Perambular por ai....

(Para o querido Petrônio Souto , que me inspirou a escrever essa crônica, pelas suas andanças na cidade, num domingo qualquer, para ir cortar o cabelo...)

O termo flâneur vem do francês e tem o significado de "vagabundo", "vadio", " preguiçoso", que por sua vez vem do verbo francês flâner, que significa "para passear".

Charles Baudelaire desenvolveu um significado para flâneur de "uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la".
Foi Walter Benjamin, baseando-se na poesia de Charles Baudelaire, que fez dessa figura um objeto de interesse acadêmicos no século 20, como um emblemático arquétipo da experiência moderna. Seguindo Benjamin, o flâneur tornou-se um símbolo importante para estudiosos, artistas e escritores.

Sempre gostei de andar a esmo. Flanar. Sem destino. Me perdendo e me achando. Contemplando ao meu redor. Fiz isso a vida toda. E contemplar. O dia, a noite, o céu e as estrelas, o mar e suas nuances de verde/azul/amarronzados, a natureza. Contemplar o vazio – o de fora e o meu próprio. Contemplar !

Quando criança, que podia andar sozinha na vizinhança. E lá ia eu observando os jambeiros da Rua das Coremas. Ou as mangueiras da Avenida Maximiano Figueiredo ou da Almirante Barroso, onde morei anos. Ou ainda os flamboyants da Av. Camilo de Holanda onde por alguns anos vivi também. Gostava de olhar com o rabo de olho pelas frestas dos portões, para adivinhar o que se passava ali naquela casa, naquele terraço ou naquele espaço estranho e sedutor do além muros.

Aos dez anos, já andava de ônibus sozinha para as aulas de solfejo em D. Luzia Simões e ballet no Teatro Santa Rosa. Quanta liberdade! Era o céu falado, tomar o ônibus e observar os passageiros, e ver as casas do alto. Quem subia e quem descia. E por falar em descer , descia correndo a ladeira do Teatro. E por baixo das sombras da Rua Nova, Direita, eu cantava amor febril e descobria a cidade. As ruelas, as lojas, seus habitantes, a atmosfera do Centro que gostava tanto de descobrir, mas aí já era adolescente. Uma moça!

Mais tarde vislumbrei outras delícias de andar por aí. Praças, esquinas mais escuras, beijos roubados no pátio da Igreja São Francisco à tarde, vazia e propícia ao namoro, o lanche simples, mas que tinha sabor de liberdade (escondida eu ia andar pela cidade), e ao Cinema. Ah! Para Cinema Paraíso nenhum dar conta. Só mesmo a peregrinação de João Batista e Brito (contada em texto na última publicação em suas Imagens Amadas), faz companhia à minha experiência nas matinês. Cinema de Arte. Escurinho. E todas as minhas últimas sessões..... Ainda hoje, faço disso um programa dos prazeres. Ir ao cinema sozinha.

E durante a vida, sempre gostei de ser uma flâneur, perambular pelos espaços e pela vida. Nas viagens, ainda mais. Terra Estrangeira! Povo estrangeiro! Língua estrangeira, tudo para me reportar às estórias outras, longínquas, que vi no cinema ou nos meus sonhos não ditos. Por vezes impublicáveis. Até hoje não entendo gente que só viaja com translado, que pega taxi todo o tempo. Há de se ter pernas, pra que te quero! E brincos! E não só fora do país perambulei. No Rio de Janeiro fui uma caminhante durante tantas vezes. Gostar de sair por entre as quadras de Copacabana e ouvir Dick Farney cantando baixinho no meu ouvido.

Eram tempos outros. A gente caminhava sozinha, de dia e à noite, sem se preocupar com roubo ou quaisquer outro tipo de violência. Somente os tarados de ponta de rua! Hoje, ninguém sai mais de casa. A pé então...Os jovens ficaram obesos, os adultos com dores nas articulações de dirigir carro, e os velhos? tristes. Eu mesma não ando mais a pé. Só na calçadinha, com um olho no horizonte e outro ao redor para me defender. E depois, a cidade esquentou, cresceu, e não tem mais onde se andar. Tudo é longe e inseguro. No Centro, a tristeza de constatar uma cidade em ruínas e nos bairros, nada a descobrir. Aqui no Bessa, bairro onde moro há décadas, todos os estabelecimentos perto da minha casa já foram assaltados. Só me resta andar pelo quarteirão, para lembrar da infância dos meus meninos e dos tempos em que minha alma estava sombria. Esse caminhar me tirava a angústia do peito. E eu sentia o frescor da manhã. Com os pés descalços, misteriosamente eu sentia o chão aos meus pés, e essa concretude me enlevava aos céus, literalmente, e novamente, espiava a entrada das casas da vizinhança. Paulo Barreto (Baleia) (do Gulliver), Naná Gomes (da rua da frente), Kay France (e sua academia), o riacho nada doce que hoje virou parque, e os bem te vis...vi todos! Pelas janelas entreabertas da alma, minha, dos outros, e da alma imoral, eu flanei!

Charles Baudelaire apresentou um memorável retrato do flâneur como o artista-poeta da metrópole moderna: “A multidão é seu universo, como o ar é o dos pássaros, como a água, o dos peixes. Sua paixão e profissão é desposar a multidão. Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa, e contudo, sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais que a linguagem não pode definir senão toscamente.” Le Figaro, 1863)

Flanar, um verbo que conjugo até hoje. Em qualquer lugar que eu vá, até mesmo na esquina, eu me abstraio. Invento. Contemplo. E como dizia o poeta, aproveito tiro proveito do ondulante, do fugidio e do infinito. E esse pra mim, é um estado de felicidade. Feliz sou!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 3 de outubro de 2017
 


Os Dias Não Eram Assim!

Assisti à série da Globo , Os Dias eram assim. Confesso que no início, não suportei as cenas de tortura e tantas maldades dos tempos de chumbo dos anos 70 no Brasil. Mas depois, fui me interessando mais pelas outras tramas e engolindo o soco no estômago. O título da série, uma frase de música de Ivan Lins, tem a força da memória, como se dissesse: olha! Vejam! Os dias eram assim. Todo cuidado é pouco para não repetir...

Mas, os meus dias não eram assim!

A década de 70 foi uma década decisiva na minha vida. Em 1971 fui para os States em intercâmbio e lá tive contato com um país onde a vida universitária era igual às dos filmes; os hippies povoavam as ruas, se fumava maconha abertamente, os estudantes usavam calça jeans rasgadas, e ouviam Hair e Crosby, Still, Nash e Young, e eu, ocasionalmente perambulava pela Columbus University. Mas era secundarista, e só por vezes me arvorava nos lugares underground, ou pelos gramados lindos e cheios dos resquícios da contracultura. Eu me interessava mais por isso. Era a revolução dos costumes que eu assistia incrédula com os meus olhos da província. A minha política!

Em 1973 casei de véu e grinalda, ouvindo Bridge Over Troubled Water. Sonhando em conhecer o mundo, a pintar o sete, literalmente, com as palhetas domésticas, e com o tão pouco conhecimento do que seria um casamento. Era jovem. Muito jovem. Sonhava com o amor romântico. Pobre menina! Nem sabia ainda que os dias não eram assim! E gostava da Jovem Guarda e por isso era taxada de alienada. Mas sentia as carnes trêmulas com Caminhando e Cantando em comunhão com o sentimento cala a boca de um País interditado, e ficava em estado de perplexidade com os Beatles, Tropicália – Alegria Alegria e a guitarra estridente dos Mutantes.Tudo que me importava era minha calça Lee rasgada e um desejo de mandar tudo pro inferno.

