Ópera do Malandro & Os Pedaços de Mim

Já cantei e chorei em crônica sobre os meus anos 70/80. Anos de crescimento, vivências todas que uma jovem menina de 15 aos 25 anos poderia viver. Conforme a música, os tempos estabanados de transgressões sexuais e comportamentais, e também sombrios, frente à política que vivíamos – a ditadura. Então, quando assisto filmes que falam dessa década, eu me entrego à memória própria, e re-vivo visceralmente cada pedaço de dor e delícia que me coube. Foi assim com O que é isso Companheiro, Cazuza, Os dias eram assim , Queridos Amigos (Séries da Globo), e tantos outros que falaram de música, como Vinícius , e esta semana, re-vendo Ópera do Malandro (1985), que fez parte do FestAruanda, em homenagem ao diretor Ruy Guerra.

Assisti também à peça musical do mesmo nome, escrita por Chico Buarque de Hollanda, que por sua vez foi inspirada no clássico de John Gay e no musical A Ópera dos Três vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, quando da sua estreia, no Rio de Janeiro, tendo como protagonistas Marieta Severo e Elba Ramalho. Nas duas versões, chorei copiosamente ao cantar O Meu Amor, que há anos atrás, se tornou meu hino de amor para os tempos amorosos que vivia na época. Hino esse que, também cantou a minha fossa, e todas as perdas & danos, vividos não só por mim, mas por toda uma geração que se jogou nos abismos. E sem rede! Até hoje choro quando cantarolo essa música. É forte, é erótica, é bolero!

Sempre fui fã extremada de Chico Buarque. De tudo – da sua música, da sua vida, dos seus olhos cor de ardósia, e muito também da sua cidadania. Nos últimos tempos de intolerância extrema, fui alvo de críticas e agressões verbais como muitos, por entender que, ser socialista não é viver na miséria mas desejar que todos saiam dela. Por tabela, fiquei também fã de Ruy Guerra. Confesso que, só agora assisti Os Fuzis! E como resistir à Calabar e à Ana de Amsterdam?

Anos atrás, 1978/79, quando para minha surpresa, conheci Ruy Guerra na minha casa, por ocasião da sua visita a João Pessoa, em pesquisa para um dos seus filmes. Fiquei paralisada, e com a minha timidez ainda explícita, diante daquele homem belo, sedutor e já famoso. Para mim, uma experiência de cinema, assim como a que vivi no filme único de Walter Carvalho – Um Filme de Cinema, onde Ruy discorre magistralmente sobre câmera, montagem, take, set de filmagem, e outras etapas da magia de fazer um filme. Ficaria horas ouvindo Ruy falar do Cinema. Como também assisti atenta à sua entrevista a Pedro Bial – também a falar da sua amizade com Gabriel Garcia Marques, e seu momento emotivo, já que tem chorado, agora , no topo dos seus 86 anos bem vividos, e com toda a saúde que a vida lhe permite. Lembrei de Erendira, (adaptado do conto de Gabriel Garcia Márquez, (A incrível e triste história da cândida Erêndira e sua avó desalmada) que assisti em 1987, na Inglaterra, quando lá estudava, e a me emocionar sozinha no cinema, me inteirando daquele universo tão familiar para mim (já tinha lido Garcia Marquez), e talvez tão estranho à plateia que me cercava.

O Fest- Aruanda me trouxe esse prazer, dentre tantos, o de re-encontrar Ruy depois de quase quarenta anos e lembra-lo desse encontro. Ele muito gentil se assustou com o tempo passado. Claro que, para mim, uma jovem nos seus 20 e poucos anos, encontros assim são sempre inesquecíveis, e que desde então, nunca mais ouvi Fado Tropical da mesma forma. Aquele sotaque moçambicano, com Chico a cantar – “Ó musa do meu fado, ô minha mãe gentil....”, me fez uma revolucionária portuguesa desde pequenina. Só Mia Couto, para complementar o que essa nossa língua nos traduz.

Pois bem, fui assistir Ópera do Malandro, o filme, com a honra de ter na plateia Elba Ramalho e Ruy Guerra, dando entrevista coletiva e falando sobre o convite para Elba para interpretar Margot, sua dificuldade em aceitar, sobre a música de Chico – Palavra de Mulher, composta especialmente para o seu personagem, e outras novidades de bastidores, que o jornalista Silvio Osias, já contou em sua coluna do Jornal da Paraíba.

Duas cenas antológicas revi: Ney Latorraca , como o delegado de polícia a cantar Hino ao Duran (que na época virou hino político), e Elba Ramalho e Cláudia Ohana, com O meu amor, dançando um tango e duelando o amor pelo personagem Max, vivido por Edson Celulari (numa atuação intocável, mesmo eu não tendo muitas simpatias por ele, já des-construída depois de revê-lo). Canção Desnaturada, é de fazer qualquer mãe soluçar; Terezinha, nome da minha mãe, cantávamos tentando acertar o terceiro pretendente!!; Tango do Covil, uma graça! E nos despedaçávamos com Pedaço de Mim, e Geni. Até hoje um hino contra a intolerância. E qual minha surpresa, o maravilhoso bailarino J. C. Violla, como a Geni.

Ao assistir o filme, fiz uma viagem no tempo. Rio de Janeiro, efervescência musical, juventude, a voz metálica de Elba Ramalho, o teatro cheio, amigos comuns, sofrência sentimental – na época sofríamos e/ou nos exaltávamos de de amor ouvindo Chico e Ruy Guerra ao invés de Marília Mendonça. E cantávamos Bárbara! “Ele sabe dos caminhos dessa minha terra; no meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu. Os meus rios, os meus braços. Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra. Nas bandeiras, bons lençóis. Nas trincheiras, quantos ais, ai....”

Sei que é uma vivência nostálgica, mas quem viveu os anos 70 e 80 com toda essa riqueza artística, não pode deixar de sentir um momento em lágrimas. São peças e filmes que marcaram não só a minha vida, mas a de toda uma geração e todo um país. Re-vê-los dói a alma, mas também nos regozija, por vivenciamos uma eterna epifania – a de ter vivido tudo tanto!

Bravo e todos os meus aplausos – para Ruy Guerra!
E para o Fest-Aruanda!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa , 8 de dezembro de 2017
 


Mulherio - Mulheres que Correm com as Letras

 

 

 

Quando a escritora inglesa Virginia Woolf foi convidada para dar uma palestra sobre As Mulheres e a Ficção, ela sentou-se à margem de um rio e começou a pensar sobre o sentido dessas palavras e observou o rio que refletia o que bem quisesse de céu e ponte e árvore flamejante. Woolf pensava: “Hoje vi uma mulher...hoje vi um avião...tudo pode acontecer quando a feminilidade tiver deixado de ser uma ocupação protegida...Mas que relação tem tudo isso com o tema...As mulheres e a ficção?”, perguntava ela. Já eu, por esses dias, também pensei sobre as mulheres e suas escritas. Hoje vi um mulherio de mulheres; uma colcha de retalhos, e o que terá acontecido já que a feminilidade já não é uma ocupação tão protegida assim?

Mais de um século depois, aparece a palavra MULHERIO, num evento/movimento que aconteceu no último 12-15 outubro, 2017 em João Pessoa. Quando ouvi primeiro o nome Mulherio das Letras, gostei tanto! Imaginei mulheres muitas, “acolegadas”, jogando conversa fora, seguidas das imagens de brisa e coqueiros da nossa cidade. Depois ouvi que a palavra poderia ser pejorativa, que tinha conotações outras (negativas inclusive!). Lembrei-me da Marcha das Vadias, que também teve implicações semânticas. E gostei. Gosto da transgressão das “Vadias”. E, particularmente, gosto de Mulherio também, e acho que transcende o sentido mais dúbio se o tem, para um lado mais solidário e de braços com a sororidade.

