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04/04/2019


Cafarnaum – Sorria Zain!

O olhar penetrante de Zain contém aquilo que Labaki ambiciona transmitir com seu filme: uma urgência de viver e a fúria e melancolia de não poder fazê-lo com dignidade.(Site Omelete)

 

Sou eclética no gosto para cinema. Gosto de tudo. Claro que o gosto maior é pelo drama. Mas, também tenho predileção pelo gênero policial (tão abandonado pelos dias de hoje) com muita investigação e um bom serial killer, tipo O Silêncio dos Inocentes, que há alguns anos fui assistir com 7 meses de gravidez e sozinha. Todos temerosos que o menino Daniel nascesse no escurinho do cinema e prematuro. Qual nada! Saí em êxtase com o canibal!

Mas tem um tema que me dói o estômago e uma angústia imensurável me invade a alma. A infância maltratada, o sofrimento infantil, a miséria do ponto de vista das crianças, a perda da inocência. Alguns filmes me marcaram por esse sofrimento : As cinzas de Angela (Alan Parker, 2000) , sobre a fome na Irlanda contada pelo escritor Frank McCourt, da sua infância miserável pelas ruas cinzas e famintas de Dublin; Império do Sol (Spielberg, 1988), com um dos meus atores ingleses preferidos, o eterno Batman, Christian Bale, e os horrores de um menino perdido numa guerra que não era sua; Um Olhar no Paraiso (Peter Jackson, 2010), com Saoirse Ronan (de Desejo & Reparação). O silêncio. O assassinato. A violência astuciosa e extremada. Impotência e vida depois da morte, que me fez sair do cinema tão transtornada que tive que ligar para meus filhos para simplesmente ouvi-los. E chorar. Não é masoquismo não. Mas nem o sofrimento atroz me faz deixar um filme pela metade. E um último – Tartarugas podem voar (Bahman Ghobadi- 2004), que se passa em uma vila de curdos no Iraque, na fronteira entre o Irã e a Turquia e pouco antes do ataque americano contra o país, os moradores locais buscam desesperadamente uma antena parabólica, na intenção de ter notícias via satélite. E as crianças na sua inocência aplaudem o ataque americano. Uma tristeza só.

Pois esse foi o caso do filme Cafarnaum (Caos), indicação de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2019, Líbano/França – 2018, direção de Nadine Labaki (também de Caramelo)

Cafarnaum se passa na região central de Beirute, na periferia do que se pode chamar de cidade, por onde vemos uma miséria e uma violência da qual não conhecemos. A nossa miséria já sabemos como é. Não devíamos, mas a gente se acostuma. Mas aquela dos mundos em guerra, e dos refugiados, e da miséria extrema, nos dói o estômago , a cabeça, e nos faz chorar no cinema.

O sofrimento do homem é inaceitável. Mas o de uma criança? Ou de várias? É inominável. Vê-la se debatendo numa guerra que tão pouco entendo, nos dá ânsia. Insuportável mesmo ver Zain chorando, desarvorado, se defendendo , sujo e faminto, e órfão de pais igualmente violentados pela miséria. Quanta tristeza! Zain quer processar os pais por botá-lo no mundo! E que mundo? A sua mãe e o seu pai também se defendem e bradam que não aceitam julgamento. E no meio de cubículos, comidas de lixo, e trocas de favores (i)lícitos, a família numerosa vive esgoto abaixo. Sem lenço, sem moddess (para a irmã de Zain, Sahar, que acaba de ter sua primeira menstruação), e sem documentos, literalmente!.

Mas Zain tem um limite de suportar a dor. E esse limite explode ao ver Sahar, sua irmã e igualmente miserável, no topo dos seus 13 anos, ter o destino que lhe cabe. Ou seja, moeda de troca. Uma menina por um teto todo nosso! E na sua fuga raivosa e insalubre, Zain encontra uma refugiada Etíope, com um bebê. No caminho, um Homem-Barata, num parque de diversões. A plateia tem um minuto de respiro. Achamos que ali teríamos um escape; se daria uma dupla da sobrevivência. Mas aquela mãe também fugia e se multiplicava em rodos, véus, fome, cansaço, e entregas. E Zain e aquele bebê, por entre falta d´água, ausências todas, abandonos e desamparos extremados, zanzam pelos buracos das ruas, feito bichos incandescentes, a procura de leite, de farelo, do que fosse. Mas os becos da vida não sem saída. E a única janela sempre é aquela que lucra diante da miséria alheia.

 

Zain volta pra casa inutilmente. Só para descobrir mais tragédia, mais desgraça . Dessa vez, com a sua única rusga de humanidade – a sua irmã. Um grito, um facão para ferir o mundo. Se vingar da vida. E com o seu olhar tristíssimo, também acompanhamos sua luta, sua resiliência inconformada com a guerra, com a violência da natureza humana, com as fronteiras , e com o sonho de um dia conhecer a Suécia e a Liberdade.

Como se não bastasse o olhar de Zain para nos invadir de tristeza, temos também outro elemento narrativo que é a trilha sonora, de Kaled Mouzanar, bela e igualmente triste. E por entre as ruínas inconfessáveis do Líbano, Labaki faz sua denuncia. Como diretora e como a atriz/ advogada de Zain.

Temos que ver esses filmes. Apesar dos meus olhos rasos d´água, saí do cinema, me perguntando como que o mundo permite outros mundos se desintegrarem daquela forma? A guerra realmente continua a tratar o homem como verme. Como bicho. Que nem um sorriso final de Zain, para a identidade nunca dantes tida, faz a gente esquecer do quão miseráveis somos.

E meu corpo dói!

Ana Adelaide Peixoto
João Pessoa, 29 de março, 2019

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