A política, para uma jovem de catorze anos (no ano que não começou), era uma ideia perto de casa, mas abstrata, representada pelos longos cabelos de Eduardo Jorge Martins, o uniforme do Lyceu em Washington Rocha, os nomes de Sérgio Tavares e Lela Melquíades, e mais ao longe de Monica Lúcia e Leda Rejane/Everardo Queiroz (elas hoje minhas amigas, e ele in memoriam!) e depois pelas pichações dos muros de Flávio Tavares.

Em 1975 fui à Londres pela primeira vez e aí o bicho pegou. Eu de longe cantarolava London London. O exílio de Caetano era também a minha melancolia pelo não vivido. Mas eu estava embriagada por Notting Hill e Portobelo Road, para pensar em política. Meus olhos se encandeavam com os espelhinhos das túnicas Indianas. E eu ouvia Ravi Shankar e George Harrison! Em 1977 ganhei o LP de Vitor Jara, e chorei a tortura no Chile que nos colocava em contato com o mundo ao nosso longe redor. Te recuerdo Amanda! Em 1978 – o mundo rodou. Roda viva roda pião, e em 1979 meu mundo caiu, assim, com notas trágicas de bolero, minha vida deu guinadas, e o abismo olhou pra mim. Não me importava com a política e só, e somente só, a transgressão me dizia respeito. Estava com raiva. Muita raiva, e sexo, drogas e vídeo clipes, permeavam o meu imaginário.

A década de 70 – me petrificou! E lembro de cada dia e hora que ficaram no meu corpo feito tatuagem!

Anos depois, com a campanha das Diretas retornei a prestar atenção à minha volta. E a quem dela participou. Conheci José Dirceu pelas fotos, e mais tarde pessoalmente, quando já tinha filho recém nascido, e o sono falava alto. Só queria dormir! Mas por cartas eu acompanhava o desejo pelas mudanças e o sonho que estaria por vir.

Assistindo à série, senti saudades dos saraus poéticos, das loucuras sexuais acontecendo; o sonho de um país mais igualitário, o amor, o amor, o amor, as músicas de Belchior e dos festivais que eu assistia de olhos bem arregalados e cantava todas as letras como se fossem minhas – Disparada, A Banda, Teorema e outras todas.

E em 1982, no Peru, assisti o filme Desaparecidos (Missing , de Costa Gravas). Saí do cinema sozinha e com medo. Muito medo. Um medo que inundava o passado e o meu presente silencioso e afastado das lutas de quem fez o movimento estudantil e político desses tempos. Saí com minha mochila para Cuzco, em busca da paz dos Incas, mas meu coração estava assombrado. Estava sozinha, fragilizada e longe de casa. Até hoje sinto arrepios quando lembro de mim na imensidão de Macho Picchu! Só o som da samponha me acalmava. Pouco, pouco a pouco me ha querido....eu cantava!

Enfim, não precisa você ter sido presa e torturada para saber o que era o Brasil dos anos 70. Mesmo outsider, sentíamos a atmosfera de censura e medo no ar. Tínhamos amigos envolvidos. A vida era sob suspeita. A série me trouxe lembranças vividas ou não, e chorei muito. Com Cauby Peixoto Chorei! A questão da Aids e o filme Filadelfia. Cazuza! As referências às perdas todas; físicas e subjetivas, que um dia todos tivemos. Chorei com saudades de Juca, que, de São Paulo, me escrevia sobre as mudanças, aberturas e de toda a sua alegria em participar do momento mais decisivo do país. Chorei!

E os meus dias? Nunca mais foram assim.!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 25 de Setembro 2017
 


Eu vi uma Pipa voando...

No tempo! Uma Pipa que não é papagaio. Uma Pipa praia. Que se desmanchou no céu das minhas lembranças do tempo. Lá longe. Por um fio de nylon dos anos. Dos anos que rodavam as praias desertas e precárias. Mas de beleza calma, tranquila e por onde meus olhos contemplavam o mar.

A primeira vez que fui à Praia da Pipa (RN), foi há quarenta anos atrás. A praia de pescadores só tinha uma igrejinha, algumas palhoças e uma natureza exuberante. Acampamos ao lado da Igreja, no meio da rua – imaginem! Bebé, minha irmã, estava grávida do seu filho mais velho Raphael, hoje um homem feito, como se diz. Aproveitamos esse passeio e esticamos por Tibau do Sul, pelos rios, manguezais, e caminhos estranhos e desertos. Fotos lindas que eu ainda tenho, por onde me vejo jovem, num retrato em branco e preto, exatamente como na música de Chico Buarque.

Depois, já em 1983, voltei num carnaval. Aí quem estava grávida era eu. De Lucas. Ficamos novamente numa tenda à beira mar, com churrasco de peixe o dia todo. Pipa não tinha loja, nem pousada, nem nada. Só os pescadores para vender o peixe. Mas já algumas casas do pessoal de Goianinha. Uma dessas famílias nos emprestaram o chuveiro do quintal, onde tomávamos banho. Passávamos o dia de biquine, e à tarde passavam os papangus e nós brincávamos o carnaval. Íamos a pé à Praia dos Golfinhos, e à Praia do Amor, pois nem tinha estrada, nem escadaria de acesso. Tínhamos a imensidão. A paisagem sem fim. O azul infinito. As conchas e o som das ondas. Tostávamos ao sol. O Chapadão era o lugar onde íamos ficar chapados. Eram os anos dos delírios! A paisagem, as cores contrastantes e o silêncio, eram propício às outras dimensões de toda e qualquer suspensão da realidade. Claro que eu, responsável com a gravidez, só ficava na água de côco! Lucas agradeceu!

Aquela praia cheia de pedras, terras vermelhas, e praias desertas era o paraíso. Aliás, como já falei em crônicas outras, tive o luxo de conhecer alguns desses paraísos na mesma época. Baía Formosa e Barra de Cunhaú e Canguaretama (RN), Canoa Quebrada (CE), Praia do Francês (Al) e Sagi (PB). Um litoral todo meu.

Em Baía Formosa, foram décadas indo e vindo nos feriadões, férias e carnavais. Atrás dos surfistas, das ervas, das doideiras de uma década, danças ao som de Coração Bobo de Alceu Valença, madrugadas e amores perdidos. Em Canoa: banho de cuia por alguns trocados e farofa de alho com camarão ao dendê! E haja perna pra subir duna! Também acampada num vendaval de areias vermelhas. Francês? Um azul e toda sua imensidão. Praia deserta e uma única barraca onde comíamos Peixe-Carapeba com cerveja toda a tarde. Café da manhã na barraca e lavávamos a louça areando as panelas no mar. Céu de estrelas! Todo nosso! Silêncio e escuridão. Tudo com segurança e somente com os medos da juventude e seus arroubos. Em Sagi comprei um terreno inexistente, uma casa de areia que se perdeu no vendaval. Em Canguaretama comi a melhor peixada da vida, feita com cheiro verde pelo caseiro do lugar que nos acolheu- nunca esqueci agradeço até hoje. Em Barra de Cunhaú , um rio a perder de vista. E Pipa – uma lembrança de uma vila querida.

Claro que continuei a ir à Pipa nos anos seguintes e por todo esse tempo. Com os filhos, irmãs, amigos. Aí já uma cidade charmosa, cheia de turistas, pousadas e lugares pitorescos. Lembro do tempo que só tinha a Pizza Brasil e os meninos (filhos e sobrinhos) apostavam aos pedaços. E meninos comem! As caminhadas! Os golfinhos a pularem na nossa frente! E o pão caseiro da pousada Berro do Jegue. Meus sobrinhos gringos chegavam do País de Gales e já queriam pinotar naquela imensidão de mar com água morninha. Aproveitamos tanto tanto. Tanto mar, sempre!

