmos trombones... e sempre sobre assuntos que me instigavam.


Eram os anos 80; tempos em que eu era funcionária da Reitoria, um período pessoal de entre-lugar entre recém-separada e solteira novamente, me adaptando à uma condição estranha, e só me interessava por festas, bares, liberdade e descompromisso. Fugia de tudo o que me exigia. E vivia a borboletear! Dores e delícias de rompimentos e buscas de identidade, não me deixavam comprometer com causas, mas vivê-las. O casulo me esperava, para mais tarde re-nascer em outros tempos: Viver sem Tempos Mortos, como já dizia Simone de Beauvoir, quem sabe era o meu desejo. Mas, flertava com o Maria Mulher, e jamais esquecerei algumas conversas nas areias de Baía Formosa, com a poetisa morta Violeta Formiga. Ocasião em que li Rose Marie Muraro, e fui vê-la pessoalmente numa palestra emocionante nos auditórios do CT. O meu sentir feminista se modulava e ganhava corpo físico e subjetivo.


Os anos passaram, e cheguei perto dessas mulheres. Eleonora através do Forum Feminista e do Grupo Lílás, embrião do Cunhã Coletivo Feminista; e Lourdes também nesses mesmos espaços, e nas pesquisas do Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional – NDIHR da UFPB, onde tive a honra de fazer parte de uma de suas pesquisas. E conversa vai conversa vem, quando dei por mim, estava fazendo a disciplina da pós com Eleoonora, sobre Foucault e as forças dos poderes imprisionadores das instituições, sexualidade, poder x conhecimento, e plena de curiosidade, me perdia nas palavras e nas coisas...


E de palavras e coisas, cheguei a comer biscoitos amanteigados, no terraço de Lourdes Bandeira, na Av. Nego. Admirava a transgressão Eleonora e a assertividade gaúcha, com sotaque mais que sullllllll, da Lourdes. E uma vez perguntei à Lourdes a que horas ela fazia aqueles biscoitos deliciosos. E ela banalmente: “sábado à tarde!” E acordava às 5 para ler teses, etc. Era o meu paradigma de eficiência, já que tinha 3 filhos pequenos/pré-adolescentes, para criar, casa, e uma carreira brilhante. Eu, na minha displicência avoada de mulher que só queria as noites e o mundão, me espantava com a disciplina, compromisso, comprometimento, engajamento daqueles seres, que me faziam admirar. Eu etérea, me queria terrena, inspirada por essas guerreiras, que até hoje me fazem dançar de alegria só de vê-las.


Um belo dia, sem me perceber, estava eu, junto com Leo, em Alagoa Grande, falando para as mulheres rurais. Eu, tão urbana, com tão pouco o que dizer para as mulheres do mato, estava lá, impulsionada por Leo que em tudo vibrava, em tudo era entusiasmo e questionamento. Uma aula!


Final dos anos 80/90 foram muitas reuniões com as duas e mais Sandra, Lucinha, Soraia, Gilberta, Estelizabel (hoje candidata à Prefeita), para depois vir a ser formado o Grupo Cunhã. Tardes inesquecíveis de aprendizado e ações pessoais/coletivas afirmativas.


Jamais esquecerei uma certa viagem a Recife junto com Eleonora, que tanto no meu terraço, quanto nos espaços subjetivos privados, sempre com aqueles olhos azuis arregalados, me impulsionava, me respondia e me acariciava de solidariedade e compartilhamento, às minhas dúvidas, caminhos, e escolhas.


Ah! O destino e a vida! Um dia, um acidente. Uma tragédia. Mortes. Perdas & Danos. A irreversibilidade das estradas da vida. Bete Lobo. Penha. E o choro de todas nós. Juntas. Eu estava grávida de 4 meses do meu filho Daniel (hoje com 20 anos), e tinha jantado com Bete na véspera. Com Penha? Sempre nos eventos do PT, das mulheres, no jardim da casa de Edinalva, hoje uma estrela brilhante. E talvez essa consciência, e essa solidariedade feminina, deu força às mulheres e à Lourdes pessoalmente, para que a vida fosse mais importante. E foi. Superação! Vejo-a hoje brilhando na TV, nas pesquisas, na vida, e agora novamente com Eleonora. Uma dupla de mulheres-amigas, se não maravilha, mas de competência, de empoderamento, a nos representar tão fortemente, tão docemente.
Esta semana estivemos juntas. Todas. Maria mulheres. Cunhãs. 8 de Marços. Amigas avulsas. Queridas. Uma mesa gigante. Falas emocionadas. Resgates. Homenagens. Brindes. Abraços feministas. Saudades. E tantas felicidades. Até um par de suspensórios apareceu – um descuido de percalço, e o masculino bendito entre às mulheres!


Ao final, Vitória Lima levou suas fitinhas Fúcsia, com poemas seus sobre as penugens dos jambeiros, para que, com essa cor, desejássemos sucesso à essas mulheres lindas e maravilhosas. E que a Secretaria brilhe e avance, foi o que todas nós, na algazarra da alegria feminina/feminista/cidadãs, brindamos.


Desejo à Eleonora e Lourdes, e tantas outras mulheres que ocupam cargos ou não, que:


“Use seu amor além dos bons instintos para saber quando rosnar, quando atacar, quando aplicar um golpe violento, quando matar, quando recuar, quando ladrar de madrugada. Para viver o mais próximo possível da força espiritual selvagem, a mulher precisa sacudir mais a cabeça, ser mais exuberante, ter mais faro na sua intuição, ter mais vida criativa, enfiar mais a mão na massa, ter mais solidão, ter mais companhia de mulheres, levar uma vida mais natural, ter mais fogo, elaborar mais as palavras e as idéias. Ela precisa de maior reconhecimento por parte das suas irmãs , de mais sementes, mais rizomas, mais revolução na vizinhança... Mais grupos de costura terroristas e mais uivos. Muito mais canto hondo, muito mais canto profundo.
Todas nós podemos afirmar pertencer ao antigo clã das cicatrizes, ostentar orgulhosas as marcas de combate do nosso tempo, escrever nossos segredos nas paredes, não aceitar sentir vergonha, abrir o acesso à saída. ...Portanto apareça. Apareça onde quer que esteja. Deixe pegadas fundas porque você pode fazer isso. Tenha coragem e a paciência da mulher na história do urso da meia-lua, que aprende a ver além da ilusão. Não se distraia queimando fósforos e fantasias....Colha os ossos dos valores perdidos e cante para devolvê-los à vida. ...As filhas das filhas das suas filhas irão provavelmente lembrar-se de você... Queixe-se ao luar, apure os ouvidos, perambule nos intervalos, faça amor, uive sempre!”


(Trechos de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Estés Pinkola)


Salve as Mulheres que Correm com os Lobos! Salve Eleonora e Lourdes


Lista de Chamada: Salve Vitória Lima, Joselita, Neiliane Maia, Ana Maria Farias, Gilberta Soares, Estelizabel, Lúcia Guerra, Iara Matos, outra Lúcia, Soraia, Naka, Irene, Walquiria, Jandira, Zenia, Rosa Godoy, Glória Rabay, e Eu! só para citar algumas das presentes. Faltou? Dos Anjos e Sarita! Ausentes? Edinalva, Violeta Formiga e Tantas outras.


Ana Adelaide Peixoto, João Pessoa 13 de março, 2012


Postado por Ana Adelaide em 6/3/12 as 9:04 AM

Acabou Chorare & Je T´Aime Moi Non Plus

Nem só de carnaval vive o mês de Fevereiro! Neste ano, tivemos a Mostra de Cinema, sempre lotada, quando tive a oportunidade de ver os filmes: Os Filhos de João e O Homem que amava as mulheres. Dois filmes sobre música, loucura, tudo lá pelos anso 60 e 70, tendo uma idéia de um tempo, outsiders, e compreendendo coisas que na época talvez não tivesse o alcance necessário.


O Documentário Filhos de João,O Admirável Mundo Novo Bahiano (Direção Henrique Dantas), sobre a trajetória do grupo Os Novos Bahianos, e a tentativa do grupo em ter uma vida livre e em comunidade. O filme tenta também mostrar o universo estético e filosófico do grupo através de depoimentos dos integrantes, compondo assim a história desses cabeludos, desde sua criação até o final. O documentário, ganhou o prêmio especial do júri e o voto do júri popular no Festival de Brasília 2009. Eram os tempos dos Hippies de Arembepe! Confesso que na época não me encantava muito por esse grupo, nem mesmo por Moraes Moreira, que só depois, em sua carreira solo, mas especificamente no ano que veio tocar no trio das Muriçocas, pude apreciar sua expertise e criatividade. Quanto à Baby Consuelo, gostava de sua loucura e irreverência cantando brasileirinho, menino do Rio, mas depois me espantei com os nomes dos filhos e da sua busca desenfreada por um loucura religiosa, se é que tenho esse direito de chamar assim.


O filme tenta falar desse grupo enorme de meninos músicos, que sonhavam em mudar o mundo, moravam em comunidade, amavam futebol e tocavam guitarra dia e noite. O pão nosso de cada dia pouco importava, e o dinheiro era guardado num saco plástico atrás da porta. Utopia? Acho que nem isso. Me pareceu uma certa inocência, possível na época do paz e amor, onde fumar maconha o dia todotodo dia, parecia permissivo, criador, e fugindo dos centros urbanos, os malucos beleza se arrumavam.


Tom Zé é a voz pensante do filme, que fala como se tivesse tomado um ácido alucinógeno, mesmo estando careta . A juventude na platéia ria daquele ser louco , e eu me esbaldava com tanta sabedoria a passear pelo tropicalismo, pelas guitarras de Jimmy Hendrix, pela ditadura, inclusive cultural do eixo Rio-São Paulo, pela Bahia, pela criatividade, e claro pela força astronômica de João Gilberto sobre todos eles.


Fiquei a me perguntar como aqueles bichogrilos sobreviveram? E claro que, também me vi naquela busca e loucuras. Entrevista com todos os componentes, e com cenas memoráveis como a de Baby dançando A Menina Dança. Entendi porque ponho sempre essa música na vitrola com Marisa Monte, e danço! É puro alucinógeno!
Dá uma certa nostalgia ouvir um monte de Senhores, hoje já tão bem comportados, a falarem das suas diabruras musicais e existenciais, e na ingenuidade de cada um. E fizeram história musical, e fizeram música. Muita! Pepeu Gomes também narra, descreve, e analisa o despreendimento, a comunhão, e a troca troca troca de todos. Era um outro mundo. Um outro cenário político, comportamental, urbano, musical, e amoroso, que hoje parece coisa de filme. E é!


Acabou Chorare, me fez chorar. De Saudade dos hippies, de Woodstock, de Je Taime moi non plus, de Alegria Alegria, e de que tudo mais vá pro inferno!


Coube ao cartunista francês Joann Sfar, escrever e dirigir, O homem que amava as mulheres – adaptado da própria graphic novel sobre Serge Gainsbourg, num longa-metragem que, está mais para uma fábula do que propriamente uma biografia filmada. O filme conta a estória do artista, pintor, músico francês Serge Gainsbourg, suas dúvidas e autodestruições, mostrando um homem que faz pouco da sua feiúra, fumando cigarros Galouise e sua densa fumaça.


Confesso que nos 60´s muito menina, não tinha alcance para achar aquele homem com cara de ressaca, interessante. Tinha até uma certa repugnância, e gostava muito mesmo era de Jane Birkin, quem eu achava linda, diferente, e que, com seus tubinhos de um palmo, fazia-me sentir mais à vontade, com o meu corpo de adolescente cumprida....


Amei o filme. E todo o recurso utilizado para falar da solidão e irreverência desde sempre daquele menino judeu que, encontrava no desenho/pintura/guache um refúgio do mundo real, para o seu próprio mundo. Um mundo sedutor diante da vida e depois, claro, para Brigitte Bardot. Fiquei conhecendo sua arte, sua música-de-bar-fim-de-noite, sua rouquidão; seu charme para com as mulheres, mas não só. Seu encanto pela existência, sexo , drogas e boemia. Serge cantou A Marselhesa ao som de Reggae, na Jamaica, e escandalizou os franceses. Sussurrou gemidos eróticos e nos fez gemer juntos com a explosão da revolução sexual dos 60´s. Sempre com sua sombra, seu alter-ego, no filme representado pela sua figura desenhada exageradamente como um Pinóquio do cotidiano, que lhe cochichava com a voz de diabinho, quais as escolhas a fazer, por vezes lhe contrariando os desejos em nome das oportunidades, como quando lhe orientou a cantar, e deixar sua paixão pela pintura, cores e formas, pelo cinza sombrio das fumaças dos bares soturnos parisienses, cantarolando canções típicas francesas a La Charles Aznavour.


Julieette Grecco, quel surprise ouvir esse nome! há muito esquecida nas minhas memórias. Lembrei também de Françoise Hardy e Tout Les Garçons....


Gainsbourg seduzia muito as mulheres lindas da época. Feio, franzino, narigudo, fumante, louco, artista, mas que trazia na sua alma, sua infância ensimesmada na praia, criando suas figuras iluminadas, num tempo de guerra, onde ser judeu tinha sim um carimbo estigmatizante, mas que ele, na sua voz, na sua arte, e na sua condição de amoreuse, viveu, e amou, loucamente à vida.


Vi os dois filmes seguidos, numa maratona de pipocas, e saí do cinema às 11 da noite, completamente inebriada pela música dos Bahianos e da Chanson Française à beira do piano, com os anos 60 me anuviando a cabeça de menina da época, mas já antenada com os ventos da contracultura, com paz e amor, e que tudo o mais iria para o inferno. Os anos passaram, e até hoje, guardando as devidas proporções, também me sinto uma sobrevivente....


Depois também de ver, um outro filme, A música de Tom Jobim, e ouvir Wave e Insensatez; de cantar essa menina dança, revira os olhinhos, e gemer Je taime...me deu ainda mais pré-conceito dos forrós de plástico, de música sertaneja das calcinhas pretas, e de tantas pobrezas culturais a que assisto cotidianamente. Será mesmo que é rabugice rejeitar esses grupos com mulheres vulgares rebolando a bunda rica de frufru, cantando nada, ou música de péssimo gosto e harmonias? Ora Ora, quem teve João Gilberdo Din Din, Tom Jobim é pau é pedra; Elis atrás da Porta; Betânia Carcará; Caetano Jóia Rara; Gal Baby; Baby Menina Dança; Roberto Calhambeque; Erasmo festa de Arromba; Renato Feche os Olhos; Edu Ponteio, e Chico Sabiá, não dá para se contentar com pouco!


Um abraço pelo Dia Internacional da Mulher.


Ana Adelaide Peixoto - João Pessoa , Fevereiro 2012


Postado por Ana Adelaide em 2/21/12 as 11:10 AM

Melancolia Azul

 

(Para Claude, irmã querida, pura luz, aniversariante da semana)

Melancolia – Valsa triste que toca dentro da gente de repente (Adriana Falcão)

A reflexão sobre a melancolia remonta à Antiguidade. A questão da bílis negra, dos humores e dos seus componentes (sangue, bile amarela e a pituíta), fazia da melancolia antes que tudo uma questão biológica. Somente na era moderna, ela vai ser compreendida como uma doença da alma.