E o que foi esse Mulherio das Letras? Tomo emprestado respostas da matéria feita pelo jornalista Linaldo Guedes para o Correio das Artes/Outubro: “... um momento para o fortalecimento, a troca de experiências, a geração de projetos e parcerias entre as mulheres que produzem e promovem a literatura no Brasil...tem como proposta dar visibilidade aos trabalhos desenvolvidos por mulheres no mercado literário, Queremos criar um movimento, algo que marcará a história e trará igualdade. É algo prático, além de ideológico” .

A ideia do Mulherio surge com a consagrada escritora Paulista, radicada há décadas na Paraíba, e ganhadora do maior prêmio brasileiro de literatura, o Jabuti, Maria Valéria Rezende. Na Flip de 2016, numa conversa com outras escritoras, surge a necessidade desse encontro. A forma? Cooperativa e mais orgânica, no sentido de trocas de experiência. Com uma festa de abertura, e depois alguns pontos da cidade foram tomados por atividades lúdicas ou não das mulheres. A Fundação Casa José Américo, O Espaço Cultural, a Tamarindeira – Espaço Criativo, Espaço Psicanalítico EPSI, PB Tur, Energisa, foram alguns desses lugares.
Muitas Mulheres que, juntas fizeram um alvoroço em torno de literatura, escrita, escritoras, Mulherio das Letras Pretas, edição, distribuição de livros, criação, colcha de retalhos, poesia, resgate, Revistas, performances, cartas, rodas de conversas, diálogos,...Nunca se viu tantas mulheres circulando, animadas por tantos textos, dilemas, alegrias coletivas ou individuais.

E tantos aplausos para muitas e tantas. Destaque para a Anayde- Revista eletrônica de cultura feminista – Raquel Stanick, Mabel Dias, Ednamay Cirilo, Mayara Vieira, Cris Estevão, Tatiana Fraga, Thamara Duarte, Cassandra Figueiredo, Thais Gualberto, Sandra Raquew. Lara Bioni (que conheci pequenininha, amiga de Daniel, meu filho) – e seu - Visto Permanente Mulheres; Laís Chaffe, Blasfêmeas; Cidade Poema; Cantonera Caleidoscópio, Loas de Chegança; Grupo Sinta a Liga; Cria por Elas; Outras Carolinas; Glaucia Lima, Socorro Lira, Mariposa Cantonera, Vozes, Escaleras, Bondelê (e as meninas Mariana e Carolina).
Woolf falava que, para a criação de arte acontecer, era preciso três coisas: independência financeira, lazer ou tempo diletante, e um espaço todo seu (que podia ser um quarto, ou ainda um espaço literário, simbólico ou subjetivo). E passeando pelos jardins do Cabo Branco, pude sentir que, não mais nos cascalhos das Universidades de Oxford/Cambridge, caminhavam as mulheres. Elas ali, se lambuzavam de falas no auditório, ou cantoria no jardim, ao ouvir Conceição Evaristo (premiadíssima escritora de Ponciá Vicêncio - 2003, Becos da Memória 2006, Histórias de leves enganos a parecenças -2016) a falar de Maria Firmina Reis (1925-1917), Maranhense que, em 1825 foi considerada a primeira romancista brasileira., autora de Úrsula, o primeiro escrito por uma mulher negra brasileira. Tanto Úrsula como Maria Firmina só conhecemos graças aos estudos das mulheres, da crítica feminista, trazidas à luz pela academia e suas áreas de pesquisa e conhecimento a partir dos anos 70.

As mulheres sempre escreveram, dizia Woolf, mas seus escritos se perderam nos velhos diários, ou trancafiados nas gavetas, ou ainda obstruídos nas memórias do tempo; ou ainda nos corredores sombrios da História onde as figuras das gerações das mulheres estiveram enevoadas e tão tacanhamente percebidas (“Women and Fiction”). Woolf também justificava a ausência das mulheres nas artes e na escrita: “Como posso incentiva-las mais a empreenderem a tarefa de viver? Nunca fizeram uma descoberta de qualquer importância...nunca sacudiram um império...as peças de Shakespeare não são de sua autoria...qual a sua desculpa? Sem nosso trabalho esses mares não seriam navegados e aquelas terras férteis seriam um deserto. Geramos e alimentamos e lavamos e instruímos, talvez até os seis ou sete anos de idade....” Nas últimas décadas, os diários e as gavetas foram abertas, os corredores alumiados, e gerações de mulheres explodiram com suas escritas.

No último sábado, quando vi tantas mulheres lançando tantos livros infanto-juvenil, romances, crítica, contos, poesia, incluindo tantas autoras paraibanas: Joana Belarmino, Letícia Palmeira, Ana Apolinário, Madalena Zaccara, sem falar em produções anteriores de tanta gente, fiquei a pensar nas palavras dessas mulheres que nos antecederam, que usaram de pseudônimo; aquelas que viveram diante da indiferença do mundo e que os cânones literários tiveram tantas dificuldade de suportar, e a quem os homens perguntavam: “Escrever? E o que há de bom em você escrever?”(Woolf, Um teto todo seu).

E nas minhas divagações, como não lembrar das palavras proféticas de Woolf quando disse: “Minha crença é que essa poetisa que nunca escreveu uma palavra e que foi enterrada numa encruzilhada ainda vive. Ela vive em vocês e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui esta noite, porque estão lavando a louça e pondo os filhos para dormir. Mas ela vive; pois os grandes poetas nunca morrem, são presenças contínuas.”

E de louças e filhos, e de encruzilhadas e palavras ditas ou não, fazemos o mulherio nosso de todo e cada dia. E esse das letras, mostrou a que veio. Construiu-se em rede nacional, em colaboração com as vivências compartilhadas, criou novas formas de acontecer, e pois bem, O Mulherio das Letras de 2018, já tem data e lugar para se fazer dizer - Guarujá-SP. Simbora nós!

Ana Adelaide Peixoto
João Pessoa, 16 de outubro de 2017

OBS- Este texto foi publicado na Revista Premium, 7 de novembro 2017 


Marta – De dez em Matemática à uma Ativista da Causa do Envelhecimento

Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,

Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.

Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei,

Eu reinei no que nunca fui.

(Fernando Pessoa)

Nas Lourdinas, onde estudei por 10 anos da minha vida, tínhamos uma turma que atravessou primário e ginásio. A Quarta A. E lá existia uma porção de meninas de uniforme azul . As várias faces de uma juventude que nasceu em meados dos anos 50.

Na primeira fila, lá estava ela. cabelinho preto, franja, séria, compenetrada, tímida, e insuportável – pois só tirava 10 em todas as matérias e toda vez. Marta Eleonora! Assim ninguém aguentava! Eu menos ainda, que sentava pelo meio, distraída, estudante mediana, e lustrava a carteira nas horas vagas e muitas. e tagarela! que contava os minutos para que a aula acabasse, o colégio acabasse, tocasse o sino, e saíssemos para ver os meninos na porta das Lourdinas. Marta ia de Rural, o pai buscava. Nunca vi Marta no mundo mundano da rua. A minha rua. Para mim, Marta ia para o mundo dos sabidos e dos impossíveis. Inacessível!

Com o passar dos anos, não éramos tão próximas. Mas como não seguir uma colega que só tirava dez? Nos últimos 20 anos, nos aconchegamos mais. E com as vindas a João Pessoa, justo por causa de Nenen, sempre a Quarta A marcava encontro para saudar Marta. Aí já vi Marta uma mulher mais poderosa ainda, radiante com a vida, e principalmente com o trabalho. e as filhas. Um orgulho, Bruna e Priscila. 

No meio desse tirinete virtual, veio o blog Mundo Prateado e as conversas sobre o envelhecimento e toda a trajetória de Marta com Nenen.

Chega o livro- É tempo de cuidar, e eu, que danada! Lá está a Marta dos 10 em todas as disciplinas. Marta elaborada, prática, objetiva, talentosa toda, profunda e comprometida em tudo o que faz, e o pior, escreve crônicas e é boa nisso também?