Semana passada voltei à Pipa. Já há dois anos que não ia. E fiquei muito surpresa com o charme que continua, ruinhas tortuosas e enladeiradas. Cantinho dos céus! A língua falada? Espanhol. Pipa foi invadida por Argentinos e Chilenos, e aos poucos percebemos hábitos outros também. As praias, antes desertas e paradisíacas, agora apinhadas de barracas e cadeiras pagas; sombrinhas pagas; garçons pagos; mas a paisagem? Ah! Essa ninguém tira.

E um lugar que bares/restaurantes tem nomes de Tranquilo, Lua Cheia e Aprecie, pode-se dizer que, ainda continua lindo.

Fiquei a apreciar. Com um copo na mão e o olhar a perder de vista. No tempo, inclusive. Feito uma tartaruga sem pressa e sem vontade de sair do lugar.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 11 de Setembro, 2017
 


O futuro

Nunca pensei muito nele. Muito menos fazer planos à distância. O tempo sempre me pareceu tão longe...que minha imaginação não alcançava. Vivi sempre o dia a dia. No máximo enxergando o final de semana próximo. O Natal próximo. Meu próximo aniversário.

Quando criança, o futuro era longe por demais. O tempo se fazia entre as aulas, as férias, os feriados, os dias santos, os domingos. Sim, o sábado. O sábado era importante. Um dia marcante na minha vida. Primeiro por problemas familiares. Depois, o dia de namorar. O dia de festar. O dia de beber. O dia de amar. Porque hoje é sábado já dizia o poeta.

Já moça, o futuro era o final de semana. O assustado, que ainda não era de Ruth Avelino. Os Jogos da Primavera. A festa de alguém. João Pessoa era província, então o futuro era o Cinema de Arte na quinta feira. A Lagoa no domingo. E por aí se ia...o veraneio em Formosa, no Poço. As chuvas do meio de ano. O sol escaldante do final de ano.

Mulher feita, meu futuro era o trabalho, as frustrações de não saber o que queria, o conciliar do sustento de cada dia. As relações amorosas. Os filhos, e de novo, férias, escola, tarefas. Como pagar as contas. A inflação. Os juros. Como poupar para fazer aquela reforma básica na casa. Como ir ao Rio de Janeiro passear em Copacabana? E Aquele vestido novo que vi numa loja? Como sonhar em viajar? Mas nunca fui um ser terrestre. Sempre etérea e com a cabeça na lua. Aquariana da gema, o meu cotidiano maior sempre foi pelas terras do sonho. Daí não conhecia as planilhas, o guardar, o antever. A procrastinação era minha palavra. Amanhã eu faço. Amanhã eu vejo. E de amanhã em amanhã eu fui. Vivi . Vivo! A vida, me conduz. Egoísta? Talvez. Mas sempre admirei quem sabia intervir no mundo. Trabalhar para dar dignidade às pessoas. Crescer. A minha mudança era interna. A minha cabeça é que girava. Tudo tão pequeno. Tão insignificante....mas também sabia que, nem todos tem esse talento da intervenção. Sou doméstica. O dentro é que é o meu lugar. O fora? O banho de mar....hoje mais. A imensidão do mar adentro.

Nunca consegui investir, juntar dinheiro. Não tinha para isso. O salário que ganhava era pro sustento, o pão na mesa, as contas, o dia a dia. E claro, um par de brincos toda vez que via um artesão com uma barraca no meio do caminho. Comprar livros? uma atividade tardia. Já a música, se aninhou primeiro e mais. Lps, CDs e afins.

Hoje, uma Senhora, fico ouvindo e vendo os amigos/as falando nos investimentos, em como acumular, em como se organizar para o futuro. Cuidaram-se Tiveram seus medos do futuro. Normal. Previsível. Fico me achando perdulária. Mas aí ouvi um amigo dizer – nunca trabalhei, fui um irresponsável, nunca pensei no futuro, e fiquei a pensar na minha trajetória frente ao tempo. O tempo de plantar e de colher. Ainda hoje não planto nada. Nem consigo ter esse planejamento de futuro. Sigo pagando as contas. E dormindo bem no travesseiro. As dívidas eram sempre para viajar ou reformar a cozinha para um pouco de conforto doméstico. Fico observando que nunca precisei de muito, e me contentava com coqueiro, praia e cerveja gelada com amigos. Sim, viajar? Como não sonhar? E mesmo sem planos, sem dinheiro e sem maiores estruturas, isso fez parte das minhas agendas e cadernetinhas. Viajar, viajar, e viajar. E sempre pulando no abismo. Com mochila, pouca prata, pouco mapa. E ia...como a música de Chico Buarque – Nina – “bebo alguma vodka e vou....”

Agora em que vivemos tempos sombrios, e que não confio em nenhuma mudança política pelo que vejo e acompanho, começo a ficar temerosa com o futuro do país. Os direitos trabalhistas ameaçados, nossas garantias, mesmo que parcas, não são mais nossos esteios, as reformas por virem, os abutres...E fico a pensar na vida na aposentadoria pouca, e na qualidade de vida que nem conseguia vislumbrar na juventude mas que, agora, com os anos e minhas horas de alegria de viver, chega com inseguranças e interrogações. Ah! O meu temperamento contemplativo e sonhador!

Um dia por vez, o dia de hoje, continuam sendo meus lemas, meu dia, e meu viver. Agora com mais tempo, esse luxo conquistado, continuo sem enxergar o futuro, embora ele assobie toda hora aos meus ouvidos. Avisto a primavera que se anuncia, o verão com o sol incandescente e os coqueiros arrepiados, e meus desejos, dos simples e prosaicos aos mais audaciosos, como perambular pelo mundo (ainda!), e tomara ter saúde e esses mapas imaginários e tabelas que não faço, para tomar uma vodka,e, como Nina, ir!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 28 de agosto de 2017
 


Os amigos passantes....

Outro dia escrevi sobre a amizade e os inúmeros tipos de amigos que construímos ao longo da vida. Agora, me pego a pensar sobre os amigos que passam, os efêmeros, que um dia conquistamos, convivemos, e os caminhos diversos, que nos distanciaram, e nos tornamos quase estranhos. Estranheza de vida essa que perdemos as pessoas de vista. O mais estranho de tudo é que, algumas dessas pessoas, mesmo que se percam de nós e nós delas, quando encontramos, parece que rua nenhuma andou. E que o tempo parou. Parou na amizade que um dia tivemos. Desconfio que nem é na amizade, que a amizade parou, mas num tempo. O tal tempo da duração, (do filósofo Bergson tão difícil de estudar!) que ficou ali, plasmado no instante que nenhuma máquina fotográfica ou selfie é capaz de captar. A luz da vida. Soberana. Pairando no ar das estrelas. Inalcançável!

Há alguns dias, perdemos Ronaldo Mendonça, médico ortopedista, companheiro da vida toda de Jacinta, pessoa mais que querida de todos que, num exemplo da efemeridade da vida, se despediu de todos assim, num instante, numa cena de aeroporto, onde o acaso trocou o destino da viagem.
Com a morte de Naldo, estou pensativa e filosofando sobre o tempo, as conquistas, e os silêncios. Tanta gente que um dia fomos mais próximas e depois nos perdemos. Não era amiga de Naldo. Mas o conheci lá na minha adolescência, nos namoros da Rua da Palmeira, amigo também de Zezito Soares e Roberto Lira. Por tabela Naldo virou meu amigo também. Anos mais tarde foi médico do meu filho Lucas, que tinha pés muito arqueados e Naldo o levou para um Congresso Nacional aqui em João Pessoa para consulta com o papa dos pés. E quantas vezes fui naquela Clínica na Beira Rio, com queixas e dores. Nos encontramos pela última vez na exposição do amigo dele de infância, Flávio Tavares, assim também como toda a Rua da Palmeira. Tanto que, nem consegui ver a exposição direito . Amigos que pouco vejo, que não frequento a casa, e que não sabem nada de mim. Ou pouco! Há poucos dias, também encontrei Jacinta no estacionamento do Mag Shopping, e trocamos figurinhas da vida. Jamais imaginaria que dali há pouco, Jacinta ficaria viúva, assim como eu. A vida segue, soberana, à nossa revelia.