O termo Melancolia vem do grego Melankholia, é formado pela associação das palavras kholê (bílis) e melas (escuro). Melancolia significa literalmente a bilis negra, uma das muitas substâncias constituintes do corpo humano segundo a medicina antiga, mas que em excesso provocaria uma desordem cujo principal sintoma seria o afundamento nos próprios pensamentos e a perda de interesse pelo mundo exterior. Segundo Aristóteles, uma das principais características dos melancólicos seria a propensão a se deixar levar pela imaginação.

A imagem da melancolia , da antiguidade ao século XXI, é a imagem do olhar perdido, o corpo curvado sob o peso da existência, como na tela de Dürer (1514), Melancolia I. Somente a partir do renascimento é retomada a tradição aristotélica segundo a qual o melancólico é também um homem criativo e genial. Melancolia pode ser uma experiência de interiorização profunda e fértil, um estado afetivo propício a todo ser que tenha como projeto compreender e modificar o mundo.

É com os estudos de Freud, Luto e Melancolia, que a reflexão sobre os estados d´alma se ampliam e se organizam. Freud acrescenta ainda que o estado melancólico é um estado doloroso, de suspensão de interesse pelo mundo externo, de incapacidade para amar, e através do qual também ocorre a inibição para realizar tarefas e depreciação do sentimento de si.

Em um outro livro, O mal estar da civilização, Freud também falou da dificuldade do homem para ser feliz, e nomeou três fontes para nosso sofrimento: o poder superior da natureza, a fragilidade dos nossos próprios corpos e a inadequação das regras frente aos ajustes dos relacionamentos na família, no Estado e na sociedade. E mesmo com todos os avanços do progresso e da tecnologia, ainda se perguntava: “...de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?”.

Um outro filósofo, Schopenhauer, em Dores do mundo, afirmou que “só a dor é positiva” , e de que “a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão”. Na visão dolorosa da existência, Schopenhauer, argumentou que a primeira metade da vida se caracteriza por uma “infatigável aspiração de felicidade”, enquanto na segunda, somos dominados por um “sentimento doloroso de receio”.

A filósofa/psicanalista/crítica literária Julia Kristeva, no seu livro Sol Negro – Depressão e Melancolia, retoma da teoria freudiana a idéia da inconsciência do melancólico referente à perda do objeto amado, e, da teoria lacaniana, a idéia de um vazio ontológico e fala sobre uma tristeza profunda resultante de uma “carência congênita”, que ela denomina de Coisa. E acrescenta de como as nossas tragédias de cada dia podem justificar nosso desamparo: “A lista das desgraças que nos oprimem todos os dias é infinita...Tudo isto, bruscamente, me dá uma outra vida. Uma vida impossível de ser vivida, carregada de aflições cotidianas, de lágrimas contidas ou derramadas, de desespero,sem partilha, às vezes abrasador, às vezes incolor e vazio”.

Nas últimas semanas, tive um Carnaval de Cinema! E entre tantos filmes diferenciados como: Separação, Vidas Cruzadas, A Pele que Habito, Cópia Fiel, Os Filhos de João, O Homem que Amava as Mulheres, deixei para o sábado de carnaval, ironicamente, o mais novo filme do diretor dinamarquês, Lars Von Trier, Melancolia, filme indicado à Palma de Ouro de Cannes 2011, mas que se viu prejudicado diante da polêmica com as declarações bombásticas do diretor, sobre Hitler e o Nazismo.

Os filmes de um dos criadores do movimento Dogma 95, já haviam me deixado suspendida em lá menor...: Ondas do Destino, Dançando no Escuro e Dogville, são filmes que nos fazem pensar, e que nos deixam uma sensação de soco no estômago, tanto com os temas, como pelas formas de se contar uma estória, mostrar um problema ou expressar sensações. Em Ondas do Destino, temos o filme literalmente tripartido em cenas, pedaços, em ondas de explosão de uma mulher que não conseguia se expressar sexualmente e quando consegue....; Dançando no Escuro, Björk com seus óculos fundo de garrafa, enfrenta tudo para obter um certo dinheiro, e dançando na sua cegueira, também nos leva à uma escuridão profunda, e Dogville, se utilizando de um espaço teatral plano, descortina um palco também violento sobre tantas coisas. Esse último vi sozinha em casa, muda e sem fôlego, até 2 da manhã, também emaranhada naquele caminhão cheio de maçãs.

Não sei dos interesses do diretor Lars Von Trier sobre o tema, mas a mim interessa a melancolia, tema trabalhado na minha tese de doutorado sobre As Horas e Virginia Woolf, trabalho que serviu de fonte para essas citações do início do texto. Meu interesse é comungado tanto pelo comentário de Charles Feitosa que, no seu artigo “Arte & Melancolia”, fala que: “o ser humano é fundamentalmente melancólico, dominado por uma sensação de vazio interior”, como pela afirmação de Camille Claudel: “Há qualquer coisa de ausente que me atormenta”, essa última sempre à minha espreita. Então o filme de Lars, me contaminou pelo título, pelo tema, e pelas angústias da vida pessoal, banal, e melancólica frente à imensidão do desconhecido.

Melancolia pode ser um planeta, uma irmã Justine, uma outra Claire, um diretor Von Trier, uma sombra, uma caverna, um sol negro, uma cor cinzenta, mas melancolia está em todos nós. O que muda é quando esse estado de ser vem à tona e se mescla à uma outra realidade. E essa realidade sombria é a inadequação, o isolamento, o alheamento, a sintonia diferenciada, uma outra sensibilidade, mesmo frente ao fim do mundo.

O filme, é apresentado por duas partes, as duas irmãs. E também pelos sentimentos duplos complexos que estão sempre a permear esse parentesco: amor e ódio; dificuldades e facilidades; entrosamentos e distâncias; sombras e clarões. Andar a cavalo à galope num caminho no bosque, pode até ser um encontro, mas com suas fissuras intransponíveis.

Kirsten Dunst (Super Homem, O Sorriso de Monalisa, As Virgens Suicidas), é Justine, uma noiva “gorgeous” e glamorosa, que sabe fazer frases – slogans, para à publicidade, mas não sabe ver o texto da sua própria vida. Tudo é um episódio de dilaceramento. Tomar banho de banheira em plena festa de casamento; deitar-se nua na relva, quando o planeta está prestes a explodir; falar com Abraham, seu cavalo, antes de partir o bolo; fazer sexo selvagem no jardim solitário, com um estranho, ao invés de uma noite de núpcias, ou simplesmente sentir um fio de cipó a lhe prender as pernas ao vácuo.

Charlotte Gainsbourg – depois de arrebatar a Palma de Ouro em 2009 por Anticristo, também do mesmo diretor, é Claire, a clara frente à sombria irmã. Clara na objetividade, na dureza, no fazer e acontecer, e principalmente no achar e se iludir que, pode controlar tudo, inclusive os estados d´alma da irmã. Ninguém pode! E quando se dá conta da sua vulnerabilidade, da sua impotência frente à impermanência da vida, explode também de sombras antes tão desconhecidas. O medo, o desespero, a angústia desconcertante de Claire, ultrapassam à desconexão do mundo da sua irmã. Nesse momento de caos, Claire se comunica bem pior com o fim, do que Justine, essa já em estado suspenso diante das coisas e da vida.

A câmera trêmula e cambaleante de Lars Von Trier nos incomoda. Ficamos literalmente também com um olhar trêmulo frente às críticas à família, às convenções, ao lugar comum, e principalmente ao casamento. A eterna personagem do complexo de Estocolmo, Charlotte Rampling, de O Porteiro da Noite, faz a mãe da noiva, e mostra seu desprezo gélido a tudo que diz respeito ao casamento, personificado num marido beberrão, um John Hurt, que de nada nos lembra seu grande sucesso 1984. Em Melancolia, o pai da noiva está rodeado de Betties e de colheres de prata no bolso, o que só mostra toda sua frieza, disfarçada em pilhérias de um palhaço, para com a filha que, cai literalmente nas armadilhas de um festa de casamento, a começar por uma limusine que não cabe nem pertence aos caminhos sinuosos e estreito do bosque.

A apresentação do filme, em still e câmera super lenta, vai aos poucos fazendo um “foreshadowing” dos possíveis desfechos, mesclando silêncios profundos com a música angustiante “Tristão e Isolda”, de Wagner. Cenas belíssimas imprimem à melancolia propriamente dita, em especial a de Justine vestida de noiva, boiando nas águas gelatinosas de um rio parado, nos remetendo à famosa cena de Ophélia, em Hamlet, onde também a loucura, solidão e ausência fazem coro com um desfiar de nomes de flores à beira da morte. A Nona Sinfonia de Beethoven se encarrega de complementar as quebras do silêncio cortante, o terror do choque com o planeta dos sentimentos blues, nos remetendo por vezes a um 2001, de Kubrick, ou a sentimentos de agorafobia, que o cinema de poesia nesse caso, se encarrega de nos arrepiar.

Não tem quem não se identifique com os momentos vivenciados pelas duas irmãs. Seja no pavor, na ansiedade, na depressão, no pânico e em todos os males da civilização trazidos por Freud, ou por qualquer outro mortal. Confesso que o dejá vù me aterrorizou. E tudo isso na vida real é bem mais mortal que no cinema, mas, o cinema tem a capacidade de representar os horrores da vida de forma elaborada, o que aquieta nosso caos, mesmo sem querer imaginar que existe um planeta azul à nossa espreita.

Que a terra é azul, já sabia Gagarin, mas a de Von Trier é cinza!

Ana Adelaide Peixoto - João Pessoa 21 de fevereiro, 2012


Postado por Ana Adelaide em 7/2/12 as 11:45 AM

Tanto Mar

(Para meu sobrinho Matheus, que tem os olhos da cor do mar...clarinho. Parabéns!)

Quando chega o verão é um desassossego....Por dentro do coração....(Fagner)

Desde pequena que sou uma criatura das águas salgadas. É no litoral que me sinto em casa. Nas montanhas me sinto um abutre, de medo e desconhecimento. Nos sítios e fazendas, fico sorumbática, principalmente ao entardecer. Melancolia pura. Mas diante do mar, todos os sentimentos juntos me fazem feliz. Ou triste.

Mar azul, cinza, com barquinho, sem, calmaria, de inverno a verão.
Veraneios, Praia Formosa, Poço e praia do Bessa. Vento que assopra, vento...

O mar de Praia Formosa, maré de janeiro, muitos caldos, bunda cheia de areia, caracol, caravela, toda salgada, e um sal da terra salmoura que me entranhou de cheiro de sargaço até hoje. Um Farol que não era o de Virginia Woolf, mas norteou algumas estórias de menina. Meu pai! Tio Celso! Minha avó, que tomava banho de mar de ceroulas....

Nesse mesmo mar, avoei uma cueca sofrida de vida e morte. O dono dela? Gostava de Cabedelo, de xadrez, do Farol e de mangaba. Num ritual solitário, fiz esse pedaço de pano nadar em noite de lua cheia, ou terá sido dia de sol a pino?

O mar do Poço, balanços, festas, namoro nas ondas, onde todos os sais viravam um só. Beijos.
O mar Egeu – lindo azul anil; o mar Negro – ventos do oriente e uma calça saruel; o mar do Norte, Ana de Amsterdã, queijos Gouda, oba!!; o mar do Pacífico, enjôos, balsa,balanços, convés, e uma cantiga das sereias. Ceviche. Pacífico é a minha rua, uma muriçoca do além mar! Mar Morto!

Mar de Areia Vermelha, de jangadinha perdida. Um marzão somente para mim. Nem todos os peixinhos.....Bossa Nova, novamente um barquinho.
Uma paisagem? Uma praia, tanto mar, uma lua cheia, um coqueiro. Coqueirinho! Pá!
Uma serenata, areia dourada, um amor de: Houve uma vez um verão de 69. Um lençol molhado. Uns beijos, gritos e sussurros.
Uma canção? Ruy Guerra e Chico Buarque cantando Tanto Mar. Vontade de navegar com certeza e descobrir o Alentejo. Navegar é preciso!

Estive lá! Na Revolução dos Cravos. Cheguei em Lisboa na horinha e fiquei com gosto de alecrim impregnado nas memórias das passeatas. Pastel de Belém Belém Belém !

Contemplar o mar , eis a questão. Não sou a mulher do tenente francês, mas estou sempre “longing to the sea”; quem sabe existe não um tenente do outro lado, mas quiçá uma possibilidade.

Adoro trovão, tormentas, mas de noite, dormindo, em misto de sonho e devaneio; chuva chovendo, tudo cinza, e o aconchego do quentinho da minha cama.

Sonho com uma onda. Pelo filme do Eastwood, e me apavoro. Não quero que o sertão vire mar; uma vez meu filho quando pequeno perguntou: “Mãe, porque o mar não vem para dentro?” E me apavorei! Um dia, quem sabe dá a louca, e esse azul todo imenso, resolve adentrar a terra...Naquela noite não dormi...e até hoje tenho receios com as profundezas do mar sem fim. Estórias de pescador. Estórias dos celtas. Estórias...

O mar! Esse azul cheio de estrelas, caracóis, peixinhos dourados. O mar de Hemingway e do Velho; o mar dos bondes e dos desejos de Eugene O`Neill; O mar do Farol do tempo que passa de Virginia Woolf; o mar de Tio Celso e de um bisavó de nome Sinhá. O mar do meu pai. O meu mar. Peixe frito, coquinho, onda, fazer chuvisco de baleia, medo de tubarão, jangada no mar, vela molhada, deitada na areia quente feito bife à milanesa...; uma brisa, Tom Jobim, Wave....e um mar que é só meu.

Mar-ítimo! Mar-íntimo! Meumar!


Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 7 de fevereiro 2012

 


Postado por Ana Adelaide em 1/24/12 as 10:00 AM

...Alguma coisa acontece no meu coração...

 Que só quando cruza a Ipiranga e a Av. São João

Assim como Luiza, eu não estava no Canadá, mas em Sampa, e de lá acompanhei os episódios intrigantes e novatos da mais bombástica informação útil/fútil da semana. E a constatação de que o mundo é uma aldeia; da globalização; da instantaneidade e simultaneidade da vida pós–moderna.

Já na primeira manhã, abro o jornal e leio a notícia da morte do diretor teatral Fernando Peixoto que, apesar de ter o meu sobrenome, não era meu parente, mas amigo de um tempo, mas precisamente da década de 70, quando convivemos bastante por ocasião da montagem da peça Coiteiros. Ele o diretor, Flávio Tavares o coreógrafo, Eleonora Montenegro, a atriz, Oswaldo Travassos, o ator, e eu , a platéia. Durante um mês de ensaios, decorei a peça toda, e na estréia, com o Teatro Santa Rosa lotado, senti o gostinho de dizer: Merda! E no meu café Paulista, as lembranças de Fernando, nosso re-encontro no Rio, nosso vinho um dia no Leblon, ouvindo Edu Lobo e a botar as conversas em dia. Ele, que era casado com a irmã de Chico, minha xará, Ana de Holanda, ficou próximo do teatro paraibano, e de um grupo querido. Como há anos não o via, experimentei um sentimento esquisito, ler a morte de um estranho conhecido no jornal, e o seu carisma e talento, me revisitaram, com o gosto amargo do café, e uma sensação mais estranha da vida que pessoas se apresentam e se vão. E a cortina se fecha. Para sempre.

