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08/01/2018


É verão! É azul!

Quando chega o verão é um desassossego por dentro do coração….(Dominguinhos)

(Para os amigos queridos, Zé Palhano e Vilani – aniversariantes da semana)

Confesso que estou outonal. Mas quem resiste ao verão? Estação da luz, do sol, e do calor. Lá pelos países de clima temperado as pessoas esperam essa estação batendo os queixos. A estação de abrir as janelas, comer comidas leves, ir ao parque, fazer top less (palavra antiga!), passear com as crianças, cachorros, piqueniques, pintar a casa, enfim, se lançar outdoors, depois de meses indoors, e mergulhados na introspecção e nos cachecóis .

Por aqui, mesmo sendo calor o ano inteiro, e onde não temos as estações outras, temos o frisson do verão sim. E nos abrimos aos sorrisos largos, à boa mesa, ao garfo, terraços, drinks, mergulhos nesse mar esmeralda, um luxo de se ter à porta. Eu tenho.

Já gostei muito do calor. Era jovem. E magra. Muito magra. Me enfiava num tubinho azul turquesa e balançava os brincos. Já que os cabelos eram parcos. Sentia-me quente. Em todo e qualquer sentido. O corpo?! Ah! O corpo, esguio, magrinho, num biquíni de laçinho, pele curtida, balanço e gingados de todas as bossas, vislumbrava um horizonte. Azul! Era a cor mais caliente! Suores, calores, arrepios, pegadas, beijos, malemolências, sexo queimado, tarado, molhado de todos os sais. Que delícia tudo. E a pele? Esturricando, o preço das mazelas dermatológicas de hoje. Mas, quem é que pensava em consequências? Tostar era preciso!

Hoje, mais aquietada pelo tempo, o corpo já pedindo medidas mais largas, mas os suores não se vão assim facilmente. A brisa nos excita. O mar nos revolta em ondas, de calores , é verdade, mas são calores de toda forma. E temos sim, que lidar com as formas todas: de calor e de bossas. Mergulhar no mar de águas transparentes de um sábado escaldante, pode e tem o poder transformador das dores e das faltas. Aninha-se nas águas. Reza-se às deusas. Aceita-se o estado morno, que se instala à nossa revelia.

Bem vindo Janeiro! Esse mês em que nasci. Aquariana que sou, adoro as águas. Banho, chuveiro, mangueira, ensopados, chuva e mar. Ondas Ondas Ondas! E cantarolo Tom Jobim e leio Virginia Woolf. The Waves!

Um drink? Sou da cerveja gelada, mas diante de um Gin Inglês (Bombay Saphere East- presente da minha irmã Teca para o Natal) aqui que me olha, implorando por um limão siciliano com tônica, não resisto. Refresco-me e busco o zumbido que o álcool nos dá. Que faz tudo ficar mais alerta e alumiado. É verão! Ora!

Não tenho um lado jardineiro pra plantar, nem um pintor pra pintar janelas. O meu jardim, já tem seu pé de tamarindo e pinhas e outras plantinhas. E as janelas? Ah! Essas são da alma. Estão pintadas do tempo. Mas, me balanço numa cadeira velha e trôpega, que me mostra as formigas que brincam de carregar folhinhas por entre os Bougainvilles fúcsias. Ô raça organizada são as formigas! Todas enfileiradas marchando à minha frente que, balançando meu Gin, me pego tropeçando nas pedras para não pisar em nenhuma dessas guerrilheiras. Meu senso de sustentabilidade aflora, mas só nesse caso. Nos outros, sou implacável. Xô bichos! Lembrei de Susana Amaral, cineasta. Uma vez li (acho que foi ela), que tomou gosto pelo seu oficio porque estava depressiva e foi passear e ficou a olhar as formigas, de tanto que olhou e gostou, quis filmá-las. Eu não chego a tanto, mas estou aqui a escrever sobre o verão.

Almoço favas verdes como salada. Que delícia! E o Gin da garrafa azul, linda , me olha. Penso no título da sua marca – Saphere East – e o meu tapete voador me transporta ao suor do deserto. Aquele do filme A passage to India (Adaptado do romance de E. M. Forster). Claro que lembro das pirâmides, dos desejo inconfessáveis, do calor, do mistério e da magia do homem de outra cultura e cor. Acobreados homens e seus camelos. Viagens não ditas. Aquelas que só o inconsciente nos permite não revelar…..

Pois volto aos mares. Os do Bessa. As caravelas lilases, as águas vivas ardentes, os sargaços (Wide Sargasso Sea!), maresias, esses cheiros todos da infância na Praia do Poço e todas as rebeldias escondidas. A beira mar sedutora que, à noite nos levava aos suspiros todos. Saudades!

Aqui, borbulhando com as bolhas do Gin. Aromas cítricos. Limão limonada limoeiro. E como esse verão escaldante grita, vou ali dar um mergulho e ver mesmo o que esse mar me diz….

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa , 06 de janeiro , 2018
 

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