Pois lá vai Marta falar dos velhos, de cuidados, cuidadores, e a perguntar coisas que, para nós ainda parecia coisa para se pensar depois. Quando vejo, lá vem Marta com livro pronto, com editora, lançamento em livrarias credenciadas e charmosas do Rio de Janeiro, e o livro, na vitrine em fileira especializada no assunto. Prefácio ? Somente de Alexandre Kalache , que conhecia do café filosófico. Marta bota pra quebrar! ela não faz nada a passeio. é tudo traje de festa!

Pois bem, o livro – É tempo de cuidar – Eles envelheceram: E agora?(Marta Pessoa, Editora Batel), é sobre sua experiência de vida, de perder pais jovens ainda, de morar fora, de ser filha única, e principalmente de ter uma babá daquelas de filme. Uma mulher de vida difícil e solitária, e que morou toda a vida aconchegada à sua família. e como ela diz, um ser que agradece todo dia tudo que lhe é cabido. Um “elo perdido”, ela assim a define, por se tratar se um ser iluminado e de outro mundo, literalmente. Nenen!

Marta passeia por esse assunto novo e tão velho, da velhice, das suas experiências ricas e assustadoras e solitárias: dos afetos, das finanças (esse assunto nebuloso e nevrálgico); de re-ver os conceitos todos; o lazer, das impossibilidades, da saúde, espiritualidade, de aprendizados e perdas, de serviços e produtos, de distâncias, de quem cuida e das esperanças e tempos de rede – desde aquela pendurada no terraço, mas principalmente a do mundo de hoje, a virtual.

Mas o livro de Marta não é um manual de como cuidar de velhos. Ela transcendo o assunto das ordens práticas e passeia com propriedade pela subjetividade das circunstâncias do idoso e do seu cuidador. Muitas das questões, espinhosas ou não, cruéis até, às profundezas da natureza humana e suas armadilhas são questionadas no livro. Vi-me representada em muitas perguntas. envergonhada das minhas limitações, e des-conhecimento a respeito de outras. Obrigada Marta!

Marta também fala de compaixão, das variáveis de quem cuida – entrega, troca e emoções balanceadas – enfim, como temos que aprender com o assunto! Sim, porque se observamos algumas culturas, os velhos simplesmente sobem a montanha e se despedem, como no filme – Pequeno, grande homem (Arthur Penn, 1970), ou no último romance de Valter Hugo Mãe, Homens imprudentemente poéticos, que fala dos velhos da aldeia que se suicidam na velhice. na montanha! Como não temos montanha, nem tribo, nem essa concepção da morte, nos vemos paralisados diante da velhice. O livro de Marta nos coloca frente à toda essa questão, e seus desdobramentos. Um mergulho!

O livro é assustador também, pois como somos covardes e nunca gostamos de botar o dedo na ferida, nos vemos impotentes diante de palavras como: cuidados, dignidade, inclusão, apoio, solidão, des-assistência, experimentos. “A velhice pertence a todos nós!” adverte Marta.

O livro nos lembra de que há vários tipos de velhice e ela frisa – a última fase da vida. e repete como um soco – a última! e dos vários modos de envelhecer. Sim – imaginem que aprendi sobre o mito do cuidado. Higino? Sobre Idadismo! (preconceito contra a velhice). e os baby boomers (nós)- os brasileiros nascidos na década de 50.

A pergunta que também permeia o livro: O que seria uma boa velhice? Para a OMS, o Envelhecimento Ativo: Políticas públicas, autonomia e acesso a viver sua velhice com dignidade. Saúde, aprendizagem ao longo da vida, participação e segurança e proteção. Enfim, “a boa velhice começa na juventude!”. E como o tema da velhice fisgou Marta? Uma premência! Depois de 20 anos cuidando de Nenen, cuidar, se tornou um ato político!

E Marta escolhe a palavra “cuidar”, para definir um dos grandes desafios para as próximas gerações. Este será o verbo das próximas décadas deste século. Outra palavra de peso será “compartilhar”: nas tarefas, no organizar, ou no gerir.

O livro nos instiga com uma série de perguntas, como: o que sentimos no papel do cuidador?; qual a saída? E a resposta? contaminar a sociedade por um tipo de afeto pelos idosos, adverte Marta.

O afeto por si já é suficiente para uma revolução, mas Marta compartilha novos conceitos, para esse cuidar, como: co-housing, co-living, aging in place, serious games, cyber seniours, street view, coaching, lifelong houses, conforto emocional, prejuízo afetivo, gerente de projeto (medico), intergeracionalidade, conceito de intimidade (valor velho), privacidade, depressão senil, qualidade de morte, cuidado paliativo, testamento vital. e estabelece novas noções de privacidade, pois tudo que um velho não quer é ficar sozinho. (conferir o filme Nossas Noites, Ritesh Batra, 2017).

Claro que, não poderia deixar de constatar que, o cuidado sempre foi trabalho das mulheres. os homens foram sempre omissos nessa tarefa. nesses novos cuidados é preciso mudar paradigmas. as mulheres estão cansadas de cuidar das suas crianças e velhos sozinhas.

E com os novos conceitos, Marta nos trás os novos serviços: em moda, vestuário, mobiliário adaptado, cosméticos, produtos higiene – fraldão! autoestima, bolsas e sapatos. o conforto, os mordomos virtuais, filhos de aluguel, aprendizagem e inclusão digital, informações confiáveis e reunidas. e tudo isso está também estampado e compartilhado no Guia do Mundo Prateado, como também serviços de vigilância, rastreamento de idoso, luxo de pequenas alegrias, internet das coisas,

O que entendemos como qualidade de vida para um idoso? E Marta responde: Uma vida cidadã! junto às: associação bairros, entidades, rede de apoiadores, profissionais de saúde, serviços, amigos, familiares vizinhos, todas essas soluções que, dinheiro não compra.

Como conclusão, Marta fala de esperança e rede de apoio. “recriar a cultura de apoio ao cuidado nos padrões da cooperação de antigamente, mas com as ferramentas desta modernidade líquida, dificuldades antigas x novas abordagens.” E re-significa o Conceito de Vila – rede de apoio e solidariedade. só assim teremos a transformação, gerada pelo interesse coletivo.Temos que fazer a mudança de cultura! diz Marta. Do individualismo para o coletivo; da negligência para assistência; de autonomia solitária para colaboração; de ajudar para ser ajudado; mobilização parentes, vizinhos, amigos, e do governo.

Kalaache fala da “Revolução da Longevidade”. e como tudo isso é revolucionário; da “cultura do cuidado”, e ele diz – Marta é uma ativista fervorosa! e Marta convida: transforme-se numa aranha! . Como não lembrar da escritora Virginia Woolf, que definia a ficção também como esse ser das teias: “a ficção é como uma teia de aranha, ligada tão sutilmente, talvez, mas mesmo assim, ligada à vida em todas suas quatro extremidades”. tradução livre

E como uma aranha, ligada à vida, Marta conclama: “vire uma ativista do envelhecimento!”

Parabéns Marta! E obrigada por fazer parte desse seu momento de realização e da sua festa!

Ana Adelaide Peixoto – João pessoa 9 de Novembro, 2017


Genilda - A menina de Pilõezinhos

Genilda – A Menina de Pilõezinhos


Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
(Fernando pessoa, citado por Genilda)

Conheci essa menina, Genilda Azerêdo, no dia que fizemos concurso para Professor da UFPB em 1991. Eu recém parida de Daniel, meu filho caçula. Frágil , com os peitos cheios de leite, e com os olhos nas fraldas muito mais do que em “Teaching Reading” – o ponto que caiu na prova para professor de Língua Inglesa. Genilda passou em primeiro lugar e eu em terceiro. Pulei de alegria. Mas senti um frio na barriga, pois o desafio de dar aula na UFPb me estremecia.

A partir daí, viramos colegas e amigas. Compartilhamos muitas experiências, alunos, viagens, filmes, tristezas, alegrias, acalantos, longas conversas, danças, aplausos, abraços, turbulências no avião, na vida, poemas lindos (que ganhei nos aniversários), Virginia Woolf, Jane Austen, Robert Stam, Linda Hutcheon, disciplinas de João Batista Brito, amigas comuns, livros, histórias, segredos, confraternizações, cafés, até uma fila de alfândega de relâmpago... Genilda também foi da minha banca de doutorado. Entre as minhas Horas, nos arguimos e celebramos.