Em Sampa fui visitar a Couromoda, e me perder de vista nos stands da Arezzo, Azaléia, só para citar os da letra A, mas Thanks God, as vendas eram só para atacado, e eu, como varejista, fiquei com meus instintos Imelda silenciados. Mas eis que descobrimos uma ala de bijoux para essas avulsas... aí os olhos brilharam. Colares e Panos, para meus doces enganos. Até guarda-chuva fashion por lá vendiam. A Paraíba com seu stand bem representada, e o lançamento de um projeto do Sebrae – O Gira Calçados, projeto esse composto de uma rodada de negócios e show room a ser realizado em Junho próximo em Campina Grande.

Mas nem só de sapatos vive uma mulher! E viajei sem grandes expectativas. Não tinha feito lista de exposições, bares, lojas, menos ainda estava aflita e ansiosa. Estava com a postura de deixa-a-vida-me-levar, sem agonia. O que viesse era lucro. E nesse Maria-vai-com-as-outras, aproveita-se para viajar na gastronomia Paulistana: Primeiro o Tavares, de nome conhecido, um lugar contemporâneo, com cara de Soho pela decoração meio retrô e toques super- moderno, puro charme na Consolação. Uma sopa numa padaria típica: a Bella Paulista, já que a Mercearia do Pão não vendia bebidas alcoólicas, e como resistir a um bom vinho, estando na terra da garoa? Café Viena é sempre uma boa opção, seja pelas sopas ou pelo Buffet diverso, sem falar na vizinhança – a Mega livraria Cultura. Uma pizza no Bexiga, sempre aos domingos! Sem Melina Mercury, mas com o perfume do manjericão ao pesto... Mas o ponto alto é sempre a Famiglia Manccine, lugar que visito desde a década de 70, mas agora tem fila gigante na porta, uma filial na esquina, e uma loja (de nome Caligrafia) de presentes e objetos de L´Arte de perder a fome.

Mas sábado em Sampa tem que ter a Benedito Calixto, praça que conheci na festa de vitória de Luiza Erundina, e que depois descobri a feira de antiguidades e bugigangas. Como sou mulher de rua e barracas, gosto de ir sozinha, sem a presença masculina objetiva e apressada por perto. Gente interessante, chorinho na praça, broches, colares de murano, lojinhas, brechós, moda alternativa, tudo ao meu gosto. Uma Paulicéia Desvairada...e muitos mercadinhos pops, o que me lembrou a loja de Ritinha e Ramon (Furta Cor),nos tempos do Portal das Cores, e uma loja linda e eclética, de nome Filipéia. Às 14 horas, aí sim, hora de encontrar o marido, e faminta, tomar um chopp no São Benedito. O Consulado Mineiro e sua carne à Pururuca, ninguém entrava ou saía. Tudo dominado! Mesmo assim, um salmão com gergelim e um risoto de alcachofra fizeram a festa!

Filme? Bastou-me somente A Pele que Habito, do Almodóvar, para me des-habitar. Filme esse que os cinemas paraibanos insistem em não passar. Espaço Unibanco é sempre um bom programa. E o filme é de nos deixar muda. Trêmula. Em estado de espanto. Também vi O Garoto da Bicicleta, poético, simples e francês. E Ainda o Espião que Sabia Demais, para fazer uma concessão ao gênero masculino. Até agora estou sem entender nada, e pela primeira vez dormi no cinema, acho que foram os 2 chopps que tinha tomado no almoço....

Domingo chuvoso o que fazer? Feira do Masp, para sentir o ar da Avenida Paulista. Depois Livraria Cultura só para mim. Dessa vez, fui com um olhar mais turístico. E saí percorrendo todos os andares, a me embevecer com todas aquelas pessoas sentadas na rampa , a ler, a cochilar... Lá pelas tantas uma cadeira num canto, e um “Senhor” que dormia o sono dos justos. Reconheci os suspensórios... Encantei-me com as novas edições de luxo e arte da obra de Jane Austen (lembrando sempre da minha amiga Genilda Azeredo). Fiquei tão zonza e feliz que só comprei um livro de poesia, para não sair com as mãos abanando: A Lua no Cinema, org. por Eucanaã Ferraz, cujo título me pegou pela lua e pelo cinema... Já o almanaque de Regina Zappa sobre Chico Buarque, o primeiro da minha lista, minha amiga querida Vilani, já havia se antecipado, e agora estou aqui a viajar nos festivais de Olé Olá. Com as comemorações dos 30 anos de morte de Elis Regina, fico nostálgica e choro com Atrás da Porta ou Madalena, bêbada de saudades e me equilibrando nas lembranças dos anos 70!

Ao shopping Iguatemi tem-se que ir, para se ter a chance de ver o inatingível. Loja da Chanel, casaquetos e bolsas e pérolas, daquela que soube do conforto de um toque masculino e elegância da independência; Marc Jacobs; Louis Vuitton e suas bolsas de letrinhas; e outras grifes brasileiras, como Adriana Barra e suas estampas; as jóias de Antonio Bernardo, tudo só para ver, o que para mim somente nas revistas é accessível. Mas aí tem a Accessorize, agora já plenamente em vigor no Brasil, e é lá o meu canto. Como o próprio nome diz, me perco nas coisas inúteis e, de lá não saio, de lá ninguém me tira! O roteiro da Vila Madalena ficou para a próxima, e minha amiga Andrea bem que me orientou.

Mas o melhor de Sampa é passear pela Paulista. Lá sentimos o ritmo da metrópole; lá topamos com o paulistano que , apressado, não perde tempo. Claro que a multidão não são os cidadãos da zona leste, mas num final de semana, quero mais é sentir a cultura mais que o social. E na falta de Nova York, Sampa supre minhas necessidades da vida urbana: gente, cultura, diversidade.

Ao contrário de Luiza, não virei celebridade instantânea nem meme....mas aprendi essa nova palavra. Somente na literatura e anos de estudo, vim a entender um pouco de mímesis e representação, e somente num click televisivo, escuto e entendo os fenômenos da net, dos posts, e da repetição. Margareth Atwood e Alice Munro, escritoras canadenses de sucesso, não devem ter a noção de quem seja Luiza..., mas também o que importa? Luiza é linda e teve seus 15 minutos de fama que nós todos proporcionamos. Quanto a mim? Cheguei anônima, como bem gosto, pulverizando aqui nesse espaço, minhas estripulias paulistanas..que nem num raio da silibrina!

Na viagem de volta, para não dar cabimento ao meu pânico de avião, um menino tagarela se postou ao meu lado, e passou a viagem inteirinha a perguntar a mãe se o avião ia cair ou se já estava caindo...E eu ali, imóvel a já fazer meus últimos pedidos, cheguei sã e salva, ouvindo da aeromoça: Um Bom Dia Azul!

Ana Adelaide Peixoto - João Pessoa, 22 de janeiro, 2012


Postado por Ana Adelaide em 10/1/12 as 10:00 AM

Tia Margarida, Querida

 Para começo de conversa ela tem nome de flor! Não tem a perfeição de uma Rosa; o exotismo de uma Tulipa; ou a melancolia de uma Violeta. Mas a Alegria de uma Margarida. Alegria Alegria! Já dizia uma canção de Caetano Veloso, e uma outra do poetinha Vinícius, na sua Samba de Benção, que: “É melhor ser alegre do que triste, a alegria é a melhor coisa que existe....”. Pois se a vida nos trata mal, temos que pegar a vida pelo rabo e transcendê-la. Acho que seu nome veio com essa alegria e essa bênção.

Depois, essa flor ainda pode ser um Mal-me-quer, Bem-me-quer! Uma pétala ali e outra acolá, e as escolhas vão sendo feitas. Pelo visto, Tia Margarida vem sabendo escolher e fazer jus ao seu nome. Escolher é uma sabedoria, pois como disse o poeta americano Robert Frost no seu poema “The Road Not Taken”, uma vez escolhido o caminho, o outro vira uma miragem irreversível: “Oh, eu guardei a primeira para um outro dia! Contudo, sabendo como um caminho leva a outro, eu duvidei de que um dia voltasse.”

Desde pequena que ouvia muito sobre sua orfandade aos 5 anos e internato pequenina no Colégio das Neves. O que para mim era coisa de filme, ou de literatura das irmãs Brönte e sua personagem mais famosa, Jane Eire, e para ela com certeza, aos poucos deve ter descoberto na solidão dos corredores, uma forma de sobreviver afetivamente. Transformou trauma em fé; em entrega e aceitação. Eis aí o milagre do pão! Se aliou com as freiras e encontrou um destino. Só saiu de lá resgatada por um certo galã de cinema, que assim como nos filmes de amor: Rapte-me Camaleoa! para serem felizes para sempre.

Fazer 90 anos é algo difícil de compreender. E faço a retrospectiva na minha cabeça. O que vejo? Flashes de 90 anos bem vividos, dos quais orgulhosamente também faço parte desse tapete gigante da sua vida. Sou um pontinho de rococó daqueles paninhos que uma vez me presenteou quando do nascimento dos meus filhos. Tia Margarida pintou e bordou vida afora! E eis o patchwork das minhas memórias:


* Tia Margarida de maiô, de chapelão de palha, indo pescar em Areia Vermelha;

* Tia Margarida indo à missa, rezando o terço, e pedindo por nós todos;

* Tia Margarida na sua sala-altar, com santos e uma atmosfera religiosa e que nos dava assim, paz e reverência.

* Tia Margarida carnavalesca. Cabo Branco, Quanto riso ó quanta alegria....Uma parte de mim é folia! Outra parte de mim são os mistérios da fé...

* Tia Margarida em Praia Formosa, dando conta de uma família imensa, feliz e agregadora aos que visitavam para tomar banho de mar na maré cheia de janeiro, eu inclusive;

* Tia Margarida com Tio Múcio – Um belo casal! Sempre ouvia mamãe dizer meio com uma pitada de surpresa que, ele ajudava-a nas fraldas....coisas que os maridos e pais do seu tempo não se autorizavam. E eu desde a infância, admirava aquele homem que dividia com a mulher a terceira jornada . E o melhor, nas minhas memórias infaintis, era o “Dono” do cinema Municipal;

* Tia Margarida com os 7 filhos. Conheço todos desde pequenininha. E tenho memórias mais que deliciosas, com cada um deles, embora Leleta tenha sido mais presente, me inaugurando na vida noturna e ao Maravalha !

* Tia Margarida e seu terraço, na D. Pedro I, onde eu adorava ir no final da tarde, e me sentar numa certa cadeira de balanço. Mas logo chegava D . Alba, e claro , cedíamos aos mais velhos. Esse terraço era assim uma espécie de crônica cotidiana da vida. Íamos lá e ficávamos sabendo do dia. Pronto!

* Tia Margarida e Teca, minha irmã – sua afilhada com batizado e tudo

* Tia Margarida e papai – se pareciam física e emocionalmente. Ouvia dizer que, papai fazia jogo duro, ciumento da irmã. Hoje, depois de tantas partidas, é com o seu semblante que mato as saudades do meu pai.

* Tia Margarida e Tia Lila – as duas queridas tias. Uma em Praia e outra no Engenho. E mais na frente, as duas todas as tardes de todo um ano, nos confortando na despedida do meu pai.

* Tia Margarida cuidando. E passando pelo que a vida deveria proibir uma mãe de passar.

* Tia Margarida e a autoridade de ser mãe - Mamãe sempre que não conseguia ter autoridade no dia a dia a citava: “Duvido que Margarida tenha dessas manhas. 7 da noite tá todo mundo na cama, e tchau e benção! Imagine se ela vai ficar ouvindo 7 querendo coisas diferente, Duvido!” Depois de anos, eu já mãe, fiquei ainda mais admirando como se tem 7 filhos na vida; como se dá papinha, se irrita, se conta estória, reunião de escola, namorados, enfim...7 é número cabalístico ...tudo vezes 7! Uma santa! Diriam. Mas não gosto desse elogio, implica santidade, e acho que ser mãe 7 vezes requer mais ainda que santidade, exige autoridade e sabedoria. E mais que isso: Exige amor!

Mas, como medir uma vida? Como medir 90 anos? Para mim, que ainda tenho chão pela frente, tomara, é difícil! O tempo aí é uma abstração, pois garanto que para todos, parece que foi ontem, tudo! É uma data redonda, circular, com subidas e descidas, presenças e ausências, sucessos e fracassos. E depois de dar conta dos 7, eis que agora tudo se multiplicou. Muitos netos, bisnetos....e a vida segue seu curso. Deliciosamente. Estranhamente.

Hoje é dia de festa. Dia de celebração. Uma mulher que viveu 18 anos por entre as freiras; que passou 7 anos grávida, mais 7 cuidando dos seus bebês, e tirando de si carinho, fé e amor para viver sua vida. Pelo visto conseguiu. E de veraneios em veraneios; de compra de caju em compra de mangaba na feira de Cabedelo; de carnavais em carnavais; de festas e funerais; e de aniversários em aniversários, já faz parte do calendário turístico familiar, eis que Tia Margarida vai fechando um século!!!

Tiro aqui uma pétala de Bem-me-quer & do Bem-querer, só para lhe atestar & brindar mais uma vez à sua felicidade, alegria, amor, e vida longa.

90 beijos

Da sobrinha,
Ana Adelaide

(Homenagem aos 90 anos da minha Tia Margarida Wanderley)
João Pessoa, 5 de janeiro, 2012


Postado por Ana Adelaide em 3/1/12 as 12:00 PM

Primeiros Rabiscos de Janeiro

Começo o ano, lendo a crônica “O ano em que não terminamos”, de André Ricardo Aguiar, publicado no primeiro dia de 2012, no Jornal da Paraíba. Gosto da poesia de André, das suas palavras, e nesse começo de ano, da sua prosa sobre círculo vicioso, escalas de tempo, patinação no caos, embriaguez, trapaças, variação de tempo, sonhos, e o que sobrevive ou não, nos nossos gestos da memória. E ele conclui: “O fim do ano é um nó!”. Mas também vislumbra uma esperança de que não é tão difícil desatá-los. E nos brinda e nos convida à namorar às nuvens, versos de Wislawa Szymborska poetisa polonesa, ganhadora do Nobel de Literatura de 1996, cujo livro, recém lançado no Brasil, está ali na minha mesinha de cabeceira.


Identifiquei-me completamente com a crônica de André, pois como falei no facebook, sou melancolia no último dia do ano. Fico ensimesmada em achar que aquela estrada terminou, que não fiz tudo, mas, ao mesmo tempo, sonho, tomo banho de mar para agradecer tanto, e pedir mais ainda, geralmente uma lista grande , pois hoje temos urgência em tudo que fazemos.

Olhando para trás, fiquei feliz de ter tido saúde para dar e vender; usufrui dos momentos prosaicos da vida; tive muito trabalho, e me lancei em desafios com tantas aulas, tantos assuntos, e tantos programas de literatura. Reclamei bastante, mas foi bom ter dado conta. Pintei a casa, arrumei tantas coisas, joguei tanto lixo fora, e por incrível que pareça, tudo pede novas arrumações. Ai Ai! Como dá trabalho ter uma casa no mínimo organizada. Sim! fiz as pazes com o cidadão cachorro – Boris, um labrador do meu sobrinho Matheus, que veio morar no meu quintal, e aos poucos perco o medo desse elemento que me olha com o olhar de cão sem dono...

