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06/08/2018


A menina que subia no telhado

Para Rose,

Quando eu era moleca, uma vez meu pai chegou em casa com a cara assustada. Naquele tempo não tínhamos a imediatez de hoje. Nem a sincronicidade dos fatos. Menos ainda imagens. Não tínhamos fotos. Qual o susto do meu pai? Soube que a sobrinha Rose, uma ruivinha da pesada, e cheia de sardas,  tinha desaparecido de casa, e pequenina que era, todos enlouqueceram. Qual a surpresa ? A linda pimentinha, estava escondida no telhado. Sem violino, para quem sabe para ver o mundo de cima. Outra perspectiva. Horizontes perdidos. Que com certeza, mulher feita, viu de perto, mundos e mundos. Correr é preciso. E Rose também corre. E toma vinho. E viaja. E se formou com os unguentos. E continua com os cabelos vermelhos. Uma graça atávica no temperamento. É sarcástica. Engraçada. Leve. Irônica. Tem savoir faire. E uma legião de amigos. E eu, sua prima, a quem chama de Aninha! E eu gosto.

Tudo isso, a natureza lhe deu, talvez para poder aguentar os baques que a vida lhe preparara. Aliás, quero crer que não. A vida não é assim maquiavélica. As circunstâncias é que, são  feitas de uma infinita nuvem de mistérios e silêncios eloquentes e indecifráveis. E sustos. Quantos sustos. E espantos. Para a poesia e também para as tragédias. Sim, somos suscetíveis às tais.

Pois bem, Manoel, seu filho mais velho, aquele primo belo, com rosto de príncipe, ou seria de Deus Grego?, corredor também, vaidoso, gentil, amoroso, um ser saltitante. Uma lebre? Talvez. Um felino solto em um deserto? Possível. Manoel também quis subir no telhado. Mas não somente aquele telhado da infância da sua mãe Rose. Um telhado mais alto. Mais perto do céu. Talvez. Só que, como a mãe pequenina, não se contentou com a vista do Grupamento de Engenharia (a casa da minha Tia Fatinha, e cenário do telhado). Manoel queria voar. Para mais perto do céu. Talvez, Manoel sonhasse em virar estrela. Dar o seu mergulho próprio, o seu voo libertário? Poético?  Concordando com o escritor americano Edgar Allan Poe: “ A morte é inquestionavelmente, o tópico mais poético do mundo”. Para então, esconder de todos as suas sombras sofridas, seus vazios, insatisfações, angustias, suas feridas existenciais e subjetivas? Seus confinamentos outros? E de outros tetos Manoel fez carreira. Esqueceu que um triatleta tem que nadar em terra firme. Ou em mares, talvez nunca navegados. Trocou as águas. Infinitas. Sonhou com as nuvens. As estrelas brilhantes. Distantes da opacidade da suas inquietações de jovem. Quem sabe? Perguntas? Temos muitas! Mais que respostas inúteis.

Hoje em dia, e acho que sempre, ser jovem dá trabalho. Sempre foi uma instância aborrecida e angustiada da vida adulta. Melhoramos com a idade? Alguns sim. Outros mais abismais se tornam.  Um sentimento de preencher os requisitos de todos; alcançar perfeições nem sempre possíveis; tão difícil ser mediano, ser medíocre, ser pobre, ser anônimo, ser frágil, limitado. Queremos todos brilhar. Natural. Mas, tem pessoas que são mais frágeis diante do imponderável. Das inadequações. Das dis-formidades.

O suicídio entre jovens vem assustando as estatísticas. O que estaria acontecendo? Os espelhos muitos. As urgências ? maiores. E as incompletudes? Todas! Difícil viver. Alguns tomam essa atitude extrema, quem sabe por uma ferida do abandono irrecuperável que Bachelard (o filósofo francês) chamou de definhamento melancólico, e que tantos artistas experimentaram: Virginia Woolf, Sylvia Plath, Ernest Hemingway, Ana Cristina César, só para citar alguns. Também lembrei do filme As jovens suicidas (Sofia Coppola 1999), sobre o suicídio coletivo das irmãs, por conta da opressão e confinamento imposto pelos pais. Nada parecido com Manoel, mas que nessas horas ficamos literalmente em brancas nuvens.

Filósofos como Sartre, Nietzsche, Schopenhauer, Kant,  não deram conta desse tema espinhoso. Alguns questionavam como fuga ou fracasso; outros como liberdade, ou até mesmo como parte da nossa natureza animal. E Freud também escreveu sobre os nossos males da civilização. Mas não há filosofia nem tão pouco psicologia que, ampare, explique, ou conforte o suicida e os seus familiares que, só contam com a incógnita e o sofrimento da perda, seja nos voos literais ou simbólicos.

“Não te enganes. A vida vai tratar-te mal. Portanto, se quiseres viver tua vida, vai, e toma-a”, tão bem disse outra filósofa/poeta, Lou Andreas Salomé. Se quiseres… Mas nem sempre temos esse domínio de tomar as rédeas das nossas vidas, assim, serenamente. Resilientemente. Suicídio? Não é coragem. Menos ainda covardia. Acredito ser um estágio que alguns contemplam  deliberadamente e/ou inconscientemente, nesse furor de forças ocultas, que nós, pobres saudáveis, jamais conseguiremos entender. E quer saber, até bom que fiquemos no indecifrável. Acho menos doído para quem fica. Imaginem se tivéssemos as respostas. O quão insuportável seria? A culpa? Resistiria para sempre.

Manoel querido, sei que o seu telhado foi em outra direção. Mas daí das estrelas, brilhe para iluminar o telhado da infância da sua mãe, Rose. Acalente-a. Acalme-a. E conforte-a. Se puderes, é claro. E tomara que tenhas recebido todo o amor e solidariedade que a sua missa te enviou. Uma multidão a cantar, a rezar, com ou sem fé, aos prantos ou nos silêncios, a só uma voz em uníssono. O amor para você.

Quem há de entender os desassossegos da alma humana? Só a poesia de Fernando Pessoa para minimizar os quebrantos.

Abraços de conforto para Rose, Pinguim, Mariana e Tadeu. E a todos os seus. Família imensa. Que, alegremente, faço parte. E solidariamente, choro junto.

“O resto é silêncio” (Hamlet, Shakespeare)

Ana Adelaide Peixoto – João Pessoa, 14 de julho,2018

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