The Crown

The Crown

The Crown é uma série de televisão anglo-americana criada e escrita por Peter Morgan para a Netflix. A série é uma história biográfica sobre a família real do Reino Unido. Foi vencedora do Globo de Ouro de melhor série dramática e também o Globo de Ouro de melhor atriz em série dramática para Claire Foy, no papel de Elizabeth II. A primeira temporada, que estreou em 4 de novembro de 2016, está disponível com 10 episódios. Peter Morgan, que escreveu o filme A Rainha, de 2006 escreve o roteiro com o diretor Stephen Daldry, de As Horas.

A história passeia pela vida da Rainha Elizabeth II, desde o tempo do seu pai, o Rei George VI, (imortalizado no Cinema por Colin Firth no filme, O discurso do rei), sua morte, a coroa que cai de repente na cabeça da filha mais velha, aos 24 anos?!, sua imaturidade, ingenuidade, not-ready para um fardo/peso/orgulho/reinado. Seu casamento, sua paixão por Philip, por cavalos e seu crescimento como mulher/pessoa/rainha.
A série é deslumbrante. Na reconstituição, na escolha dos atores, em especial para John Lithgow, no papel de Winston Churchill, e os seus mais de 50 tons de anos à frente da política Britânica. Tive oportunidade de visitar sua casa e jardins, e, assistindo à série, me transportei no tempo e espaço. E na beleza dos jardins Ingleses.

A monarquia Britânica sempre despertou fascínio no mundo. A nossa porção contos de fada é tomada de beijo pelo príncipe da Bela Adormecida, e entramos no conto da Cinderela com carruagens e tudo. Vivi esse reinado nas minhas fantasias, sempre lendo e acompanhando as notícias dos bastidores, os escândalos, a Princesa Diana, sua morte, seus filhos, William, casamentos, príncipes, etc. Ou nas visitas às redondezas do Palácio de Buckinham, Parque Saint James, e adjacências.

Na Série, gostei de conhecer a personalidade da Rainha, forte e bela, mas do que seus olhos cor de esmeralda. Enfrentou às fragatas, observou atenta às fanfarrices débeis do marido, acariciou seus cavalos, enfrentou sua mãe, avó, os ministros, o próprio Churchill, o glamour e competição da sua irmã Margareth, e todos os percalços que lhe apareciam por trás das inúmeras portas e corredores seculares. E se incomodou em não ter tido uma “proper education”. Cobra da mãe o por quê? E esta lhe responde que não precisava aprender nada mais, mas como se comportar e silenciar. Que nem eloquente precisava ser! Claro que ela interdiz, alegando que não quer ficar à sós com os estadistas e não saber falar de nada. Contrata um Tutor e pesquisa sobre o Presidente americano, Eisenhower, e política externa, Império, Colônias, Poder, e outras coisas que não fosse somente as crinas e rabos.

O humor Britânico é mostrado com requintes de ironia. Como na cena do cruzamento do cavalo preferido da Rainha com uma égua, nem muito atirada, nem muito recatada (ou do lar?!). A cena é toda intermediada entre a raiva e ciúme que o Príncipe Philip está do treinador de cavalos (antigo pretendente da Rainha), e uma linguagem nas entrelinhas entre, o sexo dos monarcas, e o das éguas, nos faz, literalmente, rinchar de rir!

Mas uma das minhas cenas preferidas foram as do Churchill sendo retratado pelo pintor – Graham Sutherland (interpretado pelo ator, Stephen Dillane, que também fez o magistral Mr. Leonard Woolf em As Horas). Aliás várias pitadas desse meu filme particular: Os Stephens- Daldry e Dillane; e indiretamente o ator que faz o dono do castelo na Escócia, para onde a Rainha Mãe vai descansar, é o mesmo que faz Richard Dalloway, marido de Mrs. Dalloway, no filme do mesmo nome.

No pintar o retrato de Churchill para a posteridade, inimaginável o diálogo que se estabelece entre o que seja um retrato?, aparências, verdade x ficção, o que mostrar ou não, o que fica na memória ou não, as cores, as pinceladas, os tons na palheta, as mãos, o charuto, as névoas da fumaça e da personalidade de alguém tão poderoso e que também pintava e entendia das nuances dos rascunhos e das telas em branco. Os dois ficam amigos, confidenciam perdas (das filhas: Sutherland perdeu um bebê de 2 meses, Churchill a sua Marigold, com poucos anos). E logo Sutherland, com seu silêncio perspicaz, descobre o segredo do Ministro. Havia pintado o lago de sua casa mais de vinte vezes. E todas as cartelas das cores estavam lá. Churchill se surpreende com a sutileza do comentário e confessa que o lago foi construído para Marigold. Toda a sua saudade, dor, e melancolia pela perda da menina enfim, retratada na descrição de um “Pond”. Que águas sombrias seriam essas? Cada um esconde o que pode, onde consegue. Mas o nosso inconsciente fala sozinho como ventríloquo, e a ele não podemos driblar.

Ao final, quadro pronto para a celebração dos 80 anos de Churchill, este não gosta do quadro. Está decadente, patético e feio, esbraveja. O real? Tudo o que não queria. E Sutherland então lhe diz bravamente: Mas isso tudo é o Senhor! Inclusive essa decadência e feiura. Nenhum pedido de renúncia pela oposição ou até mesmo da Rainha foi convincente para de fato Churchill o fazê-lo, mas ver-se retratado como um “Dorian Gray”, sem alma vendida , foi demais para homem tão poderoso. E Churchill renuncia ao se deparar com o que diz o poema de Cecília Meireles: Retrato- “Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios...” Aonde está o meu rosto? Ou tantos outros poemas que falam do rosto perdido nosso de cada um.
Como não relacionar também com um conto do também escritor Inglês, D. H. Lawrence – “The Horse Dealer´s Daughter”, uma pequena amostra da arte desse que sabia tanto falar das relações amorosas, da decadência dessas mesmas relações, da oposição do instinto x intelecto, do não vivido. Nesse conto também temos um certo lago de água parada, símbolo da morte, onde a protagonista tenta suicídio, mas que logo é salva para enfim viver um grand finale de entrega e paixão, para finalmente acontecer a epifania, elemento tão recorrente nos contos modernos.

Em The Crown, o espectador também se extasia com a exuberância e beleza da paisagem do countryside Britânico, dos cliffs e cores monocromáticas da costa Escocesa, seus castelos, e toda a pujança da décor dos palácios de reis e rainhas da segunda metade do Século XX. A continuação de The Crown já vem por aí, para, assim como outra série magnífica – Dowton Abbey – traçar não somente a monarquia Britânica, mas também o seu declínio, e suas transformações políticas e sociais que ocorreram no mundo e o surgimento de novos tempos.

Do lado de cá, ficamos sonhando. Não com rainhas mais. Mas com toda essa magia que essas estórias continuam nos assombrando.

Ana Adelaide Peixoto. João Pessoa 20 de fevereiro- 2017
 


Rita Lee: Uma Ovelha de Todas as Cores

“O Clube do Bolinha afirmava que para fazer rock “precisava ter culhão”, eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê.” (Rita Lee)

Conheci Rita Lee nos Mutantes. Ando meio desligado me pegou e nunca mais me des-conectei desse povo. Mas agora, lendo a sua autobiografia, reconheço que não acompanhei sua carreira musical. Curti muitos discos, CDs, até assisti ao show Babilônia no Rio de Janeiro e literalmente fui lá - na Babilônia de todas as tribos do Circo voador. Cantei e dancei Ovelha Negra, Lança Perfume, Pagu, Miss Brasil 2000, 2001, Panis et Circenses, Doce Vampiro, Mania de você, Baila comigo, Caso sério, Nem luxo nem lixo, Atlântida, Tudo vira bosta, Reza. Até hoje adoro o seu CD Bossa´N`Beatles, e achei hilária a sua irreverência de comentário, quando Yoko não autorizou uma música, pois , segundo Rita, deve ter traduzido ao pé da letra – Te amo pra xuxu! Para - I Love you for cucumber!! Até hoje gosto muito. E fui dançar num ano novo passado, nas areias de Tambaú, com a roqueira do cabelo vermelho mais alegrinha, recém saída de um auê em Aracaju.

Ler sua história é um mergulho na luta de uma mulher do rock, imersa nas drogas (lícitas e ilícitas), mas não só. NÂO! Uma menina tipicamente paulistana, mas que queria pular os muros da Vila Mariana para tocar guitarra e cuidar dos gatos nas horas vagas. Muitas notas num só rock! Sua vida vale um passeio! E por Sampa (sim! A música de Caetano), e de uma família bem paulistana, com pai, mãe, agregadas (Balú e Carú), irmãs (Virginia e Mary Lee), madrinhas, tias até mesmo um Jeep Willys, de nome “Charles”, etc. Um tal sobrado que toda a sua vida foi o seu chão, lugar para voltar, e chamado de lar. Rita foi e voltou mil vezes.

Foi à loucura/s várias; foi viver em comunidade psicodélica com os irmãos Mutantes, casamento meio doido, sumiços, etc. Mas sempre tendo como ponto de referência, sua mãe, Chesa, seu pai, Charles, seu room of her own, e claro, seus bichos. Muito tocante sua relação com os bichos. E não falo só de cachorro, mas de gato, e até cobra. Para loucura de quem com ela dividia a vida, Rita teve duas cobras criadas! Só de ler, saí correndo.Os nomes dos queridos, eram sempre nomes da situação em que vivia , fosse filosófica ou mundana: Pitágoras, Caca colo, Fuffy , Leonor!