Quando morre um amigo assim, ir ao velório, é uma questão de honra com o tempo! com a vida! Re-encontramos o vivido e o não vivido que, na nossa memória se fundem e pouco importa a verdade da vivência. A memória inventada também é verdade! Meu pai já dizia que adorava ir em velório, porque era a maior animação em rever as pessoas, e construir assim uma imagem da sua vida. Imagem essa que cada um constrói a sua.

Minha mãe, que está quase com 90 anos, vive a falar das pessoas que fizeram parte da sua vida e que ela não sabe por onde andam ; uma espécie de paisagem humana fora de foco, e todo dia ela lista, olha no infinito a procura de si mesma. E nem conto que muitas dessas pessoas já morreram! E deixo que a sua imaginação faça os cálculos e crie as histórias. Mas também fala daquelas longínquas, que um dia cruzaram sua vida, seu portão, seu trabalho, sua vizinhança, suas festas, seus parentescos. Já comecei esse re-contar das pessoas.

Pois fiquei a pensar naquela colega que não vejo há séculos; naquele vizinho que um dia espichei o olho para ele e sumiu no tempo; naquela vendedora de frutas que um dia fui freguesa; naquela ginecologista que ficava horas esperando pra ser atendida; nos inúmeros alunos/as que fizeram parte da minha sala de aula e onde, eu era que aprendia mais; nos namorados/amantes que um dia tive e por alguma razão sumiram na poeira do vento; das trabalhadoras domésticas da casa da minha mãe (pois as minhas foram tão poucas que ainda não esqueci!), que, povoavam a imaginação daquela sala ou terraço; das turmas de sair à noite, dos bares, das cachaças, literais ou não, que eram assíduas das sextas à noite e hoje nem vejo mais ninguém nas minhas minguadas noites de uma euforia ou outra, enfim....a vida é mesmo uma passagem. Passagem nossa e das pessoas que cruzamos ao longo dos anos. Não é à toa que Virginia Woolf escreve um ensaio sobre personagem – “Mr. Bennett e Mrs Brown”, ambientada num trem, onde constrói pessoas, momentos, descidas e subidas, tudo mesclado com a arte de criar ficção.
E não adianta ficar nostálgica com as perdas da convivência com esses amigos transeuntes. A vida é assim mesmo. Intangível, escorrega pelos dedos. Se esvai. Não temos controle algum. E se essas pessoas passaram, você também passou para elas e para tantos outros. Ladeira abaixo. Numa velocidade de trem bala. Irreversível! O tempo não para nem a vida espera. Por algum motivo, momento, você segue, o outro muda de direção, gosto, tempero, circunstâncias.

E de amigo em amigo, de presentes e de ausentes, a vida segue, vai nos levando como no samba de Zeca Pagodinho. E vamos vivê-la com os presentes. Com as lembranças , as saudades, e com esses personagens fugidios das nossas vidas que foram/são, os amigos passantes.

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 10 de agosto de 2017


 


Goretti Zenaide - Uma estrela brilha...

Agora estou numa sinuca. Triste sinuca. A sinuca de escrever de você Goretti. Sim, pois um dia você me apresentou a alguém dizendo da sua admiração pelo meu texto. Fiquei toda prosa! A sua alegria e entusiasmo eram tão verdadeiros! Que eu quase acreditava! Você não tinha porque levantar minha bola assim de graça. Era verdade e não foi uma, nem duas vezes que manifestou sua admiração pelos meus escritos. E lá atrás. Desde que comecei a botar as unhinhas de fora...., digo os escritos. E sempre que eu homenageava alguém nos textos,você também se manifestava. Agora é chegada a hora da sua partida, e me vejo com essa missão triste, mas que sinto como uma estrela, que lanço a você nesse firmamento infinito de mistérios e saudades.

Não era sua amiga próxima Goretti, mas nos últimos anos, acho que desde os anos 90 que ficamos perto. Fosse através da arte, da política ou das festas. E pelos cantos da vida, estávamos sempre a nos encontrar, trocar abraços, notícias e aí soubemos do bem que sentíamos uma pela outra. E a alegria dos encontros sempre era espontânea. E nesse últimos tempos, tenho aprendido muito sobre amizade. Por entre as lonjuras tem sempre os meios e tantos outros lugares!

Estou triste com a partida tão violenta e urgente dessa jornalista que é uma unanimidade na cidade. O que dizer ainda? Mas afeto e saudades são coisas inesgotáveis. Li tantos textos lindos de sua despedida! Kubitscheck Pinheiro, Walter Galvão, Martinho Moreira Franco, Albiege Fernandes, Gonzaga Rodrigues, Vitória Lima, Francisco Gil Messias e tantos colegas e amigos que falaram da amizade, do amor, da honestidade, altruísmo, da simplicidade, da solidariedade, da seriedade, enfim todos os adjetivos e características de personalidade que buscamos ao longo da vida e que Goretti tinha. Fiquei muito impressionada com a repercussão da sua despedida. Tantas msgs de carinho e admiração! Tu devias de ver! Não que você não fosse digna de tudo isso, mas a gente nunca sabe ao certo quem somos até essa viagem final. Em vida, somos tão banais e corriqueiros, não é? E nós humanos respeitamos tanto quem é modesto! A soberba nos irrita. E aqueles mais discretos são sempre tão admirados. E é uma característica inata. Ninguém aprende a ser modesto. A vaidade é de nascença. Você era aquietada Goretti. Sabia do seu tamanho e da sua força! E a simplicidade é a coisa mais difícil, mais sofisticada e mais rica desse mundo. E você era simples! E todos te admiravam por isso. A palavra ética, foi o que mais li na sua despedida. Em tempos tão sombrios e corruptos, acho que é um tesouro ser assim. E com a mesma simplicidade, você se foi. Corajosa, percebi. Pois ninguém enfrenta um diagnóstico desses impunemente. Foi um choque perdê-la assim, abrupta e sorrateiramente, numa luta des-igual para essa doença triste e capciosa que é o câncer, inda mais de pulmão. Silencioso e que dispensa os cigarros. Quando chega, já vem com sombras e perdas avassaladores. E dores. Muitas. Mas você teve os sopros dos anjos. De se ir dormindo. Justo. Demasiado justo, você se despedir sonhando.

Na sua despedida, fiquei a pensar. Seu corpo inerte , ficou na mesma sala que Juca, meu companheiro, também vitimado da mesma doença, e da mesma violenta partida. Re-vivi muito daqueles dias Há quatro anos atrás. E que ironia Goretti!, pois você sempre me abraçava quando nos encontrávamos pelas festas da vida, ou simplesmente nas galerias do Shopping Manaíra sextas à tarde. Sempre na companhia da sua amiga inseparável Roberta Aquino. Perguntava como eu estava, como que me perguntasse: “como é possível estar diante de uma tragédia dessas?”. Agora foi a sua tragédia Goretti. Sim! Não consigo ser tão espiritualizada para achar que Deus te chamou e que vamos nos encontrar. Sou terrena e cética por demais. Desculpa. Agora, você e Juca se encontraram nas cinzas. Muito para a minha pobre compreensão cética. Mas consigo olhar para as estrelas, sim. E rezo. E agradeço à vida.