Desde que lhe conheci, que ouço histórias do seu pai fogueteiro, da sua família numerosa (13 irmãos), e sempre da sua mãe querida e amorosa, D. Tezinha – coincidentemente o mesmo nome da minha sogra. Apelidos é claro, seus nomes são Maria José e Maria Célia respectivamente.

Dia 17/10 fui convidada a assistir sua Banca de Memorial para ascender para Professor Titular. Tinha certeza de que a sua apresentação não seria uma mera formalidade. E tive o que esperava. Uma aula de competência, objetividade, relatos, poesia, e principalmente afetos, como ela mesma disse na introdução. Lindo de vê-la recitando Adélia Prado e seu Ensinamento, e a falar dessa mãe que, de um lugar distante geográfica e simbolicamente, conseguiu formar 13 filhos e 10 professores doutores.

Entre uma pesquisa e outra; entre um Pibic e outro; entre uma tese e outra – Genilda desaguava no acolhimento e amor de sua mãe. Lembro que, desde que lhe conheci, e de tanto ouvir sobre esse amor, que juntas debulhavam feijão verde aos sábados, que pedia para ir visitar e conhecer essa mãe compartilhada em tantos e tantos filhos – De tanto amor! Sentia curiosidade por esse sentimento tão imensurável que transbordava à pessoa dessa querida amiga. Conheci D. Tezinha por aqui mesmo. E seu rosto correspondia ao retrato.

Genilda falou de literatura, cinema e educação, e da potência dos vaga-lumes. Resgatou lembranças nos seus 38 anos de ensino. Citou Four Quartets, de T. S Eliot, poesia que conheci com Vitória Lima e Michael Smith, em tantas aulas tantas. Recitou Memória de Drummond e as coisas findas, lindas, que gravei nas homenagens a Juca na pracinha do Sebrae. Coisas lindas, lindas lindas, da vida...

Sem pudor, se referiu à pobreza da sua vida, da sua cidade sem cinema , sem livros, e sem biblioteca. (Como não lembrar de Virgínia Woolf e o seu texto Um Teto Todo Seu, que ela inclusive citou), e da pobreza das mulheres nos cascalhos das universidades Oxbridge!. Da vinda tão jovem, aos 14 anos, para estudar na capital, das pessoas que lhe acolheram, dando-lhe abrigo e caminho (Maryland, Regina Celi). Dos irmãos que possibilitaram estudar na Cultura Inglesa, e o primeiro disco de Chico Buarque, que ninguém esquece. Chico, seu grande amor das artes, junto com tantos outros que citou. Cecília, Carlos, Adélia, Woolf, Austen....

Falou do EU, que não é somente o seu, mas do amálgama que a encharcou de afetos tantos em tantos anos de academia e de vida. Tudo entranhado nas teias do amor e da ficção. Da leitura, e dos livros que se encantou. Mas também das tantas coisas de que gosta e das dificuldades das escolhas. Agradeceu aos Professores inspiradores, da coletividade, com Adélia – “Eu vivo sob um poder que ás vezes está no sonho no som de certas palavras agrupadas!” .

E perguntou com os versos de Rilke – “Confessa a si mesmo se morreria, se lhe fosse vedado escrever? E ela substituiu o verbo escrever, por ler? Poderia, poderia? Não! Responde veementemente. E lendo seguiu! Lendo migrou para a área de literatura para ensinar a aprender a ler e interpretar, a falar, ouvir, escrever, ver, sentir.

Onde começou tudo? Escrevendo para as festas familiares. E o que Pode a Literatura? O poder! O poder de viver o que ainda não se sabe, e que não se sabe expressar. A Alteridade. O amor. Foi buscar respostas em Todorov e Vargas Llosa. A literatura em Perigo e A verdade das Mentiras – esse último herdei de Juca e que também estão nas minhas estantes, e fez parte das minhas aulas também. A partilha do sensível , de Jacques Raciére, outro filósofo inspirador para Genilda .

Sua fala? tudo interligado. Família, estudo, ficção, cinema, fogos do são João, A casa das 7 mulheres, Teoria, crítica, texto. O texto literário? Não re-cria a vida, problematiza a vida! Viver não é relatável! (Clarice Lispector), citou Sonia Ramalho, membro da banca, ao comentar o seu longo memorial em espiral. Como conseguir relatar uma vida? Uma vida acadêmica? Com a literatura? Com o cinema? Com a poesia? Genilda conseguiu essa proeza. Pois o que tinha e tem sobrando, o talento, a poesia entranhada nas células e sua própria memória, a delicadeza e agigantamento quando o assunto é trabalho, é exposição. Não dá ponto sem nó. Tudo é esmero. Tudo é afinco. Eu aprendi tanto com ela! Caprichosa que é! E eu com meu jeito labrogeiro, minhas improvisações, minhas vivências mais orgânicas e experimentais....; eu tão lantejoulas, e ela tão algodão colorido! Sua vaidade? O trabalho! O prazer do texto! O (re)conhecimento. O pergaminho chamuscado das imagens dos seus slides. Seu Memorial? uma matéria viva e vertente, como disse Sonia, e compartilhado com toda aquela sala lotada de gente que em algum momento escolheu a estrada certa – Ela, Genilda!

Sonia, honestamente, demonstrou sua inveja pela colega avaliada. E confessou: “A inveja, o mais sincero dos sentimentos, pois não conseguimos esconder quando a temos”. A inveja que eu também senti ontem. A inveja de todos ali presentes. Inveja de admiração.

Como narrar um vasto mundo? Talvez não sabemos. Mas Genilda soube. Carregando o seu mundo ontem, naquele tempo circunscrito, naquele instante Woolfiano, na sua novela não escrita? Talvez? Nas suas paisagens sem orgulho nem preconceito, e nos jardins de Kew Gardens, não de London London, mas de Pilõezinhos, um lugar não no cascalho da pobreza e invisibilidade feminina, mas nos holofotes de quem chegou lá – na alegria da realização e do reconhecimento. Todo dela! Todo dela!

E de grão em grão, de desafio em linhas curvas, Genilda constatou a sobrevivência dos vaga-lumes!

Parabéns e toda minha admiração!

Obs - Tenho certeza de que aqui no texto , amigas(os) queridas assinam embaixo!( Rosangela Neres, Edvânea Maria, Lucinha Nobre, Liane Schneider, Betânia Medrado, Maura Dourado, Betinha Souto Maior, Vitória Lima, Vilani Sousa, Jeová Mendonça, Caio, Jenison, Bernardo, e tantos outros não presentes)

Ana Adelaide Peixoto – 18 de outubro de 2017
 


Perambular por ai....

(Para o querido Petrônio Souto , que me inspirou a escrever essa crônica, pelas suas andanças na cidade, num domingo qualquer, para ir cortar o cabelo...)

O termo flâneur vem do francês e tem o significado de "vagabundo", "vadio", " preguiçoso", que por sua vez vem do verbo francês flâner, que significa "para passear".

Charles Baudelaire desenvolveu um significado para flâneur de "uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la".
Foi Walter Benjamin, baseando-se na poesia de Charles Baudelaire, que fez dessa figura um objeto de interesse acadêmicos no século 20, como um emblemático arquétipo da experiência moderna. Seguindo Benjamin, o flâneur tornou-se um símbolo importante para estudiosos, artistas e escritores.

Sempre gostei de andar a esmo. Flanar. Sem destino. Me perdendo e me achando. Contemplando ao meu redor. Fiz isso a vida toda. E contemplar. O dia, a noite, o céu e as estrelas, o mar e suas nuances de verde/azul/amarronzados, a natureza. Contemplar o vazio – o de fora e o meu próprio. Contemplar !