Vim me aproximar mais dessa delícia de artista, no programa TV Mulher (Marília Gabriela), quando era figura tarimbada e mais recentemente quando fez Saia Justa, programa do GNT, que juntava quatro mulheres famosas e notórias no seu ofício para conversar sobre e das Mulheres. Mas como ela mesmo relata, era mais um alter-ego das outras participantes, e funcionava como ombudsman quando o assunto lhe chocava (geralmente natureza e bichos). Foi aí que descobri sua veia extremamente afiada e irônica. Mas uma ironia até certo modo infantil já que faz tanto uso dos diminutivos – “disquinho bacaninha”.

Sua irreverência na música, no vestir, no dizer, e no cantar, claramente passou para a sua autobiografia. Narrando os fatos da sua vida, Rita tem discurso próprio, como também inventa a Língua portuguesa, e consegue ser ácida até mesmo com as críticas:
“Vai Rita, vista sua guerrilheira do desbum e seja uma porra-louca feliz”

Domingo no Parque – Aqueles caras eram roquenrou pra caralho, pensei eu, ....transformei uma toalha indiana em túnica e vesti ozmano com capas pretas à La Beatles. Antes de entrar no palco com meus pratos, ainda deu tempo de desenhar com batom um coraçãozinho vermelho no rosto.”
“a primeira vaia a gente nunca esquece. Aliás, ser vaiado em festival de música brasileira para os Mutantes foi uma honra, afinal, éramos tudo o que os puristas escravocratas do violão e banquinho da MPB repudiavam como imperialismo colonizador. Militância bocejante.”
“Enquanto vocês se masturbam com a minha vida, eu vou ao banheiro queimar um baseado.”

E entre um rock e outro, Rita fala de Danny (cachorro amor amor), Hebe Camargo, Elis Regina , prisão, brigas, das manias (Nojinho, a ideia de fluidos alheios ao meu redor daria um bom nome de filme de terror: O ácaro que devorou a cantora. E o pânico quando avistava um pentelho desgarrado grudado no Box do chuveiro....); das idas aos hospícios/asilos/desintoxicações, viagens, de todos os tipos, dos músicos famosos que conheceu ou não (“Nelson Gonçalves aqui...então Ritinha, estou hospedado no mesmo hotel e pergunto se voe está a fim de cheirar umas lagartas de fuder as cartilagens?”), e tudo isso num português/inglês que só ela sabe como escrever. Dos vexames, do mercado da música : “Hoje, para um artista se dar bem, ele tem que vender a alma ao cartel empresarial, que por sua vez vende a alma ao cartel político, que vende a alma ao cartel da poderosa nova ordem mundial. Muito diabo pra pouco caldeirão.” ; de amigas malas!, “Estávamos sim anos-luz à frente do nosso tempo, pena a nossa alegria espontânea ter perdido para a falsa ilusão da glória passageira.

Rita fala dos seus homens, poucos, e do seu amor arrebatador por um certo Roberto: Ficar de quatro no ato. Seu amor à primeira vista, seu parceiro musical, seu limite, pai dos três filhos, e companheiro dos mundos e do cotidiano. Inúmeras músicas ela falou dessa paixão, do sexo com tesão, das brigas e pazes, do carinho incondicional, e de todo o amor que houver nessa vida.

O livro é recheado de fotos lindas e cronológicas – família, lanços, colares de pérolas , melindrosas, batizados, praia, meinhas, chapéus, e organdis, James Dean, primeira comunhão, hóstia mordida, loirice caseira, Beatles, Nossa Senhora Aparecida, cílios desenhados de caneta, Tutti Frutti, botas roubadas da Biba, ficha de polícia, bebês, Doce de pimenta, Gil Jiló, R & R in Love. Grávida de Juca! (adorei!), Azmina, vaca sagrada leiteira! Fumando conchas.

Rita Lee é feminista sim, e também crítica ao movimento. Passeia pelo direito das mulheres. Fala de tantas coisas das nossas conquistas. Beleza, solidão, questões de gênero, mas claro, com sua ironia própria , sua brincadeirinhas afiadas, e por vezes nem tanto: “ Nenhuma mulher faz aborto sorrindo. Cabe a elas, e somente a elas, a decisão de interromper uma gravidez, assim como de segurar sozinhas as consequências moral, espiritual e oskimbau. Me refiro ao “sagrado feminino”, de nós meninas que temos um buraco a mais no corpo para administrar, do nosso universo complexo demais para machos, religiosos e políticos meterem o bico, esses para os quais prevalecem mais o direito do feto que ainda nem nasceu ao da mãe que não deseja pari-lo por motivos que não nos cabe julgar, psicológicos, econômicos, neurológicos, até mesmo espirituais”.

“Cor-de-rosa-choque- hino das fêmeas planetárias com sotaque brazuquês. Sendo assim, usei e abusei de palavras-chaves como Eva, menstruação, sexto sentido, gata borralheira, dondoca, sexo frágil, mulher é bicho esquisito, todo mês sangra. Eu lá diante da mulher-tailleurzinho-cinza-soviètico, defendendo a tese: Sabe quando a senhora antes de menstruar sente uma esquisitice hormonal e meio que dá uma pirada? Vulgo TPM”

Rita Lee não economiza com as suas próprias questões ou abismos. Não tem pudor em se definir, se criticar, se apontar e se redimir: ” o anjinho de procissão que mordeu a hóstia, o menino baiano que tomou um porre na fazenda da tia, a fanática pelos Beatles que assistiu A Hard Day´s Night dezesseis vezes seguidas sem sair do cinema, a rebelada que fugia pela janela para tocar bateria, a hippie comunista que não trancou matrícula na USP, a que foi presa grávida, a mãe do Beto e do Juca. Estava explicado por que a filha, thank God, não foi ser freira nem dentista.”

É direta e sem subterfúgios: “Não saber quando parar is my middle name. Não demorei a entrar no palco já babando, muitas vezes nocauteada antes do bis, para alegria dos jornais locais sensacionalistas. Se naquele tempo tivesse internet, certamente eu não sairia dos trending topics. #PloftCaiu”

“Sim, é um clichê. Sou mais uma a dizer que o lugar onde mais me sentia em casa era no palco. Lá somos bem mais porretas do que fora dele. ...O altar do palco é viciante, o lugar mais seguro para se viver perigosamente.”

“Sei que ainda há quem me veja malucona, doidona, porra-louca, maconheira, droguística, alcoólatra e lisérgica , ...confesso que vivi essas e outras tantas, mas não faço a ex-vedete-neo-religiosa, apenas encontrei um barato ainda maior: a mutante virou meditante.”

“Uma das coisas que mais me dão prazer é fazer o que não devo, tipo fumar na frente de quem faz campanha anticigarro. Não é tarde para ser o que eu deveria ter sido. Eis-me aqui, uma pós-famosa anônima observando os macro e micro-omniversos dentro e fora de mim.”

Lendo sua história é ler um pouco da nossa também. Lembrar dos Festivais de Música, da ditadura, da censura, e tantos episódios tristes. E até nesse quesito ela é ímpar , sem perder o humor jamais: “Censura, Solange, mudança das letras – tunnel of Love – Doris Day.”

E é humana, demasiadamente humana, quando fala das suas perdas dos entes queridos: beijo na boca no morto, roquinrriu! Bocejos, birinaites, cupins chupins, fundo do poço, Rita cachaceira, Ó céus!

Quanto à velhice, é implacável e meiga quando fala da neta, razão pela qual re-viu seus mergulhos na loucura das drogas e deu um basta. Seu ultimo hospício – Ziza, a neta. Ser avó uma droga melhor e mais orgânica como sempre foi . Aliás viveu sempre nessa dualidade entre o saudável, fosse da forma de viver e se relacionar, e o jogar merda no ventilador e se danar. Equação muito difícil de se administrar. Mas que, os seus cabelos de fogo, agora brancos e assumidos, foram sempre a sua força de Sansão. Ziza foi amor intra-uterino e o afeto e afagos dessa menina, fizeram da avó uma ovelha, mas mesclada de pele/penugem branquinha das velhinhas que querem bem à vida: “Aquela cena manjada da celebridade vetusta solitária e saudosa de sua juventude não era minha praia, nem lamentar que os bons tempos não voltam mais, menos ainda tentar exibir boa forma em público com plásticas e botoxes para me dizer viva. Envelhecer com bom humor e uma boa dose de sarcasmo não é para maricas. Sempre dei mais valor à dignidade de uma Hilda Hilst do que àquelas em busca da fonte da juventude que não percebem o tempo como aliado da feitiçaria feminina.”

E não tem dó nem piedade em se despedir dela mesma, quando isso vier a acontecer: “Santa Rita de Sampa, em homenagem a mim mesma, que havia passado pelos quintos do s infernos e ressuscitado direto para o céu, minha definitiva autocanonização, uma respeitosa e esculhambada adoração à imagem da padroeira dos frascos e comprimidos.”

Rita conseguiu se despedir dos frascos, das drogas lícitas e das agonias. Agora é só cabelo branco (belíssima a foto na cotra-capa do livro), distância (dos palcos), e reclusão (mora longe de Sampa, numa terra toda sua), rodeada de bichos, amor e os seus setenta anos de vida. Não é pouco!