Conheci-a já quando eras jornalista renomada. Admiradora das minhas crônicas , estavas sempre a publicá-las no seu espaço do Jornal. Depois, quando um suplemento dominical – Caderno de Mulher, fazia questão de me incluir. Dia Internacional da mulher era obrigação minha lhe entregar um texto. E eu ficava muito feliz de participar da sua coluna tão lida e prestigiada. A última vez, me ligou, e queria uma entrevista rápida para A União. Eu ainda pedi: “não dá para eu enviar depois? Pensar um tantinho?” E você: “Não! Quero agora, de sopapo, com todo o seu improviso.” Então tá! Não tinha um aniversário, livro, viagem, brinde, que você não estampasse meu rosto na sua coluna. E eu ficava a ouvir dos amigos que eu era socialite! A última foi na coluna pós sua partida, feita por Albiege Fernandes – sua amiga e chefe, que numa reverência póstumo, fez uma coluna com amigos, afetos, e sorrisos amorosos. A minha foto foi com Claude, minha irmã, em Buenos Aires, junto ao símbolo maior da cidade, a Floraris Generica, quem sabe lhe oferecendo simbolicamente essa flor gigante e reluzente, do tamanho da tristeza que ficamos todos desta cidade.

Suas festas? Fui à muitas! 1968 e qualquer outro ano era motivo. Fazia um reboliço! Como eras vizinha dos meus tios Celso e Carmen Peixoto, no Miramar, estava também sempre a te deixar convites, pautas, escritos, e agradecimentos na tua porta. Mas a última vez, já foi no Bessa, justo em frente ao Caribessa, quando os meus Brincos...e Tardes...foram te visitar.

Pensando no tempo e na sua talvez recuperação, inadvertidamente, ainda te enviei msg de solidariedade, suplicando uma visita, aflita com seu estado, mas também respeitando o momento de choque, incredulidade que deverias estar vivendo com os seus. Mal sabia eu que, não teria visita nenhuma. Conversa nenhuma. Abraço nenhum.

Mas, naquela sala tão triste, me despedi de você. Te agradeci por tudo. Te desejei boa viagem e que a vida e o amor cuide bem dos seus filhos crescidos e amorosos. E da sua neta que não poupavas fotos e fofuras. Sala cheia. Choros muitos. Tristezas. E comoção. De tantas coisas que você deixou. E o seu silêncio. Respeitamos, claro!

Que as estrelas te acolham!

Saudades!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 2 de agosto, 2017
 


Flavio Tavares & A Linha do Sonho

Conheci Flávio Tavares adolescente, e começamos a namorar quando eu tinha 15 anos, já no primeiro olhar, e nos casamos, eu com 19 e ele com 23. Duas crianças. Ficava encantada ao vê-lo pintar. Surgir as cores, formas, vida. Durante 10 anos, acompanhei essa experiência sensorial/gestual /orgânica de outra pessoa, mas que eu, ainda em formação da minha própria identidade intelectual, absorvia as coisas da imaginação, tinha espasmos de felicidade ao ver uma tela surgir, e sofria ao vê-lo criar, ou não criar, mergulhar no seu trabalho. Ele, muito jovem e com muitas inquietações sobre o desenho, a pintura, sua identidade, suas crises de criação, tão normais a quem vive nessa e dessa vertigem. Até hoje sou plugada nesse processo seja de qual arte for.

E nessa vida de artista plástico, tudo acontece na mente de quem se mistura às tintas. Flávio era inundado pelas musas, flores, ramas, pela história familiar (sua mãe, pai e irmãos, sua avó), pelas suas mulheres imaginárias/e/ou reais/, pela fauna e flora brasileira/nordestina, pela Literatura (tantos tantos nomes como José Lins, Augusto dos Anjos e Ariano Suassuna , só para citar alguns), e claro tinha também as sombras, o inferno, o sofrimento, o lado sombrio da vida, as amarguras, os demônios todos (e quem sabe os dele principalmente!), e violências tantas (até porque vivíamos os tempos de Ditadura na década de 70). Confesso que essas figuras “feias” e assombrosas me incomodavam. Ainda não tinha a percepção de sentir a magnitude da “feiura” como conceito estético. Muito mais me encantavam os azuis, os pássaros, as casas simbólicas, os espaços imaginários e vertiginosos. O tempo! Mas, somos feito da matéria ambígua e paradoxal, e temos a luz e sombra dentro de nós todos. Feliz do artista que consegue combinar esse percurso, dando vazão à sua imaginação e expurgando ou não seus demônios e seus anjos.

No último mês de maio, Flavio fez uma exposição monumental na Usina Cultural Energisa, cujo título foi – A linha do sonho, e teve como homenageado, seu querido amigo e tutor artístico, Hermano José. A exposição foi apresentada pelo Ministério da Cultura, e teve a curadoria do também artista plástico, Dyógenes Chaves. Com fotografias do seu fiel expert e fotógrafo que dispensa adjetivos, Antonio David, e texto primoroso de apresentação do artista Raul Córdula – “Pintar é congelar a labareda”.

Nesse trabalho ele experimenta uma nova forma de pintar. Tomando conhecimento e gosto pela caneta-pincel, cria um traço único ininterrupto. Como se a linha, o bico, o contorno não pudessem parar. A pressa da tecnologia o invade nesses desenhos de uma sentada só. Não, não é um conto (como dizia Cortazar!), é um ponto! Um ponto de onde tudo começa. E a partir desse lugar, pássaros, pavões emplumados, onças à espreita, touros Almodovarianos, peixes, serpentes, bichos de todos os monstros, suavidades plenas, mulheres douradas, em fundo branco, preto, e muitos vermelhos, e claro, as danças das sereias, e os mergulhos profundos – na água, no vento, no ar. Mergulhar nas profundezas do ser profundo de cada um. Flávio mergulha! Nas cavalgadas do fio da navalha. Fio único da mulher sozinha. Do des-equilíbrio. Dos limites tênues entre um lado e outro. Entre um pássaro e outro. Entre um mergulho e outro. Que êxtase! De quem admira e contempla!
O dia da exposição foi uma festa. Das artes plásticas. Mas não só. Lá estava uma cidade inteira. Profissionais das Artes, jornalistas, autoridades, socialites, Uma geração já meio nostálgica– da Rua da Palmeira (onde Flávio viveu a vida familiar com seus pais e irmãos), até os dias de hoje, quando jovens aprendizes o visitam em aulas vivenciais no seu ateliê-casa, no Altiplano. Sim! Amigos da vida toda também se cruzavam na noite. Gente do Liceu, dos cine-clubes, das Lourdinas, da minha adolescência também, dos cinemas, da Lagoa, enfim, um encontro com a memória de várias vidas de cada um e de todos nós. A festa de Flávio não é só na pintura, mas nas amizades, no afeto maior que une pessoas que se amam vida afora.

Hoje Flávio transita com maestria, unanimidade e muitas certezas do seu traço, seu gesto imperioso, por entre técnicas do óleo, desenho, guache, crayons, e mais recentemente com a tecnologia das cores cítricas e ininterruptas. Quando folheio seus livros/coletânea dos quadros, fico assustada como que pintou tanto ao longo das suas mais de seis décadas de vida. Uma vida na prancheta! Lambuzado dos vermelhos magenta e das terebentinas. Desde menino rascunhando, herdado do seu pai Dr. Arnaldo, o gosto pelo bico de pena, Flávio é uma imensidão de obras que se confundem com ele mesmo, com a cidade, e com cada um de nós que, acompanhamos seu trabalho há tantos tempos. Eu particularmente, sempre me emociono quando vejo seus traços e cores, e mesmo depois de tantos anos, e tantos caminhos cruzados, contemplo sua arte com uma intimidade que só poderia ter raízes no tempo e no amor.


E fico aqui com meus botões, a pensar nesses azuis, as cores mais quentes; nos vermelhos, fraternos e apaixonantes; e nos brancos e dourados – e em como suaves são as noites!


Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 31 de maio, 2017
 


Amigos: Tantos & Tão Poucos

Por esses dias foi dia do amigo. Muitas mensagens. Flores. Trocas de carinhos explícitos. Em tempos digitais e fazendo parte de alguns poucos grupos, claro que choveu rosinhas e beijinhos de afagos pela amizade.

Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, já dizia a canção/poema. E a neurolinguística se esforça para explicar a empatia que sentimos por alguém que queremos para amigo.

Quando criança fazemos alianças no colégio, na vizinhança, numa aula qualquer, na rua, etc. Lembro tanto das amigas de infância. Por vezes arengava com uma, fuxicava da outra, tinha inveja do corpo daquela lá, botava olho pidão para o cabelo da outra...(cabelo- o meu desejo de Dalila, sempre!). E claro, quando da infância, a gente vive grudada nas amigas. Parece que nem existimos sem elas. Mas tinha também os amigos. Aqueles que queríamos só para amigos (confidências, companhias, trocas com o masculino, interesses no amigo do amigo...), e tinha aquele amigo, que tínhamos outras intenções escusas...

Gracias à internet, recuperei as amigas de infância, as das Lourdinas, as do estrangeiro, as de tempos longínquos, as não tão amigas assim, enfim, uma vida passada pelo facebook! E até aqueles que nos surpreendemos e exclamamos: Como fui ser amigo dele/a?

Com o tempo passando, e mais ainda quando casamos, na nossa sociedade, as mulheres se afastam dos amigos e das amigas também. O marido, pretenso todo-poderoso substituinte de toda e qualquer forma de amor. Exclusividade. E a gente se sente única, rodeada dos amores, e nem sabe da armadilha que aquela exclusividade significa. Continua assim. Observo o mundo ao meu redor. Precisamos sim, de amigos todos para toda a nossa vida individual e particular seguir. Sem isso somos incompletos e logo logo o que era amor e paixão se transforma em posse, isolamento e vulnerabilidade.

Se por algum motivo as mulheres se separam dos maridos, a constatação de que se está só no mundo é grandiosa, se não tivermos mantido os amigos. E os amigos do casal, sempre tem que tomar partido. No meu caso particular, o partido nunca foi o meu. E me vi sozinha e sem identidade social. Difícil. Aos poucos cabe a nós nos jogarmos na vida. E construir novas amizades. Mas também tem aquelas pessoas que só existem em turma. O casal não tem assunto sozinhos. Tem que sair, viajar, comer, beber, amar com um punhado de gente por perto. Sempre fui avesso à turma. Gosto dos avulsos! Dos encontros extemporâneos. Mas também gosto dos convites. Do assédio com moderação....

Quando os anos passam, tão difícil fazer novos amigos! Dá preguiça de expor a vida, de ter curiosidade pelo novo, aceitar as limitações de ambas as partes, ter disponibilidade (todos já tem suas famílias, netos, prioridades, etc). Fazer amigos, e principalmente mantê-los, exige tempo e dedicação. E compaixão. Amigo para o papo; para trocar sabedorias ou futilidades; amigo para sair e tomar uns chopes; para ir à praia; para comer, viajar (ih! esse item é difícil!); amigo para frequentar a casa; para chamar tarde da noite quando se está angustiada; amigo para confidências – e não ouvir o que não se quer!, amigo para expor nossas fragilidades (esse é perigoso, a natureza humana é cruel!). E aqueles amigos que estão distantes no tempo e no espaço, mas quando encontramos, o abraço fraterno é sincero, cheio das saudades, e das alegrias com o encontro.

E numa cidade como João Pessoa, que já foi pequena, e continua provinciana, somos conhecidos de muita gente. Tenho uma amiga que mora fora do país que sempre diz: “Não gosto de conhecidos! Gosto dos amigos!”. Nas cidades mais cosmopolitas, amigos são raros e se tem o hábito de convidar para vir na casa – almoçar, jantar, conversar. Geralmente escuto das pessoas de outros Estados, que vem morar aqui que, é difícil fazer amizade em João Pessoa. E é! As pessoas são fechadas nos seus umbigos e familiares. Verdade.

Mas amigos, contamos nos dedos. Agora com o facebook e outras fontes de amizades virtuais, os amigos são muitos, mas não existem. Por vezes encontro na rua com alguém que estou sempre a curtir a comentar pelas redes, mas no fundo é um estranho. O que dizer pessoalmente? Não somos íntimos. Mas no face criamos a falsa impressão de que somos amigos. Que susto! Ainda estou tateando nessas novas emoções que nem música de Roberto Carlos entende.
E quando se fica viúva, o mergulho nas amizades tem que ser de um trampolim ainda mais alto. Resgatar amizades antigas. Abstrair-se das exigências. Maior aceitação com as pessoas que aparecem, convidam. E aí entra o amadurecimento. Sabemos melhor aproveitar o momento, o ser humano, e a circunstância. Ideal? Nunca teremos, mas vai-se navegando por mares nunca dantes navegado. A solidão. O tempo. As escolhas. A manutenção das amizades de infância, a abertura para outras, e a satisfação também de conferir a sua própria companhia de sempre. O saber estar sozinho. A convivência com seus fantasmas, sonhos, e o tempo todo nosso, para os devaneios inclusive.

Os amigos se transformam. Nós também. Por vezes vamos por estradas excludentes. Por outras nem tanto. Sim! Podemos ser amigos de alguém diferente, com vidas distantes. O afeto se sobrepõe à tanta coisa! Tem amigos que nem precisamos falar. Já conhece a nossa voz – o timbre, as falhas, a musicalidade. Já tem outros que são mais ácidos. Estão sempre com uma pitada de amargura. Respiramos fundo. Aqueles um poço de lealdade – agradecemos! E aqueles que nos surpreendem, esses nos fazem acreditar na amizade.

E tem aqueles amigos que, se transformaram em amantes. Sim, um belo dia olhamos aquele amigo e sentimos algo maior. E um calafrio escorre pelo corpo. Como pode? aquele de tanta intimidade de amigo, agora dar um beijo na boca? Sim, amigos tem dessas coisas. O limiar é tênue. E por vezes ultrapassamos a fronteira. É bom. É estranho. É humano. Demasiado. E com aquele amigo, temos um segredo. O segredo de que fomos além. O amor maior, tudo misturado. Difícil mantê-lo como amigo? Depende do amigo, da paixão bem resolvida, e de que forma vivenciamos esses abismos afetivos. Tudo vale à pena! E as almas? Se transformam. Pequenas, grandes, tudo tudinho. Salve os amigos apaixonantes!

Nesse dia do amigo, fiquei a pensar sobre amizade. Os amigos que fiz ao longo da vida. O que sou para os amigos – tão poucos! Mas queridos! E a me perguntar do meu talento para a amizade. Sim, é um talento aqueles que fazem amigos. Coisa rara! E cara!

Hoje eu brindo aos amigos. Daqui e de alhures! De ontem e de hoje! Os próximos e os que vejo tão pouco e queria mais. E aqueles que surgiram assim do nada, e já viraram amigos de infância. E aquele amigo especial, de tanto tanto tempo, mas que nunca tinha tido a chance de lhe dizer isso pessoalmente.

Tin Tin!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa 23 julho 2017
 


Buenos Aires, Mira!

Para Claude, minha irmã querida e companheira de viaje!!!

Foi sem querer, e quando vimos (minha irmã Claude e eu) estávamos no voo de inauguração da Gol – João Pessoa – Buenos Aires, abrindo assim um canal de comunicação do turismo entre as duas cidades. Palmas para o Governo do Estado e a PBTur, na pessoa exultante de Ruth Avelino. Pois lá fomos nós voar inaugurando os céus. E claro, um luxo! Para quem há décadas pega voos em Recife e Natal, e fica horas em conexão, voar para o extremo sul e voo direto, foi no mínimo uma experiência rápida.