Conheci Brasília em 2011. Finalmente visitei a Capital do Brasil. Senti o cheiro do Cerrado, e o vermelho magenta da região central do Brasil. Agora já posso fazer vôos maiores. Afinal me sentia um pouco encabulada de ter visto o mundo lá fora e nunca ter ido à capital.

O ano novo, com Rita Lee nos palcos lançando perfumes antigos, não poderia ser menos que esfuziante. Infelizmente perdi Antonio Nóbrega, pois afinal, não se pode ter tudo nessa vida. Tinha encontro com familiares, brindes, muito Pro-Seco, lentilhas, porco ciscando nas assadeiras, e para frente..., romã para dar sorte e prosperidade, e rock, não é bebê? Fui dormir feliz, como uma verdadeira Ovelha Negra.

Parabéns pela escolha dos artistas da virada, e pela decoração natalina da cidade. Achei tudo muito bonito e original.

Vou à praia no Reveillon já há 10 anos, e confesso que está ficando inviável. Muita gente, muito banheiro químico, muito xixi, que não sei como resolver esses nós. O turista finalmente descobriu João Pessoa, para minha tristeza. Sou egoísta e queria esse lugarzinho só para mim. Pude constatar isso in loco, em Coqueirinho. João pessoa era a cidade esquecida entre Fortaleza, Natal, Maceió e Recife. Bem que os governos poderiam ter vislumbrado que, um dia eles invadiriam nossas praias, e, finalmente chegaram. E agora, estamos com a cidade entupida, e falta tanto...principalmente serviço e capacitação. Não temos conhecimento acumulado na área, e acho que levará um bom tempo até que tenhamos praias limpas, espaços organizados, e conforto para quem vem de fora e para quem daqui não sai.

Dia primeiro o ano, é só lentidão. Um certo mormaço, enfado, e ressaca de tudo. Até a TV está de férias, e os programas reprisados, me deram a alegria de rever a entrevista de Tulipa Ruiz (minha cantora de 2011), Tiê, e Jeneci, no Gnt, meu canal preferido também. Mas, como todo final e início de ano trás tragédias, fiquei muito triste com a morte prematura do jornalista e crítico de cultura, Daniel Piza, quem eu gostava muito de ler aos domingos, no Estado de São Paulo.

Hoje, realmente o primeiro dia do ano (dia 2 de janeiro), misteriosamente amanheci toda animada com esse mês de calor, verão e luz, sentindo energia para iniciar novo ciclo. Nada de ano de muletas, nem de farpado, como disse André. Ando fazendo as pazes com “a vida que insiste em viver na gente” e aceitando meus ritmos, minhas lacunas e dando uma oportunidade à meus dias.

Para 2012, tenho urgência em cuidar do corpo. Dos movimentos. Da agilidade. Da caminhada. Do Pilates. Da musculação...Ufa! e de organizar esses textos num primeiro livro. Já não era sem tempo! Mas como conseguir trabalhar nas férias? Depois de um ano tão exaustivo. E o pior, descubro cotidianamente que, o ritmo frenético dos dias de hoje me pegaram de cheio. E percebo que não sei mais ficar de férias em casa. O cotidiano me traga. E o pior, eu gosto! A segurança do dia a dia; dos afazeres; das obrigações; das demandas; me tomam os dias. Acho que para tirar férias literalmente vou ter que ir para o Havaí! Bem longe da domesticidade, quem sabe pego onda, danço Hula Hula, e me dou de presente um colar e um sarongue florido. Como isso tá difícil de acontecer, vou ali mesmo dar um mergulho, e comer um caranguejo.

É tudo que promete as minhas férias!

Boas Férias!


Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 2 de Janeiro, 2012


Postado por Ana Adelaide em 12/27/11 as 11:10 AM

Dr. Carrilho: O Homem Que Caminhava

 “A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz....A casa é uma das maiores (forças) de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem” (Gaston Bachelard)


Desde muito pequena que me enamorei de um quarteirão na Praia de Manaíra. Era o lugar onde morava Dada Novais, Corina, Meire e Denise, Mário e Marcilhinho, Chôla Henriques (na rua atrás), Tenio, Antonio Carlos e Eduardo Martins, Totonho, Serjão, Mário e Mingo e os Carrilhos.


Manaíra se resumia a esse lugar. Uma praia ainda longe de tudo, limpa e silenciosa, onde na maré de janeiro, tomávamos banho de bóia. Durante minha meninice, foi lá que fui descobrindo, às amigas, os assustados, os banhos de mar, os paqueras, os primeiros namoricos. A juventude dourada de um tempo. E a casa dos Carrilhos, era e é até hoje, como tão bem disse Aberlardo Jurema no seu texto no Correio da Paraíba da semana, um ponto de referência, literal e simbolicamente.

Fui contemporânea de Ana Luiza, a filha mais velha de Dr. Carrilho e D. Célia, que quando foi estudar no Rio de Janeiro, voltava cheia de bossa e novidades de um mundo que era grande. Minha prima Marisa Veloso Borges, também foi, e juntas distribuíam sonhos para as meninas provincianas; as boas novas de um Rio ainda desconhecido para mim.Depois vieram os outros irmãos, e, Neto e Nenen (Fernando), logo se encantaram com as belezuras das minhas irmãs.

Fui a algumas festas de adolescência naquela casa mais que aconchegante; fiz alguns pit stops em Reveillons, Peladas, ou qualquer dia, mas não posso dizer que fui uma freqüentadora assídua daquele terraço emblemático. Mas, há quase duas décadas que escuto, através da minha irmã Bebé, nora de Dr. Carrilho, somente levezas e aconchegos, dos almoços de domingo e estórias ao redor da mesa. Sou fascinada por uma mesa, comida e conversas, nem sempre nessa mesma ordem, e a começar pelos sabores e belezas culinárias, sempre dizia à minha irmã: Bebé, leve um caderninho, e anote pelo menos algumas dicas culinárias do talento de Ivan (seu Genro), ou das Senhoras trabalhadoras da Cozinha, claro que tudo supervisionado pela filha Lucila/ Cia e D. Célia.

Com o tempo, aprendi a ver uma figura masculina elegante, um homem atlético e altivo, que todos os dias impreterivelmente, caminhava calçada adentro e afora. Morei anos no Cabo Branco, e fosse o que fizesse, sempre via aquele homem caminhando a passos largos. Era Dr. Carrilho. Como era um pouco sisudo e sempre focado na caminhada, ficava encabulada de cumprimentá-lo. Depois de anos, já com Bebé no terraço, algumas vezes o abordei, e me identificava: Boa Tarde, Dr. Carrilho, sou irmã de Bebé, e ele meio que sem jeito, elegantemente me retribuía o cumprimento.

Outros anos passaram , e um dia soube que Dr. Carrilho não poderia mais caminhar. Estava com sua vista prejudicada, e seus olhos agora somente seriam a janela da sua alma. E para meu espanto, Dr. Carrilho se re-inventou e passou a andar ao redor do terraço do primeiro andar. Dr. Carrilho agora fazia parte do meu percurso e da minha paisagem E toda vez que ali passava, e não eram poucas (com minha vida atribulada, levando e buscando filhos nos lugares), sempre avistava aquele mesmo homem elegante, a caminhar num quadrado, que ele refazia em léguas, tamanha sua necessidade física e subjetiva e dar passos largos vida afora.

Nos bons e mais restritos momentos, o que sempre me fascinou naquela casa, e naquele homem, primeiro era sua capacidade de aglutinar jovens. Dr. Carrilho gostava imensamente de trocar figurinhas com todos os amigos dos filhos, e depois netos, e já já bisnetos. E assim foi ganhando fãs e agregados, sempre lá aos domingos para o whisky de cada dia, e as delícias de Como Água para Chocolate. A outra coisa do fascínio era o que minha irmã sempre se perguntava: O que tem aquela casa para conseguir agregar tanta gente , sempre? Eu ficava a tentar compreender esse fascínio. Ora uma casa tem história; tem gente; tem alma; tem personalidade; tem cheiros; gostos; amores; frustrações; dores e delícias de uma vida. Ou de várias! Essa casa tinha e tem tudo isso e mais afeto em tiras e amor aos pedaços. Uma casa acarinhada! Uma casa de Babette! Uma casa com Chocolate! Quem sabe com a subjetividade de uma Juliete Binoche, a transformar o pão e o vinho , cotidianamente. Não é pouco! Certos tesouros e luxos, só os sábios dispõe, ou tem a generosidade de compartilhar.

O filósofo Gaston Bachelard, no seu livro A poética do espaço, fala da Casa e do Universo; do Ninho; dos Cantos e da Imensidão Íntima: “...é preciso dizer como habitamos o nosso espaço vital de acordo com todas as dialéticas da vida, como nos enraizamos, dia a dia, num “canto do mundo”. Porque, a casa é o nosso canto do mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos”. Dr. Carrilho, junto com D Célia e filhos, com certeza fez daquela casa o seu canto do mundo, e o canto de muita gente.

Por esses dias, Dr. Carrilho fez sua caminhada maior, rumo às estrelas. Deixou órfã toda uma família maior; sua família de gerações freqüentadores daquele terraço e daquela casa. Foi-se numa semana de festas, e fiquei a pensar que se isso não teria sido sua homenagem derradeira. Numa casa tão festiva, onde as datas do Natal e Reveillon eram sempre tão celebradas, Dr. Carrilho foi-se no meio delas, como se quisesse deixar seu rastro de comenta brilhante no coração de todos, mais ainda no de seu filho Fernando, que hoje aniversaria; ou de Neto, seu outro filho e que faz anos justo no Ano Novo; ou ainda no coração de tantos agregados, que jogavam pelada, ou simplesmente brindavam à vida.

Bachelard diz que: “A vida começa bem, começa fechada, protegida, agasalhada no regaço da casa.” Acho que a vida também termina num terraço de uma casa. Pelo menos foi assim, para o homem que deixou o Manaira mais triste e mais pobre. O homem que caminhava finalmente cruzou a linha do horizonte e do arco íris.

“Toda pessoa deveria então falar de suas estradas, de suas encruzilhadas, de seus bancos. Toda pessoa deveria fazer o cadastro de seus campos perdidos”.

Meu abraço carinhoso à D. Célia, Ana Luiza, Beta e Cia; Neto, Eduardo e Fernando. E Fernando, não fique triste, vida e morte fazem parte do mesmo arco-íris! Por isso, por mais esquisito que possa parecer, meu abraço também de Parabéns prá Você!

Ana Adelaide Peixoto, João Pessoa 27 de dezembro, 2011


Postado por Ana Adelaide em 12/13/11 as 9:00 AM

Casamentos & Divórcios

 Nessas últimas semanas li reportagens sobre pesquisas do IBGE e a explosão de divórcios e re-casamentos no Brasil. Depois também vi na TV, comentários, debates sobre o tema. Não sou especialista, nem D. Flor , mas até que tenho alguns dados de estrada e causos que poderia dividir um dia.


Quando me casei , era uma menina, embora me achasse uma mulher feita de experiências diante da vida. Ledo engano. Dezenove anos é isso mesmo, uma menina, cheia de sonhos e de expectativas de viver a vida inteira junto. Mas como no filme Simplesmente Amor, como saber quem é o grande amor da sua vida? E qual o amor que é para a vida toda? Éramos jovens e não sabíamos. Era a década de 70 e o mundo explodia em novos comportamentos e sexualidades. E como garantir que viveríamos numa redoma sem nos deixar contaminar pelas milhões de possibilidades à nossa frente, fosse no Bar O Boiadeiro, fosse alhures.


Lembro que brinquei um carnaval sozinha, recém casada, e fantasiada de cigana. Com a barriga e a alma de fora. E eu brinquei tanto tanto, e toquei tantos pandeiros até altas madrugadas no Cabo Branco, que na quarta de cinzas, me deram as cinzas do meu próprio casamento. Ora, mulher casada que anda sozinha, é andorinha! Outra vez, viajei por um mês para Londres, e lá, dançava todas as noites nos Dance Clubbers. Ora , se os pubs fecham às 11 da noite, o que essa andorinha fazia até as longas madrugadas no meio dos fogs ? Perguntavam os Sherlocks ao meu redor. E eu, cheia de culpas e constrangimentos, me inquietava: “como não posso dançar? Só porque me casei?” Descobri aí, nessa temporada, que o casamento era sim uma prisão, mesmo que subjetiva. Pelo menos para uma menina que amava os Beatles e os Rolling Stones.


Casei-me de noiva, de sandália rasteiras, ao som de Jesus Alegria dos Homens e Bridge Over Troubled Water, tocado ao órgão pela arquiteta Eliane Freire, ex-dos Diplomatas, que recentemente nos deixou e hoje deve estar a tocar para alegria de Jesus. Na festa somente bolo com champanhe. E vatapá para os íntimos. Tudo tão simples, que hoje ninguém ousa ter tanta simplicidade. Já era simples antes de Danuza Leão!


Mas, quando acabou, diferentemente do censo comum, não acreditava que não tinha dado certo. Tinha dado certíssimo. Mas não sabíamos nos reinventar no cotidiano. Casamento é Morte e Vida Severina todo dia. Capacidade de - nada como uma boa noite de sono no meio de dois conflitos. É guerra de sexos sim. É guerra de poder. Mas também um exercício de humildade e compreensão. Sem submissão jamais. Naquela época, uma briga que fosse, era o fim do mundo. Quando se é muito jovem a urgência é a palavra de ordem. Não se sabe que: Nada é prá já!


Nunca sonhei em casar e ter filho como já contei em crônica. Outro dia , encontrei uma colega de geração , e ela falando de como os casamentos são frágeis hoje em dia,e falou: “Diferente do nosso tempo hein Ana, que queríamos casar”. Eu olhei em volta, pois aquilo não era comigo. Nunca planejei casar e constituir família, como se diz. Aliás, nunca planejei muita coisa. Sou aquariana, e a vida vai vivendo o seu curso. Não sei se isso é bom ou ruim, só sei que é assim comigo. Um dia por vez. E tenho muita dificuldade de saber planejar o ano que vem.


Casei-me num tempo que era obrigatório o uso do nome do marido. Com isso, perdi o nome da minha mãe. E depois fiquei com o meu novo nome de herança, por carinho e memória de duração. Uma parte de mim. E depois das dores e apartes, ficávamos um tempo de molho para averbar um papel com nome de “Desquite”. E com esse nome, uma acusação: “Ela é desquitada!” Que perigo! Que ameaça! Embora nunca tenha dado cabimento a esse título. Sentia-me a mesma, e diferente , claro. Somente alguns anos depois mudei de nível e virei uma mulher divorciada. E como achei elegante esse status! Depois, já em outras Bodas de Papel, e sem papel algum, toda vez que preenchia meu imposto de renda, onde tinha Estado Civil, assinalava o X de “Outros”. E de Outros em Outros, cheguei a casada de fato, pois 23 anos desbravando a natureza humana (a minha e a do amado), não posso mais me achar coisa alguma, senão casada de novo. E concordo com Ruth de Aquino na Revista Época da semana: “Recasar não é começar de novo, mas continuar na mesma estrada!”


