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23/04/2019


…E as Mulheres são Mortas!

Por Ana Adelaide Peixoto.

…E as Mulheres são Mortas!

“Em todos esses séculos, as mulheres tem servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro do seu tamanho natural. “Virginia Woolf em Um Teto todo Seu.

 

A escritora inglesa foi profética! Talvez aí, já tenha sido um prognóstico para se pensar a imagem construída desse que se vê gigante e dono do reflexo alterado pelas suas presas.

 

Às vésperas da Páscoa, quatro mulheres foram mortas por seus maridos na Paraíba. Ricas, pobres, numa prova de que a violência independe de classe. Não é a ignorância que mata. Ou a pobreza. Tem algo de podre no reino da pergunta: Porque os homens matam as suas mulheres?

 

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou, que dentro da sua “concepção cristã”, a mulher deve ser submissa ao homem no casamento…. Logo ela, a ministra das frutas (goiaba, manga…) Obedecer? imperativo. Uma fala violenta que reitera o Feminicídio. Sim , uma palavra teve que ser criada para nomear o assassinato de uma mulher, perseguida, em função do seu sexo. E outras palavras foram surgindo nesse mar de sangue da violência simbólica ou não, como mansplaining, a interrupção masculina quando se assume a sua ignorância; ou gaslighting, para chama-la de louca e invalidar seus sentimentos. A língua Inglesa sai na frente.

 

Triste de ver a violência correndo léguas à frente das palavras e de suas denominações. Interromper, desqualificar, fazem parte de uma estrutura linguística de interdição. Campo minado. Estejamos sempre de olhos bem abertos. Farejando o perigo. O inimigo dorme ao lado! Esses que matam as suas mulheres.

 

Já a Senadora e porta voz do Governo, Joice Hasselmann faz um des-serviço ao país e às mulheres, quando entrevistada esta semana, desdenha do Feminismo, definindo-o como uma caricatura dramática e teatral de um pequeno grupo de mulheres. Isso porque teve violência doméstica em casa.

 

Mas é avessa à Lei Maria da Penha. E declarou bater nos filhos de chinela de cetim! Pasmem!

 

Fala-se que hoje a violência aumentou. Mas as mulheres sempre foram mortas! Mas é verdade que hoje as proporções são inimagináveis. A psicanalista Vera Iaconelli, em entrevista a Mario Sergio Conti (Diálogos), atribui esse aumento também à liberdade feminina dos dias de hoje, quando “Não é Não”!, acirrando a crise no Patriarcado.

 

Temos aí um link com a fala de Woolf. Os homens não aceitam o seu real tamanho nas suas crises identitárias e amorosas. Principalmente no estado de abandono e perda.

 

A mulher? Uma posse. Uma subalterna. Um bem. Um território. Uma ameaça. Uma visão insuportável do seu real tamanho? Ciúme doente? Falsa proteção? Ferem de morte a autoestima. Cerceiam a liberdade.

 

Um amor doente que vai podando qualquer tipo de manual de sobrevivência do perigo iminente a que estamos expostas.

 

“Cada mulher assassinada nos afeta, nos indigna e representa uma parte de nós, inseridas no contexto de opressão e violência doméstica, imposto pela cultura do machismo que demarca as relações de gênero e o controle sobre a vida das mulheres”. (A Secretaria da Mulher e da Diversidade Humana (SEMDH). Assino embaixo!

 

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 20 de abril,2019
Transcrito do Jornal A União

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