Quando criança, que podia andar sozinha na vizinhança. E lá ia eu observando os jambeiros da Rua das Coremas. Ou as mangueiras da Avenida Maximiano Figueiredo ou da Almirante Barroso, onde morei anos. Ou ainda os flamboyants da Av. Camilo de Holanda onde por alguns anos vivi também. Gostava de olhar com o rabo de olho pelas frestas dos portões, para adivinhar o que se passava ali naquela casa, naquele terraço ou naquele espaço estranho e sedutor do além muros.

Aos dez anos, já andava de ônibus sozinha para as aulas de solfejo em D. Luzia Simões e ballet no Teatro Santa Rosa. Quanta liberdade! Era o céu falado, tomar o ônibus e observar os passageiros, e ver as casas do alto. Quem subia e quem descia. E por falar em descer , descia correndo a ladeira do Teatro. E por baixo das sombras da Rua Nova, Direita, eu cantava amor febril e descobria a cidade. As ruelas, as lojas, seus habitantes, a atmosfera do Centro que gostava tanto de descobrir, mas aí já era adolescente. Uma moça!

Mais tarde vislumbrei outras delícias de andar por aí. Praças, esquinas mais escuras, beijos roubados no pátio da Igreja São Francisco à tarde, vazia e propícia ao namoro, o lanche simples, mas que tinha sabor de liberdade (escondida eu ia andar pela cidade), e ao Cinema. Ah! Para Cinema Paraíso nenhum dar conta. Só mesmo a peregrinação de João Batista e Brito (contada em texto na última publicação em suas Imagens Amadas), faz companhia à minha experiência nas matinês. Cinema de Arte. Escurinho. E todas as minhas últimas sessões..... Ainda hoje, faço disso um programa dos prazeres. Ir ao cinema sozinha.

E durante a vida, sempre gostei de ser uma flâneur, perambular pelos espaços e pela vida. Nas viagens, ainda mais. Terra Estrangeira! Povo estrangeiro! Língua estrangeira, tudo para me reportar às estórias outras, longínquas, que vi no cinema ou nos meus sonhos não ditos. Por vezes impublicáveis. Até hoje não entendo gente que só viaja com translado, que pega taxi todo o tempo. Há de se ter pernas, pra que te quero! E brincos! E não só fora do país perambulei. No Rio de Janeiro fui uma caminhante durante tantas vezes. Gostar de sair por entre as quadras de Copacabana e ouvir Dick Farney cantando baixinho no meu ouvido.

Eram tempos outros. A gente caminhava sozinha, de dia e à noite, sem se preocupar com roubo ou quaisquer outro tipo de violência. Somente os tarados de ponta de rua! Hoje, ninguém sai mais de casa. A pé então...Os jovens ficaram obesos, os adultos com dores nas articulações de dirigir carro, e os velhos? tristes. Eu mesma não ando mais a pé. Só na calçadinha, com um olho no horizonte e outro ao redor para me defender. E depois, a cidade esquentou, cresceu, e não tem mais onde se andar. Tudo é longe e inseguro. No Centro, a tristeza de constatar uma cidade em ruínas e nos bairros, nada a descobrir. Aqui no Bessa, bairro onde moro há décadas, todos os estabelecimentos perto da minha casa já foram assaltados. Só me resta andar pelo quarteirão, para lembrar da infância dos meus meninos e dos tempos em que minha alma estava sombria. Esse caminhar me tirava a angústia do peito. E eu sentia o frescor da manhã. Com os pés descalços, misteriosamente eu sentia o chão aos meus pés, e essa concretude me enlevava aos céus, literalmente, e novamente, espiava a entrada das casas da vizinhança. Paulo Barreto (Baleia) (do Gulliver), Naná Gomes (da rua da frente), Kay France (e sua academia), o riacho nada doce que hoje virou parque, e os bem te vis...vi todos! Pelas janelas entreabertas da alma, minha, dos outros, e da alma imoral, eu flanei!

Charles Baudelaire apresentou um memorável retrato do flâneur como o artista-poeta da metrópole moderna: “A multidão é seu universo, como o ar é o dos pássaros, como a água, o dos peixes. Sua paixão e profissão é desposar a multidão. Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa, e contudo, sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais que a linguagem não pode definir senão toscamente.” Le Figaro, 1863)

Flanar, um verbo que conjugo até hoje. Em qualquer lugar que eu vá, até mesmo na esquina, eu me abstraio. Invento. Contemplo. E como dizia o poeta, aproveito tiro proveito do ondulante, do fugidio e do infinito. E esse pra mim, é um estado de felicidade. Feliz sou!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 3 de outubro de 2017
 


Os Dias Não Eram Assim!

Assisti à série da Globo , Os Dias eram assim. Confesso que no início, não suportei as cenas de tortura e tantas maldades dos tempos de chumbo dos anos 70 no Brasil. Mas depois, fui me interessando mais pelas outras tramas e engolindo o soco no estômago. O título da série, uma frase de música de Ivan Lins, tem a força da memória, como se dissesse: olha! Vejam! Os dias eram assim. Todo cuidado é pouco para não repetir...

Mas, os meus dias não eram assim!

A década de 70 foi uma década decisiva na minha vida. Em 1971 fui para os States em intercâmbio e lá tive contato com um país onde a vida universitária era igual às dos filmes; os hippies povoavam as ruas, se fumava maconha abertamente, os estudantes usavam calça jeans rasgadas, e ouviam Hair e Crosby, Still, Nash e Young, e eu, ocasionalmente perambulava pela Columbus University. Mas era secundarista, e só por vezes me arvorava nos lugares underground, ou pelos gramados lindos e cheios dos resquícios da contracultura. Eu me interessava mais por isso. Era a revolução dos costumes que eu assistia incrédula com os meus olhos da província. A minha política!

Em 1973 casei de véu e grinalda, ouvindo Bridge Over Troubled Water. Sonhando em conhecer o mundo, a pintar o sete, literalmente, com as palhetas domésticas, e com o tão pouco conhecimento do que seria um casamento. Era jovem. Muito jovem. Sonhava com o amor romântico. Pobre menina! Nem sabia ainda que os dias não eram assim! E gostava da Jovem Guarda e por isso era taxada de alienada. Mas sentia as carnes trêmulas com Caminhando e Cantando em comunhão com o sentimento cala a boca de um País interditado, e ficava em estado de perplexidade com os Beatles, Tropicália – Alegria Alegria e a guitarra estridente dos Mutantes.Tudo que me importava era minha calça Lee rasgada e um desejo de mandar tudo pro inferno.

A política, para uma jovem de catorze anos (no ano que não começou), era uma ideia perto de casa, mas abstrata, representada pelos longos cabelos de Eduardo Jorge Martins, o uniforme do Lyceu em Washington Rocha, os nomes de Sérgio Tavares e Lela Melquíades, e mais ao longe de Monica Lúcia e Leda Rejane/Everardo Queiroz (elas hoje minhas amigas, e ele in memoriam!) e depois pelas pichações dos muros de Flávio Tavares.

Em 1975 fui à Londres pela primeira vez e aí o bicho pegou. Eu de longe cantarolava London London. O exílio de Caetano era também a minha melancolia pelo não vivido. Mas eu estava embriagada por Notting Hill e Portobelo Road, para pensar em política. Meus olhos se encandeavam com os espelhinhos das túnicas Indianas. E eu ouvia Ravi Shankar e George Harrison! Em 1977 ganhei o LP de Vitor Jara, e chorei a tortura no Chile que nos colocava em contato com o mundo ao nosso longe redor. Te recuerdo Amanda! Em 1978 – o mundo rodou. Roda viva roda pião, e em 1979 meu mundo caiu, assim, com notas trágicas de bolero, minha vida deu guinadas, e o abismo olhou pra mim. Não me importava com a política e só, e somente só, a transgressão me dizia respeito. Estava com raiva. Muita raiva, e sexo, drogas e vídeo clipes, permeavam o meu imaginário.

A década de 70 – me petrificou! E lembro de cada dia e hora que ficaram no meu corpo feito tatuagem!

