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21/09/2018


Caetano Veloso, How Beautiful, Could a Being Be?

 

Para Silvio Osias, em nome de quem ofereço aos tantos amigos que amam Caetano

“É um show familiar, nascido da minha vontade de ser feliz” – Caetano Veloso

Sei que esse título que dou ao texto, foi um presente que Moreno Veloso , filho mais velho de Caetano com Dedé,  quando pequenino, deu para o pai musicar. Mas me aproprio das belas palavras de Moreno, para fazer aqui o meu Ofertório. Te ofereço a minha alegria e amor, Caetano querido.

Quando eu te conheci meu bem, não acreditei! Eu tinha lá meus 12 anos de idade e ouvi Alegria Alegria, com meus ralos cabelos ao vento, num veraneio na Praia Formosa. Aquela música, aquela guitarra, mexeu comigo até hoje. Canto e me arrepio, me arrepio e canto. Desse jeito.

Por isso, sábado passado, no Teatro Guararapes em Olinda, no show Ofertório, você e seus meninos lindos, Moreno, Zeca e Tom, quando  abriu o show cantando essa Alegria, realmente não aguentei. E me espantei de ver e sentir, como você e Chico Buarque, fizeram sim, a trilha sonora da minha vida. E não só. Uma energia entranhada nos meus enredos que nem sei onde gosto mais de um. E onde o outro gosta mais de mim. Devaneios e des-arranjos que alternaram nas minhas veias, meus amores, meus contentos.

Muitas amigas me olham torto quando digo que fui apaixonada por você quando jovem. Elas só acham você bonito agora, bem comportado e grisalho. Eu não, sou fiel. Gostava de você desde sempre; magro, cabelos longos, rosto franzino e franzido, sorriso largo, de sunga, de saia, de batom, de tudo. Sempre te achei  um tesão! Sim sou esquisita por vezes e até tenho meus gostos andróginos. Também.

Com Alegria Alegria você, Caetano, conquistou meu coração for ever. E depois vieram tantas músicas lindas: Sampa, Língua, Tigresa, Vera Gata, e todas as Transas! E a conquista foi como artista e como homem. Rebolando. E até quando fala coisas das quais discordo, te amo. Te dou o direito de se irritar. Meu coração vagabundo por ti vibra!

O último show que assisti seu foi no Domus Hall. Fazia apenas 20 dias que tinha perdido meu marido, Juca. Estava muito triste e chorei aos prantos com você cantando  Triste! Mas, mesmo na tristeza profunda,  recebi seu Abraçaço na minha imensa dor.

Senti tanto ciúme quando casou com Dedé! E quando veio Moreno? E Paulinha? Toda branquinha e você apaixonado! De matar de raiva. Não torço pela tristeza dos outros, mas confesso que senti uma pitada de felicidade com a separação dela, achando que eu teria chance. Qual nada! Você não dava para quem queria e achou de namorar foi muito! E por aqui, trinquei de ciúmes com você jantando em casa de amigos comuns. Fiquei literalmente chupando o dedo. Mas, vai, eu perdoo. Perdoei  tanto que tive um sonho erótico com você. Tão real! E você interessado! Quase não acordo!

Pois bem, no Ofertório, eu fiquei muda e rouca. Já tinha me emocionado com aquela fantástica entrevista que deu na Marie Claire, falando dos seus filhos homens; do amor às mães: a eles; da neta Rosa; como amo você e o seu amor. No show não foi diferente. Um show de afeto pelos seus meninos. Impecável. As músicas. E o cenário? Do saudoso Helio Eichbauer, com aquele sol multi cor, e as três pontas com nós que não se desatam. Sua generosidade em acompanhar os filhos, apresentá-los e aplaudi-los. Dava pra ver e sentir da minha cadeira na Letra M que você não cabia em tanto orgulho.

O título do show não poderia ser outro – Ofertório! Uma reza pra e de D. Canô, minha musa! Um cântico de oferendas ao público. Que enchendo aquele espaço gigante cantava Leãozinho junto com Moreno. Zeca, com o nome do seu pai, quando nasceu (da idade do meu filho), eu fiquei tão emocionada que queria trocar o nome do meu filho também. Quando cantou aquela música – Todo homem precisa de uma mãe…. me desaguei. Assisti  a série – Onde nascem os fortes, e todo dia me espantava, com a brutalidade do sertão e com a suavidade dessa canção. E imagine que, já ouvi gente agredi-lo dizendo: “aquela bichinha de voz igual ao pai!” Em tempos de coisa ruim, tudo se escuta. Quase perdi o prumo ao ouvir tamanha estupidez tosca. O mundo tá mesmo uma sombra de ignorância e intolerância.