Ana Adelaide Peixoto – Janeiro 2017
 


Dias de Abandono

Para Monica Rique, quem me apresentou Elena


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumí¬nio e espelhos monótonos;... (O amor acaba, Paulo Mendes Campos)

Escrever de verdade é falar do fundo do ventre materno. Virar a página, Olga, começar de novo.(Dias de Abandono, Elena Ferrante)

Esse é o título de um dos sucessos editoriais da escritora Italiana Elena Ferrante, pseudônimo de uma festejada autora que nunca mostrou o rosto, nem sequer deu pistas da sua identidade. Ao contrário do movimento das mulheres e a literatura e a luta pela autoria, Elena não quer saber disso. Ao contrário, mergulha num mistério do anonimato e assim segue com sua A amiga genial e História do novo sobrenome, História da menina perdida e outros sucessos.
Comprei esse exemplar pelo título e assunto. “Depois de quinze anos de casamento, Olga é abandonada por Mario. Presa ao cotidiano estilhaçado com dois filhos, um cachorro e nenhum emprego, ela se recusa a assumir o papel da poverella (a pobre mulher abandonada). Essa opção a projeta num turbilhão de obsessões, angústias e ímpetos violentos, capazes de afastar Olga do fato de que as derrotas precisam ser assumidas para que a vida possa enfim seguir adiante “ Com essa orelha, foi difícil resistir.

Sou de uma geração que rompeu o conservadorismo do casamento institucional e primeiro se separou. Não que antes os casais não se separassem, mas era um perdido. Separar era tabu e muitos pais diziam: “Filha minha não separa. Filha minha fica viúva!”. Gracias a La vida o meu pai não era assim. Pelo contrário, acolhimento era o seu tom. Racionalismo! E em primeiro lugar, a felicidade das filhas. Na minha casa, quase todas se separaram.

Separei-me do meu primeiro marido, quando tinha 25 anos. Muito jovem para tudo. Mais ainda para uma ruptura tão gigante. A geração antes da minha, na maioria, ficou nos casamentos, fossem eles bons ou ruins. Felizes ou infelizes, se é que podemos defini-los assim. A minha chutou o pau da barraca. Eram os anos setenta, e a explosão dos costumes, principalmente os sexuais, davam o tom. Queríamos tudo. Estar casada e experimentar outras coisas, inclusive amores. Casamento aberto. Amizade Colorida. Tinha que dar em merda. E falo de sofrimento. Perdição. Perdas e Danos, como depois constatei nesse belo e apavorante filme de Louis Malle. No filme entendi quase tudo. Fazemos e somos responsáveis por nossas escolhas. Mesmo que inconfessáveis!

A geração de hoje se separa porque querem contos de fadas; a saber desde a festa de casamento. A minha queria igualdade, parceria, amor incondicional, e muita muita simbiose amorosa. A vida é muito mais complexa que isso. Amor e sexo , então!!! Daí nos separamos para cair na gandaia, no poço sem fundo, no agito, na busca frenética, no sexo livre, enfim, para atolar os dois pés nas jacas todas, sem olhar para trás. Nos demos mal? No casamento não . Fomos felizes enquanto durou. O Depois? Acho que vivemos coisas delirantes e irreversíveis. E isso bastou. Ou não. Uns se perderam. Outros se acharam. Não necessariamente nessa equação. Um enigma, talvez. A decifrar.

Ao ler Elena e seu abandono, muito me identifiquei. Principalmente com sua linguagem crua, e seus ímpetos violentes. Os vivi todos. E como Olga, a protagonista do Abandono, também senti que “a banalidade da vida tem um tom extraordinário, misterioso.” Também confessei minhas fragilidades, meus ciúmes exacerbados, meus medos, minha inveja insuportável, e minhas vergonhas alucinantes. Também vivi dias trancafiada em casa. Bebi todas as cachaças. Pensei todas as loucuras. Vi várias auroras, luzes sorumbáticas. Perdi-me várias vezes. Muitos pesadelos, obsessões, saudades doidas e doídas!

Assim como Olga, também senti-me em armadilhas tantas e nenhuma reparação. Meus desejos? Em falta!: “Que decisão injusta, unilateral. Soprar ao vento o passado como um inseto feio, pousado na palma da mão. O meu passado, não somente o seu, tinha chegado a este desmanche. ....Desse jeito, na confusão da vida ao deus-dará, eu estava definhando, murchando, estava seca como uma concha vazia numa praia no verão. E naquelas longas horas fui a sentinela da dor, velei junto à multidão de palavras mortas.”

Olga, sozinha e com os filhos que a culpam, a xingam, adoecem, ficam em casa no verão, sem férias e com toda a raiva dela e da vida a fazem entrar num êxtase de definhamento. Leva o pastor alemão , Otto, para passear no parque, dedetiza a casa, cachorro adoece, vomita, tem espasmos, morre, assim como ela que, sozinha e silenciosamente também tem os seus refluxos de sangue, repulsa, des-orientação e abandono. Vi-me em Olga. Acho que muitas de nós fomos Olga algum dia. Na revolução sexual dos anos 70 também jogamos a toalha, perdemos, achamos, vivenciamos, ouvimos Hurricane de Dylan, em êxtases, e, sentamos no meio fio das calçadas mornas das madrugadas da praia, e choramos.

Quando uma vez avistei o meu Mario na calçadinha, assim como Olga, presenciei que: “No seu corpo, no seu rosto, não havia vestígio da nossa ausência. Enquanto eu carregava em mim – só de leve me tocou o seu olhar e tive certeza – todos os sinais do sofrimento, ele não conseguia esconder os do bem-estar, talvez de felicidade.” Insuportável certas imagens!

Como Olga tinha 38 anos, seu marido fala que tinha medo das horas e que dormir com ela na mesma cama sentia como um relógio – “um medidor de vida que vai embora deixando um rastro de angústia”. Olga pergunta então raivosa: “então quer dizer que dormindo comigo você se sentia envelhecer? A morte, você, a meia na minha bunda, como era gostosa antes e como tinha ficado agora?...” De bundas e vozes, uma performance que Olga se pergunta: “Quantas mulheres não conseguem abrir mão da encenação da voz infantil. Eu tinha desistido imediatamente, com dez anos eu já procurava um tom adulto. Nem nos momentos de amor eu fazia o papel da menininha. Uma mulher é uma mulher.”

Olga começa então a ouvir as estórias que a mãe contava – A da Mulher Abandonada, sem amor que morriam vivendo. Olga foge desse estereótipo e procura vida no desamparo e mesmo no desengano. Avista um vizinho estranho, o Sr. Carrano,e com ele se entrega numa ação ácida e de mau hálito e gosto. Onde só sua língua caspenta tem peso. Uma saída, um beco escuro que na solidão extrema, quem já não se aventurou?

Olga diz que não sabe gritar – “as palavras caem por perto de mim como pedrinhas jogadas pela mão de uma criança”. Já eu, gritei muito com Pink Floyd. Tanto tanto e tão entregue à outras dimensões da consciência perdida que, um dia acordei nas areias do Cabo Branco. Em um outro, me vi nua num chuveiro em Baía Formosa, tomando pinga 31 com D. Regina, D. Vandete, peixe frito peixe frito. Todos estavam inebriados a cantar alguma música brega. E o meu coração bobo e o bombo de Alceu, uma vez aqui e outra acolá me devolviam o prumo. Forte, tentei ser. Mas uma vez, assim como Olga, também vi flying sources in the Sky. Jogava-me nas almofadas da sala até adormecer sem saber muito onde estava o real e a ficção. “ah! A virtude de uma bunda dura” bradava Olga. Também devo de ter tido esses brados nada retumbantes!

Em toda e qualquer separação, há o sentimento de raiva e frustração pelo tempo perdido, tentando construir algo que aparentemente se dissolve no ar. Mas nada se perde! Somos o que vivemos , o que perdemos, inclusive o que não vivemos, segundo Maria Rita Kehl e sua “teoria do esquecimento”. No abandono, contemplamos de camarote tudo aquilo que era a nossa vida ir se realizar no quintal de outro. Olga pensa sobre isso: “Eu tinha tirado um tempo que era meu para somá-lo ao seu e fazê-lo então mais potente. Eu tinha posto de lado as minhas aspirações para acompanhar as suas. Para cada crise de desconforto dele, eu tinha estancado as minhas crises para poder confortá-lo. Eu tinha me perdido nos seus minutos, nas suas horas, para que ele se concentrasse. Eu tinha cuidado da casa, da comida, dos filhos, eu tinha me ocupado de todas as chatices da sobrevivência do cotidiano, enquanto ele escalava teimosamente o declive da nossa origem sem privilégios. E agora, agora ele me largava carregando consigo todo aquele tempo toda aquela energia, todos aqueles sacrifícios ....de uma hora para outra, para gozar os frutos com outra, uma estranha que não tinha mexido um dedo para pari-lo, nutri-lo e fazer com que ele se tornasse o que era. Parecia-me uma ação tão injusta,....” Essa fala enlutada e rancorosa de Olga é sim pequena, mas legítima quando pensamos nas milhares de mulheres que silenciaram seus mais profundos desejos em nome do casamento e da família, e quando são largadas, perdem o bonde, a capacitação, o mercado de trabalho e o pior, perdem a si mesmas.

Sentimentos de perda de identidade, des-amparo, de solidão profunda, nos rodeiam. Assim também como Olga, um dia me perguntei: “Que fim tinha levado a mulher que eu tinha imaginado ser quando era adolescente? Compartilhei com Olga esse ser dissolvido em um nada, tabula rasa! Alguém que teria sido construído a partir de um outro que não eu. “Quem sou Eu?”, vira sim um mantra. E a triste constatação de que não existimos como indivíduo, mas como um casal, essa entidade limitada e asfixiante: ”Que mistura complicada e espumosa é um casal. Embora a relação quebre e se desfaça, ela continua a agir por vias secretas, não morre, não quer morrer.” Essa é a grande e maior arapuca! A entidade não desaparece. Por vezes, nunca! E os amigos que foram do casal, não sabem mais o que fazer com aquela entidade que se rompeu. Perdemos o marido, a casa, a simbiose de dois seres a procura de uma unidade impossível, e perdemos os amigos! E no meio de tantas perdas – Olga conclui: “É ruim o círculo do dia vazio, quando a noite se enrola no pescoço como um nó.”