Anos depois, com a campanha das Diretas retornei a prestar atenção à minha volta. E a quem dela participou. Conheci José Dirceu pelas fotos, e mais tarde pessoalmente, quando já tinha filho recém nascido, e o sono falava alto. Só queria dormir! Mas por cartas eu acompanhava o desejo pelas mudanças e o sonho que estaria por vir.

Assistindo à série, senti saudades dos saraus poéticos, das loucuras sexuais acontecendo; o sonho de um país mais igualitário, o amor, o amor, o amor, as músicas de Belchior e dos festivais que eu assistia de olhos bem arregalados e cantava todas as letras como se fossem minhas – Disparada, A Banda, Teorema e outras todas.

E em 1982, no Peru, assisti o filme Desaparecidos (Missing , de Costa Gravas). Saí do cinema sozinha e com medo. Muito medo. Um medo que inundava o passado e o meu presente silencioso e afastado das lutas de quem fez o movimento estudantil e político desses tempos. Saí com minha mochila para Cuzco, em busca da paz dos Incas, mas meu coração estava assombrado. Estava sozinha, fragilizada e longe de casa. Até hoje sinto arrepios quando lembro de mim na imensidão de Macho Picchu! Só o som da samponha me acalmava. Pouco, pouco a pouco me ha querido....eu cantava!

Enfim, não precisa você ter sido presa e torturada para saber o que era o Brasil dos anos 70. Mesmo outsider, sentíamos a atmosfera de censura e medo no ar. Tínhamos amigos envolvidos. A vida era sob suspeita. A série me trouxe lembranças vividas ou não, e chorei muito. Com Cauby Peixoto Chorei! A questão da Aids e o filme Filadelfia. Cazuza! As referências às perdas todas; físicas e subjetivas, que um dia todos tivemos. Chorei com saudades de Juca, que, de São Paulo, me escrevia sobre as mudanças, aberturas e de toda a sua alegria em participar do momento mais decisivo do país. Chorei!

E os meus dias? Nunca mais foram assim.!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 25 de Setembro 2017
 


Eu vi uma Pipa voando...

No tempo! Uma Pipa que não é papagaio. Uma Pipa praia. Que se desmanchou no céu das minhas lembranças do tempo. Lá longe. Por um fio de nylon dos anos. Dos anos que rodavam as praias desertas e precárias. Mas de beleza calma, tranquila e por onde meus olhos contemplavam o mar.

A primeira vez que fui à Praia da Pipa (RN), foi há quarenta anos atrás. A praia de pescadores só tinha uma igrejinha, algumas palhoças e uma natureza exuberante. Acampamos ao lado da Igreja, no meio da rua – imaginem! Bebé, minha irmã, estava grávida do seu filho mais velho Raphael, hoje um homem feito, como se diz. Aproveitamos esse passeio e esticamos por Tibau do Sul, pelos rios, manguezais, e caminhos estranhos e desertos. Fotos lindas que eu ainda tenho, por onde me vejo jovem, num retrato em branco e preto, exatamente como na música de Chico Buarque.

Depois, já em 1983, voltei num carnaval. Aí quem estava grávida era eu. De Lucas. Ficamos novamente numa tenda à beira mar, com churrasco de peixe o dia todo. Pipa não tinha loja, nem pousada, nem nada. Só os pescadores para vender o peixe. Mas já algumas casas do pessoal de Goianinha. Uma dessas famílias nos emprestaram o chuveiro do quintal, onde tomávamos banho. Passávamos o dia de biquine, e à tarde passavam os papangus e nós brincávamos o carnaval. Íamos a pé à Praia dos Golfinhos, e à Praia do Amor, pois nem tinha estrada, nem escadaria de acesso. Tínhamos a imensidão. A paisagem sem fim. O azul infinito. As conchas e o som das ondas. Tostávamos ao sol. O Chapadão era o lugar onde íamos ficar chapados. Eram os anos dos delírios! A paisagem, as cores contrastantes e o silêncio, eram propício às outras dimensões de toda e qualquer suspensão da realidade. Claro que eu, responsável com a gravidez, só ficava na água de côco! Lucas agradeceu!

Aquela praia cheia de pedras, terras vermelhas, e praias desertas era o paraíso. Aliás, como já falei em crônicas outras, tive o luxo de conhecer alguns desses paraísos na mesma época. Baía Formosa e Barra de Cunhaú e Canguaretama (RN), Canoa Quebrada (CE), Praia do Francês (Al) e Sagi (PB). Um litoral todo meu.

Em Baía Formosa, foram décadas indo e vindo nos feriadões, férias e carnavais. Atrás dos surfistas, das ervas, das doideiras de uma década, danças ao som de Coração Bobo de Alceu Valença, madrugadas e amores perdidos. Em Canoa: banho de cuia por alguns trocados e farofa de alho com camarão ao dendê! E haja perna pra subir duna! Também acampada num vendaval de areias vermelhas. Francês? Um azul e toda sua imensidão. Praia deserta e uma única barraca onde comíamos Peixe-Carapeba com cerveja toda a tarde. Café da manhã na barraca e lavávamos a louça areando as panelas no mar. Céu de estrelas! Todo nosso! Silêncio e escuridão. Tudo com segurança e somente com os medos da juventude e seus arroubos. Em Sagi comprei um terreno inexistente, uma casa de areia que se perdeu no vendaval. Em Canguaretama comi a melhor peixada da vida, feita com cheiro verde pelo caseiro do lugar que nos acolheu- nunca esqueci agradeço até hoje. Em Barra de Cunhaú , um rio a perder de vista. E Pipa – uma lembrança de uma vila querida.

Claro que continuei a ir à Pipa nos anos seguintes e por todo esse tempo. Com os filhos, irmãs, amigos. Aí já uma cidade charmosa, cheia de turistas, pousadas e lugares pitorescos. Lembro do tempo que só tinha a Pizza Brasil e os meninos (filhos e sobrinhos) apostavam aos pedaços. E meninos comem! As caminhadas! Os golfinhos a pularem na nossa frente! E o pão caseiro da pousada Berro do Jegue. Meus sobrinhos gringos chegavam do País de Gales e já queriam pinotar naquela imensidão de mar com água morninha. Aproveitamos tanto tanto. Tanto mar, sempre!

Semana passada voltei à Pipa. Já há dois anos que não ia. E fiquei muito surpresa com o charme que continua, ruinhas tortuosas e enladeiradas. Cantinho dos céus! A língua falada? Espanhol. Pipa foi invadida por Argentinos e Chilenos, e aos poucos percebemos hábitos outros também. As praias, antes desertas e paradisíacas, agora apinhadas de barracas e cadeiras pagas; sombrinhas pagas; garçons pagos; mas a paisagem? Ah! Essa ninguém tira.

E um lugar que bares/restaurantes tem nomes de Tranquilo, Lua Cheia e Aprecie, pode-se dizer que, ainda continua lindo.

Fiquei a apreciar. Com um copo na mão e o olhar a perder de vista. No tempo, inclusive. Feito uma tartaruga sem pressa e sem vontade de sair do lugar.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 11 de Setembro, 2017
 


O futuro

Nunca pensei muito nele. Muito menos fazer planos à distância. O tempo sempre me pareceu tão longe...que minha imaginação não alcançava. Vivi sempre o dia a dia. No máximo enxergando o final de semana próximo. O Natal próximo. Meu próximo aniversário.

Quando criança, o futuro era longe por demais. O tempo se fazia entre as aulas, as férias, os feriados, os dias santos, os domingos. Sim, o sábado. O sábado era importante. Um dia marcante na minha vida. Primeiro por problemas familiares. Depois, o dia de namorar. O dia de festar. O dia de beber. O dia de amar. Porque hoje é sábado já dizia o poeta.

Já moça, o futuro era o final de semana. O assustado, que ainda não era de Ruth Avelino. Os Jogos da Primavera. A festa de alguém. João Pessoa era província, então o futuro era o Cinema de Arte na quinta feira. A Lagoa no domingo. E por aí se ia...o veraneio em Formosa, no Poço. As chuvas do meio de ano. O sol escaldante do final de ano.

