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01/05/2018


Re-visitando Lisboa

 

Para além da curva da estrada

Talvez haja um poço, e talvez um castelo,

E talvez apenas a continuação da estrada.

Não sei nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da cura

Só olho para a estrada antes da curva,

Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.

(Alberto Caeiro)

 

“Viajar é regressar”, tomo emprestado o verso acho que de Garcia Lorca, que meu filho Daniel gostou, depois de passar um ano fora de casa,  para filosofar sobre partir e voltar!

Adoro viajar, mas todos exclamam e eu também: Como é bom voltar pra casa!

De uns anos pra cá, até antes da moda que hoje está, tinha vontade de conhecer um pouco mais de Portugal. Lisboa principalmente. Já tinha ido lá algumas vezes, mas sempre de passagem. A não ser pela primeira vez, que aterrissei no dia 25 de abril de 1975, justo no aniversário da Revolução dos Cravos. Éramos jovens e vínhamos de uma viagem longa. Ficamos presos na aeronave por três horas, enquanto os guardas se alinhavam no teto do aeroporto. E não entendíamos o que se passava. Depois, bagagens detidas por alguns dias; bancos fechados; e muita passeata na Av. da Liberdade. Meu turismo foi político! E pouco pude ver dos monumentos e aproveitar as delícias gastronômicas. Mas nunca esqueci da doçura do pastel de Belém, nem da beleza arquitetônica e dos azulejos da Alfama. Tanto Mar!

Desta vez, queria tempo. Tempo para contemplação, caminhadas, degustação, e ver e re-ver as belezas de Lisboa e alguns outros lugares de Portugal. Listei: Estoril, Caiscais, Sintra, Óbidos, Porto, Guimarães e Braga. Claro que um desejo ambicioso e , infelizmente Óbidos (que era o meu xodó) e Braga, ficaram para a próxima. Cansaço, agenda, e principalmente, queria sentir mais o Tejo e Lisboa.

Confesso que, antes de embarcar, bati pino. Ia sozinha, o que já fiz algumas vezes, mas hoje estou uma Senhora, e como tal, alguns medos já me invadem. Como seriam somente treze dias na terra de Cabral, achei que daria conta. E dei. Foi tudo muito fácil, seguro, prazeroso e aventureiro. Sim, ficar sozinha num hotel, jantar e brindar comigo mesma, traçar meus roteiros, descobrir coisas e me abrir para um mundo foi um êxtase saboreado à conta gotas. De aprendizado principalmente. Com vinho do Porto! O tal do abismo, que de tanto olhar, queremos pular. E eu pulei. Parece pouco? Sim, e é. Mas foi uma aventura divertida e de realizações dos meus desejos.

Nesse tempo português foi uma maratona de andanças;  subir e descer ladeiras; sentir-me literalmente nas nuvens – ah! Os tantos Miradores!; comer bolinhos de bacalhau recheados com queijo de cabra da Serra da Estrela, com vinho da Madeira na Rua do Comércio; Passear à beira do Tejo todas as horas e ouvir as gaivotas recitando os versos que quisesse; me deliciar no Mercado da Ribeira – comidas simples e sofisticadas dos Chefs renomados ou não – Alheiras! Esses bolinhos até então desconhecidos. E Hot Dog de polvo!! E ficar olhando as pessoas do mundo ao meu redor. Não fui aos monumentos que já conhecia, Jerônimos, Navegantes, Belém… Priorizei o desconhecido: os pastéis de nata  da Manteigaria; o Convento do Carmo; o Museu dos Azulejos – que espetáculo!. Andar de bonde 28 – o Mercado Gourmet do Campo D´Ourique, ou o Príncipe Real, com suas Tascas e ruas revitalizadas. Antes, um Bachalhau com purê de grão de bico, ou com natas, na Cervejaria Trindad. Não sou muito de doces doces, portanto fiquei a dever os Travesseiros da Piriquita, o Pudim de Abade de Priscos e Tocinho do Céu (esse último provei – muito açúcar para mim!).