E quando encontramos um ex- explodindo com a sua acintosa felicidade, só um pensamento-tormenta nos persegue: “Agora que o vejo me parece que aquela intimidade não pertence a ele, seja de outro que o substituiu, talvez a memória de um pesadelo da minha adolescência, talvez a fantasia de olhos abertos de uma mulher desfeita. Onde estou? Em que mundo me abismei, em que mundo reemergi? A qual vida voltei? Com qual objetivo?. ” Fecha a cena! A cortina! O sonho! E a vida tem sim dessas exigências. Corremos atrás dela , pois!

Um palmo à frente é quase um infortúnio pensar. O futuro então! Só o passado nos ofusca. Olga tem tonturas ao pensar sobre isso: “O futuro – pensei – será todo assim, a vida viva junto ao cheiro úmido da terá dos mortos, a atenção com a desatenção, os saltos entusiastas do coração junto às quedas bruscas de significado. Mas não será pior do que o passado.”

Juntar os cacos, re-fazer-se, re-inventar-se, Começar de novo, como tantas vezes cantei com Ivan Lins. Diante dos filhos então, Olga tem urgência: “Queria ser eu, se essa fórmula ainda tivesse algum sentido. Ou pelo menos queria ver o que permanecia em mim, uma vez que o houvesse retirado.”

Todas um dia fomos as mulheres quebradas! E como é difícil ver a vida inteira quando crescemos acreditando no amor romântico que tudo salva, tudo consegue e toda felicidade conquista. Do nada, temos que acreditar que a vida é bela, que a vida segue, que existem outras possibilidades, amorosas inclusive. Aquela amputação terá cura. Outro braço não vai nascer, mas uma outra dinâmica é urgente se mergulhar. Eu, eu e eu! Pensava. Olga, se alegra: “Aquela noite, quando Mario foi embora, voltei a ler as páginas em que Anna Karenina está próxima de morrer, folheei aquelas páginas que falava de mulheres quebradas. Lia e no entanto sentia-me segura, eu não era mais como aquelas senhoras das páginas, não as sentia como uma voragem que me sugava. Me dei conta de que tinha até sepultado em algum lugar a mulher abandonada da minha infância...a pobre coitada voltou a ser como uma foto antiga, passado petrificado, sem sangue.”

Na maldição do amor romântico, nos iludimos; achamos ter sido escolhidas porque alguém morre de amor por nós. Eu não vivo sem você! Escutamos! E nos enchemos de orgulho e vaidade. Qual nada! Olga é crua: “Somos ocasiões. Consumimos e perdemos a vida porque um qualquer, em tempos longínquos, por vontade de descarregar o pau dentro de nós, foi gentil, nos escolheu entre as mulheres” . A realidade é tão crua quanto Olga! Olga sabe disso: “Não, pensei apertando o pano de chão e levantando-me com dificuldade; o futuro , de certo ponto em diante, é somente a necessidade de viver o passado. Refazer imediatamente os tempos verbais”.

No auge do abandono, Olga se vê no completo não existir, que se traduz no não reagir , não estimar por si, e claro que isso também tem uma significação no corpo. Pessoas tristes e des-amparadas não se cuidam. “Quanto mais choro mais passo batom”, fala o poema de Vitória Lima, numa justaposição dessas forças antagônicas. Cuidar de si, é preciso! E Olga questiona: “Quando foi que eu perdi aquela força e teimosia da energia animal, talvez na adolescência. Agora estava num processo de volta ao selvagem, olhei meus tornozelos, minhas axilas, desde quando eu não me depilava, desde quando não me raspava? Eu, que até quatro meses atrás era só ambrosia e néctar.... Levitar. Queria sair do chão, queria que me visse suspensa em equilíbrio, elevada, como acontece com as coisas integralmente boas...Pensava a beleza como um esforço constante de apagamento da corporalidade.... Tornara-me uma esposa obsoleta, um corpo negligenciada, minha doença é só a vida feminina que ficou fora de uso.;;;meu rosto escorregou para fora do espelho.”

Ambrosia e néctar! Precisamos dessas palavras e desses sabores para seguirmos a vida! E quase todas nós mulheres, também um dia, tivemos nossos rostos escorregados para fora do espelho!

Ana Adelaide Peixoto – 05 de novembro 2016
 obs - Texto publicado no Correio das Artes - A União , 29/01/2017


O Que Está Por Vir

Conquanto o desejemos, podemos viver sem a felicidade. Esperamos para conquistá-la. Se a felicidade não vem, a esperança se prolonga e o charme da ilusão dura o mesmo tempo que a paixão que a causa. Assim, esse estado basta a si mesmo e a inquietude que ele traz é uma espécie de alegria que suplanta a realidade, talvez melhorando-a. Pena de quem não tem nada a desejar. Ele perde tudo aquilo que possui. Gostamos menos daquilo que obtemos do que daquilo que desejamos e ficamos felizes antes de realmente nos tornarmos. (Jean Jacques Rousseau_

Sou apaixonada por duas mulheres do Cinema Francês: Isabelle Huppert e Juliette Binoche. A primeira pela densidade e estranheza ruiva (desde o seu premiadíssimo A professora de piano e Oito Mulheres), a segunda, pelo mistério da beleza simples (A Liberdade é Azul, Perdas e Danos, Cópia Fiel). Recentemente assisti à Elle, que deu o prêmio de melhor atriz à Huppert, no recente Globo de Ouro 2016.

O título do filme em Francês – L`Avenir (França/Alemanha 2016 – Direção de Mia Hansen-Løve), perde a força de uma palavra só na tradução para nossa língua, O que está por vir; precisamos de uma frase inteira para designar o que uma só palavra já antecipa. A concisão faz diferença na força da língua.

Filme francês me encanta. Aparentemente não falam de nada e falam de tudo. Esse em particular fala de uma professora de filosofia, Nathalie, que vê sua vida passar por mudanças abruptas, numa idade que já se quer sombra e serenidade. O marido se envolve com outra mulher (nada mais previsível aos homens de meia idade e de casamentos longos); a mãe (uma personagem hilária que a consome de pedidos de socorro), e como uma ex-modelo, se debate contra a finitude, e que pede seu casaco de pele para melhorar do frio, e chama os bombeiros para apagar o fogo da sua solidão e desespero da velhice atordoada. Os filhos de Nathalie também partiram. E o seu melhor aluno, lhe faz críticas ideológicas e filosóficas. Mas Nathalie já não tem o arroubo da juventude para ficar filosofando em alemão! Na sala de aula no entanto, se preocupa em instigar os alunos a pensar.

No trabalho, Nathalie também se vê atropelada por outros tempos. O tempo do mercado! A editora em que edita seus ensaios encerra a parceria; a Escola lhe adverte com novos rumos, e os alunos estão fazendo barricadas. Mas Nathalie já viveu isso antes, em 68. Dejà vu! E ela sai em busca de si. E confessa: "Quando eu paro para pensar, meus filhos já saíram de casa, meu marido me abandonou, minha mãe morreu… Encontrei minha liberdade. Uma liberdade completa como nunca conheci. É incrível".

Fico intrigada de ver as casas dos professores em Paris – quanta simplicidade! Nathalie mora assim, se veste desprovida de qualquer supérfluo, cozinha uma ceia natalina frugal, – um frango com castanhas e só. Nada de tanto fuzuê como nós aqui no Natal e na vida. Nathalie anda de cá pra lá em Paris; trabalha, senta no parque, divaga, encontra o marido, passeia na Bretanha, molha os pés, mergulha, cuida das flores, olha no infinito.. Simples assim. E nesse olhar/viver como um flaneur, o espectador vai participando dos temas abordados no filme: separação na meia idade, ninho vazio, perdas, morte, re-encontro consigo mesma, liberdade, ter um gato de repente, e tantos outros assuntos mundanos ou não. Eis a vida! E a filosofia!

O filme é todo entrecortado de frases e pensamentos de Rousseau, Pascal, Schopenhauer, e tantos outros filósofos contemporâneos, que permeiam as estantes dos personagens, Aliás, a ausência do marido se faz notar, através dos espaços vazios nas estantes de Nathalie. Cada livro uma presença/uma falta! E ela fica indignada quando vê seus filósofos irem embora, inda mais aqueles livros onde ela própria deixou sua assinatura do tempo em anotações mais íntimas.

Quase em todo filme francês, e nesse não é diferente, os personagens são pragmáticos e céticos. Se perde, se trai, se morre, sem drama! Tudo faz parte da existência. O marido de Nathalie , que se chama Heinz (nome feio, segundo sua sogra), recebe da filha o ultimato – “tens uma amante, vai ter que escolher!” E ele escolhe, a amante. A mãe pede ajuda de madrugada, mais uma chantagem, e Nathalie diz: “não posso!” O aluno pergunta sobre re-fazer a vida amorosa e ela responde: “Não quero um velho à essa altura da vida, nem me interesso por um moço!” A mocinha lhe questiona sobre posição política e ela singelamente diz: “já vivi muito isso, agora não me interesso mais”. No cinema, assistindo ao filme Cópia Fiel, Nathalie sofre um assédio e se irrita : “Não estou interessada! Me deixa!” Ou seja, reações prontas e sem maiores tragédias. Fiquei a pensar como somos diferentes! E de como fazemos um dobrado para o nosso cotidiano tragicômico.