Interessante que, quando meus filhos eram pequenos, tinham medo que o prazo de validade do meu casamento estivesse por vencer. E viviam me perguntando se eu ia me separar DE NOVO... Era difícil convencê-los do contrário. E ao contrário das leis dos bons costumes, e numa pura ironia, eles se sentiam inseguros, porque no colégio, quase todos os coleguinhas eram filhos de pais separados. E deviam se perguntar: “Como minha mãe ainda não faz parte desse lugar comum que era o da separação?” Ao ponto de, na Escolinha Sempre Viva, não se comemorava dia das mães nem tão pouco dia dos pais. Mas o dia da família, pois o que tinha de ex-; futuros-; e atuais....,somente uma mesa comunitária poderia dar conta dessa nova família e desses novos amores também.
As separações modernas, doeram sim, e quebramos o pau, mas não tivemos mais a necessidade de quebrar o pau na casa das amantes, quebrávamos nas nossas próprias, incrédulos e sonhadores. Éramos da geração pós-hippies e do amor livre, da paz e amor, mesmo que ainda com muitas repressões internas principalmente. Agora digerir, mastigar as relações não era coisa fácil. Não queríamos ser como nossos pais, mas não sabíamos como ser diferentes tão pouco. Nessas pesquisas, li que as mulheres não agüentam viver o insuportável, e por isso exigem discutir a relação. Já os homens odeiam essas DRs, porque eles botam prá debaixo do tapete todo e qualquer desentendimento. Tem verdadeiro pânico de praticar o pão pão queijo queijo. Li também que, a maior queixa das mulheres nos consultórios psicanalíticos, é sobre o narcisismo do homem. Pronto! Tá explicado. Homem olhando pró umbigo, e mulheres olhando ao redor! Teria distância mais absoluta? Marte e Vênus não superam essas léguas luzes.


Quando vou à festas de casamento, fico impressionada com o conto de fadas armado. As fadas estão aí com tudo. Mais do que nunca, o romantismo é preciso. As daminhas revirando os olhinhos/ as noivas translumbrantes tremendo os queixos; o noivo meio sem jeito diante daquela pompa; buffets que nem a realeza britânica nunca viu igual; cornetas fazendo o grande anúncio; portas centenárias rangendo, e uma platéia muda e silenciosa, com os olhos entumecidos, assistindo em pose testemunhal, aquele discurso que não é do Rei, mas de um padre tentando ser engraçado e fora de propósito, que aprisiona com o “até que a morte os separe”. Aliás, os padres por aqui de maneira geral, são por demais inoportunos: fazem graça onde a ocasião é solene; tentam dividir com os convidados certas pilhérias machistas; e esbravejam palavras de ordem, que já não cabem nos dias de hoje. Uma comédia de erros, com chuva de arroz, pompa e circunstância.


O segredo para uma longa jornada noite adentro? Não tem. Cada química é única. Mas, acho que, o principal segredo é o de se ter uma vida própria; entender que depois de uma briga estúpida o mundo não acaba; ter a capacidade de pedir desculpas; de perdoar; e de rir de si mesma e do outro, e dos dois. Não quebrar o encanto cotidianamente também vale. E tomar muito, mas muito cuidado mesmo, com a chegada dos filhos. As mulheres tem mania de abandonar os homens com a chegada dos filhos. E não poderia ser diferente. Durante anos temos que cuidar cuidar e cuidar. Sim! Nunca chamar o marido de “filho” também vale. São instâncias/sintonias diferentes, onde o tesão não navega jamais. A não ser que seja uma fantasia sexual....e por falar em fantasia, vale fantasiar também; só não vale que estamos num conto de fadas. Num Conto Chinês talvez....Quartos separados, banheiros separados e escovas de dentes separadas, talvez seja a receita do casamento moderno. Mas daí todo o cuidado é pouco, pois o fio da navalha é tão tênue, que nem Sommerset Maugham saberia decifrar o fio.


E já que estamos falando de conto de fadas....leitura obrigatória se faz o conto de Marina Colasanti – A Moça Tecelã, que fala sobre uma donzela que tecia tudo que queria e era feliz, até que se sentiu sozinha e teve a idéia de tecer um homem, um amor. Esse amor que logo se mostrou ganancioso, foi lhe pedindo mais e mais, até que quando se viu, só tecia, para agradar e suprir o amado. Foi quando , na torre do castelo sentiu-se triste e aprisionada, e num piscar de olhos danou-se a desfiar tudo o que construíra, até que desfiou seu príncipe. E viveu feliz para sempre.


E Viva os Noivos!


Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 12 de dezembro 2011


Postado por Ana Adelaide em 11/22/11 as 10:20 AM

Diferente, Sim!

 No colégio, ela se via diferente. Mais magra, mais cumprida, mas desengonçada, com menos peito, menos atirada, menos convidada, mais encabulada, mas calma, enfim...tantas coisas.

Depois, quando fez quinze anos, não quis festa. Não gostava de debutante, nem de fru-fru, nem de saltinho, nem de babados. Gostava de uma calça jeans rasgada, umas sandálias hippies, e umas camisas folgadas. Pelo jeito não era muito feminina para os padrões. Mas sonhava com um vestido que não sabia explicar. Anos depois viu que era um Pucci, estampado, tipo Kaftan, anos 60´s. Queria mangas bufantes, despojamento. Sua mãe não entendia que moda era essa, e as duas, perdidas nas lojas Armazém do Norte, não se entendiam. Até que teve um vestido trapézio, caseiro, mas serviu de exemplo para o que queria. Só entenderia seu gosto mesmo quando, anos depois, se viu diante de hippies em London London, em Soho, ou em Greenwich Village em Nova York, ou até mesmo na feira hippie carioca. Sua identidade do vestir havia encontrado. Balangandãs!

De presente pelo adeus à vida de menina moça, ao invés da formalidade da apresentação à sociedade local, ganhou de presente uma viagem ao Rio de Janeiro, onde ficou um mês como a princesinha do mar. Sentia-se cidadã do mundo. E não sentia saudades da terra natal, como é de costume dos compatriotas. Se culpava e se excluía. Que coisa! Não tinha a menor saudade de feijão verde com carne de sol. Não come carne. E o sol? Ah! Esse tem em todo lugar, pensava. Sempre gostou dos ares cosmopolitas das cidades grandes. Comentavam que sua pupila dilatava ao cruzar Goiana rumo a Recife....E a Lagoa e o Ponto de Cem Réis lhe pareciam pequeno para os saltos que queria dar. Seu trampolim ainda não era o do Clube Astréia . Embora mais velha, tenha compreendido que a maior viagem é sempre aquela que se faz da janela, leu isso em algum lugar. Ou que, se queres ser universal, dê a volta em casa...coisas assim. Mas quando se é jovem demais, o quarteirão é alhures.

Mais tarde outras diferenças. Não tinha como sonho o casamento, nem tão pouco a maternidade. Achava inimaginável passar a vida inteira com um homem só. Como saber que aquele tal homem é o homem da sua vida. Viu essa pergunta depois no cinema na comédia romântica, Simplesmente Amor. Casou porque amou. E toda forma de amor valia a pena. Não se usava amar e não casar. Mas não quis filhos logo. Achava que teria toda a vida para aquela empreitada. Sim, não se via mãe. Era uma menina que amava os Beatles e os Rolling Stones; que forçava a barra para ter cabelos naturalmente encaracolados; pintava as unhas de cores diferentes; e se maquiava com delineador e rímel. Queria ser correspondente do mundo. Não de guerra. Mas da Arte.

Imaginou-se assim quando fez um curso de datilografia e estenografia, será que alguém ainda sabe o que é isso? Tinha máquina de escrever da Remington e entendia de garranchos. Decifrava códigos. Traduzia. Estudou nos primórdios da Cultura Inglesa e sonhava com o Big Ben badalando a passagem do tempo, já se anunciando fã ardorosa de Mrs. Dalloway. Quando lá chegou um dia, teve um troço! Mergulhou em Piccadilly Circus com tanta intimidade, que parecia ter nascido ali. Uma estrangeira aculturada! Transitava em Portobello Road , por entre tantos indianos e outros gringos de Minha Adorável Lavanderia, como se de lá nunca tivesse saído, e quando viu o filme Notting Hill chorou copiosamente. Queria ter ficado ali for ever. De preferência sentada num daqueles bancos dos parques; o de St. James, no inverno , com o fog no ar e os postes centenários também . Que menina mais esquisita! Pensava. Tanta coisa tropical para se identificar, e gostava tanto assim do Countryside Britânico. Culpa de Mr. Barlow! E nem era afeita aos reis e rainhas.., mas ao visitar os palácios, sentia frio na barriga, como se fosse realmente uma Cinderela. Mas, gostava mesmo era dos chorões dos Backyards de Cambridge, que lhe davam um certo charme cinematográfico. Eram os seus Jardins de Noviça Rebelde Out of Áustria! E desde os tempos do Cine Plaza e Municipal, que estava sempre a sonhar com esses lugares longínquos e enevoados.

E a maternidade? Todas as amigas, casavam e ficavam grávidas logo. Ela não. Queria acordar tarde, ter o dia todo seu, estudar, fugir, se perder, ainda não sabia nada da vida, e não se via com a barriga grande. Não pela estética, mas pela responsabilidade. Mas claro, isso lhe angustiava, pois todos lhe perguntavam o óbvio. E de repente se sentiu doente. Doente porque a barriga não crescia. A pressão era tanta! Tantas perguntas que não sabia responder. Amava e queria ser livre; queria ser mãe, mas somente um dia, não naquela hora. Uma equação difícil de resolver. As más línguas inventavam, especulavam, as maledicências vis de uma cidade provinciana não lhe davam crédito. Seria uma mulher seca? Seria uma mulher não mãe? Uma mulher sozinha? Não abenhsonhada? Quanto modelo e padrão para se encaixar! Não cabia em nenhum. Mas tinha certeza dos moldes todos dela. Sabia que, em algum lugar existia tudo que lhe via à cabeça. Talvez num filme . E o cinema bem que contribuiu para tirar toda e qualquer caraminhola da sua cabeça. Ou botar ainda mais...

Ah! Mas os anos se foram, e a vida não espera. Um dia, se viu sem filhos, sem marido e com toda a dor do mundo. Ou a liberdade suprema de fazer o que quisesse, se quisesse, quando assim quisesse. Entendeu que a liberdade era azul! Se viu novamente nas encruzilhadas das Roads Not Taken, e da irreversibilidade das escolhas. E veio ano, vieram outros, amores brutos, frágeis, amores; veio ela mesma, e já começou a se entender melhor e encontrar um vestido aqui e outro ali que lhe fizesse sentir o corpo como feitura, dentro de uma máscara que lhe coubesse. Uma mulher que não ia com as outras. Tinha querência. E ousava por em práticas seus gostos.

E diante da imensidão da vida, teve filhos, amou outros, escolheu errado, certo, mais ou menos, e sonha até hoje em ir ao Nepal com uma mochila nas costas e comendo arroz integral. Não não não, hoje é menos natureza, e gosta muito mesmo é da vida urbana e da contemporaneidade. Adora vilarejos, esquinas, bancos de praça, becos, bares, e butiques. Tudo na terra. Mas pode ser longing to the sea, que nem A Mulher do Tenente Francês. Não tem mas tanta dúvida quanto às compras, nem aos vestidos, e, entendeu que, saber o que usar é sim, saber se situar no mundo. A moda sempre foi seu meio de expressão também. E continua sem gostar de cintura de pilão, até porque nunca teve, mas gosta de saia rodada. Saias. Saia comprida. Saião. Com jeans e camiseta ainda se sente poderosa, e ao ouvir Danuza Leão dizer que agora só se veste de Steve Jobbs, ou seja, de jeans, camiseta Hering e All Star, se identificou. Usa esse uniforme desde menina, e pelo jeito, enfrentará às próximas idades assim meia volta, volver!

Hoje, diferente? Não tanto. Entendeu que de perto ninguém é normal, e que ela tem sim seus gostos mais excêntricos como um sapato Luiz XV que está na sala de visita, ou uma bolsinha da ex-sogra que ainda faz vistas nas festas mais soirées. Só vê que tudo é verdade quando chega numa festa e todas as mulheres estão com o cabelo passado a ferro, vestidos de brocado, e salto agulha. Tudo Igual. Não gosta desse time. Prefere as loucas, as fora de moda ou mesmo as destoantes, são mais alegres e se divertem. E como!

Tem pensado nessa idade, que de melhor não tem nada. E tem um sonho. Ou muitos ainda. Queria poder ficar em trânsito um ano. Perambulando. Por lugares legais, bonitos, que possam oferecer paz e novidades. Não precisa ser Londres ou Nova York mais, mas, poderia ser uma vila portuguesa com certeza; um lugarzinho na Andaluzia para ensaiar uns passos de dança Flamenga e ouvir Paco de Lucia; ou ainda uma praça na Toscana, com pinheiros, vinho Chianti, e sardelas com pão fresco. E aprendendo françês ou italiano, as línguas mais lindas. Português também é, mas essa já fala. Mal e com erros de crase e concordância. Mas um dia acerta, com a ajuda do professor Chico Viana, bien sur! Quanto aos vestidos Pucci, já que não deu, se diverti com os das lojas de departamento Summer collection... . Mas entendeu muito mais nessa vida que de vestidos, embora continue adorando os tecidos e o esvoaçar da vida; entendeu o poema Ensinamento de Adélia Prado e que a coisa mais fina do mundo é o sentimento.

E até agora vive um dia de cada vez. Lá e Cá. Com e Sem. Se sonha? E Como sonha! Acordada!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 21 de novembro, 2011


Postado por Ana Adelaide em 11/15/11 as 11:00 AM

Eu Vi os Homens Trabalhando

 Eu vi os homens trabalhando
ao sol do meio-dia
eu vi os homens trabalhando....
altos magros, louros, morenos
gordos, pardos, baixos, pequenos
o suor escorrendo pelos rostos, pernas, ombros, torsos
...uma piada, uma risada, um impropério, um assovio...

Há aproximadamente um ano, começou uma obra de um edifício dando os beiços com o meu quintal. E lá se foi a minha paz há tantos anos, mais especificamente 27, de morada com as rãs, muriçocas, e cajus conta.

O prédio já vai alto. E todo o trabalho parece ser bem dentro do meu quarto, ao pé dos meus ouvidos. Mas na vida, a gente se acostuma, mas não deveria...já disse lindamente Marina Colasanti em crônica/poema com esse título. E durante todo esse tempo, tenho cantarolado Construção, Pedro Pedreiro, e acompanhado essa lida de tijolo sobre tijolo. O mais irônico é que, a cada acidente de trabalho que leio no jornal, fico aflita pensando nos meus trabalhadores. Sim, porque à essas alturas, já os sinto de casa.

Todo dia, impreterivelmente, às 7, o burburinho começa. E da minha cama, do meu sono, e ainda dos sonhos, fico a ouvir todos os barulhos. Teve o tempo da fundição, um rém rém feito motor de dentista; teve rosnar que nem o de Boris...; teve barulhos finos e afiados e cortantes; bomba d´água; solavancos; sopapos; agudos; graves; surdos – tudo mais que orquestrado; e som tagarelados por aqueles que sabem cimentar, fundir, cavar, e construir.