Mulher feita, meu futuro era o trabalho, as frustrações de não saber o que queria, o conciliar do sustento de cada dia. As relações amorosas. Os filhos, e de novo, férias, escola, tarefas. Como pagar as contas. A inflação. Os juros. Como poupar para fazer aquela reforma básica na casa. Como ir ao Rio de Janeiro passear em Copacabana? E Aquele vestido novo que vi numa loja? Como sonhar em viajar? Mas nunca fui um ser terrestre. Sempre etérea e com a cabeça na lua. Aquariana da gema, o meu cotidiano maior sempre foi pelas terras do sonho. Daí não conhecia as planilhas, o guardar, o antever. A procrastinação era minha palavra. Amanhã eu faço. Amanhã eu vejo. E de amanhã em amanhã eu fui. Vivi . Vivo! A vida, me conduz. Egoísta? Talvez. Mas sempre admirei quem sabia intervir no mundo. Trabalhar para dar dignidade às pessoas. Crescer. A minha mudança era interna. A minha cabeça é que girava. Tudo tão pequeno. Tão insignificante....mas também sabia que, nem todos tem esse talento da intervenção. Sou doméstica. O dentro é que é o meu lugar. O fora? O banho de mar....hoje mais. A imensidão do mar adentro.

Nunca consegui investir, juntar dinheiro. Não tinha para isso. O salário que ganhava era pro sustento, o pão na mesa, as contas, o dia a dia. E claro, um par de brincos toda vez que via um artesão com uma barraca no meio do caminho. Comprar livros? uma atividade tardia. Já a música, se aninhou primeiro e mais. Lps, CDs e afins.

Hoje, uma Senhora, fico ouvindo e vendo os amigos/as falando nos investimentos, em como acumular, em como se organizar para o futuro. Cuidaram-se Tiveram seus medos do futuro. Normal. Previsível. Fico me achando perdulária. Mas aí ouvi um amigo dizer – nunca trabalhei, fui um irresponsável, nunca pensei no futuro, e fiquei a pensar na minha trajetória frente ao tempo. O tempo de plantar e de colher. Ainda hoje não planto nada. Nem consigo ter esse planejamento de futuro. Sigo pagando as contas. E dormindo bem no travesseiro. As dívidas eram sempre para viajar ou reformar a cozinha para um pouco de conforto doméstico. Fico observando que nunca precisei de muito, e me contentava com coqueiro, praia e cerveja gelada com amigos. Sim, viajar? Como não sonhar? E mesmo sem planos, sem dinheiro e sem maiores estruturas, isso fez parte das minhas agendas e cadernetinhas. Viajar, viajar, e viajar. E sempre pulando no abismo. Com mochila, pouca prata, pouco mapa. E ia...como a música de Chico Buarque – Nina – “bebo alguma vodka e vou....”

Agora em que vivemos tempos sombrios, e que não confio em nenhuma mudança política pelo que vejo e acompanho, começo a ficar temerosa com o futuro do país. Os direitos trabalhistas ameaçados, nossas garantias, mesmo que parcas, não são mais nossos esteios, as reformas por virem, os abutres...E fico a pensar na vida na aposentadoria pouca, e na qualidade de vida que nem conseguia vislumbrar na juventude mas que, agora, com os anos e minhas horas de alegria de viver, chega com inseguranças e interrogações. Ah! O meu temperamento contemplativo e sonhador!

Um dia por vez, o dia de hoje, continuam sendo meus lemas, meu dia, e meu viver. Agora com mais tempo, esse luxo conquistado, continuo sem enxergar o futuro, embora ele assobie toda hora aos meus ouvidos. Avisto a primavera que se anuncia, o verão com o sol incandescente e os coqueiros arrepiados, e meus desejos, dos simples e prosaicos aos mais audaciosos, como perambular pelo mundo (ainda!), e tomara ter saúde e esses mapas imaginários e tabelas que não faço, para tomar uma vodka,e, como Nina, ir!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 28 de agosto de 2017
 


Os amigos passantes....

Outro dia escrevi sobre a amizade e os inúmeros tipos de amigos que construímos ao longo da vida. Agora, me pego a pensar sobre os amigos que passam, os efêmeros, que um dia conquistamos, convivemos, e os caminhos diversos, que nos distanciaram, e nos tornamos quase estranhos. Estranheza de vida essa que perdemos as pessoas de vista. O mais estranho de tudo é que, algumas dessas pessoas, mesmo que se percam de nós e nós delas, quando encontramos, parece que rua nenhuma andou. E que o tempo parou. Parou na amizade que um dia tivemos. Desconfio que nem é na amizade, que a amizade parou, mas num tempo. O tal tempo da duração, (do filósofo Bergson tão difícil de estudar!) que ficou ali, plasmado no instante que nenhuma máquina fotográfica ou selfie é capaz de captar. A luz da vida. Soberana. Pairando no ar das estrelas. Inalcançável!

Há alguns dias, perdemos Ronaldo Mendonça, médico ortopedista, companheiro da vida toda de Jacinta, pessoa mais que querida de todos que, num exemplo da efemeridade da vida, se despediu de todos assim, num instante, numa cena de aeroporto, onde o acaso trocou o destino da viagem.
Com a morte de Naldo, estou pensativa e filosofando sobre o tempo, as conquistas, e os silêncios. Tanta gente que um dia fomos mais próximas e depois nos perdemos. Não era amiga de Naldo. Mas o conheci lá na minha adolescência, nos namoros da Rua da Palmeira, amigo também de Zezito Soares e Roberto Lira. Por tabela Naldo virou meu amigo também. Anos mais tarde foi médico do meu filho Lucas, que tinha pés muito arqueados e Naldo o levou para um Congresso Nacional aqui em João Pessoa para consulta com o papa dos pés. E quantas vezes fui naquela Clínica na Beira Rio, com queixas e dores. Nos encontramos pela última vez na exposição do amigo dele de infância, Flávio Tavares, assim também como toda a Rua da Palmeira. Tanto que, nem consegui ver a exposição direito . Amigos que pouco vejo, que não frequento a casa, e que não sabem nada de mim. Ou pouco! Há poucos dias, também encontrei Jacinta no estacionamento do Mag Shopping, e trocamos figurinhas da vida. Jamais imaginaria que dali há pouco, Jacinta ficaria viúva, assim como eu. A vida segue, soberana, à nossa revelia.

Quando morre um amigo assim, ir ao velório, é uma questão de honra com o tempo! com a vida! Re-encontramos o vivido e o não vivido que, na nossa memória se fundem e pouco importa a verdade da vivência. A memória inventada também é verdade! Meu pai já dizia que adorava ir em velório, porque era a maior animação em rever as pessoas, e construir assim uma imagem da sua vida. Imagem essa que cada um constrói a sua.

Minha mãe, que está quase com 90 anos, vive a falar das pessoas que fizeram parte da sua vida e que ela não sabe por onde andam ; uma espécie de paisagem humana fora de foco, e todo dia ela lista, olha no infinito a procura de si mesma. E nem conto que muitas dessas pessoas já morreram! E deixo que a sua imaginação faça os cálculos e crie as histórias. Mas também fala daquelas longínquas, que um dia cruzaram sua vida, seu portão, seu trabalho, sua vizinhança, suas festas, seus parentescos. Já comecei esse re-contar das pessoas.