A Casa de Fernando Pessoa e a Fundação Calouste Gulbenkian foram meu mergulho nas artes. Um dia de poesia, tapetes, jardins, palavras, histórias daqueles que fizeram o que hoje contemplamos. Na Praça Camões teve manifestação pra Marielle e Anderson, e ouvir as palavras de ordem com aquele sotaque lusitano foi um orgulho extravagante.

Fazia frio. O inverno se ia. Mas dias de sol tivemos o que, com o frio de 8 a 12 graus dava o tom. Fado dessa vez passou, mas me esbaldei com música de rua. O Rossio. O Arco do Triunfo e a Praça do Comércio não me cansava de olhar. O Tejo a banhar a praça, um vento gélido, o canto das gaivotas, os bondes amarelinhos, uma paisagem particular! O Chiado me acolhia (aquele homem estátua dourada ao som dos anos 80, continuava lá em frente ao Hotel Borges , minha morada por algumas vezes) e o Bairro Alto meu sonho de comes de bebes. Até no Avillez , grande chef português, tive a honra de ir. Minha amiga de infância, Chôla (Fátima Henriques) me fez companhia. E com sardinhas nas ladeiras íngremes e Ginja de Óbidos, brindei com Roberta Matias e Guga, gente Paraibana que fiz contato. Uma estrangeira, por vezes é mais aberta ao que normalmente se é quando acompanhados. Um feliz contato!

Faltou ir na Pensão do Amor, na Rua Alecrim, mas o Mirador Santa Luzia me deu o acorde do jazz, e os caminhos do Castelo de São Jorge (que já conhecia), assim como força nas pernas. Ladeira abaixo tudo é mais fácil, e a cada esquina um susto de azulejos e paisagem dos casarios aos meus pés.

A Livraria Bertrand era minha vizinha, e dei um mergulho com Fernando Pessoa e Maria Teresa Horta (Poesis). A Casa Vida Portuguesa – a gente não quer mais sair de lá. De sardinhas, de beleza, de preciosidades. Esta é uma loja e minha perdição. Cartões de Arte, pequenos objetos lindos, são uma prova da minha resistência.

Há essas alturas eu já me sentia em casa. Flanando pra lá e pra cá. Dona do nariz. Com meu caderninho de notas. De Lisboa ainda tinha muito a seguir.

Cascais, Estoril, Uma pedra no meio do mar, e o Cabo das Rocas (Um farol todo meu, que nem Virginia Woolf havia sonhado!) o mar revolto e selvagem me davam conta da minha insignificância. Dançava com o vento. Seguia pra Sintra e suas ruelas e seus Travesseiros. E as montanhas sinuosas, os castelos, palácios, ventos, verdes. Os meus olhos não cabiam na minha câmera tão simplória ou o meu celular com a memória já esgotada. Cores, florzinhas surgindo na terra molhada, a vista que não cabia no horizonte azulado. Lá dentro de mim eu cantarolava: Foi bonita a festa pá! A voz de Chico Buarque e a de Ruy Guerra sussurravam aos meus ouvidos perplexos. Voltei à Lisboa e findei nos telhados, nos gradeados, nas roupas estendidas nos varais, nos pois pois, naquele som de fado ao longe, ou na voz macia de Antonio Azambujo que, numa carrocinha de uma ladeira qualquer cantava somente pra mim. Agora ouço em casa para re-memorar de tudo um pouco.

A estátua de Fernando Pessoa era meu vizinho de quarto. E em vários tons de dias e noite, o fotografei, acariciei, para sentir mais de perto os versos dos rebanhos, das tabacarias, ou dos fingidores. A poesia dos ares portugueses em mim fincavam. Na bagagem trouxe.

No dia seguinte eu partiria para o Porto. De trem. Uma estação que não era para Lisboa!

Mas aí são outras histórias!

João Pessoa, 30 de abril, 2018

Ana Adelaide Peixoto

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