Mas, o que mas me encanta é o barulho do assobio e das conversas. E o povo ainda diz que homem não conversa. Também achava. Mas depois da construção nos fundos do meu quintal, passo a ver a tagarelice masculina com outros olhos. Esse homens, do alto dos seus andaimes, falam viu? Gargalham, fazem joça, brincam, cantarolam, soltam piada, zonam com os colegas, e acho, digo acho, que bebem uma pinga de quando em vez. Quem sabe tamanha alegria no sol forte, tenha origem na branquinha. Ou tudo não passa de folclore, ou até preconceito.

Certa vez, aliás, algumas vezes, fiz reformas aqui em casa, todas descritas em crônicas. E tinha um ajudante de pedreiro que gostava de tomar uma. E ele tomava algumas durante o seu dia de labuta. Depois soube que era danado na bebida, que brigava com mulher, até que um dia chegou todo inchado, todo alérgico, os pés em carne viva dançando naquelas botas galochas sem conforto e sem motivação. O corpo pedindo socorro. Fiz meu papel de plantão médica! Conversei sem querer dar lição de moral, falei dos malefícios do álcool, da diabetes, de isso e aquilo, do filho que precisava assistir, da mulher que deveria cuidar, das contas a pagar, mas principalmente da sua saúde. O nome dele não era Pereirinha..., mas era assim no diminutivo, tamanha sua fragilidade. A obra acabou, e perdi de vista esse Pereirinha particular, embora sempre perguntasse por ele a outros trabalhadores que ficaram fregueses. Até que um dia, recebi a triste notícia. Pereirinha tinha sido assassinado. Ao sair bêbado do bar, tinha sido espancado até a morte. Como esses casos que a gente vê na TV, mas no caso dele, um causo a mais, que não saiu no jornal. Nem nas estatísticas ele foi parar. Um rapaz jovem, trabalhador, com um talento de pedreiro requisitado, mas que aquela bebida branca o iludiu na hora da fome, do cansaço, até a morte. Morreu na contramão, sem ao menos atrapalhar o tráfego!

Fiquei a pensar em tantos outros homens que trabalham de sol a chuva com esse pó cinzento que nem barato dá, mas que mata ou de doenças respiratórias, ou de doenças avessas e transversais. Talvez por isso, esses homens também cantam. Cantarolam o dia. Fico por vezes enfadada do mormaço, do calor, aqui no meu bem bom do meu quarto, com ar condicionado, lendo jornal, cochilando, até nem mais preciso de despertador. Enquanto esses homens carregam pedras literalmente. Por meio da Dengue (as águas paradas infestadas enviaram uns mosquitinhos aqui em casa, motivo de termos contraído o estar dengosos).

Pensei no poema de Vitória Lima, cujo título tomo emprestado para essa crônica. Pensei nos mineiros enterrados e depois salvos, nos outros que não tiveram volta; e toda vez que começo a ficar aflita porque não durmo, não tenho sossego, e não gosto desse gigante que de pedra em pedra, me cobre a vista no horizonte, logo logo passa quando escuto a camaradagem masculina por entre os escombros da vida; as risadagens de quem só tem aquela possibilidade de sobreviver; e da roda viva desses homens por entre é pau, é pedra, é o vento ventando.

E nesse Dia da República, minha homenagem aos homens trabalhadores, mais especialmente aos pedreiros, mestres de obra, ajudantes, que no sol forte de cada dia, fazem a nossa morada. E que a tagarelice masculina consiga ultrapassar os muros do trabalho, e quem sabe cochichar aqui nos meus ouvidos...

Eu vi os homens trabalhando
...no campo, nas fábricas, nas ruas, estradas, nas feiras,
oficinas
eu vi os homens trabalhando

(poema de Vitória Lima – Eu vi os Homens Trabalhando, no seu livro Anos Bissextos)

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 15 de novembro de 2011


Postado por Ana Adelaide em 1/11/11 as 9:30 AM

Incêndios & A Mulher que Canta

A palavra pertence ao homem e o silêncio pertence à mulher" (Rose Marie Muraro)
"Num mundo onde a língua e o nomear significam poder, o silencio é opressão, é violência". (Adrienne Rich)


Quem canta seus males espanta!
As mulheres gostam de cantar. As lavadeiras cantam quando lavam roupa. Minha secretária canta lavando a louça. Minha mãe cantou a vida toda por entre talos de coentro ou decepções maiores....; eu cantarolo debaixo do chuveiro, ou nas estradas de Santos, digo da BR , ouvindo Marisa Monte, Chico Buarque ou Tulipa Ruiz.
Pois é cantando que a personagem do filme Incêndios, enfrenta a sua dor limite, se é que podemos definir essa dor, a do estupro, e seu algoz, causando-lhe ainda mais ira e furor.


Nua e de Costas para o Mundo
Incêndios, 2010, indicado ao Oscar de Melhor filme estrangeiro 2011,esse belíssimo filme canadense /francês (dirigido por Denis Villeneuve, o mesmo de Invasões Bárbaras , e com roteiro baseado na peça do libanês Wadji Mouawad, tem um título interessante. A princípio associamos à uma cena incendiária de um fuzilamento sumário quando da guerra de cristãos e muçulmanos no Oriente Médio. Em meio a um redemoinho de fumaça negra, uma mulher senta no vazio da terra, e chora. Um outro incêndio acontece, o do orfanato, um lugar destruído pelo fogo ardente, onde uma mulher de turbante também chora. Mas o maior incêndio talvez seja o incêndio metafórico causado para apagar ou re-acender a vida de Nawal Marwan (lindamente interpretada pela atriz belga, Lubna Azabal), personagem principal, que ao morrer, deixa um testamento inusitado para os seus filhos gêmeos, Jeanne(Mélissa Desormeuaux-Poulin) e Simon, que ouviram incrédulos: “Quem não cumpriu uma promessa não merece epitáfio nem lápide. Me enterrem nua, sem orações, sem caixão, e de costas para o mundo.”


Incêndios: Rastros e Restos


Filmado na Jordânia, Incêndios é um filme politizado e globalizado. Fala não somente das guerras da década de 60, da intransigência religiosa e dos refugiados, mas é também um filme sobre os filhos desses imigrantes, nascidos em países estrangeiros, que não falam a língua dos avós, não conhecem a cultura dos pais, e, em determinado momento, se perguntam (ou não) qual é a sua identidade - se é que existe uma, ou mesmo se eles têm uma. Daí a metáfora do incêndio: ruínas, apenas pequenos rastros de algo que foi destruído no horror e selvageria.
O filme é contado a partir de capítulos, e fazendo uso de passado presente entrecortado pela estória e por recortes interessantes. O ir e vir, o vai e volta, segue costurando os rastros e vestígios deixados ou não, mas que como o próprio advogado diz: “A morte nunca é o fim de uma estória.”
Começa a jornada. Saímos de 2010 e voltamos ao final da década de 1970, no começo da Guerra Civil do Líbano. Aos poucos, mais interrogações surgem em Jeanne, a filha. Acompanhamos o tempo presente, com ela buscando os traços da mãe. O passado entra com inserções de flashbacks, descobrimos um pouco mais do que Jeanne sabe.No elenco, destaque para Melissa como a filha e Rémy Girard, o doente terminal de As Invasões Bárbaras, como o tabelião.


“A infância é uma faca enterrada na garganta”
A cena de abertura é um deserto; um lugar a esmo, cinza e monótono e silencioso , somente com uma palmeira própria dos desertos. A estória começa num vilarejo no meio do nada, de um país em guerra. Tudo quase em câmera lenta e silenciosa que passeia por trás de uma janela, mas com uma vista escura e triste. Um canto desolador . Escuridão. Meninos raspam o cabelo, olhos esbugalhados. Um lamento que se mistura com a música belíssima do Radiohead. O ponto de vista é o de pés sujos e descalços. Calcanhares. E um close específico vem ao foco, com uma tatuagem de três pontos, para que um par de pés não fosse perdido no mundo. Um rosto fixa a câmera, com olhos negros e assustadores, que só no final entenderemos esse epílogo. Questões como a honra, a maternidade, a morte, a procura, o exílio, o estupro, o acaso, o destino, e finalmente o re-encontro disso tudo, num silêncio que será quebrado e uma promessa que será cumprida, darão a condição de horror dessa personagem, que somente ao final terá seu nome exposto ao sol.


Matemática Pura x Intuição
Dois Envelopes, um endereçado ao pai e um outro ao filho . Uma busca. Problemas insolúveis e um reino da solidão. Mas todo problema tem que ter um ponto de partida, e os gêmeos filhos de Narwan reagem diferentemente aos problemas. Um reage com ceticismo, negação e raiva. A outra com a compaixão, a perplexidade e a intuição, afinal sem esse sentido não existe matemática, lhe adverte seu mestre. Nunca se resolve um problema pela variável desconhecida. E lá se foi Jeanne para o Ponto de Partida: Der Om, Povoado em Fouad, Líbano, em busca de uma pista sobre a sua mãe, que pelo visto mais que uma desconhecida. A cada descoberta, um horror maior.
Fiquei a pensar novamente no texto de Rose Marie Muraro, “Por uma nova ordem simbólica”, onde ela diz com uma autoridade constrangedora: “As mulheres estão construindo uma nova ordem simbólica, na qual o ´grande outro´ é a vida (viver e deixar viver), e ajudando a desconstruir a atual ordem universal de poder.” Penso também em como as guerras atuais conseguem ser ainda mais assustadoras e violentas, se é que podemos medir as guerras tão pouco. Quando assistimos filmes das guerras mundiais, a violência farta gira em torno do holocausto, nada mais violento. A Escolha de Sofia como violência mor, e a Lista de Schindler, só para citar dois dos meus favoritos. Mas nessas novas guerras do final do século XX, não sei se por serem mais próximos, sinto-me ainda mais violentada, física e emocionalmente (Conferir um outro filme: A Vida Secreta das Palavras).


Uma Piscina – Um Mergulho = Calar-se
O filme é costurado por rimas visuais: Filha e mãe, uma que vai outra que vem – todas duas procuram, uma o filho, a outra a mãe; os caminhos no meio das areias bege do deserto, um ônibus que está sempre a viajar, a música/lamento que toca, a outra que canta, e uma piscina. A piscina, setting muito usado no cinema como lócus de mistério (O Grande Gatsby, Swimming Pool), mas no caso de Incêndios, lugar onde mãe e filha vão nadar. Lugar aparentemente do espaço do cotidiano, mas que se mostra o lugar dos mergulhos profundos e das revelações, quando a dor já não é suportável. É na piscina que a filha nada. Lembrei de A Insustentável Leveza do Ser, com Juliette Binoche nadando nas piscinas de Praga. Depois, os gêmeos nadam. Nadam em câmara lenta. Nadam talvez em busca da vida, pois tiveram que nadar muito para não se afogarem na curva do rio. Depois, quando sabem de toda a verdade sobre nascimento e origem, também nadam; nadam no escuro e se abraçam na fluidez da água, para que possam agüentar a dureza das descobertas. Um retorno ao útero materno e suas dores do parto e da rejeição. Toneladas de silêncios quebrados. A escritora americana Zora Neale dizia que: “Não existe agonia maior do que guardar para si uma estória não dita”. E é na piscina onde Narwan faz sua descoberta maior. E se cala para sempre, deliberadamente. Nesse seu mergulho, não há mais nada para dizer à vida, a não ser a recusa da existência pelas cartas aos filhos e ao pai.


Narwan é a imagem da dureza,da coragem, e da cantoria. É a puta da cela 72, sem nenhum direito a um quarto todo seu. Como não pensar no Porteiro da Noite com Dirk Bogarde e Charlotte Hampling, também aprisionados a lugares sombrios e violentos do/pelo sexo. Não consigo esquecer o rosto dessas mulheres sujeitas à violência extrema. E , particularmente gosto do tema do ser humano no seu limite máximo frente às tragédias (por isso gostar tanto do diretor mexicano Alejandro Iñárritu (21 Gramas, Babel, Amores Brutos, Biutiful). Emociona-me por demais ver o rosto de uma mulher assim a cantar como forma de resistência. Como não lembrar do filme Preciosa, que a cada estupro e violência praticada pelo próprio pai, Precious se imaginava ouvindo discoteca, desfilando fashion, colorindo seus delírios para agüentar a dor que não ousa dizer o nome: o insuportável! mas cuidado: “O não-nomeado não deve ser confundido com inexistente” (Dicionário Feminista sobre o Silêncio). Mas, em Incêndios, tudo é pior e cinza: a prisão, a cela 72, a perda do filho, a guerra, a sujeira, a total solidão e identidade perdida, um disfarce, entre a cruz dos cristãos e um véu de muçulmana para despistar o inimigo, e a morte. Um terço, um choro, um grito, um vento e o fim do mundo. Lugar onde só as árvores assobiam. Sua avó lhe adverte: “vá estudar, aprender a ler, a pensar, para escapar da miséria”. Um parto, um corte, uma marca nos pés, e um olhar para não lhe perder de vista: Vou reencontrá-lo. Eu prometo!


O vento que assobia
A trilha sonora, Radiohead, me levou aos tempos de infância onde eu ficava dançando Naguila Hava e imaginando ventos árabes e distantes no meu inconsciente. Sensação que, anos mais tarde, re-vivi chegando à ilha de Santorini numa noite estrelada, e por entre uma brisa fresca, vi o azul do Mar Egeu de perto, e ouvi música grega ao amanhecer. Também em Sevilha, por entre aromas das laranjas, música flamenga com Paco de Lucia; ou mais ainda, atravessando o Canal de Bósforos na Turquia, e comprando uma calça Saruel de duas ciganas, por entre talos de tâmaras....Minha alma oriental do exotismo longínquo, fala alto dentro de mim, e vai de encontro quando assisto a um desses filme, que transforma meus amores por um Bazar de nome Araby Joyceano, em uma barbárie de uma terra nada santa, onde as mulheres são suas principais vítimas, e mesmo assim, cantam.


O Sul – O Lugar dos ventos uivantes
O Sul, toda hora mencionado. Refugiados, fronteiras e um segredo: “Você não é bem-vinda aqui”, lhe dizem as mulheres do lugarejo. Uma filha que procura um pai e nem sabe quem é a mãe? Toda a rigidez das mulheres árabes frente às próprias mulheres. As mulheres e os chás. A prisão do Sul foi o destino de Narwan que, queria ensinar ao inimigo o que a vida lhe ensinara. Na prisão, a câmera foca sempre os pés; tantos pés ensangüentados. Um bicho acuado entre quatro paredes, um arame farpado, um grito e um cantar.. Do lado de fora? Uma cor ocre, um camelo, uma ala de mulheres, 13 anos sendo vigiada, um murmúrio, murros na barriga, um deserto de lágrimas, um silêncio, uma pista, o número 72 – a mulher que canta! “Por vezes, é melhor não saber de tudo”.