Pois fiquei a pensar naquela colega que não vejo há séculos; naquele vizinho que um dia espichei o olho para ele e sumiu no tempo; naquela vendedora de frutas que um dia fui freguesa; naquela ginecologista que ficava horas esperando pra ser atendida; nos inúmeros alunos/as que fizeram parte da minha sala de aula e onde, eu era que aprendia mais; nos namorados/amantes que um dia tive e por alguma razão sumiram na poeira do vento; das trabalhadoras domésticas da casa da minha mãe (pois as minhas foram tão poucas que ainda não esqueci!), que, povoavam a imaginação daquela sala ou terraço; das turmas de sair à noite, dos bares, das cachaças, literais ou não, que eram assíduas das sextas à noite e hoje nem vejo mais ninguém nas minhas minguadas noites de uma euforia ou outra, enfim....a vida é mesmo uma passagem. Passagem nossa e das pessoas que cruzamos ao longo dos anos. Não é à toa que Virginia Woolf escreve um ensaio sobre personagem – “Mr. Bennett e Mrs Brown”, ambientada num trem, onde constrói pessoas, momentos, descidas e subidas, tudo mesclado com a arte de criar ficção.
E não adianta ficar nostálgica com as perdas da convivência com esses amigos transeuntes. A vida é assim mesmo. Intangível, escorrega pelos dedos. Se esvai. Não temos controle algum. E se essas pessoas passaram, você também passou para elas e para tantos outros. Ladeira abaixo. Numa velocidade de trem bala. Irreversível! O tempo não para nem a vida espera. Por algum motivo, momento, você segue, o outro muda de direção, gosto, tempero, circunstâncias.

E de amigo em amigo, de presentes e de ausentes, a vida segue, vai nos levando como no samba de Zeca Pagodinho. E vamos vivê-la com os presentes. Com as lembranças , as saudades, e com esses personagens fugidios das nossas vidas que foram/são, os amigos passantes.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 10 de agosto de 2017


 


Goretti Zenaide - Uma estrela brilha...

Agora estou numa sinuca. Triste sinuca. A sinuca de escrever de você Goretti. Sim, pois um dia você me apresentou a alguém dizendo da sua admiração pelo meu texto. Fiquei toda prosa! A sua alegria e entusiasmo eram tão verdadeiros! Que eu quase acreditava! Você não tinha porque levantar minha bola assim de graça. Era verdade e não foi uma, nem duas vezes que manifestou sua admiração pelos meus escritos. E lá atrás. Desde que comecei a botar as unhinhas de fora...., digo os escritos. E sempre que eu homenageava alguém nos textos,você também se manifestava. Agora é chegada a hora da sua partida, e me vejo com essa missão triste, mas que sinto como uma estrela, que lanço a você nesse firmamento infinito de mistérios e saudades.

Não era sua amiga próxima Goretti, mas nos últimos anos, acho que desde os anos 90 que ficamos perto. Fosse através da arte, da política ou das festas. E pelos cantos da vida, estávamos sempre a nos encontrar, trocar abraços, notícias e aí soubemos do bem que sentíamos uma pela outra. E a alegria dos encontros sempre era espontânea. E nesse últimos tempos, tenho aprendido muito sobre amizade. Por entre as lonjuras tem sempre os meios e tantos outros lugares!

Estou triste com a partida tão violenta e urgente dessa jornalista que é uma unanimidade na cidade. O que dizer ainda? Mas afeto e saudades são coisas inesgotáveis. Li tantos textos lindos de sua despedida! Kubitscheck Pinheiro, Walter Galvão, Martinho Moreira Franco, Albiege Fernandes, Gonzaga Rodrigues, Vitória Lima, Francisco Gil Messias e tantos colegas e amigos que falaram da amizade, do amor, da honestidade, altruísmo, da simplicidade, da solidariedade, da seriedade, enfim todos os adjetivos e características de personalidade que buscamos ao longo da vida e que Goretti tinha. Fiquei muito impressionada com a repercussão da sua despedida. Tantas msgs de carinho e admiração! Tu devias de ver! Não que você não fosse digna de tudo isso, mas a gente nunca sabe ao certo quem somos até essa viagem final. Em vida, somos tão banais e corriqueiros, não é? E nós humanos respeitamos tanto quem é modesto! A soberba nos irrita. E aqueles mais discretos são sempre tão admirados. E é uma característica inata. Ninguém aprende a ser modesto. A vaidade é de nascença. Você era aquietada Goretti. Sabia do seu tamanho e da sua força! E a simplicidade é a coisa mais difícil, mais sofisticada e mais rica desse mundo. E você era simples! E todos te admiravam por isso. A palavra ética, foi o que mais li na sua despedida. Em tempos tão sombrios e corruptos, acho que é um tesouro ser assim. E com a mesma simplicidade, você se foi. Corajosa, percebi. Pois ninguém enfrenta um diagnóstico desses impunemente. Foi um choque perdê-la assim, abrupta e sorrateiramente, numa luta des-igual para essa doença triste e capciosa que é o câncer, inda mais de pulmão. Silencioso e que dispensa os cigarros. Quando chega, já vem com sombras e perdas avassaladores. E dores. Muitas. Mas você teve os sopros dos anjos. De se ir dormindo. Justo. Demasiado justo, você se despedir sonhando.

Na sua despedida, fiquei a pensar. Seu corpo inerte , ficou na mesma sala que Juca, meu companheiro, também vitimado da mesma doença, e da mesma violenta partida. Re-vivi muito daqueles dias Há quatro anos atrás. E que ironia Goretti!, pois você sempre me abraçava quando nos encontrávamos pelas festas da vida, ou simplesmente nas galerias do Shopping Manaíra sextas à tarde. Sempre na companhia da sua amiga inseparável Roberta Aquino. Perguntava como eu estava, como que me perguntasse: “como é possível estar diante de uma tragédia dessas?”. Agora foi a sua tragédia Goretti. Sim! Não consigo ser tão espiritualizada para achar que Deus te chamou e que vamos nos encontrar. Sou terrena e cética por demais. Desculpa. Agora, você e Juca se encontraram nas cinzas. Muito para a minha pobre compreensão cética. Mas consigo olhar para as estrelas, sim. E rezo. E agradeço à vida.

Conheci-a já quando eras jornalista renomada. Admiradora das minhas crônicas , estavas sempre a publicá-las no seu espaço do Jornal. Depois, quando um suplemento dominical – Caderno de Mulher, fazia questão de me incluir. Dia Internacional da mulher era obrigação minha lhe entregar um texto. E eu ficava muito feliz de participar da sua coluna tão lida e prestigiada. A última vez, me ligou, e queria uma entrevista rápida para A União. Eu ainda pedi: “não dá para eu enviar depois? Pensar um tantinho?” E você: “Não! Quero agora, de sopapo, com todo o seu improviso.” Então tá! Não tinha um aniversário, livro, viagem, brinde, que você não estampasse meu rosto na sua coluna. E eu ficava a ouvir dos amigos que eu era socialite! A última foi na coluna pós sua partida, feita por Albiege Fernandes – sua amiga e chefe, que numa reverência póstumo, fez uma coluna com amigos, afetos, e sorrisos amorosos. A minha foto foi com Claude, minha irmã, em Buenos Aires, junto ao símbolo maior da cidade, a Floraris Generica, quem sabe lhe oferecendo simbolicamente essa flor gigante e reluzente, do tamanho da tristeza que ficamos todos desta cidade.

Suas festas? Fui à muitas! 1968 e qualquer outro ano era motivo. Fazia um reboliço! Como eras vizinha dos meus tios Celso e Carmen Peixoto, no Miramar, estava também sempre a te deixar convites, pautas, escritos, e agradecimentos na tua porta. Mas a última vez, já foi no Bessa, justo em frente ao Caribessa, quando os meus Brincos...e Tardes...foram te visitar.

Pensando no tempo e na sua talvez recuperação, inadvertidamente, ainda te enviei msg de solidariedade, suplicando uma visita, aflita com seu estado, mas também respeitando o momento de choque, incredulidade que deverias estar vivendo com os seus. Mal sabia eu que, não teria visita nenhuma. Conversa nenhuma. Abraço nenhum.

Mas, naquela sala tão triste, me despedi de você. Te agradeci por tudo. Te desejei boa viagem e que a vida e o amor cuide bem dos seus filhos crescidos e amorosos. E da sua neta que não poupavas fotos e fofuras. Sala cheia. Choros muitos. Tristezas. E comoção. De tantas coisas que você deixou. E o seu silêncio. Respeitamos, claro!

Que as estrelas te acolham!

Saudades!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 2 de agosto, 2017