Não gosto de Alfajors, nem de Parrilada, ou Choripan só comi de leve....,mas não foi por isso que demorei a conhecer Buenos Aires. A primeira vez foi somente há dois anos. E a gente nunca esquece. E fiquei com vontade de voltar. E na estreia, ficamos restritos aos pontos mais turísticos. Julho? Sim, certos passeios exigem um clima frio, para rimar com Malbec! Casacos! E o vento cortante na face. De calor já basta o nosso de cada dia.
Pois assim tivemos. Frio de 11 a 14 graus e dias absurdamente ensolarados, para depois mais alguns com chuva, mas guarda chuva existe para isso. Abri-los! E a moça exclamava: “Para Água! Mais barato que uma gripe!”

Desta vez nada de Caminito, nem Teatro Colon. Mas sempre um rabo de olho nas belas avenidas 9 de julho, Alvear, Libertador, Santa Fé.

Feira de San Telmo aos domingos – imperdível! Uma rua quase minha! Cheia de brechós, antiquários, artesania local, souvernirs, moda exclusiva, inclusiva, couros, alfajors, e claro, músicos de qualidade a tocar e dançar tango . Eu queria ficar parada ali o dia todo, só ouvindo Aranjuez Mon Amour, Recuerdos de la Alhambra (F. Tarrega), e comendo empanadas caseiras, apimentadas, e visitando lugares charmosos para um chope com essas iguarias. Perdi a Feira de Mataderos, que também só acontece aos domingos.

Ricoleta – melhor lugar para ficar. Bairro charmoso, e mais calmo diante do frenesi do Centro. Sem falar que salpicado de parques, lojas, comércio, cafés, restaurantes, e o Alvear Palace Hotel – a gente se transforma em princesa para um brunch das deusas. Pães, frios, espinafre a la creme! Iogurtes com Frutas do Bosco!! Tudo para comer gemendo. Vale a aventura. Mas se fores uma princesa modesta o Le Pain Cotidien também nos leva aos céus com seus produtos orgânicos.

Museu Malba – Arte da América Latina de Buenos Aires! muita alegria de ver ao vivo o Abaporu, de Tarsila do Amaral, e contemplar a tela que despertou o Movimento Antropofágico, como também obras dos brasileiros Helio Oiticica, Antonio Dias, Di Cavalcanti e Portinari. Sem falar nos mexicanos Frida, Rivera e Orozco. No restaurante /café do Museu vale o almoço! Entre as caminhadas pelos parques da cidade uma entrada rápida no Museu de Belas Artes, e apreciar as bailarinas de Degas e tantos outros pintores mais conhecidos, ou não. Pelo título, também fomos visitar a Manzana de las Luces, que só o nome poético me invadiu com ares de naftalina. Tantos biscuits, cristaleiras, vidros, potes e louças e bordados. Um equipamento de cultura, lazer e arte, perto da Casa Rosada.

Parques – O melhor para os dias frios ensolarados – Parque das Nações e verde que te quero verde! Ficar namorando a Floraris Generica, uma escultura gigante em forma de rosa, do arquiteto argentino Eduardo Catalana e símbolo de Buenos Aires. Uma obra imponente e que nos causa impacto. Toda a singeleza de uma rosa, com todo o seu simbolismo de paixão, fugacidade, perfeição está ali em prateado, reluzindo majestosamente, e que se abre de dia à luz do sol e se fecha pra dormir quando a noite cai, mais poético impossível! Reserve tempo, pois o melhor de todo parque é ouvir o silêncio e contemplar. Depois ainda tem a Praça Francia, o Rosedal e o Jardim Japonês, prepare os olhos, os sentidos, e as pernas. Caminhar é preciso!

Tangos – Buenos Aires respira tango! Seja nas feiras ou simplesmente aos nossos ouvidos, mas tem que se ir a um Tango em Buenos Aires. Da primeira vez fui ver o espetáculo do Café Tortoni. Turístico sim! Mas sem tantas plumas como os mais tradicionais. Mais despojado, mas nem por isso menos exuberante. Dessa vez fui conhecer um Centro de Cultura – Torquato Tasso (San Telmo), e ouvir Negro Falótico, com seu grupo de músicos extraordinário, incluindo uma japonesa e seu bandoneon. E cito sua nacionalidade porque nada mais exótico que essas duas nacionalidades. A leveza do oriente e aquele movimento de sangrar os sentidos que tem esse instrumento de Astor. Piazzola, meu querido! Quantas saudades! Claro que, ao ouvir aquela voz de veludo e toda a tragicidade que o gênero pede, tive o meu entrelaçado de pernas no juízo, pois como não lembrar de Carlos Saura e o seu Tango particular. Obrigada ao casal Elaine e Luiz, cariocas e moradores de João Pessoa, e habitués das terras portenhas, que gentilmente nos acompanharam à contradança.

Palermo Soho – Viva passear!. Praçinha Julio Cortázar, lojas lindas, avenida Borges Luis Borges, e um pouco de literatura nas sacolas. Mas a Calle Florida, ainda é uma aventura. A Galeria Pacífico (ares de Milão!), as lojas de departamento Fallabella, para alguns sonhos consumistas. Pero, não gosto de outlets nem tão pouco das correrias às compras, e quando temos pouco tempo, a prioridade é sempre a rua, o povo, os queridos anônimos (de Rodolfo Athayde).

Porto Madero – Averiguar a revitalização dessa área uma vez decadente, mas hoje uma avenida de restaurantes tantos; imponente , lá está a Puente de La Mujer. Pedi truta da Patagônica com legumes assados! No Cumaná, também fomos para provar o arroz de campo indicado por minha colega Danielle Almeida. Mas aí já é outra história!

A livraria El Ateneu repeti a visita. Não consigo ler em espanhol, coisas de quem já fala uma língua e tem bloqueio para outra. Mas só estar ali no meio de tanta beleza e livros já é um mergulho na arte da escrita. E por entre os 8 mil Cafés que existe na cidade o Tortoni não poderia faltar, para os famosos churros. E desse aroma inconfundível, voltei até tonta.

Outro passeio imperdível é passar o dia em Colonia Del Sacramento, na margem uruguaia do Rio da Prata. Muitos seguem viagem até Montevidéu. Mas nós fizemos bate e volta no Buquebus – Balsa. Lugar de traineirinhas e escunas, mas o que enche a vista de beleza é o centrinho histórico com um passeio à beira do rio murado, voltado par o poente, o Paseo San Gabriel. Pouco resta da arquitetura original portuguesa, mas o traçado e o calçamento e a Calle de lós Suspiros é de suspirar, literalmente. O Quadrado, ou a Plaza Mayor é de sentar a beira do caminho e ficar sentindo o perfume das laranjeiras em fruta. Nesse dia, o clima mudou para nublado e ventava. A atmosfera era de - O morro dos ventos uivantes, mas nem por isso menos encantador. Enchia a vista a vastidão daquele rio caudaloso e infinito, com suas árvores esquisitas e exóticas na beirada. Tinha até um farol gentil, para me lembrar de Virginia Woolf e de Praia Formosa. Pensei comigo mesma: estou no extremo sul do mundo!

Mas o roteiro melhor da viagem foram realmente os parques, as ruas, os cafés, e o espaço urbano ocupado e desfrutado com calma e segurança. Nós que hoje vivemos aprisionadas e sem poder dar um passo a pé, ficamos embevecidas de circular e de ver a cidade sendo compartilhada pelos seus moradores. Os idosos vivem! Festejam, vão a restaurantes, bares, sítios; bebem vinho, conversam, comem, visitam, e são desfrutes da própria existência. Percebo que aqui, os idosos vivem em casa, arrastando chinelos e sem vida própria. Sei que tem o fator econômico, o climático (calor demais), mas percebo a cultura da rua pujante em cada palmo que andamos em terras portenhas. Domingo à noite e as pessoas ocupando os bancos das praças e dos restaurantes. Eu própria, nessa hora da semana, já me recolho à minha insignificância da preguiça e já não gosto de sair. Fiquei pensativa a respeito.