A trilha sonora do filme de arrepiar. Óperas! Woody Guthrie (fui apresentada pelo querido amigo Larry Vellani em Columbus Ohio, 1971) E o desfecho, com um coral cantando a música tema do filme Ghost – “Oh my Love, my Darling!!! Enquanto Nathalie cantarola Christmas Carols/Cantigas de Ninar para o neto recém nascido. Ao final, a cena plasma na sala de estar do seu apartamento, onde se tem uma ideia da domesticidade daquela família: almoço, neto, choro de bebê, ex-marido que visita, árvore de natal, gato que foi embora, enfim....mais um dia, somente um dia!

Saio do cinema querendo falar francês, filosofar, morar em Paris, passear nas montanhas da França, perambular pelos Jardins das Tuileries, pensar na vida em português mesmo, mas com certeza dizendo Bonjour! As francesas me seduzem. Huppert me encanta. E esse modelo de vida, que jamais será o meu ( não dá mais tempo), também me faz pensar na singeleza de que é feita a vida. Mas não só!

O que Está por Vir não é um filme filosófico, mas mora na filosofia. E não deixa de ter uma visão feminina e feminista, que faz dos silêncios subjetivos da personagem de Nathalie, quem sabe o seu mergulho interior, explícitos quando da sua caminhada sozinha pelo bosque , na montanha, ensimesmada com tudo o que lhe acolhe e lhe distancia no seu re-inventar-se tododiatodo. Não é à toa que o quinto longa-metragem de Mia Hansen-Løve foi premiado com o Urso de Prata de Melhor Direção no 66º Festival de Berlim.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 16 de janeiro 2017
 


Prós & Contras

Tenho dificuldade para...

Vender casa, tomar grandes decisões. Burocracia. Ir em repartições. Lidar com bichos, baratas, timbus, gato e cachorro. Ser prática e objetiva. Ter foco. Correria. Organizar e fazer planilhas. Saber o que fazer. Manter o carro limpo. Comprar o essencial. Pagar contas. Traçar metas. Ir ao centro para resolver pepinos. Fazer dieta. Não beber quando o médico proíbe. Fazer exercícios. Fazer exames. Enfrentar trânsito. Andar de elevador. De avião. Ficar sem ajudante. Cuidar do jardim , das caixas de gordura, de lâmpadas queimadas, do lixo que não passa. De começar coisas. De terminar coisas. De cuidar de idosos. De crianças. De todo mundo. De lidar com gripes e dengues. De ver a vida cor de rosa demais. Cinza demais. De perder pessoas queridas. De perder algo. De desapegar de bugigangas e papéis. Sempre acho que vou precisar. De me desfazer das coisas. De fazer economia. De não comprar o que quero. De comer fora de hora. De dormir pouco. De correr com as coisas. Fazer compras de Natal. Chamar o encanador, eletricista . De deixar a casa em ordem. De ter pastas com tags das contas. De fazer imposto de renda. ESocial. Comprar por internet. De entender de partidos políticos. De Eleições. Domingo à noite. Fazer programas infantis (quando os filhos eram pequenos), fazer programas em grupo toda hora, perder o controle. Morar no campo. Cheiros fortes. Comer carne. Desarrumar malas. Ler mapas. Ler manuais. Jogar Pokémon. Esperar pelos outros. A fé. Os Dogmas. Saber o que vou ser quando crescer? Quando adulta. Quando velha. Enfim...

Tenho facilidades para...

Não vender casa. Tomar pequenas decisões. Anarquia. Ser sonhadora e pensativa. Dispersão. Deixar tudo ir voando. Em não saber o que fazer. Em ter o carro sujo e cheio de coisas. Comprar o supérfluo. Adiar coisas. Ir ao Centro resolver coisinhas. Andar a esmo e depois me perder. Não fazer dieta . Beber cerveja gelada antes do almoço e vinho nas noites chuvosas. Ficar no sofá. Viajar sem pensar que estou no avião. Falar. Escrever. De ficar em silêncio horas. De ficar sozinha. De sair sozinha. De chorar. De rir. Lidar com serviçais, contanto que eu não tenha que faxinar e cozinhar todo dia. Cozinhar de quando em vez. De estar no meio das coisas começadas com dificuldade e sem saber como vão terminar. Novelas. Filmes. Livros. Cartas. Beijo na boca. De massagem – adoro que me toquem. De dormir de pijama e edredom. De garimpar coisas. De brechós. Antiques. De guardar tudo que acho interessante. De acumular coisas des-interessantes. De gastar. De comprar brincos, sandálias . De calça jeans e roupa preta. De dormir. De fazer tudo devagar. De divagar. De contemplar. Pensar na vida. Não saber o que fazer amanhã. Segunda feira. Dançar. Ir a qualquer lugar sem me sentir uma estranha no ninho. Não ser tão simpática. Ficar em casa sozinha. Não ter medo de ladrão. Fazer um pouco de loucura – não muita! Dizer não (hoje). Saber mais de mim. Aceitar mais minhas limitações. Morar perto do mar. Arrumar malas. Fazer roteiros de viagem. Fazer visita. Escrever cartão. Comprar cartão de arte. Fazer listas e cronogramas. Sem cumpri-los! Ir ao cinema sozinha. Fazer compras sozinha. Ficar na minha companhia. Falar ao telefone. Conversar. Não fazer nada! Me orientar nos lugares. Sem mapas. E sem manuais. Rezar. Olhar no infinito. Agradecer. Não saber mais nada quando envelheço! Deixar o rio correr, que ele corre sozinho!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 04 de janeiro de 2017
 


Anotações de Poesia

Quando menina, não era daquelas alunas que sentavam na frente. Gostava do meio. Para me distrair deliberadamente das aulas . E pensar no sonho. Voava pela janela. Pensava em outras coisas para além da Escola. Difícil concentrar quando se tem pouca idade. As outras coisas importam mais que raiz quadrada ou oração subordinada.

Mas, depois, tomando gosto pelos estudos, já na graduação, aprendi a sentar na frente, justamente pela dispersão que faz parte do meu ser. Na frente sou tomada (ou não!) pelo som embriagante de quem fala. E, ao invés de me dispersar pela janela, viajo no assunto, no tom do falante, e na instigante atividade de aprender.
E tenho feito isso vida afora. E não só em aula. Ando com bloquinho/caderno na bolsa, e a tudo quero anotar. Como se quisesse anotar o mundo! E como não cabe, fico a pensar alto, a falar ao vento, etc e tal. Minhas estantes são cheias de cadernos e notas, e muitas dessas notas, são meus arquivos também para minhas aulas, ou para as crônicas.

Não sou conhecedora de poesia como deveria, mas gosto de me espantar com elas. E gosto mais ainda de ouvir os poetas.
Em Agosto de 2006, por ocasião do Congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada), no Rio de Janeiro, tive o prazer de assistir a muitas coisas. Mas a melhor foi a palestra de encerramento, formada por uma mesa de peso da poesia, com Antonio Carlos Sechin, Ivan Junqueira e Ferreira Gullar. Lembro que minha mão e minha caneta não conseguiam anotar tantas coisas interessantes desses três mestres da poesia, crítica, e da literatura em geral. E correndo contra os dedos, anotei tantas palavras.

Por ocasião da morte de Ferreira Gullar recentemente, fui procurar meu caderno e logo logo achei. E parecia vê-lo com sua figura lânguida e de cabelos compridos a balançar, e a ouvi-lo dizer: “Compreende?” Eu te responderia: “Compreendi muito!” E fiquei fascinada em ouvi-lo sobre o processo de criação do Poema Sujo.
Como as notas estão caóticas, como o meu próprio punho se perdia, faço aqui o meu próprio pastiche, com as falas desses três, para lembrar a Poesia em geral e Gullar em particular. Divido com vocês minhas anotações de Poesia:

Abralic Agosto 2006- Antonio Carlos Sechin

Poesia é sempre depois. Poeta é operário da palavra. O alvo? O incerto. A sina, aceitar no que intui. Grande poema – reordenar o mundo para que existam nomes demais. Uma quarta margem!

Poesia, animal sem vísceras. Obra de Arte – desafia o fim do mundo. Poesia? O imponderável, um hóspede invisível, um vestígio de sua passagem = poema. Poesia – sem rosto. Poeta, a estranheza e solidão!

Poesia é um baixo falante, que tenta apreender os ruídos do mundo. Sensibilidade de cada um. O poeta, uma ilha cercada por poesia de todos os lados. Poeta, escuta feito voz, variações de espanto, e o desafio do artista é não se ater à homogeneização, nem um boneco da própria voz, clausura da sua libertação.

O poeta é menos sábio que seu texto. O poema sabe o que o poeta diria, escrevo sobre aquilo que pensava que sabia- Poesia do desconhecimento, não se localize na reiteração da forma, sem fórmulas! Um experimento, em oposição à adesão. Dois poetas juntos é um complô. Três já é uma Academia!

Toda linguagem é vertigem! “me aprendo em teu silêncio, feliz com um portão azul”

Falar é tatear o nome do que se afasta! Cultivar o deserto como um pomar às avessas. João Cabral.

O que fazer com um fim de uma paixão?

Tiro você da vida
E boto você no poema

Paixão e Alpinismo – céu e abismo! Paixão e astronomia é ver estrelas à luz do dia. Um amor antigo e matemática.1cm de Poesia, 10 k de prosa!

Ivan Junqueira:

Poesia é um mistério que escorrega entre os dedos. Seria uma hesitação lancinante entre o som e o significado. Uma hesitação entre uma coisa e outra. A Poesia não pode se confundir com a espontaneidade da Natureza. O poema é uma construção , numa certa medida se fabrica, com dor. Uma intuição mais a exigência da arte poética. O pessoal , o mecanismo metabólico, uma herança da voz própria.