Moreno? Um macumbeiro zen budista (como ele mesmo , suavemente se define), tem a sua irreverência, mas em câmara lenta. E é músico profissional há tempos. Trouxe mais referências para o seu trabalho, (não que precise), com mais experimentos como vi aqui no show Cê. E como ele dança igualzinho aos seus remelexos e trejeitos. O seu Leãozinho. Um mico dourado de tanto amor.

Tom? Ah! Esse falou alto ao que veio. Sem falar muito, mas dançou aquele funk (batidão, Alexandrino) e incendiou a plateia. Todos ao redor da fogueira, homenageando o pai. E nós cá do público , assistíamos essa festa. E aprendeu violão em Santo Amaro. Vivas para o professor homenageado, que não lembro do nome. Zeca e Tom com seus cabelos naturalmente encaracolados, e eu a chorar com a sua Força Estranha! Passou o filme, o tempo, saudades de mim. Mas aí você cantou Oração ao Tempo, e virei cachoeira! A música mais linda do seu repertório de sempre. Passado, presente, e a nossa vã filosofia: És um senhor tão bonito, quanto a cara do meu filho, Tempo Tempo Tempo! Vou te fazer um pedido! Sempre que estou triste, melancólica, cantarolo esse altar inteiro. Apazigua-me. E eu e o tempo, viramos um. Contínuo assim. Caetaneando.

E você, como bom apaixonado pelas suas mulheres, também as homenageou cantando para cada uma. Notei que não foram as mais conhecidas e apaixonadas. Se não me engano foram músicas mais sofridas, de quando da separação de Dedé e Paulinha (Não me arrependo), mas com aquela força e constatação a dizê-las: “O que vivemos, para sempre será. Guardará. Aqui está!”  E estava mesmo. Os três meninos dessas duas amantes da sua vida. Para sempre sempre. Só um homem homem, reconhece e enaltece essa presença. E quando cantou– A tua presença!!! Eu me virei pelo avesso.  Assim também como quando cantou Os Doces Bárbaros – “O teu amor, ame-o ou deixe-o ir onde quiser.” Era o final dos anos 70, 1978 mais especificamente, eu vivia meu tsunami  amoroso particular, e essa música, virou hino nas rodas de sangue , suor e cerveja. E como eu chorava quando ouvia esse hino à liberdade amorosa. Queria a liberdade sim, mas estava enredada num amor juvenil, sem saber o que fazer com aquela dor. E aquela separação. Uni-me à Dedé . E à Paula Lavigne.

Trem das Cores? Foi outro corte com fé cega e faca amolada. Estava na banda voou, e essa música também nos embriagava de alegria, cachaças tantas, Baía Formosa, e um horizonte infinito de cores, mas também estava bege com minhas telas em branco ainda a serem pintadas com a vida que me abria outras portas, ou vagões.

Reconvexo? Lembrei de Kubitcheck Pinheiro e seus rebolados loucos , nas festas de aniversário. Sim. Esse seu amigo paraibano que chega antes, se agonia antes, se apresenta antes, pra depois ficar tirando foto no backstage e me deixar com olho pidão de querer também uma foto, como aquela que minha irmã Teca roubou num show seu em London London, e ampliou, e emoldurou, e pregou de amor no hall da entrada da sua casa no País de Gales. Pois é você está lá. Emparedado! E eu aqui doida por um autógrafo e um retrato. Nem que seja em branco e preto.

Com ou sem foto, fui me embriagar em Olinda. Fui descer ladeira junto com Claude, minha irmã, ouvindo ainda o som da guitarra alegre, do prato reco reco, lembrando dos pés descalços dançantes de Tom, e dos falsetes lindos de Zeca, que não é Baleiro.

Caetano Veloso querido: sem palavras pra descrever meu êxtase em ouvi-lo com seu filhos lindos e talentosos. Quanto afeto! Quanto amor e reverência! Me senti parte do palco; das músicas; das vozes; e da memória desse tesão que te sinto e te amo! Depois? Só O-linda! Cerveja e alumbramento! Muito Obrigada Caetano, Moreno, Zeca e Tom!

Caetano Veloso – Como você é bonito de se ver!! Ilê Aiê!

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 18 de  Setembro, 2018

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