Um mais Um = Console-se
Um exílio finalmente . Seus filhos são seus filhos e da ânsia de amar, já ouvi isso desde sempre. Nihad de Maio, chegou na primavera, não abril - o mês mais cruel de T. S. Eliot, mas maio de Maria e das flores que não tem a chance de desabrocharem para à vida. O Canadá, esse lugar multicultural, multiracial para onde os ventos fazem a curva não mais de uma piscina, mas das terras distantes, geladas e também ensolaradas. Nihad de Maio, um dia ouviu algo ou entendeu algo, e teve seu caminho que transpassou-lhe o peito certeiro. Procurou um alvo a esmo. Um louco. Um mártir. Queria sua foto no jornal pelos quatro cantos do mundo.
Novamente a matemática pura, onde um mais um pode ser um. O horror da verdade. A dor do deserto e da devastação. A dor do inverno e do frio dos galhos secos. Hoje, Nihad de Maio limpa vidros, transforma o opaco em transparente, para depois virar opaco novamente. Um milagre do reconhecimento: “O silêncio vem sempre antes da verdade”. A puta do 72. Console-se!


Ao final, uma promessa: quebrar a corrente de ódio. E uma certeza de que o amor pode tudo. Que a vida é mais importante, o afeto e a constatação de que do amor se pariu, do amor se viveu, e pelo amor se transforma.

Cantando sempre: Hava Naguilla Hava!

O poema abaixo, de Margaret Atwood, escritora canadense, que traduz seu país através da imagem central da sobrevivência. Poema que falam de identidade, dos mistérios e dos fragmentos do self quando em isolamento, confrontado uma imagem fraturada e distorcida de si mesmo. Achei-o interessante para finalizar meus arrepios desse filme que me incendiou a alma. (Pelo desculpas por não ter traduzido).


This is a Photograph of Me (Margaret Atwood)
It was taken some time ago.
At first it seems to be
a smeard
print: blurred lines and grey flecks
blended with the paper;
then, as you scan
it, you see I the left-hand corner
a thing that is like a branch: part of a tree
(balsam or spruce) emerging
and, to the right, halfway up
what ought to be a gentle
slope, a small frame house.
In the background there is a lake,
and beyond that, some low hills.
(The photograph was taken
the day after I drowned.
I am in the lake, in the center
of the picture, just under the surface.
It is difficult to say where
precisely, or to say
how large or small I am:
the effect of water
on light is a distortion
but if you look long enough,
eventually
you will be able to see me.)

Ana Adelaide Peixoto, João Pessoa 16/10/2011


Postado por Ana Adelaide em 11/10/11 as 9:30 AM

O Que Vou Ser Quando Crescer

O Que Vou Ser Quando Crescer


Para Hanna, minha linda e querida sobrinha, aniversariante da semana, que no momento está vivendo seu momento Garotinha de Ipanema....”


Nunca tive na cabeça de ser professora. Aliás, nunca tive claro o que queria ser quando crescesse. Acho lindo alguém que tem isso nítido desde pequena: Quero ser médico! Aliás, só os médicos sabem disso desde sempre.Minhas ambições passeavam por caminhos mais líquidos, mas pantanosos, e mais indecifráveis. Sonhava em ser aeromoça, claro, queria ganhar os céus, sem prestar atenção no meu pânico de avião e no servir todo o tempo. Ou secretária , para ter aquela aura de executiva..Também não lembrei de que não sei usar salto alto nem terninho cafona todo o tempo. Seria uma executiva hippie chic, e como impor excelência vestida de rasteirinha?
Ai, viajei. Morei fora. Estudei inglês. E essa língua me deu uma profissão construída aos acasos. Uma professora ali. Um mestrado acolá. Um conto. Um poema. Um espanto. E quando pari meu filho mais novo, por entre fraldas e horas de mamadeiras, estudava lingüística, Reading, Compound words, para o concurso de professor. Antes já havia feito concurso para língua e literatura inglesa, em Campina Grande , onde o meu ponto sorteado foi Hamlet e o Substantivo. Foi duro conciliar esse abismo, mas através dos puns famosos de Shakespeare eu cheguei ao meu To Be or Not Tupi! Também já havia falado do tempo futuro, exceções: Going to, Will, etc. Hoje , quando olho para trás, já se foram alguns anos, tirando da cartola, do computador, da memória, do aprendizado, do inesperado, da preparação das aulas eternas, das gramáticas, dos jornais (ah meus jornais, tenho pilhas para a felicidade das traças!), recortes, pedaços, e principalmente a minha capacitação na pós-graduação, que fui construindo meu texto cotidiano na sala de aula.

Sempre fui uma professora intuitiva. Não digo com isso que inventava na hora. O preparo muito me exige até hoje, mas sempre trabalho com o momento da epifania, ou do que deixo acontecer, pois (in)felizmente não consigo seguir um esquema pré-estabelecido em nada. E daí também o meu sofrimento, pois se não consigo deixar tudo pronto na véspera, tenho sempre que contar com o elemento surpresa, o mais precisamente o que acontece ou não na sala de aula, espaço mágico esse de grandes e pequenos sustos. Um exemplo: vejo que tem pessoas que deixam a roupa que vai vestir estendidinha na cadeira, para no dia seguinte, para já começar o dia com seu guarda-roupa pronto. Eu não consigo. Tenho que dar um pulo da cama, e sobressaltada, escolher a roupa na hora, com vertigem e tudo. Depois, sentia e sinto até hoje, frio na barriga aos domingos. Sempre aos domingos, eu e Melina Mercury, sem Moussaka ou Zorba, mas com o frio da véspera da segunda. Acontece que a vida na sala de aula é sempre uma estréia. Lidamos com holofotes, com a natureza humana, com o aluno aplicado, com o engraçadinho, com o pilantra, com a vítima, a inocência, o cansaço, a diversidade ao extremo, e nós estamos lá, no palco, a conduzir. Confesso que prefiro ser aluna. Aliás, minha profissão preferida – Estudar. Nasci para filósofa! E a objetividade da vida vai ficando para debaixo do tapete. V. Woolf falara da literatura e da vida como uma teia só. Eu falo que sentir, viver, trabalhar, dar aula, tudo misturado. Preparo aula, com a TV ligada no Gnt, vendo cultura, absorvendo música, tomando café, passando e-mail, checando facebook, divagando, dormindo, e dando conta da casa. Como Adélia Prado tão bem descreveu no seu fazer poema e tomar conta de casa, tudo misturado, no livro A Casa do Escritor.

Steve Jobs, no seu discurso em Stanford, tão veiculado na mídia durante a semana da sua morte, falou: “Façam o que gostam, e pensem sempre que estão vivendo o último dia de suas vidas”. Acho que não conseguiria viver nesse abismo.

Há umas duas semanas, o Café Filosófico na TV Cultura. Marilena Chauí falando de tempo, espaço e mundo digital. Falou de como a trabalho do professor não é mais o mesmo, pois trabalhar com o pensamento dá trabalho, exige paciência, tempo e habilidade em lidar com a frustração, coisa que a era digital não permite. E que de agora prá diante, teremos que nos re-inventar a profissão. Eu? Já há muito tempo que ando penando nesse reinventar-se, sem saber muito bem como, nem para onde. Um desafio e tanto! Chauí falou também que, esse Novo Tempo virtual em que vivemos, talvez seja mais importante do que quando o mesmo deixou de ser Medieval para mergulhar na Modernidade. Senti-me muito importante em fazer parte de tantas transformações. Mas essa importância vem também acompanhada de perplexidade; de constatar a História acontecer em tempo real bem em frente do meu nariz. Pode por vezes ser assustador, de como levar tudo isso que vivemos sem entender muito bem, para o trabalho contínuo da sala de aula, fazendo com que os alunos se interessem pelo que temos a dizer, se é que temos; e ainda conseguir provocar-lhes ao menos uma certa inquietação frente ao curso, ao programa e às aulas. Todos os dias me sinto exausta de tanta estréia, de tanto gogó, e de tanto alvoroço de multiplicidade de assuntos , tempos, e interesses.

Mas voltando ao tempo das decisões, sempre achei também que, não precisamos de tanta pressa. E que, é preciso perambular pelo mundo, conhecer, ter experiências com a vida, sem necessariamente ter decidido o que se quer na vida. E parece que esse pensamento anda por trilhas interessantes, pois toda vez que leio algo sobre a vida de alguém de destaque na sua área, o sucesso e o reconhecimento vem sempre saltitando sem muita ordem e previsão. O próprio Jobs, antes de se tornar a terceira maça que transformou o mundo (depois do paraíso e de Newton), destilava curiosidade por onde passava.

E a partir da morte do homem dos I-Phones, fiquei a pensar no meu tão modesto passeio profissional, e na minha busca incessante de uma vida com gosto de artista...., quando estudava piano, ballet, violão, francês e inglês. Mas foi realmente uma viagem longa para as terras do Tio Sam, em plenos anos 70, de Hair e Let the Sun Shine que, talvez tenha tido o estopim da grande flecha da vida que me atirou ao acaso, ou não, de ter me tornado quem sou. E ao invés de artista, pois minhas pernas não deram conta do ser bailarina, me contentei com o olhar poético diante da vida, causando alvoroço diante do cotidiano, da poesia, das pessoas e das artes. Nem sempre nessa mesma ordem.

Em algum lugar da vida de criança ou adolescente, entramos em contato com as coisas que gostamos. O desafio está em reconhecê-las na hora das decisões e não apressar o rio, que ele corre sozinho. O escritor Roberto Cotroneo, no seu livro Se uma Criança, Numa Manhã de Verão...Carta para meu filho sobre o amor pelos livros, tenta dar isso de presente ao seu filho: “Haverá alguma criança que, numa noite de verão, na qual o sono custa a chegar, não tenha imaginado ver no céu o veleiro de Peter Pan?” Os meus pais talvez não tiveram a sabedoria de me falar de “veleiros disfarçados”, mas dentro das possibilidades da vida, tive as minhas permissões, que aqui e acolá me deram vôos rasantes e ou abissais. Já para os meus próprios filhos, nem sei ainda ao certo que veleiros posso estar a falar...mas tomara que também esteja a dividir com eles, esse “encantamento do barco movido a pó dourado”.


Feliz dia das Crianças. Que um dia todos fomos.
Beijos especiais para meus “Pequenos” Lucas e Daniel.
Ana Adelaide Peixoto - João Pessoa, 10 de outubro , 2011


Postado por Ana Adelaide em 9/28/11 as 9:05 AM

Cópia Fiel: E porque tanto sorri a Monalisa?

 Para Lucas e Daniel (Aniversariantes do mês, e obras de arte originais)

O Original é a Cópia – (Jacques Derrida)


Desde que o filme Cópia Fiel foi recebido com aplausos em Cannes 2010, que procurava esse filme ansiosamente. Sou fã ardorosa de Juliette Binoche (Recebeu a Palma de Ouro em Cannes e chorou em solidariedade e protesto, pelo também cineasta Panahí, preso no Irã) e gosto de filme iraniano! Ponto. E os assuntos de originalidade, cópia, apropriação, fizeram parte também da minha pesquisa do doutorado, trabalhando com As Horas, Mrs. Dalloway e Virginia Woolf. Até que li recentemente o texto de João Batista de Brito (Cópia Fiel, Jornal Contraponto- 2 a 8 set.2011). Exaltando de contentamento, fui comprar minha cópia, pirata, para Walter Benjamim nenhum botar defeito, já interagindo com os conceitos em questão.

Em seu texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, Walter Benjamin diz que “a obra de arte sempre foi reprodutível”. Fala também de conceitos sobre Autenticidade: “Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra.”; Conceito da Aura: “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante por mais perto que ela esteja”; e de Destruição da Aura: “Cada dia fica mais nítido a diferença entre a reprodução como ela nos é oferecida pelas revistas ilustradas e pelas atualidades cinematográficas, e a imagem. Nesta, a unidade e a durabilidade se associam tão intimamente como na reprodução, a transitoriedade e a repetibilidade. Retirar o objeto do seu invólucro, destruir sua aura, é a característica de uma forma de percepção cuja capacidade de captar ´o semelhante no mundo´ é tão aguda, que graças à reprodução ela consegue captá-lo até no fenômeno único.”

Ainda segundo Benjamin, a obra de arte sempre foi reprodutível. E o que os homens faziam sempre podia ser imitado por outros homens. Desde a Idade Média, com a xilogravura, depois no século XIX com a litografia. Mas foi no século XX que essa reprodudibilidade vai explodir, com o cinema , a fotografia, para mais tarde alcançar seu ápice com a Pop Art e Andy Warhol, legitimando as cópias, com suas sopas Campbell ou a imagem de Marylin Monroe, ou ainda a garrafa de Coca Cola, eternizada em espaços da tradição. Basta que se entre numa loja de um grande museu, como a Tate Modern em Londres por exemplo, para que enlouqueçamos de desejo para adquirir posters, camisetas, cartões, canecas, etc..do nosso artista preferido. Já tive uma borrachinha de apagar com a obra de Miró estampada. E uma “mulher troncha” de Picasso impressa numa camiseta, que guardo como relíquia à espera da moldura que venha a lhe conferir status para as paredes.

O aqui e agora de um objeto também foi representado de forma extremada no movimento Dadaísta, ou em caso mais extremado como em Marcel Duchamp e sua Fonte, que ao retirar um objeto não tão artístico assim, do seu lugar de funcionalidade, atribuiu-lhe um outro tempo e também um outro lócus de observação.


O filme, Cópia Fiel, começa me lembrando de outros filmes de encontros como: Antes do Amanhecer e Antes do Por do Sol, Direção de Richard Linklater, (estórias de um casal se apaixonando e se re-encontrando primeiro em Viena e 10 anos depois em Paris, e falando falando e falando, sobre paixão, amor, despedida, re-encontro, e seguindo adiante.

Cópia Fiel, trata de (mais) uma obra singular de Abbas Kiarostami. Vladimir Lazo diz que: “É como se depois de duas décadas de seus filmes serem descobertos na Europa, quando então passou a ser comparado a Roberto Rosellini, o cineasta finalmente realizasse o seu Viagem à Itália (Viaggio in Italia, 1954). E faz uma cópia fiel de si mesmo (do seu cinema), evoca outros mestres, e por fim, irrompe belo e original”.

Cópia Fiel, se apropria desses conceitos da arte, para estende-los não somente às esculturas, objetos de arte, mas principalmente às relações humanas, no caso, à relação amorosa. A estória é sobre o encontro de um homem e uma mulher, aparentemente um conferencista James Miller (William Shimell) e uma espectadora (Juliette Binoche), mas que durante o filme vamos nos confundindo sobre se estão a brincar de marido e mulher ou a representar tais papéis. Para mim pouco importou a brincadeira, pois o que me saltou aos olhos foi primordialmente o tema das distâncias entre marido e mulher diante do caminhar na vida. Interessante notar como o tema das diferenças ia surgindo, e do casamento propriamente dito. O jogo de espelhamento e de duplos começa por ocasião de uma parada num Café, onde são confundidos como marido e mulher (será que têm essa Aura?), e a partir daí, passam a se comportar como se assim o fossem. Brincando com o espectador da veracidade das coisas, dos fatos e da conseqüência disso, seja em momentos de sedução e de aprendizes de flanêur, seja nos momentos de tensão, mágoa, e cobranças.