Voltamos abastecidas de cultura, contemplação, vinhos, frio, doce de leite, e tangos. Da próxima vez, o Tigre não me escapa. Nem as Províncias. Nem as Milongas, que agora, escaparam propositadamente às minhas mãos.

Agradeço às amigas: Danielle Almeida, Elinês Albuquerque, Elaine e Luiz, Genilda Azeredo pelas dicas de viagem preciosas. Muchas Gracias!

Ana Adelaide Peixoto – 10 de julho, 2017
 


A Finitude & A Medicina Paliativa

A morte é um acontecimento existencial!
(Café Filosófico, de 25/06/2017)

Finitude! Essa é uma palavra que minha mãe tem usado muito nos últimos tempos. Com 89 anos, e se sentindo indisposta muitos dias, o médico do alto do seu poder maior, lhe disse: “A senhora não tem nada. É a finitude!” E ela, bem contrariada com esse diagnóstico devastador, desde então, não parou mais de falar desse mantra.

Venho em contato com a morte desde a despedida do meu pai há mais de duas décadas. De lá para cá, muitas perdas de tios, primos, amigos queridos. No caso do meu pai, lidei muito mal. Tinha 39 anos e a minha crise dos 40 se deu não pelas rugas ou idade, mas pelas perdas e danos. Entrei em pânico e não admitia o sofrimento do meu pai. Foi um calvário assisti-lo tão impotente. E minha fragilidade era tanta que, anos mais tarde, quando chegou a vez de Juca, meu amado companheiro, os familiares e amigos próximos, acharam que eu não resistiria à tamanha dor. Mas a vida é um poço de surpresas inusitadas. E o ser humano uma incógnita. E eu, virava pedra, virava molusco, sem nem conhecer direito a poesia de Frances Ponge. E enfrentei tudo e mais um pouco, com uma calma toda minha. Até eu, não me reconhecia naquele estado de/ e em choque. Já sabia daquele caminho irreversível da perda, e as circunstâncias, sem saída. Foquei no agora e no amor. Mas não foi algo consciente. Foi uma sobrevivência; um mar que transbordava em dor e silêncio.

Depois dessas duas experiências devastadoras de despedidas, passei a me interessar muito pelo tema da morte. Não por morbidez. Mas por interesse filosófico, se é que podemos chamar assim. Logo depois da morte do meu pai, a Revista Veja estampou uma matéria sobre Morte Digna, e fiquei muito triste de constatar o quão longe estávamos daquele direito. E pensei de como não temos profissionais para nos propiciar aquele direito e conforto que a matéria propunha.

Com Juca, como estava no hospital Sirio Libanes – SP, pude constatar essa trajetória de conforto hospitalar, médico, psicológico, enfim, tudo que alguém merece e deveria ter no seu momento de finitude; de limite, aceitação e resignação. Claro que, isso apazigua quem está doente, e seus familiares.
E foi lá, nesse hospital de excelência que tive contato com o nome Medicina Paliativa. Depois, através da Dra. Anelise Carvalho Pulschen, com quem troquei algumas conversas interessantes.

No último domingo (25/06) no programa Café Filosófico , TV Cultura, dando prosseguimento à série: "Finitude e o desejo da infinitude"!
a palestrante foi a geriatra, Doutora em Bioética pela Universidade do Porto, Claudia Burlá. Fui tomada de ternura e curiosidade sobre essa área da medicina tão fundamental e tão distante de nós.. Medicina Paliativa x Cuidados Paliativos. Tudo explicadinho. De como enfrentarmos doenças crônicas com os devidos cuidados de proteção ao doente para minimizar dores, fadigas, e tantas fontes de sofrimento. E quando não há mais nada a fazer, aí é que temos o que fazer, disse a médica. Ou seja, alivio para o enfermo, seja com morfina, remédios, e cuidados com uma rede interdisciplinar de profissionais da área da saúde, para estar perto, cuidar, e fazer da finitude e morte, um momento quieto, calmo, íntimo e transcendente.

A Dra. Cláudia falou de mortes abruptas (acidentes, infartos, etc); doenças de câncer (diagnósticos e sobrevidas); doenças degenerativas crônicas (Alzheimer e outras demências) e de como lidar com cada uma das situações. Porque, explicava ela, quando temos um foco só na doença, algo está errado. O doente deve ser o foco. E quando temos um doente com doenças crônicas e de longa duração, como no caso do Alzheimer, toda a família adoece junto. Daí a importância de acionar aqueles profissionais que sabem lidar com a falta de comunicação do doente, a chamada caduquices, as dores, as fadigas, e outros sintomas difíceis para minimizar o sofrimentos do doente e de quem cuida.

Lembrei muito do trabalho da minha amiga Marta Pessoa e o Site Mundo Prateado, que há tempos se dedica e pensar sobre a velhice assistida. E foi a partir da assistência à distância a um ente querido e brilhante em tudo que faz desde os tempos das Lourdinas que, Marta começou a questionar tudo e todos que de alguma forma estivessem ligados à velhice e suas circunstâncias de saúde ou não.

Na semana passada, tive o privilégio de assistir o curador desse Café Filosófico, Alexandre Kalache, estreando com o episódio “Finitude e a revolução da longevidade”. Kalache falou da velhice, e de como ele, mineiro, e de uma família enorme, conviveu a vida toda com os velhos da família e, de como essa convivência tinha sido determinante para sua vida e olhar, e lhe transformado em alguém mais compadecido e atento para o tema.

Hoje , com a expectativa de vida mais longeva de nós todos, cheguei numa fase de que eu e todos os amigos, lidamos de uma forma ou de outra com a finitude dos pais, ou familiares. Os assuntos em mesa de bar não fogem ao tema: mamãe fez isso, a cuidadora fez aquilo, como lidar com esse ponto ou aquele outro. Não sabemos nada. E tudo é des-encontro e sofrimento.

Precisamos urgentemente de: pessoas que acompanhem o velho ao cinema ou ao parque; pessoas que leiam poesia para os velhos (como no filme Em Seu Lugar); pessoas acompanhantes que contem histórias, que conversem, que façam massagem, etc e tal. Leio que nos países nórdicos, alunos de Universidade ganham descontos, bolsas para dividirem casas com os velhos solitários. Eles, os jovens, ganham generosidade e compaixão e os velhos companhia e juventude. Sim, só os familiares não dão conta de tantas demandas, paciência, tempo e abnegações para com os seus velhos. Conferir o filme Juventude – um belo, ácido e impactante retrato da velhice, para nos assustarmos ainda mais com o tema.

Penso também em outro filme igualmente belo e intrigante – A Partida (Yôjirô Takita, 2008), vencedor de melhor filme estrangeiro do Oscar 2009 – onde um jovem violoncelista desempregado e assustado, arruma um emprego numa funerária, para embalsamar e preparar o morto para sua despedida. No início, assustado com o corpo inerte e seus medos da morte, se apavora. Aos poucos, vai se familiarizando naquela tarefa de rituais e expertise, e mergulhando no ofício da Cerimônia do Adeus (Simone de Beauvoir), se encanta com os momentos transcendentes que se enleva e até se torna uma pessoa melhor.

E por entre finitudes, partidas, dores, despedidas, me interesso cada vez mais por essas novas abordagens da morte como parte da vida. Claro que, eu mesma já me encontro finita em tantas coisas... Um outro lado de tudo, Irreversível. Insuportável. Mas que, podemos sim, ter direito ao nosso luto apaziguado, como mostra as pesquisas dessa área Paliativa, que, quando temos esses direitos e carinhos médicos, a dor da despedida se transforma sim, em aceitação e apaziguamento. Acho que foi isso que tive, quando de Juca, e é isso que desejo para todos.

Ana Adelaide Peixoto – 26 de junho, 2017