O Modernismo de 22 – Era preciso olhar para o país em que vivíamos! 1930- Período decisivo para a poesia brasileira, distensão da linguagem e ritmo. Bandeira, Drummond, Jorge de Lima, Vinicius. Geração de 45. Geração 60- poetas desgarrados. Uma preocupação – já tinha sido feito tudo, as vanguardas.
Poesia hoje? Um enigma! Qual a poesia do futuro?

Ferreira Gullar:

Quando Ferreira Gullar começou a falar, e falou por último, não conseguia anotar o que dizia. Fiquei fascinada pelos seus cabelos longos e brancos, pelo seu rosto marcante, seus gestos, mais doçura, mas, principalmente pela forma como falava. E claro, preferi ouvi-lo do que anotar. Mas ainda assim, por entre rabiscos , sons, e fragmentos da poesia, ou do fazer poético, restou palavras, palavras, palavras!

Poesia nasce como toda arte – Pastiche. Você percebe a coisa com o seu saber, vê a vida em decassílabo. Agora era eu e o mundo, sem a linguagem. Via as peras, via o galo e me deparava com o estranho , o contrário do parnasiano.

Não posso escrever da forma de como eu domino. Cada poema era outra forma.A linguagem tinha que nascer com o poema, a linguagem envelhecia o que eu queria dizer! Como os restos de um incêndio; luta corporal, desencadeou a Poesia Concreta, buscar um novo verso, não buscar uma nova sintaxe, já desintegrada. Nova sintaxe? Visual, disposição visual das palavras, sem discurso, lei da proximidade e semelhança. O caminho? Desintegrou a linguagem.
Concretismo – experiência fenomenológica, equação matemática concretista.

O Poema Sujo – no exílio – vomitar o Poema – Sozinho. O som U – como se fosse a última coisa, sem passaporte, na argentina, os amigos sumindo.

A poesia nasce do espanto, como o cheiro de tangerina! A própria vida faz a poesia – a matéria da própria existência.
Depois de ouvir esses poetas a conversar sobre Poesia, saí do Hotel da Glória, olhando para o Pão de Açúcar e pensando:

...E Feliz Natal e Um Ano Melhor em 2017!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa dezembro , 2016
 


Elis - Upa Neguinha!

Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer

(Belchior –Velha Roupa Colorida)

Nos cinemas, Elis, novo filme do diretor Hugo Prata, fazendo um recorte da vida da consagrada cantora de MPB, que encantou a todos com Fascinação, Como nossos pais, e Águas de Março, só para citar algumas das canções que até hoje cantarolamos emocionados quando o assunto é música brasileira.

O filme faz sim um recorte do trajeto dessa pequena pimenta, chegando à cidade maravilhosa na década de sessenta, com um riso solto (com a gengiva aparecendo) e uma voz imensa, e uma determinação a fazer sucesso, não importasse o que teria que vencer ou quebrar – convenções e long plays (numa cena de raiva do seu marido Ronaldo Boscoli, quando descobre uma de suas muitas traições, Elis pergunta: “ Já viu disco voador? Pois vai ver agora!” e avoa toda a coleção tesouro do marido pela janela.)

Como se trata de um recorte, saímos sempre com a sensação de que faltou algo. Como já disseram: faltou explorar mais sua amizade com Tom Jobim e Vinicius de Morais; sua fama incontrolável em tantos sucessos, etc e tal. Uma vida não cabe em um filme! E o diretor opta por contar do início da sua carreira; seus casamentos, casas e filhos; experiência com a ditadura – seus medos e até submissões tão criticadas.

A atriz Andreia Horta faz espetacularmente Elis. E como ela mesma disse: não poderia ser Elis. Era uma atriz interpretando um mito e com todas as minhas limitações. Mas Andreia já tem de cara o physique du rôle e as limitações foram muito bem superadas pelo trabalho de gesto, de corpo de mise-en-scene. A risada, os dentes, o bocão, os braços balançando, as raivas, a pimenta. Lane Dale (Júlio Andrade)! – nem lembrava mais dele! Faz esse trabalho no texto fílmico, e é quem primeiro faz a performance/navegando da tão famosa Arrastão.

O filme me trouxe informações importantes sobre sua vida. Uma guerreira, determinada que sabia o que queria, seus encontros afetivos e amorosos com Miéle, Bôscoli, Nelson Motta, Cesar Camargo Mariano e Atrás da Porta. Upa Neguinho e Jair Rodrigues. Henfil! E o Bêbado e a Equilibrista. Os militares e Madalena – adorava cantar e nunca soube do fato dela com medo dos medos. Nara e a crítica à figura “desmilinguida” e sua não voz do barquinho. Como se fumava naquela época! Lembrei do Long Play – O Fino da Bossa , que ouvia todo dia e sabia de cor de cabo a rabo- O morro não tem vez,...acender a vela...!

Cantei no cinema. Chorei no cinema. Elis, por quem chorei tanto quando se foi. Estava eu fragilizada no início dos 80´s ! Tão simplista dizer que morreu de overdose! Era intensa. Se angustiava com o momento. Mãe amorosa – Maria Rita, Rita Lee! Bebia Whisky. Muito. Chorava e não encontrava seu canto. Fascinação! Queria saber o que as Baianas tinham? Gaúcha. Miúda. Desconhecida. Você não sabe não vê quem não é meu amigo! Somos jovens! Cantei muito no Edifício Gravatá. Ai! se meu apartamento falasse! Assisti a dois shows de Elis. Um deles no Cine Municipal que virou palco. Eterno Brilhante. Brilhamos todos assistindo Elis com tanta propriedade e tanta voz. Queria cantar. Era uma intérprete. Queria liberdade de não fazer arte engajada. Todos deveríamos ter. Mas talvez sem nem saber, fez. Chamou os milicos de gorilas em Paris. Seu bêbado virou hino da Anistia. Fez as pazes com Henfil. Solitária nas suas lindas casas. Bôscoli um galinha assumido que não queria brincar de casinha, filhinho....César, calmo, virtuose, ponderado, com uma casa no campo, não aguentava tanta angustia e whisky. Ah! Essas mulheres artistas. Como é difícil conciliar vida doméstica e vida artística – hein Sylvia Plath?

Saí do cinema com tantas saudades. De Elis, das canções, da minha vida, de um tempo, de tantas coisas.....Ah! só eu sei, tanto amor, eu lhe dei!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 28 de novembro,2016


Geografia Onírica

Fico cada vez mais feliz com a possibilidade de lembrar dos sonhos. Quando acordo, sinto que a espuminha deles já vai se desfazendo, indo pro limbo da des-memória. Mas vem cá, digo, e espicho o juízo e pego aqui um objeto, ali um sentido, vou dando nó e pegando o próximo, e dou outro nó. Aí vejo o que prendi e tento achar um fio de narrativa. E quando me dá vontade, caço outras literaturas, Kafka, Kerouac, Borges, Hesse e esse povo todo que foi fazendo diários de sonhos. E os amigos aqui que escrevem, que contam sonhos, também. Inveja boa de quem os lembra. Pedacinhos das mil e uma noites forjadas no travesseiro. (André Ricardo Aguiar)

Eu sonho muito. Por tempos, mais. Outros, menos. Sonho de noite. Pelas madrugadas e pasmem, até na siesta da tarde. Tem sábados ou domingos que, me espalho na cama, durmo horas , e acordo sem saber se é dia ou noite. Demoro alguns segundos para ficar feliz e saber que não é hora de trabalhar, mas de continuar o sonho. Claro que, são sonhos nada lineares, misturados, coloridos, preto e branco, desconexos e loucos. Também tem os sonhos eróticos. Ah! Quando isso acontece é a glória e ganho o dia. A semana....Pois se, sexo já é bom na vera, imagine sonhando...e voltando a continuar acordada, com as carnes trêmulas e estremunhadas.
Mas, fico intrigada por que não sonho somente com pessoas e/ou situações. Também sonho com tempo e espaço. Eu sonho com minhas cidades. Ou lugares avulsos. E no sonho elas são iguais às minhas ruas. E são diferentes também. São sonhos! Muito recorrente sonhar com a Praça da Independência e atravessando a Av. Maximiano de Fiqueiredo, meu percurso a pé por anos, a caminho das Lourdinas. E como gostava de caminhar. Olhar os carros passando – poucos, e aí avistava um conhecido, uma prima, um paquera, e acenar para eles. Sonho com a padaria de uma esquina, trânsito maior da hora do rush. Atravessando correndo. Um leve susto na alma. Um supetão de sensações!

Também tem os sonhos continuados. Aqueles que tem sequência. São interrompidos e se acordo, continuam. Ou depois são retomados. Parece até novela. Vai ver que é! Acordo confusa, não sei se perdi algum capítulo. Ou se já é outra novela. Tem aquela situação. Menina. Moça. Mulher. Os amores. Aqueles de quem fugia. Um medo qualquer, por vezes tão banais. Ou quase sempre. Tem o mar. Ah! o mar, tão presente na minha vida. O cheiro de sargaço- Wide Sargasso Sea?! Outras vezes um quintal, uma janela, uma fresta! Alpendres e becos das casas. Tem uma imagem de um ladrão, meus pavores de menina de ficar de janela aberta, de ter os pés pra fora do cobertor, de ver vultos à meia noite. Mas os sonhos também tem seus medos próprios. Mas, mais com a brisa, com os araçás, os caminhos das areias, um sabor de leite de coco...