No caminho para Lucignano, temos cenas em igreja, sinos, casamentos, fotos, tudo entrecortado com passagens silenciosas, monotonia, esquecimentos, desencontros, ritmos desencontrados, indiferença, café que esfria, datas esquecidas, batom vermelho e brincos que não mais seduzem. Até que, diante de uma escultura onde uma mulher recosta sua cabeça no “meu ombro e chora”, Ellen (a personagem de Binoche), fala do que sente com a cena, mesmo que a escultura não seja “autenticada”. Já o especialista, James, embora defensor da cópia, nem sempre se deixa comover pela fidelidade das emoções mundanas, e mais ainda femininas. Tão pouco se comove com cena sem arte e originalidade. Ellen decide fazer uma enquete com os visitantes, para testar sua leitura “original”. E um casal pego à revelia para pesquisa instantânea, concorda com ela, para fúria do marido falso, ou seria verdadeiro? E depois, ainda por cima, o marido-exemplo vem com um conselho de quem sabe das coisas, do casamento e de mulher: “ Sua mulher está a precisar de suporte...,ponha a mão no ombro dela!”, diz do alto da sua percepção. James obedece. Elle, entusiasmada com o gesto, interpreta aquela mão como um sinal verde para outras abordagens, o que veremos ser uma pista/vestígio falso. A obediência tinha seus limites.

Outra cena que me encantou, foi a cena das fotos de casamentos na igreja. Numa visita ao local onde os noivos sempre tiravam fotos para dar sorte, James esperava entediado do lado de fora, num perfeito enquadramento de uma pintura original. E, quando todos os casais de noivos vem suplicar uma foto, ele, irritadíssimo nega. E ficamos diante da sua irritação, olhando para lá e para cá, numa câmera que se faz igualmente irritante e monótona. Ellen é romântica, mergulha na aura dos lugares, sem muita preocupação com a realidade per se. James é inglês, cético, tem olhar exigente e não se deixa levar por aquele lugar de língua dançante Mamma Mia! E por entre línguas, interpretações, recepções , o tempo vai se instaurando como um elemento cada vez mais intransponível. Como bem observou Marcelo Hessel : “Esse tempo que cerca James à esquerda e à direita na cena da foto com a noiva. Lucignano surge constantemente em espelhos, janelas, romanceada por velas, por não dá pra negar a História. Mas enquanto James Miller filosofa contra o "eterno" da arte, contra a mistificação, porque afinal logo retornará para a Inglaterra, a francesa Elle está sofrendo no rosto o peso dos anos mal vividos. Fora do Irã, é sobre as mulheres que age o tempo de Kiarostami. Kiarostami está interessado no tempo; no tempo inscrito na paisagem, é que molda os homens. Mas com as mulheres é diferente. Elas vivem no Irã em uma espécie de estado de suspensão, numa semi-clandestinidade, e sobre elas o tempo não parece agir. É uma condição trágica, no fundo, e Kiarostami tem passado anos fazendo filmes com close-ups de mulheres para tentar socorrê-las.”

Ellen não se importa com a autenticidade das coisas da vida. Mesmo sendo dona de uma galeria de arte, mais alto lhe fala a vida, a emoção, o quadro do cotidiano com filho que não quer estudar, que lhe exige seu sobrenome no autógrafo, e a luta para estar presente. Contraditoriamente, ela pede autógrafos em alguns livros do mestre. Nem ela mesma sabe o por quê; talvez para obedecer essa mesma lei de originalidade que trata com certo desdém, mas que paradoxalmente referenda o seu presente para amigos – um livro autografado vale mais que uma página em branco.

João Batista Brito no seu excelente artigo citado, nos sugere duas senhas para interpretações, uma, levando em conta uma homenagem intertextual ao filme Viagem a Itália, de Rosselini, 1954, e outra uma leitura metalinguística e filosófica sobre o ato de representar o real como um pretexto diegético, tendo como intertexto o filme Verdades e Mentiras de Orson Welles. Mas como ele mesmo diz, seriam interpretações conceituais, e que nenhuma modalidade de arte é somente conceitual, pois se tornaria redutora. Eu, particularmente, segui à risca a orientação do professor João: “experimentar a co-existência das duas leituras, produzindo assim o efeito que define a natureza da arte, acima de qualquer conceito, o efeito estético”. E nesse efeito estético, me encantei com Lucignano; re-visitei memórias; Siena e suas casas cor de tijolo; enchi a boca d´água com um certo caldo minestrone e vinho Chianti; deixei-me encantar por aquele olhar enigmático dessa mulher de beleza misteriosamente simples, que é Binoche e sua liberdade azul; abri a cabeça às discussões sobre o que seria uma cópia fiel; às conversas nos becos da Toscana sobre uma relação conjugal; às cenas da viagem, com os rostos entrecortados pelos lugares, ao gosto se não da cereja, mas dos ciprestes italianos; às lembranças das aulas do professor Alfredo Cordiviola, na Pós de Recife, e a Walter Benjamin, suas Passagens; sobre o Valor de Eternidade, Cinema como Arte, Aura, e Camundongo Mickey...

E, ao final, por entre uma badalada e outra, e pelo apito do trem que não foi tomado, terminei o filme, com uma taça de vinho na mão, uma salada de agrião com mostarda francesa na outra, e a cabeça cheia de idéias, questões, e aquele ar de quem está a matutar sobre as verdades e mentiras da vida.

Quanto à última possibilidade de João Batista, a de não gostar do filme e de achá-lo “maçante, absurdo e inútil”, não precisei nem sair da sala, para constatar todas as diferenças da vida, digo do casamento, para Cópia Conforme nenhuma refutar. Através das Oliveiras, fiquei ainda mais intrigada com o aqui e agora, não mais da obra de arte, mas da existência: única, em estado de percepção aguçada, das passagens do tempo, dos vestígios que nem todos os objetos da reprodutibilidade técnica, dariam conta.

Um brinde ao violino de Joshua Bell que, também inspirado, Qüiça (com trema e sotaque de Patácio Peixoto, meu “parente/serpente” em Cordel Encantado), nas idéias do filósofo alemão, deslocou seu talento e aura de maior violinista do mundo, e dos espaços urbanos enclausurado dos teatros consagrados, um dia foi tocar seu instrumento virtuose no metrô de Nova York. Para espanto dele próprio, ninguém chegou a parar para ouvi-lo, achando que, o maior violinista do mundo, fosse somente mais um artista de rua que pedia uns trocados, uma cópia, para que seus acordes parecessem maiores do que realmente eram, através não mais das oliveiras ou cerejas, mas do eco de uma Estação de Metrô, não mais aquela retratada pelo poeta imagista Ezra Pound, mas uma outra cópia de um metrô solitário qualquer, em fim de uma noite vazia e de acordes comuns.

Numa Estação do metrô
A aparição desses rostos na multidão:
Pétalas num galho molhado, preto.

Ana Adelaide Peixoto - João Pessoa, 27 de setembro de 2011


Postado por Ana Adelaide em 9/21/11 as 8:30 AM

Woody Allen: De dia com Madame Bovary; de noite com Paris

 Assim que li nos jornais as resenhas do último filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris, fiquei curiosa. Queria ver urgentemente, pois pelo que diziam as resenhas, se tratava de uma homenagem aos artistas do início do século, e como que num toque de mágica, o protagonista atravessava um portal, bem como as fronteiras de suas fantasias temporais, para viver um conto de Cinderela masculino intelectual ao sabor de absinto, junto com os escritores americanos da época de ouro, ou ainda tropeçar com artistas surrealistas. Eu estava a trabalhar nas turmas de literatura americana contemporânea, mais especificamente, um conto do mesmo Woody Allen, The Kugelmass Episode, que assim como no filme, também brincava com o tempo, com um personagem canônico e com o tédio do amor romântico. No caso do conto, uma paródia, recheado de intertextualidades típicas da literatura de hoje e da liberdade artística do nosso tempo.

The Kugelmass Episode, fala de um homem, professor de literatura, que, entediado com seu casamento, resolve procurar um mágico, já que o psicanalista não resolvia suas inquietações, e pede para atravessar o tempo em busca de aventuras conjugais. E qual o destino? Quer a todo custo encontrar uma heroína literária: Ophelia? (Hamlet), Hester Prynne? (Scarlet Letter), Natasha? (War and Peace). Escolhe Madame Bovary: aquela sim é que era mulher! E lá foi ele cair diretamente no quarto da Madame. Enlouquecido, pois essa era uma mulher desejada, afixada no imaginário masculino por mais de um século, e ele ali, diante da própria – Quel plaisir! Madame também lhe cumprimenta, e juntos, explodem de amor. E assim a fantasia se cumpre, indo e voltando ao passado, à um personagem literário, encontrando às escondidas com Madame Bovary, ouvindo seus lamentos do tédio doméstico, e tagarelando com todas as neuroses tão já bem conhecidas dos noivos neuróticos e noivas igualmente neuróticas.

Assim, como a transgressão de um outro filme, A Rosa Púrpura do Cairo, esse conto, uma paródia à obra de Flaubert, vai trabalhar também com esse recurso, onde texto, página, leitor, fantasia, e realidade formam uma só tessitura. Chegam a um extremo, onde os alunos de literatura, ao lerem o romance em questão, avistam Mr. Kugelmass nas páginas do clássico, e se perguntam: “Quem é esse Judeu careca beijando Madame Bovary?” assim como Woody Allen o fez no filme Meia Noite em Paris, quando o protagonista, Gil Pender, chega a ver uma referência à sua pessoa quando presenteando à moça do brinco que não era de pérola, Adriana. Passado, presente, futuro, ficção, real, onde está mesmo o limite?

Lá pelas tantas, Mr. Kugelmass resolve fazer o contrário e traz Madame Bovary à Nova York. E nós leitores temos crises de risos ao ver Bovary em êxtase com a Broadway, e outros ícones da cidade: as estrelas de TV, O. J. Simpson, Ralph Lauren, Chorus Line, Guggenheim, ou tropeça com o estranho no ninho, Jack Nicholson.O casal apaixonado, namora, se encanta, esquecido do que fosse literatura e vida real. Tudo junto. Tudo misturado.

Só que, nem só de Madame Bovary se faz um caldo, digo um amor, e Madame Bovary, finda que coloca seu amante numa encruzilhada inesperada: “Case comigo ou me leve de volta ao romance”. Romance aqui, claramente criando uma ambigüidade entre o estado amoroso e o livro de ficção. Mr. Kugelmass começa a ficar entediado também. O tédio, material preferido desse maravilhoso diretor neurótico, ainda mais um tédio amoroso, para nos lembrar o quão difícil e laborioso custa uma relação romântica. Um tédio que extrapolou os dias cinzentos da personagem de Flaubert. E já desgastado, ele deixa lá Madame Bovary no Século XIX, e volta aos seus dias monótonos e aparentemente sem saída na Big Apple. Abandona o mágico, para algum tempo depois, esquecido da não funcionalidade da idéia tão louca, querer repetir novas experiências. Pede uma nova aventura, mas o mágico fala das dificuldades: “Sou um mágico, e não um analista!”. Ademais a máquina está com problemas, e sem destino Mr. Kugelmass entra na máquina dizendo a senha mágica: “Sexo e romance” , eis a questão! “O que não fazemos por um rostinho bonito...”, ele mesmo exclama. Mas o seu criador tem um colapso, morre, e Mr. Kugelmass à esmo, ao invés de cair nas páginas de alguma heroína literária novamente, ou do romance erótico de Phillip Roth, Portnoy´s Complaint, como desejava, vai se esbarrar nas páginas de uma velha gramática espanhola, de onde se vê em apuros hilários, a correr do verbo Tener (Ter), “ um verbo grande, cabeludo e irregular” que, incansavelmente não lhe dá trégua, fechando assim uma moral da estória que, quem quer muito, termina não tendo nada. Uma crítica talvez ao consumo, ao tédio, onde se utiliza da ironia dos verbos, quiçá das gramáticas.

Já no filme Meia Noite em Paris, de forma bem mais lírica, temos de certa forma, a mesma temática desse conto, ou seja, a busca por um tempo e uma situação perdida. Uma situação idealizada, só que dessa vez com todo o glamour da cidade luz; as rodas da intelectualidade do início do século XX, e um herói em busca do seu tempo perdido, da sua própria identidade subjetiva e literária.

Em Meia Noite em Paris, temos uma apresentação suntuosa de Paris e seu cotidiano, seus cafés, passeios, música , flores, o Sena, e o Bateau Mouche, e a chuva. Ah! Paris na Chuva, para a gente se enfeitiçar com um Trench Coat qualquer, de preferência ao encontro de um James Dean pelas esquinas, ou um Jean Paul Belmodo, com o rosto amassado do sono dos justos... Mas Allen está a homenagear os anos 20 e toda uma geração de escritores americanos e de outras nacionalidades e artes que, em busca da vida boêmia e da inspiração da cidade luz, lá se foram freqüentar à casa de Gertrude Stein, reduto do gueto das artes, que escreveu um conto/poesia chamado Picasso, artista que por sua vez que amava Adriana, que amava Modigliani, que amava....,na ciranda das noites glamorosas de Fitzgerald e Zelda, perambulando literalmente pela penumbra de uma Paris sempre em festa.

Allen visita o Café de Flore, hein Danuza Leão? E nos faz levitar visitando os jardins de Monet para depois exclamarmos conjuntamente que: Paris era mesmo uma Festa! Até a primeira dama Carla Bruni estava lá, dando seu toque icônico e real, misturando as fontes e legitimando mais um cartão postal, Versailles, diante do pedantismo de um esnobe, que destilava uma cultura para Inglês nenhum ver. Uma nostalgia pela Golden Age - Let´s Fall in Love! Uma estória sobre um rinoceronte, Salvador Dali com uns olhos tristes – “I see a filme, I see a plot, I see a rinoceronte!”. T. S. Eliot? Prufrock é o meu mantra! Até uma homenagem à livraria: Shakespeare & Company, The English Bookshop, se fez presente. Um lugar Cult e também abrigo das gerações perdidas. Um detetive que não encontrava sentido para aquele amontoado de referências literárias sumidas à meia noite, com abóbora e sapatinhos de cristal.

O personagem, Gil Pender (Owen Wilson), aspirante a escritor, um flâneur a contemplar as escadarias à beira do Sena, não acreditou quando ouviu Cole Porter, ou ouviu Hemingway a falar do que fosse coragem ou morte, ou as duas coisas. Também ficou histérico quando ao folhear um livro viu seu próprio nome ali mencionado, sendo ele próprio, A Rosa Púrpura. Assim como o professor Kulgelmass, ele também se viu impresso nas letrinhas da fantasia, que misturadas com realidade, transgrediam tudo o que conhecemos como tempo e espaço. Só mesmo os olhos da contemporaneidade dão conta dessa liberdade, que zomba da verossimilhança, esquece do tempo linear, e se joga no abismo da sedução de uma boa estória, seja ela um conto de fadas ou não.

E ao som do jazz novaiorquino, cantando na chuva sem a companhia de Gene Kelly, nós leitores e platéia, também pudemos sentir nosso rosto desenhado por Toulouse Lautrec, dançamos com Gatsby, ou com as bailarinas de Degas, visitamos o Haiti de Gauguin, para finalmente nos perguntarmos qual a nossa Golden Age. A minha em particular, seria London London dos anos 70, com rock, Portobelo Road, cream tea, bolsa indiana de espelhinho, Mary Quant, e Strawberry Fields Forever!

Ana Adelaide Peixoto João Pessoa, 18 de setembro, 2011



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