Sonho muito com o Rio de Janeiro também, minhas férias inesquecíveis por tantos anos. Avenidas largas e as lojas. Eu na adolescência, deslumbrada por Copacabana. Desse meu Rio eu sonho com o sonho! E nada mais. E sonho também com Londres, esse meu sonho de estudo e vivências tantas.Então sonho com as estações de trem, anônima circulando pelos vagões. Cenas de crime, de policial, de encontros fortuitos. Vitória Station era o meu local para imaginar meus filmes privados. De amor , claro! Mas como resistir ao Oriente Express, que toda vez que eu lia a indicação nos trens, lembrava de Agatha Christie. E seguia imaginando, eu, perambulando pelos mercados, nunca achava aquele específico. Procurava minhas lojas indianas dos anos 70/80 e elas não existiam mais. E me angustiava sonhando. Acordava aflita, achando que tinha esquecido minhas compras em algum lugar. Nunca mais fui a mesma depois de um domingo em Peticoat Lane! Ou em Notting Hill. Barracas, vestidos de espelhinhos, e túnicas que comprei, usei, sonhei a vida toda. Tudo passou. Tudo passa. Mas nos meus sonhos, continuo a procurar um determinado trem e uma barraca singular por entre as ruas de uma galeria qualquer.

São imagens borradas. Flashes. E fico a pensar como a geografia de um lugar nos importa a vida toda. Quando era menina (sim, andei sozinha a partir dos 10 anos), eram tempos pacatos e tomava ônibus para ir a aula de música no Centro – de D. Luzia Simões. Depois o ballet no Santa Rosa (com a Professora Yara Rosas), aí mais velhinha – 12 anos. Como eu gostava de ser uma transeunte qualquer! Acho que fui flâneur sem ainda nem conhecer nada de poesia francesa. Ainda não conheço! Desde já, a solidão me atraía. Gostava de andar sozinha. Hoje, gosto mais ainda. Observar as pessoas, parar onde gosto , como gosto, o tempo que for necessário. Andar no Centro era uma aventura. Morava na Almirante Barroso, descia pela Lagoa e ia embora pelas lojas da cidade, fazer mandados da minha mãe, encontrar o namorado em uma rua qualquer, sentar na lanchonete para um queijo quente e uma Vaca Preta (sorvete de ameixa com coca cola!). Já nem sei mais se estou falando do vivido ou do sonhado...

Quando da adolescência, Também sonhava com os olhares. Mesmo magrela e de roupas pouco afeita a babados e outros recortes mais femininos, a juventude é um chamariz para a sedução anônima. Gostava disso. A Rua das Palmeiras – meu percurso durante muito tempo. O Centro! A casa tal, a família tal, as amigas da Rua Afonso Campos, (Joana Emília, Erise e Dodora Diniz), do Beco (Glauce Caldas, Márcia Porpino, Marcos Feliciano, Fernando Rolim), e de Manaíra (Dada Novais, Chola Henriques, Antonio Carlos Martins, esse meu primeiro namorado dos tempos de menina ainda). Todo esse mapa todo meu, ficou impregnado feito tatuagem nas minhas memórias, e por isso, quando durmo, sonho tanto com ruas, penumbras, percursos, luzes da cidade!

João Pessoa, Rio de Janeiro e Londres, são lugares que me pertencem. Andei exaustivamente por elas. Hoje ninguém anda mais a pé. Tudo de carro. Violência urbana, não dá para ir na esquina. Os de hoje não sonharão com suas ruas. Esquinas. Vãos. Travessias. Outros tempos. Outros Sonhos!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 10 de novembro,2016
 


De Gays, Lésbicas & Outras Possibilidades - Um corpo e um desejo que não são meus!

Quando era pequena e depois adolescente, e mesmo até outro dia, e falo do século passado, ser gay era um mistério. Nós, ouvíamos falar de longe de uma ou outra pessoa assim, diferente. Pelas minhas rodas de amigos tinha uns quatro mais visíveis. Eram pessoas efeminadas, de famílias da sociedade, excêntricas, umas mais, outras menos, e viviam como seres estranhos, mas buscavam suas felicidades entre quatro paredes, mesmo a custa do anonimato, do segredo e com certeza , da exclusão social e do sofrimento. Alguns se casavam para dar satisfação à sociedade, uns três ou quatro eu conhecia. Mas era tudo tão longe de mim, que era como se fosse algo lá no pico de uma montanha que não me dizia respeito. E intrigada eu seguia...

Das mulheres então, o mistério era maior. Não conhecia ninguém nas minhas amizades. A não ser aquelas duas, de quem falavam, mas falavam de todo mundo, e elas casaram, tiveram filhos, e tudo também por entre os véus da invisibilidade. E sofrimento e des-locamento , por certo. Era tudo tão à margem que, nem a língua portuguesa tinha as palavras certas para denominá-las. E eu, nas Lourdinas de classe média bem comportada e conservadora, ouvia falar de um sabão...que, de tão escorregadio, eu não entendi muito bem. Só depois vi a saber. E continuei sem entender porque o ensaboar era tão erótico no sexo entre mulheres. Logo eu que, tanto me ensaboei com amigas, tomando banhos lúdicos e inocentes – mas não tanto – nos encontros umas nas casas das outras. Descobrir-se era preciso! Sapatão só apareceu depois. E continuei incrédula com os sapatos grandes???

Quando me casei, aos 19 anos (1971), passei a lua de mel no Rio de Janeiro, por entre artistas, amigos, ateliês, galerias, tintas e exposições, de pessoas do mundo da pintura. Dentre tantas, conheci o Gasparino da Matta (irmão do famoso antropólogo Roberto da Matta). Desse pessoal, muitos homossexuais assumidos , mas não tanto. Início dos anos 70, até o Rio de Janeiro era preconceituoso com os gays e com os outros.

Mas foi com um livro (que infelizmente não lembro o nome), do Gasparino, que, me fez despertar com os olhos mais atentos, para a questão das mil possibilidades da sexualidade humana. Até então achava que homem era homem. Mulher, mulher e ponto. E aquelas pessoas escondidas que se comportavam com trejeitos, mas que não entendia muito seus desejos e suas posições frente ao sexo e à vida. No seu livro, Gasparino já falava das inúmeras possibilidades: homossexuais, travestis, desejos ocultos, e eram tantas definições que fiquei a ver navios com a minha tão limitada ignorância. Mas já havia ficado intrigada quando conheci uma criança de 3 anos que era gay. Anos mais tarde conheci outra. Meninos que desde sempre falavam com a voz transvestida, desmunhecavam, e depois, foram embora das casas dos pais, para viverem suas sexualidades livres da opressão familiar , em centros maiores. E fiquei muito perplexa ao ver que, ser homossexual não era uma escolha, mas algo maior, imponderável, e da qual não temos o controle. Se é homossexual!

Com os anos, foram aparecendo gays de todos os lugares das minhas amizades. Inclusive as lésbicas. Gente efeminada, masculinizada, femininas, machos, frágeis, fortes, de todos os modelos. Inclusive, ainda no final dos anos 70, mesmo os héteros, começaram a querer também viver a curiosidade do mesmo sexo. Era moda o vale tudo. Qualquer maneira de amor vale à pena, cantávamos no Bar da Xoxota, junto com Os doces bárbaros.

Os estudos feministas, as leituras sobre gênero, Judith Butler, Virginia Woolf, e tantas outras teóricas, a Teoria Queer, o evento Fazendo Gênero (UFSC), me abriram ainda mais os olhos e a cabeça, e confesso que a confusão era grande. E palavras como determinismos biológicos, destino, corpo, gênero, essencialismo, binarismo, etc, não davam mais conta da minha limitação sexual. Também outros meios, como as viagens, os filmes, A pele que habito, Minhas mães e meu pai, ou o mais recentes – A garota dinamarquesa, (que aborda a vida da primeira pessoa a fazer a cirurgia de mudança de sexo, e todo o sofrimento psicológico e físico pelo que passou, nos mostra tudo isso de forma assustadora, e artisticamente bela); os casamentos gays, as lutas LGBBT, amigas que assumiram seus lesbianismos publicamente, a moda (Lea T.), e tantas outras fontes de conhecimento, fiquei de novo perplexa como nós humanos pudemos e fomos tão ignorantes durante tantos séculos seguidos. Falo da maioria, do Falocentrismo, porque as minorias, as variantes e trans- de comportamento, e todas as outras possibilidades de sexualidade, sempre existiram, mas trancafiadas nos mosteiros, nos conventos, nos confinamentos existenciais de todos os mortais.

Mas foi também o artista Laerte e a sua experiência crossdresser, dando uma entrevista há algum tempo, à Marília Gabriela, que me pirou os miolos. Que homem/mulher lúcido e transgressor! E que inteligência a falar das fronteiras que queria cruzar, inclusive as sexuais. Usar saia, brinco, batom, porque não? Se podemos tudo na vida, porque nos confinar a um sexo, que por vezes nos aprisiona ao invés de nos libertar?

Há alguns dias, O governo do Reino Unido anunciou que vai extinguir a condenação que recaía sobre milhares de pessoas por ser homossexual ou bissexual, e concederá "o perdão" póstumo a todos os que já faleceram.Perdão esse porque, manter relações homossexuais era considerado um crime na Inglaterra e no País de Gales até 1967, na Escócia até 1980 e na Irlanda do Norte até 1982.

A medida também foi motivada por um movimento conhecido como "Alan Turing Law", campanha batizada em homenagem ao matemático britânico Alan Turing (1912-1954) que ajudou a decifrar os códigos dos segredos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.Nesta iniciativa atuou, entre outros, o ator britânico Benedict Cumberbatch, que encarnou o matemático no filme "O Jogo da Imitação" (2014).

Ainda na Inglaterra, recentemente uma exposição lança nova luz sobre a vida do escritor Irlandês, Oscar Wilde, durante o tempo em que esteve na prisão da cidade de Reading, justamente por cometer o crime da pederastia. Em forma de celebração ao escritor, a mostra denominada Inside conjuga vários tipos de arte, desde instalações a performances, baseadas nos conceitos de prisão e separação. Prisão essa onde Wilde escreveu suas memórias carcerárias, De Profundis, na verdade uma carta de amor ao Lord Alfred Douglas (seu amante), amor esse pelo qual tinha sido condenado. No filme Wilde, o escritor faz a sua própria defesa, quando fala do “unnamed love”, ou “o amor que não ousa dizer o nome”, e essa digressão irá complicar ainda mais sua condenação, pois o espírito vitoriano interpretará a definição como uma confissão desavergonhada. No entanto, Wilde, de forma brilhante, está se referindo ao amor transcendental por tudo que lhe rodeia. A prisão de Reading que aparece como espaço da arte, da sua estória trágica e irreversível, só mostra a limitação humana em aceitar o diferente, e o terror e a ameaça que as questões do corpo, do sexo e do afeto nos impõem. Uma lástima!

Esta semana, assistindo à nova série da GNT, Liberdade de Gênero, Direção de João Jardim, que aborda o tema dos Transgêneros, ouço relatos impressionantes. Claro que nesse caso, do corpo biológico não corresponder ao corpo subjetivo, a dor é ainda maior e mais complexa, pois exige uma violência sem tamanho em busca dessa equação que, para nós héteros parece fácil. Em um dos episódios, temos a psicanalista e escritora, militante das questões de gênero, Letícia Lanz, casada há 40 anos com Angela, com quem tem três filhos e três netos. Letícia nasceu Geraldo e fez a sua transição de gênero aos 50 anos, após 30 anos de casamento. Ao ouvir essa figura falar da vida, do sexo e do amor, e também a sua companheira, seus filhos, netos meninos, sobre identidade, margem, preconceito, corpo, roupa, ser homem, ser mulher, ser pai, ser mãe, a gente fica a re-significar todas essas searas, e mais uma vez, o amor, é o que nos rege em todas as relações, não importante se nos trans-vestimos com vestidos , batons, ou gravatas. Esse episódio em particular, de tão forte e surpreendente, me fez chorar junto com Geraldo. Digo Letícia!

Estamos ainda num mar de pântano do desconhecimento e das inúmeras combinações identitárias a fazer e inserir no corpo social nosso de cada dia. Mudar um corpo, cirurgias, hormônios, adequações, sintonias, pêlos, clitóris, pênis, implantes, peitos, curvas, barbas, vestidos, decotes, tanta coisa “nova” e transvestida a re-dimensionar! Mas quando olho ao redor, ou quando vejo alunos do mesmo sexo de mãos dadas nas aulas das 7, e o mundo se abrindo e acolhendo as suas milhares de diferenças, mesmo com todo o preconceito ainda latente, começo a expandir também o meu arco de compreensão, de beleza, e de infinitude de que é feito o ser humano.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 30 de outubro, 2016
 


Brasília é uma festa!

A minha festa!

“Brasília era linda sim, seus traços, o céu, seu cinza e seu concreto. No entanto, faltava algo para o sonho estar completo. Eis que Niemeyer teve a brilhante ideia, e para o cerrado ele trouxe Athos Bulcão, artista carioca por quem ele tinha muito afeto. Com seus painéis, azulejos, cor e geometria, Athos revolucionou e deu vida a Brasília.”

Fui lançar meus livros de crônicas – Brincos, pra que te quero? e De paisagens e de outras tardes, em Brasília. Um lançamento doméstico, feito por amigos e família. Um encontro para celebrar as estórias e também uma reverência a um passado nem tão longínquo assim. Também, uma tentativa de divulgar os livros além das fronteiras de João Pessoa, direto ao Planalto Central. O lugar? Um bar de nome Mercado Municipal. Um dos estabelecimentos de Jorge Ferreira, habitante de uma boemia, que agora habita boemias celestiais. Um bar que faz uma réplica do Mercado de São Paulo, muito aconchegante e diferente de outros bares que conheço. Muitos amigos, primos, sobrinhos, conhecidos, amigos dos amigos, e a festa foi bonita pá! Fiquei feliz e agradecida.

Não sou muito familiarizada com a cidade de Brasília. Esta foi minha segunda visita. A primeira em 2011, para o Seminário Mulher e literatura. Nesta segunda vez, pude ver melhor o avião do plano piloto, a arquitetura de Niemeyer e Lúcio Costa e os desenhos de Athos Bulcão.

Sinto-me meio perdida vendo as quadras todas iguais, sem passar ônibus e nem esquinas com gente conversando. Uma outra dinâmica de cidade. Muito verde, muitas árvores floridas, clima ameno, tesourinhas tantas, e uma imensidão de azul no céu.

Usufruí de alguns luxos. Um casamento de sobrinho à beira do lago, com direito a um pavão sem mistério que insistia em passear por entre os hóspedes; e viva os noivos! Gabriel & Luiza! Com flores rosa chá, brindes, e família Jardelino querida por entre os quartos. E uma Rural surrealista à frente de tudo!

A festa dos brincos! Com uma mini-Paraíba presente e o cineasta Vladimir Carvalho me enchendo de glórias e memórias de uma vida lá pra trás! Paulo Melo, amigo de longas datas, com quem trabalhei na Cultura, agora de bigodes brancos, também apareceu com Marisa, e,   me fez dar a outra volta do parafuso da vida. Anos 70 – e nossa turma no Boiadeiro! Sim! O tempo passa! Um aluno querido – Ulisses, que insiste em me chamar de Mestra! Uma prima Andrea, que há anos não via; uma outra Leleta, que vejo mais; Roberta Rosas (um passeio por Praia Formosa, Gerusa, Eric, Fernanda, Yara e tantos Rosas queridos); amigas de infância - Sonia, Walquiria..., uma ou outra figura ilustre, outros anônimos e queridos; a turma do Mato Grosso, lugar onde Juca viveu por entre a política e jovens ideais, e a quentura de um lugar e de uma idade.

Nos intervalos, fui caminhar no Parque Olhos D´água; comer Pacu na brasa com cerveja artesanal, e amora no pé! na chácara de amigos- obrigada Eulina e Zé Maria, Cláudia e Vicente. Encontrei minha amiga e apresentadora do livro Brincos..., Lúcia Sander. Re-viramos os assuntos e afetos de uma longa amizade.

Visitei meu sobrinho Raphael e Bartyra e Samuel. Lanche das cinco. Tudo Britânico, com direito a um chá em flor. Guloseimas direto das mãos prendadas da dona da casa e da sua irmã Natália. Bolinho de café, torta de maçã e estórias de viagens. Muitas!

Acordar cedo, rodear o quarteirão, digo a quadra de onde fiquei, gracias à Monica Lúcia e Cangiano e Marina. Sentir o cheiro da manhã, gramados, silêncios...
Visitar Rejane Nóbrega, amiga de longas datas e pensar que estava num museu de arte popular. Galinha com quiabo deu o tom ao estômago. Murilo Jardelino, cunhado presente. Conversas de um recanto onde se foi feliz. Casinha de bonecas, com bruxinhas de panos arrumadinhas.

Vanda Trigueiro Caldas virou fotógrafa! E registrou tudo dos livros. Estou esperando viu Vanda? Anos vendo Vanda no PT daqui. Com Derly Pereira, com Ayres, com Juca. Uma saudade...! que os tempos não voltam mais. Não mais!

Uma loja Endossa, e moda colaborativa; uma outra de produtos orgânicos e um suco de Mirtillo! Pequenos prazeres.
A Livraria Cultura – Tatiana Salem e Paraíso – uma estória intrigante! Radiografia do Golpe, Jesse Sousa; Elena Ferrante e seu Dias de Abandono (Freud explica!). Um folhear, uma sacola...Mas quando dei por mim, estava embriagada nos aromas da Provence! Experimento! Sinto o cheiro de capim limão! Verbena! E para lá vou...não sei quando. Mas vou!

Uma cadela de nome Fedra me fez ver que é possível não ter medo de cachorro. Essa não latia, não gemia, não nada. Ficava a me olhar desconfiada. E por entre os livros da minha casa-visita vi tantas coisas! Vi pinturas, filosofias, muita política, literatura Inglesa, Russa, Brasileira, tanto tanto. Um vinho, uma torrada com homus. Um suco de laranja com bagos graúdos....Tudo tão bom!

A despedida? Um chorinho no Mercado, agora de dia. Um jantar entre amigos. A estrela da noite? Um molho de nome Chimichurri, vindo lá das terras portenhas. E me lambuzei de ervas. De polenta. E de abacaxi com cravo e canela. E nem Gabriela sou. Conheci Jacinta – moça paraibana, que achou minha blusa bonita e atua com a saúde do trabalhador, e é amiga dos amigos. Rodei o mundo com ela. Europa, França e Bahia. E abraços agradecidos à Mauro di Deus e Ronaldo de Moura, os guardiões da minha festa, e também da artista paraibana Socorro Lira – aqui para eu conhecer.

Terminou. Uma semana de Planalto. Circulei o Lago Paranoá. Avistei o Palácio da Alvorada. Não, não me interesso mais em ver quem dentro está. Fiquei querendo arrancar o romã em frente ao meu quarto....e a ouvir o grito das cigarras.

Cigarra eu sou!

(Obrigada Ronaldo de Moura, Mauro di Deus, Monica Lúcia/Cangiano/Marina, Tina Jardelino e família, Raphael Peixoto e família e Lúcia Sander).

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 18 de outubro, 2016